Musa Cérula

Augusto Gil · Capítulo 7 de 14

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Musa Cérula

Capítulo II

 

 

Oração

 

Outomno. Morre o dia.

Cae sobre as coisas placidas e calmas

Um véo de sombra e de melancolia

Que dulcifica e embrandece as almas.

 

Todo o meu sêr se invade

De enervantes e mysticas doçuras,

De mansidão, de paz, de suavidade,

De sentimentos bons, de ideias puras.

 

No coração prepassa

Uma piedade e compaixão serena

Por todos os validos da desgraça,

Por tudo quanto soffre e quanto pena:

 

Pelos pequenos entes

Sem abrigo, sem lar e sem carinho,

Que são como avesinhas innocentes

Postas por mão cruel fóra do ninho;

Pelos encarcerados

Que lançam, d'entre as grades da cadeia, Ao ar, á luz, aos montes afastados

A vista afflicta e de amarguras cheia;

 

Pelos que vão pedindo

De porta em porta o pão de cada dia,

Tristes, que sempre a morte olham sorrindo Porque ella unicamente os allivia;

 

Pelos que andam distantes

Entre cruezas, fomes e perigos,

Sentindo a nostalgia lancinante

Da patria, da familia, dos amigos;

 

E n'uma emoção crente,

N'uma fé viva, forte e bemfazeja,

A Deus supplico fervorosamente

Que os guie, que os soccorra, que os proteja.

 

De longe

 

(N'UM BILHETE DE VISITA)

 

Eis o pedido simples que te indico,

Se acaso o teu amor do meu partilha:

Ama-me com o amor que eu te dedico

E pensa em mim, como em ti penso, filha.

Manhã no campo

 

Manhã no campo. O som, a luz, o aroma, a côr, Fundem-se alegremente em galas festivaes.

A luz por todo o espaço, o aroma em cada flôr, O som na passarada, a côr nos vegetaes.

 

É toda a natureza um extasis d'amor.

Por sob o céo, do tom das rosas outomnaes, Concebe o lirio branco, a laranjeira em flôr,

A abelha delicada, a pomba dos pombaes.

 

O vento sul dissipa as brumas do nascente, E, como tem chovido a primavera inteira,

Vae quasi a transbordar o leito da ribeira.

 

O sol envolve o azul n'um longo beijo ardente E pelo espaço vão, em phantasiosas linhas,

As bohemias d'além-mar, as meigas andorinhas…

 

Adeus

 

Ha de lembrar-me sempre a immensa magua Que vi transparecer nos olhos teus

Ceruleos, languescentes, rasos de agua, Quando, poisando os labios sobre os meus,

N'um demorado osculo celeste,

Tremente e carinhosa me disseste

Esta palavra:—Adeus!—