O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular

Alberto Pimentel · Capítulo 8 de 22

Páginas do PDF

O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular

VII No hospital de sangue

VII

 

No hospital de sangue

 

Oito dias transcorridos, vamos encontrar Graça Strech, sentado no catre, convalescente, se bem que muito debilitado ainda, a relêr algumas das cartas que, por piedoso interesse de Rosina, pudera guardar debaixo do travesseiro.

Os successos de tão breve curso de tempo pequena chronica requerem. Rosina tem sido para o soldado portuguez carinhosa enfermeira. Chasqueam-n'a as outras mulheres, encarregadas do serviço do hospital, de extremamente compassiva para o prisioneiro, e zombeteiramente aventam que, a julgar pelos prolegomenos, lhes não parece impossivel que o exercito portuguez inteiramente se deixe desarmar pelas vivandeiras francezas.

As almas das restantes mulheres não se levantam do nivel commum ao femeaço que segue tropa. São grosseiras, sensuaes e malevolas. Rosina respira melhor entre os soldados do que entre ellas. D'aqui uma certa rivalidade apenas contida pelo respeito com que todo o exercito acata á filha do bravo militar das Ardennas. Todavia a «gentil vivandeira», como mariposa que é, não se demora no ambiente infeccionado em que ellas respiram; evita-as como a pantanos miasmaticos, sem lhes dar a conhecer que o muladar unicamente é povoado por vermes. Passa inquieta e ao mesmo tempo cautelosa, agitando as suas azas iriadas. Atravessa o lodaçal sem tocar-lhe. Guarda para si o nectar que vae libando nas flôres perfumadas da sua phantasia. É mariposa! dizem. Concentra-se nos circulos caprichosos em que doideja. Quer adejar e sorrir. Mas para esta, como para todas as mariposas, depois do jardim, cujas flôres beijou, ha de crepitar a chamma, que será o seu ultimo beijo. Beijo de fogo, que mata. E chamaes felicidade{56} a isto! Olhaes sómente á superficie; a mariposa não é feliz porque passe adejando...

Graça Strech fez reparo no carinho da enfermeira, mórmente comparando-o ao desamor com que eram tratados os demais feridos. Não poria duvida em beijar a unica mão caridosa que se estendia para elle na solidão do mundo, se não receiasse que o odio que lhe refervia no coração contra a França lhe envenenasse os labios. E aquella mulher era franceza. Parecia-lhe que dos seus vestidos se exhalava ainda o cheiro da carnagem. Por ventura o soldado que assassinára sua irmã, sua mãe e sua avó viera adormecer tranquillo nos braços d'aquella mulher, se é que não fôra mais d'um soldado, com as mãos ainda tintas das nodoas do crime. Via n'ella a creança corrompida pela lascivia da soldadesca, e, ao mesmo passo que lhe era reconhecido, tinha por ella o desprezo que se tem pelo vicio precoce. Considerava-a uma das victimas arrastadas pelo carro triumphal do Cesar francez. Bem podia ser que n'aquelle corpo vendido ao prazer germinasse uma alma boa logo corrompida pela putrefação contagiosa da caserna. Se não tivesse por mãe uma mulher devassa, uma vivandeira, uma meretriz de soldados, que não faria mais que atirar sua filha ao berco em que ella propria nascera, poderia encontrar um marido honesto, ser o anjo do lar, divinisar-se no altar da familia, porque as mães podem considerar-se as santas da religião domestica. Mas não. Graça Strech suppunha-a a flôr do paul. Tinha para elle a belleza maculada da vegetação dos charcos. Não sabia o que era o azul do firmamento, porque só os lagos, de superficie crystallina, são espelho do céo. As flôres do paul querem viver no lodo; ella queria viver no prazer. Os beijos que recebia tresandavam ao acre do tabaco e da aguardente. Não dulcificavam; queimavam. E assim como a gente se admira de ver uma flôr, por mais desbotada e menos formosa que seja, á beira d'um monturo, assim elle se admirava de que aquella mulher tivesse nos olhos um relampago de compaixão estando habituada a viver entre soldados e concubinas. Era, a seu juizo, o ultimo lampejo da alma que bruxoleava apagada pelo vicio. Extincto o derradeiro clarão, ficaria apenas a lampada—o corpo. E elle não queria gosar; queria vingar-se. O prazer da vingança,{57} se o ha, esse anhelava-o. Mas uma mulher corrupta não podia ser-lhe instrumento sufficiente a sacial-o. Nenhum dos generaes que capitaneavam o exercito invasor teria uma filha innocente, candida, formosa? decerto não; se a tivesse, não consentiria que a soldadesca violasse as alheias. Mas se a tinha, trouxessem-lh'a, pura como estava, bella como era, que a queria polluir, e dizer depois ao pae exasperado: «Os teus soldados mataram minha irmã, que tambem era virgem; eu matei tua filha, porque a encontrei no estado de minha irmã. Ambas são mortas: isso que ahi está já não vive.»

A toda a hora, tudo ali lhe recordava esse horrivel drama de sangue, que reputaria ainda sonho infernal, se a memoria de trez cadaveres o não chamasse á realidade. Tudo eram mulheres mancommunadas com os invasores, tudo feridos e prisioneiros, que de continuo amaldiçoavam, esporoados pela dôr physica, a França e o Corso. A lingua que se falava era a d'ellas, mesclada de raras palavras hespanholas para melhor se fazerem entender dos que não tinham a illustração bastante para comprehendel-as. Não será preciso observar que Graça Strech não desconhecia o idioma francez.

A principio confundiam-se-lhe no cerebro enfraquecido todas as sinistras visualidades d'aquella tormentosa phase de sua vida. Depois, á medida que ia cobrando forças, não só entrou de raciocinar ácerca de Rosina, como lhe acudiu a lembrança de seu pae, cuja morte só o tempo comprovára, e a consciencia da sua propria situação. Estava prisioneiro, guardado á vista por sentinellas francezas, e todavia havia jurado vingar a morte da sua familia. Esta idéa infernou-lhe as primeiras horas de lucidez. Era impossivel despedaçar as cadeias, romper por entre as sentinellas; não queria de modo algum expôr-se á morte que o roubaria á vingança. E o sentir no dedo o contacto do annel, em que se coagulára uma gota de sangue seu, ou de sua irmã, exasperava-o ao extremo de cair prostado no leito.

N'estes lances acudia meigamente Rosina Regnau, chamemos-lhe assim, a soccorrel-o com notavel dedicação. Umas vezes a repellia elle com ingratidão brutal, quando a accentuação franceza lhe coava ás entranhas estremecimentos de raiva, outras fitava na{58} vivandeira o olhar amortecido como a dizer-lhe que a prostração seria passageira. Na vespera do dia em que estamos, teve Graça Strech uma idéa que para logo reputou auxilio providencial. Lembrou-se de que só por intervenção de Rosina poderia evadir-se do hospital de sangue. Tratou pois de corresponder á solicitude com que ella o distinguia, de se mostrar reconhecido, de occultar o seu pensamento de vingança sob a mascara de ternura. Immediatamente o dominou este proposito, e a si mesmo prometteu nunca mais receber Rosina com intermittencias de rancor ou azedume. Difficil era o cumprimento d'esta promessa. Não se mascára facilmente o coração.

Relia elle, como dissémos, as cartas de sua irmã. Umas eram queixumes de rôla solitaria confrangida da tristeza alpestre das Chãs; outras eram hymnos de esperança, votos de felicidade commum, vagas alegrias dos sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se a mulher; n'outras a creança. Umas eram a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a tristeza d'uma nuvem em céo d'abril; estas eram um raio de sol doirado pela primavera... Ou antes, como o leitor poderá classifical-as, as primeiras eram o presentimento da desgraça imminente, as ultimas eram o cantico do anjo que punha os olhos no céo, sua patria.

Vejamos:

«30 de novembro de 1807.—Meu irmão.—Não sabes como soffro horrivelmente, receiosa dos perigos que virão. A avosinha tambem está muito afflicta depois que os francezes entraram em Abrantes. Já cá sabemos da partida da familia real, apezar de tu, grande dissimulado, m'o não haveres dito! O padre capellão anda sempre a contar dinheiro e a ralhar com os abegões. Isto é uma tristeza! Quem nos vale a ambas, a mim e a avósinha, para nos tranquilisar, é o Teixeira. Eu, por mim, peço todos os dias a Deus que não aconteça mal algum aos portuguezes...»

«18 de setembro de 1808.—Meu José—Graças a Deus, que se dignou ouvir as minhas continuas orações! O Teixeira esteve hontem á noite a contar-me tudo. Até que emfim está a patria livre outra vez, sem haver acontecido desgraça de maior á nossa familia. Queira Deus que continue a paz para que tu possas vir vêr-me brevemente. A noticia do Teixeira{59} deu-me grande alegria, meu José. Reconquisto de novo a felicidade! Eu creio que não tenho coragem para soffrer... Dá um beijo muito demorado á mamã e um abraço muito apertado ao papá. A avósinha diz que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha lá... logo que possas. O beijo á mamã que seja muito longo, muito longo... Não te esqueças. Tua—Augusta.»

Graça Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas ao lêr estas cartas, especialmente a ultima. Estava alli todo o coração de sua irmã, a alegria da avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida dos seus negros receios, phantasticos uns, justificados outros.

Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme ser importuno, Rosina Regnau, e com encantadora timidez perguntou:

—Chorava?

—Um soldado portuguez não chora nunca, respondeu Graça Strech com doçura meiada de altivez e fingimento.

—São menos felizes as vivandeiras francezas, contestou ella com sincera simplicidade.

—Por quê?

—Porque choram ás vezes.

—Ainda a não vi chorar!—E, como se instantaneamente deixasse resfolegar o rancor latente no coração, acrescentou:—A polvora queima os olhos e o coração, e Rosina é quasi um soldado... francez.

—Olhe que se contradiz! observou ella maviosamente.— Esquece-se de que tambem é soldado e chora...

Graça Strech caiu em si e deu-se pressa em attenuar o mau effeito das suas palavras:

—Tem razão. A desgraça dá esta incoherencia aos pensamentos...

—Julga-se então muito desgraçado?

—Pungente ironia que só pode vir... d'ahi! retrucou sobremodo exaltado o convalescente. Pois pergunta-se a um prisioneiro, a um ferido, a um homem mil vezes deshonrado, se é infeliz? Onde aprendeu esse cynismo de vivandeira? Onde havia de ser! Na taberna e no quartel. Só lá é que se fala assim...

E, como ella chorasse á beira do catre:

—Sabe que eu ainda não estou inteiramente curado,{60} Rosina? Parece-me que deliro ás vezes! Agora delirei eu. Não... não delirei. Conheci que era mais piedosa do que as outras mulheres... Quiz ver até onde chegava a sua sensibilidade... Perdõe-me a experiencia... Vejo que ainda tem lagrimas... sim... tem lagrimas... não posso duvidar... está chorando!

—Não seja mau para mim, soluçou Rosina Regnau. Eu tive pena de vêr o senhor a lêr e a chorar... De mais a mais fui eu que lhe dei as cartas para a mão no dia em que o senhor veiu e parecia pedir-m'as... Pois não se lembra?

—Não. E viu-as alguem? leu-as alguem?

—Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava, porque o senhor, quando lh'as dei adivinhando de certo o seu pensamento, olhou para mim...

—Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas...

—Isso comprehendi eu. A gente ás vezes estima qualquer cousa que não tem valor... Eu tambem tenho um d'esses thesouros que nada valem... É...—E calou-se, receiosa de proseguir.

—É?

—A madeixasinha de meu pae, que era capitão do exercito.

—Capitão? perguntou Graça Strech.

—Era capitão, senhor. Para me não deixar desamparada, entregou-me ao velho Regnau com esta madeixa que era o seu unico legado... Nada mais tinha que me deixar...—E tirou do seio a sua reliquia, sobre a qual foram cair duas lagrimas ardentes.

Graça Strech, subitamente commovido, attentou na vivandeira que tinha baixado os olhos, como se quizesse esconder o pranto.

—Ás vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar este thesouro, sobretudo se estou triste. Que mais tenho eu no mundo? Nada. Esta madeixasinha da minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e choro. Fico melhor. É tambem a minha companhia. Estas mulheres —e indicou as demais vivandeiras—nem sequer se lembram de que tiveram pae! Até lhes convém pensar que o não tiveram para não sentir atormentada de remorsos a consciencia.—Ellas querem-me mal, bem o sei. Que me importa? Eu tenho o meu coração tranquillo. Devo a Deus o haver-me protegido com a sua misericordia. Sou a filha do regimento, e ninguem offende uma filha. Estima-me;{61} estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem me lembro. Pobresinhas, que não são capazes d'uma ação boa! Vivo só, completamente só, senhor. Sou digna da compaixão de todos, acredite, porque sou infeliz; criminosa não. Meu pae, que decerto me está ouvindo n'esta hora, bem o sabe. É porque sou infeliz, que comprehendo as desventuras alheias. Pareceu-me que o senhor tinha maguas secretas. Inspirou-me sympathia. Bem sei que a minha presença lhe não deve ser agradavel, porque emfim eu sou franceza e o senhor é portuguez. Mas que culpa tenho eu de haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra d'uma vez! Ainda não vi arvores como lá! O imperador é quem manda; nós não temos culpa nenhuma: obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o mundo. E depois eu não tenho odio nenhum aos portuguezes. Até se o senhor algum dia precisar do meu prestimo... Eu não valho nada... mas verá que ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau... O que eu queria é que me tratasse bem. Não faço mal a ninguem, porque não se tira proveito nenhum de fazer mal... O senhor foi ferido, é verdade; mas fui eu quem o feriu?...

—Não, Rosina, não! atalhou Graça Strech enternecido a lagrimas. Mas feriram-me na alma, bem fundo, muito fundo... Sou um grande desgraçado. Se lesse estes papeis, que são tambem a minha unica riqueza, veria que o sou. Eu tenho apenas de meu estas cartas; Rosina tem apenas a sua madeixasinha. Somos irmãos na desgraça. Eu sou filho d'um capitão portuguez, talvez morto a esta hora; Rosina é filha de um capitão francez, que tambem não existe. Ainda n'isto irmãos! Bem sei que não tem culpa de haver nascido franceza. Perdoe-me, se a offendi... Offendi, que o sei eu. Deite tudo á conta da minha arrebatada mocidade e dos meus soffrimentos. Mas é que este abysmo cavado por Napoleão entre as duas nações é incommensuravel, acredite. O abysmo chama o abysmo... Jámais correu sangue impunemente... A guerra faz dos homens leões... E que guerra esta, santo Deus!... Zomba-se de tudo—da virgindade, da honra, da innocencia! Oh! que os seus irmãos tremam das represalias... Medonhas devem ser... Não se opprime assim um paiz inteiro... A estrada por onde fugiu Junot está atravancada de cadaveres,{62} mas ainda cabe por ella o exercito de Soult. A hora do resgate será tremenda, Rosina. Fuja, fuja emquanto é tempo, pomba que vive entre milhafres. Fuja com a sua innocencia. Eu comprehendo, eu acredito que é boa, e casta. Mas não encontrará em Portugal coração que possa acceitar o seu amor, alma que prese os thesouros da sua. E sabe por que? Porque entre um portuguez e uma franceza medeia n'esta hora uma barreira invencivel... E essa barreira está em pouco, mas não haverá ahi exercitos que a transponham. É um maço de cartas, um annel, uma madeixasinha talvez. Supponha que um homem havia ferido mortalmente seu pae... Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria; que seu pae era primeiro que tudo um soldado, e que um soldado era para elle o inimigo... Chora, Rosina! As suas lagrimas são ainda mais eloquentes que o seu silencio... Pois supponha que mataram meu pae, supponha que me retalharam a alma, que eu tenho noite e dia nos ouvidos o clamor da vingança, que eu sou um homem que já não vivo para mim, mas para os que morreram...

E, exhausto de forças, caira sobre o travesseiro, pedindo soccorro com o olhar, em que subitamente se apagaram os fogos da exaltação.

Fez-se em torno do catre o lugubre silencio dos hospitaes, apenas interrompido de espaço a espaço pelos gemidos de alguns portuguezes que anhelavam a morte, porque só n'ella encontrariam o supremo resgate.

Rosina, curvada para o doente, julgava amparar nos seus braços um homem que desejava viver para vingar a morte da mulher amada. A excitação febril do prisioneiro fazia-lh'o crer. Estava longe de suppôr que essa mulher fosse apenas irmã, ou antes que a desgraça d'esse homem fosse tamanha que tivesse de vingar a morte de uma familia inteira.

Como, porém, Graça Strech lentamente parecesse recobrar alento, inclinou-se-lhe ao ouvido e maviosamente repetiu:

—Se algum dia precisar do auxilio da pobre vivandeira, acredite que Rosina Regnau será sempre a mesma...{63}