Notícias: Manual do Usuário

Alain de Botton · Capítulo 3 de 9

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Notícias: Manual do Usuário

Capítulo dois: Noticiário internacional

capítulo dois

 

Noticiário internacional

INFORMAÇÃO / IMAGINAÇÃO

 

A região leste da República Democrática do Congo enfrenta uma crise humanitária

catastró ca, adverte uma organização de ajuda internacional no início de uma reunião de

cúpula regional em Uganda. Segundo a Oxfam (Oxford Committee for Famine Relief),

milhões de pessoas estão à mercê de milícias, com grande aumento de matanças, casos de

estupro e saques. A organização constata que a necessidade de enfrentar os rebeldes

desviou forças de segurança de outras áreas vulneráveis. A ONU a rma que o con ito

expulsou cerca de 250 mil pessoas de seus domicílios. ¶

 

BBC

1.

AS ORGANIZAÇÕES JORNALÍSTICAS podem ser locais inesperadamente

idealistas. Na entrada da sede da BBC, em Londres, é possível ler uma citação em latim na parede:

 

Este Templo das Artes e das Musas é dedicado a Deus Todo-Poderoso pelos

primeiros Governadores da Radiodifusão no ano de 1931 (...) Eles oram para que

(...) tudo que seja hostil à paz ou à pureza seja banido desta casa e para que as

pessoas, inclinando-se para ouvir tudo que seja belo, honesto e bem relatado,

caminhem pela trilha da sabedoria e da integridade.

 

Lá dentro, o visitante pode verificar como parte desse idealismo é

traduzida em atos concretos. Há seções incumbidas de cobrir os acontecimentos nos lugares mais conturbados e desafortunados do mundo. A redação que cuida da África ocupa um andar inteiro. Só a Somália merece atenção de oito profissionais da reportagem, e a República Democrática do Congo conta com uma equipe de três, que desfrutam de uma área com sofá e uma vista inspiradora de Portland Place.

O pensamento idealista no noticiário enuncia-se assim: o mal, a

passividade e o racismo resultam, sobretudo, da ignorância. Ao ajudar as pessoas a tomar conhecimento do que de fato acontece em outras partes do mundo, diminuem-se as chances de preconceito, medo, engano e agressão. O noticiário pode tornar o mundo um lugar melhor.

2.

MAS ESSA LÓGICA apresenta um problema, que pode ser constatado ao

examinarmos o número de consultas diárias no site de notícias da BBC:

 

Duquesa de Cambridge dará à luz em julho 5,82 milhões

Previsão de tempestade de neve para todo o Reino Unido 4,34 milhões

Volta de Bowie entra na lista dos dez singles mais vendidos 2,52 milhões

Atentado à igreja em Kogi, estado da Nigéria, deixa dezenove mortos 9.920

Iminência de catástrofe humanitária no leste da República Democrática do Congo

4.450

Cinco mortos em tiroteio entre clãs em KwaZulu-Natal, África do Sul 2.540

Conflito na República Democrática do Congo: Kagame e Kabila não chegam a

acordo 1.890

 

De certo modo, o grande objetivo do Iluminismo foi alcançado: hoje

em dia, o cidadão comum tem acesso quase instantâneo a informações sobre acontecimentos em todos os países. Entretanto, também fomos forçados a constatar algo ainda mais surpreendente: ninguém está muito interessado.

 

3.

A RESPOSTA-PADRÃO DAS agências de notícias é culpar o público por sua

superficialidade, por se preocupar mais (e por uma margem incrível) com uma música pop do que com um tiroteio entre clãs; com o nascimento do bebê de um membro da família real britânica do que com cerca de cem mil crianças desesperadas sofrendo de raquitismo e malária na África Central.

Mas e se esse espantoso nível de desinteresse não for só de

responsabilidade do público? E se o verdadeiro motivo de espectadores e leitores não se importarem muito com o que está acontecendo em terras estrangeiras não residir no fato de sermos particularmente superficiais e sórdidos, nem mesmo no caráter intrinsecamente entediante dos acontecimentos descritos? E se decorrerem apenas do fato de o noticiário não ser apresentado de maneira interessante o suficiente? E se tivermos perdido o interesse no mundo em virtude, sobretudo, de certos pressupostos equivocados das empresas que geram os noticiários sobre a maneira como devem nos descrever o mundo?

 

4.

O PRIMEIRO DESSES pressupostos é que a principal função técnica de

qualquer jornalista é a capacidade de coletar informações com precisão. Como as agências de notícias partem do princípio de que estão combatendo a ignorância do público, a coleta de informações precisas toma a frente das prioridades educativas nas escolas de jornalismo. Os novatos aprendem a obter e transcrever citações de personas importantes dentro de cada história, apresentar fatos e números para escorar qualquer afirmação, abster-se de ornamentar a escrita — o que distrai a atenção — e procurar eliminar quaisquer vieses pessoais e culturais do ato de reportar.

Todas essas estratégias parecem perfeitamente lógicas, mas o

problema é que, na verdade, a condição real do público difere um pouco da diagnosticada pelo establishment de divulgação das notícias. A audiência não sofre tanto de ignorância, mas de indiferença. Hoje em dia, não é muito difícil conseguir informações precisas sobre outros países; a verdadeira questão é como poderíamos sentir interesse sincero por elas. Uma coisa é informar, em uma matéria jornalística, quantas pessoas morreram em um ataque de guerrilheiros, afogaram-se em uma enchente ou perderam tudo que tinham por culpa de um presidente corrupto. Nesse tipo de cobertura, os desafios são técnicos e administrativos, e o repórter precisa de paciência, coragem e muita vontade de trabalhar. Uma tarefa completamente diferente (e muito menos contemplada) é convencer os leitores ou espectadores a se importar com tais acontecimentos. E o talento exigido para isso se encontra em uma área quase sempre ignorada pelas redações internacionais das empresas que geram os noticiários.

Pode-se definir a arte como a disciplina que se dedica a tentar

incutir conceitos na cabeça das pessoas. Na literatura, em contraste com o jornalismo, os mais capazes jamais partirão do princípio de que o mero esqueleto de uma história seja suficiente para conquistar o público. Eles não imaginariam que um atentado, uma enchente ou um roubo pudesse, por si só e intrinsecamente, gerar um interesse que leve o leitor a ficar comovido ou indignado. Esses escritores sabem que nenhum acontecimento, por mais chocante que seja, pode garantir o envolvimento. Para isso, precisam trabalhar duro na prática de sua arte única, o que significa prestar atenção à linguagem, dar vividez aos detalhes e manter o ritmo e a estrutura sob controle estrito. Em certas situações, os mais criativos podem até optar por sacrificar a precisão rigorosa — quem sabe adaptando um fato, eliminando um detalhe, condensando uma citação ou alterando uma data —, e, em vez de pensar que estão cometendo um crime (reação habitual das organizações jornalísticas quando apanham um dos seus fazendo coisas do tipo), entenderão que falsificações podem eventualmente ser necessárias a serviço de um objetivo ainda mais elevado que a precisão: a esperança de transmitir ideias e imagens importantes a um público impaciente e distraído.

 

5.

UM SEGUNDO PRESSUPOSTO por trás do noticiário internacional é que,

quanto mais terrível, trágico ou macabro um incidente, mais “importante” deve ser considerado e, portanto, mais bem posicionado ficará na hierarquia das matérias. Os jornalistas e seus editores tendem a considerar que a importância de qualquer acontecimento é determinada por seu grau de anomalia e raridade, que quase invariavelmente significa que seja um fato pavoroso, sanguinolento e mortífero. Dessa forma, um bombardeio que mate trinta pessoas é considerado mais importante para o noticiário que um dia tranquilo em uma aldeia pesqueira; uma epidemia de doença tropical que dilacera os pulmões das vítimas em três horas é vista como de maior interesse que uma pacata colheita agrícola; denúncias de tortura pelos serviços de segurança têm mais significado que um ritual coletivo de almoçar tabule e folhas de parreira recheadas em um campo bucólico às margens do rio Jordão.

O problema com essa filosofia é que, se não tivermos alguma noção

do que é considerado normal em determinado local, podemos ter muita dificuldade para aferir ou prestar atenção em condições anormais. Só podemos nos preocupar de fato com distúrbios lamentáveis e violentos se tivermos informações sobre as condições habituais de tranquila normalidade de determinado lugar, o que inclui a vida cotidiana, as rotinas e as modestas expectativas de sua população.

E, no entanto, apesar do incrível aparato tecnológico dos meios de

comunicação, não obstantes as sucursais, os correspondentes, os fotógrafos e os operadores de câmera, não recebemos informação alguma sobre os acontecimentos comuns na maioria dos países. Não sabemos dizer se alguém chegou a ter um dia normal na República Democrática do Congo, pois nada parecido jamais foi registrado por uma organização jornalística ocidental. Não temos a menor ideia sobre como é ir à escola ou ao cabeleireiro na Bolívia; paira o mais perfeito mistério sobre a eventual possibilidade de um bom casamento ser, quem sabe, possível na Somália; e, da mesma forma, permanecemos ignorantes quanto à organização do trabalho em escritórios no Turcomenistão e o que fazem as pessoas durante um fim de semana na Argélia. Por partir do pressuposto de que deve nos deixar devidamente chocados e interessados, o noticiário só quer saber dos chamados acontecimentos “importantes” — terremotos, estupros coletivos, a destruição indiscriminada de aldeias inteiras por assassinos viciados em drogas.

Mas, na verdade, não temos como nos importar muito com

incidentes terríveis se antes não tivermos sido introduzidos a comportamentos e atitudes com os quais possamos nos identificar, se não nos familiarizarmos com momentos e detalhes banais que dizem respeito a toda a humanidade. Voltar a atenção para eles não distrai das notícias “sérias”; pelo contrário, fornece a base sobre a qual deve repousar qualquer interesse sincero por acontecimentos espantosos e perturbadores.

Os críticos desse argumento poderiam assinalar que não precisamos

ver ou ler uma matéria sobre a vida comum em nosso país para nos preocuparmos com acontecimentos irregulares verificados no interior de suas fronteiras — apenas nos preocupamos, por instinto. Mas isso seria esquecer que desenvolvemos automaticamente um sentido do que é comum com base na experiência cotidiana de morar onde moramos. Sabemos como é pegar um trem, comparecer a uma reunião, entrar nas lojas, levar as crianças para a escola, flertar, rir e ficar furioso — e é por isso que logo nos sentimos envolvidos ao saber que alguém foi sequestrado em Newcastle ou que uma bomba explodiu em Edgbaston.

A organização jornalística ideal do futuro, reconhecendo que o

interesse pelo anômalo depende de um conhecimento prévio do que é normal, criaria o hábito de encomendar histórias sobre certos aspectos da natureza humana que induzem a uma identificação do público e que invariavelmente existem, mesmo nos recantos mais distantes e devastados do planeta. Depois de aprender alguma coisa sobre as festas de rua em Adis Abeba, sobre como se dá um relacionamento amoroso no Peru e sobre as relações de família na Mongólia, o público estaria preparado para se preocupar um pouquinho mais com o próximo tufão devastador ou golpe de Estado violento.

 

6.

EXISTE OUTRO PRESSUPOSTO no que diz respeito ao objetivo principal da

cobertura internacional. Tal como se apresentam hoje, as notícias sobre o que acontece no mundo obedecem implicitamente às prioridades do Estado e do mundo dos negócios, tratando de forma quase exclusiva de eventos que afetam interesses militares, comerciais ou humanitários. O noticiário internacional está preocupado em nos dizer com quem devemos guerrear, fazer negócios ou simpatizar.

Porém, essas três áreas de interesse não são prioridades para a

maioria de nós. Em um nível muito mais profundo, mais metafísico, o noticiário internacional deveria representar um meio de humanizar o Outro — ou seja, o estranho que mora do outro lado da montanha ou para além dos mares, pelo qual instintivamente nos sentimos repelidos, entediados ou assustados e com o qual nem sequer podemos imaginar ter algo em comum. O noticiário internacional deveria encontrar maneiras de nos tornar mais humanos aos olhos dos outros, para que as barreiras aparentemente insuperáveis de geografia, cultura, raça e classe possam ser transcendidas e que desenvolvamos algum sentimento de identificação para além dos abismos que nos separam.

Muitas organizações jornalísticas bem-intencionadas investem

duramente contra aqueles que se ressentem do influxo de imigrantes de outros países. Contudo, esse ponto de vista decorre do pressuposto de que a desconfiança automática em relação aos estrangeiros é antes uma marca de Satã que um resultado comum e quase natural da ignorância — pecado que as agências de notícias têm capacidade de combater de maneira mais construtiva (ao contrário de denúncias culpabilizantes de intolerância).

Para alcançar seus objetivos declarados, o noticiário internacional

deveria se dispor a adotar certas técnicas da arte. Como dizia George Eliot, a arte como meio de comunicação é capaz de nos ajudar, “ampliando a experiência e estendendo nosso contato com os outros seres humanos para além dos limites da situação pessoal em que nos encontramos”. Seu maior benefício, segundo Eliot, é “a extensão de nossas simpatias”. Hoje, mais que nunca, precisamos que essas simpatias se estendam, em certo sentido porque a maior parte da informação que recebemos chega em forma de dados ou fatos abstratos, coisa que nosso ser mais profundo não é capaz de digerir (“Iminência de catástrofe humanitária no leste da República Democrática do Congo”). Eliot acrescentava: “Os apelos baseados em generalizações e estatísticas requerem uma simpatia prêt-à-porter (...); mas o tipo de imagem da vida humana que um grande artista pode nos proporcionar surpreende até os superficiais e egoístas, forçando-os a prestar atenção ao que está distante, o que pode ser considerado a matéria-prima do sentimento moral.”

Esta, em resumo, deveria ser a missão do noticiário internacional:

fomentar a “atenção ao que está distante” e, assim, facilitar o contato construtivo, a assistência prática e a compreensão mútua entre nós e outros povos.

Outra justificativa correlata do noticiário, de ordem psicológica, é

nos ajudar a recuperar a perspectiva. Como vivemos em uma única sociedade, é fácil deixarmos de reparar, que dirá de apreciar, as vantagens de nossa civilização — a relativa sofisticação de nossas leis, hábitos sociais, tradições educacionais e redes de transporte. Não conseguimos ver o que foi tão difícil conseguir. Os outros países representam uma espécie de escala perante a qual a nação e o modo de vida que temos podem ser avaliados. Eles são capazes de nos ajudar a enxergar as esquisitices nacionais, os pontos cegos e a força que temos. As histórias a respeito desses países podem nos levar a apreciar as liberdades imperfeitas e a relativa abundância de nossa terra, que de outra maneira seriam encaradas exclusivamente como objeto de reclamações e acusações. Por outro lado, podemos descobrir que soluções melhores para problemas com que estamos mais que familiarizados foram encontradas em outros lugares. Coisas que pareciam inevitáveis revelam-se alternativas culturais, abertas à mudança.

Deveria estar na pauta do noticiário destacar as virtudes e falhas

relativas de tudo aquilo que se tornou tão presente e frequente que já nem vemos mais.

 

7.

OS CÉTICOS ARGUMENTARÃO que estamos sendo ingênuos e insistirão

que, salvo sob circunstâncias muito específicas, não se pode esperar que nos preocupemos com o que acontece no exterior. Segundo essa tese, as reportagens sobre o que ocorre no mundo sempre nos deixarão entediados, pois no fundo estamos interessados apenas em “nós mesmos”, categoria cujos limites são delineados pelos campos restritos da família, dos amigos, da segurança, do emprego e do clima. Desse modo, se, por exemplo, estivéssemos zapeando na televisão e parássemos em uma reportagem sobre os últimos acontecimentos no governo italiano (no Senato della Repubblica, no Palazzo Madama, em Roma, o novo orçamento mais uma vez provoca tumulto, velhas alianças se confrontam, e outras, mais vantajosas, se formam), inevitavelmente bocejaríamos e mudaríamos de canal.

Porém, isso não é tudo, uma vez que, na verdade, nossa curiosidade

natural é muito mais persistente do que essa visão das coisas poderia dar a entender. Somos perfeitamente capazes de nos interessar e até soluçar pelo destino de indivíduos que viveram, governaram e morreram em outros países não só em nossa época, mas centenas e talvez até milhares de anos atrás — gente com nomes estranhos e ocupações ainda mais estranhas, cujos atos não tiveram quaisquer consequências diretas sobre nossa vida. Podemos ficar sentados em um teatro escuro por duas horas e quinze minutos, sem pensar no intervalo, enquanto acompanhamos de perto a história de um pretor da Roma Antiga chamado Marcus Brutus, que certa vez recebeu do amigo, Gaius Cassius, notícias preocupantes sobre planos traçados no Senado.

Como somos capazes de nos preocupar com o que acontece em

Júlio César, de William Shakespeare? Por que nos dispomos a gastar preciosos recursos mentais com algo tão distante de nossos interesses? A resposta é que, embora a peça trate ostensivamente de maquinações políticas muito específicas ocorridas na península italiana há cerca de dois milênios, na verdade ela fala o tempo todo sobre nós.

8. Noticiário político

Acontecimentos importantes, e constrangedoramente entediantes, na República italiana.

 

9. Júlio César

Acontecimentos importantes, e incrivelmente fascinantes, na República romana.

 

Quando bem contadas, as histórias podem funcionar em dois níveis.

Na superfície, tratam de temas particulares envolvendo uma série de fatos relacionados a determinados tempo e lugar, a uma cultura local e um grupo social — e esses elementos específicos tendem a nos entediar quando são alheios à nossa experiência. Mas, em uma camada abaixo dos temas particulares, escondem-se os temas universais. Eles são psicológicos, sociais e políticos e transcendem os contextos temporal e geográfico das histórias, escorando-se nos elementos fundamentais invariáveis da natureza humana.

Na linguagem dos temas particulares, a peça histórica de

Shakespeare é “sobre” a Roma Antiga, dramatizando acontecimentos bem confusos em torno da triunfal volta de César da guerra contra Pompeia, no momento em que Gaius Cassius conspirava para matá-lo, com apoio de Marcus Brutus. Mas, na linguagem dos temas universais, Júlio César contrapõe temas atemporais — por exemplo, como decidir o que devemos aos amigos e o que deveríamos dar ao nosso país, como reagir a boatos e conspirações e de que maneira distinguir apreensão de pânico. A peça examina a forma como as boas intenções podem gerar resultados desastrosos e avalia quais são os papéis desempenhados pelo erro e pela cegueira até nos atos dos homens de caráter.

Não podemos esperar, de modo algum, que as matérias jornalísticas

em geral sejam escritas com talento shakespeariano; no entanto podemos insistir para que alguma atenção shakespeariana seja dada aos temas universais, sobretudo nos casos em que os temas particulares têm toda probabilidade de parecer estranhos a ponto de causar repulsa. Existem maneiras de apresentar uma história que são capazes de nos ajudar a transmitir conhecimentos apesar das defasagens culturais e circunstanciais e a encarar a infinidade de experiências vividas pelos outros seres humanos como fontes a que sempre podemos recorrer na nossa busca por inspiração, cautela, orientação e percepção.

 

8.

MAS NÃO PERDEMOS todo o apetite por aquilo que acontece em outros

lugares. Somos criaturas que, em eras passadas, faziam fila para ouvir histórias sobre as chamadas terras estrangeiras. O problema é que os métodos de relato desenvolvidos pelos meios de comunicação modernos — que privilegiam, em detrimento quase total de qualquer outro tipo, uma cobertura factual, exata, rápida em termos tecnológicos, impessoal e centrada nas crises — levaram por equívoco a uma espécie de provincianismo globalizado. Por causa deles, sabemos muito e nos importamos pouco. Eles fazem com que um pouco de conhecimento do tipo errado sirva para apequenar, em vez de expandir, o alcance de nossa curiosidade.

Ainda assim, nosso fascínio e nossa capacidade de sentir empatia

estão apenas adormecidos. Para reconquistar sua força, o noticiário internacional precisa apenas se submeter a alguns dos processos da arte.

OS DETALHES

 

 

A auditoria do governo de Uganda informou que milhões de dólares foram transferidos do

gabinete do primeiro-ministro, Amama Mbabazi, para contas privadas. O chefe do

governo reconheceu que o dinheiro foi roubado de seu gabinete, mas nega qualquer

envolvimento. John Nagenda, assessor do presidente de Uganda, disse que o governo

está decidido a fazer com que os responsáveis por supostos atos de corrupção sejam

levados à justiça. Os ugandenses estão “fartos” da corrupção, acrescentou. Mbabazi nega

qualquer delito, mas admite que houve “roubos em massa” em seu gabinete. ¶

 

BBC

1.

EM VISITA À redação da BBC especializada em Uganda, saboreando um

bolo de banana generosamente oferecido por um colega da BBC Nigéria, tentei deixar transparecer, com a maior gentileza possível, minha incapacidade de desenvolver interesse pelas notícias que a equipe ali reunida coletava com tanto zelo e tentava transmitir a um mundo indiferente. Entre essas notícias estavam, naquele dia, um relato sobre o roubo descarado de 12 milhões de dólares destinados à ajuda humanitária que se encontravam no gabinete do primeiro-ministro de Uganda.

 

2.

DO PONTO DE vista da vida política em Uganda, tratava-se

evidentemente de uma questão de grande importância, mas no site da BBC a informação teve a infelicidade de competir com uma matéria sobre um jogador de futebol casado que fora fotografado nos braços da mulher de um dos mais famosos chefs da televisão britânica, e com outra, sobre uma atriz francesa ferida em circunstâncias muito peculiares no iate de um americano que se tornara bilionário com a internet e tinha sua embarcação ancorada ao largo de Monte Carlo. Como se poderia esperar, a matéria sobre Uganda não teve grandes chances.

Os jornalistas da BBC especializados em Uganda mostraram-se mais

elegantes do que se poderia esperar diante do desinteresse manifestado por mim e pela sociedade. Até que, enfim, um jovem ugandense que trabalhava lá e que passara vários anos da adolescência em um campo de refugiados no norte do país sugeriu que talvez fosse melhor eu fazer uma visita a Uganda e constatar por mim mesmo, na esperança de assim, quem sabe, despertar um interesse até então fugidio.

 

3.

E FOI O que fiz. Não porque quisesse, mas exatamente porque não

queria — porém ainda assim queria entender por quê. Fui para desenvolver minhas ideias acerca dos motivos pelos quais tantos países estrangeiros não exercem qualquer apelo sobre uma parcela tão desalentadoramente grande do público nacional, bem como o papel que o noticiário desempenha na geração ou na sustentação desse cansaço e desinteresse.

Minha primeira surpresa foi o fato de precisar fazer uma viagem para

chegar a Uganda. A tecnologia contribui para ocultar esse detalhe um tanto óbvio. Durante a maior parte da história da humanidade, os obstáculos oferecidos pelas viagens e pela comunicação com os países do outro lado de um oceano eram de tal alcance que as distâncias geográficas — e também, por implicação, as distâncias psicológicas e culturais — eram constante e automaticamente enfatizadas. Atravessar o oceano, ou mesmo mandar uma simples mensagem, era uma proeza tão demorada e onerosa que deixava os envolvidos de posse de uma moral que hoje tende a se perder quando, com um toque em uma tela, podemos viajar, de graça e à velocidade da luz, de Marselha a Djibuti pelo cabo submarino de internet SEA-ME-WE4, para, em seguida, passando pelo cabo submarino de fibra ótica EASSy, na África Oriental, ir de Mombasa a Kampala, onde confessamos certa sensação de tédio e impaciência. É uma moral segundo a qual as experiências da humanidade são infinitamente mais complexas e interessantes do que jamais poderíamos imaginar ao contemplar de nosso acanhado e estático ponto de observação, sendo, portanto, uma cortesia básica que devemos ao planeta e às suas muitas terras manter-nos sempre abertos, curiosos e modestos diante de seus múltiplos mistérios.

Essa moral naturalmente se agregava ao espírito de alguém quando a

única maneira de chegar a Uganda era passar dois meses viajando pelo mar, contornando o perigoso cabo da Boa Esperança em direção a Dar es Salaam e, em seguida, adentrando terra firme por mais alguns meses, passando por matas e desertos, com toda probabilidade de nunca mais voltar. Em 1859, John Hanning Speke, o primeiro europeu a pôr os pés em Uganda, o homem que deu ao lago Inyansha seu novo nome, lago Victoria, conseguiu retornar à Grã-Bretanha e fez uma conferência sobre suas viagens para uma multidão quase histérica de oitocentas pessoas na Real Sociedade Geográfica, em Kensington. Para aqueles indivíduos, não restava dúvida de que o “noticiário internacional” era algo extremamente empolgante. Speke contou-lhes que, perto do lago Manyara, na Tanzânia, fora atacado por ferozes caçadores locais e acabara com as bochechas perfuradas por uma lança. Dias depois, um besouro tinha entrado em seu ouvido, começara a roer seu tímpano e tivera de ser extraído com uma faca. O momento em que ele finalmente concluíra a escalada das luxuriantes colinas tropicais, em que hoje repousa a cidade de Kampala, foi descrito de maneira pitoresca no livro de viagem, um best-seller, que ele publicou em 1863, The Discovery of the Source of the Nile [A descoberta da fonte do Nilo]:

 

Atravessamos a parte baixa de uma colina e nos deparamos, até onde a vista

alcançava, com uma paisagem rica e verdejante. Fiquei imensamente

impressionado com a ordem e o bom arranjo do lugar, assim como sua enorme

beleza e riqueza. Nenhuma região de Bengala ou Zanzibar podia superá-la a esse

respeito; e meus homens, de uma só voz, exclamaram: “Ah, que povo

extraordinário!” (...) Eu me senti inclinado a ficar ali mais um mês, tudo era muito

agradável (...) Toda aquela terra era uma imagem de beleza tranquila, com o

infinito [lago Victoria] ao fundo (...) À noite, uma hiena entrou na minha cabana e

levou uma de minhas cabras, que estava amarrada a um tronco entre dois de meus

homens que dormiam (...)

 

Não havia grande risco de o público inicial desse tipo de material ser

distraído por algum equivalente do século XIX de um episódio sobre um jogador de futebol mulherengo.

Mesmo hoje, a viagem para Uganda não poderia ser considerada

fácil: o voo de oito horas em um Boeing 767, percorrendo cerca de 6.500 quilômetros entre Londres e Entebbe, é um bom lembrete das enormes dimensões do planeta. Passadas seis horas, começamos a voar sobre o interminável deserto ocre perto de Ounianga Kébir, no Chade. A Europa já ficou bem longe. Uma hora depois, em um tédio interminável, passamos de novo a folhear páginas da revista de bordo, enquanto o avião entra no espaço aéreo do Sudão. No mapa da companhia aérea, os nomes são fortes e estranhamente poéticos — Emi Koussi, Am Djeress, Umm Buru, Muhajiriya —, tantos lugares desconhecidos e imprevistos, abrigando gente cujos pressupostos e estilos de vida pareceriam muito desafiadores se o avião escolhesse cair neste ponto. Então, chega um lanche preparado no fim da noite anterior, em Hounslow (pode-se escolher entre um sanduíche de queijo ou de ovo com agrião), a ser comido nos minutos de voo entre as cidades de Khogali e Tambura, no Sudão do Sul, percurso que a pé levaria cinco dias. No fim das contas, passando sobre a República Democrática do Congo, os avisos de apertar os cintos de segurança se acendem, ouvimos os agradecimentos do comandante, um lembrete sobre imigração e malária, e começamos a sobrevoar Hoima e Luwero para chegar a Entebbe, tendo como pano de fundo o lago Victoria mergulhado em uma escuridão pontuada pelas lâmpadas tremeluzentes de centenas de minúsculos barcos de pesca.

Hoje em dia, desconfiamos de qualquer coisa “exótica”. Essa

maneira de elogiar o que é estrangeiro parece perigosamente provinciana, condescendente e, possivelmente, racista. O noticiário internacional tratou de se distanciar da literatura de viagem e de toda a parafernália correspondente que remetia ao exótico. Tomando o cuidado de não supervalorizar nem denegrir outras culturas, optou pela solução intermediária de um tom sempre neutro, sem nunca manifestar espanto com os modos e práticas dos longínquos recantos do mundo sobre os quais informa. Nunca parece perplexo por se encontrar onde está; apenas aceita, sem qualquer comentário explícito, o fato de estar enviando uma matéria de um lugar onde as noivas oferecem uma cabra aos noivos no dia do casamento, onde se pode servir luwombo com pasta de sim-sim no jantar e a temperatura à sombra ao meio-dia talvez chegue a 30ºC, fatos que aparentemente não são considerados interessantes quando o noticiário tenta focalizar o provável envolvimento do primeiro-ministro em um incidente de má administração financeira.

10. O noticiário faz questão de nunca se parecer nem um pouco com este homem.

John Hanning Speke (1827-64).

 

Ao descer em Uganda, contudo, não podemos deixar de ficar

impressionados com o que ainda merece ser considerado exótico: os coloridos anúncios do óleo vegetal Golden Fry, da empresa Bidco, pintados à mão nas paredes das casas, os nomes das pessoas locais (Patience, Ignatius e Kenneth), o cheiro de carne assada e de fumaça de fogueira, os marabus e turacos que rodopiam no céu azul da manhã e se aboletam no alto dos postes de telecomunicações e as figueiras que crescem no meio de ilhas de trânsito. Além disso, aonde quer que se vá, em todo momento de espera (coisa frequente por lá) há a constante repetição do velho provérbio ugandense “Mpola mpola, otuuka waala” (algo como “devagar se vai ao longe”).

 

4.

NA LITERATURA DE viagem, entramos em outros países com a ajuda de

narradores com os quais podemos nos identificar e que reagem a esses lugares com alguns dos pressupostos e medos que nós mesmos nutrimos. Eles também podem sentir saudades de casa e se assustar com febres e insetos. Podem reconhecer que sentem fraqueza, entusiasmo e desespero. Podem hesitar um pouco em sua habitual falta de passividade jornalística ao ver, na principal estrada que leva a Kampala, um grande e nada convincente outdoor com a promessa de que “Juntos podemos matar a doença de Marburg” (febre hemorrágica virótica altamente contagiosa que mata mais de 80% das vítimas em dois dias e é endêmica em vastas regiões de Uganda).

Hoje, entretanto, qualquer tipo de narrador pessoal seria considerado

uma intrusão na objetividade de um relato jornalístico. Assim, o noticiário internacional evita falar com uma voz ou personalidade. Contudo, se sobrevém algum dano a quem contemple outro país pelas lentes distorcidas de um correspondente que manifeste suas mais francas reações, não é nada em comparação com o sufocante tédio causado pelos repórteres declaradamente neutros e precisos. Estes, sob a alegação de nem sequer terem alguma reação ante o que é estrangeiro, solapam o desejo que sentimos de enriquecer nosso conhecimento de mundo.

 

5.

NA PRESSA DE nos informar sobre os chamados “acontecimentos

relevantes”, o noticiário esquece que nosso envolvimento com determinado país depende de fazermos contato com aqueles elementos visuais ou sensoriais menores que, por si sós, podem despertar um interesse mais profundo por um povo e um lugar. Para de fato sentirmos interesse real pelo noticiário sobre Uganda, precisamos primeiro saber alguma coisa sobre as mangueiras de Kampala, cuja doce fragrância flutua pelas avenidas apinhadas de gente depois das tempestades tropicais, que caem quase de hora em hora. Também ajuda dar uma olhada em um típico escritório de Kampala, ver como funcionam as escolas do país, aprender sobre os rituais de relacionamento e folhear o jornal local, New Vision, para saber das notícias sobre os crimes mais recentes:

 

O ex-presidente do Sindicato dos Médicos, dr. Apollo Nyangasi, foi condenado à

prisão perpétua pelo assassinato de sua mulher, Christine, depois de

desentendimentos sobre os bens comuns. Ao pronunciar a sentença, na quarta-feira,

a juíza Jane Kiggundu, da Suprema Corte, disse que os atos do ex-presidente não

eram civilizados. Nyangasi cometeu o crime em 24 de julho de 2010, no domicílio

conjugal em Kireka Kira, distrito de Wakiso. Eles estavam casados havia dezessete

anos, com dois filhos. A promotoria pediu pena de morte para Nyangasi, alegando

que o assassinato foi cometido de maneira brutal. ¶

 

Em certa medida, o tom da notícia já indica a distância que

percorremos. A juíza considerou apenas “não civilizado” que um homem matasse a esposa, e o promotor não pediu a pena de morte por considerá-la um castigo adequado por homicídio, mas porque, em vez de se livrar da mulher recorrendo a um método mais brando, Apollo matou Christine “de maneira brutal”. Os “desentendimentos” em torno dos bens comuns também soam como uma expressão desconcertantemente sóbria (“Tínhamos desentendimentos, e eu a espanquei até a morte...”). Sem pretendê-lo, a matéria transmite a ideia de um mundo estranho, no qual a violência está sempre por perto como alternativa de comportamento em reação à frustração e à inconveniência e onde a agressão física representa uma ameaça tão constante e avassaladora que os meios de comunicação, ao contrário de seus equivalentes mais sensacionalistas em países mais obedientes à lei, só podem tratá-la com os eufemismos mais nauseabundos.

 

6.

EU ACOMPANHO O correspondente da BBC a uma entrevista coletiva do

assediado primeiro-ministro, que há várias semanas vem sendo acusado de roubo, tanto por governos de outros países quanto por seus próprios compatriotas. Em ocasiões assim, a máquina de notícias exige uma coisa acima de tudo: uma citação com cerca de cinquenta palavras, a ser complementada por outras cinquenta palavras de um porta-voz da oposição.

Entretanto, mesmo esse cenário jornalístico pré-montado dá ao

observador uma oportunidade de aprender sobre Uganda de maneira não convencional. Por exemplo, analisando a enorme fotografia — que, por incrível que pareça, ainda fica exposta em lugar de destaque — do primeiro-ministro abraçando o coronel Muammar al-Gaddafi na reunião da União Africana, em Kampala, em 2010 (o último evento dessa natureza de que o coronel participou), ou notando, ao redor da mesa de conferência, as enormes cadeiras giratórias de couro preto ao estilo da década de 1970 — o tipo de assento que um diretor de filme pornô imaginaria adequado para um importante diretor-executivo —, nas quais estão entronizados o primeiro-ministro e seus assessores.

11. Stuart Franklin, O primeiro-ministro de Uganda, 2012.

 

12. Stuart Franklin, Saguão do Serena Hotel , Kampala, 2004.

 

Também podemos aprender algo sobre Uganda com a inarredável

recusa de nosso anfitrião em dar qualquer resposta de acordo com as normas do jornalismo contemporâneo. Ao ser perguntado se as alegações a seu respeito o tinham levado a pensar em renunciar, ele responde com um sorriso lento e magoado e uma declaração teatral e cheia de rodeios, em uma voz que estranhamente combina a dicção de um pregador da igreja batista do sul dos Estados Unidos com o tom sombrio de um carrasco (e, de fato, ele foi o chefe da segurança durante muitos anos). “Meus amigos”, começa, “queridos amigos, todos aqui são meus amigos. Nós, em Uganda, estendemos ao mundo a mão da amizade. De modo que, a todos vocês aqui reunidos, chega de desconfiança e tristeza, chega de acusações. O certo é que nada de mau voltará a nos acontecer no futuro que estamos construindo para os ugandenses, todos os ugandenses, os muito pobres e aqueles que prosperaram, hoje, amanhã e em todos os dias que o Senhor nos conceder”. Com certeza, não é o tipo de declaração fácil de encaixar no próximo boletim.

Se as matérias têm normas habituais, o mesmo acontece com as

fotografias usadas para ilustrá-las. As convenções exigem diretores fotografados na escrivaninha, políticos desembarcando de aviões, campeões no pódio — nada idiossincrático demais, muito menos “artístico” demais. Mas o fato é que seria proveitoso se o fotógrafo que foi a Kampala com o autor infringisse as regras e capturasse tanto o olhar de espanto do primeiro-ministro, na fração de segundo depois de ouvir a pergunta contundente de um repórter, quanto a assistente por ele instruída a registrar nossa presença enquanto registrávamos a dele, talvez como um lembrete implícito de que o primeiro-ministro tem em seu poder as chaves das câmaras de tortura que, segundo a Anistia Internacional, situam-se no porão do prédio em que nos encontrávamos.

Os bons fotógrafos condensam temas amplos em uma única

imagem: ela pode falar da corrupção endêmica em um país inteiro ao simplesmente nos mostrar alguns homens aguardando sentados no saguão de um hotel de luxo, ou da extrema pobreza local ao focalizar a tuba mais que usada de um músico em um desfile comemorativo (embora talvez não fosse bem essa a palavra) do quinquagésimo aniversário da independência de Uganda.

13. Stuart Franklin,

Instrumentos de metal, Comemoração da Independência, Hoima, Uganda, 2012.

 

7.

EM SEU POEMA “Asphodel, That Greeny Flower” [Abrótea, aquela flor

esverdeada] (1955), o poeta americano William Carlos Williams escreveu estes versos que ficaram famosos:

 

É difícil

encontrar notícias em poemas

ainda assim, a cada dia os homens sofrem mortes horríveis de um jeito horrível

por falta

do que lá se encontra.

14. Aluno de Pieter Bruegel, o Velho, Paisagem com a queda de Ícaro, c. 1565.

 

Essa parte de “morte horrível”, naturalmente, é um exagero. O que

Williams receia é que, sem contato regular com a poesia, percamos a vitalidade, deixemos de nos entender, negligenciemos nossa capacidade de sentir empatia ou nos tornemos pessoas sem imaginação, vitalidade e fertilidade. A literatura, para Williams, tal como para George Eliot antes dele, é o meio de comunicação que pode voltar a nos despertar para o mundo. Na superfície, o noticiário pode parecer muito sério e, com isso, é natural que os mais sensatos imaginem que ele merece mais a nossa atenção do que os versos jamais merecerão. Porém, o artista reconhece seus efeitos perigosamente anestésicos.

Ainda assim, essa equação — a poesia como forma de vida, o

noticiário como manifestação da morte — não é uma lei permanente. Não é a categoria do “noticiário” que está em questão, pois, em sua essência, a palavra não indica nada mais específico do que a junção dos fatos que acontecem no mundo em dado momento. O problema não está nas notícias em si, mas na versão inibidora da “vida” com que nos deparamos com tanta frequência. Entretanto, se Tolstói, Flaubert ou Sófocles estivessem na redação, o veículo poderia nos fornecer muito mais do que precisamos para impedir que nossas almas “morram”. Afinal, o que seriam Guerra e paz, Madame Bovary e Antígona em seu estado original, senão aquilo que William Carlos Williams criticava tão injustamente — a saber, as notícias dos acontecimentos?

 

8.

POR VOLTA DE dezesseis anos antes da publicação do poema de

Williams, W.H. Auden levara os leitores a Bruxelas em seu poema “Musée des beaux arts” [Musa das belas-artes], colocando-os em frente à Paisagem com a queda de Ícaro, quadro que durante muito tempo pensou-se que era de Bruegel, mas hoje é atribuído a um de seus alunos.

Na pintura, vemos uma cena superficialmente bucólica: navios

velejam, um pastor cuida do rebanho, cidades distantes parecem prósperas e ordeiras. Contudo, no canto inferior direito da tela, uma tragédia se desenrola quase despercebida (as manchetes, se existissem, tratariam de outro assunto nesse dia): o imprudente Ícaro acaba de morrer no mar, após permitir que a cera das asas por ele confeccionadas fosse derretida pelo sol. No centro da imagem, um lavrador decidido é a própria representação de um provérbio popular na região dos Flandres na época em que Bruegel viveu: “Não se para o arado pelo homem que morre.”

Não foram muitos os que notaram a presença de Ícaro — mas o

pintor, sim, e agora também o poeta. Auden pretende revelar o que os artistas fazem: percebem as coisas, aquelas mais insignificantes e quase imperceptíveis que os outros — lavradores e pastores, você e eu, e também jornalistas apressados — deixam de perceber e que, no entanto, são essenciais para acabar com nossa habitual indiferença e insensibilidade.

15. O detalhe

 

9.

PRECISAMOS DE UM tipo de noticiário internacional que se agarre com

tenacidade aos detalhes, um noticiário que nos provoque interesse pelos acontecimentos ao se manter aberto a algumas lições da arte e que permita aos poetas, autores de relatos de viagens e romancistas transmitir certos aspectos de seu ofício aos jornalistas — talvez até os autorizando a, vez ou outra, dispor de uma mesa em algum recanto mais tranquilo da redação. Precisamos disso para não continuarmos ignorando solenemente a beleza e a tragédia menos evidentes do planeta.

FOTOGRAFIA

 

16. Um presidente Barack Obama genérico (Getty Images).

1.

NÃO EXISTE FIGURA mais oprimida ou grotesca em uma redação do

mundo moderno do que o editor de fotografia. Responsáveis pela coordenação dos aspectos visuais da produção de notícias, os homens e as mulheres que desempenham essa função quase sempre fazem (longe dos ouvidos do patrão) a mesma queixa: “Ninguém mais acredita na fotografia.”

Isso não significa que não se usem fotografias para ilustrar o

noticiário, longe disso. Hoje em dia, o número de imagens encontradas na cobertura que consumimos é maior que nunca. O problema está na falta de ambição por trás de sua produção e exibição. As fotografias continuam sendo usadas, mas parece que os argumentos invocados para tirá-las, identificá-las e pagar pelas melhores foram esquecidos. Em sua grande maioria, as fotos que chegam a ser impressas são banais, insípidas, repetitivas, óbvias e despropositadas, e não é de se surpreender que sejam encaradas apenas como manchas de cor para quebrar a monotonia dos blocos de texto.

Poderíamos dividir as fotografias do noticiário em dois gêneros. O

primeiro compreende as imagens de corroboração, que praticamente se limitam a confirmar um fato acerca de uma pessoa ou um acontecimento de que trata o artigo a que está anexada. Assim, se uma matéria nos informa que o presidente fez um discurso, aparece ao lado uma fotografia para confirmar. A ideia, aqui, é que a fotografia fornece apenas um nível a mais de comprovação da realidade dos acontecimentos que já foram descritos em linguagem verbal.

17. Anônimo, Retrato de Henrique IV, século XVII

 

 

18. Jean-Auguste-Dominique Ingres, Henrique IV brincando com seus lhos, 1817.

 

Da mesma forma, existe outro tipo de imagem, esse bem mais raro.

É a fotografia reveladora, que tem o objetivo não apenas de apoiar o que o texto nos descreve em palavras, mas também de fazer nosso nível de conhecimento avançar para um novo ponto. O que ela se propõe a fazer é desafiar os clichês.

Se os editores de fotografia parecem um pouco desorientados, é

porque precisam enfrentar, a cada dia, o fato de que as fotos solicitadas e compradas por sua indústria quase sempre se enquadram na primeira das categorias, a mais barata e menos útil.

 

2.

UMA DICOTOMIA SEMELHANTE entre imagens que corroboram e imagens

que revelam pode ser encontrada nas belas-artes, em especial nos retratos e pinturas históricas. É possível comparar, por exemplo, dois quadros bem diferentes que representam Henrique IV, rei da França. No primeiro, obra de um pintor desconhecido do século XVII, o monarca aparece com ar bondoso, rígido e opaco. Podemos presumir que existe nele uma semelhança grande, porém o retrato pouco contribui para ampliar nosso conhecimento sobre o temperamento do rei. Vamos compará-la, então, com uma pintura feita por Ingres no início do século XIX, na qual Henrique aparece brincando no chão com os filhos, fingindo-se de cavalo ou quem sabe de burro. Do lado esquerdo da tela, o embaixador da Espanha acaba de chegar para reunir-se com ele, mas o rei pede mais alguns minutos para concluir a brincadeira. A imagem de Ingres não se limita a confirmar que Henrique existiu e usava barba: convida-nos a contemplar a alma do estadista.

 

3.

DA MESMA FORMA, toda grande imagem jornalística deveria enriquecer

nossa visão da realidade, em geral deficiente e preconceituosa.

19. Stephanie Sinclair, Tahani e Ghada, Iêmen, 2010.

 

Por exemplo: eu achava que conhecia a realidade dos casamentos de

crianças, mas, até ver uma fotografia tirada por Stephanie Sinclair, não tinha me dado conta de que as noivinhas envolvidas não são de fato crianças. O casamento logo as transforma em pequeninas senhoras de idade, com as expressões ao mesmo tempo resignadas, solenes e terrivelmente tristes de alguém que foi enganado. Ao lado delas, os maridos não são os brutamontes maduros que eu imaginava. Têm um ar ingênuo, inocente e confuso, parecendo mesmo ainda crianças. Quase não dá para imaginar que esses pares de cônjuges pungentes, absurdos e amaldiçoados de alguma forma sejam capazes de oferecer conforto um ao outro.

20. Manu Brabo, Um sírio chora segurando o corpo do lho, morto pelo exército da Síria, perto do Hospital Dar El Shifa, em

Alepo, Síria, 2012.

 

Eu achava que sabia que a guerra de uma forma geral não é uma

boa ideia e que às vezes provoca a morte de inocentes no fogo cruzado. Mas não tinha percebido quanto eu também acreditava em qualquer tentativa diplomática e quão pouco ligaria se alguns importantes interesses estratégicos fossem contrariados para evitar uma guerra — para que os pais não tivessem que prantear os filhos banhados em sangue.

21. Stuart Franklin, Nas ruas, Kinshasa, 2004.

 

Eu achava que conhecia o mundo, mas agora percebo que, apesar

das muitas fotos que vi e das muitas publicações que li, quase não guardo na cabeça uma única imagem da maioria dos países do planeta. Esforço-me por acessar qualquer associação visual com o Chile ou o Peru, não tenho a menor ideia de como são o Burundi ou o Níger, não consigo imaginar como devem ser Burkina Faso ou as Ilhas Salomão. Dessa forma, fico fascinado com uma fotografia que pelo menos me mostra que em Kinshasa existem lojas de venda de eletrodomésticos, as pessoas falam francês (“Vente des appareils electroménager”) e os jovens, por mais problemas que enfrentem, ainda sabem o que é rir e brincar.

22. Pete Souza, O presidente Barack Obama nge ter sido apanhado na teia do Homem-Aranha ao brincar com o lho de um

funcionário da Casa Branca, no vestíbulo do Salão Oval, 2012.

 

Do mesmo modo, eu achava que conhecia o presidente Obama,

pois já o vi em muitas fotografias, discursando com a águia presidencial como pano de fundo. Sabia que ele era capaz de fingir certas coisas para ser eleito, mas não tinha percebido que também podia, em seus melhores momentos, fingir uma coisa ou outra para agradar a uma criança. Assim, encaro por um bom tempo uma imagem obtida pelo fotógrafo da Casa Branca, Pete Souza, e penso que Obama, como seu congênere Henrique IV quatro séculos antes, pode revelar-se mais tocante ao lidar com o poder exatamente quando se permite brincar com uma criança.

 

4.

COMO LEITORES DE matérias, já vimos tantas fotografias ruins que

dificilmente nos ocorreria que, às vezes, pode valer a pena parar um pouco para examinar com mais atenção algumas entre as boas. Pareceria estranho interromper a leitura de um artigo para contemplar uma imagem ilustrativa pelo mesmo tempo que empregaríamos em observar uma pintura em um museu — por exemplo, trinta segundos ou mais — e com a expectativa de identificar algo digno de nota. Perdemos por completo a noção do potencial da fotografia como meio informativo, como uma força de papel crucial em termos do conhecimento que temos de um planeta que, de maneira desdenhosa e arrogante, insistimos em achar que já conhecemos muito bem.