Musa Cérula

Augusto Gil · Capítulo 13 de 14

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Musa Cérula

Capítulo I

Por isso adoro e préso mais que tudo

Os seus olhos dolentes de velludo,

Os seus labios vermelhos de romã.

 

Amor omnia vincit

 

(A GARCIA MARQUES)

 

I

 

O amor não se confrange,

O amor não se combate.

É como a luz do sol que tudo abrange,

É como um raio audaz que tudo abate:

É como em terra fecundante a flôr,

Viceja e medra, embora se não trate.

Não se confrange o amor,

O amor não se combate.

 

II

 

O amor não se commenta,

O amor não se discute.

Embalde imploro á minh'alma sedenta

Que me oiça, que me attenda, que me escute

Em vão busco acalmar o louco ardor

D'esta paixão lethal que me atormenta.

Não se discute o amor,

O amor não se commenta.

 

A uns annos

 

Se eu fosse rei, Senhora, n'este dia

O pagem mais gentil da minha côrte,

Como tributo d'amisade, iria

A esses pés miniaturaes depôr-te

 

Um brinde sem rival, d'alta valia;

Mas sabes bem que não sou rei. De sorte Que não pode ir, como eu desejaria,

O pagem mais gentil da minha côrte

 

Offerendar-te joias de valia.

Em vez do brinde, mando todavia

Um ramo de lilazes e cecens.

 

E pelo pagem loiro, alvinitente,

Mando, Senhora minha, unicamente

Este soneto a dar-te os parabens.

 

Struggle for life

 

(A ALBERTO SILVA)

«Luctar, luctar!» dizeis-me vós. «A lucta

É inherente á propria natureza»,

Mas qual é a victoria absoluta

N'esta guerra sem treguas, sempre accesa!

 

Hája quem venha á barra, quem discuta

E me combata e dome esta incerteza.

Sinto a minha alma inerme, irresoluta,

Cheia de abatimento e de fraqueza.

 

Eu luctaria com denodo, sim,

Se á lucta visse um terminus, um fim;

Mas qual de vós que ha tanto batalhaes

 

Com animo valente e sanha viva,

Poude alcançar ou conseguir jámais

A victoria final—a decisiva?

 

Ponto final

 

(N'UM ALBUM)

 

Pediste-me um soneto delicado,

Exquisito, gentil, galanteador,

Feito com versos d'oiro e cravejado

Com rimas de finissimo lavor.

 

Ora eu, confesso aqui o meu peccado,

Nunca tive feição de trovador, Acho o lyrismo d'album requintado,

Banal, elogioso, sem valor.

 

Aqui me tens; jámais falto ás promessas. Exijo, pois, de ti que não esqueças,

Em troca, filha, este pedido meu:

 

Que para ennobreceres o soneto,

Venhas fechar o ultimo tercetto

—Com o ponto final d'um beijo teu.

 

El punto final

 

(TRAD. DE JOSÉ DE SILES)

 

Pedisteme un soneto delicado, exquisito, gentil, galanteador, hecho con versos de oro, y cincelado con rima de finissima labor.

 

Ahora bien, yo confieso mi pecado; nunca tuve afición de trovador,

y detesto al poeta almibarado que en albums habla de banal amor.

 

Cedo, no obstante. Pero, no te azores si pretendo de ti que colabores, y que en premio al trabajo que rehuyo,

 

para que algún valor tenga el soneto, te dignes terminar este

terceto… con el punto final de un beso tuyo.

 

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