O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular

Alberto Pimentel · Capítulo 9 de 22

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O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular

VIII O anjo da liberdade

VIII

 

O anjo da liberdade

 

Foi-se restabelecendo o doente.

Meiado abril, Craça Strech julgava-se robustecido sufficientemente para encetar a sua obra de vingança. Toda a sua attenção se concentrava na idéa fixa da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada, a solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se em tão carinhosa dedicação estava occulto o germen do amor, se era aquella a mascara da alma apaixonada que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias, não tardará que o saibamos. Todavia os seus sorrisos, posto que doces, revelavam tristeza. O coração a attraíl-a para aquelle homem, e o destino a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas por que soffria? Porque esse homem—suppunha-o ella—amára doidamente, com o fogo dos primeiros amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira talvez correr, na hora da invasão, o sangue innocente da mulher amada. Porque esse sangue clamava vingança, e elle esperava apenas pela hora tremenda da represalia. Porque essas cartas que relia a toda a hora eram outros tantos protestos contra a tyrannia dos que venceram. Fossem dizer ao coração d'esse homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante na terra: «Despe o teu luto; enflora-te. Os que te mataram eram meus irmãos, mas quem te resuscitará serei eu. Com o sangue do cadaver, que desceu á tumba commum, regaremos as flôres da tua felicidade futura.» Não podia ser. Elle tivera razão quando disse: «Supponha que um homem havia ferido mortalmente seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria...» Referia-se a uma barreira insupperavel, e falava do maço de cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E{64} as cartas relia-as elle, e annel tinha um na mão esquerda, tinto de sangue, que era talvez da pessoa cuja morte anhelava vingar. Que esperança podia, pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro lado, quem ha de dizer ao coração que é loucura amar? Como havia ella, allucinada pela paixão, de raciocinar comsigo mesma: «Tu és a pobre Regnau, a vivandeira franceza, que acompanhas o exercito vencedor; elle é o soldado do exercito vencido, e vencido elle mesmo. Não se póde transpôr um abysmo, muito menos dois. Tantos são os que nos separam n'esta hora: o da vingança e o da nacionalidade!» Isto ninguem o diz; ella não o podia dizer. Amava, sim, mas amava sem esperança, e, o que é mais, amava com medo. Agrestemente a tratava elle a principio. Desde o dia em que ella lhe perguntou se chorava, e em que timidamente se abeirára do catre antes como enfermeira do que como amante, pareceu todavia abrandar um pouco mais o seu odio inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que ella não estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas condoer-se não é amar. E depois que desgraçado aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez matar-se. Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra o seu nome de portuguez, contra as suas recordações. Como ella quizera sondar-lhe a alma e arrancar-lhe o seu segredo! O que importava, primeiro que tudo, era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina, e cada vez era maior a sua solicitude. Não tardou porém a hora em que Graça Strech ia levantar uma ponta do véo mysterioso que occultava os seus designios.

Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular. Elle escolhera decerto essa hora para que a physionomia lhe não traisse os sentimentos reconditos.

—Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me fez?

—Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe.

—Pois bem; é chegada a occasião de aproveital-o. Cumpre porém que primeiro lhe diga que a minha vida fica pendente d'esta revelação. Se ámanhã quizer denunciar-me aos meus algozes, póde fazel-o, e então completará a vingança dos meus desabrimentos.{65} Completará, disse eu, porque compassivamente me tem tratado, e a compaixão é a vingança das almas nobres. Quer-me parecer, não obstante a posse do meu segredo, que continuará a vingar-se nobremente... O seu coração é bom, Rosina; o meu é que não é assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas, ainda assim, em alguma hora da minha vida me é dado ouvir a voz do meu anjo da guarda. Depois a celeuma dos maus instinctos suffoca-a. É porém esta uma das horas em que o meu coração não é inteiramente perverso. Portanto lhe falarei com a maxima franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre, completamente livre, entenda-me bem. Só por sua intervenção o poderei conseguir. Mas, se me presta esse serviço, quem lhe não dirá, Rosina, que soprou no meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me o sangue quando volvo os olhos a um passado proximo, muito proximo?... Sabe que é quasi um fratricidio que vae praticar? A voz da consciencia será a primeira a dizer-lh'o. Não irá combater contra os seus pessoalmente, mas irá dar mais um soldado ao exercito portuguez cerceado pela derrota... Pense em tudo isto. Vae trair a confiança dos seus irmãos para conquistar apenas a gratidão d'um só homem...

A esta palavra, os olhos de Rosina, até ahi brilhantes de copiosas lagrimas, illuminaram-se d'um clarão d'alegria.

—Gratidão! disse?—soluçou ella. É a primeira vez que eu oiço dos seus labios tão doce palavra... Acredite-me, sim? Eu já pensava em auxiliar-lhe a fuga, mesmo quando ainda não era meu amigo. Tinha pena, muita pena do senhor, e receiava que se quizesse matar para não ficar prisioneiro. Faria por lhe dar a liberdade, ainda que m'o não agradecesse, porque algum dia, ahi por esses acampamentos fóra, bem podia ser que o senhor encontrasse, prostrada por uma bala perdida, a vivandeira Rosina, e dissesse, lançando-lhe um olhar de piedade: «Bem te reconheço! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade. Estás morta. Que te hei de dar agora? Dar-te hei uma oração». Isto me bastaria, senhor, que eu bem sei que não mereço mais. Mas agora o caso muda muito do que eu havia pensado na minha tristeza. O senhor promette-me gratidão. Que mais posso eu{66} invejar? A memoria de meu pae me perdoará, porque elle—disse ella com irreflectida candura—tambem amou muito, segundo contava o velho Regnau. Gratidão é o que o ceguinho das Ardennas tem ao seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre a dizer, referindo-se ao seu cão: Não ha pessoa a quem eu seja mais grato!» Veja o senhor como elle lhe quer, que até chama pessoa ao cão! Pois eu serei para o senhor como o molosso para o Hubert. Ter-me-ha gratidão; viverei feliz... E sabe o senhor que o cão do ceguinho das Ardennas o segue sempre? Sabe o que isto quer dizer?...

E calou-se de subito, ruborisada de pudor.

—Não sei! observou Graça Strech sobremodo admirado da sinceridade d'aquella confidencia.

—Não sabe? É que eu tambem queria seguil-o ao senhor...

—Como?! perguntou o moço aprumando-se como galvanisado por um choque electrico. Seguir-me! Sabe bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim caminhará sempre a morte, e atraz de si o odio francez? Sabe que isso é renegar a sua patria, o nome de seu pae?

—Esquece-se de que meu pae não me deixou nome? Se no céo se sabe tudo, elle saberá que o meu coração é puro. O mais que me importa a mim? Nem por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais á minha madeixasinha. Crime era o esquecer-me d'ella, o desprezal-a, o não a trazer commigo. Mas é que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a mim. E depois o senhor não me comprehendeu bem... Eu não queria deixar de ser vivandeira... Não se quesile, não? O senhor vae combater. Eu seguirei o exercito como até aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez soccorrerei o senhor se as balas o não respeitarem. O crime está só n'isso, e Deus m'o perdoará... Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo pae, tenho vivido tão sósinha, tão sósinha!... O exercito é muito grande e por isso mesmo não faz companhia. Não lhe perderei o rasto, senhor, esteja certo. As vivandeiras estão costumadas á guerra de emboscada. Surprehendel-o-hei quando menos o esperar. Que seja preciso affrontar perigos, pouco importa. Rosina, a «gentil vivandeira», como por favor{67} me chamam, é destemida. Toda a brigada Arnaud lh'o podia dizer...

A admiração, o pasmo, o alheamento de Graça Strech eram cada vez maiores. Espantava-o aquelle conjuncto de candura e coragem, aquelle receiar e querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creança, que tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher. Não sabia se mais havia de admirar a originalidade do temperamento se a originalidade da revelação. Começava a lêr na alma da vivandeira que o amava. Comprehendeu que ella sabia respeitar-lhe a dôr, impondo-lhe suavemente o dever de respeitar-lhe a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza... Tambem elle se não lembrava n'esse lance de que a mariposa procura a chamma!

E Rosina era a mariposa do acampamento.

Não obstante, desconfiando ainda da clareza da sua percepção, quiz oppôr obstaculos á resolução da vivandeira:

—Mas não sabe que isso é impossivel, Rosina? Não sabe que se não póde seguir ninguem através dos azares da guerra? Quem póde luctar com as ondas sem naufragar? Não lucte, Rosina, não lucte com o que é invencivel. Guarde essa coragem do seu bello coração para as batalhas do mundo, que toda lhe será precisa. Deixe-me ir até onde chegam todos os infelizes. Não sabe que ámanhã posso encontrar a bala que me mate?... Não será ámanhã, não, porque eu ámanhã não haveria completado a minha obra. Preciso de viver, mas a guerra é tão caprichosa! Completa a minha obra, desejo morrer livre, quite com o mundo. Não quero que ninguem me chore—morrerei feliz.

—Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doçura a vivandeira. Mas deixe-me ir... tambem até onde vão os infelizes. Já agora, eu, que lhe vou abrir o seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o senhor estiver. Bem pouco lhe peço, como vê. Caprichos de mulher! especialmente caprichos de franceza...

E, como que arrependida de haver soltado esta palavra:

—Fui indiscreta, bem sei; perdôe-me. O seu coração precisa de esquecer a minha nacionalidade para me não odiar...{68}

Era impossivel luctar por mais tempo com tão energica e ao mesmo passo tão meiga natureza.

Como se aproximasse gente, Graça Strech apertou-lhe silenciosamente a mão e escondeu no lençol a face involuntariamente orvalhada de lagrimas.

Chegára a noite triste que ao nascer das estrellas invade os hospitaes e as prisões com o seu silencio e a sua tremula claridade.

Graça Strech não pôde conciliar o somno. Tantos e tão extraordinarios eram os pensamentos que se lhe baralhavam no espirito, que ora sentia subir-lhe ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a chamma abrazadora da congestão. Assim esteve, sem dar tino do tempo que passava, com os olhos fitos na sombra oscillante que uma lanterna projectava na parede fronteira ao seu catre.

Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos mais ou menos longos, segundo a gravidade do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas de ficar de véla n'aquella noite, deixaram-se adormecer com a tranquillidade de quem está bem e não se importa de que os outros estejam mal.

Na rua tropeavam com interrupções os cavallos das rondas. Uma ou outra vez ouvia-se trocar palavras entre as patrulhas que passavam e a sentinella do hospital. Não se percebia, porém, o que diziam...

E assim decorria a longa noite das enfermarias e dos carceres com o lutuoso aspecto que faz d'umas e outros—cemiterios de vivos.

A mais de meio iria a noite, quando a Graça Strech pareceu vêr entrar cautelosamente na sala um soldado francez, que foi caminhando, cada vez mais receioso, até se avisinhar do seu catre.

Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado, porque lhe passou no espirito a suspeita de que Rosina o denunciára, e de que esse soldado, que tanto se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino galardoado talvez pela devassidão da vivandeira.

E bastou esse momento para a suppôr mobil d'uma infamia inaudita, a ella, que momentos antes lhe pedia unicamente, a troco da liberdade promettida, que a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego das Ardennas.

Era, porém, corajoso de mais para succumbir aos perigos d'uma traição.{69}

Para logo se lhe accendeu o coração em labaredas do inferno, e se lhe requeimou a garganta como a do tigre dos palmares quando tem sêde de sangue.

Era, porventura, um soldado francez que o vinha apunhalar, de noite, suppondo-o a dormir, talvez por ciume da barregã com quem passára a noite, ou para vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra os francezes.

Não tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por infamia. Luctaria braço a braço, encarniçadamente, silenciosamente, até que um d'elles ficasse prostrado.

Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado, em posição de melhor se poder erguer para responder á aggressão.

E com tão sinistro brilho lhe coriscavam os olhos, que o supposto soldado francez, conhecendo de certo o que lhe ia na alma, impuzera silencio com um gesto e dissera a alguns passos de distancia:

—Sou eu.

Graça Strech reconhecera Rosina.

O vulto que elle suppuzera um assassino transformára-se no anjo da liberdade. Não lhe vinha trazer a morte; vinha restituir-lhe a vida. Como poderia elle receiar a aggressão d'aquelle soldado franzino, gentil, cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o segredo do seu disfarce, cujos cabellos, ennovelados a um e outro lado, denunciavam as tranças da mulher enroladas em cachos?

Visualidades d'imaginação doente, chimeras que o habito do soffrimento cria, e a noite avulta.

—Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e aproximando-se.

E, como se por encantamento um genio bom lhe deizasse cair ás mãos o fardamento d'um soldado, igual ao que vestia, acrescentou:

—Não ha tempo a perder. Vista-se e venha.

E retrocedeu a esconder-se á porta, onde as sombras mais se condensavam, e a levantar do chão o saco d'oleado da ambulancia, que continha o seu trage de vivandeira.

Não se fez esperar o prisioneiro, que logrou atravessar a sala sem ser percebido. Nos olhos dos que dormiam havia as nuvens precursoras da noite eterna,{70} que nada deixam vêr para fóra do corpo. É o recolher-se da alma que vae partir.

As duas enfermeiras continuavam a dormir tranquillamente.

—Venha, disse-lhe Rosina travando-lhe da mão.

Graça Strech desceu conduzido pela vivandeira.

Quando a sentinella deu tino de que se aproximava alguem, cumpriu a praxe militar do—Qui vive?

Um dos soldados, que levava ao hombro a bolça da ambulancia, respondeu: L'empereur;—e quando já a sentinella podia distinguir os uniformes, acrescentou com voz firme e sã em francez.

—Soldados da ambulancia com ordens urgentes para o quartel general.

O soldado que respondera era, como calculam, a vivandeira das Ardennas.

Chegados á rua, Rosina Regnau apertou convulsamente o braço de Graça Strech e segredou-lhe:

—Nunca se esqueça de que n'este dia, e a esta hora, lhe dei a liberdade, roubando-a a mim mesma.

—Nunca! respondeu elle commovido.

E, como sentissem aproximar-se uma ronda, estugaram o passo, caminhando sem norte.

Por duas vezes, no aventuroso transito, os surprehenderam patrulhas francezas.

Era sempre Rosina quem respondia no idioma patrio, não sem que sentisse palpitar vertiginosamente o coração receioso de ver desabar n'um momento a felicidade sonhada.

Insensivelmente se foram aproximando do rio Douro, a cuja margem pararam algum tempo vacillantes no que fariam e, não obstante serem ambos corajosos, quasi amedrontados. Só então, chamados á realidade, olharam para dentro de si mesmos, conscientes da arriscada situação em que se encontravam.

Pareceu-lhes, porém, ouvir o compasso de remos na agua, e tanto bastou para se illuminar d'um raio d'esperança a alma da vivandeira.

Foi Graça Strech quem se aventurou a chamar o barqueiro.

Nenhuma voz respondeu ao chamamento mas, decorrido algum tempo, viram avisinhar-se do caes o vulto negro do barco.

N'aquelle tempo eram tão frequentes as fugas nocturnas, dos que presumiam mais demorada, do que{71} foi, a occupação franceza da cidade, que alguns barqueiros dos logares convisinhos, inteiramente privados de recursos, se affoutavam a bordejar no Douro por horas mortas para receber a esportula dos fugitivos.

Graça Strech e Rosina Regnau saltaram ao barco.

Estremeceu o barqueiro conhecendo o uniforme francez, mas Graça Strech acudiu a serenal-o com estas palavras:

—Somos portuguezes, amigo. O habito não faz o monge. Salva-nos, e não te importe o mais. Afasta-nos, o mais depressa possivel, da cidade.{72}