Notícias: Manual do Usuário
Capítulo três: Economia
capítulo três
Economia
M2 E UTOPIA
O M2 da Coreia do Sul, uma medida apurada da oferta de moeda do país, aumentou 4,6%
no ano, chegando a 1.827,3 trilhão de wons em outubro, o que representou recuo em
relação aos 5,2% de ganho anual em setembro, segundo o Banco da Coreia (BOK). O M2
do país aumentou 0,2% em outubro em relação ao mês anterior, em comparação com o
0,1% de ganho mensal em setembro. O somatório de liquidez da Coreia do Sul, a medida
mais abrangente da oferta de moeda, aumentou 7,8% em outubro em relação ao mesmo
mês do ano anterior, uma queda em comparação com o ganho anual de 8,9% em
setembro, acrescentou o BOK. ¶
Yonhap News, Coreia
1.
EM SEU ESTADO de espírito mais sério, o noticiário procura nos explicar
o mundo, o que significa tentar abrir caminho por entre os dramas, a hipérbole e o alarido de cada novo dia com o objetivo de direcionar nossa atenção para o punhado de acontecimentos que têm chance de realmente importar. São muitas as coisas que podemos considerar interessantes (um casal pulou da ponte Golden Gate; incêndios proliferam em várias partes da Tasmânia; um industrial mexicano matou um rival a tiros), mas o que de fato merece nossa atenção no noticiário?
Somos herdeiros da ideia, endossada tanto pela direita quanto pela
esquerda do espectro político, de que a realidade mais fundamental das nações é sua condição financeira — e de que, portanto, as informações econômicas devem ser consideradas a faceta mais importante da produção de notícias.
2.
NOS VEÍCULOS MAIS ambiciosos, nossos olhos são a todo tempo
orientados para uma série de indicadores econômicos, como a oferta de moeda (M1, M2, MZM), as reservas do banco central, as encomendas da indústria, o índice de preços ao consumidor (IPC), os alvarás de construção, as demandas de emprego, o déficit, a dívida nacional e, sobretudo, o PIB.
No entanto, os números podem confundir. Avaliar uma nação
baseando-se em seus dados econômicos é mais ou menos como se avaliar pelos resultados de um exame de sangue, no qual os indicadores tradicionais de personalidade e caráter são deixados de lado, e fica bem claro que, no fundo, naquilo que realmente importa, nos resumimos a um nível de creatinina de 3,2, uma lactato desidrogenase de 927, um leucócito (por campo) de 2 e uma proteína C-reativa de 2,42.
Assim como o sangue para o homem, o dinheiro representa para o
Estado o meio vital, em constante circulação, no qual alguns dos mais reveladores dados a respeito do futuro surgem em formas codificadas. Colher amostras nesse terreno é a missão dos grandes laboratórios financeiros do governo: o Escritório Nacional de Estatísticas na Grã-Bretanha, o Departamento de Comércio nos Estados Unidos, o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos na França e o Departamento Nacional de Estatística na Coreia do Sul. A cada semana, seus estatísticos realizam levantamentos com todo tipo de informação relacionada à economia. Só no Reino Unido, coletam dados de seis mil empresas do setor manufatureiro, 25 mil companhias prestadoras de serviços, cinco mil varejistas, dez mil empreiteiras da construção civil e quatro mil projetos do governo nas áreas de agricultura, energia, saúde e educação. Contando com a ajuda de computadores gigantes para processar a colheita de informações, os estatísticos publicam constatações muito condensadas, mas profundamente significativas. Os dados relativos ao PIB, por exemplo, podem nos informar que o valor financeiro de todo o trabalho efetuado no país no último trimestre aumentou 1,1% ou (Deus nos livre) caiu 0,5%. São números por trás dos quais existem dezenas de milhares de reuniões, ansiedades, dilemas, maquinações, discussões de diretoria, corridas para pegar o metrô nas primeiras horas da manhã, demissões, iniciativas, lançamentos e decepções, tudo canalizado e confinado em apenas dois algarismos.
No fundo, tudo que vemos por aí (as árvores, nosso cônjuge, o escritório) não passa disto.
A destilação é conhecida de outras áreas da ciência — categoria a
que a economia aspira. Também na química, somos convidados a examinar por trás da confusão da realidade física para descobrir os meros 118 elementos subjacentes à matéria, que podem, com uma elegância quase artística, ser classificados em colunas de tabela periódica de acordo com as propriedades químicas, os números atômicos e as configurações de elétrons.
3.
OS DADOS ECONÔMICOS podem comprometer a noção de escala em que
temos o hábito de nos basear para fazer com que nossa vida pareça significativa ou promissora. Nosso senso de propósito pode ser esmagado pelas dimensões inimagináveis nas quais a economia revela que existimos: um sistema em que o PIB mundial fica na casa dos 70 trilhões de dólares, o mercado global de ações vale 100 trilhões de dólares, e o mercado de derivativos, 791 trilhões de dólares, a dívida mundial é avaliada em 50 trilhões de dólares, a dívida da União Europeia, em 17 trilhões de dólares, e a dos Estados Unidos, em 16 trilhões de dólares (gastando-se um dólar por segundo, seriam necessários 31 mil anos para esgotar uma verba de 1 trilhão de dólares). Nesse sistema, um bilhão de pessoas vivem na pobreza, enquanto uma elite composta dos 2% mais ricos detém mais da metade de toda a riqueza. Esses dados têm algo do caráter estonteante das estatísticas da astronomia, quando nos dizem, por exemplo, que a Via Láctea abriga quatrocentos bilhões de estrelas, ou que seriam necessários 93 bilhões de anos-luz para atravessar o universo. Nossa mente não está preparada para contemplar nosso modo de vida em tais perspectivas. Contrapostas a um panorama assim, as aspirações que temos se tornam risíveis, senão absurdas. Nós nos sentimos ainda mais humildes e apáticos diante dessa sensação de profunda insignificância.
4.
NÃO É APENAS a escala da máquina econômica que tem a capacidade de
nos calar, mas também sua complexidade. Somente um percentual minúsculo das populações das economias desenvolvidas tem de fato alguma compreensão sólida do funcionamento do sistema econômico em que está inserida. A maioria de nós sempre terá de se esforçar bastante para entender o significado de termos e expressões como arbitragem, Basileia 1 e 2, orçamentos correntes ciclicamente ajustados, relação preço/rentabilidade ou quantitative easing. Acompanhando os acontecimentos do universo financeiro pelo noticiário, podemos nos perguntar, e não seria a primeira vez: “Qual é a taxa de crescimento do dinheiro?”; “Como funcionam os fundos de hedge?”; “O que realmente é determinado pela taxa LIBOR?”; “O que é liquidez?”; “Como funcionam as metas de inflação?”; e “Como pode um governo ‘fabricar dinheiro’ e quais são as consequências a longo prazo?”.
Os amáveis comentaristas que volta e meia são convocados pelas
empresas de notícias para nos ajudar com esse sentimento de confusão certamente dão o melhor de si para explicar. No entanto, talvez porque os conceitos que nos deixam tontos carecem de qualquer ligação com a vida cotidiana, essas explicações nos escapam poucas horas depois de apresentadas.
Se quisermos de fato resolver a situação e nos educar a respeito dos
detalhes, precisaremos ter nervos de aço. Veja, por exemplo, a lógica por trás da equação do câmbio, conceito situado nas colinas mais suaves da ciência econômica, mas que nos convida a contemplar um panorama em que:
e no qual:
p a e q são respectivamente preço e quantidade da i transação
i i
p T é um vetor linha de p
i
q é um vetor coluna de qi
A esta altura, a maioria de nós já está doida para sair correndo, quem
sabe de volta à trágica notícia do casal que pulou da Golden Gate.
Em certas circunstâncias, podemos sentir uma sensação quase
agradável de pequenez diante da majestade e da complexidade da economia. Às vezes, os teólogos falam do sentimento de espanto que pode nos dominar quando o minúsculo ego humano se defronta com a presença divina e vivencia o que em latim é chamado de mysterium tremendum, o mistério da divindade. Talvez haja momentos equivalentes ao mysterium tremendum quando a mente se depara com um gráfico de dispersão:
Grá co de dispersão.
5.
EMBORA ÀS VEZES possamos ceder de bom grado ante a inteligência
superior da economia, em outros momentos talvez seja difícil reprimir certas perguntas rebeldes ao contemplarmos os arranjos econômicos do planeta que chegam pelo noticiário.
Acordados à noite na cama, por exemplo, alguns de nós podem se
perguntar, de maneira inarticulada, mas sincera, por que o mundo construído pelo capitalismo não é (e aqui um certo sentimentalismo é intencional) mais bonzinho. Por que ainda existe tanto sofrimento por aí? Por que uns têm tanto, e outros, tão pouco? Por que a maioria dos empregos é de trabalhos realizados mecanicamente? Por que não pode haver mais segurança e lazer? Por que a ansiedade e o medo persistem quase que em toda parte? Será que não estamos destruindo o planeta sem motivos ou recompensas concretos? (A esta altura, já pode ser muito tarde, e só alguns poucos teimosos continuarão a insistir.) Não poderíamos recomeçar de alguma forma, rearrumar as coisas, quem sabe promulgar algumas leis e experimentar ideias novas e ousadas para criar um mundo mais livre, menos ansioso e mais feliz?
6.
SABEMOS MUITO BEM que essas perguntas não são realmente sérias. É o
tipo de coisa sobre a qual adolescentes de catorze anos escrevem poemas ou discutem com os pais. Pela manhã, trataremos de descartá-las com firmeza. Elas não fazem parte da narrativa-padrão da economia no noticiário. Somos capazes de empalidecer só de pensar no que qualquer pessoa com a inteligência e a sensibilidade necessárias poderia fazer com elas — por exemplo, alguém como o presidente do Federal Reserve (FED, o Banco Central dos Estados Unidos), o economista mais poderoso da atualidade.
Se nossas perguntas parecem ingênuas, é porque associamos
maturidade a uma fria aceitação de muitas coisas dolorosas, mas necessárias para o funcionamento da vida econômica, ao passo que nossas especulações ficam parecendo devaneios de um sonhador utópico, sonhos alheios à realidade. A vida adulta requer uma aceitação definitiva do sepultamento de muitas de nossas esperanças. As correntes centrais da economia exaltam esse processo de crescimento e o masoquismo que ele exige. É basicamente uma história de dor, que nos ensina muitas razões complicadas, mas sólidas, por que tantas coisas boas não são possíveis: por que não podemos agitar uma varinha mágica e enriquecer os países pobres; por que a competição e, portanto, a ansiedade são necessárias em uma economia de mercado; por que a segurança total no emprego deixa as pessoas indolentes; por que um país precisa recompensar os vitoriosos e punir os perdedores; por que os ricos não podem ser obrigados a pagar impostos proporcionais; por que não podemos viver com mais simplicidade, porém com dignidade; por que os governos não podem limitar o livre mercado em nome de valores mais elevados; por que os bens de consumo inúteis são parte indispensável de uma economia robusta; por que é bom para o crescimento que a partilha e a reciclagem dos bens não sejam generalizadas; e por que não podemos nos dar ao luxo de ter uma preocupação excessiva de tornar o mundo belo e limpo.
7.
FICAMOS COM A seguinte situação: por um lado, temos uma pauta de
notícias dominada por relatos sobre o funcionamento de uma ciência social muito complicada, que enfrenta problemas de escala quase cósmica e de dificuldade incompreensível, sobre o qual, de tempos em tempos, alguém comenta com pessimismo e resignação. E, por outro lado, há uma série de anseios ardorosos, mal articulados e ingênuos, mas poderosos, que são encobertos com muito cuidado e passam despercebidos por receio de sacrificar certas pretensões de decoro e de seriedade próprias do mundo adulto.
8.
EVENTUALMENTE, AS TENSÕES se tornam excessivas, e ocorrem
explosões. Um grupo de pessoas declara que não aguenta mais, pinta algumas faixas e cartazes, compra megafones e toma posição diante do Banco Central, de uma filial da cadeia de lanchonete ou da sede da empresa petrolífera. Semanas depois, passados alguns momentos de exuberância e confrontos com a polícia, o acampamento é desmontado, e o noticiário segue em frente.
Essas explosões são comprometidas por uma ingenuidade fatal: um
amontoado das melhores intenções possíveis para resolver uma situação problemática. Algo que é associado à total falta de conhecimento efetivo e fundamentado das causas primárias. Uma queixa que poderia ocasionar um debate político complexo acaba gerando apenas um grito primitivo.
9.
EM PARTE, O noticiário é culpado por essa indignação incoerente. É ele
que ajuda a incitar um público incapaz de entender sua própria condição, que se sente perdido diante dela e que é nutrido de análises econômicas que sufocam habilmente quaisquer considerações mais ambiciosas sobre as possibilidades de criar um mundo mais justo.
23. Movimento Occupy Wall Street, Nova York, setembro de 2011.
[Eu amo a humanidade! Vamos resolver essa merda juntos!]
De forma muito acertada, os manifestantes reconhecem que existem
coisas erradas no sistema econômico, mas acham difícil identificar os elementos específicos dessas dificuldades. Seria preciso haver um período intensivo de estudo e questionamento bem orientados da mecânica da máquina financeira — além de mexer um pouco nas alternativas realistas para sua reforma. E é fascinante a variedade de alternativas sensatas à disposição — das quais não ouvimos falar muito no noticiário, e não por acaso.
De maneira geral, as organizações jornalísticas não parecem
inclinadas a fornecer uma educação econômica adequada e com uma dimensão política forte, seja por estarem desorientadas e mergulhadas na confusão, seja por se beneficiarem do status quo.
Não é vocação do noticiário, nem está a seu alcance, resolver
sozinho as charadas econômicas. Seu poder é mais secundário, porém não deixa de ser considerável: as agências de notícias têm a capacidade de definir a pauta, voltando a atenção do público para as questões que consideram importantes e podendo, assim, dotar governos e corporações de um eleitorado e uma clientela interessada e bem informada.
No momento, as principais organizações jornalísticas tratam
basicamente de acompanhar as atividades do dia a dia no establishment econômico. Relatam o que está acontecendo, mas sem convicção alguma do que poderia ou deveria estar acontecendo no lugar. Se o noticiário determina uma pauta, ela é limitada: resolver se cabe ou não intervir para estimular o mercado de trabalho, entrar para a união monetária (ou deixá-la), manter controle estrito da inflação ou assumir uma posição menos vigilante. O “debate” econômico, tal como visto pelas lentes do noticiário, não se afasta de demarcações hermeticamente definidas, que restringem, ao mesmo tempo, as expectativas do público e seu entendimento do que poderia ser possível. Basta que alguém se afaste da pauta (com uma pergunta sobre a necessidade de reexaminar o que é ou deveria ser um acionista, por exemplo, ou questionando pressupostos a respeito do crescimento e do bem-estar) para que logo acabe em território considerado “radical” e, portanto, ridículo — muito embora grande parte do que hoje damos por certo (salário mínimo, proteção à infância, legislação ambiental) tenha parecido, no início, absolutamente radical, senão insano, para a opinião “sensata”.
Um serviço de notícias perfeito analisaria os acontecimentos da
atualidade sem deixar de transmitir uma noção clara dos princípios econômicos que no contexto ideal deveriam ser subjacentes à sociedade. Seria pautado por um senso teleológico, tendo em mente uma utopia econômica, uma comunidade ao mesmo tempo próspera e civilizada, voltada tanto para o dinheiro quanto para suas finalidades: realização, justiça, generosidade, beleza e bondade. Seria doutrinário apenas a respeito dos objetivos, mantendo-se empiricamente flexível quanto aos meios para alcançá-los — ao contrário das análises polarizadas de esquerda e direita, que se tornam rígidas e cansativas por sua reiteração evidente de meios previsíveis.
10.
MESMO PERSISTINDO NA rotineira análise de derivativos, de coeficientes
de rentabilidade e da situação do M2, o noticiário econômico não deve esquecer sua principal responsabilidade na busca de um mundo capaz de promover vidas ativas menos ansiosas e desastrosas, mais seguras e significativas.
Essa pauta, por mais excêntrica que pareça no contexto da economia
clássica, é significativa demais, nesse momento da história, para ser comentada apenas em caráter privado, no meio da noite, ou berrada a plenos pulmões em um megafone, segundos antes de uma investida da polícia.
NOTICIÁRIO DE INVESTIMENTOS
A Procter & Gamble Co. (P&G), maior empresa mundial de produtos de consumo, está
fechando centros de pesquisa de tratamentos capilares no Reino Unido e no Japão. As
operações em Kobe, Japão, serão transferidas para Cingapura, e o funcionamento das
instalações em Egham, Inglaterra, para os Estados Unidos. A unidade do Reino Unido se
especializou em produtos de modelagem e estilização, e a do Japão, em condicionadores.
A P&G também mantém um centro de pesquisa para xampus em Cincinnati e instalações
de produtos de tintura na Alemanha. Suas ações subiram 0,7% no fechamento em Nova
York, chegando a 69,82 dólares. ¶
Bloomberg News
1.
MUITAS DAS ORGANIZAÇÕES jornalísticas mais ricas do mundo passam a
maior parte do tempo produzindo matérias sobre o que ocorre em determinadas empresas. Elas acompanham acontecimentos nos setores automotivo, de aviação, energético, de saúde, de consumo, de comunicações e tecnologia, mantendo a atenção voltada para as exigências de um público específico: investidores que precisam de dados imediatos e exatos sobre o andamento comercial dos negócios, para ajudá-los a decidir para onde e de que maneira deverão encaminhar seus ativos e, assim, aumentar a própria riqueza.
Durante a história, a evolução dos meios modernos de divulgação de
notícias esteve muito vinculada à necessidade de informações de mercado por parte dos bancos, das empresas de corretagem e das casas de comércio. Os cabos transoceânicos lançados entre o Reino Unido e os Estados Unidos nos meados do século XIX foram financiados em conjunto por financistas e empresas de notícias (a Reuters, por exemplo). Na época, as notícias que transitavam por esses cabos nas profundezas das águas glaciais do Atlântico levavam respostas a perguntas como: “A demanda de guano está aumentando ou diminuindo?”; “Qual será o impacto no mercado do algodão caso haja uma greve de tecelões de seda em Lyon?”; “Que rendimentos poderiam crescer com a cobrança de uma taxa sobre o malte?”; e “O que aconteceria com os preços do milho se as restrições à importação fossem suspensas?”.
Essa ênfase no “noticiário para o investidor” ainda persiste. Até as
principais agências de notícias reservam um espaço proeminente para os últimos números das principais bolsas de valores do mundo, assim como atualizações em tempo real sobre a melhora ou piora da situação de centenas de milhares de corporações pouco conhecidas mas, com toda evidência, grandes e importantes, que sustentam nossa vida de modo invisível. Elas vão da Molycorp Inc. (metais raros) à Sphere Drake Holdings Ltd. (seguro de bens comerciais).
Ações e Índices
Índices Pontos Variação
FTSE 100 6081,95 +17,37
Dow Jones 13384,29 -50,92
Nasdaq 3098,81 -2,85
Dax 7748,03 +15,37
Cac 40 3729,26 +24,62
S&P 500 1461,89 -4,58
Empresa Pontos Variação %
Nationstar Mortgage Holdings Inc. 38,83 +5,60 +16,85
Molycorp Inc. 11,56 +1,26 +12,23
Energysolutions Inc. 3,73 +0,29 +8,43
Newcastle Inv. Corp. 9,60 +0,61 +6,79
Alcatel-Lucent S.A. (ADR) 1,73 +0,09 +5,49
Imax Corp. 24,08 +1,24 +5,43
Ocwen Financial Corp. 36,77 +1,88 +5,39
Quiksilver Corp. 5,29 +0,22 +4,34
Walter Industries Inc. 39,61 +1,59 +4,18
Sphere Drake Holdings Ltd. 6,80 +0,24 +3,66
O que aconteceu hoje, segundo a Bloomberg News.
2.
OS INVESTIDORES CONSULTAM esse material com intenções bem
definidas: ao voltar sua atenção para uma empresa, querem ver os dados relativos ao crescimento quinquenal dos dividendos, aos lucros anunciados recentemente, ao índice preço/lucro no último trimestre, aos juros máximos de mercado e ao atual índice preço/rendimentos (P/R) para os próximos doze meses. Se necessário, também podem verificar o volume médio de negócios da empresa nos últimos trinta dias e a relação de seu P/R com o intercâmbio de pacotes em sequência.
Mas, sem dúvida, não está em seu escopo imaginar como pode ser
trabalhar como representante de vendas ou supervisor de fábrica nessa empresa. Muito menos especular sobre a tendência de sua gestão, imaginar como é a lanchonete, visualizar as instalações das fábricas em Shijiazhuang, questionar-se sobre a origem das matérias-primas usadas ou perguntar qual a relevância de determinado negócio para a humanidade.
Os investidores são como pilotos voando muito alto e à noite. Para
controlar a navegação, contam apenas com poucas balizas de sinalização e pistas visuais: a usina nuclear na península, a principal rodovia norte-sul e a cidade medieval, brilhando como um diamante incrustado ao pé das montanhas. Mas não há necessidade de se preocupar com as discussões no prédio de apartamentos perto da praça, os dilemas do caminhoneiro no posto de gasolina ou os sonhos do técnico na casa de máquinas da turbina principal. Na cabine do piloto, os únicos sons são os dos motores gêmeos Pratt & Whitney, rugindo a 25 mil rotações por minuto.
As empresas que geram os noticiários financeiros dispõem de
correspondentes em alguns dos postos avançados econômicos mais remotos do mundo. Há jornalistas acompanhando a colheita de trigo em Saskatchewan, no Canadá; os progressos da exploração do petróleo ao longo do litoral do Brasil; a extração de nióbio, tântalo e zirconolita no Malawi; o desenvolvimento da próxima geração de trens interurbanos no Vale do Ruhr, na Alemanha; e a fabricação de painéis de fibra de carbono para aviões em Chubu, na região central do Japão. No entanto, apesar de instalados nesses pontos de observação privilegiados, tais jornalistas são convidados a se concentrar apenas em informações que ajudem os investidores a responder a uma única pergunta: “Em quais empresas devemos investir?”
3.
CONTUDO RELATAR O que acontece nas empresas apenas em termos
econômicos, resumir uma companhia inteira como sendo apenas +1,20 ou condensar as experiências de oito mil pessoas em uma produção de 375.776 unidades parece tão limitado quanto reduzir um romance da complexidade de Orgulho e preconceito aos extratos bancários dos personagens. Do ponto de vista humano, as empresas devem figurar entre as organizações mais importantes do planeta e merecem ter suas aventuras, prevaricações, traições, paixões e inquietações relatadas com minúcia e evocadas com vividez e toda a intensidade e habilidade estética reservadas à narração de um caso de amor. Só mesmo um acidente cultural nos leva, ainda hoje, a esperar que o “interesse humano” resida na vida privada de alguém, em vez de na linha de montagem de uma fábrica, em uma cadeia de abastecimento ou no cubículo do escritório de uma corporação. Em virtude de seu escopo limitado, o noticiário destinado aos investidores ignora fenômenos diários que não são menos envolventes, chocantes, atraentes e dramáticos do que os oferecidos pelas páginas de cobertura do mundo do entretenimento ou por um romance.
Os jornalistas do setor deviam exigir o direito de infundir alguma
vida a seus números.
SHARP CORP .
BOLSA DE VALORES DE TÓQUIO
VARIAÇÃO NO PREÇO: Ұ-18
ABERTURA: Ұ 288 FECHAMENTO: Ұ 270
Deviam, por exemplo, poder nos contar mais sobre o medo. O leigo
se encontra com o mundo corporativo por meio de produtos sem impressões digitais, que omitem qualquer menção às circunstâncias por trás de sua fabricação. O aparelho de televisão Aquos LE836 e o micro-ondas R98STM-AA de novecentos watts, ambos da Sharp, têm uma descrição bem reservada a respeito de suas origens em uma fábrica nos subúrbios ao sul da cidade japonesa de Taki, na região de Mie. Essas máquinas incrivelmente racionais e bem concebidas não querem que se discuta a dinâmica que permitiu sua existência: os sentimentos de orgulho, inveja, desejo, crueldade e vingança que moveram seus criadores. Acima de tudo, não querem que se discuta a ansiedade que permeia o capitalismo como um todo e os 46 mil empregados da Sharp, em particular. “Destruição criativa” é uma expressão abstrata de grande utilidade a que os financistas e economistas recorrerão para descrever o aniquilamento de empresas mais fracas em um mercado competitivo, mas o que ela significa, na verdade, inclusive para a fábrica de Mie, é o fim brutal de décadas de trabalho cuidadoso, esforço, planejamento, energia e esperança. Devíamos ter coragem de ouvir mais a respeito dos vasos sanguíneos congestionados e das angústias noturnas de Mikio Katayama, ex-presidente da Sharp Corp., um indivíduo honrado e inteligente que, no entanto, fez algumas apostas bastante equivocadas —investiu na tecnologia errada de tela plana de TV, apostou em uma tela de smartphone de segunda categoria, comprometeu-se demais com aparelhos de micro-ondas em um momento de virada no mercado — para logo ser aniquilado pelas investidas de fabricantes concorrentes, juntamente com muitos de seus colegas e o valor das ações da empresa.
NESTLÉ S.A.
BOLSA DE VALORES DA SUÍÇA
VARIAÇÃO NO PREÇO: CHF +0,20
ABERTURA: CHF 63,55 FECHAMENTO: CHF 63,75
24. Jacqueline Hassink, Mesa de reuniões da diretoria da Nestlé, Vevey, Suíça, 1994.
Ao mesmo tempo, deveríamos poder ver o mundo por trás dos
números, apreciar o capitalismo como um fenômeno visual e sensorial e absorver a beleza assustadoramente ordenada e estéril de seus escritórios e centros de produção. Deveríamos acompanhar a fotógrafa Jacqueline Hassink nas salas de reunião do mundo, onde decisões que afetam a vida de centenas de milhares de pessoas são tomadas, rodeadas por um mobiliário árido, mas caro, alguns intermediários zelosos, não raro engenheiros, e também mestres da intriga política e veículos de ambições muito bem arquitetadas — figuras que, de certa maneira, nas imagens de Hassink, parecem mais poderosas e presentes por estarem ausentes. Na sala de reuniões da Nestlé, perto de Genebra, por exemplo, poderíamos admirar por breves instantes o mapa do nosso planeta que permite aos integrantes da alta administração, como generais em épocas anteriores — quando a guerra desfrutava do mesmo prestígio hoje atribuído aos negócios —, supervisionar o progresso constante de suas campanhas para promover as vendas de Honey Nut Cheerios, San Pellegrino e Friskies a seres humanos e gatos nos cinco continentes.
25. Edward Burtynsky, Fábrica Cankun, Xiamen, 2005.
TSANN KUEN ENTERPRISE CO. LTD.
BOLSA DE VALORES DE TAIWAN
VARIAÇÃO NO PREÇO: TWD +0,60
ABERTURA: TWD 58,30 FECHAMENTO: TWD 58,90
Também deveríamos permitir que o fotógrafo Edward Burtynsky nos
levasse à China para mostrar o sacrifício por trás de muitos dos produtos incrivelmente baratos que compramos com tanto gosto: ferros de passar, cafeteiras, churrasqueiras, espremedores, aspiradores de pó e torradeiras são produzidos em enormes quantidades pela Tsann Kuen Enterprise em uma fábrica-galpão que abriga 23 mil operários na cidade de Xiamen, sudeste da China.
Deveríamos ter em mente que esses produtos não são muito baratos
— naturalmente — porque a Tsann Kuen Enterprise é maravilhosa ou inteligente e a tecnologia moderna é tão engenhosa, mas, sobretudo, porque os trabalhadores da região de Xiamen sofrem de uma condição a que os economistas educadamente chamariam de “falta de poder para estabelecer preços” — e nós, mais francamente, identificaríamos como desespero.
THALES S.A.
BOLSA DE VALORES DE PARIS
VARIAÇÃO NO PREÇO: EUR +0,08
ABERTURA: EUR 27,00 FECHAMENTO: EUR 27,08
No entanto, isso não deveria impedir momentos em que também
podemos admirar a beleza da produção, como no caso do satélite de observação Pléiades-HR 1A, que revela as entranhas da linha de montagem na fábrica do Grupo Thales, em Cannes, França. Dificilmente nossa terrível espécie impressiona mais do que quando se envolve em uma tarefa complexa que requer ordem e atenção. Considerando nossa vocação para o caos e a indolência, pode ser comovente contemplar as incríveis precisão, exatidão e disciplina requeridas pela maioria das funções profissionais. Tal como acontece quando vemos uma pessoa dormindo, é difícil não sentir a priori uma benevolência em relação a um funcionário habilidoso trabalhando na montagem de um satélite.
26. Benedict Redgrove, Fabricação de satélite, Cannes, 2010.
AMCOR LTD.
BOLSA DE VALORES DA AUSTRÁLIA
VARIAÇÃO NO PREÇO: $-0,11
ABERTURA: $ 8,30 FECHAMENTO: $ 8,19
Também deveríamos estar preparados para pensar no significado de
nossas atividades frenéticas. A maioria de nós, naturalmente, nunca ouviu falar da Amcor, uma das empresas mais lucrativas da Austrália e a maior fabricante mundial de caixas de lenço de papel, fraldas, tubos de pasta de dentes e embalagens de bronzeadores e xampus, porém as grandes fortunas da atualidade poucas vezes foram acumuladas pela venda dos produtos e serviços mais significativos, como poesia ou aconselhamento de casais.
Quando alguém tem a sensação de que seu emprego é significativo?
Quando é capaz, no fim do dia, de sentir que seu trabalho de alguma forma, por mais modesta que seja, contribuiu para reduzir a miséria ou aumentar a satisfação dos outros. Nós gostamos de servir, e mais ainda de vivenciar o impacto de nosso empenho na vida de outros seres humanos. Mas, quando o trabalho é subdividido em partes cada vez menores, quando carreiras inteiras são dedicadas à produção de objetos que afetarão o bem-estar de outros por apenas um segundo, ou talvez nem isso, esse significado acaba se reduzindo. Não que os mercados de ações se importem. Eles responderiam que significado é algo a ser reservado para o fim de semana.
Os índices da bolsa nos levam a fazer malabarismos com os mais
variados sentimentos, como admiração pela fertilidade dos negócios modernos, espanto com o extraordinário grau de inteligência e empenho necessários para ter êxito em uma indústria. Mas também há um sentimento de culpa diante do absurdo e do desperdício de uma parte tão grande de nosso esforço. Então, no meio da noite, quando a mente costuma se vingar dos compromissos do dia, surge um doloroso espanto ante o que podemos estar fazendo com o pedacinho cada vez mais valioso que ainda resta de nossa vida.
SAP AG.
BOLSA DE VALORES DE FRANKFURT
VARIAÇÃO NO PREÇO: EUR -0,10
ABERTURA: EUR 59,70 FECHAMENTO: EUR 59,60
Podemos concluir que os números e gráficos do noticiário financeiro
nunca passam de uma forma abreviada das histórias e imagens de que precisamos para entender o mundo que construímos. No fim das contas, os negócios são interessantes e significativos demais para serem descritos apenas para quem quer investir.
Uma história arrebatadora que precisaria de um Émile Zola moderno para contá-la: a cotação na bolsa do fabricante de
softwares SAP, entre 2011 e 2013.