Musa Cérula

Augusto Gil · Capítulo 5 de 14

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Musa Cérula

Capítulo III

 

Á nobre cortezã

Ha de mover, por certo,

O extranho talisman

Do livro que lhe offerto.

Que p'ra inspirar amor

A uns taes olhos pretos

Não ha philtro melhor

Que um livro de sonetos…

 

Esboceto

 

(A PEREIRA BARATA)

 

Como uma semi-tinta de aguarella,

Côa-se a luz, dulcissima, velada

Atravez das persianas da janella,

Sobre a pequena sala alcatifada.

 

N'um cavallete, apenas debuxada,

A tons ceruleos, sobre larga tela,

Uma marina calma, socegada,

Com botes de pescar, vogando á vela.

 

Sobre a meza rodeada de cadeiras,

Destaca, entre revistas estrangeiras,

Um busto de mulher adolescente

E a brancura leitosa do teclado

Põe no piano, entreaberto, ao lado,

Um ar de monstro, arreganhando o dente.

 

Consummatum est!

 

Amei-a muito, é certo. Amei-a com o louco E desvairado amor d'alguem que nunca amou.

Por isso que a amei tanto é que a amei por tão pouco.

 

—Escusa de insistir. O meu amor findou.

 

Como um perfume leve que pelo ar se expande,

Assim esta paixão ardente se evolou.

Já nada resta agora d'esse amor tão grande.

 

—Escusa de insistir. O meu amor findou.

 

Hontem, ao lêr o meu bilhete quasi em branco, Laconico e conciso, dizem que chorou,

Talvez fosse cruel, mas creia que fui franco.

 

—Escusa de insistir. O meu amor findou.