Notícias: Manual do Usuário
Conclusão
PERSONALIZAÇÃO
Você pode controlar manualmente muitos aspectos do Google Notícias. Para acessar o
lugar central para a personalização de suas con gurações, clique no botão “Personalize
suas notícias”, que aparece como um ícone de roda dentada no canto superior direito da
página inicial do Google Notícias. Nessas con gurações, você pode ajustar o número de
notícias exibidas para determinada seção; basta regular a barra deslizante em direção ao
sinal de adição (+) ou de subtração (-). ¶
Google News
1.
HOUVE UMA ÉPOCA em que consumíamos todas as notícias que
recebíamos — trinta páginas de um jornal ou meia hora de um boletim —, confiando que os produtores tinham se valido dos meios disponíveis para capturar de maneira precisa os acontecimentos mais significativos do mundo. A tecnologia mostrou que não é bem assim. Hoje, temos consciência de que o fornecimento de notícias é quase infinito, de que cada dia nos reserva mais um exabyte de imagens e palavras e de que os jornais e boletins são, na verdade, pitadas de informação pinçadas arbitrariamente de um oceano infinito de dados por editores estressados, obrigados a nada além de adivinhar os desejos de um “leitor médio” hipotético.
Inevitavelmente, eles nem sempre acertam. Talvez se estendam
demais sobre uma guerra no oeste da África ou um plano incompreensível de pagamento da dívida. Talvez nos atualizem contra nossa vontade acerca de um casamento na alta sociedade ou de um furacão no Caribe. Talvez fiquemos com a sensação de estarmos sendo obrigados a comer pratos que nem sequer pedimos.
Mas nem sempre será assim. A tecnologia promete nos dar o poder
de dizer aos computadores quais são nossos gostos para que eles, então, percorram automaticamente as ofertas do dia e nos apresentem boletins talhados para nossa personalidade. O fornecimento de notícias não será mais determinado apenas pelos pressupostos às vezes equivocados dos editores. Teremos alcançado uma utopia individualista: um mundo com canais de notícias tão variados quanto os membros do público.
2.
MAS A PERSPECTIVA de abrir mão de uma orientação editorial objetiva
tem aspectos alarmantes, pois levanta a questão de saber até que ponto a maioria de nós está realmente bem equipada para saber com que tipo de notícias precisamos nos defrontar.
O projeto de levar uma boa vida adulta em uma democracia
moderna exige que abracemos todos os tipos de conhecimento para que nos ajudem a permanecer nos limites da moral, conscientes e seguros, e também nos desobriguem de maneira eficaz das responsabilidades públicas e privadas. Mas parte desse conhecimento pode não parecer particularmente atraente à primeira vista. Se assumirmos a incumbência de programar nosso noticiário, correremos o risco de perder informações que poderiam ser extremamente importantes para nossa evolução. Em vez de nos ajudar a desenvolver uma individualidade rica e complexa, o “noticiário personalizado” pode acabar agravando nossas patologias e nos condenando à mediocridade.
Imagine como a personalização poderia ter funcionado, por
exemplo, com Maria Antonieta — que tinha temperamento melindroso quanto a notícias políticas incômodas e se sentiria tentada a mudar de estação para Moda e Entretenimento. A notícia de que cinco mil súditos estavam morrendo de fome em Rennes provavelmente teria sido sacrificada em favor de um exaustivo relato sobre os vestidos usados pelos convidados em uma festa oferecida pela duquesa de Polignac — uma ordem de prioridades que só se revelaria problemática nos idos de outubro de 1793, com a rainha já esperando seu destino final na escada para o cadafalso.
Ou então pense em um homem com forte desejo de evitar o
sentimento da inveja e capacitado pelas novas tecnologias a barrar o fornecimento de quaisquer notícias sobre pessoas bem-sucedidas. Por mais satisfeito que ficasse por ter se livrado do que chamava de “histórias imbecis”, ele também poderia estar perdendo algumas dicas desagradáveis, mas decisivas, a respeito de seu próprio desenvolvimento e de seu direcionamento futuro.
Igualmente dotada de restrições um tanto diferentes, outra pessoa
poderia querer saber apenas de tragédias no mundo subdesenvolvido. Mas e se essa atenção voltada apenas para histórias de fome e carnificina fosse usada como uma desculpa nobre, contudo emocionalmente conveniente, para não manifestar sentimentos em relação a pessoas bem alimentadas, porém mais exigentes, bem perto de casa?
A personalização só seria um avanço em relação ao sistema editorial
atual se os usuários fossem dotados de um senso altamente maduro e complexo do tipo de notícias que precisam ouvir. Entretanto, antes de poderem chegar perto dos painéis de controle usados para programar o fluxo de notícias, eles teriam de passar a conhecer muito bem suas próprias almas. Somente depois de um prolongado autoexame, talvez com a ajuda de um psicanalista, estariam preparados para ajustar seus mecanismos pessoais de recebimento de notícias, conscientes da natureza das histórias necessárias para desafiar suas defesas, expandir seus horizontes e despertar o tipo certo de inveja. Como em qualquer portal de entrada para o aumento da liberdade de escolha, a possibilidade de um noticiário personalizado serve apenas para realçar as dificuldades de escolher com sabedoria.
3.
A QUESTÃO DA personalização nos leva de volta a uma pergunta que
permeia boa parte deste livro: Idealmente, como deveria ser o noticiário? Quais as necessidades profundas que deve atender? Como poderia nos tornar pessoas melhores?
Examinamos seis variedades de noticiário para tentar definir que tipo
de papel poderiam desempenhar para nós:
Noticiário político
Ante as tantas distrações e confusões com que somos defrontados, o noticiário político deveria provocar nosso interesse pela mecânica complexa das sociedades, ajudar-nos a nos mobilizar de maneira inteligente por uma reforma e aceitar certas limitações persistentes sem nos enfurecer. O noticiário político deveria criar uma nação harmoniosa e tolerante na imaginação do público, tornando possíveis momentos de orgulho e empatia coletiva. Deveria acompanhar não só as atividades dos que estão no poder, mas todos os males sistêmicos que impedem o progresso da comunidade, ao mesmo tempo reconhecendo sua capacidade de influenciar os valores da nação sobre a qual comenta.
Noticiário internacional
Esta especialidade deve abrir nossos olhos para a natureza da vida em outros países, acima e além dos momentos de crises dramáticas e sanguinolentas, que paradoxalmente bloqueiam nossa capacidade de sentir empatia e de nos identificarmos. Precisa deixar de lado sua obsessão com a reportagem neutra para nos fornecer retratos ricos, sensoriais e, eventualmente, pessoais de outras nações. Apropriando-se de certas técnicas da literatura de viagem e recorrendo sempre ao jornalismo fotográfico de qualidade, deveria nos ajudar a humanizar o Outro em nossa mente, fazendo-nos abandonar nosso provincianismo globalizado.
Noticiário econômico Idealmente, este gênero não só esclareceria os acontecimentos econômicos atuais como investigaria as muitas abordagens teóricas inteligentes e viáveis que podem concretizar versões mais sadias e satisfatórias do capitalismo de mercado, permitindo-nos descartar tanto o cinismo desnecessário quanto a indignação imatura. Ao mesmo tempo, representaria as atividades de negócios em termos mais amplos que os frios dados econômicos exigidos pelos investidores. Evocaria as realidades humanas que estão por trás de nossos produtos de maneira a propiciar sentimentos úteis de gratidão, indignação justificada, culpa e admiração.
Noticiário de celebridades
Nesta categoria, seríamos apresentados a algumas das pessoas mais admiráveis de nossa época — escolhidas por critérios maduros e sutis — e orientados sobre como obter delas inspiração e conselhos. Os famosos nos fariam sentir uma inveja produtiva e equilibrada e, dando exemplos de ousadia e perseverança, nos ajudariam a perceber nossos talentos genuínos, ainda que tímidos. Mas também seríamos alertados de que a melhor cura para o desejo de conquistar a fama seria, em última análise, um mundo em que se distribuíssem a bondade e o respeito de forma mais generosa e equilibrada.
Noticiário de desastres
As tragédias dos outros deveriam nos lembrar de que muitas vezes também estamos muito perto de nos comportar de forma amoral, tacanha ou violenta. Ver as consequências de tais impulsos assustadoramente concretizadas na vida de estranhos deveria nos deixar, ao mesmo tempo, com sentimentos de medo e empatia, em vez de arrogantes e cheios de razão. E os acidentes que todos os dias ceifam nossos semelhantes deveriam servir para nos demonstrar quanto sempre estamos expostos ao risco da morte súbita e de ferimentos. Assim, ficaria claro que devemos comemorar cada hora livre da dor com gratidão e generosidade.
Noticiário de consumo
O campo do jornalismo deveria nos alertar para o fato de que, em uma sociedade agressivamente comercial, é muito complicado gerar uma felicidade genuína ao gastar dinheiro. O noticiário deveria, portanto, empenhar-se em nos orientar habilmente para os objetos e serviços (e, não menos importantes, as manobras mentais) com mais probabilidade de atender a nossas aspirações subjacentes de uma existência plena.
4.
MAS, AINDA QUE, por uma sucessão de milagres, o noticiário conseguisse
um dia realizar tudo isso de maneira confiável, continuaríamos com um punhado de razões para manter a cautela...
NOTÍCIAS INTERNAS
Depois de ler sobre um homem que foi roubado, assassinado ou morto por acidente, uma
casa que se incendiou, um navio que afundou ou um barco a vapor que explodiu, uma vaca
atropelada nos trilhos da Estrada de Ferro do Oeste e um cachorro raivoso que foi abatido
ou uma nuvem de gafanhotos no inverno, nunca mais precisaríamos voltar a ler notícias
semelhantes (...) Quanto à Inglaterra, praticamente a última notícia relevante que de lá
chegou foi a revolução de 1649; e, se alguém já se informou sobre o histórico de suas
colheitas em um ano de resultados típicos, não precisará voltar a atenção de novo para
isso, a menos que suas especulações sejam de natureza meramente nanceira. A julgar por
alguém que raramente dá uma olhada nos jornais, nada de novo acontece em terras
estrangeiras, nem mesmo uma Revolução Francesa. ¶
Henry David Thoreau, Walden, 1854
1.
NÓS EVOLUÍMOS DE uma sociedade em que quase nada mudava — e
qualquer mudança que de fato ocorresse tinha tudo para ser muito significativa e talvez até representasse uma ameaça à vida. Desse passado, herdamos uma fragilidade cognitiva no que diz respeito à novidade: partimos do pressuposto de que o novo também deve ser importante.
Mas nem sempre é assim. Para manter a lucidez em uma era
dominada pelo noticiário, devemos constatar que as categorias da novidade e da importância se sobrepõem, mas são fundamentalmente distintas.
Quando estamos tensos e tentados a fugir de nós mesmos, que
solução melhor, mais imersiva e respeitável do que correr para o noticiário? Ele representa a desculpa séria perfeita para não prestarmos atenção em muitas coisas que podem ser mais importantes. Deixamos de lado, de bom grado, toda responsabilidade por nós mesmos para ouvir a respeito de questões graves e urgentes, como a dívida brasileira, o novo líder da Austrália, as taxas de mortalidade infantil em Benim, o desflorestamento na Sibéria e um homicídio triplo em Cleveland.
2.
EM SUA ESCALA e onipresença, a máquina contemporânea de produzir
notícias pode arrasar nossa capacidade de pensar de maneira independente. Na sala de controle de uma agência global de notícias localizada na Europa, encontraremos cerca de quinhentas pessoas sentadas em um gigantesco pátio interno de concreto, mal iluminado e decorado com telas e quadros de aviso ligados por cabos de fibra ótica a todos os cantos do mundo. Em um único dia, chegam ao prédio mais dados do que toda a humanidade terá gerado nos 23 séculos entre a morte de Sócrates e a invenção do telefone. Pelos fios vêm informações sobre terremotos na Guatemala e homicídios no Congo, queda de ações em Helsinki e explosões em Ancara. Há matérias sobre todos os temas e regiões geográficas imagináveis: eleições em Burkina Faso e mortalidade infantil no Vietnã; subsídios agrícolas no Canadá e a estratégia da Rio Tinto na África; a coleção de outono da Prada e restaurantes de comida chinesa em Zurique. Os relógios revelam que já passou um pouco da hora do almoço em Cartum, mas ainda amanhece em La Paz. Parece a área de embarque de um grande aeroporto internacional, dando a mesma sensação meio inebriante de que deixamos para trás tudo que é local, enraizado e lento, e entramos em um mundo frenético, sem gravidade e global. Aqui, sem dúvida estamos na era moderna, uma época de desorientação e aleatoriedade na qual, graças às novas tecnologias, abrimos mão dos vínculos provincianos, abandonamos os ritmos da natureza e, em cidades cada vez maiores, nos tornamos vividamente conscientes da existência simultânea de milhões de ensandecidos semelhantes, todos assoberbados por seu quinhão particular de infortúnios, ambições e peculiaridades.
O ritmo do ciclo de notícias é implacável. Por mais importantes que
fossem as notícias de ontem — os deslizamentos, a descoberta do corpo escondido de uma menina, a humilhação de um político outrora poderoso —, toda manhã a cacofonia recomeça. O centro gerador do noticiário tem a amnésia institucional do centro de emergência de um hospital: toda noite as manchas de sangue são limpas e a lembrança dos mortos, apagada.
Ficamos nos perguntando se algum dia a torrente de matérias
poderia secar, ainda que por um momento; se acaso — por um extraordinário esforço de coordenação — a humanidade concordaria em se comportar de maneira tão cuidadosa que, durante um dia, simplesmente não houvesse notícias. Assassinos adiariam a concretização de suas intenções em todo o mundo, nadadores incautos ficariam em terra, políticos adúlteros cuidariam de cortar o gramado do jardim. Mas os responsáveis pelo noticiário não precisam temer essa escassez. As estatísticas garantem que, até o fim de qualquer período de 24 horas, três mil pessoas terão perdido a vida nas estradas do mundo, 45 outras serão assassinadas em diferentes pontos dos Estados Unidos e quatrocentos incêndios terão irrompido em residências no sul da Europa — para não falar das mais recentes e imprevistas inovações nos campos da mutilação, do terror, do roubo e das explosões.
3.
NÃO É FÁCIL ser introspectivo. Dentro de nós espreitam incontáveis
verdades duras que uma investigação ameaça expulsar. Quando estamos incubando ideias embaraçosas, mas possivelmente vitais, é que tendemos a evitar ainda mais olhar para dentro de nós mesmos. E é aí que o noticiário nos pega.
Devemos ter consciência de que ele é um adversário muito
ciumento do autoexame — e do que é capaz de fazer para evitar que o façamos. Seus fornecedores querem instalar telas na traseira dos assentos de nossos veículos, receptores nos nossos relógios e telefones em nossas mentes para se assegurar de que estejamos sempre conectados, conscientes do que está acontecendo. Não podemos nunca ficar sozinhos.
Mas não teremos nada de substancial a oferecer enquanto não
tivermos dominado a arte de sermos parteiras pacientes de nossos pensamentos.
Precisamos de longas viagens de trem sem wireless nem nada para
ler, nas quais o vagão esteja praticamente vazio, em que as paisagens se mostrem extensas e, como trilha sonora, haja apenas o som ritmado das rodas nos trilhos. Precisamos de viagens de avião sentados na janela, sem nada mais para focalizar a atenção por duas ou três horas senão o alto das nuvens e a presença constante, a poucos metros no frio inimaginável, de um motor Rolls-Royce pendurado na enorme asa prateada, ajudando, com sua disciplina e valentia, a propulsar nossos pensamentos vagabundos.
4.
NÃO PODEMOS ENCONTRAR no presente tudo de que precisamos para
refinar nossa humanidade. Existem atitudes, ideologias, modalidades de sentimentos e filosofias em cujo encalço precisamos voltar nos séculos, pelos corredores das bibliotecas de referência, passando por armários esquecidos em museus, com suas armaduras medievais enferrujadas percorrendo páginas de livros de segunda mão cheios das anotações de donos já mortos ou subindo aos altares de templos meio arruinados e cobertos de musgo. Precisamos equilibrar o contato com os pixels em constante mudança de nossos monitores e com as páginas de livros pesados que proclamam, em suas encadernações e fontes, que têm algo a dizer que amanhã continuará merecendo um lugar em nosso pensamento.
5.
PRECISAMOS DE UM alívio da impressão, alimentada pelo noticiário, de
que vivemos em uma época de importância sem igual, com nossos tumultos, guerras, dívidas, crianças desaparecidas, festas de estreia de alguma coisa, ofertas públicas de ações e mísseis. De vez em quando, precisamos usar a imaginação e chegar ao espaço, muitos quilômetros acima da superfície da Terra, até um lugar onde aquela conferência, aquela epidemia, aquele celular novo e aquele incêndio florestal chocante percam um pouco da capacidade de nos afetar — onde até os problemas mais intratáveis parecerão se dissolver no contato com a eternidade do tempo, tudo isso atestado pela visão de outras galáxias.
6.
DE VEZ EM quando, deveríamos abrir mão de nossas notícias para prestar
atenção nas manchetes muito mais estranhas e maravilhosas das espécies menos eloquentes que nos cercam: gaviões e gansos, besouros e gafanhotos, lêmures e criancinhas. Todas criaturas muito desinteressadas por nossos melodramas, contrapesos de nossas ansiedades e de nosso egocentrismo.
Uma vida próspera exige a capacidade de reconhecer quando o
noticiário não tem mais nada de original nem de importante a dizer. São os períodos em que deveríamos recusar qualquer vínculo imaginativo com estranhos, em que devemos deixar que os outros governem, triunfem, fracassem, criem ou matem, na certeza de que temos nossos próprios objetivos a honrar no pouco tempo que ainda nos resta.