Notícias: Manual do Usuário

Alain de Botton · Capítulo 5 de 9

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Notícias: Manual do Usuário

Capítulo quatro: Celebridade

capítulo quatro

 

Celebridade

ADMIRAÇÃO

 

Entrevistador: Usain Bolt é, sem dúvida, a pessoa mais rápida do planeta... Ninguém se

compara a ele na corrida. Usain, como isso faz você se sentir?

Bolt: Eu me sinto bem.

Entrevistador: Como você se sente? Quando se ajoelha naqueles blocos de partida e

está a ponto de disparar, o que realmente passa pela sua cabeça?

Bolt: Na verdade, a gente só tenta relaxar. Para mim, é só uma questão de tentar car

calmo, tentar não pensar em nada, porque, quando a gente pensa em alguma coisa,

começa a ter problemas.

Entrevistador: O que é preciso para ser um campeão, não um campeão qualquer, mas

um grande campeão?

Bolt: Bom, é só uma questão de trabalhar duro... Trabalho duro e dedicação.

Entrevistador: O que é que mais o motiva hoje em dia? Vencer? Ser campeão? É o

dinheiro? É a fama? São as mulheres?

Bolt: É tudo.

Entrevistador: Quantas vezes você se apaixonou de verdade na vida? ¶

 

CNN

1.

CONSTANTEMENTE O NOTICIÁRIO nos apresenta a um desfile de homens

e mulheres extraordinários: gente capaz de correr mais depressa que qualquer um, que sabe nos fazer rir, que empreendeu negócios revolucionários, que é capaz de criar refeições suculentas ou que tem um rosto impecavelmente belo. Suas realizações, personalidade e boa aparência são capazes de nos estimular como poucas outras coisas. Em consequência disso, muitas vezes desejamos perguntar a eles como conseguiram, ouvi-los falar da infância, observar o que estão vestindo, descobrir por quem estão apaixonados, dar uma espiada no interior de suas casas, acompanhá-los à praia e até atravessar a rua com eles, quando vão ao mercado.

 

2.

ESSE TIPO DE interesse é quase sempre condenado pelos guardiões da

cultura de elite. Em companhia de pessoas sérias, geralmente não convém revelar grande interesse por notícias sobre celebridades. Em parte, isso vem da convicção, muito comum nas elites, de que celebridades não podem de fato ser consideradas dignas de admiração ou interesse quando sua contribuição à sociedade é posta contra o pano de fundo dos verdadeiros problemas da humanidade. Nos raros casos em que o mérito das realizações de uma figura pública é inquestionável, a posição deles é que devemos focalizar apenas no feito em si (o empreendimento iniciado ou o filme realizado), em vez de nos fixarmos no autor — como não raro tendemos a fazer, e de tal maneira que vivemos obcecados com os menores detalhes da vida dessas pessoas, como quem as acompanhou a uma festa ou a maneira como prenderam os cabelos na praia. O que se subentende nessa posição das elites é que há algo degradante e infantil na necessidade de idolatrar uma pessoa famosa contemporânea, mas que não nos conhece: fica parecendo uma posição passiva e inferior, uma confissão de fraqueza, uma prova de que não estamos envolvidos o bastante com nossos projetos e ambições e que optamos por “escapar” da nossa vida porque não temos a menor ideia de como conduzi-la de forma adequada.

 

27. Emma Watson comprando morangos, Nova York, 2012 (Splash News).

 

3.

ISSO É LAMENTÁVEL — e também problemático, pois, se as pessoas sérias

considerarem que o conceito de celebridade está abaixo delas, a função de sagrar celebridades será entregue a organizações sem quaisquer escrúpulos quando se trata de explorar os apetites mais torpes.

Além disso, se não avaliarmos devidamente o propósito da

celebridade, será difícil identificar o que pode ser sensato esperar das pessoas famosas que vivem entre nós. A admiração pode levar a algo que de fato valha a pena? Existe algo substancial ou importante a se ganhar venerando os outros?

 

4.

INEVITÁVEL, O IMPULSO da admiração é uma característica importante da

nossa psique. Para acabar com ele, não basta ignorá-lo e condená-lo. Isso servirá apenas para varrê-lo para debaixo do tapete, onde ele ficará à espreita, deixado de lado e não totalmente desenvolvido, e, assim, pronto para se projetar a qualquer momento sobre alvos inadequados. Em vez de tentar eliminar nosso amor à celebridade, deveríamos otimizá-lo de forma inteligente e frutífera. Uma sociedade devidamente organizada seria aquela em que as pessoas mais conhecidas fossem as que encarnassem e reforçassem os valores mais elevados, nobres e benéficos, e, portanto, uma sociedade em que o reconhecimento da reverência por determinada celebridade seria uma oportunidade de nos orgulharmos, e não motivo de vergonha ou de uma risada autodepreciativa.

 

5.

EM SUA ERA de ouro, a cidade-estado de Atenas não tinha problemas

com o ato da admiração. Algumas virtudes eram valorizadas. Acreditava-se no governo democrático, no destemor militar, na liberdade intelectual, na glória cívica, na expressão artística e no atletismo. Mas a crença nessas qualidades não era abstrata; voltava-se para uma série de pessoas excepcionais que as realizavam de forma concentrada — e que, em consequência, eram celebradas e festejadas em estátuas, festivais e obras literárias. Estadistas como Péricles e Demóstenes, atletas como o lutador olímpico Filêmon e o corredor de bigas Chabrias, e músicos como Melanípides e Anacrêon eram

considerados guias práticos de uma vida de εὐδαιμονία (eudaimonia), ou “prosperidade”.

 

28. Coragem

Héracles de Mantineia,

c. 460 a.C.

29. Destreza atlética

Atleta anônimo lançando disco,

460-450 a.C.

 

30. Liderança

Péricles , 430 a.C.

 

Em sua história, o catolicismo também glorificou muitos indivíduos

valorosos junto aos fiéis, na expectativa de que o exemplo deles provocasse admiração e emulação: cerca de dez mil santos cujos atos e bom caráter refletem as virtudes cristãs fundamentais da humildade, generosidade, castidade, gentileza, sobriedade, paciência e diligência. Nos compêndios sobre a vida dos santos, como Legenda áurea, um best-seller do fim da Idade Média, tudo que dizia respeito a esses homens e mulheres canonizados era considerado significativo e merecedor de atenção: os alimentos que apreciavam, as roupas que vestiam, quem fazia parte de suas famílias, a cor de seu cabelo. Além disso, não parecia inadequado à cristandade medieval, passado um tempo da morte desses santos, desenterrá-los, dividir seus esqueletos e colocar pedaços dos ossos em capelas e nichos especiais, o que atraía viajantes de grandes distâncias e os convidava e estimulava a contemplar e adorar esses locais em busca de inspiração.

O que está por trás da abordagem cristã e da ateniense no que diz

respeito à celebridade é um compromisso com a ideia do autoaperfeiçoamento, além da convicção de que é por meio de um mergulho na vida dos grandes exemplos da humanidade que temos maiores possibilidades de aprender a nos tornar versões aperfeiçoadas de nós mesmos. O catolicismo recomenda especificamente que, em momentos problemáticos da vida, nos perguntemos o que determinado santo faria em nosso lugar. Em uma briga doméstica, por exemplo, devemos pensar na calma e na natureza indulgente de São Gangulfo da Burgúndia, padroeiro dos casamentos difíceis, ou então, diante de uma humilhação profissional, podemos nos recompor invocando uma imagem da suave e nada paranoica Santa Brígida da Suécia, considerada no país a padroeira dos fracassos.

31. O dedo de Santa Catarina de Siena em um relicário de prata.

 

32. Santo padroeiro dos casamentos difíceis

São Gangulfo da Burgúndia.

33. Santa padroeira dos fracassos

Santa Brígida da Suécia.

 

6.

A ABORDAGEM DA Igreja Católica no que diz respeito a seus santos e a da

antiga Atenas quanto aos oradores e arremessadores de disco nos fornecem pistas importantes sobre a melhor maneira de lidar com a celebridade moderna.

Uma primeira lição é que devíamos nos empenhar em ser mais

claros quanto ao que de fato consideramos interessante nos personagens que admiramos. É raro o noticiário nos oferecer qualquer ajuda nesse sentido, pois ele tende a ignorar as origens mais profundas da curiosidade em relação às celebridades, o que nos impede de usar seus exemplos de maneira adequada. Ele se limita a girar em torno das pessoas famosas com uma espécie de energia maníaca, perguntando-lhes incansavelmente como “se sentiram” em relação a determinada conquista, fazendo perguntas de logística infindáveis e insossas sobre quando começarão as filmagens de sua nova produção ou posicionando paparazzi obstinados por trás de arbustos para capturar suas expressões quando saem da lavanderia. Parecem acreditar que essas táticas possam aplacar a inquietação interior gerada por algo bom que evidentemente detectamos de forma confusa na personalidade de uma celebridade.

Tendo ainda em mente o exemplo dos católicos, deveríamos tentar

identificar as celebridades mais suscetíveis de funcionar como guias para as virtudes que precisamos cultivar em nós mesmos, talvez a coragem, a jovialidade, a sabedoria, a criatividade, a confiança ou o perdão. Dentre as centenas de celebridades a que o noticiário nos apresenta (dos negociadores de paz aos pintores, das estrelas do esporte aos neurocientistas), deveríamos selecionar para nós as pessoas de verdadeiro valor, cujas atitudes e realizações podem nos inspirar a levar uma vida mais bem-sucedida e completa. Sem qualquer intenção sobrenatural ou idealismo infantil, podemos nos fortalecer com o cultivo mental de um vago plantel de “santos padroeiros” seculares, pessoas famosas para as quais podemos voltar o pensamento em busca de estímulo e inspiração nos momentos de esterilidade e desânimo.

Para ajudar nessa tentativa de usar as celebridades de maneira mais

produtiva, deveríamos reconfigurar esse esteio tão terrivelmente equivocado do noticiário: as entrevistas com celebridades. Gênero hoje voltado predominantemente para revelações pessoais e perguntas sem relevância sobre “o novo projeto”, mas que no futuro deveria se tornar uma oportunidade de responder a uma pergunta acima de qualquer outra: “O que podemos aprender com essa pessoa famosa?” Não importa que a celebridade atue em um campo diferente do nosso. As lições são transferíveis e as virtudes podem ser aplicadas a outras atividades. A entrevista ideal com uma celebridade nos ajudaria a responder a perguntas como: “Embora eu não jogue tênis, o que posso aprender com a atitude do jogador que acabou vencendo em Wimbledon apesar de uma marcação de ponto errada por parte do juiz no segundo set?” Ou então: “Embora eu não tenha qualquer ambição artística, como poderia extrair energia para meus planos de carreira do exemplo de um artista multifacetado que domina tantas formas de expressão, da cerâmica à arquitetura?”

Deveríamos parar de tratar as melhores celebridades como aparições

mágicas, que só podem ser alvo de admiração vazia ou curiosidade sorrateira. São seres humanos comuns, que realizaram coisas extraordinárias graças ao trabalho duro e ao pensamento estratégico. Devemos considerá-los casos a serem estudados e dissecados com uma questão fundamental em mente: “O que posso absorver dessa pessoa?” O interesse que temos por detalhes das roupas ou da dieta de celebridades deveria ser canalizado para um projeto de crescimento. No noticiário ideal do futuro, toda história sobre celebridades teria, no fundo, um quê de educativa: um convite para aprender com uma pessoa admirável a melhor maneira de nos tornarmos uma versão um pouco melhor de nós mesmos.

 

7.

ESTAMOS ACOSTUMADOS A pensar que qualquer pessoa que “copie” uma

celebridade é triste e não tem autenticidade, mas, em sua forma mais elevada, a imitação baseada na admiração é parte integrante de uma boa vida. Recusar-se a admirar ou não se interessar pelo que pessoas distintas estão fazendo é se isolar, de maneira exagerada e implausível, de um conhecimento importante. A função do noticiário é manter a seção de celebridades empolgante e, ao mesmo tempo, fornecer retratos psicológicos ricos e pedagógicos de determinados indivíduos voltados para interesses nobres, que ativam nossa imaginação por nos ajudarem a enfrentar as falhas de nossa própria personalidade e desatar os nós de nossas ambições. Em sua versão madura, o noticiário sobre celebridades deveria ser um veículo sério e respeitável através do qual aprendemos a nos tornar mais do que somos.

INVEJA

 

Para um sujeito rico, com um jato particular e um carro esportivo de um milhão de dólares,

Elon Musk é de uma tranquilidade e timidez inusitadas. Ele é alto, tem braços longos, mãos

grandes e um rosto de menino que muitas vezes parece distraído. Dá para perceber que

sua mente nunca para de funcionar. Antes de fundar a SpaceX, em 2002, Musk criou duas

empresas pontocom: a Zip2, que vendeu à Compaq, em 1999, por 307 milhões de dólares

em dinheiro vivo, e o PayPal, que virou uma companhia de capital aberto antes de ser

vendida ao eBay. Musk, o principal acionista, tinha trinta anos. ¶

 

Wired

1.

O FIM DE semana pode ser o momento das notícias mais brandas: os

suplementos coloridos, os blogs sobre tecnologia, design e mídia, as seções de estilo, os perfis e as entrevistas. É então que, mais ou menos depois de uma hora passando os olhos pelos textos, podemos ficar sabendo sobre o chef de 25 anos que administra quatro restaurantes de frutos do mar bem-sucedidos em Lower Manhattan; sobre a marca da moda criada pela filha de um conhecido diretor de cinema; sobre o empreendedor do Vale do Silício que montou uma universidade on-line com 1 bilhão de dólares em capitais de risco do Qatar; sobre o prestigiado artista alemão trabalhando em seu próprio museu, em Berlim; e sobre o antigo banqueiro de Wall Street que vai abrir vinte hotéis “butique” na China — tudo isso em uma manhã que começou com uma sensação de bem-estar, tranquilidade e interesse por questões domésticas, em meio aos raios solares filtrados pela cortina e o canto dos pássaros no jardim lá fora.

 

2.

VIVEMOS EM UMA época sem paralelo com qualquer outra no cultivo da

ideia da oportunidade individual. Durante a maior parte da história, as pessoas viveram e morreram no mesmo degrau da escada social. A profissão dos pais determinava a dos filhos, e não existiam perspectivas de progresso. Os mercados financeiros eram primitivos, e não havia fácil acesso ao capital. As descobertas tecnológicas surgiam a cada duzentos anos, e as mudanças políticas vinham com frequência ainda menor.

Hoje, como evidencia o noticiário com suas constantes histórias de

iniciativa, perseverança, esforço e autorrealização, em tese não há limites para o que qualquer um pode alcançar. Supostamente, tudo é possível para os criativos e tenazes. Neste exato momento, em todos os continentes, os mais inteligentes estão encontrando maneiras engenhosas de arrecadar dinheiro, redigir roteiros, inventar fórmulas e conceber máquinas que alterarão os fundamentos da existência. A resignação satisfeita com uma situação modesta passou a ser vista não só como grave erro, mas possivelmente como indício de doença mental.

Diante das histórias de realização que oferece, o noticiário nos

convida a nos sentirmos satisfeitos e maduros: ficamos tranquilos e felizes com os êxitos do magnata; impressionados com o espírito de iniciativa do empreendedor; pensativos e interessados na fama mundial do artista. As agências de notícias que nos advertem para os efeitos colaterais da iluminação estroboscópica, da nudez ou da linguagem vulgar não veem qualquer necessidade de nos preparar para as consequências potencialmente problemáticas de testemunharmos o sucesso dos outros. Esperam que sejamos gratos pela seleção aleatória de vitoriosos que, nesta semana, como em qualquer outra, se empenharam com tanto afinco em nos apresentar. Sugerem que poderíamos nos sentar à mesa da cozinha em um sábado de manhã e, com boa vontade, absorver informações sobre esses titãs e não registrar quaisquer reflexões particularmente negativas ou perturbadoras, apenas uma confortável sensação de prazer diante da pura genialidade e das infinitas capacidades da espécie humana.

 

3.

NO ENTANTO, BEM lá no fundo, alguns de nós provavelmente estarão

cedendo à pressão da inveja, sentindo a dor de nosso ego tragicamente ignorado e a ponto de ser esquecido em um mundo de possibilidades infinitas. Por baixo de uma superfície impassível, podemos estar sofrendo com o contraste entre as expectativas que nos foram incutidas um dia e a realidade do que fizemos com nossa vida, a diferença entre o que outros de nossa idade (e até alguns muito mais jovens) se revelaram capazes de realizar e as conquistas triviais alcançadas por nossa individualidade hesitante, tímida e sem direção. Embora isso possa gerar alguns momentos de melancolia comovente, até a autopiedade deixa de ser interessante depois de certo ponto.

É claro que o pânico existencial não parecerá a reação mais razoável

diante de uma reportagem cheia de otimismo e fotos maravilhosas intitulada “Os vinte maiores investidores do Vale do Silício”, mas, depois de passar os olhos em uma matéria dessa natureza, podemos chegar perigosamente perto de atirar o suplemento longe, esmurrar a mesa e, em um soluço de angústia, gritar para um mundo que não está nem aí (ou para o cônjuge surpreso que prepara o almoço): “Não aguento mais ser eu mesmo!”

 

4.

O NOTICIÁRIO DEVE nos ajudar com nossos sentimentos, não fingir que é

normal apresentar ao público uma sequência de provas das realizações dos membros mais vitais e inventivos da espécie e ignorar que as pessoas ficarão meio enlouquecidas com isso. Precisa reconhecer que só uma pessoa excepcionalmente sem imaginação reagirá apenas com uma sensação de prazer tranquila e completa ao ler a respeito de alguém de sua idade e sexo que comprou e vendeu empresas, associou-se aos poderosos e atraiu a atenção de milhões de pessoas. Deve ser generoso o bastante para reconhecer que precisamos de ajuda urgente para entender, interpretar e conviver com a inveja que ele provoca com tanta frequência em seus consumidores inocentes e indefesos.

 

5.

EMBORA A INVEJA sempre tenha sido alvo de críticas ferozes e moralistas,

também é uma característica indispensável a uma vida decente. É um chamado à ação que deve ser ouvido, pois contém mensagens distorcidas de partes de nossa personalidade ainda confusas, mas importantes, tentando nos dizer o que devemos fazer com o que resta de nossa vida. Levar a inveja em consideração pode nos ajudar a dar passos dolorosos, mas necessários, para nos tornarmos quem realmente somos.

Portanto, em vez de tentar reprimir a inveja, devemos nos esforçar

para conhecê-la. Toda pessoa que invejamos detém uma peça do quebra-cabeça em que se revela nossa possível condição futura. Um retrato do nosso “verdadeiro eu” esperando para ser montado reside nos sinais de inveja que recebemos quando folheamos uma revista, viramos as páginas do jornal ou ouvimos pelo rádio as últimas notícias sobre a carreira de antigos colegas de escola. Embora no início possamos vivenciar a inveja como algo humilhante e uma confirmação de fracasso, devemos fazer uma pergunta essencial e redentora a respeito daqueles que invejamos: “O que posso aprender com essa pessoa?” É uma pena que as reações de inveja com frequência sejam vagas, confusas e acompanhadas de pânico. Começamos a invejar certos indivíduos em sua totalidade, quando, na verdade, se nos detivermos um momento para analisar a vida deles com calma, poderíamos nos dar conta de que apenas uma pequena parte do que fizeram repercute em nossos passos e deveria orientá-los.

6.

SENTIMOS MAIS INVEJA de uma realização quando sabemos muito pouco

a respeito de como ela foi alcançada. Se as agências de notícias fossem mais caridosas, em vez de apenas apresentar as vitórias dos outros como misteriosos fatos consumados, investiriam energia na análise do que as permitiu. Apresentariam as histórias das pessoas bem-sucedidas sobretudo como estudos de caso que pudéssemos entender e emular, em vez de apenas admirar cegamente ou invejar no mau sentido, como acontece hoje em dia.

 

7.

É CLARO QUE a utilidade da inveja tem seus limites. Em excesso, os

lembretes aleatórios do sucesso de outras pessoas podem simplesmente nos aterrorizar, levando-nos à inatividade e, mesmo sem querer, impedindo-nos de pôr em prática algum plano. Para conseguirmos algo por nós mesmos, precisamos estar livres das pressões psicológicas decorrentes das notícias das proezas de outros. Carecemos de fases de introspecção e calma para levar a cabo algo que de fato valha a pena, algo que um dia possa voltar a inveja de alguém em nossa direção.

O noticiário também deve nos ajudar com lembretes das realidades

estatísticas. Embora os suplementos estejam constantemente cheios de histórias bem-sucedidas, o sucesso em si sempre será bastante anômalo, alcançado apenas por não mais do que alguns milhares entre muitos milhões — detalhe que os editores tomam o cuidado (e são sádicos ao fazê-lo) de manter longe de nossa imaginação.

Em contraste com o que o noticiário dá a entender, a maioria dos

negócios fracassa, a maioria dos filmes não chega a ser realizada, a maioria das carreiras não é brilhante, o rosto e o corpo da maioria não chegam a ser perfeitamente belos, e quase todo mundo fica triste e preocupado boa parte do tempo. Não deveríamos lamentar nossa condição só porque ela não está à altura de referenciais profundamente irreais, nem nos detestar por nossa incapacidade de desafiar certas dificuldades de tirar o fôlego.

Depois de explorar a inveja ao máximo, deveríamos ter uma chance

de nos sentirmos coletivamente confusos com o pouco que conseguimos realizar, em vez de individualmente culpados por isso.

VONTADE DE SER FAMOSO

 

As celebridades mais poderosas do mundo:

70. Dwayne Johnson, US$ 36 milhões

71. Maria Sharapova, US$ 26 milhões

72. Ben Stiller, US$ 33 milhões

73. Khloe Kardashian Odom, US$ 11 milhões

74. Seth MacFarlane, US$ 36 milhões

75. Charlize Theron, US$ 18 milhões

76. Sofía Vergara, US$ 19 milhões

77. Serena Williams, US$ 13 milhões

78. Alec Baldwin, US$ 15 milhões

79. Janet Evanovich, US$ 33 milhões ¶

 

Forbes

1.

POR QUE AS pessoas querem ficar famosas? É muito fácil zombar das

celebridades, mas de onde vem a vontade de ser famoso? Poucas vezes a fama vem fácil ou por acidente, então o que inspira os enormes sacrifícios exigidos por ela?

 

2.

NO CERNE DO desejo de ser famoso está uma aspiração tocante,

vulnerável e simples: o desejo de ser bem tratado. Não importa o ímpeto secundário proporcionado pelo apetite de dinheiro, luxo, sexo ou poder; na verdade, o que move a vontade de ser famoso é o desejo por respeito.

Se isso não parece ser bem o poderoso combustível necessário para

impulsionar os esforços de uma vida inteira exigidos para se tornar e permanecer famoso, nunca devemos subestimar o estímulo negativo representado pelo contrário da fama, a humilhação. Podemos passar a desejar a fama desesperadamente por perceber como é intensa a dor de ser ignorado, tratado com condescendência, relegado a um canto, empurrado para o fim da fila, considerado um ninguém ou convidado a voltar a telefonar dali a algumas semanas. O desejo de ser famoso é uma tentativa de fazer com que nossa dignidade seja respeitada em um mundo em que quase certamente não o será, a menos que estejamos preparados para recorrer a medidas extremas. Podemos ser iguais perante a lei e as urnas, mas não há garantia de dignidade no tratamento que recebemos no escritório, na vida social ou nas burocracias governamental ou comercial. Sobretudo nas grandes cidades, esses polos de brutalidade em relação ao que é comum, onde a vida não sofre a mediação da influência benéfica de céus infinitos e horizontes a perder de vista, o respeito é um bem escasso e estritamente racionado, e a indiferença é a norma. Não se recomenda pôr os pés em Manhattan ou em Los Angeles sem ter preparado uma resposta bem incisiva e impressionante para a inevitável pergunta: “Você trabalha em quê?”

 

3.

A FAMA PERMITE às celebridades obter gentileza e respeito dos outros.

Um nome famoso pode conseguir em um instante o que seu portador talvez levasse anos implorando com toda a personalidade. Isso poupa muito tempo.

As outras pessoas precisam ser gentis com os famosos porque eles

representam emanações do mundo inteiro, da opinião de milhões de seguidores. A fama é o poder escorado por um exército invisível de admiradores. Recusar-se a rir da piada de uma celebridade ou manifestar ceticismo quanto a seu talento é enfrentar não apenas um indivíduo, mas todo o sistema que o ungiu: os julgadores inteligentes que lhe deram o prêmio, as legiões de pessoas que compraram seu álbum, as respeitáveis revistas que a estamparam na capa, todos parte de uma força invisível, mas muito eficaz, que a pessoa famosa pode mobilizar sempre que encontra alguém em uma festa ou é atendida por um funcionário em um balcão. A fama repele quaisquer tendências à mesquinhez oportunista e livra a pessoa famosa de ficar à mercê de estranhos.

4.

MAS NEM TODO mundo precisa tanto da fama. O apetite por ela tende a

depender da infância que se teve e do tipo de sociedade em que se vive.

Nos primeiros anos da pessoa famosa arquetípica, existe — quase

inevitavelmente — rejeição. Sem ela, não pode haver um anseio constante pela fama. Um dos pais terá sido indiferente, emocionalmente distante, mais preocupado com outro irmão — ou terá morrido. Nos casos mais desesperadores, nos quais a fama se torna sem dúvida uma obsessão, o pai ou a mãe deixou de dar atenção ao filho porque estava envolvido(a) na tentativa de se tornar famoso ou se associar a quem já fosse.

Entre as idades de zero e dez anos, quando a atenção e a gentileza

eram mais importantes, quando essas pessoas ainda eram indefesas e fracas, quando não dispunham de ferramentas sofisticadas além de sua simples existência para atrair o amor dos outros, os famosos ainda em estado embrionário não eram capazes de convencer seus tão necessários genitores de que eram importantes. Eles sofreram um desprezo catastrófico o bastante para moldar a trajetória de uma vida inteira. Quanto mais a pessoa for levada a se sentir invisível, mais precisará ser especial e onipresente quando crescer.

Infelizmente, claro, tornar-se famoso quase nunca permite consertar

o desprezo de outras épocas, pois o verdadeiro desejo não é impressionar pelas realizações (cantar, esculpir, fazer negócios, e assim por diante), mas ser amado apenas por existir. Assim, é provável que o momento de alcançar a fama seja acompanhado por sentimentos de vazio, pois não corrige a humilhação que iniciou o desejo original de ser famoso. O comportamento autodestrutivo tantas vezes visto nas celebridades é uma articulação confusa da raiva por uma vitória que tem um custo tão alto que não compensa ter sido conquistada. O desejo de destruir uma adulação de muitos que não bastou para compensar o desprezo de uns poucos em um momento fundamental.

Por outro lado, o adulto anônimo feliz, que não precisa ser aclamado

e se satisfaz com um emprego modesto, é a verdadeira pessoa privilegiada nesse contexto, pois pôde se deleitar com uma das maiores dádivas ao alcance dos seres humanos: o sentimento de ter sido central no afeto e no cuidado de um genitor. Uma década de amor dos pais pode dotar alguém de força suficiente para enfrentar cinquenta anos de insignificância. A única infância que de fato merece o epíteto “privilegiada” é aquela em que se atendem as necessidades emocionais da criança.

Essa análise tem a vantagem colateral de nos proporcionar um teste

decisivo quanto à qualidade de nossos cuidados no papel de pais: basta perguntarmos aos filhos se eles têm vontade de ser famosos.

 

5.

A INTENSIDADE DO desejo de ser famoso também depende da natureza

da sociedade em que se vive. Quanto mais a dignidade e a bondade forem proporcionadas apenas a poucos, mais forte será a necessidade de evitar ser apenas normal. Aqueles que culpam a imoralidade da juventude pelo “culto às celebridades” não estão entendendo a situação. A verdadeira causa desse comportamento não é o vazio narcisista, mas um déficit de bondade. Uma sociedade em que todo mundo quer ser famoso também é uma sociedade em que, por uma série de motivos basicamente políticos (no sentido amplo), ser comum não é capaz de proporcionar o respeito necessário para satisfazer as pessoas em seu apetite natural por dignidade.

Ao notarmos que o mundo moderno se mostra obcecado com as

celebridades, percebemos que estamos vivendo uma época não tanto superficial, mas cruel. A fama tornou-se um meio para alcançar um fim, o caminho mais direto para um tipo de respeito que, em outra conjuntura, poderia ser conquistado de formas menos dependentes do renome e do reconhecimento. Pela bondade, não pelas capas de revistas.

Se quisermos diminuir o anseio pela fama, não devemos começar

torcendo o nariz para o noticiário sobre celebridades ou tentando censurá-lo. Temos de começar a imaginar modos de tornar a bondade, a paciência e a atenção mais disponíveis, especialmente para os jovens.

OS MALES DA FAMA

 

O Superior Tribunal de Londres acaba de decidir que uma coluna satirizando Elton John

não constituiu ato de difamação. O cantor e compositor alegava que o artigo publicado no

Guardian zombava de suas obras de caridade. Segundo ele, o artigo chegava inclusive a

fazer piada com eventos importantes, como o Baile da Gravata Branca, dizendo que ele só

o organizara para se promover e encontrar celebridades, e não para arrecadar fundos (...)

Elton John considerou que o artigo assumia “um tom gratuitamente ofensivo, maldoso e

sarcástico”. No entanto, o juiz discordou: “Um leitor sensato da seção Weekend do

Guardian não pode interpretar que o texto objeto de queixa contenha a grave alegação

apresentada.” Elton John queria indenização e um pedido de desculpas. Em nota, a

Guardian News & Media declarou: “Lamentamos que Elton John tenha perdido o senso

de humor ao ler o artigo (...) Em nosso país, os jornais publicam sátiras desde o século

XVII. A sentença é um importante reconhecimento do direito de, eventualmente, nos

divertirmos com um pouco de zombaria.” ¶

 

Perezhilton.com

1.

AQUELES QUE PRETENDEM ficar famosos sonham em se assegurar de um

tipo especial de atenção: a atenção de alto nível, e com isso imaginam um público receptivo a seu talento e complacente com seus defeitos, um público semelhante a um genitor amoroso, um professor ideal ou um Deus onisciente e generoso.

Então, uma vez famosos, se dão conta de que viraram alvo do tipo

mais desconcertante de atenção: aquela em que um amor intenso é seguido de ódio súbito; em que seus lapsos mais insignificantes são tratados com intolerância; em que as fraquezas são exploradas e jamais perdoadas; em que um interesse lascivo envolve questões que não têm a menor relação com o talento que, a princípio, atraiu para eles a atenção da opinião pública; em que os jornalistas já começam com seu besteirol de manhã bem cedo, e fotos embaraçosas aparecem on-line, ridicularizando-o diante de milhões de pessoas rapidamente. Caso se queixem desse tipo de atenção, que pode ser chamada de atenção de baixo nível, são logo postos no devido lugar e informados, com alguma declaração hipócrita, de que alguém que corteja a atenção não pode escolher qual tipo receberá, devendo estar preparado para qualquer forma dela e até para fazer por merecê-la.

 

2.

AS CELEBRIDADES SÃO tão raras e privilegiadas que é preciso algum

esforço para lembrarmos que não constituem uma espécie diferente, que, na verdade, são semelhantes a nós em determinada área: ficam magoadas com grande facilidade.

A necessidade exagerada de aprovação que primeiro as levou a

buscar a fama torna-as especialmente despreparadas para enfrentar o sarcasmo e a difamação com que decerto haverão de se deparar quando tiverem renome. Serão obrigadas a entender que sua reputação não pertence apenas a elas, mas é uma cocriação com seu público, sobre o qual exercem um controle incrivelmente indireto e imperfeito. Tentar conduzir uma reputação é mais ou menos tão inútil quanto tentar direcionar uma bolha de sabão. Ao verem os insultos, essas pessoas pensam, apavoradas, que todo mundo terá lido o artigo venenoso e visto as fotos embaraçosas, acreditando sempre na pior versão dos fatos. Quando isso acontece, os medos que as celebridades nutrem a respeito de si próprias e que as levaram a lutar pela fama revelam-se reais: elas são mesmo os monstros que tentaram convencer a si — e ao mundo — que não eram.

 

3.

ÀS VEZES, UMA atitude de desafio heroico é recomendável nesse

momento. Aconselha-se a celebridade magoada a ser a porta-estandarte do próprio significado e a ignorar o que o mundo está dizendo. Mas como alguém poderia ficar famoso sem uma inclinação a se importar um pouco demais com o que os outros pensam?

Uma tática melhor seria entrar na mente do inimigo. A pessoa

famosa pode achar que os críticos são motivados exclusivamente por um ódio obsessivo e sem limites e que fizeram suas deduções dilacerantes com base em convicções inabaláveis. Mas, na verdade, em geral seus adversários são apenas imprudentes, indiferentes, acostumados a padrões baixos e habituados a fazer o que os outros fazem. Seu sarcasmo decorre basicamente do fato de ser pouco plausível que a pessoa de quem estão zombando esteja de fato ouvindo e de haver qualquer chance de que ela seja vulnerável. Assim como acontece quando se joga uma bomba a partir de uma grande altitude, a capacidade de ferir os outros aumenta muito quando não é necessário olhar a vítima nos olhos.

 

4.

OS MOTIVOS PELOS quais precisamos que os outros fracassem e nos

deleitamos com fofocas sobre seus deslizes são, no fim das contas, profundamente tristes: ficamos furiosos com nossa falta de atenção e, assim, tentamos nos destacar punindo aqueles que aparentemente nos privaram do que é nosso. As ambições frustradas nos transformam em fracassados, em pessoas que precisam que os outros fracassem.

A necessidade de fofocar e o desejo de ser famoso decorrem da

mesma doença: ambos surgem da falta de atenção. Na verdade, as celebridades estão apenas tentando — embora em um palco e em uma escala muito mais amplos — resolver o mesmo problema com que todos nos deparamos: o de ser ignorados. Pode-se até dizer que as pessoas famosas estão para a falta de atenção exatamente como os destemidos pioneiros da aviação para as viagens aéreas. Embora muitos desses primeiros pilotos morressem em quedas e explosões violentas, o objetivo supremo era que um dia todo mundo pudesse voar em segurança, assim como a expectativa na arena da fama é de que a dignidade um dia se torne mais comum, e o respeito, que hoje ainda é privilégio de poucos, venha um dia a ser devida e democraticamente disseminado.

Ainda estamos tentando entender o que a palavra democracia de fato

significa. Inicialmente, ela refletia a convicção de que o poder não deve ficar nas mãos de poucos. Precisou-se de muito tempo, um grande esforço de sensibilização e articulação política para que essa ideia se espalhasse e as elites reconhecessem que não ter direito a voto merecia estar entre os males muito concretos que um governante pode infligir a seu povo. Agora, precisamos levar o processo democrático adiante e aceitar que temos outras necessidades não menos urgentes ou importantes que o voto, entre as quais é preciso incluir o direito à dignidade e ao respeito. Devemos nos sensibilizar para as enormes repercussões psicológicas que surgem quando se é intimidado e humilhado. Uma sociedade que constantemente desvaloriza a maioria de seus integrantes será acometida de um forte desejo de ser famoso, misturado com explosões dos ataques mais sarcásticos, vingativos e esquizofrênicos contra os poucos que conseguiram renome.

A solução, tanto para a fofoca perversa quanto para a vontade

excessiva de ser famoso, se encontra em uma manobra praticamente inconcebível na organização atual da sociedade: distribuição mais ampla de atenção de alto nível. Com maior acesso a ela, as necessidades obsessivas de insultar os privilegiados e de se destacar da multidão acabariam cedendo, em benefício de todos.