O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular
XIV Quanto custa ser mãe
XIV
Quanto custa ser mãe
Em fevereiro de 1810 estacionava no valle do Mondego o exercito commandado pelo general Wellington, repousando das passadas lides, se bem que já apercebido para resistir aos movimentos dos francezes que de novo ameaçavam invadir Portugal.
Beresford activamente se dedicava a exercitar e disciplinar as tropas, e a providenciar pelo que tocava a provisoes que se tornavam indispensaveis para a campanha que a todo momento se esperava, e cuja duração era imprevista.
O rei José havia entrado em Sevilha, no primeiro dia d'esse mez, á frente das suas tropas, e a nuvem que obscurecia o céo da Hespanha alongava-se já para Portugal, deixando ouvir os rumores da tempestade que lhe refervia no bojo caliginoso.
N'esse tempo vamos nós encontrar Graça Strech na escóla militar do valle do Mondego, se bem que muito demudado o encontremos, e mereça especial attenção a tristeza que parece salteal-o nas horas em que o soldado se permitte ser homem. Procuramos á roda de si, e não encontramos a «muda», sua irmã. Inquieta-nos tão inesperada ausencia. Depois que comprehendemos o coração da Rosina Regnau, depois que passo a passo a acompanhámos nos lances angustiosos de sua attribulada mocidade, habituamo-nos a estimal-a, e já agora nos é magua o deixar de vêl-a.
Morreria acaso?
Algumas vezes se lembrára ella, quando vivandeira do exercito francez, de que uma bala perdida a mataria. É uma tradição de Vivandeiras, a do pelouro esgarrado que as ha de prostrar, porque, companheiras dos soldados, esperam do soldado a sorte. Todavia nem sempre se realisam as contas que a phantasia{119} lança, e não é de presumir que dos soldados que manobram exercitando-se no valle do Mondego partisse a bala destinada a roubar-lhe a vida. Tambem nas faces de Graça Strech não ha a tristeza sombria das perdas irreparaveis, mas um novo reflexo de melancolia que, a despeito de a querer concentrar, dá á physionomia um toque de soffrimento. Procuremos tirar-nos de tão saudosa incerteza, e saber o que se passára nos mezes que decorreram desde agosto de 1809 até fevereiro de 1810. Pelo que vamos ouvir a Graça Strech, n'um rapido dialogo com um companheiro d'armas, não poderemos fazer juizo seguro, mas esse será o fio de Ariadna que depois nos guiará no labyrintho de nossas pesquisas.
—Tens tido noticias de tua irmã? perguntou o soldado.
—Não tenho; nada sei da pobresinha! respondeu dolorosamente Graça Strech.
—Deve-te custar a ausencia! Se a nós, que não eramos irmãos, tambem nos custa! Estavamos habituados aos seus tregeitos, e o caso é que já os entendiamos como se fossem palavras! Que pena que não falasse! Bonita era! e tão meiga como bonita! Sempre aquelle sorriso doce para todos e para tudo! Mas, ó Strech, se a conversa te magôa, não continúo...
—Continúa, sim. Ás primeiras palavras rebenta a saudade; depois Deus manda a resignação, e é o que vale.
—Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o que isso é. E depois tu sempre deves estar com teu cuidado, porque tua irmã ia doente.
—Começou a soffrer Trabalhos da guerra, commoções fortes, talvez receios da nova campanha... Não sei. O que é certo é que a não julguei com forças de andar commigo em correrias atraz dos francezes, que é preciso enxotar pela ultima vez. Temos uma tia nossa na Allemanha. Veiu a Portugal ha annos, e affeiçoou-se muito a minha irmã. Deu-se a coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue italiano, e ir a bordo um passageiro allemão, que me pareceu homem compassivo, e que me prometteu acompanhar a pobre muda até ao seu destino. Que havia eu de fazer, quando a demora de minha irmã em Portugal seria a morte, e todas as circumstancias{120} pareciam favorecer visivelmente o meu designio de a mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue a Deus do que ao compassivo allemão.
—E que tencionas fazer agora?
—Agora! Quem sabe quando chegará a hora de pertencermos a nós mesmos! Se eu morrer, ficará minha irmã entregue a sua tia; se eu sobreviver a victoria das nossas armas—porque nós não podemos succumbir depois de havermos triumphado duas vezes— irei buscal-a á Allemanha, e viveremos juntos até que um de nós deixe d'existir.
—Desculpa-me, Strech,—tornou o soldado condoído.—Mas eu também estimava tua irmã, e por isso te perguntei por ella. Como já partiu em dezembro, e eu tenho conhecido que andas triste, pensei que tivesses recebido noticia de que a pobresinha ia a peior. Como felizmente não se realisou a hypothese, desculpa-me. Olha... Estou em dizer que Deus traga a guerra depressa para nos distrairmos. A guerra embriaga como o vinho, e a embriaguez é bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que vejo, soffremos ambos da mesma doença. Adeus, Strech.
Este dialogo, como anteriormente disse, não é explicação cabal, nem... verdadeira. Graça Strech via-se obrigado a enganar as pessoas que lhe perguntavam por sua «irmã», se bem que o engano apenas se limitasse aos motivos da partida e ao destino de Rosina. Elucidemos.
Em dezembro de 1809 começaram a manifestar-se os symptomas da maternidade. Esta desgraça, cujas funestas consequencias não previram na loucura do seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro, subitamente entenebrecido no horizonte que o poetico sol de Coimbra azulejava nas tardes em que as margens do Mondego lhes enfloravam os ardentes idyllios. O peor que ha no Paraiso é o ter porta: porque não se abre, quando a ancia da felicidade a impelle, e porque se fecha sobre as mais doces illusões, movida por qualquer viração que mais branda e mais embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias, acho a porta do Paraiso muito peior que a serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a gente poderia fugir da tentação, se encontrasse a porta aberta. Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos{121} com as paizagens do éden, com as melodias eolias do arvoredo, com o maná que o céo deixa cahir sobre o coração. Entretanto a serpente adianta-se. Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a porta: é-nos defesa a saída. Estamos encarcerados. A serpente triumpha.
Por duas ponderosas razões não podia ficar Rosina Regnau em Portugal. Era a primeira que, inculcando-se irmã de Graça Strech, a sua deshonra seria desaire para o irmão. A segunda estava em que o conservar-se occulta no reino, em estado de não poder acompanhar o exercito, seria imperdoavel n'uma epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava odio, e em circumstancias em que o deixar de falar seria quasi impossivel.
Avultou aos olhos d'um e outro, como pesadello horrivel, a necessidade da separação. O mesmo foi verem-se inesperadamente sepultos nas ruinas dos castellos encantados que ambos haviam architectado. E a felicidade é como todos os edificios: leva muito tempo a construir e basta um instante para desabar.
Estava effectivamente a esse tempo, nas aguas da Figueira, um brigue italiano. Concordaram ambos em aproveitar a commodidade do transporte. Rosina energicamente rejeitou a ideia de voltar a França, duas vezes deshonrada. Convieram, pois, em que ella esperaria em Italia, com o filho nos braços, o termo da guerra peninsular. Depois, para sempre se reuniriam, e viveriam enlevados na infancia da criança, que ambos phantasiavam formosa.
Mas, por que espesso véo de lagrimas se não filtrava este raio de longinqua felicidade, illuminando-o e iriando-o como um reflexo de sol moribundo através de neblina humida em tarde de tempestade!
Era esse o arco-iris da esperança, gravado em traços multi-côres, d'um abysmo a outro, sobre um céo plumbeo.
—O pae Regnau,—dizia Rosina—costumava dizer que a felicidade era uma bola de sabão. Agora vejo que é. Tudo desfeito, n'um momento! Eu desterrada para um paiz desconhecido, sósinha com a minha desgraça e o nosso filho! Tu, a muitas leguas de distancia, exposto á sorte dos que combatem, mais incerta que qualquer outra! Viverei entre a esperança da tua chegada e o receio d'uma noticia funesta. Oh!{122} esta idéa é horrivel! Então Deus ha de permittir que, meu filho entre no mundo vestidinho de luto! Não não póde ser. Não te exponhas loucamente á morte, meu amigo, não? A tua vingança já deve estar satisfeita, e depois um soldado que é pae deve ter duas cadeias a ligal-o ao mundo: a patria e a familia. Ora eu bem sei que tua irmã é a patria; mas lembra-te, sim, lembra-te! de que teu filho é a tua familia...
Acudia a serenal-a, com o coração despedaçado nas garras de desconhecido abutre, Graça Strech. Queria ser forte, e as lagrimas a trahirem nos olhos o esforço! Tentava enganar, e estava desilludido. Ainda não houve maior desgraça, mais amargo calix de amargura esperado nos labios com um sorriso...
—Não, Rosina, não imagines desgraças que Deus não permittirá. Bem sabes que a Providencia me tem guardado até hoje... Verdade é que tu eras o meu anjo da guarda, e tu vaes fugir-me. Isto é, em verdade, maior que a coragem humana! Não me arriscarei imprudentemente á morte, está certa... Mas ás vezes, na refrega, a gente não tem tempo de evitar uma bala... Não chores, Rosina, não chores. Foi uma loucura que eu disse. Eu não hei de morrer. Acaso morri eu para a memoria de minha irmã? Tambem não hei de morrer para o futuro de meu filho, para o teu amor. É forçoso separarmo-nos; separemo-nos. Ficaremos, porém, um ao pé do outro, sempre juntos, que já não ha distancias que nos separem, braços que nos desunam. Tu ver-me-has pelos olhos da saudade; eu, que já estou costumado a ver assim, ver-te-hei tambem. Conversarei no meu coração comtigo, acompanharei meu filho desde o primeiro vagido e a primeira lagrima... Ó Rosina, triste coisa é a vida! Nascemos soffrendo, como devemos viver, e morremos como vivemos. E olha que a minha loucura deu mais uma alma á desgraça... Mas eu amava-te tanto, tanto! Pobresinha de ti, que dizias parecer-te ouvir a maldição de Bénard... Por amor de mim te deshonraste uma vez; o meu amor duas vezes te deshonrou... Não chores... Já estão desbotadas as rosas das tuas faces, não as desmereças mais... Lembra-te do céo da Italia, que todos dizem ser formoso, e de que nosso filho nascerá sob o céo d'esse bello paiz Deus ha de protegel-o. Lá viveremos{123} todos n'uma só felicidade... Mas não chores, Rosina, que eu sinto despedaçar-se-me o coração...
Foi chegado o momento da partida.
Rosina subiu a escada de portaló amparada nos braços de Graça Strech. Dir-se-ia um cadaver que se destinava a uma sepultura distante.
Os passageiros que estavam no convés pareceram commovidos de tão doloroso espectaculo. Um d'elles, que era musico napolitano, escondia contra a harpa o rosto brilhante de lagrimas.
Graça Strech viu-o chorar e disse de si para si:
—O mais desgraçado é aquelle, porque já desaprendeu de consolar.
E dirigiu-se a elle:
—Dá-me licença que o interrogue? perguntou.
—Da melhor vontade, respondeu o menestrel.
—Vae só?
—Infelizmente vou... Deixei um filho morto em Portugal. O rapaz era fraquito, e não pôde aguentar-se. Desde que me elle morreu, fiz voto de voltar a Italia. Mas quem póde agora ir por Hespanha com estas malditas guerras, que nem n'este bom paiz de Portugal deixam ganhar a vida? Juntei tudo o que podia, consegui obter uma reducção na passagem, e aqui vou eu com a minha harpa, sem o meu filho.
E cada vez luziam mais as lagrimas nos olhos do italiano, que parecia não ter ainda cincoenta annos, posto lhe alvejassem já os cabellos.
—Sente-se, senhor...
—Pietro, acudiu elle com a celebrada vivacidade napolitana, se bem que lhe soluçasse a voz commovidamente.
—Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o no coração. Vim aqui para lhe pedir um grande favor. Tem de ser sua companheira de viagem aquella desgraçada rapariga franceza que ali vê...
—Franceza! atalhou admirado o italiano.
—Sim, franceza. É um mysterio cuja revelação iria augmentar a sua maguada compaixão, meu bom Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a pobresinha é muito infeliz, e quem lh'o pede não é menos infeliz do que ella...
O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu barrete de gomos, e disse:{124}
—Fique descançado, senhor. Pela memoria de meu filho lhe juro que a tratarei a ella como se fôra elle mesmo. O meu coração até agradece á Providencia esta inesperada companhia que me dá. Corpo di Baccho! que eu estava aqui triste, triste, que já mal podia commigo...
—Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria commoção Graça Strech.
—Vá buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha harpa está habituada a chorar; eu a farei chorar mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova filha vae triste, eu a despertarei: Carina! E o canta-storie sempre ha de saber alguma napolitana para cantar-lhe.
Abeirou-se Graça Strech de Rosina. Ella tinha os olhos postos na superficie do mar, immoveis e desluzidos, e deixava rolar as lagrimas livremente pelas faces, como se já não tivesse vida para enxugal-as.
—Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com voz que mal se percebia.
Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria inconsciente.
—Rosina! tens ali um companheiro de viagem, que me pareceu tão desgraçado como qualquer de nós. É musico italiano. Volta a Italia porque lhe morreu em Portugal o filho que o acompanhava. Já vês que deve ser infeliz. Levanta-te, anda para ao pé d'elle. Anda, Rosina, minha boa amiga, minha desgraçada irmã. Tem fé, tem animo, já que eu sinto perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou confiar-te o meu thesouro, Rosina, o meu thesouro que tão mysterioso te pareceu, e que tanto te fez soffrer... Guarda este annel de minha irmã... Deus sabe se eu algum dia fiz tenção de o tirar do dedo! Que m'o tirassem depois de morto, pouco me importava. A minha tenção era morrer com elle. Mas eu amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes. Elle já me não póde recordar agora a minha vingança... Quando nosso filho crescer mette-lh'o no dedo, e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do annel mysterioso.
Rosina olhava para Graça Strech em dolorosa suspensão. Pareceu accordar, porém, quando sentiu na mão o contacto do annel.
E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente,{125} como se fosse para ella uma reliquia mais valiosa do que a madeixasinha de seu pae.
—O que eu soffri por elle, por este annel! disse ella soluçante. Agora o levo commigo, e com elle a tua alma... Senta-te aqui, José, ao pé de mim, não me fujas ainda, que o navio não parte por ora... Lembra-te que esta separação póde ser eterna...
—Eterna! repetiu estremecendo Graça Strech.
—Não, não ha de ser, Deus ha de conservar-nos a vida que nos é mais precisa do que nunca... Mas bem sabes que eu quero gravar bem na memoria as tuas feições, uma por uma, todas, porque te quero ter presente a toda a hora, contemplar a cada instante o teu retrato, tão fiel, tão fiel, que me pareça estar-te vendo... Bem sabes que é uma illusão de que preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me desalentar, se succumbir á saudade,—e baixou timidamente a voz—quem ha de velar por nosso filho, soccorrel-o, beijal-o, amal-o?...
N'este momento deu a sineta de bordo signal para que descessem as pessoas que não eram passageiros.
Graça Strech, não tendo já forças nem coragem para levantar Rosina, fez signal ao italiano para que se aproximasse.
Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao pé de Rosina, e relanceou a Graça Strech um olhar que parecia dizer: Póde ir.
Rosina escondia o rosto entre as mãos, e soluçava offegante, estrangulada a voz na garganta.
Um dos marinheiros veiu, por ordem do capitão, lembrar a Graça Strech que já tinha dado o signal de bota-fóra.
—Eu vou... respondeu elle machinalmente sem poder desfitar Rosina, e quasi sem força para mover-se.
E, lançando a mão á corda, desceu oscillando como estonteado por uma violenta vertigem.
Na Occasião em que o capitão passava por deante de Pietro, o italiano levantou-se e sorrindo cortezmente lhe disse:
—O capitão dá-me licença que toque na minha harpa o hymno da partida?
O capitão sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se para Rosina, exclamou:
—Carina! A minha harpa vae ser de hoje em{126} deante a nossa unica consolação. É preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae a Capuana para não sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles.
E começou a entoar, acompanhando-se, uma canção napolitana que poderia traduzir-se assim:
Esta tarde na ribeira
Uma hora passeei.
Meu pensamento, occupaste-o
E tanto pensei em ti,
Que o coração lá perdi...
Tu vieste e apanhaste-o.
Ensina-me pois agora
A desfazer a meada.
São parciaes os juizes,
E a justiça demorada.
Bem sei que perdia a causa...
Que meio? Lembra-te algum?
Tu lá tens dois corações,
E eu cá não tenho nenhum.
Para que nos custe menos
A resolver a questão,
Expliquemo-nos. Ha males
Que ás vezes nos trazem bens.
Vamos fazer um ajuste:
Tu dás-me o teu coração.
E guarda o que lá me tens.
............................
O brigue navegava já. E a musica parecia adormentar aquelles dois desgraçados: um porque levava seu filho; o outro porque o deixava ficar.{127}