O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular

Alberto Pimentel · Capítulo 20 de 22

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O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular

XIX A terra da promissão

XIX

 

A terra da promissão

 

Graça Strech chegou a Pariz no inverno de 1816.

Estavam n'essa occasião agglomeradas na capital da França as andorinhas errantes da musica das ruas, que todos os annos saem do vasto ninho da Italia, a percorrer a Europa inteira. De todos os virtuosi que n'essa occasião poisavam em Pariz, apenas cinco ou seis seriam francezes, e um só era portuguez, Graça Strech.

A guitarra, melancolicamente tangida por elle, cuja dolorosa physionomia não era menos melancolica do que a sua guitarra, despertava geral attenção. Acrescia a circumstancia de que esse instrumento não era dos mais conhecidos na orchestra dos musicos ambulantes. Tudo isso concorreu para o éxito. Graça Strech tinha sombrios alheamentos emquanto estava tocando. Caíam-lhe em desalinho os cabellos a esconder a fronte pallida e cadaverica. Era uma bella cabeça d'artista em que muitos pintores fizeram reparo. Um estudante d'esculptura chegou a convidal-o para modelar-lhe o busto.

Graça Strech respondeu:

—Agradeço a sua amabilidade, senhor. Mas eu sinto-me de tal modo cançado, que não póde ser longa a minha vida. O senhor é muito moço ainda; póde esperar. Se eu morrer em Pariz, aproveite a minha mascara.

A imprevista sobranceria d'esta resposta causou sensação. Passou de bocca em bocca, e os homens d'espirito começaram a olhar com certo interesse respeitoso para o guitarrista estrangeiro. Uma noite, no café Evezard, á esquina do Palais National, estavam sobremodo animadas as mesas quando Graça Strech entrou. Encostou-se á ombreira da porta e começou tangendo a guitarra. Como não pedia esmola,{166} interrompia-se a miudo para receber os óbolos que lhe davam os habitués que entravam e saíam.

Na primeira mesa á entrada estavam oito francezes, todos rapazes mais ou menos artistas, que se calaram a ouvir attentamente o guitarrista, tanto mais que já o conheciam de nome. Como fixassem a vista em Graça Strech, e falassem visivelmente a seu respeito, procurou elle ouvir, dando-se o maximo disfarce, tudo quanto diziam.

—É assombroso! exclamava um, cuja pallidez denunciava uma cabeça febrilmente enthusiasta.

—Depois da pequena da harpa que esteve o anno passado em Pariz com o velho das barbas brancas, ainda não vi maior prodigio! acrescentou um cuja physionomia denunciava um caracter franco e compassivo.

—Que pequena era essa? perguntou no grupo um commis-voyageur.

—Era uma pequenita que parecia um passarinho encostado a uma harpa. Acompanhava-a um velho de cabellos brancos, a quem chamava avô, e que lhe transportava a harpa. Impressionava o contraste. Seria difficil dizer qual d'elles poderia melhor com a harpa, se o avô ou a neta. Elle tinha tanto de velho como ella de pequenina. E depois que tristeza dava o vêl-a vestidinha de preto! Perguntava-se-lhe por quem andava de luto:—Por meu pae e por minha mãe—respondia ella com certa vivacidade triste, que enternecia a lagrimas. Tu copiaste o grupo, pois não copiaste, ó Maubert?

—Copiei, respondeu o pallido rapaz que primeiro falava, e que parecia absorto na contemplação do guitarrista.

—Sabes então mais alguma coisa a respeito da pequena e do velho?

—Pouco mais sei. O avô parecia empenhado em não contar nada. Nem o encanto do mysterio lhes faltava, a elles, áquelle soberbo inverno coberto de neves e áquella infantil primavera que parecia vegetar no gelo do avô! Quando lhes perguntei os nomes para intitular os bustos, respondeu-me o velho:—Queira pôr—Pietro, sonatóre di arpa; Augusta, sonatrice, lá piccola, nipotina mia.— Fiquei triste com a mysteriosa singelesa da resposta. Previ um romance. Que querem? A doida da minha phantasia! Apertei{167} com o velho, fiz-lhe promessas para que me contasse a sua. Não consegui nada. Lá partiram ambos para Inglaterra.

—Olha para o guitarrista! exclamou o de mais compassiva physionomia.

Olharam todos. Graça Strech estava sendo inconscientemente o alvo de todas as attenções. Havia-lhe descaido o braço; subitamente a guitarra emmudecera; os cabellos do guitarrista, longos e annelados, acompanhavam, pendidos a um lado, a inclinação da fronte, e os olhos brilhavam através dos cabellos com anciosa vivacidade. Era inutil dissimular: Graça Strech estava ouvindo o que diziam na mesa proxima.

—Escuta o que nós dizemos! ponderou o que estivera contando a historia do velho e da criança.

—É verdade!

—Não se póde duvidar!

—Lá começa a dedilhar de novo... Deu tino de que fisemos reparo. Toca pianissimo para ouvir o mais que dissermos.

—É certo! Che dolcemente!

—Que terá elle comnosco?

—Talvez não seja comnosco; talvez seja com o velho e a creança, apostrophou o habitué-artista.

—Ora, essa cabeça! Tu encontras romances em toda a parte.

—Espera! tornou observando o esculptor. Ia jurar que os olhos d'este homem são os da pequenita! Que semelhança!

—Oh! oh! continua o romance! Esse molde de novellas é velho, Maubert! D'esta vez o pae, que era julgado morto, não volta da Terra Santa. Corre atraz da filha, que ao partir para o combate entregára ao avô. Tem-n'a procurado e não sabe onde pára. És tu, Maubert, que vaes desfazer o mysterio. A Providencia encarregou-te de dizeres: Pára! ao Ashaverus do nosso seculo! Oh! oh!

E os outros gargalharam em côro:

—Oh! oh!

—És tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a Terra da Promissão! disse um.

—Que elle nos está ouvindo é certo, porque todos repararam! exclamou o de mais dôce semblante. E talvez seja algum desgraçado. Este mundo dos virtuosi{168} das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris no inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes vêr a alma. Alguns d'elles parecem conversar com a harpa e com o violino: é porque teem que lhes dizer. Decerto que não são alegrias. Póde ser alegre quem atravessa os Alpes a pé, e dorme para ahi em qualquer canto, e vae correr a Europa inteira unicamente fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia das cordas? Creio que não. Parecem despreoccupados, parecem, porque emfim elles teem das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o filho a um passarinho, que elle, com o coração despedaçado, tambem esvoaça em redor do ninho vasio. Pensam vocês que nem ao menos lhes ha de doêr a ausencia? La rimembránza, meus amigos, la rimembránza chora muita vez nas harpas d'elles. Oh! eu creio-o! E nós, apesar de nos deliciarem os ouvidos, olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos: Cá estão! Quando chega a primavera exclamamos: Lá fôram!

—Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud. Maubert prefere a phantasia e o maravilhoso.

—Olha! lá está ouvindo o guitarrista outra vez!

—É notavel! Que curiosidade!

De repente interromperam-se os commentarios. Graça Strech aproximou-se de Maubert pedindo-lhe o obsequio de lhe dispensar dois minutos d'attenção em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na voz, tão claros indicios de grande agitação, que Maubert immediatamente se levantou. Os outros, enquanto os dois sahiam a porta do botequim, ficáram dizendo:

—Este Maubert é um bibliotheca viva d'aventuras.

—Deixa lá, observára condoídamente Guillibaud. A julgar pelo aspecto do guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um romance triste...

—Se tu não havias de vir com o teu sentimentalismo!

—És melancholico como uma lagrima!

—Que não seja de vinho...

—Tens razão: as lagrimas de vinho alegram.

—São ellas de certo que vos dão essa continada alegria! disse com enfado Guillibaud.{169}

O leitor está porém impaciente de seguir Graça Strech e Maubert. Vamos-lhes pois na piugada.

Mal sahiram a porta, o guitarrista dirigiu-se immediatamente ao esculptor em correcto francez:

—Peço-lhe vivamente perdão, senhor, de o haver privado da companhia dos seus amigos, mas o que o senhor estava dizendo era tão extraordinario para mim...

—Ouvia-nos então? perguntou Maubert.

—Ouvi tudo, e incommodei-o unicamente para lhe pedir, não que me mostre a Terra da Promissão, como jovialmente disseram os seus amigos, mas, quasi o mesmo para mim, que me mostre os bustos do avô e da neta...

—Oh! isso é muito facil. Estamos a dois passos do meu atelier. Vamos lá—respondeu o enthusiasta Maubert.

Foram. Graça Strech ia concentrado, e cada vez estugava mais o passo; Maubert observava-o de esguelha e começava a achar summamente extraordinario aquelle homem, de quem se principiava a falar.

Era perto o atelier. Entraram. Graça Strech precedia Maubert, tamanha era a sua impaciencia.

—Aqui estão! disse o esculptor.

Graça Strech, relanceando aos dois bustos um olhar rapido e incisivo, vibrou um grito, ao mesmo tempo doloroso e alegre, e, apontando para o do velho, exclamou:

—É elle, é Pietro!

Depois, demorando os olhos no busto da pequenita, deixou escapar outro grito que parecia o magoado estalar de todas as cordas da alma:

—É minha filha! Não póde deixar de ser! Ca está: Augusta, sonatrice, la piccola! Chama-se Augusta! Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, já me não póde restar duvida alguma. É horrivel! Morreu! E pôde morrer sem esperar por mim! Pobresinha! Poz á filha o nome de minha irmã. Era uma surpreza que me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza, sr. Maubert, que desgraça esta! Olhe, aquella pequena é minha filha. O senhor é artista... Veja que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o senhor a modelou, pois não foi? Sim, é muito bonita! Disse então que andava vestidinha de preto? É pela mãe!{170} Pobre Rosina! Oh! eu não creio ainda que tu morresses, tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde está minha filha, senhor? Aquella não fala! Eu quero ver minha filha, abraçal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a, sim, deixe-me enganar. Bem póde ser que tambem a morte já m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se de beijos este pobre coração ha tanto tempo opprimido. Olhe que gentil cabeça! Que semelhança com minha irmã! É estar a vel-a, quando brincavamos ambos e faziamos endoidecer o capelão das Chãs. Sim, o senhor já me restituiu minha filha, mas Rosina, a minha vida, o meu amor, que é d'ella, por que não a modelou o senhor para que eu a pudesse beijar agora!

E, com o busto da pequenita apertado contra o coração, pareceu oscillar.

Maubert, que escutava commovido da enormidade d'aquella dôr, e perplexo, porque não possuia todo o segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o.

—Ah! não me roube a sua obra! exclamou Graça Strech apertando o busto cada vez mais contra o coração, que pulsava vertiginosamente. Não m'a roube. Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas não me arranque a felicidade que me deu. Isto não é um pedaço de gesso inanimado, que o senhor modelou. Não, isto é minha filha, a minha querida filha, a Terra Prometida...

E, fazendo esforço para tirar a voz que lhe faltava, acrescentou:

—Disse o senhor que o avô e a neta foram para Inglaterra, pois não disse? Bem, vou atras d'elles. Por França não tornaram a passar, ninguem mais os viu? De Inglaterra só poderiam saír embarcados. Não é provavel. Estamos no inverno. É a estação dos musicos. Hei de encontrál-os lá. Hei de ver minha filha, beijal-a doidamente, percebe? doidamente, e perguntar-lhe onde é a sepultura de sua mãe. Quero ir lá com ella, e com Pietro. Parece-me que ainda posso dar vida a Rosina! Pois ella ha de deixar-se ficar fria e calada, sabendo que eu estou ali, apenas separado por uma camada de terra?! Está morta? Que me importa a mim! Isso não póde ser obstaculo para o meu amor, para este longo amor de sete annos, que não póde acabar assim, que deve durar mais do que a vida...{171}

Maubert começava a receiar pelo guitarrista, que ficou sopitado em demorada prostração. Piedosamente o soccorreu, e quando Graça Strech tornou em si viu o esculptor curvado carinhosamente para elle.

—Muito obrigado! disse com voz flebil Strech. Muito obrigado! Ah! aqui está o busto de minha filha!...

—Que é seu, observou Maubert.

—Sim, o senhor, que é bom, que é nobre, que tem coração e talento, não podia negar esta felicidade a um pae!

—Agora, tornou Maubert, é partir para Londres. Para isso basta atravessar o canal. Está prevenido? A minha bolsa d'artista tem ainda para estas larguezas. Está á sua disposição o preciso para tão pequena viagem.

—Muito obrigado, senhor, e acceito. Aqui está o que eu tenho de meu: deu-m'o, como o senhor viu, quem entrava e sahia do Evezard. Eu não pedia, porque não era mendigo: era simplesmente um pae que ha dois annos procurava por toda a parte a sua familia. Conheciam a minha pobreza: davam-me alguma coisa, eu acceitava, porque em verdade era pobre. Agora não, agora não sou, porque finalmente achei o rasto de minha filha! Não encontro Rosina, porque a sepultura m'a roubou, mas ainda me parece que a hei de resuscitar, porque o meu amor, este amor que ainda me conserva a vida, deve realisar todos os prodigios.

O mais que se passou entre o guitarrista e Maubert não nos importa saber.

Graça Strech embarcou ao outro dia para Londres. O que se passaria na sua alma é facil de adivinhar: era o que ahi ha de mais pungente doer da saudade á mistura com o mais avido phrenesi da anciedade; era o supplicio atroz da alma que lucta com o irreparavel no ante-gosto d'uma felicidade orvalhada de lagrimas.

É preciso que um coração esteja muito retemperado pelo soffrimento para luctar, sem succumbir, com tão violentos contrastes, tão oppostos extremos, tão desencadeadas tormentas. Elle resistiu, porque havia sete annos que soffria o mais que podem soffrer homens.

Chegou a Londres.{172}

Era, como sabemos, o inverno.

Fluctuava pelas ruas e pelos cafés uma colonia de virtuosi. Gastou um dia, gastou dois, sem encontrar quem procurava. Ao terceiro, viu muita gente reunida n'uma praça. Estavam ouvindo uma harpa.

Logo um presentimento lhe alvoroçou o coração. Parou de subito, antes de romper o circulo, porque uma dôr, cruciante como o queimar de um ferro em braza, lhe atravessára o peito. Receiou morrer. Fez porém um esforço, que devia tel-o prostrado a não ser ainda aquella a hora de avistar a Terra da Promissão. Apartou febrilmente o grupo, relanceou por sobre as cabeças um olhar d'aguia, e com um só grito fez emmudecer a harpa e affastar a gente que rodeiava a harpista.

Um homem de meia edade, que não era decerto Pietro segurava a harpa, tangida por uma pequenita vestidinha de preto.

Era o mesmo perfil do busto;—assim devera ser Augusta aos seis annos. Faltava, para completar o grupo de Maubert, o original do outro busto: faltava apenas Pietro.

Graça Strech arrebatou nos braços a criança. Beijou-a, abraçou-a, acariciou-a delirantemente, soffregamente, doidamente.

E por entre beijos e abraços repetia, sorrindo e chorando:

—Sou teu pae! Eu sou teu pae! Acredita-me, Augusta; bem sei que te chamas Augusta.

A criança tremia-lhe nos braços como um passarinho que se sente comprimido, e procurava furtar as faces aos beijos ardentes do desconhecido.

—Pietro, filha, onde está Pietro?

A pequenita, ouvindo pronunciar este nome, olhou attenta no guitarrista, e respondeu com os olhos subitamente marejados de lagrimas, dando uma suave expressão de magua ao dialecto napolitano;

—Morreu! Elle morreu. Tu é que talvez sejas meu pae, porque dizia o avô...

—Que dizia o avô, filha? perguntou anciosamente Graça Strech.

—Que meu pae tinha dado a minha mãe, mia madre poverella, um presente para mim, e que se elle não tivesse morrido, como nós julgavamos, tu me conhecerias por esse presente. Se sabes o que é, então{173} és meu pae; dá-me muitos beijos que eu consinto.

É o annel, filha! Ah! é o annel que eu dei a tua mãe.

Isso mesmo! disse a criança sorrindo d'alegria. Elle aqui está...

E tirou do seio uma saquinha, pendente do pescoço, onde guardava o annel.

Trago-o aqui. Sou ainda muito pequinina, padre mio, para o trazer no dedo.

O povo, que tinha seguido todo este episodio, olhou-se admirado quando viu a pequenita tirar do seio a saquinha, e mostrar o annel.

Era que para o publico, como para Rosina, aquelle annel tinha mysterio.

Graça Strech de novo colheu a filha nos braços, de novo a beijou com os olhos razos de lagrimas, mas a pequenita, soltando-se com vivacidade, disse para o homem que segurava a harpa:

Vamos lá, Giovanni, vamos com meu pae, que não morreu!{174}