O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular

Alberto Pimentel · Capítulo 18 de 22

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O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular

XVII Como madrugam as aves e os noivos!

XVII

Como madrugam as aves e os noivos!

 

Obtida a baixa, Graça Strech poucos dias se demorou no Porto.

Sentia-se asphyxiado na atmosphera em que respirára ao nascer. Punham-lhe medo as sombras; as ruas affiguravam-se-lhe tristes como avenidas de cemiterio. Duas vezes, alta noite, depois de dolorosissima lucta comsigo mesmo, estivera, encostado á parede fronteira á casa em que viveu os primeiros annos da vida, mergulhado em profunda meditação.

A ultima vez fôra a ultima noite que passára no Porto. O céo era d'um azul setinoso. O branco luar de agosto estendia ao longo da rua a sua claridade immovel, e parecia desenhar nos muros contornos phantasticos. Reinava na cidade o silencio imperturbavel das noites profundas. Na janella da sala onde cinco annos antes, por noite tempestuosa, jaziam tres cadaveres, luzia um reflexo mortiço como de lamparina que não tardou a apagar-se. Lembrou-se Graça Strech de que devera ser egualmente pallido o reverbero da luz que lhe tremia na mão quando contemplava os corpos inanimados das trez senhoras. Transportou-se áquelle horrivel espectaculo. Viu tudo. A mãe, a irmã e a avó estavam a seus olhos como n'essa hora tremenda. Não obstante o seu grande empenho, de pergunta em pergunta não lográra saber onde repousavam. Queria ir procurar Rosina, de quem nada sabia tambem, mas desejava despedir-se da familia que ficava, antes de partir para o seio da familia que o esperava. Não pôde realisar o seu desejo. Registos parochiaes não os havia. N'aquella immensa hecatombe da invasão, tambem as sepulturas foram invadidas sem averiguar-se por quem. Tinha{147} desesperado de conhecer a verdade, e, já que não podia despedir-se do tumulo da sua familia, fôra despedir-se do predio que ella habitára. De repente, n'uma casa proxima, perpassou uma luz. Fez reparo. Quem velaria ainda áquella hora? Deteve-se a examinar, e certificou se de que ali viviam, no anno de 1809, as duas visinhas que lhe falaram na bateria do Bomfim. Foi isto um como raio de tardia esperança. Recriminou-se pelo esquecimento de não as ter procurado logo que chegou. A desgraça havia-o desmemoriado. Atravessára o Porto como um viajante solitario atravessaria o Sahará—calado, pensativo, sem ver, por ter medo de olhar. Mas—os infelizes duvidam sempre—viveriam ainda ali? Tinha razão. Quem poderia dizer se ellas, na fuga, haveriam chegado ao seu destino, sido attingidas pelas balas ou cahido em poder dos francezes?

A estas perguntas, que a si proprio fazia, só poderiam responder indagações. Pesava-lhe todavia o ter de se aproximar de pessoas cuja conversação iria aggravar a dôr do passado. Se elle soubesse onde repousavam as cinzas da sua familia, lá iria para falar-lhes, para contar-lhes os extraordinarios lances da sua vida, para dizer aos frios restos de sua irmã por que razão não levava comsigo o annel, sobre o qual jurára vingal-a.

Augusta, de dentro do sepulchro, responderia com o perdão implorado.

Mas o que elle não queria era deixar entrever a sua dôr de modo que lh'a avivassem piedosamente, porque a sociedade não dá o balsamo da compaixão sem primeiro rasgar as feridas que a inspiram.

O desejo vehemente venceu, porém, a natural repugnancia. A breve trecho fez tenção de não desaproveitar as poucas horas que lhe restavam para colhêr esclarecimentos. Resolveu-se a esperar que amanhecesse e, como a luz parecesse brilhar com intensidade a través da janella, não se afastou. Mal começava a raiar a claridade da madrugada, apagou-se a luz, e cerca das cinco horas da manha viu Graça Strech abrir-se a porta. Sairam duas mulheres de mantilha, seguidas por uma criada que levava um açafate á cabeça. Fosse reminiscencia ou phantasia, Graça Strech cuidou reconhecer as duas visinhas: tia e sobrinha. Tomou alento e acercou-se. Uma das mulheres, a{148} mais nova, voltou de repente a cabeça como se esperasse alguem. Havendo-se enganado, achegou-se da outra e soltou um—ai!—que mais denunciava despeito que medo.

—Não se assuste vossa senhoria, sr.ª D. Izabel! apostrophou Graça Strech serenando a menina que se denunciava medrosa.

Tia e sobrinha olharam fito no desconhecido, e foi a sobrinha quem primeiro exclamou:

—Pois não se lembra, minha tia? Olhe bem para elle!

—Quem é?

—É o sr. José Maria! Eu bem dizia outro dia que era o tenente das barbas!

—Póde lá ser o Josésinho!

—Tem razão, minha senhora, replicou Graça Strech. Eu devo parecer-lhes uma sombra do que fui. Mas, sombra ou realidade, o certo é que me chamo José Maria da Graça Strech.

—Ora uma coisa assim! Parece um velho!

—E parece! acrescentou a menina.

—Desgostos, minhas senhoras.

—E muitos teve tão novo, sim, porque vêr...

—Peço a vossa senhoria o obsequio de deixar em silencio essas tristes recordações. Uma só quero eu avivar, e por isso lhes causei esta surpresa.

—Mas não nos ter procurado! exclamou a velha senhora.

—Não tomem á conta d'ingratidão o que é simplesmente embrutecimento. Bem podia ser tambem que tivessem mudado de casa.

—Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou a menina. Já nem queria saber novidades da sua antiga visinha! Pois saiba que me vou casar...

—Felicito vossa senhoria.

—Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando com o braço a sobrinha. Ha de estar admirado de nos vêr sahir ambas a esta hora. Pois não se admire. Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados, tudo visitas da sua casa, sr. Strech,—e com o noivo da Izabelinha—juntarmo-nos na primeira missa que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. João Novo e irmos depois almoçar todos á Fonte das Virtudes.

Cumpre dizer que na primeira década do seculo{149} XIX era ainda a Fonte das Virtudes o local destinado ás comezainas das familias burguezas do Porto. Ahi se reuniam em ruidosos convivios, deposta a mantilha, e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite e pela mesma alegria.

O camartello das demolições municipaes tem—avis rara!— respeitado até hoje esta legendaria fonte que se compõe d'um alto frontispicio, ornado de pyramides, e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam. Rebenta abundantemente a agua por duas enormes carrancas em conformidade com a esculptura de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte dois grandes tanques, durante todo o dia, ainda hoje, frequentados por lavadeiras. N'esses bons tempos, ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella pela porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta, na eminencia da parte oriental, havia já então os chamados Assentos, actualmente Passeio das Virtudes.

O padre Agostinho Rebello da Costa, na sua Descripção topographica e historica da cidade do Porto, impressa em 1789, escreve ácerca d'este local: «Em toda a cidade, não ha sitio nem mais ameno, nem mais agradavel; porque além da sua bella posição adornada de regulares edificios, gozam os olhos d'um só golpe, vista de cidade, de mar, rio, navios, montes, campinas, quintas e palacios. O grande paredão, que presentemente se está fazendo, para com elle se formar uma praça correspondente á belleza, e magnificencia d'esta agradavel situação, será um monumento eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio de Abreu e Lima, cavalleiro professo na ordem de S. Thiago, inspector da marinha do Douro, administrador geral dos portos seccos das trez provincias do Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em obrigar o senado da camara a fazer esta obra interessantissima á regia utilidade, e recreio publico.»

Dito o que as historias referem ácerca da Fonte das Virtudes, reatemos o dialogo.

—Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graça Strech, que eu perguntarei sem desvios o que desejo saber. Não me foi possivel averiguar até hoje onde jaz a minha desventurosa familia. Vossas senhorias sabem?

—Casualmente nos disse o sachristão de S. Martinho{150} de Cedofeita que tinham ali sido enterradas, se bem que nos não pudesse designar as sepulturas, pela grande confusão de cadaveres que n'esses tristes dias houve.

Isto disse D. Eulalia, acrescentando:

—No dia seguinte o quartel general mandou ordem a todos os parochos para que, logo que anoitecesse, fôssem levantar os corpos dentro da circumscripção das suas freguezias. Não sabemos mais nada, sr. Strech. Nós recolhemos ao Porto depois que os francezes retiraram. Estivemos em Gondomar, em casa d'uns parentes nossos, porque tivemos a felicidade de encontrar livre o caminho. O senhor bem se ha de lembrar de que nos protegeu na bateria do Bomfim. Prouvera a Deus que a sua familia tivesse tido a mesma sorte! Muitas vezes lhes pedimos que nos acompanhassem. Não quizeram. Ainda tenho nos ouvidos as palavras da Augustinha: «Se meu pae e meu irmão morrerem, deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem elles seria peior que a morte.» Nunca mais me esqueceram! Vel-a assim fazia dó, a pobre menina!

Graça Strech estava livido. Já não tinha forças para ouvir mais.

—Muito obrigado, minhas senhoras, disse elle. Já sei o bastante. Felicito-me de as haver encontrado e faço votos pela ventura da sr.ª D. Izabel.

—Agradeço do coração, replicou a menina. O sr. Strech ha de dar-me a honra de assistir ao meu casamento...

—Da melhor vontade assistiria, minha senhora, se não tivesse de partir hoje mesmo para Italia.

—Partir?!

D. Eulalia repetiu:—Para Italia!

E exclamou virando-se para a sobrinha:

—O casamento anda-te com essa cabeça á roda! Se não sou eu lembrar-me agora por essa palavra, não dirias nada ao sr. Strech d'aquella carta d'Italia!

—Uma carta, apostrophou elle, sobremodo perturbado.

—É verdade! affirmou a menina com pesar de se haver esquecido.

D. Eulalia contou:

—Ha quatro annos, foi em...

—Junho, acrescentou Izabel.{151}

—É verdade, foi em junho, proseguiu D. Eulalia; andou o carteiro por esta rua, para cima e para baixo, a perguntar pela familia Strech. Todos lhe diziam que essa desgraçada familia estava no cemiterio. Até que a final o carteiro e alguns visinhos bateram á nossa porta, porque sabiam das nossas relações com a sua familia. A carta, que trazia o timbre de Italia, dizia: Sr. José Maria da Graça Strech, soldado portuguez (pela orthographia conhecia-se que a pessoa que escrevia era estrangeira, disse em parentesis D. Eulalia) natural do Porto;—Portugal.

Graça Strech ouvia offegante.

D. Eulalia proseguiu:

—Do senhor ninguem sabia nada, mas como a carta ficaria naturalmente perdida no correio, encarregamo-nos de mandal-a ao acaso para onde estivesse o exercito. Era o unico meio de lhe chegar á mão, caso o senhor estivesse vivo. Nós nada sabiamos. Perguntamos o que haviamos de fazer. Disseram-nos que a mandassemos para Almeida, que era onde Wellingtão—ella pronunciou assim,—tinha estabelecido o quartel general. Para lá a mandamos, pensando que fariamos bem. Visto isso o senhor não a recebeu?

—Não recebi, minha senhora, respondeu Graça Strech com difficuldade. Agradeço, porém, a vossas senhorias o cuidado que tiveram e, para não as demorar por mais tempo, recebo as suas ordens...

—Tambem—atalhou D. Eulalia, vão sendo horas da missa do Senhor dos Passos. Vamos lá. Se o sr. Strech precisar d'alguma coisa, não tem senão mandar-nos e dizer onde está, para que não se torne a perder qualquer carta.

Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do Almada a baixo, e elle caminhou em direcção ao Campo de Santo Ovidio.

A menina ia perguntando ingenuamente á tia:

—Não seria mau agouro encontrarmos o Strech na occasião em que eu ía a pensar no meu casamento?

—O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza um Credo ao Senhor dos Passos e deixa-te lá d'agouros. Deus é que sabe o que ha de acontecer.

Graça Strech caminhava machinalmente, engolphado em seus pensamentos. A carta era de Rosina. Conjecturava elle que já devia ser mãe quando a escrevia.{152} Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes vivem das desgraças que sonham e que soffrem. Por muitas vezes escrevera elle para Napoles. Nunca obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio durava já havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram mais! O que haveria acontecido? Que ancia que elle tinha de chegar a Italia, e, ao mesmo passo, que receios! Não o esperariam lá novas dôres, maiores soffrimentos? Que envelhecida mocidade aquella!

Foi andando, andando, até que chegou ao cemiterio de Cedofeita.

Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as verduras dos canteiros, estremeceu de subito. O pensamento da morte vinha interromper os seus dolorosos pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde? Rosina e seu filho onde estariam tambem, lá tão longe? O cemiterio era solitario áquella hora, se não falarmos das aves que faziam alegre matinada nas arvores.

Só os noivos e as aves saudam jubilosos a manhã.

Por isso madrugára a menina da rua nova do Almada em competencia com os passarinhos do cemiterio de Cedofeita.

Graça Strech atravessou por entre as campas, confiado em que o coração adivinharia o sitio em que repousava a sua familia. Andou, percorreu as ruas todas, e parou á beira d'uns comoros que não tinham cruz nem lapide. Devia ser ali. As campas dos que não deixam ninguem no mundo conservam-se abandonadas. Quando muito, porque os despojos mortaes são da natureza, veste-as a natureza de relva e flôres silvestres. Sobre um dos comoros floresciam hervagens, que pendiam á terra umas singelas boninas brancas. Seria a homenagem da natureza á innocencia de sua irmã? Não sabia. O silencio da morte guarda todos os segredos. Ajoelhou. As avesinhas das arvores funebres continuavam a cantar, a cantar!...

Áquella hora, n'aquelle sitio, cria-se em Deus.

A eloquencia das campas!

Como tudo aquillo fala suavemente d'além-tumulo!

No ruido das festas a ideia da morte é sempre um pungente contraste. Mas não sei que amena tristeza dulcifica a certeza do repouso eterno, nos cemiterios, mórmente se é manhã, e as aves chilriam, e estremecem{153} nas hervagens as gotas d'orvalho, e um raio de sol nascente doira uma cruz!

Graça Strech sentiu-se subitamente soccorrido por essa triste suavidade que a vista dos tumulos infiltra aos desgraçados.

Longo tempo esteve ali, ajoelhado, conversando com os trez comoros os seus segredos de cinco annos. No que estava florescido, curvou-se como se quizesse falar para dentro. Conjecturava que seria o d'Augusta. N'essa hypothese lhe contou as suas desventuras, os seus amores, os sacrificios de Rosina, o destino que dera ao annel, a afflictiva incerteza em que estava, a ancia que tinha de beijar seu filho, de encontrar Rosina... Juntou lagrimas de saudade a palavras de perdão, queixumes de animo attribulado a hymnos de confiança em Deus...

Não lhe havia dado tempo a sua trabalhada e desventurosa mocidade para erguer o espirito acima das coisas terrenas das preoccupações humanas.

Pela primeira vez subiu até onde os fulgores da divindade enchugam as lagrimas da oração. Muito acima do mundo deve ser, porque já se não ouve então o tumultuar da humanidade, e porque já ahi chovem os balsamos da resignação sobre a alma angustiada.

Ninguem diria que estava ali o soldado, o leão dos combates. Nada ali falava de vingança, nem mesmo a supposta sepultura d'Augusta. Nada se sabia do mundo, d'aquella porta de ferro a dentro. Todavia alguma coisa julgou ouvir a alma de Graça Strech. Eram palavras intradusiveis que as hervagens ciciavam, brandamente agitadas pela viração matutina. Sem comprehender as palavras, entrou-lhe ao espirito o pensamento d'ellas. Era a divina esperança do post tenebras spero lucem, de Job, e ao mesmo tempo o Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini, do salterio.

Graça Strech interpretou assim esses fugitivos murmurios que soavam sobre a campa da sua irmã. Trouxe do cemiterio a certeza de que depois das trevas da vida veria luzir o sol da felicidade perpetua, e de que não morreria sem ter tempo de narrar as obras do Senhor.

Isto equivalia á resignada esperança de não succumbir á sua desgraça sem saber o destino de Rosina e seu filho.{154}

Adquirira ali a certeza de que a alma d'Augusta abençoara do ceu a criança cuja mãe possuia o seu annel. Levantou-se. Arrancou as parietarias que marinhavam pelo muro proximo, e esparziu-as sobre os trez comoros.

—Se ahi estaes, minhas doces amigas—pensou elle—recebei o primeiro e unico testemunho de saudade que ainda vos manda o mundo esquecido de vós. Pedi por mim, e pela familia que me resta na terra, se Deus m'a tiver conservado. São tambem vossos pelo coração. Adeus, abençoadas sejaes no céu pelo conforto que me destes.

E saíu do cemiterio, caminho do rio Douro, onde estava fundeado o navio que n'essa tarde devia partir para um porto d'Italia.

A essa hora, na Fonte das Virtudes, havia expansiva alegria. Um velho da familia Cerqueira dizia a um menino da familia Brochado:

—Vá, seu estudante, traduza-me lá a inscripção da fonte: Fons scalet, illustri virtutum, etc. Rompe aqui esta fonte... Vá, diga...

—Pudera romper acolá, estando aqui o chafariz! observou grosseira e acertadamente o menino.

D. Izabel offerecia ao seu noivo um copinho da agua da fonte, panacea para muitas molestias, entre as quaes as inflammações dos olhos.

Tinha bons sentimentos: não queria marido cego.{155}