Notícias: Manual do Usuário

Alain de Botton · Capítulo 7 de 9

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Notícias: Manual do Usuário

Capítulo seis: Consumo

capítulo seis

 

Consumo

GASTRONOMIA, VIAGEM, TECNOLOGIA...

 

O fígado fatiado servido em torradas tinha um sabor defumado, assim como o pão sírio

chamuscado em uma frigideira para car escurecido em alguns pontos e depois recoberto

com camadas de cogumelos silvestres temperados no alho. O melhor foi a fritada de lula,

anchova e camarão (...) Como o chef da casa trabalhava no Bocca di Lupo, outro

restaurante da região, não foi surpresa que a farelenta e rústica linguiça cotechino com

repolho sauté e mostarda estivesse excepcional. ¶

 

Observer

1.

O NOTICIÁRIO ESTÁ intimamente ligado ao funcionamento da “sociedade

de consumo”. Todos os dias, uma parte nada desprezível de sua produção empenha-se em nos informar sobre objetos e serviços que se enquadram em categorias como Gastronomia, Viagem, Tecnologia, Moda, Automobilismo e Decoração. O noticiário se esforça para ser útil, para nos poupar de erros e nos ajudar a fazer compras mais acertadas e satisfatórias.

Existem correntes que desaprovam enfaticamente nosso desejo de

consumir. O apetite moderno para a aquisição de coisas muito além do estritamente necessário para sobreviver é, com frequência, considerado fútil, prejudicial ao planeta, leviano, ganancioso e, em uma palavra que resume todos os insultos, materialista.

Entretanto, considerando-se a grande parte dos recursos de nossas

sociedades que é empregada na manufatura e na venda de bens não essenciais, talvez não seja supérfluo tentar assegurar que nossos atos de consumo se deem da melhor forma possível. O noticiário tem uma função importante no sentido de nos ajudar a gastar bem o dinheiro.

 

2.

NO CUMPRIMENTO DA missão a que se impôs, o noticiário tende a

examinar e relatar três coisas: primeiro, o que está disponível no mercado; segundo, quanto custa; e terceiro, se é de qualidade ou não.

Com essas finalidades, envia jornalistas ao restaurante para

experimentar a salada de pera, gorgonzola e chicória; ao hotel para avaliar o spa de fim de semana com tudo incluso, bem como à feira de produtos eletrônicos para testar o navegador e a câmera do novo smartphone.

 

43. Pargo de alto-mar sendo analisado.

 

Com certeza são questões importantes, mas restringir o noticiário de

consumo a essas investigações de ordem prática é passar por cima de uma característica essencial da motivação que temos para comprar determinadas coisas. Os tipos de compras examinados no noticiário costumam ser de uma ordem muito além da pura necessidade. Ao adquirirmos esses bens e serviços, dificilmente buscamos apenas satisfação material — esse nem mesmo é o sentimento principal. Somos guiados por um desejo mais profundo e, não raro, inconsciente de alguma forma de transformação psicológica. Não queremos só possuir coisas, queremos ser transformados ao possuí-las. Quando examinamos o comportamento do consumidor com atenção e generosidade suficientes, fica claro que de modo algum somos afetados por um materialismo incorrigível. O que distingue nossa época é o desejo que temos de tentar alcançar uma série de metas psicológicas complexas por meio da aquisição de bens materiais.

 

3.

Poucos pratos são tão básicos e satisfatórios quanto um simples pargo grelhado, servido em uma mesa de madeira lisa, com guardanapos xadrez e talheres robustos e arranhados. A carne tinha a consistência ideal, acrescida apenas de um pouco de sal marinho, uma salsa bem cortadinha e um toque de limão...

O principal motivo para nos deslocarmos até o restaurante novo no

centro da cidade é a vontade de comer alguma coisa. Mas uma parte substancial e talvez decisiva do desejo tem um fundamento menos mundano, mais levemente psicológico: queremos absorver os valores do restaurante. Queremos (em um sentido vago) nos tornar como ele: Descontraído, Digno, Sociável, Feliz com a Simplicidade, Em Contato com a Natureza, à Vontade com os Outros. São essas as virtudes abstratas que, de forma mais ou menos consciente, detectamos nos pratos, no serviço e na decoração, e que buscamos, mesmo que de forma confusa, fomentar em nós mesmos pela ingestão de um pargo com salsa e uma porção de queijo burrata com lentilhas e óleo de manjericão.

 

Todos os 82 quartos dão para o azul do mar da baía. Em frente ao hotel, há um lago grande e tranquilo em cuja superfície o jardineiro espalha flores nas primeiras horas da manhã. O ar é perfumado, a brisa, suave no ponto...

Da mesma forma, não queremos apenas visitar um hotel tranquilo e

sossegado por alguns dias. Estamos, isto sim, em busca de um ambiente físico que nos ajude em um projeto mais amplo: tornar-nos pessoas Tranquilas e Sossegadas. Não viajamos ao exterior apenas para mudar de cenário, mas na expectativa de que as paisagens exteriores nos ajudem a reordenar nossa paisagem interna.

 

O smartphone envia dados a uma velocidade estonteante, fotografa imagens com nitidez incrível, obedece a comandos de voz e é capaz de abrigar qualquer biblioteca na memória prodigiosa...

E, por uma lógica semelhante, não queremos o telefone apenas por

motivos práticos; também queremos assumir algumas de suas características, queremos nos tornar um pouco mais Racionais, Elegantes, Capazes e Precisos.

 

4.

CONSIDERANDO-SE QUE O consumo é um processo muito mais

complicado — e interessante — do que parece, o noticiário a respeito desse assunto deveria reavaliar seus pressupostos quanto às necessidades do público.

Estamos acostumados a ser orientados quanto ao que deveríamos

comprar em categorias como estas:

 

GASTRONOMIA

VIAGEM

TECNOLOGIA

MODA

Contudo, uma avaliação mais profunda e precisa das nossas

necessidades agruparia as matérias jornalísticas de consumo em categorias muito diferentes:

 

SOCIABILIDADE

CALMA

RESILIÊNCIA

RACIONALIDADE

 

Os restaurantes, as viagens ao exterior e os equipamentos eletrônicos

podem despertar desejos, mas seria um equívoco considerar que constituem nosso principal interesse. Eles não passam de elementos secundários dos objetivos psicológicos mais amplos para os quais as investigações do jornalismo sobre consumo deveriam se voltar com mais ênfase.

 

5.

NO FUTURO, O noticiário ideal sobre consumo não se oporá ao mundo

material. Embora certas correntes de pensamento sustentem que nenhum tipo de materialismo deveria ter qualquer papel a desempenhar em uma vida digna, a verdade é mais complexa. Os objetos materiais são promessas e chamarizes de futuros estados de espírito e nos proporcionam imagens idealizadas do ponto a que queremos chegar. O diminuto carro italiano passa a imagem de jovialidade e atrevimento de um vencedor, a luminária de titânio dá a ideia de uma vida atarefada reduzida a sua essência mais significativa, as férias tiradas para fazer caminhadas na montanha prometem o fim da hesitação e da fragilidade e o nascimento de uma individualidade nova e mais resiliente.

A compra de qualquer desses produtos não basta para nos assegurar

mais controle dos estados íntimos de que falam. Mas eles podem nos proporcionar a imagem inspiradora de um destino, fomentando nosso empenho em chegar lá. De qualquer maneira, o consumismo está condenado a não ser um desperdício total de dinheiro.

As religiões sempre entenderam esse dualismo. Ao mesmo tempo

que tentavam influenciar os fiéis no terreno espiritual, valorizaram a função que alimentos, roupas, viagens e objetos de decoração interior poderiam desempenhar na moldagem do caráter. Por exemplo, o zen-budismo recomenda aos seguidores que não se limitem a ler e orar, mas que também decorem suas casas com peças de cerâmica de céladon, a serem contempladas com o objetivo de estimular o compromisso com a Simplicidade e a Ausência de Ego. Não há nessa recomendação qualquer indício do pressuposto ocidental moderno de que um belo pote pode por si só transformar o caráter de alguém, mas, ao mesmo tempo, o zen-budismo sabiamente reconhece que o tipo adequado de pote, se encarado da maneira correta, pode ser uma contribuição válida para a evolução interior.

Da mesma forma, podemos, na esfera secular, reconhecer que os

bens materiais às vezes são capazes de nos proporcionar um estímulo valioso. Um casaco novo, por exemplo, pode nos dar um lampejo inspirador de um eu mais confiante, ou talvez um simples jogo de louça de barro venha a nos induzir a uma atitude mais tranquila. Mas, ao mesmo tempo, devemos ter em mente que a esperada transformação não decorrerá apenas do ato da compra. Precisamos fazer a aquisição no contexto de uma investida multifacetada e sutil o bastante sobre a aura de atratividade que emana dos objetos.

Na seção ideal do noticiário de consumo, categorias como

Confiança e Calma serviriam para nos oferecer uma série de opções ao mesmo tempo conceituais e materiais. Aprenderíamos sobre as abordagens psicológicas que poderíamos adotar para alcançar um objetivo almejado — ouvir determinada obra musical, ler um livro sobre um período da história, estudar uma escola filosófica ou fazer um exercício mental. Mas também seríamos apresentados a certo número de aquisições materiais em sintonia com a perspectiva que desejamos — determinado tipo de jaqueta, talvez, ou uma viagem ao exterior, ou uma poltrona confortável.

 

6.

COMO PERMITIMOS ESSE divórcio entre o consumo e nossas necessidades

mais profundas, as compras que fazemos deixaram de apoiar a psique. Assim como contribuiu para essa cisma, o noticiário a respeito desse assunto também pode ajudar a retificá-lo, pois em grande medida são os meios de comunicação que informam nossas ideias sobre o que devemos comprar e com que finalidade. As categorias, a linguagem, o posicionamento e as dicas usadas ao apresentar as opções de compra têm um extraordinário poder de influência sobre o que sentimos que devemos possuir e fazer. Ao alterarmos algo aparentemente tão sem importância como as categorias sob as quais o noticiário de consumo relata suas descobertas, passando a focalizar necessidades autênticas, em vez de desejos incipientes, talvez comecemos a fazer jus às aspirações subjacentes geradas pelos bens de consumo — bens que nos exaurimos (e ao planeta) para produzir e comprar. Teremos, então, a chance de nos tornarmos versões autênticas do que o noticiário de consumo sempre quis que fôssemos: consumidores felizes.

CULTURA

 

A primavera chegou, trazendo espetáculos, livros e eventos maravilhosos. Deixe que

nossos críticos e redatores o guiem pelos pontos altos de uma temporada repleta de

arquitetura, literatura, cinema, artes plásticas, dança, teatro e jazz, música clássica, pop e

country. ¶

 

Los Angeles Times

1.

VIVEMOS EM UMA época de inédita riqueza cultural. Todo ano, a

humanidade produz cerca de trinta mil filmes, dois milhões de livros e cem mil álbuns de música, e 95 milhões de pessoas visitam algum museu ou galeria de arte.

Em vista das limitações de tempo, nesse terreno, como em tantos

outros, as empresas que geram os noticiários têm um papel essencial e de prestígio a desempenhar: ajudar-nos a decidir para onde voltar a atenção. A missão do jornalismo cultural é vasculhar a torrente de criatividade e nos direcionar para as melhores obras de arte de nosso tempo. Ao jornalismo cultural cabe nada mais nada menos que a corretagem de casamentos felizes entre a arte e seu público.

 

2.

A PROFISSÃO DE avaliar e recomendar obras de arte parece, de longe, não

apresentar maiores problemas, mas, para ser conduzida com alguma ambição e coerência, requer que uma organização produtora de notícias faça uma pergunta de caráter bem amplo e sabidamente traiçoeira: “Para que serve a arte?”

O mundo moderno tende a se mostrar unânime no sentido de que a

arte é extremamente importante, algo muito próximo do significado da vida. A pompa dessa visão elevada é acompanhada de consideráveis recursos estatais e privados para o financiamento das artes, incontáveis sacrifícios individuais em seu nome e uma enorme atenção de parte da vida pública e da vida privada.

Apesar desse alto grau de estima, as razões por trás do status especial

desfrutado pela arte tendem a ser presumidas, em vez de explicitamente expostas. Seu valor é considerado da esfera do senso comum. Perguntar por que deveríamos nos dar o trabalho de ler livros, ouvir música ou admirar pinturas é correr o risco de parecer insolente ou pedante, vivendo em uma espécie de aprisionamento a uma daquelas perguntas para as quais qualquer pessoa inteligente há muito já deve ter encontrado respostas satisfatórias.

Ainda assim, não deveria ser possível considerar “obrigatório” assistir

a um filme recém-lançado ou se referir a um novo livro como “obra-prima” sem uma explicação bem argumentada e articulada sobre o propósito da arte.

 

3.

UMA POSSÍVEL TEORIA é a seguinte: a arte (na qual incluímos literatura,

música, cinema, teatro e artes plásticas) é um meio terapêutico que guia, estimula e consola seus públicos, ajudando-os a se tornar versões melhores de si mesmos.

A arte é uma ferramenta para nos ajudar com certas fragilidades

psicológicas com as quais, de outra forma, teríamos dificuldade de lidar: nossa incapacidade de entender a nós mesmos, de rir com sabedoria das nossas falhas, de ter empatia com os outros e perdoá-los, de aceitar a inevitabilidade do sofrimento sem nos sentir perseguidos, de permanecer um tanto esperançosos, de apreciar a beleza do cotidiano e de nos preparar adequadamente para a morte.

No que diz respeito a essas e muitas outras falhas, a arte mobiliza seu

poder de cura, oferecendo-nos, por exemplo, um livro de poesia que delineia uma emoção que há muito sentimos, mas nunca fomos capazes de entender; uma comédia que sacode nossa indignação hipócrita; um álbum que nos fornece uma trilha sonora de esperança; uma peça que transforma horror em tragédia; um filme que mapeia um caminho mais sadio pelas dificuldades do amor ou uma pintura que nos convida a uma aceitação mais elegante da idade e da doença.

 

4.

ESSA TEORIA DE uma função explicitamente terapêutica da arte indica,

por sua vez, um objetivo do jornalismo cultural: voltar nossas almas solitárias, confusas, assustadas e feridas para as obras culturais com maior probabilidade de nos ajudar a sobreviver e prosperar.

O jornalista cultural deve atuar como uma espécie de químico,

selecionando, na infinidade de obras disponíveis, as mais suscetíveis a ajudar o público nas investigações internas, tratando o grande armazém das artes como uma gigantesca farmácia.

No fim das resenhas, poderíamos encontrar etiquetas discretas,

comparáveis às das caixas de pílulas, especificando a que tipo de situação determinada obra pode se destinar — e por quê. Os críticos descobririam a importância de orientar suas análises em relação à vida íntima do público hipotético, dando seus veredictos como se fossem receitas psicológicas.

Uma abordagem terapêutica do jornalismo cultural aumentaria as

oportunidades de aliviar, por meio da arte, momentos de dificuldade pessoal. Momentos em que precisamos do romance certo para nos ajudar a superar um trauma emocional, da pintura certa para restabelecer a calma, do filme certo para nos tirar de um clima de negatividade ou frivolidade. Ao mesmo tempo, diminuiria o número ainda elevado de vezes que (apesar dos milhões de obras de arte existentes) nos vemos sem a menor vontade de ler, ouvir ou assistir algo em particular.

Com a ajuda de um jornalismo cultural mais ambicioso, poderíamos

ter, em momentos decisivos, uma nova capacidade de nos mostrar um pouco menos maus e infelizes.

 

5.

O FATO DE termos problemas para encontrar o caminho até as obras de

arte necessárias é, ao mesmo tempo, peculiar e pungente, ainda mais quando tudo indica que nunca tivemos acesso tão pleno à cultura. Nós nos orgulhamos das invenções tecnológicas que tornaram milhões de livros, filmes e imagens disponíveis quase instantaneamente, não raro a baixo custo. Mas ter acesso a uma variedade vertiginosa de obras é muito diferente de saber quais delas podem ser boas para nós. Até agora, temos feito todo o possível para disponibilizar a arte, porém ainda mal começamos a descobrir como aproximar as pessoas das obras com mais probabilidade de serem importantes para elas.

A culpa dessa desconexão é em parte do jornalismo, uma vez que ele

comanda as comportas da cultura. Como em muitas outras áreas, também aqui a informação por ele apresentada pode ser confusa e aleatória, pois os jornalistas não costumam definir suas prioridades de acordo com uma programação psicológica bem pensada, e sim com o calendário promocional das indústrias editorial, cinematográfica e museológica. As páginas de resenhas e críticas acabam sendo dominadas por listas de best-sellers e levantamentos das bilheterias de filmes, como se a popularidade por si só pudesse ser o critério mais produtivo na hora de decidir o que ler ou assistir.

Além disso, uma enorme parte do jornalismo cultural se dedica a

atacar obras de arte que os críticos consideram abaixo da média. Embora possa ser um esporte divertido para o espectador, pouco tem a ver com a missão bem mais útil de tentar aproximar um público resignado e sem tempo de obras que de fato o interessem. Não parece muito sábio se dar o trabalho de informar o público sobre obras de arte de cuja existência ele até então nem sequer suspeitava, para depois — muitas vezes com uma vivacidade considerável — insistir que a obra deveria ser completamente ignorada.

De qualquer maneira, uma obra pode ser verdadeiramente digna de

atenção e ainda assim não ter ressonância, caso nos deparemos com ela no momento errado para nós. Podemos acabar na companhia de um “grande” livro, filme ou exposição cujos méritos reconhecemos, mas que nos deixa indiferentes, entediados e com sentimento de culpa — pois os críticos não foram capazes de esclarecer de forma sutil ou suficiente, como faria um bom farmacêutico, para qual condição a obra poderia servir como corretivo adequado. Uma verdade inconveniente é que boa parte, talvez uma parte enorme, do possível valor de qualquer obra de arte depende da situação psicológica do público. A arte só pode de fato ganhar vida naquelas ocasiões preciosas em que seu conteúdo está em sintonia com uma necessidade íntima — ocasiões em cuja identificação e divulgação o jornalismo cultural devia tentar treinar sua inteligência, assumindo o papel do farmacêutico que indica o remédio com maior poder terapêutico para a humanidade.