Musa Cérula

Augusto Gil · Capítulo 10 de 14

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Musa Cérula

Capítulo VIII

Dava o throno, o sceptro, a China,

Pel-a beijar uma vez.

 

VIII

 

Quanto ao pé—que perfeição!—

Eu nem citarei mais factos:

Cabem na palma da mão

As fórmas dos seus sapatos.

 

Perolas

 

(A ABILIO DA FONSECA)

 

Como os mergulhadores orientaes

Que ao leito das ondinas vão roubar

As perolas fulgentes, virginaes,

Sondei o negro abysmo d'esse olhar.

 

No pelago vastissimo do mar

Mergulham elles, muita vez em vão;

Pois eu, mulher, roubei ao teu olhar

—A perola sem par d'esta paixão…

 

Ignotus

Ninguem sabia ao certo quem elle era,

O bondoso pastor do presbyterio.

A terra onde nasceu? D'onde viera?

—Em vão se investigava tal mysterio.

 

Andava sempre só. Pelos caminhos

Encontravam-n'o, á tarde, muitas vezes,

Parado, a ouvir a musica dos ninhos

Ou as joviaes canções dos camponezes.

 

O signal do seu livro de orações,

Um dia que passava, absorto, a lêr,

Cahiu perto d'um grupo d'aldeões.

 

Um velho ao apanhar-lh'o reparára:

—Era um retrato antigo de mulher

D'uma belleza peregrina e rara.

 

Nec semper

 

São gemeas a Verdade e a Belleza,

Disse-me um grande sabio n'outro dia.

Se elle te conhecesse, com certeza,

Tamanha falsidade não diria.

 

Pois tu oh formosura incomparada

A quem o meu amor ardente aspira,

Sendo a propria Belleza humanisada

—És a synthesis viva da Mentira!

Combate

 

Fazer versos delirantes

Ao teu frio coração

É como engastar diamantes

N'um ad'reço de latão;

 

Comtudo meus versos são

Tiros certeiros, constantes,

Ao teu frio coração,

Aos teus desdens provocantes,

 

N'esta singular batalha

Não sei mesmo quem mais valha,

Qual de nós seja a vencer.

 

N'esta campanha secreta

Entre o amor d'um poeta

—E o desdem d'uma mulher!

 

Nostalgica

 

O amor é chamma enorme que allumia

E nos consome e gasta o coração.

Uma faúlha o ateia—a sympathia,

Termina em labaredas—a paixão.

 

Tanto é maior a luz que elle irradia,

Quanto intensa é depois a escuridão.