Mulher de Fogo
Capítulo XIV · Blair Estava vestida e pronta para sair,…
BLAIR ESTAVA vestida e pronta para sair, às cinco e trinta da manhã seguinte. Sentou-se na cama e estava sem saber o que fazer. Deveria esperar lá embaixo ou ele chegaria outra vez pela janela como fizera antes?
Quando o relógio lá de baixo bateu seis horas, abriu a porta de seu quarto e pensou ter ouvido a porta da frente. Voou pelas escadas abaixo e chegou lá bem quando uma sonolenta Susan abria a porta para Leander.
— Bom dia — disse sorrindo. — Pronta para irmos?
Ela fez que sim com a cabeça, em resposta.
— Você não pode ir, senhorita Blair-Houston. Ainda não comeu nada e a cozinheira não está com o café pronto. Terão de esperar até que se vista.
— Já comeu? — perguntou a Lee.
— Parece que faz dias que não como — respondeu Lee, sorrindo-lhe, e mais uma vez ela ficou impressionada de ver como ele era bonito, com aqueles olhos verdes. E, por alguma razão, lembrou-se da noite que passaram juntos. Era estranho que fosse se lembrar daquilo, pois não se lembrara durante dias. Talvez fosse porque então ele não estava tentando aborrecê-la.
— Venha até a cozinha e prepararei alguma coisa para o café. Até eu sei como fritar ovos e bacon. A refeição do senhor Gates provavelmente se atrasará, e a família toda ouvirá um sermão, mas não estaremos aqui para ouvir o que ele tem a dizer.
Meia hora mais tarde, Lee afastou-se da grande mesa de carvalho da cozinha e limpou a boca.
— Blair, não imaginava que soubesse cozinhar. Parece muito esperar que uma mulher saiba cozinhar, ser amiga de um homem, uma colega — seus olhos e voz baixaram —, uma amante. — Com um suspiro olhou-a de novo. — Jurei a mim mesmo que não seria um perdedor choroso, que iria desistir com elegância. — Deu-lhe um sorriso doce, de menino. — Tem de me perdoar se algumas vezes me esqueço.
— Sim, claro — disse, nervosa, e percebeu que mais uma vez estava pensando naquela noite que passaram juntos. Naquela noite, quando estivera livre para beijá-lo, quando as mãos dele...
— Elas não estão limpas?
— O que disse? — falou, voltando ao presente.
— Você estava olhando fixo para minhas mãos e imaginei que talvez houvesse alguma coisa errada com elas.
— Eu... Está pronto para ir?
— Quando você quiser — falou Lee, levantando-se e puxando a cadeira dela.
Blair sorriu-lhe e pensou naquele homem sem modos com quem Houston planejava casar-se e achou que não havia comparação entre ele e Lee.
A caminho do hospital, perguntou-lhe por Alan, e ela respondeu que ele devia encontrá-los na enfermaria. Ele realmente estava lá, e parecia sonolento e um pouco aborrecido por ver Leander e Blair chegarem juntos.
O dia foi longo e árduo. Tinha-se a impressão de que todos os pacientes eram responsabilidade só de Lee, e os três tiveram que fazer o trabalho de uma dúzia de pessoas. A uma hora, quatro homens feridos num desabamento do fim de um túnel da mina Inexpressible foram trazidos, dois deles mortos, um com a perna quebrada, e o quarto homem entre a vida e a morte.
— É um doente terminal — disse Alan. — Melhor deixá-lo.
Mas Blair olhava para os olhos do homem, agora fechados, e viu que ele lutava para viver. Ela não podia dizer o que-estava ferido dentro dele, mas achou que talvez houvesse uma chance. Pelas circunstâncias, ele devia estar morto. No entanto, queria tanto viver que lutava.
Blair olhou para Lee, e por um momento ele lembrou-se dos olhos dos organizadores dos sindicatos.
— Acho que há uma chance. Podemos abri-lo e ver? Penso que ele quer viver — insistiu ela.
— Blair — disse Alan com uma voz exasperada —, qualquer um pode ver que ele não poderá viver mais do que minutos. Todos os seus órgãos internos devem estar esmagados. Deixe-o morrer com a família.
Blair nem olhou para Alan, mas mantinha os olhos em Lee.
— Por favor — murmurou. — Por favor.
— Vamos levá-lo para a sala de operações — gritou Leander.
— Não! Não mexa nele. Mantenha-o nessa mesa e nós a levaremos.
Blair estava certa, mas Alan também estava. Seus órgãos estavam esmagados, mas não tão seriamente como pensaram assim que o abriram. O baço se rompera e sangrava muito, mas conseguiram tratá-lo e limpar alguns dos outros ferimentos.
Devido à hemorragia interna, eles tinham de trabalhar rápido e, sem que ninguém estivesse consciente do que acontecia, Alan fora posto de lado. Leander e Blair, que trabalhavam tão bem juntos e tinham experiência, suturavam tão rápido quanto a sra. Krebbs podia enfiar as agulhas. Ela era a enfermeira preferida de Leander e estava com ele desde que voltara para Chandler. Percebendo que não podia trabalhar tão rápido como Leander e Blair, Alan afastou-se e deixou os três repararem os órgãos atingidos do homem.
Quando terminaram de fechá-lo, deixaram a sala de operações.
— O que é que você acha? — perguntou Blair a Lee.
— É agora que Deus entra no caso, mas penso que você e eu fizemos o melhor que pudemos. — Sorriu para ela. — Você foi muito boa ali dentro. Não foi, senhora Krebbs?
— Veremos se o paciente vai viver — resmungou a mulher gorda e grisalha ao sair da sala.
— Não é muito chegada a cumprimentos, pelo que percebi — disse Blair, enquanto esfregava o sangue de suas mãos.
— Só quando os merecer. Ainda estou esperando pelos meus. Claro, eu só estou aqui há dois anos.
Enquanto os dois riam juntos, Blair não reparou em Alan encostado na parede, observando-os.
Uma vez fora da cirurgia, voltaram para as alas e, mais tarde, durante o dia, atenderam uma criança que se queimara. E,confor-me o dia passava, Blair e Leander pareciam incansáveis, mas Alan seguia-os sentindo-se cada vez mais completamente desnecessário. Duas vezes tentou falar com Blair sobre voltar para casa, mas ela não ouvia. Estava o tempo todo perto de Leander. Por volta das dez da noite, Alan estava desfalecendo.
— Venham até meu escritório — disse Lee às onze. — Tenho algumas cervejas e sanduíches lá, e quero mostrar uma coisa a vocês.
Alan sentou-se numa cadeira e comeu seu sanduíche com avidez enquanto Lee desenrolava planos e abria-os sobre a escrivaninha.
— Estes são meus planos para a clínica de mulheres, um lugar onde elas podem vir com qualquer indisposição e receber tratamento adequado. Gostaria também de um centro de treinamento para o cuidado da saúde de seus filhos. — Parou e sorriu para Blair.
— Nada de estérco de cavalo ou emplastros para câncer.
Ela sorriu-lhe de volta e percebeu que o rosto dele estava a centímetros do seu, que ele estava se movimentando em sua direção com uma expressão conhecida no rosto, como naquela noite. Antes de saber o que estava fazendo, Blair curvou-se na direção dele de uma forma que pareceu muito natural para ele, e parecia perfeitamente normal que ele devesse beijá-la.
Mas somente a um sopro de distância dos lábios dela, ele afastou-se abruptamente e começou a enrolar os planos.
— Está tarde, e é melhor que a leve para casa. Parece que deixamos Alan exausto. Além disso é inútil para mim mostrar-lhe estes planos. Você nem ao menos estará aqui. Estará numa cidade grande, num hospital organizado, e não terá o aborrecimento de ter de construir um lugar do nada ou de planejar onde porá o equipamento, ou saber a quem contratará, de planejar exatamente o que irá ensinar e a quem tratará. — Parou e suspirou. — Não, em seu hospital da cidade, terá tudo já organizado. Não será simples como esta nova clínica vai ser.
— Mas isso não soa mal. Quero dizer, pode ser divertido decidir como se quer as coisas. Eu gostaria de ter uma clínica de queimaduras ou talvez uma ala especial para isolamento ou...
Ele cortou-lhe a palavra.
— É bondade sua dizer isso, mas num hospital de cidade grande, as pessoas pagam suas contas.
— Se um hospital grande é tão bom, então por que não ficou em um? Por que o deixou? — perguntou com indignação.
Com uma demonstração de grande reverência, ele pôs os planos de volta no cofre.
— Suponho que gosto de sentir que precisam de mim, mais do que gosto de segurança — disse ele, virando-se outra vez para ela. — Há mais doutores do que o suficiente no leste, mas aqui é um desafio ficar com todo o serviço. O povo daqui precisa de um médico mais do que precisam lá. Sinto como se estivesse fazendo algum bem aqui e não sinto isso lá.
— É por isso que pensa que quero voltar ao leste? Por segurança? Acha que eu não estou apta para todo o trabalho daqui?
— Blair, por favor, não quis ofendê-la. Você me perguntou por que eu não quis trabalhar num hospital grande, seguro, organizado e confortável do leste, e eu lhe disse, é tudo. Não tem nada relacionado com você. Somos colegas, lembra-se? Nunca sonharia em lhe dizer o que deve ou não fazer. Na verdade, se me lembro corretamente, sou eu quem está removendo obstáculos de seu caminho. Desisti de minha intenção de casar com você a fim de que pudesse voltar ao leste, ficar com Alan e trabalhar em seu hospital como disse que queria. Que mais posso fazer para apoiá-la?
Blair não teve resposta para ele, mas sentia-se instável por dentro.
Naquele momento, o pensamento de trabalhar no hospital St. Joseph parecia egoísta, como se estivesse procurando glória em vez de tentar ajudar as pessoas, como devia estar fazendo.
— Por falar em Alan — disse —, acho que é melhor que o levemos para casa.
Blair se esquecera completamente de Alan, e virou-se para vê-lo sentado, com os ombros caídos, cochilando.
— Sim, suponho que seja melhor — disse, distraída. Estava pensando com seriedade no que Leander dissera. Talvez um grande hospital fosse "seguro", mas as pessoas de lá ficavam tão doentes como as do oeste. Claro, lá havia mais médicos para tratá-las, e ali nem ao menos tinham um hospital decente para mulheres. Em Filadélfia, eles tinham pelo menos quatro clínicas para mulheres e crianças e, claro, lá havia mulheres médicas clinicando, e todos sabiam que as mulheres às vezes sofrem de uma doença durante anos antes de deixar que um homem as examine.
— Prontos? — perguntou Lee, depois de ter acordado Alan.
Durante todo o caminho de volta Blair pensou no que Lee dissera, e ficou deitada, acordada na cama durante um tempo ainda pensando. Chandler certamente precisava de uma doutora, e ela poderia praticar com Leander e ajudá-lo a dirigir aquela sua nova clínica, tudo ao mesmo tempo.
— Não, não, não! — disse alto, e batia os punhos em seu travesseiro. — Eu não vou ficar em Chandler! Vou me casar com Alan, fazer o estágio no hospital St. Joseph e vou clinicar em Filadélfia!
Preparou-se para dormir, mas, quando ia cochilar, pensava nas inúmeras mulheres de Chandler que não tinham uma médica para atendê-las. Passou uma noite agitada.
Na quarta pela manhã, Lee veio até sua casa para visitá-la, e Blair percebeu que estava muito satisfeita em vê-lo.
— Não tenho de ir ao hospital até o final da tarde, e pensei que você poderia querer ir cavalgar comigo. Parei no hotel e disse a Alan para vir conosco, mas ele disse que estava cansado ainda de ontem, e de qualquer forma não gosta de cavalgar. Não creio que gostaria de vir sozinha comigo, não é?
Antes que Blair pudesse dizer qualquer coisa, Leander continuou:
— Claro que não gostaria — disse rapidamente, olhando para o chapéu em suas mãos. — Você não pode sair comigo sozinha, uma vez que está noiva de outro homem. Acontece que a cidade toda pensa que vou casar com você dentro de cinco dias, e nenhuma moça sairá comigo. — Voltou-se para sair. — Não quis aborrecê-la com meus problemas. Minha solidão não é de seu interesse.
— Lee — disse ela, agarrando-lhe o braço para impedir que saísse da sala. — Eu... queria discutir aquele caso de envenenamento de sangue com você, talvez..,
Leander não lhe deu chance de terminar:
— Formidável, Blair, você é uma amiga de verdade — e seu rosto abriu-se num sorriso que fez os joelhos de Blair enfraquecerem.
No momento seguinte, estava com a mão nas costas dela e quase que a empurrava pela porta afora, para o pátio lateral, onde dois cavalos selados os aguardavam.
— Mas não posso usar isto — protestou, olhando para sua saia longa. — Preciso de uma saia-calça e...
— Você me parece ótima, e qual é o problema se aparecer um pouco do tornozelo? Só eu estarei lá, e já vi você toda, lembra-se?
Blair não teve como dizer outra palavra, pois ele levantou-a e colocou-a na sela do cavalo, e ela estava ocupada tentando arrumar suas saias, de modo a ficar o mais recatada possível. Rezava para que Houston não a visse assim. Ela poderia um dia perdoar a irmã por roubar o homem com quem ia casar, mas nunca, nunca a perdoaria por ter sido vista em público usando as roupas erradas.
Leander tornou a sorrir-lhe e ela esqueceu tudo sobre sua irmã e sobre estar com um homem com o qual não deveria.
Ele levou-a para o campo, bem afastado da cidade. Cavalgaram lado a lado por um tempo, e Blair fez com que falasse mais sobre a clínica de mulheres e alguns de seus planos. E ela contou-lhe algumas de suas idéias. Somente uma vez ele disse, e pensativamente, que desejava ter alguém para trabalhar com ele. Com muita cautela, Blair perguntou-lhe se consideraria uma médica. Ele respondeu afirmativamente, e na meia hora seguinte só falou em como trabalhariam juntos na nova clínica, se ela ficasse em Chandler. Em pouco tempo, Blair estava envolta em fantasia, e falava sobre como o fariam e todos os milagres que poderiam realizar. Juntos, eles livrariam o Estado do Colorado de todas as doenças.
— E então nós três poderíamos nos mudar para a Califórnia e sanar aquele Estado. — Leander ria.
— Três? — perguntou Blair sem entender.
Lee lançou-lhe um olhar de reprovação.
— Alan. O homem que ama, lembra-se? O homem com quem vai casar. Ele estará nisso também. Ele terá de ter uma parte na nova clínica também. E nos ajudará, como fez ontem.
Era estranho, mas Blair mal podia lembrar-se de Alan no hospital, na véspera. Lembrava-se de que ele não quisera ajudar o homem que fora esmagado, mas ele estivera na sala de operações?
— Aqui estamos — estava dizendo Lee, enquanto ela o seguia a um lugar cercado entre rochas gigantescas. Desmontou e tirou a sela de seu cavalo. — Nunca pensei que fosse capaz de voltar a este lugar outra vez depois do que aconteceu aqui.
Blair ficara mais atrás, enquanto ele tirava a sela de seu cavalo.
— O que aconteceu aqui?
Ele parou com a sela nas mãos.
— O pior dia de minha vida. Trouxe Houston aqui depois da noite em que fizemos amor, e descobri que a mulher com quem passara a mais maravilhosa noite de minha vida não era a mulher de quem estava noivo.
— Oh — disse Blair fracamente, desejando não ter perguntado. Afastou-se enquanto Leander puxava uma coberta dos alforjes e estendia-a no chão, dava água aos cavalos de uma pequena fonte ali perto e começava a dispor a comida sobre a coberta.
— Sente-se — disse ele.
Blair estava começando a pensar que não deveria ter vindo sozinha com ele. Era fácil resistir a ele quando estava sendo detestável e jogando Alan no lago, mas na última vez em que estiveram sozinhos e Lee fora gentil, tinham acabado sem as roupas e fazendo amor. Ela levantou os olhos e o viu, acima dela, o sol fazendo uma meia-lua em volta de sua cabeça e pensou que, sob circunstância nenhuma deveria deixar que ele a tocasse ou que a conversa desviasse para o que acontecera entre eles. Deviam falar somente sobre medicina.
Comeram e ficaram comentando sobre todos os piores casos que Blair já vira em sua vida. Ela precisava lembrar-se dos detalhes mais sangrentos, porque Lee tirara a jaqueta e estava deitado a centímetros dela. Os olhos dele estavam fechados, e tudo o que tinha que fazer era murmurar uma resposta vez por outra para as histórias de Blair, e ela suspeitava de que ele estava adormecendo. Não podia evitar de olhá-lo enquanto conversava, aquelas longas, longas pernas, e lembrava de como as sentira junto de sua própria pele. Olhou para seu peito largo, forte, seus peitorais forçando contra o fino algodão da camisa. Lembrava-se de como sentira os pêlos do peito dele contra seus seios.
E quanto mais lembrava, mais depressa falava, até que as palavras pareciam embolar em sua boca e recusavam-se a sair. Com um suspiro de frustração, parou de falar e olhou para suas mãos pousadas no colo.
Leander não disse nada durante um longo tempo, e ela pensou que ele adormecera.
— Nunca encontrei ninguém como você — disse mansamente, e Blair não pôde evitar de curvar-se um pouco em sua direção para poder ouvi-lo. — Nunca encontrei uma mulher que pudesse entender como me sinto sobre medicina. Todas as mulheres que conheci brigavam comigo se eu me atrasasse para levá-las a uma festa por estar costurando as costas de um homem. Nem encontrei uma mulher que se interessasse pelo que eu fazia. Você foi a mais generosa, a mais adorável pessoa que já conheci.
Blair estava muito espantada para falar. Algumas vezes, pensava que se apaixonara por Alan porque ele fora o primeiro homem jovem que não a condenara por ser do jeito que era. Houve ocasiões, quando Blair tentara ser como a irmã, ser calma e gentil, não dizer a um homem, quando ele dizia alguma coisa tola, que fora uma estupidez, mas parecia que não conseguia se controlar. E, como resultado de sua risada, ou de sua honestidade, nunca tivera muitos cortejadores. Na Pensilvânia, os homens viam como era bonita e se interessavam, mas, quando descobriam que ia ser médica, perdiam o interesse. E se tivessem ficado por perto, logo saberiam que Blair era muito inteligente, e aquilo era a morte para uma mulher. Tudo o que ela tinha de fazer era ganhar de um homem no xadrez ou resolver um problema de aritmética, de cabeça, mais rápido do que ele, e ele já não estaria mais interessado nela. Alan foi o primeiro homem que encontrara que não ficara revoltado com suas habilidades — e Blair decidira que estava apaixonada por ele três semanas depois do primeiro encontro. Agora, Leander estava dizendo que gostava dela. E quando pensou em todas as coisas que fizera para ele nos últimos dias, das vezes que o deixara no deserto para voltar a pé para casa, estava assombrada de que ele agüentasse olhar para ela. Ou ele era um homem notável ou gostava de castigo.
— Sei que logo mais estará deixando a cidade, e talvez nunca mais a veja. Por isso quero dizer-lhe o que aquela única noite em que estivemos juntos significou para mim — disse numa voz que era pouco mais de um murmúrio. — Foi como se você não pudesse se controlar naquela noite, como se meu simples toque a fizesse vir para mim. Foi tão lisonjeiro para a minha vaidade. Chamou-me de convencido, mas somente sou assim quando estou com você, porque você me faz sentir bem. E ter encontrado a mulher de minha vida, uma amiga, uma colega, uma amante sem igual, e agora ter de perdê-la!
Blair avançava lentamente na direção dele enquanto ele falava. Lee virou a cabeça, afastando-se.
— Quero ser justo sobre o que aconteceu. Quero dar-lhe o que você quer, aquilo que a faça feliz, mas queria que não esperasse que eu esteja na estação quando partir com Alan. Imagino que, no dia em que partir com ele, ficarei como um bêbado barulhento a contar meus problemas para alguma garçonete ruiva.
Blair endireitou-se:
— É disso que gosta? — disse friamente.
Ele olhou-a de volta com surpresa:
— É disso que eu gosto?
— De garçonetes ruivas?
— Ora, sua pequena estúpida... — Instantaneamente, seu rosto ficou vermelho de raiva, e levantou-se começando a empurrar a coberta, puxando-a de debaixo dela, e guardando a comida nos alforjes. — Não, não gosto de garçonetes ruivas. Mas queria gostar. Fui bastante tolo para me apaixonar pela mulher mais cabeça-dura, cega, idiota e teimosa do mundo. Nunca tive nenhum problema com uma mulher em minha vida até que encontrei você, e agora tudo o que tenho são problemas.
Jogou a sela no cavalo:
— Há ocasiões em que desejaria nunca tê-la conhecido. — Voltou-se para ela. — Pode selar seu próprio cavalo e encontrar o caminho de volta para a cidade. Isto é, se não for muito cega para ver a trilha, porque, com certeza, você é cega com relação às pessoas.
Pôs um pé no estribo e então, num impulso, voltou até ela, tomou-a nos braços e beijou-a.
Blair esquecera completamente como era beijar Lee, estava esquecida daquela sensação avassaladora. Ela não poderia dizer quem era, quando ele a estava tocando, porque todas as sensações a deixavam, exceto a provocada por aquele homem único.
— Ei — disse ele com raiva, afastando-se dela, e tendo de dar-lhe uma pequena sacudidela para fazê-la abrir os olhos. — Já tive pacientes cegos que viam mais do que você.
Deixou-a e começou a montar, mas então resmungou:
— Diabo — e selou o cavalo para ela, colocando-a em cima. Conduziu-a numa corrida de volta para Chandler, e, quando parou na frente da casa dela, falou:
— Espero vocês no hospital amanhã às oito.
Ela mal teve tempo de concordar antes que a deixasse sozinha.
Capítulo XV
A ÚNICA MANEIRA de descrever a disposição de Blair quando chegou em casa é que estava desolada. Não estava certa do que havia de errado com Leander, nem entendia o porquê de estar tão confusa.
Sua mãe estava na sala de visitas cercada de centenas de caixas.
— O que é isso? — perguntou Blair distraída.
— São presentes de casamento para você e Houston. Gostaria de abrir agora alguns dos seus?
Blair deu uma olhada nos presentes e sacudiu a cabeça. A última coisa que queria era ser lembrada do casamento que poderia ou não realizar-se — não que Leander ainda quisesse casar-se com ela.
Ligou para o hotel de Alan e deixou um recado de que deveria estar no hospital na manhã seguinte às oito, e subiu para encher a banheira.
Quando desceu, uma hora depois, Houston estava em casa, uma coisa rara, pois parecia que sempre estava fora com Taggert, e numa agitação de atividade enquanto abria presentes e conversava com Opal a mil por hora sobre os planos para o casamento. Sua irmã se admirava com os presentes que tinham vindo do leste, coisas dos Vanderbilt, dos Astor, nomes que Blair conhecia de ouvir falar, e agora Houston estava casando com um daquela sociedade exclusiva. Sem prestar atenção, sentou-se em um dos sofás.
— Já viu o vestido, Blair? — perguntou Houston ao virar-se, segurando um enorme vaso de cristal lapidado que devia ter custado a fortuna de alguém.
— Que vestido?
— Nosso vestido de noiva, claro — disse Houston com paciência. — Mandei fazer o seu igual ao meu.
Blair sentia que não agüentaria ficar na sala com todo aquele entusiasmo. Talvez sua irmã pudesse vibrar de entusiasmo com uns poucos presentes, mas ela não poderia.
— Mãe, não me sinto muito bem. Creio que me deitarei e vou ler um pouco.
— Está bem, querida — disse Opal, enquanto mexia em outra caixa. — Mandarei Susan subir com uma bandeja. A propósito, um jovem ligou e disse que não estará no hospital amanhã. Acredito que foi um senhor Hunter — disse ela.
Como se fosse possível, Blair começou a se sentir pior. Negligenciara Alan vergonhosamente nos últimos dias.
A manhã chegou muito rápida, e seu humor não melhorara nada. Pelo menos, os pacientes do hospital mantiveram sua cabeça afastada de seus próprios problemas, isto é, até que Leander chegou. O mau humor dele fazia o dela parecer um raio de sol. Em duas horas, ele conseguiu gritar com ela quatro vezes, dizendo-lhe que, se quisesse ser uma médica, tinha de aprender umas coisinhas. Blair quis gritar de volta com ele, mas depois de uma olhada em seu rosto, sabiamente não disse nada além de "Sim, senhor", e tentou fazer o que podia para obedecer às suas ordens.
Às onze, estava curvada sobre uma garotinha cujo braço quebrado acabara de consertar, quando Alan chegou por detrás dela.
— Pensei que a encontraria aqui... com ele.
Blair sorriu para a garotinha.
— Alan, estou trabalhando.
— Nós vamos ter uma conversa agora, em frente do hospital todo ou sozinhos?
— Está bem, então venha comigo.
Levou-o pelo corredor até o escritório de Leander. Ela não conhecia o hospital muito bem, e aquele era o único lugar onde sabia que podiam ficar a sós. Somente esperava que Lee não voltasse e os descobrisse ali.
— Devia ter adivinhado que viria para cá. O escritório dele! Você deve sentir-se confortável aqui. Sem dúvida tem estado com freqüência aqui. — Para consternação dele, Blair deixou-se cair numa cadeira, pôs as mãos no rosto e começou a chorar.
Alan num instante ajoelhou-se em sua frente:
— Não queria me irritar com você.
Blair tentou controlar as lágrimas, mas não conseguia.
— Todos estão contra mim. Nunca pareço agradar a ninguém. O senhor Gates nunca me deixa em paz. Houston me odeia. Leander mal consegue falar comigo, e agora você...
— Por que Westfield tem de ficar zangado? Ele está ganhando sem dificuldades.
— Ganhando? — Blair puxou um lenço do bolso e assoou o nariz. — Ele nem ao menos está na competição. Ele disse que pôde ver que amo você, e assim não iria mais competir.
Alan levantou-se e ficou encostado na escrivaninha:
— Então por que passa dia após dia com ele? Você não se afastou meio metro de seu lado durante toda a semana.
— Ele disse que gostaria de trabalhar comigo nesses poucos dias que restam de minha estadia. Disse que nunca trabalhou tão bem com outras pessoas antes. E ele estendeu o convite a nós ambos.
— De todas as deslealdades... — começou Alan, andando pela sala. — Ele é mais baixo do que eu pensei. Nunca ouvi falar de golpe mais covarde, mais sujo. — Olhou outra vez para Blair. — Ele sabe que você é entusiasmada com tudo o que diz respeito à medicina. Assim ele usa isso para se aproximar, e, claro, convidou-me. O homem tem anos de experiência e treinou mais do que eu; portanto, ele parece um gênio enquanto eu pareço um idiota.
— Isso não é verdade! Leander disse que queria trabalhar comigo, e nós trabalhamos muito bem juntos. É como se um lesse a cabeça do outro.
— Pelo que ouvi, tem sido assim desde a primeira noite em que saíram.
— Agora quem está sendo desleal?
— Não mais do que ele — retrucou Alan. — Blair, estou cansado de parecer tolo. Sou um médico estudante competindo numa sala de operações com um homem com anos de experiência. Cresci numa cidade, mas estou competindo em canoas e a cavalo. Não há maneira possível de poder me sair melhor do que ele.
— Mas você não entende. Leander não está competindo. Ele não quer mais casar comigo. Vou ficar em Chandler até o casamento de minha irmã e então eu e você partiremos juntos. Ainda tenho esperanças de que Houston case com ele.
Ele observou-a por um momento:
— Acredito que parte de você realmente acredita no que está dizendo. Deixe-me dizer-lhe uma coisa: Wesrfield não desistiu da corrida. O pobre homem está competindo com tanto empenho que é um milagre que ainda tenha algum fôlego. E, se você acredita que não vai casar na segunda-feira, por que não pôs um ponto final em todos os planos de casamento que sua irmã está fazendo? Você pretende sentar-se na primeira fila e assistir a sua irmã casar enquanto está cercada por todas as coisas? O que vai fazer com todos aqueles presentes?
Pôs as mãos nos braços da cadeira e aproximou seu rosto do dela.
— Quanto a Houston casar com seu amado doutor, não acredito que você conseguiria sentar-se lá e assistir a tudo.
— Já basta, Hunter. — A voz de Leander veio da porta.
— Ainda não é suficiente — disse Alan, avançando em Leander.
— Se é uma luta que quer...
Lee parou quando Blair colocou-se entre os dois homens.
— Blair — disse Alan —, está na hora de você tomar uma decisão. Partirei desta cidade hoje, no trem das quatro horas. Se você não estiver lá, partirei sozinho. — Com isso deixou a sala.
Blair ficou parada, sozinha com Lee por um momento, em silêncio até que ele pôs a mão em seu braço.
— Blair — começou ele, mas ela afastou-se.
— Acho que Alan está certo — disse Blair. — Está na hora de tomar minha decisão e parar com essas brincadeiras infantis. — Passou por ele apressada e andou os três quilômetros até a sua casa.
Quando chegou, muito calmamente pegou um papel, uma caneta e começou a fazer a lista dos prós e dos contras de partir com Alan. Havia cinco razões boas e fortes que ela podia considerar para justificar o porquê de partir com ele. Iam da possibilidade de deixar aquela cidade opressiva até permitir que Houston não mais se sentisse pressionada a casar com o seu milionário.
A única razão que podia pensar para não partir com Alan era que nunca mais veria Leander. Não ia poder trabalhar com ele naquela nova clínica. Claro, se o que Alan dissera fosse verdade, talvez Leander tivesse mostrado aqueles projetos só como ardil para ganhar a competição.
Levantou-se. Não precisava trabalhar numa clínica dali. Na Pen-silvânia, o hospital St. Joseph esperava por ela.
Lançou um olhar para seu uniforme — sabia que aquela roupa era a única coisa que levaria com ela. Não poderia sair pela porta carregando uma mala além de sua maleta médica, ou haveria perguntas. Tudo o que poderia levar era o que estava usando. Amassou a lista em sua mão e manteve-a lá. Poderia precisar dela para relembrar o porquê de estar fazendo aquilo.
No térreo, sua mãe estava arrumando os presentes, e Houston tinha saído. Blair tentou dizer umas poucas palavras para sua mãe, dizer adeus sem usar as palavras exatas, mas Opal estava muito ocupada contando peças de prata.
Com o queixo levantado, Blair passou pela porta e caminhou o longo caminho até a estação dos trens. Enquanto andava, olhava para a pequena cidade atarefada com olhos diferentes. Talvez não fosse tão ruim como pensara a princípio. Não era a Filadélfia, mas tinha suas compensações. Três carruagens passaram trepidando e levando pessoas que gritaram para ela "Alô, Blair-Houston", e pela primeira vez o nome duplo não lhe pareceu tão ruim.
Ao aproximar-se da estação, imaginava o que aconteceria depois que se fosse; se Houston se casaria com Lee, se sua mãe iria compreender seu desaparecimento, se Gates iria odiá-la mais do que já odiava.
Chegou à estação às três e quarenta e cinco e logo viu que Alan não estava lá. Ficou na plataforma, a maleta a seu lado, inquieta com a lista na mão, e pensou que aqueles poderiam ser os últimos minutos na cidade que tinha o nome de seu pai. Depois do escândalo que causara, roubando o noivo da irmã, e depois fugindo com outro homem quatro dias antes do casamento, ela duvidava que pudesse voltar antes que estivesse perto dos noventa anos.
Ouviu uma exclamação, numa voz que reconheceu, e virou-se de repente para ver Leander sentado num banco atrás dela.
— Pensei em vir dizer adeus — falou, e Blair parou na frente dele. A lista caiu de sua mão e, antes que pudesse apanhá-la, Leander pegou-a e leu-a.
— Vejo que perdi para tio Henry e sua culpa para com Houston.
Ela arrancou a lista de suas mãos.
— Fiz algo imperdoável à minha irmã e, se puder remediar, eu o farei.
— Ela não me pareceu tão infeliz na última vez que a vi.
Olhava para Taggert como se estivesse na lua.
— Houston gosta do dinheiro dele.
— Posso não saber muito sobre aquela mulher, mas sei que não está apaixonada pelo dinheiro. Penso que ela gosta de algo um pouco mais ah... pessoal.
— Você é grosseiro.
— Então suponho que seja bom que esteja se casando com alguém perfeito como Hunter, e não com alguém grosseiro como eu. Só porque provoco sensações em seu corpo que a fazem gritar de prazer, porque apreciamos a companhia um do outro, porque trabalhamos tão bem juntos, essas não são razões para casar comigo. Ouvi dizer que você venceu Hunter no tênis.
— Estou contente de não casar com você. Nunca quis, nunca. — Um som fez com que olhasse para a estrada e viu o trem.
Leander levantou-se.
— Com os diabos, não vou ficar aqui para ver você se fazer de boba. — Meteu as mãos nos bolsos. — Você vai ser infeliz, e merece isso. — Virou em seus calcanhares e saiu.
Por um momento, Blair quase correu atrás dele, mas se conteve. Tomara sua decisão e ficaria firme nela. Aquilo seria o melhor para todos os implicados.
O trem entrou na estação, mas Alan ainda não estava lá. Levantou-se e andou pela plataforma enquanto dois homens saltaram do trem e um homem e uma mulher entraram.
O condutor começou a acenar para o trem partir.
— Tem de esperar. Alguém devia estar aqui.
— Se ele não está aqui, então perdeu o trem. Todos a bordo!
Sem acreditar, Blair via o trem sair da estação. Sentou-se no banco e esperou. Talvez Alan estivesse atrasado e pretendesse tomar o próximo trem. Ficou sentada durante o total de duas horas e quarenta e cinco minutos, mas Alan não apareceu. Perguntou ao bilheteiro se um homem com a descrição de Alan comprara um bilhete. Ele comprara dois bilhetes de manhã bem cedo — para as quatro horas.
Blair andou pela plataforma outros trinta minutos, e então começou a voltar para casa.
Então era assim que se sentia ao levar um fora, pensou. Engraçado, mas não se sentia de todo mal. Na verdade, quanto mais se aproximava de casa, mais leve se sentia. Talvez pudesse trabalhar no hospital com Leander, no dia seguinte.
Quando entrou em casa, estava tudo quieto como um túmulo, e a única luz ligada era a da sala de visitas. Entrou e, para a sua surpresa, sua mãe e Leander estavam sentados lá, conversando tão silenciosamente como se estivessem num funeral.
Quando Opal viu sua filha, muito calmamente, muito lentamente, deixou cair o bordado e desmaiou. Leander olhava para Blair tão surpreso que sua boca ficou aberta, o charuto caiu e queimou a franja de um banquinho.
Blair ficou tão satisfeita com as reações deles que ficou ali sorrindo. Logo a seguir, Susan entrou na sala e começou a gritar.
A gritaria reviveu-os. Lee apagou o fogo, Blair bateu nas mãos de sua mãe até que se recuperasse e Susan saiu para fazer chá.
Assim que Opal sentou-se direito, Leander agarrou os ombros de Blair, fê-la ficar de pé e começou a sacudi-la.
— Espero que aquele seu maldito vestido sirva, porque você vai casar comigo na segunda-feira. Compreendeu bem?
— Leander, você a está machucando — gritou Opal.
— Mas ela está me matando! Entendeu, Blair?
— Sim, Leander — tentou dizer.
Ele empurrou-a para o sofá e saiu disparado da sala. Com as mãos trêmulas, Opal levantou a costura do chão.
— Acredito ter tido excitação suficiente nas últimas semanas para o resto da vida.
Blair recostou-se na poltrona e sorriu.