Mulher de Fogo
— Se você não comer todo o…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Se você não comer todo o estoque da senhorita Emily. — Ele parecia consternado quando ela imediatamente deixou o sanduíche que pegara. — Por que isso agora? Blair, não sou tão rico como Taggert, mas certamente posso pagar um par de empregadas.
Ela levantou-se.
— Vamos indo? Mais tarde estou esperando um encanador.
Ainda com o olhar intrigado, Lee seguiu-a para fora da casa de chá.
Capítulo XXVII
FRANÇOISE BATEU o copo na mesa e viu, com desgosto, que o vidro era muito pesado, muito grosseiro, para quebrar.
— Foi tudo culpa dela — resmungou.
Atrás dela um homem falou, fazendo-a pular. Ela voltou-se para olhar para LeGault, alto, magro, moreno e esguio. Ele tinha o hábito de entrar e sair dos quartos sem barulho. Brincava com seu pequeno bigode.
— Culpando-a outra vez?
Françoise não se preocupou em responder-lhe ao levantar-se e caminhar até a janela. As persianas estavam abaixadas e as pesadas cortinas de veludo fechadas. Ninguém devia vê-la. Já fazia uma semana que vivia dentro daquele quarto. Os homens de seu bando estavam ou na prisão ou no hospital. Os ursos que aquela mulher atraíra ao desfiladeiro tinham causado pânico nos homens ao ponto de um deles ter sido pisoteado pelos cavalos assustados. Dois haviam sido baleados e a perna de outro fora malhada por um urso zangado. Quando os homens do xerife conseguiram abrir a entrada do desfiladeiro, os bandidos estavam implorando para serem levados em custódia.
E tudo por causa de uma mulher.
— Eu ainda a estou culpando — disse Françoise com raiva. Principalmente o que odiava era ter feito o papel de tola. Aquele bando idiota de homens que a seguia não tivera capacidade bastante para encontrá-la, e no entanto ela ficara retida praticamente embaixo de seus narizes.
Na última semana, tivera tempo para repassar cada detalhe do que acontecera, e agora via como aquela mulher a usara. Viu como Blair fingira estar zangada com seu elegante marido, fingira drogá-lo e então "esquecera" a faca para que pudesse fugir.
— Não me parece que você tenha considerado o envolvimento do doutor nisso — disse LeGault com um sorriso malicioso. — Só a mulher é culpada, certo?
— Ela foi a instigadora. — Françoise encolheu os ombros. — É ela que eu gostaria de ver pagar.
— E eu gostaria de ver Westfield pagar — disse LeGault.
— E o que foi que ele lhe fez?
LeGault esfregou os pulsos. Ele tinha cuidado em manter as cicatrizes cobertas — cicatrizes feitas pela algema de ferro que usara na prisão onde Westfield o pusera.
— Digamos que tenho razões suficientes para vê-lo receber parte do que me deu. — Fez uma pausa. — Hoje à noite, o mensageiro chega com notícias. Espero que ele saiba o dia do embarque.
— Não mais do que eu — disse Françoise, demonstrando emoção. — Depois de feito esse serviço, estou indo para o leste, para o Texas.
— E deixar sua querida e devotada quadrilha para trás? — disse LeGault, provocando.
— Idiotas! Vai fazer bem para eles apodrecerem na prisão durante alguns anos. Sobre hoje à noite: acha que poderia ir com você? Farei qualquer coisa para sair daqui um pouco.
— Qualquer coisa?
— Qualquer coisa que não prejudique nossa sociedade — disse ela com um sorriso, pensando que preferia entrar num fosso de cascavéis do que dormir com LeGault. — Será noite e ninguém me verá. Preciso de ar, e esta espera está me deixando infeliz.
— Certo, por que não? Tenho de encontrar um homem no meio de lugar nenhum, atrás da mina Little Pamela. Mas, se alguém reconhecer você, não espere que eu fique do seu lado. Ninguém está atrás de mim, e pretendo continuar desse jeito.
— Não se preocupe comigo hoje à noite. Você tem de se preocupar como pegar as caixas que roubamos de Chandler, enquanto eu me escondo e você fica bem à vista.
— Não se preocupe com isso, pensarei em alguma coisa — disse ele da porta. — Voltarei para buscá-la à meia-noite.
Horas mais tarde, eles cavalgavam para fora da cidade, evitando as luzes das casas, mesmo as luzes das carruagens. Françoise mantinha o chapéu abaixado no rosto e, com seu casaco grosso e calças grandes, não parecia uma mulher.
Encontraram o mensageiro, e as notícias eram agradáveis para eles. Sorrindo, começaram a descer a encosta onde seus cavalos estavam escondidos.
— Silêncio! Ouço alguma coisa — disse LeGault, saltando para esconder-se atrás de uma pedra.
Françoise escondeu-se, também, bem quando viam dois homens surgirem das árvores, o luar iluminando-os nitidamente. Um era baixo, troncudo e parecia nervoso, e o outro, alto, esbelto, com a luz da lua fazendo reluzir o revólver no coldre; estava calmo e atento, e parou, quando o baixinho subiu numa carruagem bem escondida atrás de uma moita de pinheiros. Ainda observando, ele riscou um fósforo e acendeu um charuto.
— É Westfield! — falou Frankie ofegante, e LeGault fez-lhe sinal para ficar quieta. Eles viram como o homem alto, Leander, dirigiu para sair. — Mas não havia outro na carruagem com ele.
— Para onde ele foi? — perguntou Françoise, quando a carruagem se fora, enquanto virava-se para encostar-se na rocha.
— Está escondido — disse LeGault pensativamente. — Agora, por que o nosso doutor correto, reformador, iria esconder um homem em sua carruagem no meio da noite?
— Aquilo ali não é uma mina de carvão?
— Certo, mas que importância tem isso? Pensa que ele está planejando roubar algumas toneladas de carvão?
— Ele e aquela cachorra dele roubaram dinamite de algum lugar, provavelmente da mina de carvão.
LeGault brincou com a ponta do bigode.
— Ele está muito familiarizado com minas de carvão.
— Você pode ficar aqui a noite toda com seu quebra-cabeças, mas está muito frio para mim.
— Ainda temos muito que planejar, e pouco tempo para fazê-lo. — LeGault não disse uma palavra enquanto seguia Françoise de volta até os cavalos.
— Essa mulher com que Westfield casou-se — disse ele, com as mãos na sela —, ela é uma Chandler, não é?
— Como o nome da cidade, sim.
— É mesmo como o nome da cidade. O mais respeitável e insuspeito nome da cidade.
— No que está pensando?
— Você viu Westfield e a noiva juntos. O que você acha que ele seria capaz de fazer por ela?
— Fazer? — Françoise pensou na maneira como a mulher olhara para o doutor, como se ele pudesse desaparecer a qualquer momento, e se ele começasse a esquecer, ela o agarraria pela aba do casaco. — Acredito que ela faria qualquer coisa, tudo, por aquele homem.
LeGault deu um sorriso que mostrou dentes perfeitos, até brancos.
— Eu não sei o que vimos aqui hoje à noite, mas vou descobrir. E, quando o fizer, verei como poderei usá-lo. Precisamos de um jeito de remover aquele carregamento para fora de Chandler.
Françoise também começou a sorrir.
— E quem melhor para fazê-lo do que uma Chandler?
Leander e Blair trabalharam na clínica durante três dias, com diversas equipes de trabalhadores, antes de tê-la pronta. Na noite do terceiro dia, Lee subiu numa escada e pregou a tabuleta grande: Clínica Westfield para Mulheres.
Quando desceu da escada, viu Blair sorrindo para a tabuleta com a expressão de uma criança que provou sorvete pela primeira vez.
— Vamos entrar — disse ele. — Tenho uma celebração planejada para nós. — Como Blair não se movia, ele pegou-lhe a mão e puxou-a para dentro.
Sob uma tampa de carvalho, dentro de uma pia galvanizada, estavam duas garrafas de champanha no gelo.
Blair recuou.
— Lee, você sabe o que acontece comigo quando tomo champanha.
— Eu não sou de esquecer — disse ele, ao estourar a rolha, pegar um copo de cristal, enchê-lo e entregar-lhe.
Blair tomou um gole cauteloso, olhou para ele por sobre a borda do copo, esvaziou-o e entregou-o para ser enchido outra vez.
— Não está aborrecida com relação a St. Joseph? Não desejaria estar estagiando lá?
Ela manteve os olhos na bebida que Leander estava pondo em seu copo estendido.
— E deixar de trabalhar com o homem que amo? Ei! — disse ela, quando Lee continuou a encher e o copo transbordou. Olhou para ele e viu-o observando-a com os olhos quentes.
— Durante quanto tempo? — murmurou ele.
Blair tentou ser indiferente. As palavras saíram sem perceber:
— Talvez para sempre. Talvez eu o tenha amado desde a primeira vez que o vi. Talvez eu tenha tentado tudo para odiá-lo, provavelmente porque Houston reivindicou-o primeiro, mas nada parece ter funcionado. Não importa o que fizesse contra você, você sempre se saía melhor.
Lee estava a um passo dela, mas o calor de seus olhos traziam-na mais para perto.
— Não foi assim tão mau — disse Blair.
— Não? As pessoas ainda me perguntam se gostaria de ir remar. E houve aquela virada, no último minuto no altar, e todos querem saber se eu sei com qual gêmea casei.
— Mas não houve mais cobras na sua lancheira — disse Blair solenemente. Leander colocou seu copo de vinho, depois o dela, na beirada da pia e caminhou em sua direção.
— Você tem muito que me compensar.
— Sempre manterei seus bisturis afiados — disse ela, afastando-se.
Ele só ficou ali, sem dizer palavra, observando-a. Estava quase noite lá fora e bastante escuro na sala de cirurgia. Com os olhos presos nos dela, Lee começou a tirar as roupas, centímetro por centímetro expondo a pele quente e morena, os longos músculos vibrando, movendo-se.
Blair ficou paralisada onde estava, os olhos hipnotizados por ele, olhando seus dedos nos botões, olhando-o quando expôs-se deliciosamente aos poucos. Suas pernas eram longas, de coxas grossas, grandes músculos em volta dos joelhos, canelas fortes e pesadas. Sua respiração acelerou e sua garganta secou ao vê-lo ali na sua frente, nu, com seu desejo evidente.
Ainda olhando-a, ele sentou-se num banco longo e baixo, as pernas separadas, seu corpo pronto para ela.
— Venha para mim — murmurou com uma voz que vinha de algum lugar dentro dele.
Blair não se preocupou em tirar qualquer roupa de cima, mas soltou o cordão de suas calças e deixou-as cair enquanto andava. Sua saia longa de fustão encobriu-os quando montou-o deslizando facilmente em sua masculinidade. Por um momento, enroscou seus pés calçados de couro em suas canelas, forçando-se para baixo, mais e mais junto dele, sentindo-o contra sua pele.
Então, na ponta dos pés, começou a mover-se para cima e para baixo, lentamente a princípio, observando. O rosto dele estava inexpressivo, isento de traços, quase angelical, quando o prazer começou a espalhar-se nele. Um momento mais tarde, arqueou-se contra ele, trazendo os joelhos para cima do banco. As mãos de Lee deslizaram sob sua saia, começando a mover-se para cima e para baixo em suas coxas, agarrando-a, ajudando-a.
Os olhos de Lee fecharam-se por um segundo, abriram-se e ele pôs a cabeça para trás e escorregou. Blair passava as mãos dos ombros para o pescoço dele, começando a mover-se mais rápido e firme, suas coxas forçando, apertando, enquanto Lee pegava em suas nádegas, ajudando-a a mover-se.
Ela arqueou-se, firme, com grande esforço, abraçando-o enquanto seu corpo contraía-se e imobilizava-se por um momento num èxtase final. Lee abraçou-a, apesar dela quase lutar com ele, não deixando que caísse, ele mesmo estremecendo com a força de sua paixão. Por um momento, Blair não sabia onde estava, quando voltou de seu poderoso abraço e agarrou-se a Lee. Depois de um momento, ele recuou e sorriu para ela.
— É bom termos interesses mútuos.
— Alô. Há alguém aí?
— É seu pai — disse Blair, horrorizada.
Lee tirou-a dele.
— Vá para lá e distraia-o enquanto me visto.
— Mas eu não posso... — começou ela, pensando que ele saberia o que estivera fazendo só de olhar para ela.
— Vá! — mandou Lee, e deu-lhe um pequeno empurrão em direção à porta.
— Aí está você — cumprimentou-a Reed, e então lançou um olhar no rosto corado de Blair e começou a sorrir.
— Suponho que Lee também esteja aqui.
— Sim — disse ela, e sua voz hesitou. — Ele virá... em um minuto. Posso lhe oferecer algum refresco? — Parou ao lembrar-se que a única coisa que tinha era champanha.
Os olhos de Reed brilhavam:
— Venha aqui fora. Tenho uma coisa que queria mostrar-lhe.
Com uma olhada por cima do ombro, viu que Lee ainda não estava pronto, e seguiu Reed para fora. Parado em frente da clínica estava uma pequena carruagem, linda, preta por fora, pretos os bancos de couro, e uma caixa preta nos fundos para guardar suprimentos. Blair tocou o trilho de bronze que segurava a coberta.
— É linda. — Ela achou estranho que Reed comprasse tal carruagem para si, pois tinha decididamente um ar feminino a sua volta.
— Olhe a frente dela — disse Reed, sua pequena e feia cara de buldogue ainda sorrindo para ela.
Curvou-se para ver que havia uma placa de bronze bem abaixo do banco único. Estava escrito: Dra. Blair Chandler Westfield. Levou um momento para que compreendesse.
— Para mim? A carruagem é para mim?
— Não posso ter minha nova filha correndo pelas ruas de Chandler a pé, e sei que esse meu filho não perderá de vista essa velha carruagem. Portanto pensei que era melhor que tivesse a sua própria. Gosta dela?
Blair ficou parada por um momento e olhou para o carro. Parecia ser aquilo o que ela precisava para acabar de afirmar ser realmente uma doutora.
— Sim — exclamou. — Oh, sim!
E no momento seguinte, correu para abraçar Reed e beijar seu rosto, e antes que ele ficasse embaraçado, estava subindo na carruagem e olhando cada ranhura e cada canto. Abriu a caixa dos fundos.
— Não chega nem perto da sua, Lee. Talvez possamos mandar alargá-la. Tenho certeza que vou precisar carregar muita coisa.
— Tal como rifles, talvez? — disse Lee. — Olhe, se você pensa que vou permitir que ande aí pelo campo sozinha em sua nova carruagem, está profundamente enganada. Pai, gostaria que tivesse me consultado a esse respeito. Dar-lhe liberdade é como deixar um tornado autodestrutivo à solta. Ela irá correndo atender um caso após o outro e acabará sendo morta.
— E suponho que você seja muito melhor — replicou Blair, olhando para ele, de cima do banco. — Você anda no meio de guerras de bandos. Pelo menos, eu fui para lá sem saber do que se tratava.
— E isso é pior — disse Lee. — Tudo o que alguém tem de dizer é que precisa de ajuda, e você logo vai. Você não tem senso de cuidado consigo mesma. Veja o que aconteceu com a quadrilha que a raptou. Você pulou no cavalo com um homem sem ao menos perguntar para onde ele a estava levando.
— Espere um minuto — disse Reed, e havia riso em sua voz. — Creio que não pensei em nada disso. Talvez eu tenha aprendido com você, Lee, que não posso evitar que faça o que quer fazer. Talvez Blair seja igual a você.
— Ela não tem idéia do que é seguro para ela — disse Lee aborrecido.
— E você tem? — Os olhos de Reed estavam fixos nos do filho.
Blair observou-os, e ficou mais convencida de que Lee estava fazendo alguma coisa perigosa, mas não estava segura de ser alguma coisa que eventualmente ajudasse outras pessoas.
Reed olhou para o cavalo marrom que estava atrelado na carruagem.
— Mandei pedir um appaloosa igual à de Lee, mas o cavalo ainda não chegou. Pensei que gostaria de ser reconhecida, como Lee.
— Eles irão reconhecê-la porque eu estarei do lado dela — disse Lee com determinação.
Ela não respondeu a isso, mas simplesmente deu-lhe um pequeno sorriso com as sobrancelhas levantadas, que a fez pensar que ele iria pular para junto dela — e não gostava de pensar no que faria com ela.
Reed soltou uma risada alta e bateu fortemente no ombro do filho.
— Espero que ela lhe dê tanto trabalho como você deu à sua mãe e a mim. Talvez você assim entenda parte do que passamos. — Estendeu a mão para ajudar Blair a descer. — Já lhe contei quando Lee trocava o veneno de rato no sótão por farelo de pão? Nós tínhamos todos os ratos da cidade natal de minha esposa em nossa casa, antes de descobrirmos o que estava acontecendo.
— Não tinha contado — disse ela, olhando para as costas de Lee quando entravam na clínica. — E certamente gostaria de ouvir mais.
Capítulo XXVIII
FAZIA UM PAR de semanas que Blair e Leander estavam casados, quando a clínica Westfield foi oficialmente aberta. É claro que ela não terminara o estágio, mas tanto ela como Lee sabiam que aquilo era só uma formalidade. Blair tivera anos de prática em hospitais.
No dia em que a clínica abriu, ela estava tão nervosa que virou o café e deixou cair o bolinho de milho no chão da sala de jantar. Sentindo-se culpada, apanhou o bolinho e olhou em direção à porta da cozinha.
— Ela não morde, você sabe.
— Talvez ela não morda você, mas quanto a mim não estou tão certa.
Dias atrás, a governanta-cozinheira que Houston contratara chegara na casa deles e Blair achara-a uma mulher formidável: corpo magro, cabelos lisos cínza-aço, olhos escuros duros, e a boca num risco. A sra. Shainess mal chegava até seu ombro, mas, toda vez que entrava na sala, Blair se retesava. A mulherzinha a fazia sentir desajeitada e insegura. No mesmo dia em que chegou, foi revistar seu pequeno guarda-roupa, dizendo sucitamente que procurava peças de roupas que precisassem de conserto ou limpeza. Ela suspirava enquanto pegava umas poucas peças de Blair, e durante horas a casa ficou com cheiro de produtos químicos, enquanto ela limpava aquelas roupas.
Naquela noite, quando Blair e Lee voltaram do hospital, a sra. Lainess chamou-o de lado para uma conversa particular. Depois, em um sorriso, ele contou a Blair que a governanta não achava que ela tivesse um guarda-roupa apropriado para uma dama e que deveria ir na costureira de Houston no dia seguinte.
Blair tentou protestar, mas Lee não quis ouvir. Ela já estava bastante preocupada por Lee estar com dívidas sem que ela aumentasse suas despesas. Assim, no dia seguinte, quando foi à costureira, pretendia encomendar muito, mas muito pouca coisa, mas descobriu que Lee já telefonara e encomendara o dobro do que Blair achasse que ia precisar. Não pôde evitar de ficar satisfeita com as roupas lindas, e voltou rapidamente para casa, em sua nova carruagem, planejando agradecer-lhe da melhor maneira que sabia.
Mas, quando entrou na sala de estar, Lee estava absorto com uma carta que segurava — e, vendo Blair entrando na sala, ele amassou-a, acendeu um fósforo e queimou-a na lareira.
Ela não lhe perguntou sobre a carta, porque não queria ouvi-lo dizer outra vez que ela não compreenderia. Todo o entusiasmo com as roupas novas a deixou, e ela passou a tarde tentando forjar explicações racionais para as ações de Lee: ele estava ajudando alguém; precisava de dinheiro; era um criminoso; era um agente de Pinkerton.
A noite fizeram amor lentamente, e Blair agarrava-se a Lee. Estava chegando a um ponto em que não se importava com o que ele estivesse fazendo. Lee poderia secretamente possuir todas as casas de jogo da rua River, e não tinha certeza de que isso lhe importasse.
No primeiro dia em que a clínica Westfield ficou oficialmente aberta, ele foi chamado para ajudar na mina WindlasS, onde o fim de um túnel tinha desabado. Blair quis ir junto, mas Lee mandou-a para a clínica, para cuidar dos pacientes necessitados.
Quando abriu a porta às oito da manhã, a enfermeira de Lee, Srta. Krebbs, e três pacientes já estavam esperando. A sra. Krebbs, distante como sempre, acenou ligeiramente para ela e foi para a sala de cirurgia checar os remédios e instrumentos.
— Por aqui — disse Blair, guiando a primeira paciente p a a sala de ar exames.
— Onde está o doutor? — perguntou a mulher, apertando a bolsa no peito, como se alguém quisesse roubá-la.
— Eu sou uma médica. Agora, se sentar-se e contar-me o que está errado, poderei...
— Quero um médico de verdade —- disse a mulher, recuando contra a porta.
— Garanto-lhe que sou uma médica diplomada. Se me disser.
— Não vou ficar aqui. Pensei que isto fosse ser um hospital de verdade, com médicos de verdade.
Antes que Blair pudesse dizer qualquer palavra, a mulher passou pela porta se apressando em direção à rua. Ela controlou a raiva e fez entrar o paciente seguinte.
A segunda mulher logo foi lhe dizendo que possivelmente não poderia saber o que havia de errado com ela, porque sua doença não era gravidez. Blair teve dificuldade de entender, até que percebeu que a mulher pensara que ela fosse parteira. E, antes que lhe explicasse, também se foi. A terceira saiu depois de descobrir que o atraente dr. Westfield, que encontrara no último verão em Denver, não iria examiná-la.
Quatro horas depois, ninguém mais veio até a clínica, e Blair imaginou o telefone pegando fogo com todos os mexericos maldosos que passavam pelos fios. Às quatro horas, um vendedor fazendo propaganda de um líquido rosado para "problemas femininos" apareceu por lá. Ela fez com que saísse polidamente, e voltou para esticar as toalhas que já estavam esticadas.
— Elas querem um homem — disse a sra. Krebbs. — Elas querem um médico habilitado como o doutor Leander..
— Eu sou uma médica habilitada — disse Blair por entre os dentes.
A sra. Krebbs fungou, levantou o nariz e foi para a outra sala.
Blair trancou a porta às seis horas e foi para casa.
Em casa contou a Lee sobre a falta de pacientes. Ele tivera tanto trabalho e despesa para começar a clínica que não o queria aborrecer. Além disso, ele já estava preocupado.
Ela encheu a banheira, e preparou-se para sair, enquanto ele se despia.
— Não vá. Fique comigo.
A princípio sentiu-se um pouco envergonhada, vendo-o despirse e entrar na banheira. De certa forma, aquilo era mais íntimo do que fazer amor.
Lee recostou-se na banheira, um olhar distante nos olhos, e começou a contar-lhe tudo por que passara naquele dia. Contou-lhe que tirara dois corpos dos escombros da mina, e tivera de amputar o pé de um homem enquanto ainda estava no poço. Ela não o interrompeu, e Lee continuou a descrever a sensação de ficar dentro da mina: o peso das paredes que cercam, a falta de ar fresco, a escuridão total, sem lugar para levantar-se, sem lugar para mover-se.
— Eu não sei como eles fazem isso, como podem andar naquilo dia após dia. A qualquer momento, um teto pode cair sobre eles. Cada dia eles encaram mil maneiras de morrer.
Blair lavava um dos pés do marido.
— Houston diz que o único meio deles conseguirem alguma coisa é os homens juntarem-se num sindicato.
— Como Houston saberia disso? — retrucou ele.
— Ela mora aqui — disse Blair, surpresa. — Ela escuta coisas. Ela disse que alguém está trazendo ativistas de sindicatos para os campos e que vai haver uma revolução em breve. E...
Lee puxou a toalha das mãos dela.
— Espero que não escute tais mexericos. Ninguém, nem os mineiros nem os proprietários, quer uma guerra. Tenho certeza de que tudo pode ser encaminhado pacificamente.
— Também espero. Não tinha idéia de que você se preocupasse tanto com os mineiros.
— Se você visse o que eu vi hoje, você também se preocuparia.
— Eu queria ir com você. Talvez na próxima vez.
Lee inclinou-se para frente e beijou-lhe a testa.
— Não quis me queixar. Eu não queria você lá e, além dissso tem todos os seus pacientes na clínica para cuidar. O que será que a nossa linda governantazinha preparou para o jantar de hoje?
Blair sorriu para ele.
— Não espere que eu tenha coragem bastante para perguntar. Descerei a mais funda das minas com você e enfrentarei tetos ruindo, mas mantenha-me longe da cozinha da senhora Shainess.
— Tetos ruindo... isso me lembra alguma coisa. Como estão você e a senhora Krebbs? Já se entenderam?
Blair deu um gemido e, enquanto Lee se vestia, começou um solilóquio sobre a sra. Krebbs.
— Ela pode ser um anjo na sala de operações, mas em qualquer outro lugar é uma bruxa.
Quando Lee estava pronto para descer e jantar, estava outra vez sorrindo e gentilmente perguntando se as boas qualidades da sra. Krebbs não superavam as más. Naquela noite ficaram aconchegados e adormeceram juntos. O segundo dia da clínica aberta foi pior: ninguém apareceu. E, quando Blair voltou para casa, Lee recebeu um daqueles chamados misteriosos e saiu, voltando antes da meia-noite. Ele enfiou-se na cama ao lado dela, sujo, exausto, e pela primeira vez ela teve a experiência de ouvir um ronco masculino. Gentilmente tocou seu ombro algumas vezes, mas não teve resultado. Assim, com um grande empurrão, puxou-o para que ficasse sobre o estômago e se aquietasse.
No terceiro dia, Blair estava sentada à sua escrivaninha extremamente limpa, e ouviu a campainha de fora tocar. Quando foi até a sala de espera, viu sua amiga de infância, Tia Mankin. Tia estava sofrendo de uma tosse seca persistente.
Blair ouviu suas queixas, receitou um xarope suave para tosse, e ostentava um enorme sorriso quando a paciente seguinte chegou, outra amiga de infância. Conforme o dia passava, e uma após outra amiga aparecia com alguma queixa vaga, ela não sabia se ria ou chorava. Estava contente por aquelas jovens ainda a considerarem sua amiga, mas parte dela se sentia frustrada pela ausência de pacientes reais.
Mais para o fim da tarde, Houston chegou em sua pequena carruagem e disse a Blair estar desconfiada de uma gravidez. Depois do exame em que constatou que a irmã não estava grávida, Blair mostrou-lhe toda a clínica. A sra. Krebbs já tinha ido para casa, e as gêmeas estavam sozinhas.
— Blair, eu sempre te admirei tanto! Você sempre foi tão valente.
— Eu? Valente? Não sou nem um pouco valente.
— Mas olhe para tudo isso. Aconteceu porque você sabia o que queria, e saiu e conseguiu. Queria ser uma médica, e não deixou nada ficar em seu caminho. Eu também tinha sonhos, mas fui muito covarde para persegui-los.
— Que sonhos? Quero dizer, além de Leander?
Houston fez um gesto com a mão.
— Penso que escolhi Lee porque era um sonho respeitável. Mamãe e o senhor Gates estão no fundo do coração, e de resto eu tinha aprovação deles. — Parou e sorriu. — Penso que havia uma parte de mim que se alegrava com todas aquelas peças que você pregava no Lee.
— Você sabia a respeito?
— Da maior parte delas. Depois de um tempo, comecei a esperar por elas. Fui eu quem sugeriu a Lee que John Lechner era o feitor.
— John sempre foi um fanfarrão, e tenho certeza de que mereceu tudo o que recebeu de Lee. Houston, não tinha idéia de que se achasse uma covarde. Eu sempre quis ser perfeita como você.
— Perfeita! Não, eu só era amedrontada, medo de desapontar mamãe ou de enraivecer o senhor Gates, de não levar a vida que a cidade esperava de uma Chandler.
— Enquanto parecia que eu deixava todos zangados mesmo sem fazer esforço. Você tem tantos amigos, tantas pessoas a amam.
— Claro que sim — disse Houston, com alguma raiva na voz. — Eles também a amarão" se fizer pelas pessoas o que eu faço. Alguém diz "vamos fazer uma festa", então outra pessoa diz "podemos chamar Blair-Houston para fazer todo o trabalho". Eu era muito covarde para dizer não. Organizei festas às quais nem m mo fui. Como sonhava em dizer-lhes não! es Costumava imaginar-me arrumando uma mala e descendo aquela árvore e simplesmente fugindo. Mas era covarde demais. Você disse que eu levava uma vida inútil e foi mesmo.
— Eu estava ciumenta — murmurou Blair.
— Ciumenta? Do quê? Com certeza não era de mim.
— Não percebi até que Lee me fez ver. Ganhava prêmios, tirava notas altas nos testes, recebia muitas honrarias, mas sei que sempre fui sozinha. Doía quando o senhor Gates dizia que não me queria, mas sim a você. Doía quando você me escrevia sobre todos os homens com quem dançava, noite após noite. Eu estava estudando um capítulo sobre a maneira correta de se amputar uma perna e parava para reler uma de suas cartas. Os homens jamais gostavam de mim como de você, e algumas vezes pensei em desistir da medicina se pudesse ser uma mulher normal, com cheiro de perfume e não de fenol.
— E quantas vezes desejei poder fazer alguma coisa além de escolher as cores de meu próximo vestido. — Houston suspirou. — Os homens só gostavam de mim porque me achavam, como Leander disse certa vez, maleável. Gostavam da idéia de ter uma mulher que pudessem amedrontar. Para a maioria dos homens, eu era um cãozinho para buscar os chinelos para eles. Queriam casar comigo porque não teriam nenhuma surpresa por parte de Houston Chandler.
— Você acha que foi por isso que Lee pediu que casasse com ele?
— Algumas vezes, não tenho certeza de que ele me pediu. Nós nos vimos umas poucas vezes depois dele ter voltado, e suponho que eu esperava tanto casar com ele que, quando a palavra casamento foi sugerida, eu disse sim. Na manhã seguinte o senhor Gates perguntou se já era hora de pôr o anúncio de noivado no jornal. Concordei, e a próxima coisa que vi foi a casa cheia de gente me desejando uma longa vida de felicidade.
— Conheço os cidadãos de Chandler e sua curiosidade. Mas você amou Lee durante todos esses anos.
— Suponho que sim, mas a verdade é que nunca parecemos ter muito o que dizer um ao outro. Você e Lee conversam mais.
Blair ficou quieta um longo tempo. Parecia irônico que durante todos aqueles anos tivesse invejado sua irmã e ela ao mesmo tempo também o fizesse.
— Houston, você disse que tinha sonhos dos quais sentia medo. Quais eram eles?
— Nada demais. Nada como você e a medicina. Mas pensava poder ser capaz de escrever. Não uma novela ou alguma coisa grandiosa, mas pensava em escrever artigos para revistas femininas. Talvez sobre como limpar cetim ou fazer uma máscara de lama realmente boa.
— Mas o senhor Gates odiaria isso, não é?
— Ele dizia que mulheres que escreviam provavelmente eram adúlteras expulsas por seus maridos que precisavam se sustentar.
Os olhos de Blair se arregalaram.
— Ele não mede palavras, não?
— Não. E eu deixei que me atazanasse durante anos.
Blair correu o dedo pelo alto de um armário.
— E seu marido não a atazana? Sei que disse que o amava, mas agora é... quero dizer, a cerimônia já acabou e você vive com ele.
Houston lhe dissera diversas vezes que amava seu marido, mas Blair não fora capaz de acreditar. Na véspera, vira Taggert em frente do Chandler National Bank. O presidente do banco, metade do tamanho dele, olhava para cima, para o homem enorme, e falava o mais rápido que podia. Ele parecia simplesmente aborrecido ao olhar por cima da cabeça do homem, para algum lugar da rua, e então tirara um grande relógio de ouro do bolso, dera uma olhada e se abaixara para o banqueiro. "Não", ouvira-o dizer antes de ir embora. Ele parecia inacessível aos pedidos para ficar e ouvir. E era como Blair pensava nele: inacessível. Como podia Houston amar um homem como ele?
Quando Blair levantou os olhos, Houston estava sorrindo.
— Amo-o cada dia mais. E você e Lee? No dia do casamento, você não acreditava que ele a amasse.
Blair pensou naquela manhã, quando o entusiasmo deles foi tanto que tinham caído da cama, e mais tarde quando a sra. L ness quase derrubara o café da manhã na mesa. Quando a governanta deu as costas, Lee virara os olhos de tal forma que Blair começara a querer rir.
— Lee está bem — disse por fim e fez Houston rir.
A irmã começou a vestir as luvas.
— Estou contente de que tudo tenha se resolvido. É melhor que eu vá embora. Kane e o resto de minha família estarão precisando de mim. — Parou um momento. — Que palavra adorável. Posso não ter um diploma médico, mas precisam de mim.
— Eu preciso de você — disse Blair. — Foi você ou mamãe quem organizou todas as minhas "pacientes"?
Houston arregalou os olhos.
— Não tenho idéia do que quer dizer. Eu simplesmente vim aqui porque esperava estar grávida. Pretendo voltar pelo menos uma vez por mês ou qualquer outra vez que não me sinta bem.
— Acho que devia visitar seu marido com mais freqüência, e não a mim, se quer um bebê.
— Assim como ouvi dizer que está esgotando Leander todas as noites e manhãs?
— Eu o quê? — começou Blair, e então lembrou-se de sua exibição no telefone. Claro que já se espalhara pela cidade.
— A propósito, como está se saindo a senhora Shainess?
— Terrível. Ela não me aprova.
— Isso é bobagem. Ela conta vantagem para todo mundo sobre sua senhora doutora. — Houston beijou o rosto da irmã. — Devo ir. Ligarei amanhã.
Capítulo XXIX
NA MANHÃ SEGUINTE, bem cedo, Blair levantou os olhos de sua escrivaninha e viu Nina Westfield, então Hunter, parada à sua frente.
— Alô — disse Nina mansamente, com os olhos meio implorantes. — Espere — disse ela, quando Blair começou a se levantar. — Antes que diga alguma coisa, deixe-me dar-lhe algumas explicações. Acabo de saltar do trem e vim direto para cá. Ainda não vi papai ou Lee, mas, se você disser que não agüenta olhar para mim, partirei no próximo trem e nunca mais terá de me ver.
— E perder a oportunidade de lhe agradecer todos os dias pelo resto da minha vida? — perguntou Blair, os olhos brilhando.
— Agradecer...? — disse Nina, e então entendeu o que Blair queria dizer e, no minuto seguinte, estava puxando a cunhada para fora da cadeira, abraçando-a e chorando em seu ombro. — Oh, Blair, tenho estado tão preocupada que não tenho realmente aproveitado o que fiz. Alan sempre diz que você amava Lee, só que não sabia. Disse que você combinava muito mais com Lee do que-com ele. Mas eu não tinha certeza. Para mim, Lee é um irmão. Não podia imaginar escolher viver com ele. Quero dizer... — Afastou-se, assoando o nariz e fungando.
Blair estava sorrindo.
— Eu lhe ofereceria chá, mas não temos. Que tal uma xícara de óleo de fígado de bacalhau?
Nina sorriu também, enquanto sentava-se pesadamente em uma cadeira de carvalho.
— Penso que talvez este seja o momento mais feliz de minha vida. Estava com tanto medo que estivesse zangada, que a cidade toda estivesse furiosa comigo.
— Mas ninguém na cidade sabia que Alan e eu estávamos noivos — argumentou Blair. — Pensavam que Lee e eu íamos casar.
— Mas você queria Alan — insistiu Nina. — Sei que queria. Sei que foi encontrar-se com ele na estação.
A curiosidade de Blair foi atiçada.
— Quero saber a história toda.
Nina olhou para suas mãos.
— Realmente detesto contar-lhe tudo. — Levantou os olhos, e outra vez parecia querer chorar. — Oh, Blair, eu estava absolutamente sem saber o que fazer, e, às escondidas, fiz tudo que pude para conseguir Alan. Você nunca teve uma chance.
— Se eu atirar em você, prometo que a costurarei eu mesma.
— Você pode brincar, mas não brincará mais depois de escutar sobre as coisas que fiz. — Assoou o nariz outra vez, e, enquanto olhava para as mãos, começou. — Conheci Alan na noite em que ele decidira matar Lee.
— O quê? Leander? Ele ia matar Leander?
Nina encolheu os ombros.
— Ele só estava zangado, e eu entendi muito bem como se sentia. Lee tinha uma maneira tão superior em relação a ele! Quando eu era pequena, ele costumava decidir o que era bom ou ruim para mim, e aquilo me deixava tão brava que queria estrangulá-lo.
— Conheço esse sentimento — disse Blair. — Ele não mudou muito.
— Quando vi Alan, sabia que não iria matar ninguém. Ele só estava curtindo a idéia. Convidei-o para ir à sala de visitas, e foi bastante fácil fazê-lo falar e contar-me o que estava acontecendo. Contou-me que estava apaixonado por você, mas eu sabia que Lee já decidira que você iria casar com ele, portanto achei que Alan não teria muita chance. Sabia que Lee venceria.
— Como era possível que soubesse?
Nina pareceu surpresa.
— Morei com Lee toda a minha vida. Ele vence, ele sempre vence. Se resolver jogar beisebol, seu time ganha. Se entrar em um torneio de esgrima, ganha. Papai diz que ele até força os pacientes moribundos a viver. Assim, é claro, eu sabia que ele ganharia aquela competição, quer o prêmio quisesse ou não. Mas, de qualquer maneira — ela ignorou o olhar de espanto de Blair —, eu sabia como Alan se sentia, e começamos a nos lamentar, comparando exemplos dos meios dominadores de Lee. Papai então Voltou para casa, eu apresentei Alan, e ficamos até tarde conversando sobre medicina e a vida em Chandler comparada com a vida no nordeste. Foi uma noite agradável.
Nina parou um momento.
— Depois disso, Alan começou a me procurar sempre que Lee fazia alguma coisa especialmente trapaceira, como empurrar Alan fora da sala de operações, fazendo-o parecer um incompetente.
— Ele vai ser um médico muito bom, mas ainda tem de fazer muito treinamento.
— Também acho que será — disse Blair mansamente. — Então você e Alan se apaixonaram.
— Eu me apaixonei. Acho que ele também, só que não percebia. Não há nada de desrespeito, mas penso que, depois de Alan tê-la visto aqui, ficou com um pouco de medo de você. Ele disse que na Pensilvânia vocês dois tiveram um namoro muito calmo, de mãos dadas no parque, estudando juntos, mas quando ele veio para cá... — os olhos de Nina brilharam. — Francamente, Blair, subindo e descendo de cavalo como uma artista de circo, alegremente puxando os intestinos de um homem para cima de uma mesa para que pudesse encontrar alguma coisa por baixo, vencendo-o no tênis, não é de se espantar que tenha se virado para outra pessoa.
— Lee não se afastou — disse Blair na defesa.
— É exatamente o que digo! Você e Lee são parecidos, sempre pulando de uma coisa para outra. Vocês nos cansam, a nós meros mortais. De qualquer forma, não penso que tenha ocorrido a Alan que você e ele devessem casar. Depois de ter dito para você para encontrá-lo no trem, ele veio a mim e contou-me o que fizera. Então eu já sabia que estava apaixonada por ele e não achava que você estivesse, mas você era muito teimosa para admitir que não estava, ou talvez vocês todos estivessem muito obcecados em ganhar a desagradável competiçãozínha sem olhar para as conseqüências. — Nina respirou fundo. — Decidi então tomar as coisas em minhas próprias mãos. Pensei que, se meu irmão podia fazer algumas trapaças para conseguir o que queria, eu também poderia. Às três e trinta, antes que fosse tomar o trem das quatro horas, pedi a Alan que viesse até a cozinha comigo. Amornei algum melado o suficiente para que ficasse viscoso. Então, enquanto ele estava sentado ali, brincando com aqueles malditos bilhetes de trem, eu "tropecei" e entornei cerca de um quarto do melado sobre ele. Devo admitir que fiz um bom trabalho. Tentei fazer com que caísse em seu cabelo e por todo o corpo, até os sapatos. Blair não conseguiu falar por um momento. — Mas fiquei na estação durante horas — conseguiu murmurar.
— Eu... Ah... — Nina levantou-se. — Blair, se minha mãe fosse viva, nunca seria capaz de encará-la outra vez. — Olhou de volta para Blair, seu bonito rosto pegando fogo, endireitou os ombros com desafio e falou num fôlego só. — Ele foi ao banheiro, entregou as roupas para mim, mas deixei cair seu relógio, que rolou para dentro do banheiro; corri atrás dele, a porta bateu atrás de mim e a chave do lado de fora caiu.
Blair pensou um momento sobre o caso e começou a sorrir.
— Você se trancou dentro do banheiro com um homem despido?
Nina cerrou o maxilar, levantando o queixo e fez um rápido aceno com a cabeça. Blair não disse nada, mas foi para um armário lateral e retirou uma garrafa de uísque e dois copos. Entregou um para Nina:
— A irmandade — disse ela e entornou o uísque goela adentro.
Nina, com um grande sorriso, tomou o dela também.
— Você realmente não está zangada? Quero dizer, não se importa de ter casado com Lee?
— Penso que serei capaz de agüentar essa tortura. Agora sente-se e conte-me quais são seus planos e como está Alan. Está feliz com ele?
Uma vez que começou, Nina não conseguia mais parar. Não gostava muito da Pensilvânia e disse que quase persuadira Alan para voltar para Chandler quando terminasse o estágio.
— Receio que os sentimentos dele para com você e Lee não sejam os mais amigáveis, mas tenho esperanças de convencê-lo. Voltei para ver se podia convencê-la a me perdoar e a me ajudar a dominar a ira de papai e Lee.
— Não acho que Lee... — começou Blair, mas Nina interrompeu-a.
— Oh, sim, perdoará. Espere até conhecê-lo bastante como eu. Ele é um cordeiro quando está satisfeito, mas quando uma das mulheres sob seu cuidado faz alguma coisa que ele não aprova, então cuidado! E, Blair — ela brincava com a sombrinha —, preciso de alguém para levar os panfletos para os mineiros.
Os sentidos de Blair ficaram imediatamente alerta.
— Você se refere ao jornal que pode incitar os mineiros à luta, a entrarem em greve?
— É simplesmente para informá-los de seus direitos, para esclarecer que se eles se unirem podem conseguir muito. Houston e as outras que dirigem as carroças de mercadoria estão levando-os para as minas onde entregam vegetais, mas são só quatro minas. Existem outras treze. Precisamos de alguém que tenha acesso a todas as minas.
— Você sabe que aqueles lugares são trancados. Mesmo o carro de Leander é revistado... Nina! Não pode pensar em tentar fazer Lee entregar os jornais?
— De maneira nenhuma! Se souber que estou ciente só de que existem minas de carvão, ele me trancará. Mas pensei que você sendo uma médica e tendo o nome Westfield talvez pudesse ver algumas das mulheres dos campos.
— Eu? — falou Blair ofegante, levantando-se. Aquilo tinha de ser pensado. Se a apanhassem com aqueles papéis em sua carruagem, atirariam nela na hora. Mas também pensava na pobreza dos campos de minas, na maneira como as pessoas desistiram de todos os seus direitos de americanos a fim de sobreviver.
— Nina, não sei — mumurou. — Essa é uma decisão séria.
— É um problema sério. E, Blair, você está em casa outra vez. Não é mais só outra pessoa numa cidade grande. Você é parte de Chandler Colorado. — Levantou-se. — Pense sobre isso. Estou indo agora para casa, para ver papai, e talvez Lee e você possam aparecer mais tarde para jantar. Tenho só duas semanas antes de voltar para Alan. Não lhe teria pedido, mas não conheço ninguém mais que possa ter acesso às minas. Avise-me logo sobre o que decidir.
— Está certo — disse Blair, distraída, com a cabeça completamente tomada pela idéia de entregar panfletos num campo guardado por homens armados.
Durante toda a tarde, andou pela clínica vazia e, quando tentou ler uma revista médica que Lee emprestara, ficou pensando na proposta de Nina. Ela tocara em alguma coisa em seu íntimo. Blair realmente não se considerava parte de Chandler. Quando deixara a cidade, fora para sempre. Nunca planejara voltar, mas tinha de encarar o fato: ou era parte da comunidade ou não era. Ela poderia ficar em sua clínica limpa, e ocasionalmente remendar corpos quebrados, ou poderia ajudar a evitar que os corpos fossem quebrados.
E se seu próprio corpo fosse quebrado? Seus pensamentos rodavam e rodavam, e não parecia capaz de chegar a uma conclusão.
Foi com Lee jantar com Reed e Nina. A irmã de Lee puxou-a de lado, oportunamente, para perguntar-lhe sobre a decisão. Mas Blair não a tomara. Nina sorriu e disse que entendia, o que fez com que se sentisse mal.
Na manhã seguinte, a cabeça lhe doía. Seus passos ecoavam na enfermaria, irritando-lhe os ouvidos. A sra. Krebbs disse ter algumas compras para fazer e saiu. Às nove horas, a campainha da porta tocou, e Blair correu para atender o que esperava ser um paciente.
Uma mulher e uma garota pequena, com cerca de oito anos, tavam es paradas.
— Posso ajudá-la?
— A senhora é a senhora doutora?
— Sou uma médica. Gostaria de entrar em meu consultório?
— Certo. Claro. — Disse à menina que se sentasse e esperasse enquanto seguia Blair.
— O que parece ser seu problema?
A mulher sentou-se.
— Eu não estou tão forte como costumava ser, e vez por outra preciso de ajuda. Não muita ajuda, só um pouco.
— Todos nós precisamos de ajuda às vezes. De que tipo de ajuda precisa?
— É melhor que eu fale de uma vez. Algumas das minhas garotas, a senhora sabe, na rua River, compraram ópio sujo. Pensei que talvez, sendo a senhora uma doutora, pudesse nos conseguir algum material puro de São Francisco. Suponho que vocês médicos tenham maneira de testá-lo para ter certeza de que não é ruim, e talvez possam conseguir comprar em grande quantidade e vender. Posso arranjar todos os compradores que precisar e...
— Por favor, saia de meu consultório — disse Blair bastante calma.