Musa Cérula

Augusto Gil · Capítulo 12 de 14

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Musa Cérula

Capítulo II

É alta, aristocratica, gentil,

De brandos gestos e maneira affavel.

 

E a Rubens, a Murillo, a Ticiano

Excederia certamente em gloria

Algum pintor que modelasse o arcano

Do seu busto de virgem merencoria.

 

II

 

É fria como a neve sobre o polo

E pura como uma alma de creança.

Olha uma rocha como olha um collo;

E-lhe estranha a tormenta ou a bonança.

 

Nem lhe estremece o labio virginal

Ao beijar a nudeza de Jesus,

O grande martyr, sonhador ideal

Que expira mansamente n'uma cruz.

 

Quando morrer na cella do mosteiro,

Á cova n'um esquife hão de leval-a;

Serão então os braços do coveiro

—Ultimos e primeiros a abraçal-a…

 

Abril

 

Enorme, arredondado, reluzente,

Como se fôra um olho de Titan, O sol no azul olhava fixamente

A natureza lubrica, pagã.

 

E á luminosidade transparente

Do céu avelludado da manhã,

Um melro ia cantando alegremente

Uma canção brejeira e folgazã.

 

Nuvens de fumo tenues, vaporosas,

Evolavam-se em fórmas caprichosas

Das chaminés esguias dos casaes.

 

E em choreação festiva, galhofeira,

Ouvia-se nas bandas da ribeira

Um concertante alegre de pardaes..

 

Aldeã

 

Podem dizer talvez que ella não tem

As fórmas peregrinas, delicadas,

Das cortezãs de peito de cecem

Que vão á noite aos bailes, decotadas.

 

Podem dizer talvez, e dizem bem,

Que ás suas faces tumidas, rosadas,

Falta a côr macilenta que convém

Ás virgens dos sonetos e balladas.

 

Á elegancia doente e vaporosa

Eu prefiro, comtudo, a fórma airosa Do seu corpo gentil de mulher sã;