O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular
XX O manuscripto de Pietro
XX
O manuscripto de Pietro
Pietro morrera um anno antes, em Londres, logo depois que de Pariz passára a Inglaterra. Acamou, no miseravel albergue em que se hospedára com a pequenita, victima d'uma febre aguda. Ás primeiras horas de leito conhecera que era chegado o termo da sua vida. Antes que estivesse impossibilitado de raciocinar e falar, mandou chamar Giovanni, um antigo conhecido, em quem depositava confiança e, não sem difficuldade, porque já a cabeça começava a pesar para a sepultura e o cerebro a escurentar-se com as trevas da morte, lhe disse:
—Giovanni, tu és um homem de bem e, diga-se a verdade, inimigo de trabalhar. Tens vivido sempre em companhia de musicos que te dão alguma coisa porque tu lhes carregas com as harpas e os realejos. Ora, meu amigo, é chegada a occasião de fazermos um negocio e, nota bem, o ultimo.
—Ora deixa-te de tolices!
—Não são tolices, Giovanni; bem vês que já me custa falar. Não posso perder tempo. Portanto, ouve-me com attenção. A minha hora chegou e pouco me importaria morrer se não tivesse uma neta...
—Uma neta! Tu! Só te conheci um filho, que morreu pequeno em Portugal.
—Isso é um segredo que te não deve importar. Essa criança que ahi está fóra é mais minha neta do que se fosse filha de meu filho. Comprehendes que morrendo tu, vae ella, coitadinha! ficar para ahi desamparada. Isso é justamente o que eu não quero. Sabes que a pequena tem talento...
—Isso tem! respondeu Giovanni.
—Aprendeu tudo quanto eu lhe ensinei—acrescentou pausadamente Pietro—e já sabe mais do que aprendeu. Deus nunca desampara os desgraçados! O{175} talento foi o patrimonio com que Deus dotou a minha neta. Mas olha que é um capital cujo rendimento chegava bem para nós dois! A pequenita bastava-lhe roçar com as azas pelas cordas: logo sahia musica. Ora a nossa sociedade artistica vae dissolver-se. Da morte não se appella. Um dos socios, o gerente, retira-se para a... eternidade. Fica o outro, que por ser de menor edade não tem ainda credito na praça. É preciso que tu, homem de bem, substituas o socio que se retira, e entres apenas com a tua edade e com a tua experiencia. A tua missão cifra-se em acompanhar a avesinha, e defendel-a das ciladas do mundo. Nota, porém, que te corre obrigação de não traíres a confiança que um amigo moribundo deposita em ti. Jura-me pela tua honra que serás exacto como tens sido até hoje...
—Juro, disse com firmeza e commoção Giovanni.
—Muito bem. Logo que eu morra, olha tu pela pequena, que fica sendo agora tua neta. Mas ouve ainda, Giovanni, mas ouve-me bem. Eu supponho e e com boas razões, que o pae d'essa infeliz menina, morreu. Tudo me leva a crêl-o. Se algum dia, porém, e Deus o permitta! o pae d'ella apparecer, dize-lhe que te nomeie o objecto pelo qual elle ha de reconhecer a filha: é um annel que ella traz n'uma saquinha ao pescoço. De mim não quero que lhe digas nada, porque n'este papel, que lhe entregarás, caso o pae da menina não tenha morrido, deixo explicado o mais que tinha a dizer. Se elle não surgir do tumulo a reclamar a filha, o que é provavel, entrega esse papel a Augusta, para que ella, em edade de o entender, saiba com que amor eu a amei. Dá tempo ao tempo. Espera que ella cresça e pense. Tens entendido, Giovanni? Agora dá-me a tua mão. Palavra de homem de bem?
—Palavra e juramento, disse Giovanni com profunda commoção, e muitas lagrimas.
E acrescentou:
—Vae descançado, Pietro. Tua neta, pois que assim lhe chamas, não ha de soffrer mal algum. Eu tenho sido até hoje escravo da minha fidelidade. Tenho andado pelo mundo atraz d'esses musicos, que afinal me não pagam. Nasci preguiçoso, é verdade, Deus me perdôe, mas tu bem sabes que me não pegou ainda ponta de vicio. Nem bebo nem jógo. Fumar,{176} fumo eu, mas isso é apenas um mau habito. Tendo pão e tabaco, estou contente. Isso, é de sobra, dar-m'o-ha a harpa de tua neta. Agradeço a esmola, e toda a vida serei agradecido a ti e a ella. O dinheiro que juntar eu lh'o guardarei. Comprará uns vestidinhos, concertará a harpa, comprará outra melhor...
—Isso não! isso nunca! interrompeu Pietro com febril exaltação. A minha harpa nunca ella a deixará; já lh'o disse, e ella prometteu-m'o.
—Desculpa, Pietro, eu não pensei o que disse. Emfim comprará o que quizer, porque todo o capital será d'ella; eu serei unicamente depositario.
—Bem! disse Pietro prostrado de commoção. Estamos tratados para a vida e para a morte. Agora sae por algum tempo, e manda-me cá a pequena.
Saíu Giovanni e entrou Augusta.
O doente esteve olhando para ella mui attentamente, e exclamou:
—Que linda és!
A pequetita respondeu com beijos.
—Olha lá, Augusta,—tornou Pietro—não te esqueças da recommendação do annel. Oh! que se tu encontrasses ainda teu pae! E d'ahi póde ser. Deus é misericordioso. Se elle escapou á guerra, bem póde acontecer que ainda algum dia o encontres. Deus o queira, Augusta, anjo, filha. És tão pequenina, tão pequenina, que cada vez me pareces mais um passarinho! Emfim eu não havia de ser eterno; muito me tem deixado Deus viver para teu amparo. Que linda, filha, que linda! Olha... chama Giovanni, e vae ali para fóra um momento... Tu és muito minha amiga, pois não és?... Vae filha, vae, e chama Giovanni.
Saiu a pequenita a cumprir a ordem.
Giovanni abeirou-se do catre e recebeu da mão do doente os papeis em que lhe falára.
—Não posso mais! disse Pietro. Pesa-me tanto a cabeça! Sabe Deus com que difficuldade tenho feito tudo isto! E—acrescentou placidamente—para o enterro já sabes que basta avisar o consul. Nós em toda a parte somos italianos.
Giovanni tregeitou, e o doente deixou caír contra o travesseiro o craneo que parecia de chumbo. Nos trez dias que se seguiram não mais tornou a falar. Entrou em estado comatoso. Teve sempre os olhos fechados até que a morte lh'os sellou para a eternidade.{177}
O consulado italiano fez o enterro: só os summamente grandes e os summamente pequenos são enterrados á custa das nações.
Quem soube, na colonia fluctuante dos musicos das ruas, que havia de menos uma andorinha viajeira?
Os outros não souberam, porque, tendo por missão voar de terra em terra, não lhes sobra tempo para se demorarem á beira d'um tumulo.
Soube-o o consul, e sentiam-n'o Augusta e Giovanni; ninguem mais.
A pequenita chorou muito, muito. Giovanni confortou-a como pôde. O sol, que é a alegria de todos os passarinhos, fez o mais.
Começaram ambos a sua peregrinação.
A pequenita, pobresinha! só tocava n'esses dias de pungente saudade musicas tão tristes como a alma d'ella. Ainda assim ouviam-n'a, achavam-lhe graça, e davam-lhe dinheiro.
O publico, em geral, reputa felizes os que convidam á felicidade.
E, em geral, engana-se sempre.
Augusta sonhava quasi todas as noites com o avô. Pela manhã dizia a Giovanni:
—Esta noite vi-o. Lá me tornou a repetir que não perdesse o annel.
Outras vezes:
—O avô, Giovanni, disse-me esta noite que te recommendasse que fosses sempre muito meu amigo.
As recommendações de Pietro, que a pequenina ouvia em sonhos, não eram precisas. Nem Augusta perdia o annel mysterioso, nem Giovanni se esquecia das promessas que tinha feito.
Elle guardava a sua palavra; ella o seu annel.
E com esses dois thesouros se propunham correr mundo.
Giovanni pertencia ao numero dos homens-machinas que só obedecem ao impulso do coração; ora o coração era bom, e as obras boas sahiam, portanto.
Nascera, como o cão de quinta, para a ociosidade, mas, como o cão de quinta, era fiel.
Durante o anno que acompanhou Augusta nunca deslisou um passo do caminho do dever.
Ella ia adiante com o seu annel no seio; elle seguia-a{178} com a harpa ás costas, avisando-a sempre da aproximação dos trens e dos cavalleiros.
Ao cabo d'um anno surgiu do tumulo Graça Strech, para nos servirmos da phrase de Pietro. Feito o reconhecimento, Giovanni entregou-lhe a filha e os papeis que recebera, e diziam assim:
MANUSCRIPTO DE PIETRO
Estas são as minhas memorias. Dito-as para serem lidas por Augusta ou seu pae, se é que não morreu, para esclarecimento d'algum d'elles, ou de ambos, se Deus o permittir.
Felizmente aprendi a escrever, e fui nos primeiros annos da minha vida empregado n'um escriptorio. Depois morreu-me meu pae: faltou-me o leme. Desnorteei. Troquei a penna pela harpa. Ha muitos annos que o meu abecedario é o do-ré-mi-fá-sol-lá-si. Ainda assim, apesar do muito que se soffre n'esta vida errante, agradeço a Deus o inspirar-me que fosse musico, porque tive occasião de fazer bem.
Finou-se de saudades em viagem a signora Rosina. Era um soffrer que fazia horror! Não havia palavras que a consolassem, musica que pudesse distraíl-a! Viajou chorando e suspirando; os olhos nunca ninguem lh'os viu. Quasi não comeu. Acceitava, depois de muitas instancias, uma agua de caldo apenas. Diziamos-lhe que era um crime deixar-se morrer; então bebia. Chegámos a Napoles, e logo a signora me pediu que tratasse de arranjar albergue, porque se sentia muito doente. Em verdade estava muito falta de forças. Quiz escrever para Portugal, e não pôde. Mal pegava na penna descórava muito, e entrava de sentir-se agoniada. Eu, vendo que semelhantes esforços a estavam debilitando cada vez mais, pedia-lhe que deixasse isso para quando estivesse melhor. Comecei a dizer-lhe que não tinha geito metter-se em casa. Depois de repetidas instancias, annuiu em ir commigo ao anoitecer até á beira mar. Umas vezes voltava melhor; outras vinha mais doente. No primeiro caso, principiava a escrever. Escrevia algumas linhas, e já estava fatigada. No segundo, passava a noite em convulsões, e era preciso não a desamparar até pela manhã, que só então cahia em somno. Eu ia porém instando sempre pelos passeios. Ah! mas ver a signora{179} um mez depois que chegámos a Napoles! Que differença! Emagreceu, descórou, fez-se velha. Não parecia a mesma! A primeira carta que recebemos de Portugal causou-lhe tamanha impressão, que eu julguei que morresse. Tive realmente medo. Chorou, riu, delirou. A carta não dizia porém que o signor Strech tivesse recebido as nossas. A signora inquietou-se muito com isto.
—Está lá sem saber nada de nós! disse-me ella. E a mim que me custa tanto escrever!
—Escrevo eu.
—Nada, não quero, respondeu a signora. Hei de eu escrever sempre; bem póde ser que alguma carta lhe chegue ás mãos...
—É que o exercito é muito grande, e depois anda d'um lado para outro... disse eu prevenindo novas commoções.
Os soffrimentos da signora havel-a-iam prostrado antes de ser mãe, se não fosse essa carta que recebeu de Portugal. Beijava-a, relia-a, apertava-a contra o coração; só n'aquillo achava allivio.
Desde principios de maio de 1810 que a hora da maternidade se annunciava para breve. Quiz—porque ella tinha o presentimento da morte—escrever uma longa carta, que devia ter chegado a Portugal em junho, e que com certeza não foi recebida. Essa carta, cujo conteudo ignoro, era de certo uma despedida, o ultimo adeus da signora. Deixou o papel ainda sobre a mesa, e caíu contra o leito em grandes gritos. Acudi-lhe, e disse-lhe que não a tornaria a deixar escrever mais.
—Não me é precisa a sua licença, meu bom Pietro! respondeu ella.
Eu estremeci.
Logo que serenou, fechei a carta, sem lhe poisar a vista, e fui eu mesmo deital-a ao correio.
No dia 22 de maio, pela manhã, chamei a locandeira, que era piedosa, porque a signora me disse que n'esse dia seria mãe.
Soffreu doze horas. A final deu á luz uma menina. Quiz ver a filha; mostrei-lh'a.
—Que se chame Argusta, Pietro, que se chame Augusta, recommendou a signora.
Certifiquei-a de que esse seria o nome de sua filha.{180}
Cobriu o rosto com o lençol, e começou a chorar e a gemer. Por mais que lhe dissessemos, a locandeira e eu, que procurasse socegar, não o conseguimos. De noite delirou. Falava do signor, Strech, d'Augusta, de Coimbra, do mar, do annel. A febre era muita. Estáva córada como se as faces fossem duas rosas: Eu tinha a menina nos braços; a locandeira amparava a signora.
Pela manhã adormeceu. Acordou muito fria. Estava peior. Chamou-se o doutor, que receitou, e disse que a signora corria grande perigo. Apesar dos remedios, não aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde, quando eu estava acalentando a menina para adormecel-a, a signora deu de repente um grito, sentou-se na cama, disse que não via, tornou a dar outro grito, e cahiu morta.
N'essa occasião chorava a criança como se adivinhasse que estava orphã.
Fiz um enterro decente á signora Rosina, adquiri, com o auxilio do consul, o direito de a sepultar n'uma campa perpetua e mandei-lhe pôr um singelo epitaphio que diz: «Aqui jaz Rosina Regnau.»
Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento, que me custou talvez mais—Deus me perdôe!—do que a morte de meu filho.
Não recebi resposta, nem tornei a receber mais cartas. Quiz partir para Portugal. Informei-me. A guerra continuava cada vez mais renhida. Que havia eu de ir fazer a Portugal com uma harpa ás costas e uma criança ao collo? Demorei-me ainda um anno em Napoles para dar tempo a crear-se a menina. Foi uma ama dos arrabaldes quem a amamentou.
Eu ia todos os dias vêl-a, e saber da ama se era preciso alguma coisa. Durante esse tempo não recebi carta do signor Strech. Não obstante, continuei escrevendo sempre. Sabia-se que continuava a guerra. Não tinha certeza de que as minhas cartas fossem entregues, e de que o signor vivesse ainda. Maguava-me tão longo silencio, porque emfim eu cada vez ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na menina e na harpa e comecei a minha peregrinação, porque estava exhausto de recursos. Em Napoles ha sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me. Alguns eram velhos, e estavam tão pobres como eu. Além d'isso, fallecera a dona do albergue,{181} repentinamente, e quando eu sahia entravam os crédores. Tive pena d'aquella boa mulher que tão caridosamente tratára da signora Rosina. Como ella sabia do nosso segredo, habituei-me a consideral-a pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelára a ninguem as máguas da mãe d'Augusta. Eu tinha a certeza. O segredo descia com ella á sepultura. Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi sahir para o cemiterio e me encontrei com os crédores que entravam. Era preciso ganhar vida, porque eramos duas pessoas a alimentar, melhor direi pessoa e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites, dormia-as com a menina ao collo. Se eu era avô! Ás vezes apertava commigo a tristeza. Lembro-me de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde me recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando a menina adormecida nos meus braços, lembrando-me ao mesmo tempo da signora e do signor, ambos mortos para ella, que, francamente o confesso, n'essa noite envelheci dez annos. Todavia, logo que nascia o sol, nascia com elle o grande lenitivo dos desgraçados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa, e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros por me vêr com a menina: muita vez o conheci.
Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto a menina ia crescendo. Que espertesa que revelou desde os primeiros annos! O seu gosto era estar a bulir nas cordas da harpa. E o caso é que ás vezes, acaso ou não, combinava sons. Lembrei-me de que a menina podia aprender musica. Seria o seu dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido tão pobre, que me considerava seu avô, a mim, um musico ambulante! Com oito mezes d'aprendizagem era um gosto ouvil-a! Parecia impossivel! Dispensei-me de tocar, porque as mãosinhas da menina eram um prodigio! Bastavam ellas para fazer a colheita que era sempre abundante. Comprei roupa á menina; trazia-a uma princesasinha. Verdade é que sempre de luto. Todo o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia de preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os soffrimentos de seus paes, que extraordinarios foram em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias este papel, e não teu pae, como muitas vezes acredito que serás, mais uma vez te peço que conserves sempre viva em teu coração a memoria d'esses dois grandes{182} desgraçados, que mais o foram por tua causa. Mas que talento o d'essa criança! Ainda outro dia, em Pariz, um rapaz esculptor pediu o meu consentimento para nos modelar a ambos em gesso. Não foi por minha causa, não. Eu não tenho orgulho senão de ser avô da menina... Avô! Sim, pelo coração não posso deixar de o ser. O verdadeiro avô não lhe quereria mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a menina. Quem se não ha de encantar? Modelou-a. Foi a primeira estatua levantada em honra da pequenina harpista. A mim modelou-me de certo pelo contraste. Deu-lhe graça vêr a cabeça d'um velho ao pé do rosto d'uma criança. E que formoso rosto, sangue di Christo! Como eu gostei de ver a menina assim retratada! Mal diria eu que um mez depois havia de soar a hora de me separar d'ella. Não me custa deixar o mundo, onde se soffre tanto; custa-me deixal-a a ella, porque a amo muito. Não quero, porém, ser ingrato para com Deus. Grande mercê me fez em me não levar quando a menina era mais pequenina. Egora sinto-me sem forças. Ha muitos dias que estou doente. Não tenho querido acamar para não entristecer a menina. Mas hoje, a tal ponto receio por mim, que vou mandar chamar o meu velho conhecido Giovanni para lhe fazer as minhas ultimas disposições.
Dizem todas respeito á menina.
Giovanni ficará depositario d'ella, que é o meu thesouro. Giovanni é preguiçoso, mas um verdadeiro homem de bem. Muitas vezes tive occasião de o reconhecer. Eu não podia fazer melhor eleição. A minha harpa, que lego á menina, ganhará para os dois, e Giovanni será incapaz de guardar para si o que pertencer á menina.
Morro n'esta certeza. Giovanni é mais fiel do que um cão.
Estão, pois, saldadas as minhas contas com o mundo, com a signora e o signor. Fiz quanto pude, e me mandava o coração. Da justica de Deus não me arreceio. Deus bem vê a minha alma.
Torno a repetir que escrevo este documento para que Augusta melhor comprehenda um dia como eu a amei, ou para que seu pae, se Deus o resuscitar, porque em verdade o supponho morto, veja que não trahi a confiança que depositou n'um desconhecido. Se eu morresse em Napoles, quereria ser enterrado{183} ao pé da signora. Não fui o seu guarda em vida? Continuaria a sel-o depois de morto. Como de certo morro aqui, porque a minha doença é grave, apenas tenho a pedir que rezem um Padre Nosso pela minha alma, quando abrirem este documento, que fica em poder de Giovanni.
Fechado em Londres aos 25 de novembro de 1815:
PIETRO.{184}