Musa Cérula

Augusto Gil · Capítulo 3 de 14

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Musa Cérula

Capítulo III

Se a ouvisse, o inferno

—Tornava-se n'um ceu.

 

III

 

Os olhos não são olhos, são punhaes.

E tanto mais me fita, quanto mais

Os crava no meu peito;

Comtudo heide dizer-lhe:—«Oh minha amada Desfia-o, fibra a fibra, á punhalada

Que morro satisfeito!»…

 

O matrimonio

 

De banza a tiracollo e capa á trovador,

Eu nunca fui cantar endeixas amorosas,

Lyrismos de Romeu junto aos balcões em flor, Por sob o luar dormente e as nuvens vaporosas.

 

Tão pouco tenho a linha airosa, aristocrata,

Da fina flor do tom, os dandys adamados Que andam pelos salões, monoculando, á cata

D'um dote que lhes salve a pança de cuidados.

 

Tenho, como qualquer, a aspiração ideal

D'uma noiva gentil, d'um ninho conjugal;

Mas tudo se desfaz se penso um só momento

N'este quadro banal, depois do casamento:

O sogro, a sogra, a esposa, um filho já taludo E eu, muito aborrecido… a olhar p'ra aquillo tudo.

 

Dolorosa

 

Deitada sobre o esquife funerario

E vista á chamma trémula dos cirios,

Tinha a alvura das hostias do sacrario

E a pallidez suavissima dos lirios.

 

No seu rosto gentil e sorridente

Havia a languidez da pomba mansa.

Parecia dormir serenamente,

Immersa em vagos sonhos de creança.

 

Annos passaram desde que morreu;

Comtudo vibra intensa no meu ser,

A sensação do beijo que me deu

Poucos momentos antes de morrer.

 

E julgo vel-a ainda á luz dos cirios,

Deitada sobre o esquife funerario,

Mais pallida que as petalas dos lirios,

Mais branca do que as hostias do sacrario.

 

Sonho de nupcias

Eu punha no teu labio a nota quente

A musica vibrante dos desejos,

Poisava-te no collo branco, ardente,

O poema rendilhado dos meus beijos.

 

Ao intimo contacto d'esses beijos,

Erguia-se em volutas de serpente

A curva delicada, alvinitente,

Das tuas fórmas, tremulas de pejos.

 

Senti então, allucinado e mudo,

O élo dos teus braços de velludo

Cingir-me contra a carne feiticeira.

 

E sobre o veu de gaze delicado,

Murchavam na capella do noivado

Os albentes botões da laranjeira…

 

Serenata

 

(A UMA VIZINHA)

 

Vae serena, desmaiada,

Entornando luar no azul,

A lua, taça quebrada

Dos festins do rei de Thule.

 

As estrellas maceradas

São como beijos de luz, Ou lagrimas condensadas

Do martyrio de Jesus.

 

Serena como uma prece,

Cariciosa como um ninho,

A via-lactea parece

Estrada feita de arminho.

 

Estrada feita de arminho

E flocos alvinitentes,

Que talvez seja o caminho

Para a morada dos crentes.

 

Curvam-se os lirios abertos,

Escutando o som da aragem,

E os rouxinoes dão concertos

Sob as folhas da ramagem.

 

Na atmosphera encantada

Anda a vibrar soluçante

A voz doce e requebrada

D'um bandolim tremulante.

 

Oh dona de olhos sensuaes

—Olha o luar tão bonito!

Façamos os esponsaes

Do nosso amor infinito.

 

Vamos vibrar os harpejos

D'uma serenata louca.

As notas, serão meus beijos

E a guitarra… a tua bocca.

A Alberto de Oliveira

 

(IMPRESSÃO DA BIBLIA DO SONHO)

 

Emquanto os outros vão, ao som das guitarradas, Capas a desfiar, batinas sem botões,

Entre explosões joviaes de intensas gargalhadas, Cantando alegremente eroticas canções,

 

Elle despresa a vida, o riso, os corações

E n'um mystico horror d'almas fanatisadas, Foge do mundo e vae, á busca de illusões,

Em frageis bergantins de velas enfunadas.

 

Talento peregrino o seu ideal recorda

Um extasis de monja em frente d'um altar,

Á hora em que o sol morre e a lua meiga acorda.

 

E o seu verso dolente evoca dentro em mim: Ao longe, muito ao longe, á branca luz do luar,

Os tremulantes sons d'ignoto bandolim…

 

Perdularia

 

(A PIO CAVALHEIRO)

 

Passou junto de nós, pedindo esmola,

Uma creança rota, magra, invalida.

Deitaste-lhe dinheiro na sacola,

Beijaste-lhe em seguida a face pallida.

 

Que feliz foi o pobre da sacola!

O seu desejo era bem mais modesto.

Podias dar-lhe unicamente a esmola

E a mim—dares-me o resto…

 

Em wagon

 

A chaminé vomita fumarada.

A machina assobia: parto emfim.

Na gare, ao longe, a minha namorada

Agita o lenço branco para mim.

 

Como rectas traçadas a namkim,

Sobre um fundo ceruleo de aguada,

Vejo no espaço nitidas, assim,

As linhas telegraphicas da estrada.

 

O sol, hostia de luz resplandecente,

Vae-se elevando gloriosamente

Na abobada vastissima dos ceus

 

E dois choupos batidos pelo vento

Curvam-se num ligeiro cumprimento,

Cerimoniosos, a dizer-me adeus…

Blasphemia santa

 

Jurou-me eterno amor. A noite ia cahindo.

E, entre outras phantasias,

Eu disse-lhe sorrindo:

 

Se Deus surgisse agora, aqui, perante nós

O que é que lhe dizias?

 

—Que nos deixasse sós…

 

Á sobremesa

 

Variação sobre um Thema de Heine

 

(A EGAS MONIZ)

 

Na sala de jantar da baroneza

A conversa cahira mollemente,

E um creado esguio, sorridente,

Trazia sobremeza.

 

Os commensaes fallavam sobre a vida.

—Viver é ir morrendo lentamente—

Dizia suspirando, em voz sentida.

Um lyrico doente.

 

A vida, accrescentou, volvendo os olhos,

Um bacharel vermelho, de melenas:

—É um jardim de lirios e de abrolhos

De cardos e verbenas…

 

Continuou depois solemnemente

Um outro, litterato, de lunetas,

Com fama de escriptor intelligente,

Auctor de varias tretas:

 

—A vida é a viagem d'alguns dias:

Uns seguem n'ella a estrada dos revezes,

Outros a do prazer. As duas vias

Encontram-se por vezes…

 

O barão quasi calvo, de olhar vago,

Disse a sorrir, curvado na cadeira:

—A vida é isto. E despejou d'um trago

Um calix de Madeira.

 

Ao fundo, um par de jovens namorados

Fazia brindes intimos de amor

E a digestão punha nos convidados

Um languido torpor.

 

Ouviu-se então, em voz de confidencia,

Dizer á baroneza um titular:

—Minha Senhora, creia-me Vocencia,

A vida—é esse olhar…

 

Carmen

Sobre as dobras rendadas da mantilha

Brilham-te, como soes em pleno dia,

Os olhos mais galantes de Sevilha

Na fronte mais gentil d'Andaluzia.

 

A tua voz ao som da guitarrilha

Tem vibrações extranhas d'harmonia.

Ninguem canta melhor a seguidilha

N'esse paiz do Amor e da Alegria.

 

Nas voltas caprichosas do bolero

Não tens rival em graça e em salero Carmen gentil, oh flôr das hispanholas!

 

Tu fazes-me o effeito inebriante

Dos vinhos de Xerez e de Alicante

Quando bailas ao som das castanholas!

 

Fervet amor

 

A conversa cahiu no casamento.

E defronte de nós, n'esse momento,

Noivava um par alegre de pardaes.

 

Ruborisada, attenta, olhaste os dois.

Em que meditas? disse, e tu depois,

Baixando o doce olhar—coraste mais.

Cantares

 

(A RAMIRO DE FIGUEIREDO)

 

A triste viuvez tua,

Creança de olhos suaves,

Lembra-me as noites sem lua,

Lembra-me os ninhos sem aves.

 

Tão bonita e sem amores,

Á minha mente recordas

Uma jarra sem ter flores

Um bandolim sem ter cordas.

 

Oh meiga rôla sem par,

Á phantasia revelas

Uma barca em pleno mar

Sem ter leme e sem ter velas.

 

Moreninha idolatrada

Que o loiro Amor não seduz,

És como estrella apagada

És como um astro sem luz;

 

És como um cofre doirado

Cheio de gemas d'Ophir,

Por tal maneira fechado

Que ninguem o possa abrir.

 

Oh virgem de negra coma,

Oh minha doce gazella, És como flor sem aroma

Como moldura sem tela,

 

Galathea que amo tanto,

Meu amor, peccados meus,

És um altar sem ter sancto

—Um paraizo sem Deus!

 

Senhor Doutor

 

Não ha quem endoide as moças

Como os olhos d'um doutor.

(Cantiga coimbrã).

 

Houve na aldeia viva sensação

Ao regressar o filho do morgado,

Que fôra para Coimbra de calção

E vinha agora bacharel formado.

 

Vae longe, olé, bradava o vozeirão

Do abbade. É só fazel-o deputado.

E as moças entre si: Que rapagão!…

… Doutor, tão novo… Deus seja louvado…

 

Chegou a casa e n'esse mesmo dia,

Foi visitar radioso de alegria

A filha da velhota que o creou.