Notícias: Manual do Usuário

Alain de Botton · Capítulo 2 de 9

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Notícias: Manual do Usuário

Capítulo um: Política

capítulo um

 

Política

TÉDIO E CONFUSÃO

 

INADIMPLÊNCIA DE LOCATÁRIOS AUMENTA EM PROJETO PILOTO DE AUXÍLIO DIRETO ¶

 

FRACASSA TENTATIVA DE MUDAR LEI DO ABORTO ¶

 

REEQUILÍBRIO DA ECONOMIA COMPROMETIDO ¶

 

SENTENÇA SOBRE IMIGRAÇÃO ESPERADA NA CORTE EUROPEIA DE DIREITOS HUMANOS ¶

 

“FALTA TRANSPARÊNCIA” EM GASTOS DO CONSELHO ¶

 

COMITÊS CONSOLIDAM DIREITO DE PORTE DE ARMAS ¶

 

INVESTIDA DE LOBBY CONSERVADOR ANTI-IMPOSTOS ¶

 

DECISÃO SOBRE NOMEAÇÕES NO RECESSO SERÁ CONTESTADA ¶

 

HOMEM ACUSADO DE CANIBALISMO E INCESTO EM SYDNEY ¶

 

BBC

1.

NAS PRIMEIRAS HORAS da manhã, ainda na cama, procuramos uma tela

para navegar pelas notícias. Logo será hora de tomar banho e de se apressar para sair de casa a tempo, mas ainda temos alguns minutos.

É uma pena, mas não há qualquer assunto em particular que pareça

interessante hoje. De qualquer maneira, clicamos no primeiro título, um tanto intrigante — “Inadimplência de locatários aumenta em projeto piloto de auxílio direto” —, esperando que a leitura traga algo capaz de prender a atenção:

 

Pesquisa revela que a inadimplência nos aluguéis aumentou consideravelmente

entre beneficiários de um projeto piloto do governo para direcionar auxílio direto.

Em uma das regiões, a previsão é de prejuízo de 14 milhões de libras caso o novo

sistema seja aplicado a todos os inquilinos. O encaminhamento de auxílio-moradia

diretamente aos beneficiários, e não aos locadores, é um elemento fundamental do

novo projeto de Crédito Universal. O Ministério do Trabalho e Pensões do Reino

Unido afirma que a experiência consolidou a decisão de aplicar o projeto em todo o

país. ¶

 

A situação não melhorou muito. A decisão de mudar a maneira

como o governo subsidia a habitação da população de baixa renda evidentemente é importante, e uma agência de notícias bem-intencionada destinou tempo e dinheiro para informar o público sobre detalhes do projeto. Mas, ainda assim, não é fácil se importar com a notícia.

Isso não é incomum. Frequentemente nos deparamos com

manchetes que parecem importantes e, mesmo assim, permanecemos indiferentes do ponto de vista pessoal. Tédio e confusão podem ser duas das emoções mais comuns — e também mais vergonhosas e, portanto, encobertas — diante das chamadas notícias políticas “sérias” veiculadas pelas redações das democracias modernas.

Contudo, mais adiante na lista de manchetes encontramos uma

matéria sobre um canibal incestuoso na Austrália, uma história que não exige qualquer esforço para ser lida.

Talvez, lá no fundo, sejamos cidadãos superficiais e irresponsáveis.

 

2.

PORÉM, ANTES DE nos sentirmos ainda mais culpados, vamos imaginar

que, em circunstâncias semelhantes, nos deparássemos com a simples manchete “Cidadão russo consulta advogado”, para depois ler a seguinte história:

 

Três mulheres — uma senhora de idade, uma jovem e a esposa de um

comerciante — e três cavalheiros — um banqueiro alemão de anel no dedo, um

comerciante barbudo e um oficial indignado, uniformizado e com uma medalha de

honra estampada no uniforme — esperavam havia muito tempo. Dois funcionários

estavam sentados a suas mesas, escrevendo, e dava para ouvir o som das canetas

riscando o papel. Os acessórios de escrivaninha (algo de que Karenin entendia bem)

eram de excelente qualidade, como ele não podia deixar de notar. Um dos

funcionários, sem se levantar, cerrou os olhos e se dirigiu a Karenin de mau humor.

— O que deseja?

— Quero falar com um advogado corporativo. ¶

 

Imagine que a esta altura a história terminasse de repente, e o

narrador esperasse que manifestássemos um profundo interesse e o desejo de saber mais, embora não ficasse claro quando esse “mais” surgiria. Várias semanas poderiam se passar até que mais uma dezena de linhas sobre essa história sem graça chegasse ao nosso conhecimento.

Seria pouco plausível supor que, apresentada desse modo, a obra

literária Anna Karenina fosse despertar qualquer interesse, mas é exatamente o que ocorre no relato de muitas das histórias mais relevantes que percorrem nossas sociedades. Seja cobrindo uma eleição, a negociação de um orçamento, uma iniciativa de política externa ou uma alteração no sistema previdenciário do governo, todos os noticiários têm o hábito de mergulhar os leitores aleatoriamente e por um breve momento em uma longa narrativa, para logo em seguida desviar de novo sua atenção, sem qualquer explicação do contexto em que os acontecimentos se deram. Não é de se surpreender que fiquemos entediados.

 

3.

ESTAMOS OBSERVANDO MUITO de perto. Para estabelecer outra analogia

com as artes, é como se fôssemos convidados a abrir os olhos um ou dois milímetros acima de uma superfície confusa, toda em tons de azul e roxo, com riscos negros aleatórios e bordas brancas. Desse ponto de vista, poderíamos muito bem estar contemplando a paisagem de Júpiter, a superfície de uma escoriação ou as pegadas fossilizadas de uma criatura pré-histórica — e nenhuma delas seria considerada uma alternativa particularmente interessante. Mas, na verdade, poderíamos estar diante do detalhe de um dos quadros mais fortes da arte ocidental, o Retrato de Gerolamo Barbarigo, de Ticiano. O problema é que estaríamos observando da distância errada — trata-se de uma obra-prima diante da qual aquele que contempla deve estar a pelo menos um metro para que qualquer interesse possa ser despertado.

 

4.

O TÉDIO É um novo desafio e uma nova responsabilidade. Durante a

maior parte da história da humanidade, simplesmente não havia notícias para nos entediar. A informação existente estava nas mãos de uma classe governante aristocrática, bem pequena e reservada, e se destinava a uma ínfima minoria: o rei, o chanceler, o comandante do exército e os membros mais importantes das empresas comerciais.

Hoje em dia, as notícias são para todos, e, no entanto, muitas vezes

as rodas da nossa curiosidade correm o risco de girar sem sair do lugar em um lodo escorregadio de informações. É como se, a cada dia, antes do café da manhã, um funcionário público carrancudo e alarmado entrasse em nossa casa com uma pasta cheia de questões impressionantes, mas, no fim das contas, cansativas: “Cinco hospitais devem estourar os limites de crédito até o fim do mês”, “Banco Central talvez não consiga levantar fundos no mercado de ações”, “Navio de guerra chinês a caminho do Vietnã”, “Primeiro-ministro do Canadá jantará com nosso presidente amanhã”.

O que os noticiários querem que a gente pense? Em que lugar da

mente devemos alojar todas essas informações?

1. Quem liga para esta imagem?

 

2. Ticiano, Retrato de Gerolamo Barbarigo, c. 1510.

 

5.

AS AGÊNCIAS DE notícias não gostam de admitir que o que nos

apresentam a cada dia são fragmentos minúsculos cujas verdadeiras forma e lógica em geral só podem ser notadas a partir de uma perspectiva de meses — ou até mesmo anos — e que, portanto, muitas vezes seria mais aconselhável ouvir a história em capítulos, em vez de trechos de sentenças. Essas organizações seguem o pressuposto de que é melhor ter logo uma percepção parcial e duvidosa do que esperar algum tempo por um entendimento mais abrangente e seguro.

Levando em consideração os riscos de confusão resultantes, é preciso

acima de tudo ter uma boa sinalização. Sob uma manchete como “Cidadão russo consulta advogado”, um trecho de romance — mesmo um com a força de Anna Karenina — parecerá maçante. Mas, se formos informados de que estamos lendo um pequeno trecho levemente monótono das mil páginas de um livro extraordinário, um romance que explora as dimensões trágicas do casamento, em especial as tensões entre o desejo de aventura e as exigências da vida em família e do decoro social, podemos esperar um próximo episódio um pouco mais emocionante.

Precisamos que essas agências de notícias ajudem a atiçar nossa

curiosidade, indicando de que maneira as histórias se encaixam nos temas mais amplos que requerem um interesse real de nossa parte. Para nos interessarmos por qualquer informação, precisamos “situá-la”, encontrar uma forma de ligá-la a uma questão que já esteja em nossa esfera de preocupações. Pode-se descrever cada parte do cérebro humano como uma biblioteca na qual as informações são catalogadas em determinadas categorias fundamentais. É fácil localizar a pilha em que se deve alojar a maior parte do que ouvimos no dia a dia, e as informações são arquivadas de maneira imediata e inconsciente: notícias sobre um caso amoroso vão para a prateleira mais que sobrecarregada do Funcionamento dos Relacionamentos; ao passo que uma história sobre a inesperada demissão de um diretor-executivo se encaixa em nossas noções sobre Trabalho e Status.

Contudo, quanto menores ou mais estranhas as histórias, mais difícil

se torna o processo de arrumação nas prateleiras. O que popularmente chamamos de “sentir tédio” é apenas a mente, em um reflexo de autopreservação, jogando fora informações que não sabe onde alojar. Podemos tentar descobrir, por exemplo, o que fazer com a informação de que um grupo de oficiais chineses visitou o Afeganistão para discutir questões relacionadas à segurança da fronteira na província de Badakhshan, ou de que um think tank de esquerda milita pela redução dos impostos na indústria farmacêutica. Talvez precisemos de ajuda para transportar essas informações soltas até as prateleiras que tenham mais chances de revelar sua lógica.

Cabe às organizações jornalísticas parte desse trabalho de

bibliotecário. É função delas nos dar uma ideia dos tópicos mais amplos em que se encaixam os incidentes menores. A notícia de um caso de vandalismo durante uma noite de sábado em uma cidade do interior (“Ponto de ônibus pichado por jovens vândalos em Bedford”) pode ganhar vida se encarada como um minúsculo momento em um drama mais extenso, intitulado “Dificuldades das sociedades liberais seculares para incutir padrões morais de comportamento sem ajuda da religião”. Da mesma forma, uma matéria indigesta sobre mais um caso de corrupção no governo da República Democrática do Congo (“Acusações de propina no Congo”) ganharia relevo com uma manchete que apontasse para a questão mais importante por trás: “O confronto entre a ideia ocidental de Estado e o conceito africano de clã”.

Com a devida sinalização, até a malfadada notícia sobre a mudança

no sistema de auxílio habitacional do governo britânico teria alguma chance. Na realidade, a matéria versa tanto sobre o que é anunciado na manchete — “Inadimplência de locatários aumenta em projeto piloto de auxílio direto” — quanto Anna Karenina trata de um cidadão russo que consulta um advogado. O artigo trata da constante investigação do Estado moderno para descobrir a melhor maneira de assistir aos mais pobres, é parte de um debate centenário para saber se o previdencialismo proporciona dignidade e apoio aos beneficiários ou os humilha sutilmente ao fomentar sua dependência. Trata-se de um único episódio em uma narrativa de muitos capítulos que poderia intitular-se “Como os subsídios afetam o caráter”, “A psicologia da ajuda” ou, se pensarmos em algo mais sonoro e abstrato, “A responsabilidade pela pobreza”.

6.

INFELIZMENTE PARA NOSSOS níveis de comprometimento, em muitas

agências de notícias prevalece o preconceito de que o aspecto mais prestigioso do jornalismo é uma apresentação desapaixonada e neutra de “fatos”. O slogan da CNN, por exemplo, é “Apresentando os fatos”; na Holanda, o NRC Handelsblad apregoa sua capacidade de “fornecer fatos, não opiniões”; e a BBC se vangloria como “a fonte mais confiável de fatos em todo o mundo”.

O problema com os fatos é que hoje em dia não faltam exemplos

dignos de crédito. A questão não está em precisarmos de mais fatos, e sim em não sabermos o que fazer com eles. A cada dia, o noticiário libera uma nova enxurrada: ficamos sabendo que a Standard & Poor’s está revendo a classificação do país em matéria de risco de crédito, que os gastos do governo aumentaram, que um comitê votará acerca das novas restrições ao direito de voto e que começaram a ser traçados planos para um novo gasoduto. Mas qual é o real significado dessas informações? De que maneira elas estão relacionadas às questões centrais da vida política? O que podem nos ajudar a compreender?

O contrário dos fatos é a parcialidade. No mundo do jornalismo

sério, ser tendencioso é o que há de pior. É sinônimo de intenções malévolas, mentira e tentativas autoritárias de negar ao público a liberdade de decidir por conta própria.

Entretanto, talvez devêssemos ser mais generosos com a

parcialidade. Em sua forma pura, um viés tendencioso indica apenas a presença de um método de avaliar os acontecimentos orientado por uma tese coerente sobre o funcionamento e o florescimento da vida humana. É um par de lentes projetado sobre a realidade para deixá-la com mais foco. A parcialidade tenta explicar o que os fatos significam e introduzir uma escala de valores através da qual podemos avaliar ideias e acontecimentos. Parece exagero tentar escapar da parcialidade. O que importa de verdade é encontrar maneiras de conferir sentido a seus exemplos mais confiáveis e proveitosos.

Embora nossa compreensão da ideia de parcialidade seja dominada

por exemplos irritantes de esquerda e direita, no fim das contas o número de vieses tendenciosos é igual ao de visões de mundo. Existem incontáveis lentes que julgamos dignas de serem colocadas entre nós e o mundo. Poderíamos, por exemplo, interpretar as notícias em função das perspectivas tendenciosas propostas por Walt Whitman ou Jane Austen, Charles Dickens ou Buda. Poderíamos imaginar um veículo de notícias de parcialidade psicanalítica, focalizando questões de culpa e inveja em ambos os lados do conflito árabe-israelense, atento à ideia de projeção nos debates políticos e extremamente cético quanto à “depressão” em vigor no país como resultado do encolhimento de 0,1% da economia — ou até quanto à inevitabilidade da felicidade ante a previsão de uma expansão de 1,3%.

O que devemos considerar digno de mérito em uma organização

jornalística não é a simples capacidade de coletar fatos, mas o talento — desenvolvido por meio de uma parcialidade inteligente — de nos fazer ver sua relevância.

 

7.

NA POLÍTICA MODERNA, existe uma noção fundamental — uma ideia

muito bela e majestosa — de que cada cidadão, ainda que de forma modesta, é governante do país onde vive. O noticiário desempenha um papel central no cumprimento dessa promessa, por ser o canal por meio do qual encontramos os dirigentes, avaliamos sua capacidade de gestão e desenvolvemos nossas posições sobre os desafios econômicos e sociais mais prementes da época. As agências de notícias estão longe de ser características secundárias das democracias — na verdade, são suas fiadoras.

E, no entanto, tal como se apresenta, o noticiário parece

terrivelmente carente de coordenação, destilação e curadoria. Corremos o risco de nos perder em sua programação sempre oscilante de tal maneira que podemos nos tornar incapazes de desenvolver qualquer posição política. Podemos perder de vista quais dos muitos escândalos de fato são graves e o que, horas antes, nos parecia ter uma importância tão arrebatadora. No exato momento em que as sociedades alcançam um nível inédito de complexidade, chegamos a um ponto em que esperamos, impacientes, que todas as questões significativas sejam resumidas de forma drástica. Ante a escala dos problemas focalizados pelo noticiário, a iniciativa pessoal pode começar a parecer patética e sem sentido. Em vez de deixar a impressão de uma possibilidade política, o contato com as notícias do dia pode nos causar uma sensação de insignificância em um universo fundamentalmente caótico e sem salvação.

 

8.

A TESE DE Hegel de que, na sociedade moderna, o noticiário passou a

ocupar a posição de prestígio que antes era da religião ignora uma importante diferença entre os dois: as religiões sempre se mostraram particularmente sensíveis à nossa incapacidade de focalizar a atenção. Tal como o noticiário, as religiões querem transmitir informações importantes todos os dias. Mas, ao contrário dele, sabem que, se nos derem informações demais ao mesmo tempo, tocando no assunto apenas uma vez, de nada nos lembraremos — e nada faremos a respeito.

Sendo assim, as religiões tratam de servir apenas uma pequena

porção de seu cardápio a cada dia, conduzindo-nos pacientemente por algumas poucas questões e retomando-as repetidas vezes. A repetição e o ensaio são fundamentais nos métodos pedagógicos das religiões. Elas sabem que não faz sentido nos informar a respeito de uma causa essencial de maneira apressada e agitada. Elas nos deixam sentados em um lugar solene, aquietam nossa mente e nos falam em tom de nobre premência, e não de pânico, entendendo que será preciso retomar a discussão com o passar dos dias para terem alguma chance de influenciar nossa maneira de pensar e de nos comportar.

 

9.

SERIA FÁCIL SUPOR que o verdadeiro inimigo da política democrática só

pode ser a censura do noticiário — e, portanto, que a liberdade de dizer ou publicar uma informação seria o aliado natural da civilização.

Mas o mundo moderno nos ensina que, quando se trata de privar as

pessoas de vontade política, existem dinâmicas muito mais traiçoeiras e cínicas do que a censura. Elas envolvem o empenho de confundir, entediar e distrair a maioria, afastando-a da vida política ao apresentar os acontecimentos de maneira tão desorganizada, fragmentária e intermitente que a maioria não é capaz de fixar a atenção por tempo suficiente no desenrolar das questões mais importantes.

Um ditador contemporâneo empenhado em se firmar no poder não

precisaria tomar uma atitude tão declaradamente sinistra quanto proibir a divulgação de notícias. Bastaria dar um jeito para que as organizações jornalísticas divulgassem uma torrente de boletins aleatórios, fornecendo uma grande quantidade de informação, mas com pouca explicação do contexto. Além disso, dentro de uma programação que não para de mudar, tratando como sem relevância uma questão que pouco antes parecia premente e salpicando atualizações constantes das peraltices interessantes de assassinos e estrelas de cinema. Isso já seria mais do que suficiente para minar a capacidade da maioria de compreender a realidade política e qualquer determinação que por acaso tivessem mobilizado para modificá-la. Uma enxurrada de notícias, e não sua proibição, seria suficiente para deixar o status quo inalterado para sempre.

A percepção de que o noticiário político é entediante não pode ser

descartada como uma questão sem importância. Quando as notícias não são capazes de canalizar a curiosidade e a atenção do público por causa das técnicas de apresentação, a sociedade fica perigosamente incapacitada para enfrentar seus dilemas e, portanto, para estimular a vontade do povo de iniciar a mudança e o progresso.

Mas a resposta não consiste apenas em forçar as pessoas a consumir

mais noticiários “sérios”, e sim em induzir os chamados veículos sérios a aprender a apresentar as informações mais importantes de maneiras capazes de despertar o interesse do público. É muito fácil alegar que as informações sérias podem ser meio entediantes ou que podem se dar ao luxo de serem assim. O desafio consiste em transcender a atual dicotomia entre veículos que oferecem instrução relevante, mas impotente, e os que vendem sensacionalismo destituído de qualquer responsabilidade.

Nos noticiários que idealizamos para o futuro, as tarefas de

contextualização e popularização das notícias seriam levadas tão a sério que as matérias sobre auxílio previdenciário seriam (quase) tão emocionantes quanto as que falam de canibais incestuosos da Oceania.

ALGUMA ESPERANÇA

 

O centro de Manchester foi devastado por saqueadores, alguns de apenas nove anos. Foi

o maior tumulto ocorrido na cidade nas últimas três décadas. Centenas de jovens e

crianças “selvagens” percorreram as ruas quebrando vitrines e roubando roupas, celulares e

joias. Lojas e lixeiras foram incendiadas, enquanto a polícia perseguia bandos de

saqueadores pela cidade, na tentativa de contê-los. Ontem, o comandante da força

policial reconheceu que foi “apanhado de surpresa” pela escala dos distúrbios e precisou

pedir reforços a cidades vizinhas. ¶

 

Daily Mail

1.

QUE PAÍS É este em que vivemos? Como são seus habitantes? Devemos

nos sentir amedrontados ou tranquilos, orgulhosos ou envergonhados?

A primeira coisa a admitir é que não podemos responder a essas

perguntas com base apenas em nossa experiência. É muito difícil conhecer uma nação. Mesmo nos menores países, existem tantos indivíduos que não há como uma só pessoa conhecer mais que uma minúscula fração da população ao longo de toda uma vida de intensos contatos sociais. Além disso, não são muitos os espaços públicos de grandes proporções nos quais os cidadãos podem interagir. Não é sempre que fazemos amigos no shopping center ou descobrimos um pouquinho a respeito da pessoa ao nosso lado no cinema. Talvez antigamente fosse mais fácil. Em Atenas, ainda na Grécia Antiga, graças ao bom tempo, a um centro urbano pequeno e coeso e a uma cultura de convivência democrática (pelo menos para alguns) decerto havia muitas oportunidades de conhecer o coração da sociedade por experiência direta. Mas hoje em dia não temos essa sorte. As cidades são grandes demais; os padrões climáticos, imprevisíveis; os sistemas democráticos, muito indiretos, e as casas, muito espalhadas.

Restam-nos, assim, meios indiretos para formar impressões sobre as

comunidades em que vivemos. Essas impressões nascem mais da imaginação do que de uma experiência concreta e são geradas com a ajuda de duas ferramentas em particular.

2.

A PRIMEIRA DELAS é a arquitetura. As aparências das ruas e casas, dos

escritórios e parques de um país se combinam para configurar um perfil psicológico daqueles que os conceberam e neles habitam.

 

3-4. Visões contrastantes de como podem ser “os outros”.

Docas em Amsterdã (em cima), docas em Londres (embaixo).

Se uma pessoa quisesse entender o temperamento dos holandeses de

hoje e estivesse percorrendo a zona portuária leste de Amsterdã, talvez concluísse, exclusivamente pela observação da arquitetura, que se trata de um povo arrojado, alegre, pacífico e voltado para a família, de gente que convida a um contato mais aprofundado e cuja existência parece fonte de esperança e tranquilidade.

Compare, então, essa observação com as mensagens emitidas por

outro projeto de reurbanização costeira, desta vez em Pier Parade, em North Woolwich, Londres. Lá, os prédios marcados pela água, abandonados e rachados, remetem a um clima de desespero, dando a entender que a melhor maneira de resolver uma discussão no local seria por meio de berros ou de violência. Parece não haver lugar para o riso e a inocência.

Claro que nem sempre precisamos seguir essas pistas arquitetônicas.

É perfeitamente possível nos sentirmos furiosos e desanimados nas docas de Amsterdã e cheios de disposição e energia em Pier Parade. Só que é um pouco mais improvável.

 

3.

A SEGUNDA FERRAMENTA para conhecer o caráter e o temperamento dos

outros é, naturalmente, o noticiário. É ele que nos introduz a uma variedade muito mais ampla de seres humanos do que seríamos capazes de conhecer pessoalmente e que, ao longo do tempo, pelas histórias que reproduz e a maneira como as comenta, forma em nosso espírito uma noção do país onde vivemos.

Dessa forma, se acompanharmos o noticiário todos os dias, com

certeza aprenderemos algumas verdades bem sombrias sobre as pessoas que nos cercam:

Mãe acusada de assassinato: filho de quatro anos morre de inanição ¶

 

Prostituta que tentou falar com a polícia foi ameaçada por cafetões de ter o rosto

cortado e o filho decapitado ¶

 

Homem mantinha esposa acorrentada no porão e a espancava com a coleira do

cachorro ¶

 

Senhora de 51 anos mata com óleo de carro o marido que odiava e o filho que

chamava de peste e envenena a filha que não conseguia emprego ¶

 

Operário abusa sexualmente de duas meninas de treze anos que colhiam frutas ¶

 

Piloto espanca e mata a esposa rica porque se sentia humilhado ¶

 

Bebê sangra até a morte em hospital devido a “catastrófica” falta de comunicação

entre os médicos ¶

 

Homem tenta decepar as mãos de ex-namorada com cutelo de açougueiro ¶

 

Daily Mail

 

4.

HISTÓRIAS ASSIM EXERCEM um impacto maior do que poderíamos

presumir. São lidas todos os dias por milhões de pessoas. São mais interessantes do que a maioria dos romances e do que alguns de nossos amigos. Sem que sequer percebamos, elas impregnam nossa mente e influenciam a forma como olhamos para estranhos. Depois de ler histórias como essas, muitas coisas ficam mais difíceis.

Fica mais difícil ter esperança:

Tripla calamidade econômica à espreita na Grã-Bretanha ¶

 

Parece mais arriscado chamar um táxi:

“Nenhuma mulher está segura ao andar de táxi”, adverte juiz especializado em

casos de estupro ¶

 

Ou tomar um trem:

Sem-teto é condenado por matar mulher de 84 anos empurrando-a da plataforma

da estação ¶

 

Ficamos preocupados com doenças:

Novo vírus da gripe é “o mais letal de todos” e mata um terço das vítimas ¶

 

Mas ir ao hospital parece ainda mais ameaçador:

Negligência: paciente de 39 anos morre depois de passar oito horas sem água ¶

 

Às vezes queremos voltar a ser jovens:

Miley Cyrus usa short branco justo e provocante e botas pretas até as coxas em

apresentação sexy em programa matinal ¶

 

Mas perdemos a fé na inocência:

Professora dá maconha a aluno de dezesseis anos e faz sexo com ele mais de oito

vezes ¶

 

Ficamos preocupados com o corpo de alguém:

Chloë Sevigny deixa as pernas à mostra com short estampado na estreia de

Orange Is the New Black

 

E sabemos como seremos julgados quando formos mais velhos:

O que aconteceu com o rosto de Meg Ryan? ¶

 

Ficamos preocupados com pássaros:

Clientes ficam horrorizados ao encontrar pássaro morto em salada durante

refeição ¶

 

E também com insetos:

Mulher encontra gafanhoto gigante e ainda vivo em sacola de verduras. ¶

 

Detestamos os políticos:

Líderes da UE insistem em dizer que não há como economizar no orçamento de

Bruxelas, mas bebem vinho de 120 libras no almoço ¶

 

Mas também não temos muitas expectativas em relação às pessoas

comuns:

Assistente social cadeirante de 59 anos é preso em motel por tentar ter relações

sexuais com menina de cinco e a mãe ¶

 

Temos medo dos homens:

Pai mata bebê de onze meses após sacudi-lo e atirá-lo no chão ao discutir com a

namorada ¶

 

E também das mulheres:

Mulher de 43 anos detida por ter um caso com amigo de catorze da filha

adolescente ¶

 

Percebemos como nossa vida é provinciana:

Kate Moss e Naomi Campbell caem na farra até as cinco da manhã com Grace

Jones após evento repleto de celebridades ¶

E como nossa relação perdeu toda paixão:

Lua de mel sem fim: Keira Knightley não para de chamego com o marido ¶

 

São poucos os motivos para não se desesperar com a raça humana:

Suri Cruise, de sete anos, lança coleção de moda ¶

 

Daily Mail

 

5.

SE QUESTIONARMOS O noticiário sobre o motivo de nos contar tudo isso,

deixando-nos meio doidos, a resposta, muito séria e formal, será que não existe outra opção. É dever do noticiário nos dizer “a verdade”. Ele não decide o que acontece em um país. As histórias não são inventadas: o pai matou mesmo o filho de onze meses depois de uma briga. Um assistente social cadeirante realmente tentou ter relações com uma menina de cinco anos e a mãe dela em um motel. Privar o público desses fenômenos preocupantes, mas fundamentais, seria trair o dever jornalístico. Os profissionais da área precisam compartilhar a verdade sobre a nação com a mesma franqueza e ausência de melindres que um médico deve ter ao pronunciar um diagnóstico difícil.

 

6.

MAS A VERDADE é que não é bem assim. Em qualquer país, a qualquer

momento, sempre existirá um emaranhado de indicações conflitantes sobre o que está acontecendo. Sempre haverá assassinos pedófilos à solta, mas também podemos contar com dezenas de milhões que não concordam em abusar de crianças ou espancá-las até a morte. Certas pessoas terão vontade de matar os parceiros infiéis com cutelos, mas a maioria vai apenas se desmanchar em lágrimas e morrer de raiva. Alguns habitantes ficarão deprimidos com o desgaste das dificuldades econômicas, mas, por outro lado, haverá muitos outros mostrando brava resistência diante da mais desencorajadora adversidade. Alguns vão se rebelar e se exaltar nas ruas, quebrando vitrines e fugindo com seus saques, mas a maioria estará ocupada em cuidar das flores no jardim e manter a cozinha arrumada. Alguns poucos frequentarão festas glamourosas a todo momento, mas muitos outros aceitarão com alegria os prazeres, a dignidade e a liberdade da vida comum. É fácil se incomodar com a depreciação do corpo, mas existem outras maneiras de se superar e impressionar os demais sem mostrar as pernas.

É curioso, mas o lado alegre da moeda nunca chega ao noticiário.

Não faltam manchetes que seriam verdadeiras, mas impossíveis de publicar:

 

Jovem de quinze anos ajuda idosa desconhecida de 87 a subir três andares de

escada na ferroviária ¶

 

Professor supera sentimentos por jovem aluna ¶

 

Homem desiste de matar a mulher após breve reflexão ¶

 

65 milhões de britânicos vão para a cama toda noite sem matar ou bater em

ninguém ¶

 

São tantas as versões da “realidade” que é impossível falar da nação

como se fosse uma coisa só, passível de ser apreendida a cada dia, mesmo pelas agências de notícias mais determinadas. Talvez o noticiário adquira ares de maior autoridade quando o assunto é formar um retrato da realidade. Talvez alegue ter a resposta para a questão impossível que é saber o que está de fato acontecendo. Entretanto, a verdade é que ele não tem a capacidade universal de transcrever a realidade, apenas se limita a moldar a realidade por meio das escolhas que faz quanto às histórias que serão postas em foco e às que serão deixadas de lado.

É nisso que reside um enorme poder, em grande parte

incompreendido: o poder de montar a imagem que os cidadãos formam uns dos outros, de ditar qual será a ideia que teremos das “outras pessoas”. O poder de nos levar a inventar a nação que o próprio noticiário quer que seja inventada.

Esse poder é de grande importância uma vez que as histórias

divulgadas pelo noticiário acabam provocando em nós um efeito de autodeterminação. Se a cada minuto formos informados de que muitos de nossos compatriotas são loucos e violentos, toda vez que sairmos de casa estaremos cheios de medo e desconfiança. Se recebermos mensagens sutis de que o dinheiro e o status são as coisas mais importantes e estão acima de tudo, nos sentiremos humilhados por levarmos uma vida comum. Se ficar subentendido que todos os políticos mentem, trataremos de pôr o idealismo e a inocência discretamente de lado e zombaremos todas as vezes que os dirigentes da vida pública apresentarem planos e fizerem pronunciamentos. E, se nos disserem que a economia é o indicador mais importante da satisfação e que ela será um desastre por pelo menos uma década, nunca mais conseguiremos enfrentar a realidade com muita confiança.

 

7.

ANTES DE FICARMOS desesperados por causa das calamidades que

parecem nos cercar de todos os lados, é preciso lembrar que o noticiário, no fim das contas, não passa de um conjunto de histórias sobre o que está acontecendo no mundo lá fora, nem mais, nem menos.

Nossa nação não é apenas uma mão decepada, uma avó mutilada,

três meninas mortas no porão, o constrangimento causado por um ministro, trilhões em dívidas, um suicídio duplo na ferrovia e um engavetamento de cinco carros no litoral.

É também a nuvem que flutua despercebida sobre a torre da igreja,

o médico que aproxima a agulha do braço do paciente com gentileza, os camundongos na sebe e a criancinha quebrando a casca do ovo cozido sob o olhar amoroso da mãe. É o submarino nuclear patrulhando a fronteira marítima com eficiência e coragem, a fábrica produzindo os primeiros protótipos de um novo motor e o cônjuge que, apesar das provocações e palavras duras, encontra novas reservas de paciência e perdão.

Isso também é a realidade. As notícias que recebemos sobre a nação

não são a nação.

 

8.

POR QUE AS organizações jornalísticas se concentram tanto na

negatividade? Por que tanto pessimismo e tão pouca esperança? Talvez elas pensem que o público é, por natureza, inocente demais, muito protegido das vicissitudes do mundo e deveras satisfeito consigo mesmo e, portanto, precisa muito conhecer alguns aspectos negativos da realidade — para recalibrar as expectativas em relação aos outros e tomar medidas de segurança quando possível. O pressuposto é que, sem o realismo sombrio do noticiário, a nação poderia resvalar de novo na perigosa tendência a passar por cima de seus problemas e se sentir à vontade demais com a situação atual.

Deixando sua lógica de lado por um momento, essa tese pelo menos

dá a entender como as agências de notícias deveriam fazer a curadoria de seu conteúdo. Ante uma infinidade de possíveis histórias, deveriam escolher aquelas que atendem ao que julgam ser a maior necessidade da nação. Aquilo que o país mais precisa ouvir em determinado momento, para compensar suas debilidades, é o que deve conduzir o processo de seleção por trás do noticiário.

Essa lógica não é algo que as empresas jornalísticas de hoje em dia

desconheçam. O problema é a avaliação que elas fazem das necessidades reais da nação. Os países, em sua maioria, longe de nutrirem uma visão muito alegre da própria condição, confiarem demais e fazerem com que o povo se sinta absurdamente esperançoso, fazem o exato oposto. Correm riscos por motivos diferentes dos que, em geral, os meios de comunicação diagnosticam implicitamente. Perdem oportunidades por excesso de medo, ansiedade e pessimismo. Estão habituados demais a ladainhas de problemas e, no entanto, parecem sentir-se debilitados pela pequenez, falta de ambição e fraqueza diante de si. Não conseguem ver a luz no fim do túnel para além da decadência, dos relacionamentos rompidos, dos adolescentes fora de controle, da ansiedade de status, da vulnerabilidade física e da ruína econômica.

Existe uma missão a ser desempenhada pelo noticiário. Ele não

serve apenas para nos lembrar a cada dia das mais graves falhas da sociedade. Muitas vezes, também tem a função de treinar e direcionar a capacidade do povo de sentir orgulho, resistir e ter esperança. O declínio nacional pode ter início pela depressão clínica induzida pelos meios de comunicação, e não apenas — nem principalmente — pelo otimismo sentimental.

9.

A ARQUITETURA CONSTITUI um bom exemplo de como uma

apresentação eventual de coisas positivas pode ter um uso legítimo. Os membros da equipe incumbida de conceber o velódromo para as Olimpíadas de 2012, em Londres (a menos de um quilômetro e meio de North Woolwich), tinham consciência dos muitos desafios enfrentados pela Grã-Bretanha — as divisões de classe e a desigualdade econômica, as deficiências do sistema educacional, o déficit habitacional, os altos índices de ruptura familiar e a degradação da moral e dos costumes —, mas decidiram não levá-los em conta.

Preferiram criar uma estrutura que se destacasse como expressão

eloquente de polidez, modernidade, harmonia entre classes e reconciliação com a natureza, na expectativa de que tais qualidades se tornassem mais presentes no país, graças à articulação em um estádio de ciclismo feito de vidro, aço e cedro-vermelho. A construção era uma proclamação de lisonjas. Dava a entender que essas qualidades desejáveis já se encontravam em ampla oferta em um país onde, na verdade, eram apenas embrionárias ou intermitentes.

Estamos habituados a pensar na distribuição de elogios como algo

sentimental e perigoso, que significaria dar as costas à realidade, mas isso é subestimar a maneira como a realidade pode ser moldada. A criança elogiada pelas primeiras manifestações de gentileza (ao compartilhar um brinquedo com o filho do vizinho), que é chamada de “gracinha” ao exibir tal comportamento, está sendo induzida a se expandir além do que já é. A ideia é que ela se transforme na pessoa que já a consideram ser.

O que ocorre com a arquitetura também se dá no noticiário.

Paralelamente ao foco habitual nas catástrofes e no mal, volta e meia as notícias devem ser manejadas de forma a desempenhar a função crítica de destilar e concentrar um pouco da esperança necessária para que uma nação abra caminho em meio às dificuldades. Ao mesmo tempo que ajuda a sociedade revelando seus pecados e sendo honesto a respeito de suas dores, o noticiário não pode negligenciar a tarefa de igual importância que é construir uma comunidade imaginária que pareça boa, compassiva e sadia o bastante para que as pessoas queiram contribuir para o seu desenvolvimento.

 

5. Eis como as “outras pessoas” talvez um dia (também) possam ser na

Grã-Bretanha: uma sugestão dada pelo Velódromo Olímpico de Londres, 2012.

MEDO E RAIVA

 

METEORO FERE CENTENAS E CAUSA PÂNICO NBC

 

ONDA DE PNEUMONIA RARA DEVE SE ALASTRAR Sydney Morning Herald

 

CADEIRAS DE ESCRITÓRIO PODEM SER FATAIS Business Week

 

E-BOOKS SÃO RUINS PARA AS CRIANÇAS Guardian

 

FUTURO DA POLÍTICA EM RUÍNAS CNN

 

MANCADA IMPERDOÁVEL DO PARLAMENTO Daily Telegraph

1.

QUANTO MAIS ACOMPANHAMOS o noticiário, cada vez mais ficamos

familiarizados com o medo e a raiva.

As notícias não deixam a menor dúvida de que existe muito a temer

no mundo: objetos extraterrestres, vírus mutantes, mobiliário de escritório, tecnologia... Com relação a esses e muitos outros possíveis danos, elas nos induzem a adotar uma posição bem clara: acanhamento, pânico e fragilidade. Nossas chances de sobreviver às dificuldades enfrentadas pela humanidade são consideradas muito pequenas — mas aumentam um pouco se cultivarmos o hábito de nos mantermos atualizados com as manchetes.

 

2.

PARA ATIÇAR OS medos, o noticiário explora a debilidade de nosso senso

de perspectiva de forma cruel.

Nas artes visuais, ter perspectiva significa poder ver coisas diferentes

em suas verdadeiras relações espaciais: o que está longe parece menor; o que está perto, maior. Para os artistas, é surpreendentemente difícil aprender a representar a perspectiva em uma tela — o que parece indicar que talvez a manobra seja igualmente desafiadora em outras áreas da vida.

No terreno do noticiário, ter perspectiva envolve a capacidade de

comparar um acontecimento do presente que parece traumático com as experiências da humanidade ao longo da história. Dessa forma, é possível entender quais níveis de atenção e medo são requeridos.

Ao colocarmos as notícias em perspectiva, logo percebemos que —

ao contrário do que dá a entender o noticiário — quase nada é novo, poucos acontecimentos são de fato impressionantes e muito poucos são absolutamente terríveis. A revolução não trará o fim da história; apenas mudará muitas coisas de diversas maneiras, todas pequenas e complicadas. Os índices econômicos são desfavoráveis, porém já suportamos quedas semelhantes ao longo do século, e até as previsões mais pessimistas afirmam que logo retornaremos a um padrão de vida de algumas décadas atrás, quando viver ainda era possível. Uma terrível gripe aviária pode atrapalhar a circulação internacional e tornar temporariamente inúteis os remédios conhecidos, contudo os laboratórios de pesquisa farmacêutica acabarão por entendê-la e contê-la. A inundação parece dramática, mas, no fim, afetará apenas parte da população e logo cederá. O câncer e o ataque cardíaco têm muitas causas que talvez nunca entendamos por completo, no entanto ninguém estava se programando para a vida eterna. Roma caiu, porém, seis séculos depois, quase tudo já tinha voltado ao normal.

 

VILA EVACUADA EM UMA DAS ÁREAS ATINGIDAS

POR FORTE INUNDAÇÃO NA GRÃ-BRETANHA

6. Wallington, em Hampshire, foi uma das muitas

áreas inundadas na Grã-Bretanha, deixando motoristas ilhados nas estradas, submergindo carros e até arrastando um trailer. ¶

 

Daily Telegraph

 

Em última análise, nossa capacidade de manter a calma depende

bastante do nível de expectativa. Se partirmos do princípio de que as notícias quase sempre se revelam um tanto decepcionantes (mas não tem nenhum problema), de que a mudança ocorre lentamente (no entanto, a vida é longa), de que a maioria das pessoas não é muito boa nem muito má (e isso inclui a nós mesmos), de que a humanidade vem enfrentando crise após crise (contudo consegue seguir se arrastando); se conseguirmos manter vivos na mente todos esses pensamentos óbvios, ainda que bastante fugidios, será mais difícil nos deixarmos seduzir pelo pânico.

Mas não devemos nos surpreender se esse tipo de estoicismo não é

de interesse para o noticiário, pois ele tem fortes motivações comerciais para exagerar nossa vulnerabilidade. Naturalmente, ele precisa que seu público se sinta agitado, assustado e incomodado boa parte do tempo. Acontece que temos uma responsabilidade ainda maior de tentar mostrar resistência.

 

3.

QUANDO NÃO ESTÁ tentando nos assustar, o noticiário muitas vezes está

empenhado em nos enfurecer. A possibilidade de postar comentários no fim das notícias on-line revelou um nível de indignação até há pouco inimaginável na população. A julgar por esses comentários, parece que a maioria de nós passa a maior parte do tempo em um enorme estado de fúria.

 

DIFÍCIL ACORDO ORÇAMENTÁRIO PARA A UNIÃO EUROPEIA

 

COMENTÁRIOS

 

Cidadão Preocupado 2 HORAS ATRÁS

Meu Deus! Quando é que vamos nos livrar desse peso??????????

 

Tentilhão 2 HORAS ATRÁS

Estamos em crise, mas o problema é que os políticos não conseguem resolvê-la. Por quê? Porque o conceito fundamental sobre o qual se fundou a União Europeia é equivocado. Ela nunca conseguirá funcionar desse jeito. Precisamos de um sistema de dois níveis. Por que não resolveram esse problema primeiro, para então tentar conseguir um orçamento realista?!

 

Muishkin 4 MINUTOS ATRÁS

Este comentário foi removido pelo moderador por conter linguagem imprópria. ¶

BBC

 

Por trás da raiva, percebe-se a tocante convicção de que os

problemas do mundo podem ser resolvidos, apenas não estão sendo enfrentados com a rapidez e a determinação necessárias por uma simples razão, que é comprovada a cada dia que passa: somos governados por vigaristas e idiotas. As percepções relevantes estão aí, só que nas mãos erradas. Eis um paradoxo central do noticiário: ele nos dá ferramentas para desenvolver pontos de vista a respeito de decisões sérias e importantes com impacto direto em nossa vida, nos convida à mesa de conferências e ao parlamento e nos apresenta àqueles que tomam decisões. Em seguida, no entanto, mostra-nos adiamentos inexplicáveis, compromissos estranhos e escapatórias irritantes. É mais ou menos como se fôssemos convidados todos os dias a assistir através de uma vidraça a um amigo querido se afogando, sem nunca poder fazer nada.

O tempo todo, o noticiário nos seduz com a promessa de mudanças

e melhorias drásticas. Unge certos políticos como visionários e manifesta confiança de que, em suma, eles podem transformar a nação poucos meses depois de assumir o cargo. Aguarda, ansioso, a chegada do novo presidente do Banco Central, capaz de liberar as energias adormecidas do capitalismo. Leva-nos a conferências e nos induz a acreditar que os delegados serão capazes, em três dias de negociatas, de resolver algumas das mais graves questões do planeta, entre elas a economia, a pobreza da África e o aquecimento da atmosfera.

Até que tudo desmorona. O político se revela um tolo e é

considerado superficial e complacente; o presidente do Banco Central invoca o comportamento do mercado de títulos para justificar cautela ainda maior; as conferências atolam em disputas mesquinhas, e descobre-se até que um ou dois delegados tentaram mascarar a conta do hotel.

Se nos sentimos tentados a deixar comentários com linguagem

impublicável ao fim das matérias on-line, talvez seja porque o noticiário reluta em nos fornecer descrições multifacetadas dos problemas que rodeiam as questões em pauta. Em geral, as soluções mais lógicas parecem ser ignoradas por pura estupidez. Indagamos, impacientes e por fim furiosos: “Por que eles simplesmente não...?” Sem precisar avançar muito na direção do fatalismo e da obediência confiante, essa pergunta cheia de razão deve nos deixar com o pé atrás. Deve servir de dica para diversas respostas sérias, em vez de permanecer apenas como uma pergunta retórica. O que o noticiário quase nunca se dá o trabalho de mencionar é o motivo pelo qual as coisas pouco mudam, o motivo pelo qual poder e recursos não são capazes de resolver nossas dificuldades de um só golpe. Ele não nos induz, nem com o mínimo de sutileza, a entender os verdadeiros motivos que levam os políticos a considerar uma decisão “difícil”. Pelo contrário, nos deixa presumir, com fúria crescente, que cada problema do momento só pode resultar de preguiça, estupidez ou má-fé absolutas e poderia ser resolvido com poucas medidas relativamente decisivas e simples tomadas por uma pessoa inteligente e engenhosa (talvez o próprio jornalista).

Grande parte de nossa indignação seria aplacada se nos

conscientizassem do grande número de complicações ligeiramente encobertas para as quais nenhuma das partes envolvidas tentou chamar atenção; se nos lembrassem de que uma suposta solução pode desencadear uma onda de problemas secundários; se nos levassem a perceber as pressões ao redor da mesa, as alternativas terrivelmente difíceis que estão em pauta e (pelo menos em certos casos) a fundamental boa vontade de muitos dos participantes. Tudo seria diferente se nos instruíssem sobre os motivos pelos quais as decisões difíceis são difíceis.

 

4.

EMBORA A RAIVA pareça uma reação pessimista diante de determinada

situação, não deixa de ser, no fundo, um sintoma de esperança: a esperança de que o mundo pode ser melhor. O sujeito que começa a berrar toda vez que perde as chaves de casa revela uma bela e imprudente confiança em um universo no qual as chaves nunca se extraviam. A mulher que se enfurece quando um político ignora uma promessa de campanha deixa transparecer a crença utópica e infundada de que não há enganação nas eleições.

O noticiário não tem que eliminar as reações enfurecidas, mas

deveria nos ajudar a ficar furiosos pelos motivos certos, na dose certa e pelo tempo certo — tudo isso como parte de um projeto construtivo.

E, sempre que isso não for possível, o noticiário deveria nos ajudar a

prantear a natureza perversa do homem e a nos conformar com o fato de podermos imaginar a perfeição, mas, por uma série de motivos tolos e inevitáveis, nunca alcançá-la.

Hoje em dia, o noticiário apresenta certa resistência a nos dar a

resposta mais tranquilizadora que se pode oferecer para alguns problemas: a comprovação de que eles são normais e dizem respeito a uma espécie intrinsecamente (e não excepcionalmente) imperfeita. Em penhor da agitação e das vantagens comerciais da raiva, o noticiário ignora o projeto da consolação.

O fato mais significativo da vida política, algo que quase nenhuma

organização jornalística se arriscará a reconhecer, uma vez que de um só golpe eliminaria metade de suas especulações e decepções, é que, em certas áreas fundamentais da política, pessoa nenhuma nem partido algum é capaz de realizar qualquer coisa em tão pouco tempo. Seria impossível para qualquer um — e não apenas para aquele imbecil ou aquele outro bando de cretinos — alterar as coisas em um ritmo que atendesse às expectativas do ciclo de notícias. E, no caso de certos problemas, as únicas chamadas “soluções” terão de esperar cem anos ou mais de mudanças progressivas, não um líder messiânico, uma conferência internacional ou uma guerra-relâmpago.

 

5.

EM SEU OTIMISMO frustrado, o noticiário é o filho desiludido do

Iluminismo. Ao se recusar a se alinhar com a natureza humana, ele faz nossas esperanças encalharem sempre nos mesmos bancos de areia. O noticiário saúda cada novo dia com uma falsa inocência angelical, para, logo em seguida, passar a noite insuflando indignação e desilusão quanto à condição atual. Postula a existência de um mundo perfeito que sempre estamos prestes a alcançar, mas que, curiosamente, escapole a cada passo do processo político. Não nos faz o favor de reconhecer que, sob muitos aspectos, somos uma espécie fundamentalmente — e não incidentalmente — incorrigível, e que, em momentos decisivos, seria indicado trocar a contrariedade histérica por uma profunda e tranquila melancolia.

OS VILÕES E A VILANIA DO MUNDO

 

Eric Illsley, membro do Parlamento, pode ser preso após confessar ter declarado uma

despesa falsa de mais de 14 mil libras. As supostas despesas seriam referentes a impostos

locais, uso de telefone, taxas de serviços e manutenção, além de gastos com seguro e

consertos em sua residência secundária, na estrada Renfrew, Kennington, sul de Londres. ¶

 

Daily Telegraph

1.

ALGUNS DOS MAIORES triunfos do jornalismo estão ligados ao ato de

desmascarar figuras de poder, o que, em boa parte dos casos, resulta na queda ou no encarceramento da pessoa em questão.

A ideia de que uma renúncia ou uma sentença de prisão podem ser

ocasionadas apenas por palavras e imagens fascina os jornalistas, e ainda hoje muitos deles consideram a investigação do escândalo Watergate a principal inspiração e referência em seu trabalho.

Quando perguntados sobre sua maior contribuição para a sociedade,

os jornalistas tendem a enfatizar uma função em especial. Dizem que é seu dever “obrigar o poder a prestar contas”.

 

2.

OS JORNALISTAS CONSIDERAM que os poderosos devem ser obrigados a

prestar contas porque têm a forte tendência de desrespeitar as leis e se considerar imunes à justiça: roubam dinheiro, sonegam impostos, subornam para contornar a legislação, desrespeitam normas ambientais e empregatícias, intimidam e abusam sexualmente dos mais fracos.

De acordo com essa tese, o jornalismo é um ramo da força policial,

além de colaborador do fisco e de vários grupos de consumidores. Ele denuncia e ajuda a punir casos de desrespeito e infração da lei que, de outra maneira, passariam despercebidos, protegendo os interesses dos cidadãos comuns e sem voz.

3.

O MOMENTO DE clímax em que um poderoso é detido em casa depois

de uma investigação dos veículos de comunicação pode ser um espetáculo fascinante. Agindo em colaboração com os veículos, a polícia chega mais cedo. Há fotos do malfeitor de pijama, surpreendido no ato de comer torradas ou cereal. Às vezes, pode-se ver um cônjuge ou um filho chorando ao fundo.

A oportunidade de testemunhar indiretamente um incidente dessa

natureza pode proporcionar alívio para uma série de emoções, entre elas sentimentos de injustiça e humilhação, além da impressão básica de que, de agora em diante, o mundo nunca mais cairá nas mãos de incompetentes e vigaristas.

Ao nos mostrar o criminoso sendo levado no banco traseiro de uma

viatura da polícia, o noticiário nos dá a esperança de que a fonte importante de uma infinidade dos nossos males e dos males da sociedade foi identificada e devidamente neutralizada.

 

7. Um mundo mais seguro: o político britânico Eric Illsley é preso por um ano após investigação

de um jornal a respeito de gastos indevidos. É o paradigma de Watergate em ação.

4.

EMBORA SEJA FREQUENTE muitos poderosos serem justificadamente

levados a prestar contas pelo noticiário, grande parte das maiores dificuldades dos países desenvolvidos não decorre de forma tão direta dos atos dos vilões. Uma avaliação honesta dos maiores desafios desses países revela dilemas e apuros que incluem casos de fraude criminal ou contratual no topo, mas não se limitam a eles.

Por exemplo, muitas vezes é difícil encontrar um bairro

razoavelmente atraente e de preços viáveis para morar, mas isso não parece ser “culpa” de ninguém que mereça ser mandado para a prisão. São muitos os empregos que pagam pouco, carecem de interesse e status e são supervisionados por gerentes e patrões desagradáveis, mas seria difícil descobrir como enquadrar problemas dessa natureza na linguagem de um escândalo de noticiário. Muitos produtos comerciais parecem desnecessários e extravagantes, representando um desperdício de recursos e sendo anunciados de maneira insultuosa — mas também nesse caso é difícil identificar e acusar culpados.

Talvez a detenção de uma figura desonesta proporcione um período

de profunda satisfação, mas a esperança que ela inspira pode ser enganosa. Ainda que todos os derradeiros plutocratas e ministros corruptos fossem trancafiados, os países continuariam com uma quantidade respeitável de problemas a enfrentar. Se continuarmos apenas a buscar vilões do tipo que um jornalismo de estilo Watergate sabe identificar, estaremos fadados a perder de vista muitas questões relevantes. Deixaremos de encarar os muitos tipos de delitos mais sistêmicos e impessoais, mas não menos perniciosos, que estão para o desrespeito às leis assim como a agressão passiva está para a violência doméstica. São comportamentos e valores contrários à vida e desalentadores, mas não deixam marcas externas e conseguem vazar pelas malhas da lei.

Da forma como é estruturado hoje em dia, o noticiário não “vê” o

empreiteiro que condena milhares de pessoas a viver em um ambiente humilhante, mas que não desrespeita lei alguma nem rouba de ninguém. O repórter mais dedicado à investigação de fraudes não será capaz de apontar o dedo para alguém responsável perante a lei pelas mensagens comerciais que sutilmente corroem a dignidade e a inteligência da vida pública, nem de encontrar quem possa ser detido por comprometer a educação e o respeito entre os sexos.

Em sua melhor versão, o jornalismo investigativo devia ter como

ponto de partida um interesse abrangente por todo o espectro de fatores que comprometem a existência de um grupo e dos indivíduos que o compõem. Entre outras coisas, investigaria a saúde mental, a arquitetura, o tempo de ócio, as estruturas familiares, os relacionamentos, os estilos de gestão dos negócios, o sistema educacional e o de status. Todas essas áreas têm tanto impacto em nossas vidas quanto as decisões da legislatura.

O noticiário pode nos induzir a pensar que as raízes dos problemas

de um país se originam fundamentalmente na criminalidade do topo. No entanto, embora fique claro que é necessário acabar com as frutas podres, não é menos vital a tarefa de voltar a atenção para as falhas institucionais menos vistosas, mas muito maiores, que se escondem por trás dos nossos arranjos políticos e sociais.

 

5.

ENTRETANTO, A PURA e simples dificuldade intelectual de identificar os

males da sociedade — somada ao anseio quase artístico de encontrar indivíduos a cujos nomes possamos convenientemente associar os tropeços da vida — pode dar origem à bem conhecida alternativa escapista à verdadeira investigação: o jornalismo de gafe.

Uma gafe jornalística é algo que um poderoso diz ou faz sem querer,

em um lapso momentâneo, que (como todo mundo sabe) de modo algum reflete sua visão das coisas. No entanto, o noticiário se agarra a esse lapso com unhas e dentes, insistindo que a gafe deve ser um indicador de uma verdade profunda e vergonhosa.

Por trás do jornalismo de gafe está a indignação impotente dos

jornalistas que sabem que muitas coisas estão erradas no país, mas que não têm acesso ao poder e muito menos paciência para lidar com a burocracia que lhes permitiria identificar os verdadeiros problemas com alguma precisão.

A gafe não é denunciada porque alguém acredita sinceramente que

sua exposição acabará levando a melhores políticas ou a um governo aperfeiçoado. Ela representa apenas uma oportunidade de vingança para um conjunto de indivíduos acossados que não conseguem mais ter ideias de como promover as mudanças.

 

6.

O QUE O noticiário deve fazer com os vilões? Hoje em dia, ele se

empenha em entregar os piores deles à polícia. Ainda assim, a maioria dos casos é tratada com o instrumento mais característico do jornalismo: a humilhação. O noticiário evidencia níveis constantes de entusiasmo por histórias sarcásticas, entrevistas improvisadas na porta de alguém, fotografias tiradas em segredo e correspondência vazada. Pessoas que cometeram erros precisam ser transformadas em notícia para então enfrentar a repulsa e a indignação da maioria moralizante. A ideia implícita é de que a sociedade será reformada pela ruína das reputações e pela abjeção pública.

Entretanto, será que a vergonha é mesmo a ferramenta mais útil para

a reforma da humanidade? As pessoas melhoram quando são diminuídas? O medo educa?

É impressionante que tantas histórias sobre os desmandos dos vilões

pareçam não suscitar o menor interesse para o único objetivo que deveria de fato estar por trás das informações sobre delitos e tramoias: o desejo de contribuir para o progresso da nação. Essas histórias cercam a presa decaída sem qualquer interesse para a evolução da vida pública. Seus autores não estão empenhados em melhorar a contabilidade, os casamentos, as universidades, a imigração ou o sistema fiscal. Estão apenas nos convidando para um tipo especial de diversão.

 

7.

O JORNALISMO TEM se revelado modesto e mesquinho demais ao definir

seu objetivo apenas como a fiscalização de certos tipos de poder. Essa é uma definição prejudicial, uma vez que se mostra tão acanhada na própria concepção de jornalismo e do seu papel na sociedade. Ele não é apenas um ramo de facto da polícia ou do sistema fiscal. Na verdade, é, ou deveria ser, um governo no exílio que examina todas as questões da vida nacional com o objetivo de sugerir maneiras de construir um país melhor.

O único objetivo honesto do empenho de revelar o erro é fazer com

que seja menos disseminado. Diante da corrupção, da estupidez e da mediocridade, em vez de permanecer no nível da exultante denúncia dos erros no presente, o noticiário deveria sempre tentar propiciar mais competência no futuro. Por mais satisfatório e importante que seja derrubar os poderosos, a investigação jornalística deveria partir de um objetivo um pouco diferente e nem sempre conflitante: o desejo de tentar melhorar as coisas.

IDEIAS FEITAS

 

A marcha implacável da impressão 3-D continua (...) [O processo] utiliza “tintas”

extravagantes extraídas de nanotubos de carbono e prata (...) Por causa de seu

componente de poliéster, que derrete quando aquecido, o carbomorph é uma das

matérias-primas indicadas para o processo. E também é útil, pois entre suas propriedades

elétricas está a piezorresistividade. ¶

 

The Economist

1.

A PROMESSA MAIS nobre do noticiário é a de que será capaz de aliviar a

ignorância, superar o preconceito e elevar a inteligência dos indivíduos e das nações.

 

2.

MAS, EM CERTOS meios, vez por outra ele é acusado da capacidade

oposta: nos tornar idiotas completos. Uma das versões mais intransigentes dessa acusação foi a de Gustave Flaubert, em meados do século XIX. Flaubert era de uma geração que assistiu ao crescimento dos jornais de circulação em massa. No entanto, em sua infância as notícias eram espalhadas aleatoriamente entre a população, por boatos ou boletins de péssima qualidade de impressão em folha única. Quando Flaubert já estava na casa dos trinta, a invenção da prensa a vapor, o desenvolvimento das ferrovias e o abrandamento das leis de censura tinham permitido a proliferação de jornais respeitáveis e bem capitalizados, que, a essa altura, somavam milhões de leitores em toda a França.

Flaubert ficava abismado com o que, em sua avaliação, esses jornais

faziam com a inteligência e a curiosidade de seus compatriotas. Achava que os periódicos estavam disseminando um novo tipo de estupidez — a que chamava de “la bêtise” — em cada recanto da França, uma imbecilidade muito pior que a mera ignorância que vinha substituir, pois era alimentada pelo conhecimento, em vez de ocupar seu lugar com passividade. O efeito da prensa era tão contagioso, aos olhos de Flaubert, que apenas os franceses completamente analfabetos e sem educação tinham chance de conseguir pensar do modo correto: “Os camponeses são menos imbecis que três quartos da classe média da França, sempre agitada por algo que leu nos jornais e girando como cata-ventos em função do que diz este ou aquele periódico.”

O farmacêutico Homais, personagem mais detestável de Madame

Bovary, é apresentado logo no início do romance como ávido consumidor de notícias, que todos os dias separa uma hora para estudar “le journal” (Flaubert sempre mantém a palavra em itálico para ironizar a reverência quase religiosa com que o objeto é adorado). À noite, Homais frequenta uma taberna, Le Lion d’Or, onde a burguesia local se reúne para comentar os acontecimentos do momento: “Depois, discutiam o que estava no ‘jornal’. A essa altura, Homais já o sabia quase de cor e fazia um relato completo, inclusive dos editoriais, o que incluía as muitas catástrofes ocorridas na França e ao redor do mundo.”

 

3.

FLAUBERT DETESTAVA OS jornais por estar convencido de que eles

tinham a intenção maliciosa de estimular os leitores a confiar a terceiros uma tarefa de que nenhuma pessoa honesta jamais deveria consentir em abrir mão: pensar. Implicitamente, a imprensa dava a entender que a formação de opiniões complexas e inteligentes sobre questões importantes podia ser confiada com toda segurança a seus empregados, que a mente do leitor podia deixar de fora as peregrinações, dúvidas e meditações particulares, entregando-se por completo às conclusões empacotadas com muita eficiência pelos principais redatores do jornal Le Figaro e outros de sua laia.

Sendo assim, não é de se surpreender que um escritor tão sensível ao

clichê e à mentalidade de rebanho se sentisse ultrajado com as limitações à capacidade independente de investigação representada por esse novo meio de comunicação de massa, que trazia a neutralização das excentricidades locais e das diferenças individuais em favor de um conjunto de pressuposições abrangentes e monoculturais. Tratava-se de uma força homogeneizadora prestes a passar um rolo compressor sobre as originalidades produtivas da vida interior e a transformar as ricas e idiossincráticas hortas artesanais da mente em ondulantes e insípidos campos de trigo mecanizados.

 

4.

NA DÉCADA DE 1870, Flaubert começou a registrar aqueles que

considerava os padrões mais imbecis de pensamento promovidos pelo mundo moderno, em âmbito geral, e pelos jornais, em âmbito particular. Em uma publicação póstuma intitulada Dicionário das ideias feitas, essa coletânea de banalidades organizada por temas foi apresentada pelo autor como uma “encyclopédie de la bêtise humaine” (enciclopédia da estupidez humana). Aqui vai uma amostragem aleatória de suas entradas:

ORÇAMENTO Nunca equilibrado. CATOLICISMO Teve uma excelente influência na arte. CRISTIANISMO Libertou os escravos. CRUZADAS Beneficiaram o comércio veneziano. DIAMANTES E pensar que não passam de carvão. Se

encontrássemos um deles em seu estado natural, nem nos daríamos o trabalho de pegá-lo do chão!

EXERCÍCIOS Previnem todas as doenças. Recomendados a

qualquer momento.

FOTOGRAFIA Tornará a pintura obsoleta.

 

Cabe notar que muitos dos clichês no Dicionário dizem respeito a

disciplinas sofisticadas como teologia, ciência e política, sem contudo levar o leitor a conclusões muito inteligentes. As “ideias feitas” consistem em fatos exóticos ou complicados associados a um teimoso acanhamento mental. Flaubert sugeria que, no passado, os idiotas não tinham a menor ideia da estrutura carbônica dos diamantes. Sua superficialidade mental era clara e certa. No entanto, a imprensa tornara perfeitamente possível que uma pessoa fosse ao mesmo tempo sem imaginação, sem criatividade, tacanha e muito bem informada. O idiota moderno não tinha problemas em saber o que, no passado, era conhecido apenas pelos gênios, mas ainda assim continuava idiota — uma combinação deprimente de características com que as épocas anteriores não tinham precisado se preocupar. Para Flaubert, as notícias tinham armado a estupidez e conferido autoridade aos tolos.

 

5.

AS ORGANIZAÇÕES JORNALÍSTICAS de nossa época dificilmente aplacariam

Flaubert, ainda que apenas um pouco. Elas continuam a malhar o ferro quente das opiniões de seu público em formas completamente padronizadas:

 

IMPRESSÃO 3-D No futuro, tudo será impresso em 3-D. Uma

perspectiva surpreendente e espantosa.

 

INTERNET Impossibilitou a concentração. Como é difícil ler

romances longos!

 

EQUILÍBRIO Mais difícil que nunca. Daqui a pouco teremos ENTRE que marcar hora para ver o cônjuge. TRABALHO E

VIDA PESSOAL

ASAS DE FIBRA Incrivelmente flexíveis, mas algum dia causarão

DE CARBONO uma tragédia. NAS AERONAVES

 

MANDARIM A língua do futuro.

 

6.

COMO O NOTICIÁRIO faz para nos convencer de suas conclusões por

vezes banais ou equivocadas?

Em suma, ele consegue, por diferentes meios, apresentar-se a nós

como extremamente fundamentado. Para começo de conversa, não entendemos muito bem quem decide o que é notícia e quais são os critérios utilizados — portanto, os boletins têm o hábito de parecer gerados pela natureza ou por uma necessidade maior que não é do nosso conhecimento, de forma que seria muito insolente de nossa parte questioná-los. Esquecemos a dinâmica condicionada e humana por baixo da escolha do que acaba sendo apresentado como “matéria”.

Cultiva-se um segredo um tanto evasivo sobre a preparação do

noticiário. Pouco sabemos, por exemplo, das três horas que o correspondente político teve de esperar em pé debaixo de chuva por trás de uma barreira, na entrada do prédio Justus Lipsius, em Bruxelas, apenas para registrar a única frase da destemperada declaração do primeiro-ministro, dizendo que nada tinha a acrescentar ao boletim de imprensa distribuído na véspera. Temos ainda menos consciência das inacreditáveis 22 horas que o correspondente no norte da África levou até encontrar um grupo de rebeldes no Mali para que pudéssemos ter uma história sobre a qual passar os olhos distraidamente enquanto comemos um sanduíche na hora do almoço. E sabemos menos ainda do descomunal esforço do fotógrafo que perdeu várias horas de sua vida esperando que uma atriz saísse de uma cafeteria em Beverly Hills para nos dar o prazer de admirar um surpreendente modelo novo de capa de chuva.

Ninguém espera que o leitor pense nas apertadas fileiras de

gigantescos computadores negros alinhados por meio quilômetro em centros de processamento de dados no Colorado ou no norte da Finlândia, alimentados a carvão e gás natural — ou sequer que tenha conhecimento deles. Trata-se de uma realidade física sombria, ignorada por nossas telas leves e luminosas.

Embora irradiem um ar de importância convencido e impessoal por

baixo das manchetes, as matérias que consumimos não foram decididas por decreto sobrenatural depois de algum conclave de anjos, mas por um grupo de editores em geral bem cansados e pressionados, tentando juntar uma lista plausível de itens enquanto devoram bolinhos com café em reuniões apressadas que acontecem em escritórios apertados. As manchetes não constituem o reflexo supremo da realidade, apenas palpites iniciais sobre o que pode ser importante, todos emitidos por mortais, homens sujeitos aos mesmos preconceitos, erros e fragilidades que todos nós. São palpites pinçados em um universo de vários bilhões de possíveis eventos com que nossa espécie se defronta todos os dias.

Saber se uma guerra na África deve ter prioridade sobre o

lançamento de uma coleção de sapatos; se um tigre foragido é mais importante que os números da inflação, se o estupro de uma linda estudante branca de classe média é uma notícia maior que a decapitação de um negro sem-teto, ou se o colapso das ações de empresas mineradoras é mais digno de nota que as primeiras palavras pronunciadas por uma criança depende de métodos de classificação que apontam para os preconceitos mais peculiares e clandestinos de uma sociedade.

Devíamos ao menos desconfiar um pouco da maneira como as

fontes geradoras de notícias, que investem tanta energia em apregoar sua originalidade e independência de espírito, parecem tantas vezes em total acordo quanto à importante questão de saber o que aconteceu no dia.

 

7.

AS MATÉRIAS JORNALÍSTICAS também ganham força quando divulgadas

sob a égide de uma marca. Opiniões que talvez questionássemos com mais ênfase se fossem emitidas por uma pessoa sentada do outro lado da mesa podem adquirir força quase mitológica se aparecerem debaixo de certos cabeçalhos.

É um pouco menos provável (mas não menos decisivo) que o

fundamento de um artigo sobre os motivos para entrar em uma guerra seja questionado quando ele é publicado debaixo do título em fonte neogótica Cheltenham do New York Times, ou que a coerência de uma tese defendendo um orçamento presidencial seja investigada quando apresentada nas colunas sóbrias, mas sensuais, da fonte Fenway, do Le Monde.

Só as marcas nos dissuadem de exercitar o ceticismo quanto ao

conteúdo que está por trás delas.

 

8.

APESAR DA SUPOSTA pluralidade do noticiário, as questões que acabam

sendo levantadas nos diferentes veículos não ultrapassam limites terrivelmente acanhados em determinados assuntos.

No campo da educação, parece “normal” publicar matérias sobre o

número de alunos em uma classe, os salários dos professores, o desempenho do país em levantamentos comparativos internacionais e o devido equilíbrio entre os papéis dos setores privado e estatal. Mesmo assim, correríamos o risco de parecer um tanto esquisitos e até desequilibrados caso perguntássemos se o currículo de fato faz sentido, se realmente dota os alunos dos recursos emocionais e psicológicos fundamentais para levar uma boa vida.

Quando se trata de moradia, o noticiário quer que a preocupação

seja saber como aumentar a atividade das construtoras, facilitar a compra da primeira casa própria e equilibrar as necessidades da natureza com as dos níveis de emprego e dos negócios. No entanto, em geral, ele não encontra tempo para fazer perguntas primordiais e aparentemente excêntricas, como: “Por que nossas cidades são tão feias?”

Nos debates econômicos, nossa energia é canalizada para examinar a

quantidade certa de impostos e a melhor maneira de combater a inflação. Ainda assim, os principais meios de comunicação nos dissuadem de fazer perguntas mais singulares e remotas sobre as finalidades do trabalho, a natureza da justiça e o papel adequado dos mercados.

As matérias jornalísticas tendem a apresentar as questões de maneira

a reduzir nossa vontade e até mesmo nossa capacidade de imaginá-las sob ângulos muito diferentes. Pela força de intimidação, o noticiário entorpece. Sem que ninguém busque um resultado em particular, ideias mais hesitantes, porém potencialmente importantes, ficam debaixo do rolo compressor.

 

9.

EM PARTE, A culpa é do dinheiro. As necessidades financeiras das

empresas de comunicação fazem com que elas não possam se dar ao luxo de arriscar ideias sem potencial de cair muito depressa nas graças de uma enorme quantidade de pessoas. Um artista pode viver bem vendendo seu trabalho para cinquenta clientes, enquanto que um escritor pode se virar com cinquenta mil leitores. No entanto, uma organização divulgadora de notícias não é capaz de pagar as contas sem contar com um público maior que a população de uma metrópole. Que tipos de acordo devem ser feitos? Quanto se deve eliminar de idiossincrasias e de originalidade útil para tornar o material oferecido palatável o bastante para tantos?... Sabedoria, inteligência e sutileza de opinião não se espalham com facilidade pela população, não se difundem em blocos de vinte milhões de pessoas.

 

10.

EM VIRTUDE DE seu tamanho e complexidade, o mundo sempre estará

além da capacidade de qualquer organismo de fazer perguntas produtivas a seu respeito. As agências de notícias nunca serão capazes de oferecer mais que mapas hesitantes e, muitas vezes, profundamente equivocados de uma realidade que continuará para sempre variada e fugidia.

Visto isso, seria desejável que alarmes soassem em nosso espírito —

assim como soou no de Flaubert — diante de qualquer ponto de vista que pareça ter alcançado um nível de consenso consistente demais. Devemos sempre permanecer céticos e alertas ante a tolice às vezes grosseira que pode se esconder por baixo das mais belas fontes tipográficas e das manchetes que parecem mais bem fundamentadas e dignas de crédito. Cabe a nós ficar tão alertas aos clichês midiáticos quanto Flaubert se mostrava diante dos literários. Estes arruínam romances; aqueles podem arruinar nações.