Notícias: Manual do Usuário
Capítulo cinco: Desastre
capítulo cinco
Desastre
TRAGÉDIA
Um médico de Manhattan morreu ontem ao cair de seu apartamento, no trigésimo andar
de um prédio no Upper East Side. Com base no depoimento de testemunhas, a polícia
suspeita de suicídio. O corpo do dr. Sheldon “Shelly” Steinbach, de 68 anos, anestesista,
caiu em uma varanda do segundo andar do prédio número 246 da East 63rd Street, às
9h35. “Ouvi um estrondo, nós olhamos lá fora e o vimos. O corpo simplesmente explodiu”,
comentou Jonathan Kershner, 25 anos, que mora dois andares acima do local onde o
médico caiu. “E então chegou um porteiro dizendo que uma mulher estava atrás do
marido”, acrescentou. Steinbach tinha uma conta no Twitter, mas não a atualizava desde
outubro de 2011. Sua descrição na conta é a seguinte: “Sou anestesista em Nova York e
estou muito feliz. Casado. Adoro atividades aeróbicas e música.” ¶
New York Post
1.
TODA VEZ QUE voltamos a atenção para o noticiário, podemos ter certeza
de que vamos nos deparar com relatos detalhados de algumas das eventualidades mais espantosas que podem se abater sobre nossa espécie: um homem deprimido salta pela janela, uma mãe envenena os filhos, um professor estupra a aluna, um marido decapita a esposa, um adolescente atira nos colegas. Podemos contar com o noticiário para mergulhar no caldeirão do horror humano.
Uma reação digna é desviar o olhar e insistir que mortes e traumas
dessa natureza são tristes demais e de caráter muito privado para serem submetidos ao exame de estranhos. Dessa perspectiva, qualquer curiosidade parece uma forma particularmente vergonhosa e moderna de patologia.
Motivadas pelo medo da intrusão, as agências de notícias mais sérias
adotam um tom reservado em suas reportagens que abordam acontecimentos que submetem a um teste a fé que por acaso ainda tenhamos no bom senso e na decência da humanidade.
Elas deixam para os concorrentes menos dignos, sem muitos
escrúpulos, a evocação dos detalhes realmente vívidos dos últimos escândalos: uma imagem bem aproximada do corpo caído na varanda, a cama onde a criancinha foi amarrada ou o facão ainda sujo com o sangue do cônjuge. Sua recompensa por essa disposição de levar a cabo tais investigações é o interesse porventura culpado, mas coordenado e lucrativo, de milhões de leitores e telespectadores.
2.
NÃO É DIFÍCIL caracterizar como inútil e de mau gosto o interesse do
público por histórias horríveis. Mas, por baixo da banalidade superficial, deveríamos reconhecer que muitas vezes estamos tentando — de maneira confusa e desarticulada — chegar a algo importante. Ao mergulharmos em narrativas banhadas em sangue, nem sempre buscamos apenas entretenimento ou distração; nem sempre estamos sendo apenas lascivos ou, colocando de forma insensível, nos apropriando de intensidades de sentimento que nossa vida não nos proporciona.
Talvez saiamos em busca desses relatos bárbaros para controlar
melhor nosso eu mais civilizado — e em particular para nutrir nossas reservas sempre efêmeras de paciência, autocontrole, perdão e empatia.
Em vez de sermos moralistas e investirmos contra nosso fascínio por
eventos hediondos, o desafio deveria passar pelo ajuste da forma como eles são relatados, para que liberem melhor seus benefícios emocionais e sociais — aspectos importantes, mas, com muita frequência, latentes.
3.
TODO ANO , NO fim de março, os cidadãos da antiga Atenas se reuniam a
céu aberto no Teatro de Dionísio, nas colinas meridionais da Acrópole, para ouvir as últimas obras dos grandes autores trágicos da cidade. Os enredos das peças eram sempre macabros e podiam ser facilmente comparados a relatos do nosso noticiário: um homem mata o pai, casa com a mãe e fura os próprios olhos (Édipo Rei); um homem manda assassinar a filha como parte de um plano para se vingar da infidelidade da mulher do irmão (Ifigênia); uma mãe mata os dois filhos para comprometer os planos do marido infiel de fundar uma nova família com outra mulher (Medeia).
Em vez de encarar essas histórias como espetáculos grotescos a
serem evitados por pessoas sãs, o filósofo Aristóteles examinou o fascínio por elas de maneira bastante generosa em sua Poética, escrita aproximadamente em 335 a.C. Segundo ele, quando bem escritas e encenadas com arte, essas histórias podem se tornar elementos cruciais de educação emocional e moral para toda a sociedade. Apesar das barbaridades mostradas, elas podem funcionar como forças civilizadoras.
Contudo, para que um horror (uma narrativa de acontecimentos
revoltantes sem significado) se transforme no que Aristóteles chamava de tragédia (um relato educativo extraído de abominações), o filósofo considerava vital que o enredo fosse bem organizado e as motivações e personalidades dos personagens, devidamente delineadas. Seria preciso um talento dramático extraordinário para que o público chegasse espontaneamente a um ponto em que fosse capaz de reconhecer que o protagonista insano da história, após agir de maneira impetuosa, arrogante e cega, talvez matando outros e destruindo sua própria reputação e sua vida — aquela pessoa que talvez pudéssemos inicialmente (tendo encontrado a história no noticiário) considerar um psicopata —, era, no fim das contas, bem parecido conosco sob certos aspectos muito significativos. Uma obra trágica alcançaria suas verdadeiras possibilidades morais e edificantes quando o público, contemplando os horripilantes erros e crimes do herói, inevitavelmente chegasse à terrível conclusão: “Eu poderia ter feito a mesma coisa.” A função da tragédia era demonstrar a facilidade com que um indivíduo decente em sua essência e digna de estima pode acabar criando um inferno.
Se fôssemos completamente sãos, se a loucura não tivesse séria
ascendência sobre um lado nosso, as tragédias dos outros nos pareceriam muito menos interessantes. Enquanto veiculamos histórias horripilantes nos meios de comunicação, podemos estar explorando, em um nível profundamente inconsciente, questões chocantes, mas importantes: “Se as coisas realmente saíssem do controle algum dia, tarde da noite, e eu me sentisse magoado, exausto e inseguro, seria capaz de matar minha parceira?”; “Se eu fosse divorciado e minha ex-esposa não me permitisse ver os filhos, eu seria capaz de matá-los, em uma vingança cruel e perversa?”; “Eu seria capaz de puxar conversa com alguém menor de idade na internet e, sem me dar conta da gravidade do que estaria fazendo, acabar por seduzi-lo?”.
34. Um homem joga o carro contra sua casa para punir a esposa, Manchester, 2012.
35. Medeia mata o lho para punir o marido, vaso grego, c. 300 a.C.
Nosso fascínio pelos crimes pode ser parte de uma tentativa inconsciente de nos certi car de que nunca os cometeremos.
Para que a civilização tenha continuidade, precisamos, claro, que
em todos os casos as respostas sejam um categórico não. E aqui reside uma missão das mais sérias para o noticiário: as calamidades que nos são mostradas devem ser apresentadas de maneira a nos estimular ao máximo a não fazer as coisas que nossas partes mais caóticas — em circunstâncias extremas — ficariam interessadas em explorar. Pode ser que nunca cheguemos a atirar nossos filhos de uma ponte no fim de um dia de descontrole total nem a matar o cônjuge a tiros durante uma discussão, mas, às vezes, todos ficamos abalados emocionalmente a ponto de essas coisas poderem acontecer. As tragédias nos lembram de quando e quanto precisamos nos controlar ao nos mostrar o que acontece quando as pessoas não o fazem.
4.
AS TRAGÉDIAS NÃO devem apenas nos ajudar a sermos bons, mas nos
estimular a sermos gentis. A probabilidade de que simpatizemos com alguém que mata o cônjuge ou os filhos depende em grande medida da forma como a história é contada: que informações recebemos a respeito dessa pessoa, a maneira como nos apresentam as motivações, bem como o grau de percepção e complexidade com que sua psique é exposta.
Nas tragédias gregas, o coro periodicamente interrompe os
acontecimentos para orientar os sentimentos e contextualizar os atos dos personagens. Ele tende a falar com um respeito solene sobre os protagonistas, quaisquer que sejam os pecados que tenham cometido. Essa sensibilidade faz com que poucos membros do público abandonem uma interpretação de Édipo Rei por pensar que o infeliz personagem central é um “imbecil” ou um “psicopata”.
O noticiário não é tão cuidadoso em suas narrações, e nossos
julgamentos, em consequência, são muito mais destemperados e cruéis.
Foi preso em Teesside um médico que tinha no computador mais de 1.300
imagens de pornografia infantil, inclusive cenas de tortura. A polícia encontrou as
imagens “revoltantes” no laptop de James Taylor, 31 anos, de Wensleydale Gardens,
Thornaby. Ele trabalhava no Hospital Pinderfields, em Wakefield, e já admitira ver
imagens obscenas de crianças. Na última sexta-feira, Taylor foi condenado a um
ano e um dia de prisão por um juiz do Tribunal da Coroa de Teesside e está
proibido de trabalhar com crianças pelo resto da vida. ¶
BBC
À primeira vista, o médico parece não merecer qualquer simpatia.
Mas nossa decisão sobre como encará-lo depende fundamentalmente do modo como os fatos do caso são apresentados. Somos capazes de simpatizar com quase qualquer um, se sua história for contada de determinada maneira — e não necessariamente estaríamos errados (como Dostoiévski ou Jesus teriam nos lembrado).
No contexto das reportagens, a afirmação pode parecer polêmica e
até perigosa, pois temos de jogar com duas ideias que soam opostas: que podemos simpatizar com um criminoso e ao mesmo tempo condenar seu crime com firmeza. O noticiário está implicitamente convencido de que o público não seria capaz dessa proeza conceitual e de que qualquer simpatia que os meios de comunicação manifestassem levaria o público a querer abrir os portões das prisões e permitir que os assassinos tomassem as ruas. Mantém-se, assim, firme na recusa de proceder às manobras narrativas e psicológicas necessárias para humanizar os criminosos.
Então, ele passa batido por suas histórias. Uma apresentação de
Édipo Rei pode durar uma hora e meia, mas a notícia sobre o médico tem 304 palavras.
É provável que o sentimento de indignação chegue ao auge ao
lermos a manchete:
Médico colecionava pornografia infantil “revoltante”
Porém, à medida que lemos, nossa certeza pode vacilar. Mais para o
fim do texto, somos informados do seguinte:
Ao ordenar que o nome de Taylor constasse no Registro de Criminosos Sexuais
durante dez anos, o juiz disse: “Por causa dessa condenação, não resta dúvida de
que sua carreira está acabada.”
Sentimos um calafrio ante a ideia de que sete longos anos de
faculdade de medicina possam acabar assim. A reportagem dá uma ideia do pânico que o médico deve ter sentido:
O tribunal foi informado de que Taylor inicialmente negou qualquer
responsabilidade, mas depois reconheceu, nos interrogatórios da polícia, que
baixara as imagens.
E do enorme preço que teria de pagar:
Stephen Rich, advogado de defesa, disse ao juiz, George Moorhouse, que Taylor
tinha sido abandonado pela mulher, que levara consigo o filho recém-nascido, e
que sua vida desmoronara. ¶
Um adendo nos informa que, na prisão, o homem tentou cometer
suicídio. Tudo isso não é menos triste que o enredo de Madame Bovary ou de Hamlet — e podemos até sustentar que o personagem do médico não é pior. Afinal, Hamlet é um assassino, e Emma Bovary dava sinais de extrema crueldade com crianças. Nós os consideramos figuras “trágicas” — ou seja, merecedoras de certo grau de compreensão complexa — porque imaginamos que devia haver algo inusitadamente nobre e digno em seu caráter e suas circunstâncias. Mas, na verdade, é apenas a generosidade de Flaubert e Shakespeare que eleva Bovary e Hamlet acima dos criminosos comuns, dissuadindo-nos de julgá-los com o mesmo rigor que poderíamos aplicar ao médico preso.
5.
AO RELATAR UMA tragédia, o noticiário tende a apresentar os
comportamentos mais terríveis como exclusivos de determinada pessoa. Ele resiste à reflexão mais ampla e à conclusão mais útil: estamos todos a um passo da catástrofe. Devidamente absorvida, essa constatação deveria nos mergulhar em uma tristeza reflexiva e madura. Estamos mais envolvidos nos delitos dos outros membros da nossa espécie do que gostaríamos de acreditar. A ausência de uma ficha criminal é, em grande medida, questão de sorte e de circunstâncias favoráveis, não prova de uma natureza incorruptível. Uma consciência tranquila é apanágio dos que não têm imaginação suficiente. Se a vida, ou o que os gregos chamavam de deuses, realmente resolvesse nos pôr à prova, com toda certeza seríamos apanhados em falta — constatação sobre a qual deveria repousar alguma compreensão em relação aos culpados.
Os autores trágicos da Grécia Antiga nunca se esqueciam disso.
Gostavam de nos mostrar como podemos ser depravados, estúpidos, escravos do sexo, furiosos e cegos, mas também abriam espaço para uma compaixão complexa. Por meio dos exemplos que nos deixaram, somos induzidos a aceitar que fazemos parte de uma espécie nobre, mas terrivelmente falha. Uma espécie capaz de proezas notáveis, praticando a medicina com talento ou criando filhos com amor durante muitos anos, para, em seguida, dar meia-volta e jogar tudo para o alto em um único ato impensado. É de dar medo.
6.
OS GREGOS ANTIGOS viam peças trágicas uma vez por ano, em uma
época específica, em um contexto particular e com algum conhecimento do sentido mais amplo da obra.
Por outro lado, quase todos os dias absorvemos histórias trágicas por
meio do noticiário, mas raramente nos damos conta de que fazem parte de um ciclo narrativo coerente, com uma moral a transmitir. O noticiário não nos ajuda a situar em um único gênero todos os incidentes em que se perde o controle e se libera o monstro interior. Não junta, como deveria, todos os variados contos de horror na mesma categoria da “Tragédia”, para em seguida narrá-los de tal maneira que possamos reconhecer nossas tendências latentes nos atos ensandecidos dos protagonistas sanguinolentos.
36-37. O pai com o lho — e o carro em que viria a matar a criança.
Depois de tentar superar o fim de seus dez anos de casamento com Erica, o sr.
Pedersen matou os dois filhos — Ben, de sete anos, e Freya, de seis — e em seguida
cometeu suicídio. Os corpos de Ben e Freya Pedersen foram encontrados
apunhalados perto do corpo do pai, após o crime ocorrido na noite de domingo. O
sr. Pedersen havia se divorciado recentemente da esposa, de 43 anos. Ele levou as
crianças para uma estrada rural distante, em Hampshire, onde estacionou o carro.
Enlouquecido, depois de apunhalar as crianças até a morte, em um crime
“pavoroso”, o sr. Pedersen voltou o facão maior contra si e o enterrou três vezes no
peito e uma vez no antebraço. Os corpos foram encontrados por um transeunte que
levava o cachorro para passear e viu o Saab conversível do sr. Pedersen e a perna de
uma criança. ¶
Daily Mail
7.
NO FIM DAS contas, boa parte do noticiário é um relato sobre pessoas de
toda parte do mundo, em todo tipo de situação, fazendo as coisas de forma muito errada. Elas não conseguem dominar as emoções, conter as obsessões, distinguir o certo do errado e se comportar corretamente enquanto ainda há tempo. Não devemos desperdiçar seus fracassos. Assim como a literatura e a história, o noticiário pode ser o mais vital dos instrumentos, um “simulador de vida” — ou seja, uma máquina que nos insere em uma série de cenários que vão muito além de qualquer coisa que pudéssemos ter de enfrentar na vida cotidiana, dando-nos a oportunidade de preparar nossas melhores reações de maneira segura, ao nosso bel-prazer.
Mas em geral o noticiário não nos ajuda a aprender com as
experiências de nossos semelhantes mais desventurados; não tenta nos poupar, nem poupar nossas sociedades, da plena força do erro a cada nova oportunidade. Se, como já vimos, é necessário aprendermos com o exemplo de figuras inspiradoras e imitá-las para ter uma boa vida, não é menos importante empreender um estudo atento daqueles cujo comportamento deve nos assustar e horrorizar, deixando-nos de sobreaviso. São os dois lados da mesma moeda do crescimento e do desenvolvimento, e, embora ainda não esteja em sua pauta, ajudar-nos nesses dois aspectos faz parte do escopo do noticiário.
ACIDENTE
38. Um pai que levava a lha à escola, em Derbyshire, morreu quando seu carro derrapou
em um rio congelado, minutos antes da esposa, que também levava o lho à escola, cair
com o carro na água. As duas crianças e a mãe saíram ilesas, mas as desesperadas
tentativas dos moradores locais não salvaram o pai, que morreu no hospital. Ele passava
por uma trilha de cavalo ao norte da rodovia A6 quando o Toyota Aygo saiu do caminho e
afundou no rio Wye. ¶
Huf ngton Post
1.
É, NATURALMENTE, UMA história apavorante. A vítima tinha apenas 42
anos, e ficou na lembrança dos amigos como um “pai, marido, irmão e filho amoroso”. Para nos deixar ainda mais chocados, a notícia detalha a luta desesperada da família para se desvencilhar das águas geladas do rio, relata as vãs tentativas dos vizinhos de resgatar o motorista do carro capotado e revela a decisão fatal e de última hora tomada pelos pais, ao optarem por essa traiçoeira estrada estreita, em vez da rota habitual, mais ampla e segura. Bastou um pedaço de gelo negro, uma fina camada deslizante que cobre o asfalto, para destruir uma vida. Poderia ter sido mais uma manhã como outra qualquer. O acidente dominou as manchetes na Grã-Bretanha durante várias horas em um dia de janeiro (até que um avião explodiu em chamas pouco depois de levantar voo, no Nepal).
O desastre faz parte de uma segunda categoria de más notícias,
igualmente irresistível e popular, que se diferencia da tragédia no sentido de que, nesse caso, não há nenhuma pessoa específica a quem culpar. As causas da calamidade não se encontram em fatores ou distúrbios psicológicos na mente dos protagonistas; elas residem na vulnerabilidade de nossa espécie aos acidentes, na extrema fragilidade de nossa constituição e no caráter imprevisível da natureza. Com isso, somos lembrados de que tudo que nos separa do fim pode ser uma fagulha perdida, um germe teimoso, uma telha solta ou mesmo uma forte rajada de vento.
2.
MAIS UMA VEZ , o paradoxo inicial é: por que nos interessaríamos tanto
por essas histórias de acidentes, quando seria mais lógico partir do princípio de que relatos mais felizes poderiam nos acalentar com mais facilidade ou de que a coragem de prosseguirmos com nossas vidas pode ser mais estimulada no contato com aspectos positivos e agradáveis da experiência humana?
Embora os benefícios das boas notícias possam ser óbvios quando se
trata de nossas vidas, fica evidente que não se aplicam no momento de ouvir a respeito da vida dos outros. Extraímos benefícios bem peculiares, embora inegáveis, do contato com o sofrimento de estranhos.
Talvez isso ocorra porque todos somos, em algum lugar lá dentro,
desconfortavelmente tristes e desiludidos. Nutrimos em silêncio muita coisa sombria. Ao mesmo tempo, vivemos em sociedades que não param de promover imagens de ambição e felicidade, de relacionamentos bem-sucedidos, carreiras lucrativas e empreendimentos de sucesso, em sua maioria dolorosamente fora de alcance.
É justamente o impacto incessante dessas imagens de realização que
as notícias de desastres ajudam a aliviar. Acidentes, cânceres, explosões e incêndios relativizam nossos fracassos. A calamidade traz, em seu cerne, uma mensagem útil: a humanidade sofre. É essa moral que nosso inconsciente apreende e aplica às especificidades de nossos sofrimentos (que podem não passar da rejeição a uma proposta de negócios ou de um insulto ao ego da parte de um inimigo). As diferenças de proporção entre nossas dificuldades e as da vítima do acidente podem parecer obscenas, mas também são (em caráter privado) extremamente úteis. O alcance exagerado da dor suportada por alguém serve para colocar nossos problemas em perspectiva. Passamos a sentir uma nova gratidão por certos privilégios básicos que perdemos de vista quando sentimos inveja ou frustração. Quaisquer que sejam nossas decepções, não acabamos de perder um parente em um acidente de carro, conseguimos evitar um vírus fatal, e nossa casa ainda está de pé. Mergulhar em relatos de infortúnio pode nos ajudar a adotar uma atitude mais construtiva e generosa em relação a nós mesmos e aos outros. Paradoxalmente, a expansão da tolerância e uma dose de esperança podem ser estimuladas por notícias de sofrimento extremo.
3.
OS ACIDENTES MAIS pavorosos têm ao mesmo tempo a função de
redirecionar a atenção. Boa parte do que nos perturba no dia a dia carece de relação com aquilo que, em última análise, confere significado a nossa vida — e, no entanto, esses motivos de estresse absorvem nossas energias com intensidade feroz. Lembretes muito vívidos da mortalidade questionam nossas obsessões banais. Em contraste com nosso limitado tempo de vida, a verdadeira insignificância de certas preocupações ganha ênfase, e nossas tendências narcisistas e frívolas podem ceder diante dos aspectos mais verdadeiros e importantes.
As notícias de acidentes nos obrigam a reconhecer que, se a vida é
assim, tão frágil, se realmente não temos qualquer garantia de ainda dispor de décadas pela frente, não queremos ser um daqueles que passam a tarde discutindo com um ente querido, que se recusam a perdoar um amigo por uma transgressão sem importância ou que negligenciam um talento genuíno em benefício de uma sinecura que só traz infelicidade. A ideia da morte tem o poder de reordenar nossas prioridades, trazendo de volta à tona nossas partes mais valiosas, que tendem a ficar submersas nas lutas do dia a dia. A constatação daquilo que realmente deve ser temido é uma oportunidade de, assustados, passarmos a viver da maneira que sabemos — bem no âmago do nosso ser — que deveríamos.
A ideia de que a consciência da mortalidade deve contribuir para
conferir novo significado à vida é de longa data. Durante séculos, na Europa, os gabinetes de trabalho e os quartos de dormir dos poderosos frequentemente eram decorados com um crânio humano, fosse real ou pintado, em posição de destaque para chamar a atenção e a qualquer momento interromper as elucubrações de quem tramasse uma vingança mesquinha contra um rival ou se preparasse para cometer adultério.
O noticiário nos oferece a oportunidade de usar suas histórias
sombrias como a versão moderna desses crânios. Aliás, seria proveitoso que essas histórias fossem reunidas na categoria “Vanitas”, para não restar dúvida quanto à moral que se deve extrair delas. Deixariam, então, de ser meros registros da dor privada e nos ajudariam a abraçar a tarefa muito mais importante de viver, de acordo com nossos verdadeiros talentos e interesses, aqueles preciosos momentos que por acaso ainda nos restem antes de nosso tempo acabar devido à queda de um galho de árvore.
39. Philippe de Champaigne, Vanitas, c. 1663.
QUEDA DE GALHO DE ÁRVORE MATA MULHER NA HORA
Erena Wilson, gerente de contabilidade neozelandesa, sofreu “ferimentos fatais
na cabeça” no domingo, ao ser atingida por um galho de cedro-do-líbano arrancado
pela ventania no Jardim Botânico Real de Kew, sudoeste de Londres. Ela passeava
pela popular atração turística com dois amigos quando foi atingida. Os amigos da
vítima, de 31 anos, disseram ter ouvido um forte estalo pouco antes de se darem
conta de que um galho estava caindo. Saíram correndo, mas, ao olhar para trás,
viram a amiga caída no chão. Apesar das tentativas de reanimação dos paramédicos,
a srta. Wilson morreu no local. A família afirmou estar “inconsolável”. Os colegas
lamentaram a perda de uma “estrela”, com um futuro brilhante pela frente. “É
difícil encontrar palavras para expressar como nos sentimos depois do trágico
falecimento de nossa colega e amiga Erena Wilson”, disse Gez Lowry, gerente de
recursos humanos na empresa onde ela trabalhava. ¶
Daily Telegraph
4.
MAS TAMBÉM DEVEMOS ter cuidado para não permitir que os dramas dos
outros tenham um efeito contrário e menos útil sobre nós. Em vez de chamar nossa atenção para prioridades negligenciadas, essas histórias também podem nos distrair das preocupações mais relevantes. As proporções, a vivacidade e o caráter imediato dos desastres no noticiário lhes conferem o poder de abrir caminho até o primeiro plano da nossa consciência, onde se acomodam com insistência, exigindo atualizações a cada dez minutos (as quais o noticiário devidamente nos fornece) e, assim, obscurecendo o chamado das preocupações muito mais discretas, porém mais relevantes, que devemos encarar dentro de nós mesmos. Quando um avião cai no Nepal, podemos reagir, de maneira reflexiva, como um investigador de acidentes aéreos ou um parente em pânico, em vez de lembrar apenas que, na verdade, o fato não nos diz respeito — e seria melhor passarmos o dia olhando para o nosso interior, tentando interpretar as leves pulsações de ansiedade de que a gestão de nós mesmos depende de fato.
Uma vida equilibrada requer uma curiosa combinação de
preocupações interiores e exteriores: precisamos internalizar a mensagem genérica que provém dos acidentes dos outros — ou seja, a de que somos extremamente frágeis e temporários —, sem, contudo, mergulhar tão fundo nos detalhes a ponto de permitir que as calamidades dos estranhos se transformem em desculpas ou meios para fugir às responsabilidades perante nós mesmos. Devemos registrar a tristeza e a dor com que o noticiário tenta nos confrontar a cada momento, mas sem nos fixarmos nelas.
Estamos tão acostumados a associar a condição humana ao simples
ato de sentir que podemos perder de vista que o fato de deixar de sentir pode eventualmente ser uma proeza necessária. Em vista dos limites de nossa capacidade emocional e de concentração, o nível necessário de envolvimento com nós mesmos, bem como com o punhado de pessoas que depende fundamentalmente de nós, muitas vezes implicará uma restrição calculada da simpatia e do interesse pelos outros. Em outras palavras, precisamos ter o devido reconhecimento (de modo algum psicopata em sua natureza) de que não importa o que o noticiário possa indicar e quão urgentes, alarmantes e tocantes seus relatos sejam: os problemas que ele apresenta nem sempre são nossos.
40. INFERNO EM AVIÃO NO NEPAL
Um avião que levava dezenove pessoas para o monte Everest caiu e pegou fogo
nas imediações da capital do Nepal, nessa sexta-feira, matando todas as pessoas a
bordo, entre elas sete britânicos e cinco chineses, de acordo com a polícia. O avião
Sita Air de duas hélices acabara de decolar de Katmandu em direção à cidade de
Lukla quando caiu nas margens de um rio perto do aeroporto da capital, por volta
do amanhecer. Testemunhas disseram ter ouvido gritos dos passageiros e visto
chamas em uma das asas do avião momentos antes de a aeronave atingir o solo, e
autoridades aeroportuárias informaram que o piloto relatara o choque com um
pássaro pouco depois da decolagem. “Ouvíamos as pessoas lá dentro gritando, mas
não podíamos jogar água no avião para apagar o fogo, por medo de que os motores
explodissem”, disse Tulasha Pokharel, dona de casa de 26 anos, uma das primeiras a
chegar ao local. ¶
Agence France-Presse
NATUREZA
Daqui a algumas horas, a região fronteiriça entre Nova York, Nova Jersey e Connecticut
será atingida por uma nevasca recorde, com ventos extremamente fortes. O Serviço
Nacional de Meteorologia emitiu um alerta de nevasca para toda a cidade de Nova York,
Long Island, a região nordeste de Nova Jersey, Connecticut e o sul do condado de
Westchester. O acúmulo de neve deverá oscilar entre cinquenta e sessenta centímetros,
com as maiores quantidades ao norte e a leste da cidade de Nova York. As prateleiras
estão vazias em muitos mercados, pois a população se apressou para estocar suprimentos
básicos antes da chegada de uma supertempestade que pode forçar todos a car dentro
de casa por muitos dias. ¶
CBS News
1.
...Bastante nublado e quente, permanecendo sem chuva na maioria das regiões durante a noite, mas com possibilidade de chuva fraca ou garoa, especialmente a leste...
Em geral, não damos muita atenção ao clima. Ele se comporta mais
ou menos como deveria e portanto fica de fora do noticiário. É até raro olharmos para o alto por muito tempo. Decerto não seguimos o exemplo de John Constable, que, todos os dias, durante certos períodos entre 1821 e 1822, passava horas nas encostas de Hampstead Heath, examinando atentamente as evoluções do céu e produzindo 150 estudos precisos e de beleza sutil, em guache, giz de cera e óleo, representando as formas vaporosas que passavam sobre sua cabeça — em um processo de observação dedicada que chamava de “skying” [firmamentar].
Por outro lado, nossos olhos estão fixos no drama humano aqui
embaixo: quem foi promovido, em que direção podem ir os preços das ações, como se resolveu o impasse orçamentário. O que fica acima de nós na atmosfera é simplificado todos os dias em ícones muito apreciados pelos meteorologistas, os quais, em seu ingênuo reducionismo, estão para as sutilezas do céu mais ou menos como as notícias para as complexidades da vida.
2.
...Neste momento, a tempestade de neve está evoluindo na direção nordeste, ameaçando vinte estados e 160 milhões de pessoas...
Até o dia em que a natureza nos obriga a prestar atenção em uma de
suas calamidades: um tornado, uma enchente, uma nevasca, um tsunami ou outro tipo de apocalipse restrito a um lugar.
No caso dessa tempestade de neve, os meteorologistas mapearam
muito bem o monstro. No Centro Nacional do Clima, um supercomputador Power 7 da IBM, cujo desempenho de processamento pode chegar a um petaflop, mantém o espectro glacial bem à vista, embora a capacidade de prever o que acontecerá não confira aos especialistas qualquer poder para alterar as intenções implacáveis da natureza.
Sete grandes aeroportos foram fechados, e cerca de oito mil voos
foram cancelados ou atrasados. Todas as principais rodovias da região foram fechadas. As aulas, suspensas. Linhas de transmissão caíram.
O governador de Nova Jersey apareceu na televisão, referindo-se à
tempestade como uma “catástrofe iminente”. Mas não foi apenas isso. Ela também teve algumas das qualidades muito próprias e não inteiramente desagradáveis de uma breve guerra vencida por nós mesmos.
41. John Constable, Estudo das nuvens, 1821.
3.
...Moradores de North Canaan, Connecticut, entre eles crianças de colo, ficaram sem energia nas primeiras horas da manhã e tiveram de ser evacuados pelos serviços de emergência para hotéis nas proximidades, onde ainda se encontram...
De certa forma, viver é uma emergência, mas em geral nossas
dificuldades precisam ser ocultadas com primor. As ansiedades vão crescendo dentro de nós, mas, por fora, temos de sorrir e dar respostas animadas às perguntas sobre como nos sentimos. A tempestade põe um fim temporário a essa farsa. Com o vento uivando lá fora, somos autorizados a nos preocupar e, com alívio ainda maior, a voltar nossas preocupações para algo grande, objetivo e (por mais estranho que pareça às equipes encarregadas de tirar a neve das vias) relativamente simples — pois, no fim das contas, é mais fácil cavar, resgatar, salvar e ressuscitar do que enfrentar os desafios daqueles dias mais tranquilos e compassados em que temos de encarar sozinhos a responsabilidade de garantir o sustento, continuar apaixonados, criar crianças mentalmente sãs e não desperdiçar nossa breve vida.
A tempestade também nos ajuda a reconectar com outras pessoas.
Em períodos normais, não podemos presumir o que passa pela cabeça delas, mas agora dispomos de um ponto de conexão e comunhão prontinho com quase todo mundo. Em geral, nossa impressão sobre como são as pessoas, em grande medida induzida pelos boletins de notícias, pode levar à conclusão de que todos devem ser assassinos ou pedófilos, mas, durante a tempestade, dificilmente as coisas nos parecem assim. Na verdade, aqueles que vemos ao redor evidenciam certa tendência a agasalhar cães tremendo de frio, distribuir sopa para os sem-teto e ajudar estranhos a desatolar seus utilitários na neve. Em uma paisagem de quilômetros de brancura polar, o valor de qualquer semelhante ganha destaque. Os critérios de compatibilidade caem ao modesto nível em que talvez devessem permanecer sempre. Exatamente como acontece quando estamos bêbados, temos a sensação de que poderíamos amar qualquer um.
4.
...Algumas das maiores nevascas incidem perto da Floresta Nacional de Allegheny e na região em torno de DuBois e Slippery Rock...
Há certa poesia nos nomes de regiões remotas do país que nunca
visitamos e talvez nem suspeitássemos que existissem. Vêm à lembrança obras de arte naïf representando propriedades rurais distantes, caixas d’água, celeiros pintados — um modo de vida antigo no qual as pessoas lidam com gado e flores, no qual vivem sem pressa. Uma repreensão aos nossos hábitos urbanos ignorantes e excessivamente confiantes do ponto de vista tecnológico.
5.
...As autoridades informam que a nevasca levou ao fechamento total do aeroporto. Mais cedo, as condições climáticas tinham reduzido o tráfego aéreo a uma única pista, mas os técnicos de manutenção encontravam problemas para enxergar uns aos outros em meio à neve.
Está tudo de cabeça para baixo. Aviões que normalmente sobem a
mais de 35 mil pés estão perfilados no aeroporto, imobilizados debaixo de pesadas camadas de neve. Um piloto se exibe tentando desencavar um Airbus A320 com uma pá. A energia cai na sede de uma empresa de seguros, e os empregados, em geral sensatos, saem para fazer bonecos de neve. Após a água congelar no encanamento de um hotel de luxo, os hóspedes trocam o conforto e o isolamento de seus quartos pela socialização nas luzes chapadas de um rinque de patinação.
A natureza nos põe no devido lugar. Somos forçados a nos sentir
pequenos, o que não é algo de que gostemos quando outra pessoa nos mostra isso, mas sermos lembrados da insignificância do nosso ser por algo tão maior que nós mesmos não é humilhante. Nosso ego, exausto com a consciência de cada pequeno insulto e constantemente comparando suas vantagens com as dos outros, pode até ficar aliviado ao, enfim, ser posto no devido lugar por forças tão poderosas e fora do alcance de qualquer ser humano.
Em épocas passadas, seríamos postos no devido lugar pela ameaça do
divino. Os deuses esmagariam nossa arrogância, lembrando-nos com vozes trovejantes do nosso lugar. Em uma era tão secular, contudo, cabe à natureza, e especialmente ao chamado “mau tempo”, assumir esse papel, e cabe ao noticiário espalhar a notícia. São as frentes frias e a pressão atmosférica que nos lembram de que — não obstante nossas máquinas inteligentes e nossa engenhosidade — ainda somos fracos e às vezes precisamos aprender a simplesmente nos render aos acontecimentos. Reclamamos e nos afligimos, mas não temos opção: sucumbimos ao sabá meteorológico forçado.
Ao longo da costa leste, as antenas de telefonia celular não
funcionam; a energia caiu; os caminhões estão paralisados; os supermercados, fechados; a neve cai no Central Park e acrescenta outra camada sobre os pinheiros da floresta Mohawk. É um desastre, uma calamidade, a pior tempestade em uma geração: o noticiário não mente. Mas poderia acrescentar que esse desastre também é uma lição de sabedoria. Nossa sociedade tecnológica, tão certinha e marcada por seu solipsismo constante e competitivo, já fez mal o bastante a todos nós para que não nos importemos tanto assim quando, pelo menos uma vez, ela é um pouco maltratada pela mão incrivelmente indiferente da natureza.
42.
NOTÍCIAS DE SAÚDE
Durante muito tempo, o chá verde e o vinho tinto foram considerados possíveis armas
contra o câncer, e agora novos indícios revelam que componentes de ambos podem
contribuir para o combate ao mal de Alzheimer. Pesquisadores de universidades
constataram que substâncias químicas naturais — o EGCG no chá verde e o resveratrol no
vinho tinto — podem impedir uma etapa decisiva no avanço da doença. Usando extratos
puri cados de EGCG e resveratrol, os pesquisadores interromperam um processo pelo
qual aglomerados nocivos de proteínas se unem a células do cérebro. ¶
CTV News
1.
EMBORA DEDIQUE BOA parte de sua energia a nos informar sobre as
condições horripilantes em que vários indivíduos recentemente chegaram ao fim, na área a que dá o nome de “saúde” o noticiário assume um projeto muito diferente. Ele coleta informações para nos ajudar na tarefa de viver durante muito tempo e quem sabe até para sempre, embora não chegue a ponto de dizê-lo com todas as letras. Apresenta-nos a cientistas permanentemente dedicados a reinventar a existência. Eles estão empenhados em criar robôs microscópicos para viajar por nossas veias; sintetizar medicamentos para regular o humor; mapear os genes; clonar nossos órgãos e membros; e reavaliar a vocação para dar ou tirar a vida dos alimentos e remédios do cotidiano, especialmente o vinho, o azeite de oliva e a aspirina.
2.
VIVER NA MODERNIDADE — uma época contemporânea ao triunfo do
noticiário — é ser lembrado a todo tempo de que, graças à ciência e à tecnologia, a mudança e o aperfeiçoamento são constantes e inexoráveis. Em parte, é por isso que precisamos sempre assistir às notícias: a qualquer momento, podemos ser informados de algum acontecimento extraordinário destinado a alterar a essência da realidade. O tempo é uma flecha fazendo uma trajetória precária, rápida e, ainda assim, irresistivelmente ascendente.
Nas sociedades pré-modernas, por outro lado, as pessoas encaravam
o tempo como uma roda. A vida era inelutavelmente cíclica. As verdades mais importantes eram recorrentes; não se podia evitar nem interromper o ciclo. Ainda que fosse tecnologicamente possível ter acesso regular às notícias, não teria sido muito necessário do ponto de vista psicológico. As sociedades que encaram o tempo como uma roda, não como uma flecha, não sentem a necessidade premente de checar as manchetes a cada quinze minutos.
3.
SOMOS MAIS IMPACIENTES — e otimistas quanto ao futuro. A promessa
subjacente e não dita das notícias sobre saúde é que a ciência pode um dia descobrir a cura para tudo, inclusive a morte.
Poderia ser mais simples se essa pretensão implícita fosse
categoricamente falsa. Porém a realidade é mais complexa. Um dia, quem sabe daqui a 780 anos, revelaremos os mistérios do envelhecimento e das doenças. Só que será tarde demais para você e para mim. No que tem de mais fundamental, nossa vida está fadada a seguir o mesmo ciclo conhecido pelos nossos antepassados.
Apesar do interesse básico pelo macabro, o noticiário se recusa a ser
sombrio ou pessimista ao informar sobre questões relacionadas à “saúde”. Continua tratando as últimas descobertas sobre o vinho tinto, a terapia genética e os benefícios da ingestão de nozes com uma reverência supersticiosa não muito diferente da que podia, em outras épocas, apossar-se de um devoto peregrino católico ao tocar a tíbia de Maria Madalena — ambos agem na esperança de assegurar proteção divina permanente. Em vez de enfrentar sem rodeios a inevitabilidade da decadência, o noticiário prefere explorar as vantagens recém-descobertas de beber suco de toranja e usar meias de algodão apertadas em viagens aéreas de longa distância.
Em meio ao apetite por homicídios e explosões, o noticiário
mantém-se inutilmente melindroso no que diz respeito à mortalidade. Seu pendor para transformar a morte em espetáculo nos dissuade de aceitá-la como uma realidade cotidiana. Somos arrastados do local onde a bomba explodiu para a cena ainda fumegante do desastre aéreo, mas é raro sermos apresentados ao funcionamento diário do coração de um octogenário perdendo a força.
Antes de o noticiário as expulsar de nossa consciência, as religiões
posicionavam a tarefa de nos preparar para a morte no centro de sua missão coletiva. As necessidades e os medos que outrora levávamos aos locais de culto não desapareceram nessa época secular: continuamos atormentados pela ansiedade e por um desejo de conforto em relação à mortalidade. Mas essas emoções não são muito reconhecidas em público — pelo contrário: são deixadas para nos assombrar nas madrugadas, ao passo que, nas partes mais práticas e funcionais do dia, o noticiário continua atraindo nossa atenção com um entusiasmo ensandecido para as recém-descobertas propriedades anticarcinogênicas do mirtilo e de uma colher de chá diária de óleo de nozes.