Musa Cérula

Augusto Gil · Capítulo 1 de 14

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Musa Cérula

Coimbra

 

LIVRARIA PORTUGUEZA E ESTRANGEIRA

 

DO EDITOR

 

MANUEL D'ALMEIDA CABRAL

 

165—R. Ferreira Borges—165

 

1894.

MUSA CERULA

 

1891-93.

 

Honorate l'altissimo poeta

 

A João de Deus

 

… Quando lerdes

Entendei que segundo o amor tiverdes

Tereis o entendimento dos meus versos.

 

Camões.

 

O sentimentalismo constitue a Arte.

Taine.

 

Para fielmente contar o que sinceramente sente,

não são necessarias ao poeta essas fórmas novas

que devem rutilar de inauditismo.

 

…………………………………..

 

Ao assenhorear-se d'ella sentiria sem duvida o

embaraço de quem, para beber agua de um regato,

n'uma sesta de verão, tivesse de usar um pesado calice do seculo XVII, todo de oiro, cravejado de

pedras, tirado de um museu de artes decorativas……………….

 

Eça.

 

Almas irmãs da minha, a vós dedico e offerto Este livro d'amor—meu coração aberto.

Folhas soltas ao ar na alegre revoada

De pombas a fugir no azul d'uma alvorada.

 

Com ellas vejo ir pela amplitude calma

Pedaços do meu sêr, pedaços da minh'alma:

 

É tudo o que eu cantei de idyllico e olorante, Desde o ceruleo olhar da minha terna amante

Até á coma edeal da minha sancta mãe,

Alva como um lilaz, branca como a cecem.

Almas irmãs da minha, a vós dedico e offerto

Este livro d'amor—meu coração aberto.

 

Profissão de fé

 

Não vão pensar que a minha musa seja

Alguma apparição allucinante

De olhar azul e labios de cereja,

Diadema d'oiro e espada flammejante.

 

A musa protectora d'estes versos

Detesta a rima altiva dos pamphletos,

Educa-me em principios bem diversos:

—Lê-me Petrarcha, o mestre dos sonetos.

 

Não me ensina a cantar imprecações

Contra as torpes gangrenas mundanaes,

Inspira-me sómente estas canções

Que vos fallam d'amor—e nada mais.

 

Apostolo do Bello e da Bondade,

Ella anda a propagar por toda a parte,

Ás almas auroreaes da mocidade,

A nova religião chamada—Arte.

 

Consagra um culto fervoroso e santo

Aos sentimentos bons, ás coisas mansas.

Respeita a Dor nas lagrimas do pranto,

Adora a Paz nos risos das creanças.

Por alta noite, quando a evoco e chamo,

Segreda-me ao ouvido brandamente,

Qual brisa leve a prepassar n'um ramo:

Traduz em verso o que a tua alma sente.

 

Canta os sorrisos, canta as amarguras

Dos teus vinte e dois annos incompletos.

Faz d'elles um collar d'estrophes puras,

Faz d'elles um rosario de sonetos.

 

…………………………………. ………………………………….

 

Já vêem, pois, que a minha musa é calma:

E agora, se quizerem lêr sem pressa,

Verão que em cada estrophe vae impressa

Uma affecção diversa da minh'alma.

 

A minha mãe

 

As illusões semelham-se a um collar

De perolas alvissimas, de espuma.

Se o fio que as segura se quebrar,

Cahem no chão, dispersas, uma a uma.

 

Cahem no chão, dispersas, uma a uma,

Se o fio que as segura se quebrar;

Mas entre tantas sempre fica alguma,

Sempre alguma suspensa ha de ficar.