O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular

Alberto Pimentel · Capítulo 6 de 22

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O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular

V O juramento de vingança

V

 

O juramento de vingança

 

As casas da rua nova do Almada estavam pela maior parte desertas.

Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo offereceram. Os habitantes fugiram deixando abertas as portas, de modo que, á hora em que começou o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente. Poucos foram os predios que lhes deram o breve incommodo de forçar a entrada. A este numero pertenceu, porém, a casa onde se conservou, entregue aos seus pavores, a familia Strech. José Maria, ao entrar açodado pela aproximação dos invasores, appellou para o ultimo recurso de defeza que lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os francezes se domiciliariam nos predios devolutos e de que não porfiariam em forçar uma entrada encontrando abertas tantas portas. Não pôde imaginar n'esse momento de suprema preoccupação que meditassem a pilhagem e a carnificina que, passadas horas, consummaram.

Correu, pois, a procurar a irmã, a mãe e a avó, que, ouvindo passos apressados, e no presupposto de serem os de algum soldado francez, romperam em gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos seus esconderijos.

—Augusta! Augusta! Minha mãe! Avósinha! apostrophou precipitadamente José Maria para serenal-as e correndo pelo corredor.

—José! José! exclamou uma voz que parecia soar das profundezas de um tumulo.

E logo dois braços tremulos de commoção enleiaram o moço, e uns labios gelados de mortal frialdade lhe procuraram as faces, e um novo grito de dolorida alegria lhe estrugiu aos ouvidos.

E immediatamente soaram passos, que elle conheceu:{39} a mãe e a avó, seguindo a pobre menina que as precedera, correram ao encontro de José Maria.

Augusta, apertando-o contra o peito, alternando beijos e olhares por egual frementes, porque o sangue congelado no coração parecia, acordado de subito, correr em turbilhões ao cerebro, não lograva articular palavra, tão violenta era a sensação que estava experimentando.

Não assim, porém, sua mãe, que, parando como que fulminada á porta, tivera comtudo voz para perguntar ao filho enleiado pela irmã:

—E... teu pae?

—Lá ficou ainda a combater com os ultimos valentes. Bem póde ser que a Providencia o tenha salvado como a mim me salvou. O cobarde fui eu, sim, fui eu, porque me lembrei de ti, minha irmã, e de si, minha mãe, e...

Não pôde completar a phrase, porque de repente foi chamado á realidade pelo estrepito que a soldadesca franceza fazia na rua.

—Retirem-se! escondam-se! gritou elle. São os francezes, bem os vi, são elles! Esconde-te, Augusta, minha mãe, minha avó...

N'este momento estremeceu o predio nos alicerces como se a porta tivesse soffrido o embate de um ariete.

—Que é? Onde é? perguntou offegante a menina, que de novo descorára até á lividez do cadaver.

—São elles que forçam a porta, naturalmente... Eu fechei-a quando entrei, sim, eu fechei-a.

—E estava aberta! Foram os criados quando fugiram! acrescentou a avó.

—Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me decerto entrar. Perseguem-me! tornou afflicto José Maria.

E, após segundo estrondo, soaram no portal e na escada os passos da soldadesca que entrava.

Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma pôde fugir; todas como que ficaram chumbadas ao pavimento.

E os francezes entraram vozeando, praguejando, e logo assomaram á porta muitas cabeças cujos olhos chammejavam de cubiça e sensualidade.

Então José Maria, como galvanisado de subito, adeantou-se para a porta, estendendo o braço para{40} defender as trez mulheres e, quando ia talvez a balbuciar uma supplica, caiu desamparado, vibrando um grito e recebendo no peito a ponta de uma bayoneta, cujo golpe fôra mais doloroso que profundo.

As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma só, soltaram uma d'essas exclamações impossiveis de descrever, apenas comparavel ao grito lamentoso da araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho, porque uma ave de rapina lhe arrebatou a prole.

E a soldadesca entrou de roldão na sala, affastando com o pé o corpo de José Maria, sedenta de prazer e rapina.

Para os que suppozerem que exageramos com toques demasiado sombrios os horrores que se succederam á invasão do Porto, vamos copiar apenas algumas linhas da Historia da guerra civil, de Soriano:

«Para cumulo de todas estas desgraças a cidade foi posta a saque, por castigo da sua resistencia, como em casos taes se costuma praticar, saque que começou pelas onze horas do dia, levando os vencedores a todas as casas de habitação, a par do terror que infundiam, o roubo, a violação e a morte, excitados de mais a mais para isto por encontrarem, segundo alguns dizem, varios prisioneiros francezes sem olhos, com linguas cortadas, e os membros truncados ou rasgados.»

Alguns escriptores o dizem, em verdade; um d'elles é o sr. Claudio de Chaby que, nos seus Excerptos historicos, refere:

«No transito das ruas e praças encontraram os soldados de Soult alguns dos seus camaradas, que nas differentes refregas tinham os nossos aprisionado, exercendo n'elles as sevicias da mais repugnante crueza: a uns tinham cortado a lingua, arrancado a outros os olhos ou decepado os membros!—O effeito natural da observação de taes crueldades, junto á tambem natural disposição de espirito dos invasores em taes circumstancias, levou estes á pratica de vingativos e deploraveis excessos, de assassinato, roubo, violencia e profanação!»

O mais que se passou na casa da rua nova do Almada, depois que a soldadesca entrára, não o soube exactamente José Maria que, ao cerrar da noite, tornára a si, depois de haver perdido muito sangue pelo{41} golpe que recebera no peito. Foi de tempestade na terra e no céo essa noite, como podem confirmar os poucos que se lembrarem d'ella.

Tamanho era o temporal havia dias imminente ao Porto, que trinta navios inglezes, carregados de vinho e outros productos, impedidos de sair das aguas do Douro pelo mau estado da barra, caíram em poder do marechal Soult, bem como a polvora guardada n'um vasto armazem, e 196 peças de artilharia, recolhidas nas differentes baterias da cidade.

Algum tempo esteve José Maria firmado sobre o braço direito, que d'instante a instante fraquejava, procurando orientar-se e recordar-se.

Era profundo o silencio na casa toda.

Dir-se-ia que despertava n'um tumulo.

Assim que pôde rememorar o que se passára até ao momento de ser ferido, entrou de chamar em altas vozes a irmã, a mãe e a avó.

Apenas porém respondia ás suas afflictivas exclamações o chofrar dos aguaceiros nas vidraças.

Ergueu-se com muito custo, atabafando o sangue com a roupa, e começou a sondar a escuridão, procurando alguem.

Não tardou que tropeçasse n'um obstaculo que os pés encontraram. Curvou-se e tacteou. Encontrou vestidos de mulher. Estendeu a mão e apalpou um rosto. Até pelo tacto conhecemos os nossos. José Maria estremeceu como se tivesse recebido em pleno peito um novo golpe de ferro, e rugiu d'afflicção e desespero. Não podia duvidar. Era o rosto de sua irmã. Parecia morta! Entrou de agital-a, de chamal-a. O mesmo silencio, a mesma immobilidade!

—Mortal morta! rouquejava elle convulso.—Minha mãe! minha avó!

E unicamente lhe respondia a chuva a fustigar a vidraça.

Occorreu-lhe porém que, como se deu com elle, podia ser que sua irmã estivesse apenas adormecida em deliquio.

—Ella é tão delicada! apostrophou-se elle. Desmaiou talvez. Julgaram-n'a morta. Deixaram-n'a. Mas minha mãe? E minha avó?

Era preciso tirar-se d'aquella duvida horrivel.

Sondando as trevas, saíu tremendo, a procurar luz.{42}

Momentos depois voltava cambaleante á sala e, levantando una candieiro de latão á altura da cara, reconhecia trez cadaveres.

 

N'essa mesma noite, e a essa mesma hora, ruidosamente se banqueteavam n'uma taberna do largo da Lapa, ebrios de vinho e victoria, alguns soldados da divisão Delaborde.

Comia-se, bebia-se, fumava-se, cantava-se. Era a celebração solemne d'um dia de saque, que requeria uma noite d'orgia. Algumas vivandeiras francezas cantavam em côro, no idioma patrio, e reclinadas aos hombros dos soldados, uma canção marcial, cujo estribilho podia ser traduzido d'este modo:

Viva a França! viva a França!

Que triumpha na matança!

Rataplan!

Um dos soldados; de olhar scintillante e fartos bigodes retorcidos, chasqueava na sua lingua natal com uma das vivandeiras que se lhe queria escapar dos braços:

—Oh! Por Deus, que era bem mais bonita do que tu!

—Quem? perguntou d'esguelha a vivandeira.

—A portugueza que me resistiu.

—E que tu mataste?

—E que eu matei para que não deixasse de resistir a outro.

—A pobre rapariga!

—Pobre rapariga! d'aquella edade deve ter morrido pura! Tu não morres assim, ma petite chienne! Par Dieu!

—Cruel!

—E o caso é que quasi do mesmo golpe derrubei as duas mulheres que a defendiam e abraçavam. Um soldado do imperador livra-se depressa ainda que seja d'um cento de mulheres.

—Cheiras a sangue! exclamou a vivandeira forcejando por desprender-se dos braços do soldado.

—Acodes pelo teu sexo! O que me não perguntas é quantos homens matei! Por Deus! que era precisa a vingança. Estes perros d'hespanhoes, que se chamam portuguezes, não nos queimaram a alma porque{43} não puderam. Atiravam-nos desesperados! E matavam os nossos emissarios! e mutilavam os nossos irmãos! Quantos centos de francezes imaginas tu que morreram hoje? Não se mata impunemente um francez como se mata um cão. E desde que entrámos em Portugal quantos não teem ficado para nunca mais voltar a França! Vingámol-os; estão vingados! Vive l'empereur! Vive le marechal! Vive la France!

E voltando-se para outra das vivandeiras, que estava proxima, jogou-lhe esta phrase intimativa:

—Esta é minha; canta tu.

E logo, por entre a vozeria, se ouviu cantar;

Viva a França! viva a França!

Que triumpha na matança!

Rataplan!

 

Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da familia Strech.

José Maria esteve contemplando-os mudo, absorto, authomatico. Dir-se-ia que a intelligencia se lhe havia paralysado, e o coração havia adormecido. Era um deliquio, como o que fôra consequencia do ferimento, mas muito mais horroroso de certo, porque os olhos tinham vista para a realidade, embora o cerebro não tivesse actividade para comprehender.

Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente, se bem que o desalinho dos vestidos e dos cabellos fosse claro indicio de lucta.

José Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as e, porque o coração humano é tão valente ás vezes que se excede a si mesmo, resistiu áquella dôr incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do seu pensamento o auxilio de uma ideia.

N'aquella immensa e tenebrosa cerração era preciso um raio de luz, ainda que fosse sinistro como os clarões sulphureos dos mysticos paineis que representam o inferno.

E verdadeiramente infernaes foram os horrores d'esse dia.

Se o leitor, apesar das indicações historicas de que me tenho soccorrido, imagina que estou phantasiando negruras para architectar um romance tenebroso,{44} achará no seu proprio espirito a convicção da verdade, se se concentrar por um momento deante do tosco e funebre quadro, allusivo á invasão dos francezes, que pende da muralha da Ribeira, a dois passos da ponte pensil.

Ahi, á luz das lanternas que descrevem na escuridão da noite duas zonas luminosas, ouvindo o ruido triste do Douro que lhe rola aos pés, vendo a pequena distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos espectros sombrios, as armações dos navios fundeados, ahi, dizia eu, comprehenderá todas as angustias, hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento.

A inscripção do quadro nem por singela deixa de convidar á meditação:

 

«Pelas almas dos que falleceram na ponte do rio Douro na entrada dos francezes no anno de 1809, um Padre Nosso e uma Ave-Maria.»

Ali fui eu muita vez, pela calada da noite, como a procurar a triste inspiração para escrever as primeiras paginas da historia da familia Strech. Estes horrores poderão hoje parecer sinistramente romanticos, mas uma hora só de recolhimento em face do quadro da Ribeira basta a acordar em nós a consciencia historica d'essa epoca calamitosa.

Para os que morreram na catastrophe da ponte pede o rotulo uma oração, mas quantos não morreram então sem oração e sem mortalha, quantos não agonisaram em ancias que não foram mortaes, sem a mortalha que desejariam, e sem uma oração de que blasphemariam!

Ó Providencia! só tu sabes o segredo de todas as maguas, só tu podes contar as bagas de suor que ressumbram na fronte dos infelizes que tu não matas logo, para que não morram em desespero sacrilego!

E José Maria não morreu.

Por um esforço intellectual, que só a Providencia podia permittir a um soldado ferido, quando já as{45} trevas da loucura procuravam cingir-lhe o cerebro escandecido, conseguiu encontrar uma recordação, se bem que a principio tibia e vaga como o diluculo que se vae alargando e colorindo pouco a pouco até chammejar no céo.

E tambem essa luz que se fez no espirito do pobre moço lhe queimára a intelligencia, como se fosse labareda, mostrando-lhe as ruinas do passado ainda fumegantes de um incendio recente.

Eram aquellas as cinzas da sua felicidade...

Estavam ali espalhadas pelo turbilhão da guerra, retintas de sangue, a clamar vingança.

E os seus beijos cariciosos e ardentes, e as suas palavras ao mesmo passo desalentadas e calorosas não puderam, depois que inteiramente se recordou da realidade, galvanisar os trez cadaveres, animar os trez corações paralysados, descerrar os labios da mãe, da irmã e da avó, para sempre mudos, para sempre adormecidos.

—Pobresinhas!—pensava elle—deixaram-se talvez morrer por me supporem morto! E antes eu o estivesse, que já teria soado a ultima hora da minha triste mocidade. E mata-se assim a mãe, a dois passos do filho! E não se respeitam os cabellos brancos da velhice! nem a belleza e a virtude que teem duplo direito á vida! Mas, agora reparo eu, aqui estão patentes e irrecusaveis os signaes da lucta... é que se disputavam o sacrificio da morte... ou... suspeita horrivel! morreram talvez para defender a virgindade de uma só! Dize-me, ó minha boa irmã, ó minha doce amiga, se isto não é um sonho atroz da minha desvairada cabeça! Responde, Augusta, sou eu que te peço, eu, o teu irmão, o teu José... E não fala, e não responde! Está morta! Mataram-n'a elles, os malditos soldados d'esse leão indomavel da Corsega para quem todo o mundo é pequeno, todo o sangue pouco! Acaso não se saciava a tua sanha, leão, sem a vida d'estas trez pobres mulheres, que nunca te amaldiçoaram, que nunca levantaram um brado de justa indignação contra a tua ambição desmedida! Eu é que devia morrer, sabes tu? Eu sim, porque fiz guerra de morte aos teus soldados, porque as minhas mãos cheiram ainda a polvora com que os fuzilei. Eu sim, porque a minha morte seria uma represalia; mas a morte d'estas trez mulheres, timidas{46} e indefesas, não foi uma represalia, foi uma infamia...

E, extenuado d'esta subitanea exaltação, pendeu a fronte, como se lhe faltasse a vida para tamanha angustia, porque o sangue perdido era copioso. Entretanto continuava a tempestade e, confundido com o estrepito da chuva, começou-se a ouvir o toque dos clarins nos postos dos invasores.

José Maria pareceu despertar de subito, acordado por essa sinistra linguagem dos acampamentos:

—Sois vós! Podeis estar tranquillos, que a esta hora não haverá um só braço que tenha a energia de vos acommetter no vosso glorioso descanço. Tudo são orphãos e viuvas, que pranteiam cadaveres. Descançae, descançae, que muita coragem vos deve ter custado o assassinio de mulheres inoffensivas como estas! como todas! Oh! mas ámanhã a vingança acordará terrivel, e então vos pedirá contas das vossas atrocidades e das vossas infamias. Sim, ámanhã, nós todos, unidos por commum desgraça, seremos um só inimigo, porque a nossa vingança é uma, mas não imagineis que tendes a derrubar um só inimigo, porque serão muitas as cabeças a decepar, muitos os portuguezes a vencer... Onde houver um portuguez, haverá um soldado, porque elle pelejará por desaffrontar a memoria dos seus parentes, dos seus amigos, d'um filho, d'uma irmã...

E curvando-se carinhoso para o cadaver d'Augusta, e tirando-lhe delicadamente do dedo o annel com que ella havia morrido:

—E eu vingarei a vossa memoria, minhas santas amigas, e vingarei a tua innocencia, minha querida irmã... Por este annel o juro, que será o meu fiel companheiro, talvez o unico que me seja dado conservar até a hora da morte... Beijal-o-hei antes d'entrar em combate, e elle me dará a coragem dos valentes; elle será a minha égide protectora se a morte me quizer arrebatar a minha vingança..... Que Deus me oiça, Augusta. Sobre o teu annel, que nunca te desacompanhou, faço este juramento solemne, que jámais quebrarei...{47}