Mulher de Fogo
— Nunca aprendi a nadar — disse…
— Nunca aprendi a nadar — disse ele, quando ela o ajudou a subir pelo lado do barco. — Só mexo as pernas para não afundar.
Lutaram para colocá-lo dentro do barco. Alan tossia, pingando água e fraco, depois do que, para ele, fora uma experiência angustiante. Blair olhou para a praia e viu Lee coberto de lama, e isso deu-lhe alguma satisfação. Agilmente, virou o barco e remou até o outro lado do lago, para o local onde o tinham alugado.
Ela acertou o aluguel do barco, enquanto Alan ficava de lado e espirrava. Conseguiu uma carruagem alugada para levá-los de volta para o hotel Imperial, onde ele estava hospedado.
Blair estava tão furiosa que mal olhou para Alan durante todo o caminho para o hotel. Como se atrevia Leander a tratá-la daquela forma em público ou mesmo na privacidade, pensou. Deixara-lhe perfeitamente claro que não queria nada com ele. No entanto, ele insistia em impor-se.
Seguiu Alan pelas escadas até seu quarto.
— Se alguma vez eu puser minhas mãos naquele homem, eu o matarei. Ele é a mais insuportável das criaturas. Pensar que poderia haver possibilidade de querer casar com alguém como ele, exatamente um perfeito exemplo de convencimento. Dê-me sua chave.
— O quê? Ah, está aqui. Blair, você acha que deve entrar em meu quarto comigo? Quero dizer, acha que fica bem?
Blair tomou a chave dele e abriu a porta.
— Pode imaginar viver com aquele homem? Ele é como um garoto muito mimado que tem de ter tudo a seu modo. Agora decidiu que me quer, provavelmente porque sou a primeira mulher que já disse não para ele, e por isso decidiu tornar minha vida miserável. — Parou e olhou para Alan, que pingava água no chão do quarto do hotel. — Por que está parado aí com essas roupas molhadas? Deve se despir.
— Blair, acho que você não devia estar aqui, e com certeza não pretendo me despir em sua frente.
Blair começou a dar acordo de si e percebeu onde estava.
— Você tem razão, claro. Suponho que estava muito zangada para pensar. Vejo você amanhã?
— Se eu não morrer antes de pneumonia — disse ele com um sorriso.
Ela sorriu de volta para ele, começou a sair, e então, num impulso, voltou e lançou os braços em sua volta e pressionou a boca na dele.
Ele abraçou-a com cuidado a princípio, como se não quisesse que ela se molhasse, mas como Blair imprimiu mais o corpo e demonstrou mais paixão, abraçou-a mais apertado, virando a cabeça ao ver-se completamente envolvido no beijo.
Blair afastou-se:
— Tenho de ir — disse meigamente, enquanto dirigia-se para a porta. — Vejo você amanhã.
Alan permaneceu parado por um tempo depois de Blair ter partido, não se preocupando em tirar as roupas molhadas.
— Você não disse não para ele, Blair — murmurou, e quando eu a beijo, você tem de ir. Mas ele pôde fazer você ficar a noite toda.
Na manhã de quinta-feira, Blair entrou correndo em casa, lágrimas descendo pelo rosto, e subiu voando para seu quarto. Teve de abrir caminho entre os inúmeros buquês de flores antes de chegar à cama. Afastando para o lado uma meia dúzia de caixas de chocolates, atirou-se na cama onde passou meia hora soluçando. Leander Westfield estava tornando sua vida impossível. Na véspera, novamente arruinara uma tarde agradável com Alan.
Tinham ido fazer um piquenique no campo, e Lee aparecera, disparando uma arma de seis tiros no ar para assustar os animais e tentara puxar Blair para cima de seu cavalo. Mas conseguira impedi-lo, fazendo o cavalo empinar, e afastando-se.
Alan ficara lá, olhando-os, sem condições de participar, uma vez que conhecia muito pouco sobre o temperamento de cavalos que não estivessem atrelados a uma carruagem. Na verdade, Blair tivera dificuldade em convencê-lo a cavalgarem em vez de alugarem uma carruagem, como ele preferia fazer.
Quando Blair se livrara de Lee e de seu cavalo que empinava, montou um dos que haviam alugado — o outro fugira ao ouvir os tiros da pistola de Lee — e tivera de passar alguns minutos convencendo Alan a montar atrás dela.
Ela passara grande parte de sua infância em cima de um cavalo, e precisara, naquele momento, de toda sua habilidade para fugir de Lee. Ao virar-se uma vez para olhá-lo, agarrado a ela como ameaçado de morte, Alan gritara de medo. Estavam se aproximando com muita rapidez de uma árvore, e o cavalo iria chocar-se contra ela se Lee não abrisse espaço para passarem.
Leander vira o perigo ao mesmo tempo e, num movimento rápido, desviara seu cavalo com tanta firmeza que o animal inesperadamente empinara, atirando-o na poeira. Graças à sua reação, Blair e Alan tinham podido passar a salvo.
Infelizmente, ou felizmente, segundo o ponto de vista de Blair, o cavalo de Lee continuara, procurando a proteção de seu estábulo.
Alan agarrava tanto Blair quanto a sela, enquanto ela mantinha um passo vigoroso de volta para a cidade.
— Você não vai dar-lhe uma carona? São quilômetros até a cidade.
— São só uns nove quilômetros — respondera por cima do ombro. — E, além do mais, ele já deve estar acostumado a andar.
Aquilo fora no dia anterior, e comparado com aquela quinta-feira fora uma felicidade. Naquela manhã, bem cedo, Gates começara a agredir Blair, porque finalmente ouvira falar sobre o que acontecera no lago e sobre como humilhara Lee na frente de todos.
Blair não quisera discutir com ele, declarando conclusivamente que iria com Lee no hospital pela manhã. Mentira, dizendo-lhe que ele queria conversar sobre medicina, pois na verdade esperava não encontrá-lo no hospital.
Gates insistira para que fosse com ele quando saíra para o trabalho, e quando deixou-a, esperou para vê-la entrar pela porta. Como uma prisioneira, pensou.
O interior do hospital lhe era familiar, e o cheiro do fenol, madeira molhada e sabão lhe significavam voltar para casa. Não havia ninguém por perto, de modo que Blair começara a vagar pelos corredores, a espiar dentro dos quartos, a olhar para os pacientes, desejando estar de volta à Pensilvânia e ao trabalho.
Fora no terceiro andar que ouvira alguma coisa que identificara de pronto: o som de alguém tentando respirar.
No mesmo instante tornara-se a dra. Chandler. Entrara correndo no quarto e vira a mulher idosa sufocada, começando a ficar azul. Sem perder um segundo, começara a pressionar o peito da mulher e depois a usar seus próprios pulmões para forçar o ar.
Não tinha aplicado duas respirações quando sentiu alguém afastá-la com violência. Leander empurrara-a com tanta rapidez que por pouco ela não caíra, e começara a limpar a garganta da mulher. Em minutos a paciente estava respirando livremente outra vez e ele a deixara aos cuidados de uma enfermeira.
— Você venha a meu escritório — disse a Blair, mal olhando para ela.
O que se seguira para Blair haviam sido vinte minutos de repreensão como nunca recebera antes em sua vida. Lee parecera pensar que ela estava tentando interferir em seu trabalho e que ela podia ter matado sua paciente.
Nada do que Blair lhe dissera fizera qualquer diferença para sua raiva. Grunhira ao afirmar que devia ter pedido ajuda, em vez de tratar de uma paciente da qual não sabia nada, que o tratamento dado poderia estar errado e causar mais prejuízo do que bem.
Blair reconhecera que ele estava certo e, mesmo enquanto ele falava, começara a chorar.
Leander abrandara-se, parara com a repreensão e pusera o braço em volta dela.
Blair afastara-se, gritando que o odiava e que nunca mais queria vê-lo. Descera correndo as escadas e escondera-se num vão de porta, quando ele passara procurando por ela. Quando o caminho ficou livre, deixou o hospital e tomou um bonde para casa, onde estava naquele momento, chorando e nunca mais querendo ver aquele homem horrível e monstruoso.
Às onze, fez o possível para controlar-se o suficiente para sair de casa e encontrar-se com Alan. Disse à sua mãe que ia encontrar Lee para jogarem tênis e Opal simplesmente concordou, sem dúvida acreditando na filha.
Opal estava sentada na varanda dos fundos, tentando aproveitar a tarde primaveril, sem se preocupar com suas filhas, o bordado nas mãos, quando levantou os olhos e viu Leander parado na porta.
— Oh, Lee, que agradável surpresa! Pensei que você e Blair tivessem ido jogar tênis. Esqueceu-se de alguma coisa?
— Importa-se que eu me sente e aproveite sua companhia por um momento?
— Claro que não. — Olhou para ele. Era raro o bonito rosto de Lee estar marcado por rugas, mas naquele instante parecia que ele estava profundamente aborrecido com alguma coisa. — Lee, há alguma coisa sobre a qual gostaria de conversar?
Leander levou um tempo para responder, enquanto tirava um charuto do bolso interno de seu paletó e dirigia-se a Opal, pedindo permissão para fumar.
— Ela saiu com um homem chamado Alan Hunter, o homem com quem diz que vai casar.
As mãos de Opal pararam de costurar.
— Meu Deus, mais outra complicação! É melhor que me conte tudo a respeito.
— Parece que ela aceitou a proposta de casamento desse homem na Pensilvânia, e ele devia ter vindo na segunda-feira para conhecê-la e ao senhor Gates.
— Mas na segunda, Blair já... E o anúncio de seu casamento foi feito. Portanto... — interrompeu-o Opal.
— Foi a meu pedido que nosso noivado foi anunciado. Tanto Houston quanto Blair queriam manter silêncio e esquecer o que aconteceu. Tenho quase vergonha de admitir que chantagiei Blair para que ficasse em Chandler e participasse da competição.
— Competição?
— Encontrei Hunter na estação de trens na segunda-feira e convenci-o a competir comigo pela mão de Blair. Tenho até o dia vinte para ganhá-la, porque no dia vinte ela vai decidir se quer casar comigo ou deixar a cidade com Hunter. — Virou-se para Opal: — Mas acho que estou perdendo, e não sei como ganhar. Nunca tive de cortejar uma mulher antes. Assim, não estou muito certo do que deve ser feito. Tentei flores, doces e me fazer de bobo na frente da cidade inteira, todas as coisas que pensei que as mulheres gostassem, mas nada parece estar fazendo efeito. No dia vinte ela vai partir com Hunter — repetiu ele, como se aquele fosse o mais trágico dos pensamentos e, com um suspiro, contou a Opal o que acontecera nos últimos dias, o incidente no lago, o problema com os cavalos e aquela manhã no hospital, quando fora, ele admitia, um pouco rude com Blair.
Opal ficou pensativa por um momento.
— Você a ama muito, não é? — disse com surpresa na voz.
Lee endireitou-se na cadeira.
— Não sei se é exatamente amor... — Olhou para Opal, parecendo então ter compreendido que estava lutando uma batalha perdida. — Bem, tudo certo, talvez esteja apaixonado por ela, tão apaixonado que nem me importaria de parecer o idiota da cidade, se pelo menos a conquistasse. — Rapidamente começou a se defender: — Mas não estou a fim de ir até ela com olhar apático e contar-lhe que fiz uma coisa indigna como apaixonar-me na primeira noite que passei com ela. Uma coisa é ter suas rosas atiradas de volta em seu rosto, mas não estou seguro de que gostaria de ter a mesma coisa feita com minhas declarações de amor eterno.
— Penso que você pode estar certo. Sabe como esse outro homem a está cortejando?
— É algo que na verdade me esqueci de perguntar.
— Ele deve ser o "amigo" que sempre lhe manda livros médicos. Blair lê um, e uma hora depois sai de casa, dizendo que vai encontrá-lo.
— Tenho um quarto cheio de livros médicos, mas não posso imaginar enviar um para uma mulher. Suponho que tenho de concordar com o senhor Gates quando se trata de medicina. Desejaria que ela desistisse dessa idéia absurda e se acomodasse e...
— E o quê? Fosse mais como Houston? Você tinha a perfeita dona de casa, no entanto apaixonou-se por outra pessoa. Já pensou que se Blair desistir de sua medicina ela não será Blair?
Houve silêncio entre eles durante alguns momentos.
— Nesta altura, estou querendo tentar qualquer coisa. A senhora acha que devo lhe mandar alguns textos médicos?
— Lee — disse Opal mansamente. — Por que você tornou-se um médico? Quando soube pela primeira vez que queria dedicar sua vida à medicina?
Ele sorriu.
— Quando tinha nove anos e mamãe estava doente. O velho doutor Brenner ficou com ela durante dois dias e ela viveu. Soube então que era isso que queria fazer.
Opal olhou para seu jardim por um momento.
— Quando minhas filhas tinham onze anos, levei-as à Pensil-vânia para visitar meu irmão médico, Henry, e sua esposa, Fio. Nem bem chegamos, Fio, Houston.e eu ficamos com uma febre. Não era séria, mas nos manteve na cama, e Blair foi deixada aos cuidados das empregadas. Meu irmão achou que ela parecia triste,, e convidou-a para ir nas rondas com ele.
Opal parou para sorrir.
— Só soube do que acontecia dias mais tarde, quando Henry estava tão excitado que não podia mais se conter. Parece que Blair desobedecera Henry quando ele lhe dissera para manter-se afastada dos pacientes que estava tratando. No primeiro dia, Blair ajudou o tio num nascimento difícil, complicado, mantendo a cabeça fria e nunca entrando em pânico, nem mesmo quando a mulher começou com uma hemorragia. No terceiro dia, ela o estava assistindo numa apendicectomia de emergência realizada numa mesa de cozinha. Henry disse que nunca vira alguém com tanto jeito para a medicina como Blair. Levei um tempo para me refazer do choque do pensamento de minha filha ser uma médica, mas, quando conversei com ela sobre isso, surgiu uma luz em seus olhos que eu nunca vira antes, e eu soube que se fosse mesmo possível iria ajudá-la a tornar-se uma médica.
Opal parou para suspirar e continuou:
— Eu não levara em conta o senhor Gates. Quando voltamos para Chandler, tudo o que Blair conseguia falar era sobre tornar-se uma médica. O senhor Gates disse que nenhuma moça sob sua proteção iria fazer qualquer coisa tão imprópria para damas. Fiquei quieta durante um ano, observando o espírito de Blair gradualmente tornar-se sufocado. Penso que o golpe final foi quando o senhor Gates proibiu a biblioteca de emprestar a Blair mais livros sobre assuntos de medicina. — Opal deu um leve riso. — Penso que aquela foi a única vez que enfrentei o senhor Gates. Henry e Fio não tinham filhos e pediram-me para deixar Blair ir morar com eles, prometendo que Henry assumiria a responsabilidade de que Blair recebesse a melhor educação que o dinheiro pudesse comprar para uma mulher. Não queria ver minha filha ir, mas sabia que era o único jeito. Se ficasse aqui, seu espírito se quebraria.
Virou-se para Lee, pensativa, antes de concluir:
— Portanto, você vê o quanto a medicina significa para Blair. Tem sido toda a sua vida desde que era uma menina e agora... — Parou de repente ao puxar um envelope de seu bolso. — Isto chegou antes de ontem, de Henry. Ele mandou para mim, pedin-do que fosse contando as novidades a Blair o mais gentilmente possível. A carta diz que, apesar de ela ter sido qualificada para fazer estágio no St. Joseph, apesar de ter ficado em primeiro lugar no teste de três dias de duração, o Comissário da cidade de Filadélfia tinha vetado sua colocação, porque, diz ele, é impróprio ter uma senhora trabalhando junto com os homens.
— Mas isto é... — explodiu Lee.
— Injusto? Não mais injusto do que você lhe pedir que desista da medicina e fique em casa para ver se a empregada passa suas camisas da maneira que você as quer.
Lee olhou para fora, para o jardim, fumando seu charuto, pensando.
— Talvez ela goste de visitar alguns casos comigo no campo. Nada muito difícil; só algumas consultas de rotina.
— Sim, acho que gostaria disso. — Pôs a mão no braço dele. — E, Lee, acho que verá uma Blair diferente da que tem visto até agora. Por ela ter a tendência a ser um tanto franca demais as pessoas algumas vezes não vêem o tamanho de seu coração. Se você continuar a fazer o senhor Hunter parecer um tolo na frente dela, ela nunca o perdoará, e muito menos começará a amá-lo. Deixe-a ver o Lee que esta cidade conhece, aquele que muitas vezes sai da cama às três da manhã para ouvir as queixas da senhora Lech-ner sobre suas dores misteriosas, e o homem que salvou as gêmeas da senhora Saunderson no último verão. E o homem que...
— Está certo — riu Lee. — Mostrarei a ela que na verdade sou um santo disfarçado. A senhora acha realmente que ela sabe alguma coisa de medicina?
Foi a vez de Opal rir.
— Já ouviu falar do doutor Henry Thomas Blair?
— O patologista? Claro! Algumas de suas melhorias na detecção de moléstias foram... — Parou. — Ele é o tio Henry?
Os olhos de Opal brilharam de satisfação.
— O próprio, e Henry diz que Blair é boa, muito boa. Dê-lhe uma chance. Não se arrependerá.
Capítulo X
O DIA DE BLAIR não ficou melhor com a partida de tênis com Alan. Durante seu tempo de escola, o tio enfatizara a importância do exercício. Dizia que um vigoroso exercício físico ajudaria a melhorar a capacidade de pensar e estudar. Por isso, Blair participara do time de regata, aprendera a jogar tênis com alguns dos outros estudantes e, quando podia, participava da ginástica, ciclismo e praticava um pouco de marcha.
Venceu Alan no tênis.
Alan parecia distraído ao dirigir-se para o lado da quadra. Durante o jogo todo olhara por sobre o ombro, com a expressão de quem espera alguém aparecer a qualquer momento.
Blair estava muito aborrecida quando o jogo terminou, por suspeitar que a preocupação de Alan com Lee evitara que jogasse bem.
— Alan, quase chego a pensar que está com medo dele. Até agora nós o vencemos todas as vezes.
— Você o venceu. Sou inútil neste interior. Agora, se pudéssemos nos encontrar numa cidade, talvez eu tivesse uma chance.
— Leander estudou no mundo todo. Tenho certeza de que tanto num salão de baile como num cavalo ele se sente em casa — disse ela, guardando sua raquete.
— Um homem da Renascença? — disse Alan com a voz alterada.
— Alan, parece que você está zangado — disse Blair, ao notar sua preocupação. — Sabe como me sinto a respeito desse homem...
— Sei? O que sei são os fatos: que você saiu com ele uma vez e terminaram passando a noite juntos e que, no entanto, quando a toco, parece ter um controle infinito.
— Eu não tenho de ouvir nada disso — replicou Blair, afastando-se.
Ele pegou-lhe o braço.
— Você preferiria que Westfield lhe dissesse isso? Você preferiria que ele estivesse aqui agora com suas pistolas de seis tiros e sua habilidade para pregar peças num jovem e simplório estudante de medicina?
Ela lançou-lhe um olhar frio, digno de sua irmã:
— Largue meu braço.
Ele imediatamente largou-o, e a raiva deixou-o.
— Blair, desculpe, não quis dizer isso. É que estou tão cansado de bancar o tolo. Estou cansado de ficar em meu quarto de hotel e de não ter permissão de conhecer seus pais. Sinto-me como se fosse o indesejável, mais do que Westfield.
Ela sentiu que dava razão a ele. A raiva de Alan era perfeitamente razoável. Colocou a mão em seu rosto:
— Eu queria partir com você naquele primeiro dia, mas você quis uma competição. Você concordou, e agora minha vida futura como médica está em jogo. Não posso partir de Chandler até o dia vinte. Mas tenho fé de que partirei com você.
Ele acompanhou-a até um quarteirão antes de sua casa e, quando se despediram, Blair sentiu a tensão de Alan. Ele estava preocupado e nada do que Blair lhe dissera parecia ter feito alguma diferença.
Em casa, Blair foi para seu quarto, contente que pelo menos por uma vez sua mãe não lhe dera a relação pormenorizada das flores e bombons que Leander mandara enquanto estivera fora. Em vez disso, Opal simplesmente a cumprimentara com satisfação e voltara para sua costura, enquanto ela quase teve de se arrastar para subir as escadas.
Estava resolvida a não passar a tarde chorando, como passara a manhã. Esticou-se na cama e tentou ler um capítulo sobre vítimas de queimaduras, em um livro que Alan lhe emprestara. Às três, Susan, a camareira, entrou com uma bandeja de comida.
— A senhora Gates disse que trouxesse isto para você e perguntasse se quer mais alguma coisa.
— Não — disse Blair, indiferente, empurrando a comida para fora de alcance.
Susan parou na porta, passando o avental pelo batente:
— Naturalmente você ouviu sobre o que aconteceu ontem.
— Ontem? — perguntou Blair, sem muito interesse. Pensava em como podia Alan pensar que estava interessada em Leander. Já não tinha deixado bem claro para todos os envolvidos que não queria nada com ele?
— Pensei que, talvez, como já estivesse dormindo quando a senhorita Houston voltou ontem à noite, e tendo saído tão cedo hoje de manhã, você podia não ter ouvido sobre o senhor Taggert e a tremenda confusão que fez na festa ao ar livre ontem. Ele carregou a senhorita Houston para fora, e então veio aqui e acredito que sua mãe quase se apaixonou por ele. O senhor Taggert disse que vai comprar-lhe um trem cor-de-rosa e...
Susan conseguira a atenção de Blair.
— Pare um minuto e conte-me tudo. — Encolheu as pernas na cama e começou a comer a comida na sua frente.
— Bem — disse Susan devagar, obviamente gostando de estar sendo centro de atenção. — Ontem, sua irmã compareceu à festa no jardim da senhorita Tia Mankin, a festa para a qual você foi convidada mas não quis ir. Perto dela estava esse homem divino, e a princípio ninguém o reconheceu. É claro que tudo me foi contado, porque, obviamente eu não estava lá, mas tive de vê-lo mais tarde, e tudo o que disseram era mais do que verdade. Nunca pensei que aquele enorme homem sujo pudesse ficar tão bonito. De qualquer forma, ele chegou na festa e todas as mulheres o rodearam, e então ele foi levar comida para a senhorita Houston e derrubou-a no colo dela. Ninguém disse palavra durante um minuto, mas alguém começou a rir, e o que se viu a seguir foi o senhor Taggert carregando a senhorita Houston e levando-a para fora do jardim e colocando-a naquela bonita carruagem que ele lhe comprou. Blair estava com a boca cheia de sanduíche e tentou engoli-lo com leite.
— E Houston não disse nada? Não posso imaginá-la permitindo que um homem faça isso em público. — Blair, na verdade, não conseguia imaginar sua irmã permitindo aquilo nem na intimidade.
— Nunca vi nada parecido acontecer com o doutor Leander, mas a senhorita Houston não só permitiu, como trouxe-o aqui e pediu à sua mãe que o distraísse na sala de visitas.
— Minha mãe? Mas ela chora cada vez que ouve o nome de Taggert.
— Não depois de ontem. Não sei o que há nele que ela gosta, além de sua aparência, porque o homem me assusta de morte, mas ela quase se apaixonou por ele. Ajudei a senhorita Houston a mudar de roupa, e, quando descemos, sua mãe estava lhe pedindo que a chamasse de Opal, e ele estava lhe perguntando de que cor queria o trem que iria comprar-lhe.
Susan retirou a bandeja vazia da cama.
— Mas alguma coisa horrível deve ter acontecido depois que a senhorita Houston saiu com o homem, porque voltou tarde da noite em lágrimas. Ela tentou esconder de mim quando a ajudei a se despir, mas pude ver que estava chorando. E hoje ela não comeu e permaneceu no quarto o dia todo. — Susan deu a Blair um olhar sorrateiro ao parar na soleira da porta. — Assim como você, esta casa hoje não está nada feliz — disse antes de sair do quarto.
Imediatamente, Blair saiu de seu quarto e foi para o da irmã. Houston estava deitada na cama, os olhos vermelhos e inchados, parecendo o retrato da desgraça. O primeiro pensamento que teve foi que a infelicidade de sua irmã era sua culpa. Se não tivesse voltado para Chandler, Houston ainda estaria noiva de Leander e não teria de considerar o casamento com um homem que deixava cair comida sobre ela e a maltratava em público.
Blair tentou conversar com Houston, dizendo-lhe que, se deixasse claro que ainda queria Lee, ela com certeza poderia tê-lo, e não teria de sacrificar-se com Taggert. Mas quanto mais Blair falava, mais Houston se fechava. Não dizia nada, exceto que Lean-der não mais a amava, e que ele queria Blair de uma forma como nunca a quisera.
Blair queria dizer à irmã que, se ela esperasse até o dia vinte, poderia ter Lee. Queria contar sobre o esquema chantagista, e sobre Alan e o quanto ela o amava, mas tinha receio de que isso fizesse com que Houston se sentisse pior, percebendo que ela seria um prêmio de consolação. Tudo o que Houston parecia capaz de dizer era que Lee a tinha rejeitado, que ele queria Blair e que Taggert a estava fazendo infeliz, apesar de não contar a Blair exatamente por quê.
E quanto mais Houston falava, pior Blair se sentia. Em primeiro lugar saíra com Leander para saber se ele seria bom para sua irmã, preocupada pelo fato de ela não se importar com a zanga dele. Mas Houston estava com um tipo de homem totalmente diferente e passava o dia inteiro sofrendo. Se ao menos não tivesse interferido!
Houston estava ao lado de sua cama, tentando parar o mar de lágrimas que lhe descia pelas faces.
— Você pode pensar que falhou com Leander, mas não é verdade. E não tem de punir-se com esse imbecil arrogante. Ele nem ao menos consegue segurar um prato de comida, muito menos...
Blair parou, porque Houston deu-lhe um tapa no rosto.
— Ele é o homem com quem vou me casar — disse Houston com raiva na voz. — Não deixarei você ou qualquer outra pessoa denegri-lo.
Com a mão no rosto, os olhos de Blair começaram a encher-se de lágrimas.
— O que eu fiz está se interpondo entre nós — murmurou. — Nenhum homem, em nenhum lugar, significa mais do que irmãs — disse antes de deixar o quarto.
O resto do dia foi ainda pior para Blair. Se tinha algumas dúvidas quanto ao motivo de Houston se casar com Taggert, elas foram postas de lado antes do jantar, quando uma dúzia de anéis foram entregues da parte daquele homem. Houston lançou um olhar neles e seu rosto iluminou-se como um lampião. Alegremente deixou a sala, e Blair ficou imaginando se uma carruagem e treze anéis seriam suficientes para compensar o ter de viver com um homem como Taggert. Pela expressão no rosto de Houston parecia que ela pensava que sim.
Chegou a hora do jantar, e a animação de Houston fazia Blair sentir-se mal, mas sabia da inutilidade de tentar conversar com a irmã sobre qualquer coisa.
Quando o telefone tocou durante o jantar, Gates disse à empregada que dissesse a quem quer que fosse que ninguém iria falar naquela coisa moderna.
— Pensam que têm o direito de fazer com que conversemos com eles só porque podem fazer a coisa tocar — resmungou ele.
Susan voltou para a sala e seus olhos procuraram Blair.
— A pessoa disse que é muito importante. Devo dizer que é a senhorita Hunter.
— Hunter — disse Blair, com a sopa a meio caminho da boca. — É melhor que eu atenda. — Sem pedir permissão ao sr. Gates, foi quase correndo até o telefone.
— Não conheço nenhum Hunter — estava dizendo Gates, quando ela saiu.
— Claro que conhece — disse Opal mansamente. — Eles mudaram-se para cá, de Seattle, no. ano passado. Você conheceu-os na casa dos Lechness no último verão.
— Talvez, sim. Parece que me lembro. Olhe, Houston, sirva-se desta carne. Você precisa engordar.
— Alô — disse Blair com cautela.
Em vez da voz de Alan, como esperava, ouviu a de Leander.
— Blair, por favor não desligue. Tenho um convite para lhe fazer.
— E o que planeja fazer com Alan desta vez? Já usou armas, cavalos, quase o afogou. Sabia que jogamos tênis hoje? Você poderia ter atirado bolas nele ou atingi-lo com a raquete.
— Sei que minha conduta não tem sido a melhor, mas gostaria de me redimir com você. Durante todo o dia de amanhã estarei de plantão para atender qualquer emergência que surja, e tenho vários pacientes no campo, que preciso ir ver. Pensei que poderia gostar de ir comigo.
Blair ficou sem fala por um minuto. Passar o dia todo fazendo aquilo para o que fora treinada? Não ter de ficar por aí, indo de um passatempo para outro, mas aprender alguma coisa?
— Blair, você está aí?
— Sim, claro.
— Se não quiser, eu compreenderei. Será um longo dia e estou certo que estará exausta quando terminar. Portanto...
— Pegue-me quando precisar. Estarei pronta ao raiar do dia, e amanhã veremos quem desiste primeiro.
Desligou o telefone e voltou para a mesa. No dia seguinte ela seria uma médica. Pela primeira vez em dias não sentiu o peso da carga de responsabilidade por magoar a irmã.
Nina Westfield ouviu a batida na porta durante minutos, antes que alguém fosse atender.
Uma empregada, com o rosto branco e as mãos tremendo, entrou na sala de visitas:
— Senhorita, há um homem lá, diz que é o senhor Alan Hunter, e falou que veio para matar o doutor Leander.
— Meu Deus! Ele parece perigoso?
— Ele só está parado lá, e está calmo, mas seus olhos são selvagens e... ele é muito bonito. Pensei que talvez a senhorita pudesse conversar com ele. Não me parece que seja do tipo matador.
Nina pôs o livro de lado.
— Faça-o entrar, e chame o senhor Thompson, aí no vizinho, para que venha, e mande alguém buscar meu pai. Mande então alguém manter Lee no hospital. Que inventem uma doença se for preciso, só para mantê-lo afastado de casa.
Obedientemente a empregada saiu, e num instante acompanhou Alan Hunter até a sala.
Nina não achou que ele se parecesse com um assassino, e estendeu-lhe a mão com amizade, ignorando as palavras sufocadas da empregada quando fechou a porta da sala. Quando o sr. Thompson surgiu minutos mais tarde, Nina mandou-o de volta, dizendo que tudo tinha sido um engano, e quando o pai chegou apresentou Alan, e os três sentaram-se e conversaram até tarde.
Infelizmente, ninguém pensara em Leander, que ficara tentando ajudar o homem que fora mordomo de sua família durante dezesseis anos. O paciente retorcia-se com dores que ninguém conseguia localizar, apesar de Lee continuar tentando. Cada vez que Lee saía do quarto, o mordomo ligava para a casa dos Westfield, de onde lhe diziam que o homem perigoso ainda estava lá. Ele assim voltava para a cama e apresentava um novo sintoma.
Fora por isso que Leander só tivera quatro horas de sono antes da primeira chamada de emergência. Sendo quatro e trinta da manhã, hesitara em acordar toda a família Chandler e preferira subir a árvore para entrar no quarto de Blair.
Capítulo XI
HAVIA SOMENTE a luz tênue e cinza-azulada do amanhecer, quando Lee subiu a árvore e atravessou o telhado da varanda do quarto de Blair. Sentia-se como um escolar perto de ser apanhado numa brincadeira. Ali estava ele, vinte e sete anos de idade, um médico. Passara anos na Europa, visitara alguns dos maiores salões, mas naquele momento estava subindo uma árvore e entrando sorrateiramente num quarto de menina, como se fosse um garoto travesso.
Mas, quando entrou no quarto e viu Blair delineada pelo lençol fino, esqueceu todas as inibições. Os últimos dias tinham sido miseráveis. Ele a encontrara e sabia que a queria como à sua própria alma, mas podia vê-la escapando. Alguma coisa nela deixava-o desajeitado, estabanado e tudo o que fazia saía errado. Ele tentara impressioná-la, tentara fazer-se parecer bom comparado àquele pequeno ratinho louro, incompetente, fraco e assustado que ela pensava amar. Lee sabia que Hunter não era homem bastante para ela.
Por um momento ficou curvado sobre ela, gostando que ela fosse macia e doce, como fora naquela noite quando não estivera zangada com ele.
Aquela noite mudara sua vida, e estava determinado a tê-la daquele jeito outra vez.
Com um sorriso e a sensação de que não poderia se controlar, afastou o lençol e meteu-se na cama com ela, de sapatos e tudo. Não havia tempo para muitos carinhos e, antes que ela acordasse e enquanto ainda podia pensar, sabia que o terceiro andar da casa de Duncan Gates não era o lugar próprio.
Ao puxá-la para seus braços beijou-lhe a testa, e, sonolentamen-te, ela aconchegou-se para mais junto dele, quando Lee lhe beijou os olhos e faces. Ele tocou-lhe os lábios com os seus, e Blair despertou de leve, movendo o corpo para mais perto, a coxa deslizando entre as dele, enquanto uma mão descia para levantar-lhe a camisola e acariciar a carne nua.
O beijo aprofundou-se, sua língua tocando a dela, e ela respondeu com avidez, chegando-se a ele para tentar ficar mais perto.
Foi a corrente do relógio de Lee, apertando em seu estômago, através da fina camisola que a acordou, mas não de todo.
— Pensei que você fosse um sonho — murmurou, ao acariciar o rosto dele com a mão.
— Eu sou — disse Lee com voz rouca. Nunca em sua vida tinha precisado usar tanto controle. Queria tirar a camisola dela, acariciar toda aquela carne quente, adorável, sentir sua pele contra a dela. Queria passar seu rosto áspero de barba pela carne macia de seu estômago e ouvi-la gemer em protestos fingidos.
De repente ela sentou-se, endireitando-se:
— O que está você fazendo aqui? — falou espantada.
Ele pôs a mão sobre sua boca e puxou-a para deitar a seu lado. Blair começou a espernear e empurrá-lo.
— Se quiser vir comigo, tem de vir agora, e uma vez que o dia ainda não clareou, não quis bater na-porta de entrada e acordar a casa toda. Quer parar de fazer tanto barulho? Gates poderá vir aqui, e, se ele a encontrar desse jeito, com certeza a fará desfilar pela cidade vestida de sacos e cinzas. — Afastou a mão e ela acalmou-se.
— É preferível ao que você pretendia — disse num murmúrio rouco. — Saia de perto de mim.
Leander não se moveu um centímetro.
— Se eu tivesse tempo, teria entrado aqui na cama sem meus... sapatos, — disse ele, esfregando sua perna entre as dela, e ainda mantendo-a bastante junto de si.
— Você é um convencido, um lascivo... — Parou de repente porque ele prendera seus braços acima de sua cabeça e beijou-a, com gentileza a princípio, aprofundando até que ela não pudesse respirar, e então gentil outra vez. Quando ele afastou-se, havia lágrimas em seus olhos e ela virou a cabeça para o lado.
— Por favor, não — murmurou. — Por favor.
— Não sei por que deveria ter alguma compaixão — disse ele, soltando as mãos dela, mas mantendo-a presa sob grande parte de seu corpo. — Você não demonstrou nenhuma compaixão nos últimos dias. — Ao ver a expressão de seus olhos, soltou-a. — Se eu sair pelo caminho que entrei, pela árvore, você se vestirá e me encontrará lá na frente?
Os olhos dela perderam a expressão de animal acuado:
— E iremos atender uma chamada?
— Nunca vi uma mulher ansiar tanto por sangue e ferimentos antes.
— Não é isso. Gosto é de ajudar as pessoas. Se eu puder salvar uma vida, então minha vida...
Ele beijou-a rapidamente antes de pular fora da cama.
— Pode me fazer o discurso do doutor recém-formado no caminho. Dez minutos, está bem?
Blair só concordou com a cabeça e saltou da cama quase antes de Lee sair pela janela. Nem reparou como aquele comportamento era fora do comum, porque nada em sua vida parecia normal desde que voltara para Chandler.
Blair tirou de dentro do guarda-roupa, de junto de algumas das roupas de inverno de Houston, uma vestimenta da qual muito se orgulhava. Mandara-a fazer em Filadélfia, na velha e tradicional firma de alfaiataria de J. Cantrell e Filhos. Trabalhara semanas com eles desenhando e planejando uma roupa que suprisse todas as necessidades que pudera imaginar em futuras emergências como médica e que mesmo assim fosse discreta. Na loja do alfaiate, tentara usá-la montada num cavalo de madeira, para estar certa de ser curta o bastante para dar-lhe segurança, e longa o bastante para impor respeito.
A jaqueta era cortada com uma perfeita simplicidade militar; a saia parecia cheia e feminina, mas dividida em duas, dando assim a segurança e o conforto de calções. A roupa era feita de sarja azul-marinho, a mais fina e a mais bonita que o dinheiro pudesse comprar, com vários bolsos fundos, que sumiam nas pregas do tecido, uma aba abotoada sobre cada bolso a fim de que não perdesse nenhum dos instrumentos preciosos. Havia uma cruz vermelha simples na manga, para designar a finalidade da roupa.
Blair calçou um par de sapatos pretos de couro de bezerro todo amarrado — modelo de menino em vez dos sapatos estreitos da moda, que torturavam os pés das mulheres —, agarrou sua maleta de médica nova e desceu apressada as escadas para encontrar-se com Leander.
Ele estava encostado na carruagem, fumando um de seus pequenos e finos charutos, e por um momento Blair temeu ir a qualquer lugar com ele. Sem dúvida passaria o dia todo lutando para afastar as mãos dele de seu corpo, e nunca conseguiria fazer coisa alguma para ajudar um paciente.
Ele lançou um olhar rápido para sua vestimenta e pareceu aprovar com um aceno de cabeça, antes de saltar para a carruagem, deixando que Blair se virasse sozinha.
Assim que ela subiu, ele partiu daquele modo com o qual Blair já estava começando a se acostumar: teve de se agarrar para preservar sua vida.
— Onde é esse primeiro caso? — gritou ela acima dos sons da carruagem, que corria a toda velocidade pela estrada sul, fora de Chandler.
— Em geral já não atendo mais esses chamados, uma vez que trabalho no hospital a maior parte do tempo — gritou em resposta. — Portanto, alguns desses casos eu ainda não vi, mas acontece que conheço este. É Joe Gleason, a mulher dele está doente. Tenho certeza de que é outro bebê. De alguma forma, Effie consegue produzir um a cada oito meses. — Lançou-lhe um olhar de lado. — Já pegou um recém-nascido?
Blair confirmou com a cabeça e sorriu. Por morar com seu tio, tinha uma vantagem que os outros colegas do curso não tinham: oportunidade de trabalhar com pacientes em vez de só aprender teoria em livros.
Depois da corrida que deixou Blair machucada de tanto bater contra a lateral da carruagem, Leander parou em frente a uma pequena cabana de madeira ao pé das montanhas, o terreno liso na frente cheio de galinhas, cachorros e um incontável número de crianças magras e sujas — todas parecendo estar lutando entre si por espaço. Joe, pequeno, esquelético, quase sem dentes, enxotava crianças e animais de seu caminho com o mesmo desprezo.
— Ela está lá, doutor. Não é próprio de Effie ficar deitada durante o dia, e agora ela está lá há quatro dias, e hoje de manhã não consegui acordá-la. Tratei-a o melhor que pude, mas nada parece ajudar.
Blair seguiu os dois homens para dentro da casa, olhando para as crianças magras e de olhos arregalados enquanto ouvia o começo do relato de Joe sobre o que tinha acontecido.
— Eu estava cortando lenha e a cabeça do machado soltou e feriu Effie na perna. O corte não foi muito feio, mas sangrou muito, e ela sentiu-se tonta, portanto ficou na cama durante o dia todo. Como disse, tratei-a da melhor maneira que pude, mas agora estou preocupado com ela.
O pequeno quarto, onde a mulher estava deitada como uma pilha de roupas inerte, era escuro e cheirava mal.
— Abra aquela janela e arranje-me um lanpião.
— O homem da carroça disse que o ar não era bom para ela.
Leander lançou um olhar, ameaçador, e Joe correu para abrir a janela.
Depois de providenciado o lampião, Lee sentou-se ao lado da cama da mulher e afastou as cobertas. Sua perna estava enrolada com uma atadura suja, rançósa, grossa.
— Blair, se o que está embaixo disto é o que estou pensando, talvez você...
Blair não lhe deu chance de terminar. Estava examinando a cabeça da mulher, levantando as pálpebras, tomando o pulso, e por fim curvando-se para sentir a respiração.
— Acho que esta mulher está bêbada — disse ela com espanto, enquanto olhava em volta do quarto.
Na mesinha rústica próxima à cama estava uma garrafa vazia com o rótulo: ELIXIR DA VIDA DO DR. MONROE. GARANTIDO PARA A CURA DE QUALQUER DOENÇA.
Ela manteve o vidro no ar.
— Tem dado isto para sua esposa?
— Paguei bom dinheiro por isso — disse Joe indignado. — Dr. Monroe disse que lhe faria um mundo de bem.
— Esta coisa também é do dr. Monroe? — perguntou Lee, indicando a atadura grossa.
— É um emplastro para câncer. Achei que se isso podia curar câncer poderia também curar Effie de um pequeno corte. Ela vai ficar boa, doutor?
Lee não se preocupou em responder ao homem, enquanto começava a jogar pedaços de madeira no velho fogão que estava no canto do quarto e punha um bule de água para ferver. Enquanto aguardavam a fervura e, mais tarde, quando ele e Blair estavam escovando as mãos, fez a Joe algumas perguntas:
— Você lhe deu mais alguma coisa? — perguntou, temendo a resposta do homem.
— Só um pouco de pólvora pela manhã. Ela estava tendo dificuldade para acordar, e pensei que pólvora ajudaria a reanimá-la.
— Você podia muito bem tê-la matado — disse Lee, e seu rosto empalideceu um pouco, quando começou a erguer os lados da atadura imunda da perna da mulher inconsciente, bem acima do joelho. Assim que viu a carne sob a atadura, fez uma careta.
— Exatamente o que pensei. Joe, vá ferver mais alguma água. Terei de limpar isto tudo.
O homenzinho lançou um olhar para o que havia sob a atadura e saiu correndo do quarto. Lee, os olhos no de Blair, afastou o tecido imundo para que pudesse ver.
Vermes miúdos, se retorcendo, cobriam a perna em carne viva e inchada.
Blair controlou sua reação, enquanto pegava instrumentos na maleta de Lee e os entregava a ele. Segurou uma bacia esmaltada enquanto Lee começava a tirar cuidadosamente os vermes.
— Estas coisas são na verdade uma bênção disfarçada — dizia Lee. — Os vermes comem a parte putrefata do ferimento e mantêm-no limpo. Se esses — manteve um, suspenso na ponta de sua pinça — não estivessem aqui, provavelmente estaríamos agora amputando. Até já ouvi dizer que antigamente os médicos usavam vermes numa ferida para que eles a limpassem.
— Então talvez seja bom que este lugar seja tão imundo — disse Blair com desgosto, olhando em volta do quartinho desagradável.
Lee olhou para ela interrogativamente.
— Deveria ter pensado que este tipo de coisa seria muito para você.
— Tenho estômago mais forte do que você pensa. Está pronto para o fenol?
Enquanto Lee ia limpando mais a ferida, Blair sempre estava pronta com o que ele precisasse, sempre a meio passo na frente dele. Ele entregou-lhe as agulhas e linha, e ela costurou as bordas da ferida, enquanto Lee permanecia atrás, observando cada movimento dela. Resmungou quando ela terminou a costura e deixou-a aplicar ataduras limpas no ferimento.
Joe chegou para dizer-lhe que a água estava fervendo.
— Pode usá-la então para ferver estes trapos que chama de lençóis — disse Lee. — Não quero mais nenhuma mosca entrando debaixo do curativo. Blair, ajude-me a tirar estes lençóis de debaixo dela. E também quero algumas roupas limpas para ela. Blair, você pode trocá-la enquanto Joe e eu vamos ter uma conversa.
Blair não tentou banhar a mulher, mas estava certa de que o ferimento da perna era o lugar mais limpo de seu corpo. Conseguiu meter o corpo grande da mulher em um dos camisolões de noite do Joe, enquanto ela rolava e resmungava algumas vezes em seu estupor de bêbada. Pela janela aberta, podia ver os dois homens ao lado da cabana, Lee dominando o homenzinho, gritando com ele, batendo em seu peito com o dedo e em geral assustando-o para valer. Blair quase sentiu pena de Joe, que só fizera o melhor que sabia por sua esposa.
— Onde está o doutor? — perguntou uma voz de homem atrás dela.
Ela virou-se para ver um sujeito usando calças de couro e camisa de algodão de vaqueiro, parado na porta, o rosto ansioso.
— Eu sou uma médica. Você precisa de ajuda?
Os olhos fundos no rosto magro dele olharam-na de cima a baixo.
— Não é a charrete do doutor Westfield que está lá fora?
— Frank? — perguntou Lee por detrás deles. — Alguma coisa errada?
O vaqueiro virou-se:
— Uma carroça caiu pelo barranco abaixo. Havia três homens nela, e um deles está muito ferido.
— Pegue minha maleta — disse por cima do ombro para Blair e correu para a carruagem, que já estava em movimento quando ela chegou lá. Em silêncio, Blair jogou as duas maletas no chão da carruagem, agarrou o suporte do teto e pôs o pé no estribo, enquanto agradecia ao sr. Cantrell pelo modelo de sua roupa que lhe dava tal mobilidade.
Lee agarrara seu braço mais alto com uma mão, e mantinha as rédeas com a outra, e ajudou a içá-la para dentro quando o cavalo já disparava num galope total. Quando sentou-se, as maletas presas firmemente entre seus pés, olhou para Lee e ele piscou para ela — uma piscadela em que mostrava algum orgulho dela.
— Este é o Rancho Bar S — gritou Lee —, e Frank é o capataz.
Seguiram o vaqueiro, Lee fazendo o carro ir quase tão rápido quanto o cavaleiro sozinho, durante cerca de seis quilômetros antes que vissem qualquer construção. Havia quatro pequenos barracões e um curral precariamente localizado no lado do pico Ayers. Lee agarrou sua maleta, jogou as rédeas para um dos três vaqueiros que estavam por perto e entrou no primeiro barracão, e Blair, maleta na mão, em seus calcanhares.
Havia um homem deitado num catre, a manga esquerda encharcada de sangue. Lee cortou o pano habilmente e um jorro de sangue atingiu sua camisa. A placa de sangue seco na camisa do vaqueiro tinha tampado temporariamente a artéria cortada e evitara que o homem sangrasse até morrer. Lee prendeu a artéria com os dedos e manteve-a; não havia tempo para pensar em lavar as mãos.
Os vaqueiros ficaram parados perto deles, mal deixando espaço, enquanto Blair espalhava fenol em suas mãos e, com um gesto que era tão preciso como se já trabalhassem juntos há anos, Lee soltou a artéria enquanto os pequenos dedos de Blair a pegavam. Ele então desinfetou as mãos, preparou uma agulha e, enquanto ela mantinha a ferida aberta, ele costurava. Em poucos minutos, tinham suturado o ferimento.
Os vaqueiros recuaram e seus olhos estavam em Blair.
— Acredito que ele ficará bom — disse Lee, levantando-se, limpando o sangue de suas mãos com um pano limpo de sua maleta. — Ele perdeu muito sangue, mas, se superar o choque, acredito que conseguirá. Quem mais?
— Eu — disse um homem em outro catre. — Quebrei minha perna.
Leander rasgou a perna da calça do homem, apalpou o osso da canela.
— Alguém segure os ombros dele. Terei de puxá-lo para o lugar.
Blair olhou em volta da sala, e três homens passaram na frente dela para segurar os ombros do vaqueiro. Encostado numa parede estava um homem enorme, com braços do tamanho de pernis. Seu rosto grande, largo, que parecia ter estado em muitas brigas, estava branco, e Blair reconheceu que era de dor. Ele tinha um braço carregando o outro. Foi até ele:
— Você estava no acidente da carroça?
Ele lançou-lhe um olhar e então afastou-se:
— Esperarei pelo doutor.
— Também sou uma doutora, mas você está certo. Provavelmente eu o machucarei mais do que pode agüentar — disse ela começando a afastar-se.
— Você? — disse o homem; quando Blair o encarou, viu que seu rosto ficara ainda mais pálido.
— Sente-se — ordenou, e ele obedeceu, sentando-se num banco perto da parede. Ela removeu a camisa dele o mais cuidadosamente que pôde, e viu o que supunha que estivesse errado com ele: aquele enorme ombro dele tinha se deslocado na queda. — Vai doer um pouco.
Ele levantou a sobrancelha sob uma testa porejada de suor.
— Já está doendo agora.
Todos os vaqueiros estavam reunidos em volta de Lee enquanto ele tratava da perna quebrada, e um deles, bem atrás da turma, tinha uma garrafa de uísque nos lábios. Blair tirou-a dele e entregou para seu paciente.
— Isto ajudará. — disse ela.
Não estava segura de ser fisicamente bastante forte para fazer aquilo, mas também não podia ficar parada e esperar que Lee terminasse enquanto aquele outro homem sofria. Tratara uma vez de um deslocamento, e tinha sido numa criança.
Com uma respiração funda e uma oração, começou a dobrar o antebraço dele, e então forçou-o contra a parede de seu peito. Pegando uma caixa de alimentos enlatados, subiu nela e, com grande esforço, tentou levantar o enorme braço bem no alto e rodá-lo. Repetiu procedimento, tentando não provocar-lhe mais dor. Estava suando e ofegante com o esforço de tentar mover aquele braço enorme para dentro de uma junta que era tão grande quanto seus quadris.
De repente, o úmero encaixou no lugar com um estalido alto, e a proeza estava feita.
Blair desceu da caixa, e ela e seu paciente sorriram um para o outro.
— A senhora é uma ótima doutora — disse ele, radiante.
Blair virou-se e, para sua surpresa, viu que todos no quarto, inclusive os outros dois homens feridos, a estavam olhando. E ficavam observando, enquanto ela enfaixava o ombro do homem com seu melhor estilo de atadura-de-cesta, deixando-o tão bonito quanto confortável e útil. Quando terminou, Leander quebrou o silêncio:
— Se vocês dois estão prontos para acabar de se congratularem, eu tenho mais pacientes para ver. — Suas palavras não condiziam com o brilho de orgulho em seus olhos.
— A senhora não é uma das gêmeas Chandler? — perguntou um vaqueiro, acompanhando-a até a carruagem.
— Blair — respondeu ela.
— Ela também é uma doutora — disse Frank, e todos olhavam-na estranhamente.
— Obrigado, doutor Westfield e doutora Chandler. — disse o homem do ombro deslocado, enquanto eles se dirigiam à carruagem.
— É bom acostumarem-se a chamá-la de doutora Westfield — disse Leander estalando as rédeas. — Ela vai casar-se comigo na próxima semana.
Blair não pôde dizer nada, uma vez que caiu na carruagem, quando o cavalo de Leander disparou.
Capítulo XII
LEANDER DIMINUIU o passo do cavalo, quando se afastaram da fileira de barracões.
— A governanta de meu pai nos preparou um lanche. Pararei, enquanto você o pega, e comeremos a caminho do rancho.
Ele permaneceu na carruagem, como um gladiador numa biga, e Blair levantou o banco.
— Que espaço enorme — disse ela, surpresa, olhando para os cobertores, uma espingarda, caixas de munição, equipamento extra e ferramentas que estavam guardadas sob o banco de dobradiça. — Não acredito que já tenha visto um compartimento com tanto espaço antes.
Leander olhou-a com o cenho franzido, por sobre o ombro, mas ela não viu.
— É assim que abre — resmungou, ensinando-lhe.
Blair meteu a cabeça bem dentro do compartimento, olhando para os lados dele.
— Não acredito que antes fosse assim. Penso que foi alterado, alguma coisa removida para deixar mais espaço. Me pergunto por quê.
— Comprei este carro usado. Talvez algum fazendeiro quisesse carregar seus porcos aí atrás. Vai pegar a comida ou vamos morrer de fome?
Blair tirou uma grande cesta de piquenique do compartimento e sentou-se.
— É bastante grande para esconder um homem — disse ela, ao tirar uma caixa de frango assado, uma travessa de salada de batatas e uma garrafa de limonada gelada da cesta.
— Vai falar sobre isso o dia todo? Que tal se eu lhe contasse algumas histórias de quando estava como interno em Chicago? — Qualquer coisa, pensava Leander, para tirar aquele espaço ali de trás da cabeça dela. Se os guardas das minas de carvão fossem metade observadores como era Blair, ele então não estaria vivo.
Comendo frango com uma mão e segurando as rédeas com a outra, Lee contou a ela uma longa história de um jovem que fora trazido pela polícia uma noite e, por já estar azul por falta de respiração, foi declarado em definitivo como morto. Mas ele achara que havia esperança. Tentara manipulações rítmicas, mas como não houvera reação nenhuma, examinara o paciente, descobrindo que seus olhos estavam com pontinhos, e Leander desconfiou que o homem era uma vítima das "gotas que derrubam": ópio.
— Vai comer toda essa salada de batatas sozinha? — perguntou Lee e, quando Blair começou a entregar-lhe a travessa e o garfo, ele disse que possivelmente não poderia comer a salada, o frango, e dirigir a carruagem. Portanto, Blair teve de mover-se até ficar ao lado dele, para ir lhe dando a salada na boca.
— Continue com sua história.
— Percebi que o único meio de evitar que o homem entrasse em coma era continuar a respiração artificial até que revivesse. Nenhum dos outros médicos perderia tempo com um homem que já consideravam morto. Assim, foram para a cama, e as enfermeiras e eu fomos nos revezando, tentando salvar o homem.
— Tenho certeza de que as enfermeiras lhe ajudariam — disse ela.
Sorriu para ela:
— Não tive muito trabalho com elas, se é a isso que se refere.
Ela enfiou-lhe uma garfada cheia de salada na boca.
— Você vai contar vantagem ou contar a história?
Leander continuou a contar sobre a longa noite tentando salvar o homem, de como pegara um pano gelado e esfregara repetidamente no estômago descoberto do homem, das estimulações do coração e dos galões de café preto. Ele e as enfermeiras trabalharam em revezamento a noite toda, fazendo-o andar até de manhã, quando acharam que estava fora de perigo e podiam pô-lo na cama e deixá-lo dormir.
Lee tivera menos de duas horas de sono naquela noite, antes de estar de volta para seu plantão, e, na ronda matinal, fora ao quarto de seu paciente, pronto para ser modesto com os arroubos de agradecimento do homem, por ter trabalhado com tanto empenho para salvar sua vida.
— Mas o que o homem disse foi: "Veja doutor, eles não pegaram meu relógio. Estava a salvo dentro de minhas calças, escondido dos ladrões que me envenenaram".
— Ele nem ao menos reconheceu tudo o que você fez por ele? — perguntou Blair incrédula.
Leander sorriu para ela, e, num instante, ela começou a ver o humor da situação. Existem ocasiões em que ser um médico não é toda aquela glória que alguém esperou, mas somente muito trabalho duro.
Terminaram o lanche e, enquanto viajavam, Blair fez Lee contar-lhe mais histórias sobre suas experiências como médico, tanto na América como no exterior. Por sua vez, ela contou-lhe sobre o seu tio Henry e seus estudos, dos professores que foram tão rudes, dizendo que as mulheres estariam competindo com os médicos homens, que esperavam que elas fossem mal treinadas de modo que, claro, as mulheres tinham de ser as melhores. Contou-lhe sobre os exaustivos testes de três dias, que fizera para entrar no hospital St. Joseph.
— E passei — disse ela, e continuou a contar sobre o hospital.
Ela não percebeu o modo como Lee a olhava enquanto falava sobre seu futuro como médica.
No começo da tarde, alcançaram os limites do rancho Winter, e Lee levou-a para a velha e grande casa do rancho para visitar a filha de oito anos do rancheiro, convalescente de febre tifóide.
A menininha estava muito bem, e ambos ficaram para tomar um copo de leite de vaca ainda quente e um enorme pedaço de pão de milho.
— Provavelmente este é todo o pagamento que teremos — disse Lee ao voltarem para a carruagem. — Médicos não ficam ricos no campo. Bom que você me tenha para mantê-la.
Blair começou a dizer que não tinha planos de ficar em Chandler ou de casar com ele, mas alguma coisa a fez parar. Talvez fosse a maneira como sugerira que ela fosse realmente uma médica, e que, quando — se — eles se casassem, iria praticar a medicina. E, considerando o preconceito e intolerância daquela cidade, aquilo já era dizer muito.
Nem bem tinham deixado as terras do rancho, um vaqueiro cavalgou até eles, o cavalo parando nas pernas traseiras e levantando uma nuvem de poeira sobre eles.
— Precisamos de alguma ajuda, doutor — disse o vaqueiro. Para surpresa de Blair, Lee não partiu imediatamente com a costumeira velocidade.
— Você não é do Lazy?
O vaqueiro concordou com a cabeça.
— Quero levar a senhora de volta para o rancho Winter, antes de seguir com você.
— Mas, doutor — disse o vaqueiro —, o homem foi baleado na barriga e está sangrando. Ele precisa de alguém agora mesmo.
Na véspera, Blair ficaria furiosa por Lee querer excluí-la de um caso, mas naquele momento ela sabia que ele não era contra sua ajuda com os pacientes, portanto o problema devia ser outro. Pôs a mão no braço dele:
— Aconteça o que acontecer, eu também estou nisso. Você não pode evitar. — Havia uma sugestão de ameaça em sua voz que dizia que ela o seguiria se fosse deixada para trás.
— Agora não há tiroteio, doutor — disse o vaqueiro. — A senhora ficará a salvo enquanto o senhor remenda o Ben.
Leander olhou para Blair e depois para o céu:
— Espero não viver para me arrepender disso — disse e estalou o chicote sobre o cavalo, partindo.
Blair agarrou o lado da carruagem:
— Tiroteio? — Mas ninguém ouviu.
Deixaram o cavalo e a carruagem a uma certa distância, e o vaqueiro levou-os até as ruínas de uma casa de barro, fixada numa ladeira íngreme, e com parte do teto desabada.
— Onde estão os outros? — perguntou Lee e olhou para onde o vaqueiro apontou, através de árvores, na direção de outra ruína.
Blair queria fazer perguntas sobre o que estava acontecendo, mas Lee pôs a mão em sua cintura e empurrou-a para dentro da ruína. Quando seus olhos se acostumaram, viu um homem e uma mulher gorda e suja sentados no chão, embaixo do que restava de uma janela, rifles nos ombros, pistolas dos lados, balas usadas espalhadas em volta deles. Num canto estavam três cavalos. Com os olhos arregalados enquanto observava o local, tinha certeza que estava no meio de alguma coisa da qual não gostava.
— Vamos costurá-lo e dar o fora daqui — disse Lee, trazendo-a de volta à tarefa do momento.
Na parte mais escura do barracão, no chão, estava um homem segurando o estômago com as mãos, o rosto branco.
— Sabe aplicar clorofórmio? — perguntou Lee, já esterilizando as mãos.
Blair fez que sim com a cabeça e começou a tirar vidros e velas de sua maleta.
— Ele costuma beber? — perguntou às pessoas do quarto.
— Bem, certamente — disse o vaqueiro hesitando —, mas não temos nenhuma bebida. A senhora tem alguma?
Blair estava muito paciente:
— Estou tentando calcular quanto clorofórmio devo dar a ele, e um homem que toma muito uísque para ficar bêbado precisa de mais clorofórmio para que faça efeito.
— Ben pode beber mais que qualquer um. Toma duas garrafas de uísque só para se sentir bem. Nunca o vi bêbado.
Blair concordou, tentou calcular o peso do homem e começou a pôr o clorofórmio em um cone. Quando ele começou a sentir o efeito, reagiu contra o gás, e ela esticou seu corpo por sobre a metade superior do dele, enquanto Leander segurava a metade inferior do homem. Felizmente, o sujeito estava muito fraco e não pôde prejudicar muito o ferimento.
Quando Lee puxou as calças do homem, e eles viram o buraco que a bala fizera em seu estômago, ela suspeitou que não havia muita chance. Lee não parecia pensar assim, enquanto abria o abdômen.
Um amigo do tio Henry, um médico que se especializara em cirurgia abdominal, certa vez visitara-os vindo de Nova York, justamente quando trouxeram uma garotinha que caíra sobre a metade de uma garrafa quebrada. Blair assistira a cirurgia, quando o médico removera o vidro do estômago da criança e reparara três buracos nos intestinos. Aquela única operação a impressionara tanto que ela decidira especializar-se em cirurgia abdominal.
Mas naquele momento, ao ver Leander e preparar uma agulha após a outra para ele, estava amedrontada. A bala entrara no homem pelo osso ilíaco e o atravessara para sair na parte baixa das nádegas, perfurando os intestinos diversas vezes em sua trajetória.
Os longos dedos de Leander seguiam o caminho da bala, costurando as camadas de intestinos. Blair contou catorze buracos que ele suturou antes de atingir a pele do homem e o buraco de saída da bala.
— Ele não deve comer absolutamente nada durante quatro dias — dizia Leander, enquanto costurava as costas do homem. — No quinto poderá tomar líquidos. Se ele desobedecer e provar comida, morrerá em duas horas, porque a comida o envenenará. — Levantou os olhos para o vaqueiro. — Está claro?
Ninguém respondeu, porque bem naquele instante seis balas entraram zunindo nas ruínas do barracão. — Maldição! — disse Lee, cortando os últimos pontos com a tesoura que Blair lhe entregara. — Pensei que nos dariam tempo suficiente.
— O que está acontecendo? — perguntou Blair.
— Esses idiotas — disse ele, sem se preocupar em abaixar a voz — estão tendo uma briga de grupos. Em geral há sempre uma ou duas acontecendo aqui perto de Chandler. Esta aqui já tem seis meses. Talvez tenhamos de ficar aqui por um tempo até que decidam ter outra trégua.
— Trégua?
Lee enxugou as mãos:
— Quanto a isso são bastante civilizados. Quando uma pessoa é ferida, eles cessam fogo até que um médico possa ser encontrado e trazido para onde quer que estejam escondidos. Infelizmente eles não sentem obrigação de permanecer parados até que o médico saia outra vez. Poderemos ficar aqui até de manhã. Certa vez fiquei preso num lugar durante dois dias. E agora você vê por que eu queria que ficasse no rancho de Winter.
Blair começou a limpar e a colocar os instrumentos de volta nas duas maletas.
— Portanto agora nós só esperamos?
— Agora esperamos.
Lee levou-a para trás de uma parede baixa de tijolos que alguma vez fora uma divisória de quartos. Sentou-se no canto mais afastado e fez sinal a Blair para que se sentasse perto dele, mas ela não foi. Sentia que devia manter-se o mais afastada possível dele, de modo que se encostou na parede oposta. Quando uma bala atingiu a parede, a meio metro de sua cabeça, ela praticamente pulou para os braços de Leander e enterrou o rosto contra seu peito.
— Nunca imaginei que poderia gostar de uma briga de grupos — murmurou ele e começou a beijar seu pescoço.
— Não comece com isso outra vez — disse Blair, apesar de virar a cabeça, a fim de que pudesse alcançar seus lábios.
Não levou muito tempo para que Lee percebesse que não poderia continuar com sua perseguição, não ali e com tantas pessoas presentes e balas voando em volta deles.
— Está certo. Pararei — disse, sorrindo ao ver o olhar no rosto de Blair.
Ela não se afastou, mas continuou em seus braços, uma vez que sua proximidade a fazia sentir-se protegida e o som das balas parecia estar bem longe.
— Diga-me onde aprendeu a suturar intestinos desse jeito.
— Então você quer mais dessa bajulação. Bem, vejamos, a primeira vez...
Blair parecia insaciável. Durante horas ficaram sentados juntinhos, com ela fazendo inúmeras perguntas sobre como ele aprendera coisas, que casos tivera no passado, qual fora seu caso mais difícil, o mais engraçado, e em primeiro lugar por que se tornara um médico, e mais e mais, até que, para dar a si mesmo uma trégua, ele começou a indagar.
O sol se pôs. Houve uma pausa no tiroteio vez por outra, mas na maior parte da noite continuou. Lee tentou fazer Blair dormir, mas ela recusou.
— Vejo que você o está observando — disse ela, indicando com a cabeça o homem baleado. — Você não tem intenção de dormir e nem eu. Quais são as chances que acha que ele tem de viver?
— Tudo depende da infecção, e isso é controlado por Deus. Tudo que posso fazer é costurá-lo.
O céu começou a clarear, e Leander disse que precisava checar seu paciente, que estava começando a se mexer.
Ela levantou-se para esticar-se, e no minuto seguinte um som atingiu-a e fez com que se esquecesse de tudo, menos de sua profissão. Fora o som de uma bala chocando-se com carne.
Blair afastou-se de Lee e correu pelo canto da parede baixa ainda em tempo de ver o que acontecera. O homem que até então não falara fora atingido no queixo, e a mulher pegara uma mão cheia de estérco fresco de cavalo e ia aplicá-lo na ferida aberta.
Não pensou nas balas voando sobre sua cabeça ao ficar em pé e jogar-se contra a mulher. Surpresa, zangada, a mulher começou a lutar com Blair, que teve de se proteger dos punhos dela — mas de maneira alguma iria permitir que pusesse estérco de cavalo num ferimento aberto.
Blair estava tão determinada em seu propósito que nem ao menos percebeu quando ambas rolaram para o espaço largo onde costumava ser a porta. Num momento, ela tentava tirar a mão da mulher de seu cabelo, e, em seguida, ouviu-se o estrondo de um tiro de rifle diretamente acima delas.
Ambas pararam a luta e olharam, para ver Leander de pé entre elas e o barracão do outro lado, um rifle nos quadris, disparando tão logo conseguia carregá-lo.
— Diabos, tratem de entrar — gritou para ambas, e em seguida deixou escapar uma onda de imprecações dirigidas aos homens do outro barracão, dizendo-lhes que era o dr. Westfield, e que sabia quem eles eram, e se alguma vez viessem pedir sua ajuda, ele os deixaria sangrar até a morte.
O fogo cessou.
Quando Leander voltou para o barracão, Blair estava limpando o queixo do homem ferido.
— Se você tornar a fazer alguma coisa como essa, que Deus me ajude... — interrompeu-se, pois não parecia encontrar uma ameaça bastante convincente.
Ficou ao lado de Blair muito quieto, enquanto ela costurava o queixo do homem e punha as ataduras, e quando ela pôs o último pedaço de esparadrapo agarrou seu braço e puxou-a para cima.
— Vamos sair daqui neste minuto. Pelo que me importo eles podem todos ficar atirando um no outro. Não arriscarei você por nenhum deles.
Blair mal teve tempo de agarrar sua maleta antes que Lee a puxasse para fora da cabana.
— Seu homem do sindicato veio na noite passada — anunciou Reed ao filho, assim que Lee entrou em casa.
Leander esfregava um lugar dolorido em suas costas onde o encosto de madeira o tinha incomodado a noite toda, e olhou alarmado para seu pai:
— Você não deixou que ninguém o visse, não é?
Reed lançou ao filho um olhar reprovador.
— Tudo o que fez foi comer e dormir, o que parece ser algo que você não faz há dias. Espero que não tenha mantido Blair fora a noite toda. Gates está atrás de seu esconderijo.
Lee não queria nada além de comer e tirar uma soneca antes de ir para o hospital, mas não parecia que fosse ter tempo.
— Ele está pronto para ir?
Reed ficou quieto por um momento, olhando o filho, sentindo que aquela poderia ser a última vez que o via vivo. Sempre se sentia assim antes de Lee sair para levar um desses sindicalistas para dentro dos campos das minas.
— Ele está pronto — foi tudo o que Reed disse por fim.
Cansado, Lee foi ao estábulo e mandou o cavalariço sair numa incumbência enquanto atrelava um cavalo em sua carruagem. Seu appaloosa estava muito cansado, depois de estar fora a noite toda. Assim, pegou um dos cavalos de seu pai. Olhando para se certificar de que ninguém poderia vê-los, foi até a porta para apanhar o homem que esperava ao lado de seu pai. Lee só lançou um olhar ao jovem, mas ele ostentava a mesma luz nos olhos de todos os sindicalistas: uma luz de fogo, uma intensidade que queimava com tal calor que se sabia que não havia necessidade de falar sobre o perigo que enfrentavam, porque eles não se importariam. O que estavam fazendo, a causa pela qual lutavam, era mais importante que suas vidas.
Leander retirara a maioria dos apetrechos de sua profissão do compartimento na parte traseira da carruagem — o espaço grande que deixara Blair tão curiosa — e então o homem se acomodou nele. Não houve conversa, porque todos os três homens estavam muito conscientes do que poderia acontecer naquele dia. Os guardas dos campos de carvão atirariam para matar primeiro, e perguntar depois sobre o homem morto.
Reed entregou a Lee uma placa de papier-maché, que foi encaixada nas ranhuras laterais do compartimento, acima do nível do homem, uma placa que a uma rápida olhada representava uma pilha de cobertores, uma espingarda, corda e uma serra — coisas que qualquer homem deve ter em seu carro. Em cima, Lee pôs sua maleta de médico.
Por um momento, Reed tocou o ombro do filho, e então Lee foi para a carruagem e partiu.
Leander dirigiu o mais rápido que podia sem causar muita dor ao homem escondido. Duas semanas antes, ele e o pai tinham tido outra discussão sobre o que Lee estava fazendo, Reed dizendo-lhe que não devia arriscar a vida para pôr aqueles sindicalistas dentro dos campos,, e que mesmo sendo preso e de alguma forma conseguisse viver, nenhum tribunal no país iria apoiar o que estava fazendo.
Quando Lee aproximou-se mais da estrada que virava para os campos de carvão, foi mais lento, observando em sua volta o melhor que podia para ver se não havia ninguém por perto que não devesse estar por ali. Com um sorriso, ele se lembrou de quando defendera o homem que possuía as minas de carvão em volta de Chandler, Jacob Fenton, para Blair. Dera desculpas para Fenton e dissera que o homem tinha de dar satisfações para os acionistas, que não era totalmente responsável pela má situação dos mineiros. Com freqüência fazia aquilo para não levantar suspeitas nas pessoas. De nada adiantaria que outros soubessem de seus sentimentos em relação aos maus-tratos recebidos pelos mineiros.
Aos mineiros de carvão eram dadas duas escolhas: ou obedeciam aos regulamentos da companhia ou estavam fora do serviço. Tudo muito simples. Mas os regulamentos não eram para homens, eram para prisioneiros.
Tudo o que se relacionava com as minas pertencia a companhia. Os homens eram pagos com vales que somente podiam ser trocados nas lojas da companhia, e quem fosse descoberto comprando alguma coisa numa loja da cidade seria despedido. E não tinham permissão para sair dos campos para irem à cidade. Os donos das minas alegavam que os campos de carvão eram cidades, e os mineiros e suas famílias não precisavam de nada de outro lugar. E que os guardas dos portões, que não permitiam a ninguém entrar ou sair, estavam mantendo afastados ladrões inescrupulosos e exploradores, "protegendo" os mineiros.
Mas a verdade era que os guardas estavam lá para afastar os agitadores, para evitar que organizadores de sindicatos entrassem nos campos e falassem com os mineiros.
Os proprietários não podiam admitir a possibilidade de uma greve, e tinham o direito legal de colocar guardas armados nas entradas e revistar veículos que entrassem e saíssem.
Eram poucas as carruagens com permissão para entrar: algumas velhas da cidade, que traziam vegetais frescos, um par de conser-tadores eram permitidos vez por outra, os inspetores de minas e havia um médico da companhia que fazia rondas, um médico tão ruim que não conseguia manter-se com atendimento particular. A companhia pagava-lhe quase que só em uísque e, em agradecimento, ele ignorava a maior parte do que via, declarando-a isenta de culpa em todo caso de acidente, de maneira que nenhum benefício fosse devido à viúva e aos filhos órfãos.
Um ano antes, Lee fora até Fenton e pedira permissão para entrar nos campos — sem despesa para o dono da mina — para examinar a saúde dos mineiros. Fenton hesitara, mas acabara dando-lhe permissão.
O que Lee vira deixara-o horrorizado. A pobreza era tanta que ele mal podia acreditar. Os homens labutavam o dia todo embaixo da terra para poder viver, e no fim da semana mal tinham com que sustentar as famílias. Eles eram pagos pela quantidade de carvão que tiravam, mas um terço do tempo era gasto no que os mineiros chamavam de "trabalho morto", trabalho pelo qual não recebiam pagamento. Eles mesmos tinham de pagar pelas vigas que usavam para escorar as minas, porque o proprietário dizia que a segurança era responsabilidade dos mineiros, não sua.
Depois dos primeiros dias nos campos de carvão Lee voltara para casa e não conseguira conversar muito durante dias. Ele olhava para a pequena e rica cidade de Chandler, via sua irmã voltar para casa vindo do The Famous, com quinze metros de uma casimira muito cara, e pensava nas crianças que vira na neve sem sapatos. Lembrava-se dos homens esperando na fila pelo pagamento e ouvindo o pagador dizer-lhes do que tinham sido descontados naquela semana. E quanto mais pensava, mais se sentia no dever de fazer alguma coisa. Ele não tinha idéia de como agir, até que começou a ler artigos no jornal sobre a organização de sindicatos no leste. Interessado, quis saber com seu pai se os sindicalistas poderiam ser persuadidos a virem até o Colorado.
Reed, assim que percebeu o que o filho estava pensando, tentou dissuadi-lo, mas Lee continuou a ir aos campos, e quanto mais via, mais sabia o que tinha de fazer. Tomou o trem para Kentucky e lá encontrou pela primeira vez os organizadores de sindicatos e contou-lhes o que estava acontecendo no Colorado. Soube de tentativas anteriores sem sucesso de sindicalização no Colorado, e foi avisado de que seu envolvimento poderia acabar com sua morte.
Leander lembrou-se de ter carregado uma menininha magra de três anos em seus braços, enquanto ela morria de pneumonia, e concordou em ajudar no que pudesse.
Assim, conseguira trazer três sindicalistas para dentro do campo, e os proprietários estavam cientes de que eles tinham estado lá e que alguém estava ajudando os mineiros. Portanto, estavam cada vez mais e mais em guarda.
No ano anterior, um mineiro enorme, com o nome de Rafe Taggert, começara a sugerir que era o culpado, que era ele próprio quem estava trazendo os organizadores para os campos. Por alguma razão, o homem acreditava que nem os guardas ou o proprietário iriam prejudicá-lo, que nenhum "acidente" seria arranjado para tirá-lo do caminho. Havia rumores de que o irmão de Taggert fora casado com a irmã de Fenton, mas ninguém tinha certeza. Uma vez que os mineiros tinham de se mudar com muita freqüência, pois as minas fechavam uma após outra, poucas pessoas ficaram na área o bastante para lembrar-se de alguma coisa que podia ou não ter acontecido cerca de trinta anos atrás.
Mas, por qualquer que fosse a razão, o suspeito era Rafe Taggert, e ninguém tinha sequer suspeitado do elegante e jovem doutor que tão bondosamente oferecera seu tempo para ajudar os mineiros.
Quando Lee atravessou o portão da área da mina Empress, fez o possível para agir com naturalidade e fazer brincadeiras com os guardas. Ninguém o examinou e ele dirigiu-se para o canto mais afastado do campo para deixar o homem esconder-se nas árvores até que Lee pudesse ir de casa em casa para começar a preparar uma reunião. Somente três homens de cada vez iriam encontrar-se com o organizador. O jovem ficaria lá o dia todo até a noite, arriscando a vida a cada minuto. E Lee iria de casa em casa, olhando as crianças e dizendo aos homens onde encontrar o organizador e, em cada conversa, punha sua vida em perigo, porque já sabia que um deles era um informante.
Capítulo XIII
BLAIR ACORDOU na manhã de domingo sentindo-se ótima. Espreguiçou-se longamente, ouviu os passarinhos fora de sua janela e pensou que aquele deveria ser o melhor dos dias. Sua mente estava cheia de tudo que ela e Lee tinham feito na véspera. Lembrava-se da maneira como ele reparara o intestino do homem, seus dedos longos e hábeis, sabendo o que devia ser feito.
Desejou que Alan pudesse tê-lo visto operando.
De repente endireitou-se. Alan! Esquecera-se completamente de que deveria tê-lo encontrado às quatro horas da véspera. Estivera tão preocupada com Houston, com a maneira como sua irmã bancara a tola por causa daqueles anéis, e então viera o telefonema de Lee, e sentira que ele só estava pedindo a ela que fosse junto por um senso de dever. Nunca sonhara que fosse ficar a noite toda fora.
Susan veio dizer-lhe que a família sairia para a igreja logo após o café e que o senhor Gates pedira que fosse com eles. Blair saltou da cama e apressadamente vestiu-se. Talvez Alan estivesse na igreja, e ela poderia explicar que estivera fora trabalhando.
Alan estava lá, três bancos na frente deles, e, não importava o que Blair fizesse, ele não olhou ao redor depois de um olhar inicial. Para fazê-la sentir-se pior, ele estava sentado perto do senhor Westfield e de Nina. Depois da igreja, Blair procurou ficar perto dele durante alguns minutos no pequeno pátio fora da edificação.
— Então, você esteve fora com Westfield — começou Alan no momento que ficaram sozinhos. Seus olhos estavam zangados.
Blair empertigourse, apesar de suas boas intenções de ser submissa.
— Acredito que foi você quem concordou com uma competição e não eu, e parte do arranjo foi que eu não recusaria os convites de Leander.
— A noite toda? — Ele procurou olhá-la por baixo de seu nariz, embora fossem quase da mesma altura.
Blair na mesma hora pôs-se na defensiva:
— Nós estávamos trabalhando, e ficamos presos no meio de uma luta de grupos e Lee diz que...
— Dispense-me das palavras de sabedoria dele. Tenho de ir agora. Tenho outros planos.
— Outros planos? Mas pensei que talvez hoje à tarde...
— Ligarei amanhã. Isto é, se você pensa que vai estar em casa. — Com isso, virou-se nos calcanhares e deixou-a parada no lugar.
Nina Westfield aproximou-se para dizer-lhe que Lee tinha de trabalhar no hospital o resto do dia. Blair subiu na carruagem com sua mãe e o padrasto, percebendo vagamente que Houston não estava com eles.
Em casa, Opal estava numa agitação na sala de jantar, arrumando flores na mesa, colocando o melhor candelabro alto de prata.
— Está esperando visitas? — perguntou Blair com preguiça.
— Sim, querida, ele virá.
— Quem?
— O Kane de Houston. Oh, Blair, ele é um homem tão adorável. Sei que você irá gostar dele.
Minutos mais tarde, a porta abriu-se e Houston entrou trazendo seu grande milionário pelo braço, como se ele fosse o prêmio de um jogo que acabara de ganhar. Blair já o vira antes na igreja, e admitia que ele tinha boa aparência. Não tão bonito como Leander, ou mesmo Alan, porém mais do que apresentável, para quem gosta de um tipo bem musculoso.
— Sente-se aqui, senhor Taggert, perto de Houston e em frente de Blair — Opal estava dizendo.
Durante um momento, todos ficaram sentados olhando para os pratos ou a sala, ninguém falando nada.
— Espero que goste de rosbife — disse o senhor Gates começando a cortar o grande pedaço de carne.
— Tenho certeza de que gostarei mais do que em geral, isto é, até que Houston me contratasse uma cozinheira.
— E quem você contratou, Houston? — perguntou Opal, com uma ponta de gelo na voz, lembrando à sua filha que ultimamente andava saindo de casa, ficando fora durante horas sem que ninguém soubesse onde estava.
— A senhora Murchison, enquanto os Conrad estiverem na Europa. Senhor, o senhor Taggert pode ter algumas sugestões para investimentos — disse ela ao senhor Gates.
A partir daí, pensou Blair, nada parava o homem. Ele era como um elefante no meio de um bando de galinhas. Quando o senhor Gates perguntou-lhe sobre ações de estrada de ferro, Taggert levantou o punho e berrou que as estradas de ferro estavam morrendo, que o país todo estava coberto de estradas de ferro e não se ganharia mais dinheiro com elas, "só umas poucas centenas de milhares ou por aí". Seu punho desceu na mesa e tudo, inclusive-as pessoas, saltou.
Comparado com o temperamento e espalhafato de Taggert, Gates era um gatinho. No entanto Taggert não provocou nenhum desentendimento; ele estava certo sobre tudo, e falava em termos de milhões de dólares como se fossem grãos de areia.
E, como se sua voz alta e sua arrogância não fossem suficientes, as maneiras eram horrorosas. Cortou seu pedaço do assado com o lado do garfo, e quando a carne saiu do prato em direção a Blair nem ao menos parou sua conversa com Gates sobre como dirigir a cervejaria, enquanto puxava a carne de volta para o prato e continuava comendo. Ignorando os três vegetais que foram servidos, empilhou cerca de um quilo de purê de batata em seu prato e esvaziou a molheira no alto da montanha branca. Antes de terminar, comera metade do assado de cinco quilos. Derrubou a xícara de Houston, mas ela sorriu para ele e pediu à empregada que trouxesse um pano. Tomou seis copos de chá gelado antes que Blair visse que Susan, às escondidas, servia o copo dele de um jarro separado. Ela percebeu então que Houston tinha dado um jeito para que Taggert tomasse cerveja escura com gelo. Falava com a boca cheia e por duas vezes ficou com comida no queixo. Houston, como se ele fosse uma criança, tocava sua mão, e então seu guar-danapo, que ainda estava dobrado ao lado do prato dele.
Depois de um tempo, Blair parou de tentar comer. Não gostava de comida voando em sua direção ou talheres pulando, ou a maneira como aquele homem grosso e dominante monopolizava a conversa. Conversa, pois sim! Parecia que estava fazendo um discurso.
A pior parte era o modo como Houston, sua mãe e Gates estavam presos a cada palavra dele. Daria para pensar que suas palavras eram ouro. E talvez fossem, pensou Blair com desgosto. Ela nunca pensara muito sobre dinheiro, mas talvez dinheiro fosse o mais importante para outras pessoas. Certamente parecia ser muito importante para Houston, que estava disposta a submeter-se àquele homem horrível, medonho, pelo resto de sua vida.
Blair agarrou o candelabro antes que caísse, quando Taggert pegou mais molho. A cozinheira devia tê-lo feito num barril, pensou,
Foi quando Taggert fez uma pausa, suficientemente longa em sua proposta de sugerir que Gates participasse numa compra de terra, para olhar para Blair. De repente, parou de falar de todo e afastou sua cadeira.
— Doçura, é melhor irmos andando, se quiser chegar ao parque ainda enquanto estiver claro.
Que os Céus o ajudem, pensou Blair, mas devia ter modos suficientes para perguntar se todos já tinham terminado de comer. Ele estava pronto para sair, e despoticamente ordenava que Houston saísse com ele. E ela, obedientemente, seguiu-o.
— Oh, você, Lee — disse Opal com um sorriso, virando o pescoço para vê-lo, fazendo a pequena cadeira de balanço de carvalho estalar. — Não o ouvi entrar. — Olhou-o mais de perto. — Você me parece mais feliz do que uns dias atrás. Aconteceu alguma coisa? — Havia uma sugestão no rosto de Opal de "eu-te-disse".
Lee deu-lhe um beijo rápido na face, antes de sentar-se na cadeira perto dela, na varanda dos fundos. Ele estava jogando uma grande maçã verde de uma para a outra mão.
— Talvez eu não queira sua filha, e sim a queira para sogra.
Opal continuou costurando.
— Então, hoje, você acha que há uma possibilidade de conquistar minha filha. Se me lembro corretamente, na última vez que conversamos, você estava certo de que nunca a ganharia. Alguma coisa mudou?
— Mudou? Só o mundo todo. — Mordeu a maçã com prazer. — Vou ganhar. Não somente vou vencer, mas será por maioria. O pobre do rapaz Hunter não tem chance.
— Presumo que tenha encontrado a chave para o coração de Blair, e não é com flores nem bombons.
Leander sorriu, tanto para si mesmo como para ela.
— Vou cortejá-la com o que realmente ela gosta: ferimentos à bala, envenenamentos sangüíneos, infecções respiratórias, amputações, e tudo o mais que possa encontrar. Provavelmente adorará os rodeios de primavera por aqui.
Opal parecia horrorizada:
— Parece horrível. Tem de ser tão drástico?
— Pelo que posso dizer, quanto pior for o caso mais ela o aprecia. Desde que alguém esteja lá para ter certeza de que ela não o receba na cabeça estará ótima.
— E você será o alguém para tomar conta dela?
Leander levantou-se.
— Pelo resto da vida dela. Acredito que ouço minha amada agora. A senhora verá, em menos de uma semana, ela estará atravessando o altar para vir a mim.
— Lee?
Ele parou.
— E sobre St. Joseph?
Ele piscou para ela.
— Farei o possível para que nunca descubra. Eu quero que ela desista. Quem são eles para dizer que ela não pode trabalhar lá?
— Ela é uma boa doutora, não é? — Opal estava radiante de orgulho.
— Não é má — disse Lee, rindo, voltando para dentro da casa. — Não é má para uma mulher.
Blair encontrou Leander na sala de visitas. O dia anterior acabara sendo horrível. Alan não telefonara, não tivera notícias de Lee e, durante o dia todo, se preocupara com Houston e aquele homem horrível a quem estava se vendendo. Assim, era com alguma excitação que encontrava Lee naquele momento. Iria ele ser o dr. Lee ou aquele que a insultava a toda hora?
— Você queria me ver? — perguntou com cautela. Leander estava com uma expressão que ela nunca vira antes. Parecia ser de vergonha.
— Vim para falar com você, isto é, se não se importar de me ouvir.
— Claro que não — disse ela. — Por que me importaria de conversar com você? — Sentou-se numa cadeira de brocado vermelho.
Leander estava com o chapéu na mão, ameaçando torcê-lo até transformá-lo em tiras, e quando Blair acenou para que se sentasse, simplesmente fez que não com a cabeça.
— Não é fácil dizer o que vim falar. Não é fácil admitir o fracasso, especialmente em alguma coisa que se tornou tão importante para mim como a conquista de você.
Blair começou a dizer alguma coisa, mas ele levantou a mão.
— Não, deixe-me falar o que devo sem interrupções. É difícil para mim, mas tem de ser dito, porque é só nisso que posso pensar.
Caminhou até a janela, ainda torcendo o chapéu nas mãos. Ela nunca o vira nervoso antes.
— Sábado, o dia que passamos juntos como médicos, foi um dia monumental em minha vida. Até então, eu apostaria tudo que possuo, como uma mulher não poderia ser uma boa médica, mas você provou que eu estava errado. Naquele dia, você mostrou-me que uma mulher não só pode ser uma boa médica, mas pode até mesmo ser melhor que a maioria dos homens.
— Obrigada — disse Blair, e um pequeno arrepio de prazer percorreu-a com aquelas palavras.
— E é por isso que estou desistindo da corrida — disse Lee, de repente, virando-se para encará-la.
— Corrida?
— A competição ou seja lá como você a chame. Ontem percebi, enquanto trabalhava sozinho no hospital, que eu mudara depois do dia que passamos juntos. Veja, eu sempre trabalhei sozinho, mas naquele dia, quando trabalhamos juntos... Bem, foi como tudo que imaginara e mais. Nós nos entrosamos tão bem, tão ritmicamente, quase como amantes. — Parou e olhou para ela. — Digo isso alegoricamente, claro.
— Claro — murmurou ela. — Não estou certa de que entendo disso.
— Não vê? Posso ter perdido uma mulher, mas o que ganhei foi uma colega. Posso tratar uma mulher com pouco ou nenhum respeito, posso trapaceá-la para mostrar que seu amigo é um garoto mimado, que não sabe remar, nadar ou mesmo andar a cavalo, mas não posso nunca, nunca fazer isso com uma colega doutora a quem aprendi a respeitar e até admirar.
Blair ficou em silêncio durante um momento. Havia alguma coisa errada no que ele estava dizendo sobre Alan, mas suas palavras de elogio eram muito doces para fazer com que sofismasse sobre detalhes.
— Está dizendo que não quer mais casar comigo?
— Estou dizendo que respeito você, e que se vocêdiz que quer casar com Alan Hunter, sei que não posso ficar em seu caminho. Você e eu somos iguais na profissão médica, e não posso mais humilhar uma colega médica da maneira como vinha fazendo. Assim, você não é mais uma prisioneira aqui. Pode partir com o homem que ama a qualquer hora, e eu lhe asseguro que farei tudo para evitar que Gates deixe os outros saberem sobre a sua perda... da castidade.
Blair levantou-se.
— Não estou certa de ter entendido. Estou livre para partir? Você não está mais me chantageando, e não causará mais embaraços para Alan? E você está fazendo isso tudo porque acredita que sou uma boa médica?
— Está perfeitamente correto. Levei um tempo para entender, mas consegui. Que espécie de casamento poderíamos ter se era baseado em luxúria? Claro, há uma atração mútua entre nós, e talvez aquela única noite tenha sido extraordinária, mas isso não é base para casamento. O que você e Alan têm é real, vocês podem ficar juntos e conversar, têm interesses mútuos, e estou certo que você tem as mesmas... ah, reações ao toque dele como tem ao meu. Talvez vocês dois tenham feito amor diversas vezes nos últimos dias, por tudo que sei.
— Como disse?
Leander pendeu a cabeça novamente.
— Me desculpe. Não pretendi insultá-la outra vez. Parece que sempre meto os pés pelas mãos quando estou perto de você. Agora nunca ouvirá o que ainda tenho para lhe dizer.
— Ouvirei — disse ela. — Conte-me o resto. — Blair sentia-se estranhamente desanimada. Claro, o fato de ele respeitá-la como médica era maravilhoso, mas ao mesmo tempo ela queria alguma coisa mais, e não sabia o quê.
Quando olhou-a outra vez, os olhos de Lee estavam brilhando intensamente.
— Sei que quer voltar para a Pensilvânia, eu não a culpo, mas trabalhar com você foi uma alegria e um prazer, e, já que nunca mais terei a chance, porque tenho certeza de que não desejará voltar para Chandler depois do que aconteceu nos últimos dias, gostaria que me desse a honra de trabalhar comigo nos próximos dias. Meu pai concordou em persuadir a diretoria a permitir que você fique no hospital sob minha responsabilidade, e você e eu poderemos trabalhar juntos até depois do casamento de Houston. Oh, Blair, poderia mostrar-lhe meus planos para a clínica de mulheres. Nunca os mostrei a ninguém antes, e realmente gostaria-de compartilhá-los. Talvez possa até ajudar-me a planejá-lo, isto é, se tiver tempo.
Blair caminhou até o lado mais afastado da sala. Não pensava que já tivesse aproveitado tanto naquele dia com Leander, e se eles não estivessem mais noivos, talvez Houston desistisse de casar com Taggert e...
— E Alan pode trabalhar conosco. Puxa, se ele for tão bom quanto metade do que você é... Ele é?
Blair voltou ao presente e percebeu com um pouco de culpa que nem tinha pensado em Alan.
— Você quer dizer, se ele é tão bom quanto eu? Acho que sim. Claro que é! Embora ele não tenha tido a oportunidade de trabalhar com médicos como eu tive. Quero dizer, eu tive muita sorte. Meu tio Henry é bastante respeitado, e desde que eu era pouco mais de uma criança eu assistia as cirurgias e ajudava em casos de emergência e tive a oportunidade de assistir muitos homens eminentes, mas... — Parou. — Claro, Alan é um excelente médico — disse com firmeza.
— Tenho certeza de que é, e estou certo que será uma alegria trabalhar com ambos. A propósito, Alan prestou aquele exame para o hospital St. Joseph?
— Sim, mas ele não...
— Não o quê?
Sua boca fechou-se numa linha firme:
— Eles só aceitaram os seis primeiros colocados.
— Sei. Bem, talvez estivesse num mau dia. Posso vir buscá-la amanhã pela manhã, às seis? Até então, minha biblioteca está sempre aberta para uma amiga colega. — Beijou-lhe rapidamente a mão e partiu.