O Anel Misterioso: Cenas da Guerra Peninsular
VI A mariposa do acampamento
VI
A mariposa do acampamento
Fôra demasiado esforço para tão melindroso estado.
O corpo, alquebrado pela dôr physica, parecia vergar ao peso d'aquella grande alma.
Graça Strech caminhou em direitura á porta, vacillando a cada passo, e deixando após si um rasto de sangue. Antes de sair, volveu ainda um ultimo olhar aos trez cadaveres, e levantou por um instante a mão de sobre o ferimento, apalpando o peito n'outro sitio, como para se certificar da existencia d'alguma coisa que lá trazia occulta, e que pareceu encontrar.
Era o maço das cartas d'Augusta, escriptas da quinta das Chãs, e que elle conservára no seio durante as mais perigosas refregas na bateria do Bomfim.
Desceu vagarosamente as escadas, amparado ao corrimão, e conseguiu a muito custo chegar á rua.
Uma lufada de vento, humida e fria, momentaneamente refrigerou o cerebro d'aquelle moço, em quem as mais violentas congestões parecia succederem-se rapidamente.
Onde ia elle, ferido, cerrada a noite?
A esta pergunta, que muitas vezes se fez no decurso de sua vida, nunca pôde achar resposta satisfatoria.
O que parece mais proximo da verdade é que, não sentindo já forças e coragem para demorar-se ali, luctasse por arrancar-se de ao pé dos trez cadaveres.
Chegado ao limiar da porta, e recebendo de subito uma lufada de ar, impregnado d'humidade, reconheceu-se, no meio da cerrada escuridão d'aquella noite tenebrosa, inteiramente carecido d'alento para dar um passo.
N'essa conjunctura ouviu estrepito de cavallos. Sentiu de novo affluir-lhe o sangue ao cerebro. Eram de certo elles, os assassinos da sua familia, que patrulhavam{48} a cidade invadida. Não se enganou. Os cavallos que se aproximavam eram os d'uma ronda franceza. Graça Strech estava porém desarmado, ferido, impossibilitado do menor esforço. A ronda acercou-se, e um dos cavalleiros, que era um official portuguez obrigado pelo direito de conquista ao triste mister d'interprete, perguntou com voz tremula:
—Quem está ahi?
Graça Strech ficou surprehendido d'ouvir falar-lhe na lingua nacional, e respondeu:
—Um soldado portuguez, ferido.
Demorou-se o official a falar á patrulha franceza, e apeando-se dois dos cavalleiros ergueram o corpo de Graça Strech até a altura precisa para poisal-o entre o arção da sella e o corpo do official portuguez.
E monotamente continuou a eccoar na rua o estrepito da ronda.
Não pareça extraordinaria esta piedade dos invasores para com os invadidos no mesmo dia de tão sanguinosa victoria.
O marechal Soult, que entrára no Porto na tarde d'esse dia, puzera desde logo todos os seus cuidados em serenar os animos da população por actos ostensivamente meritorios.
Era este um procedimento por ventura aprendido na lição da historia romana—o da benevola protecção aos vencidos.
Manda porém a verdade que se diga que, mal que entrou na cidade, expediu ordens terminantes ás tropas para que, sob pena de austera correcção militar, respeitassem a população, e até a protegessem em caso de conflicto.
Assim foi que, reprimindo os abusos da soldadesca, logrou restabelecer o socego em toda a cidade trez dias depois da invasão, procurando insinuar-se na opinião publica, abstendo-se de impôr contribuiçoes de guerra, nomeando pessoas idoneas para os logares vagos, e soccorrendo os habitantes completamente privados de recursos.
O partido anti-patriotico, subitamente creado em redor do marechal Soult, para logo fundou um orgão jornalistico, denominado Diario do Porto, porque a imprensa tem sido desde tempos immemoriaes o respiradouro aberto a todas as paixões, justas e injustas, nobres e mesquinhas.{49}
O leitor deve ficar conhecendo uma pequena amostra, sequer, da linguagem empregada no supracitado diario. Oiçamos o falsario redactor no supplemento ao n.º 2.º:
«Este paiz tão bello, e tão favorecido pela natureza, parecia no passado governo tocado de paralysia; mas, graças aos céos, que se lhe prepara um novo futuro, que os bons conhecedores já tinham d'antemão entrevisto! Nada terá o Principe que dizer sobre a nossa fidelidade; nos lh'a guardamos emquanto existiu entre nós; mas uma vez que nos deixou, uma vez que desdenhou lançar mão das redeas do governo, que largára quando as circumstancias lh'o permittiam, renunciou todos os seus direitos, e nada é já para os portuguezes, que deixou ao desamparo. Em uma palavra, a casa de Bragança já não existe; aprouve aos céos que os nossos destinos passassem a outras mãos, e foi particular predilecção da Divina Providencia, que impera sobre o universo, o ter-nos enviado um homem isento de paixões, e que só tem a da verdadeira gloria; que se não quer servir da força, que o grande Napoleão lhe confiou, senão para nos proteger e livrar-nos do monstro da anarchia, que ameaçava devorar-nos. As palavras que elle nos dirigiu, e as
promessas que nos fez [5], desde que entrou n'esta cidade, tudo se tem cumprido á risca, muito mais do que o poderiamos esperar, e do que as circumstancias pareciam promettel-o: porque tardamos, pois, em congregar-nos ao redor d'elle, a proclamal-o nosso pae e nosso libertador? Porque tardamos a exprimir o nosso desejo de o vermos á testa d'uma nação, cujo affecto soube tão rapidamence conquistar? O soberano de França prestará ouvidos aos nossos clamores, e se lisonjeará de ver que desejamos para nosso rei um logar-tenente seu, e ao mesmo tempo um grande general, que a seu exemplo soube vencer e perdoar. Seja, pois, esta grande e interessante comarca, já que tem experimentado os effeitos da sua clemencia, e a quem elle tem prodigalisado os seus beneficios, seja uma das primeiras, que se glorifique de o reconhecer e de lhe offerecer os seus braços, os seus bens e o seu patrimonio todo.»
Não ficaram simplesmente em louvaminhas de gazeta{50} os salamaleques feitos ao duque de Dalmacia. De Braga veiu ao Porto no dia 25 d'abril uma deputação composta de trinta e seis membros do clero, nobreza e povo, a pedir ao marechal que se dignasse fazer ver ao imperador a necessidade de collocar um principe de sua eleição no throno que a dynastia de Bragança deixára devoluto.
No dia immediato entrou egualmente ao palacio do duque de Dalmacia outra grande deputação, constituida por todas as autoridades civis, clero, deputados, nobreza, cidadãos, corporações judiciaes e militares da cidade do Porto, a repetir o pedido com viva instancia.
A deputação, acompanhada desde a casa do conselho pelos officiaes do estado-maior general, era esperada no atrio do palacio dos Carrancas pelos ajudantes de ordens do marechal Soult. Foi o general de divisão Quesnel, investido nas funcções de governador militar do Porto e da provincia do Minho, quem a introduziu na sala de recepção, onde o corregedor da comarca botou fala consoante ao estylo dos supplementos do Diario do Porto.
O marechal devia estar sorrindo interiormente da versatilidade dos portuguezes, que lhe atiravam aos pés nuvens d'incenso, recebendo-o dias antes nas trincheiras com nuvens de polvora. Força é assoalharmos as nossas glorias, para sermos portuguezes, e as nossas manchas, para sermos justos. E esta é realmente uma lamentavel nodoa que macula as paginas da historia portugueza. Se nos não respeitámos, durante a invasão, a boa policia de guerra, tambem a soldadesca franceza não respeitou, na victoria, os direitos individuaes. Saldada a divida, estavamos quites. Para a atrocidade, filha da revolução, a represalia, irmã do triumpho. A attitude do Porto, depois de vencido, e em presença do cavalheiroso procedimento de Soult, devia ser a da resignação reconhecida, nunca a do servilismo infamante. Agradecer é das boas almas; ajoelhar aos pés do usurpador é dos maus cidadãos. E nós fomos então maus cidadãos. Ainda bem que redimimos as nossas culpas d'um dia com a heroicidade de cinco annos, que tantos são os que vão desde a invasão do Porto até ao regresso das nossas tropas, coroadas de loiros.
Se o throno portuguez tinha sido abandonado pelo{51} rei, estava porém encimado ainda pelas armas da nação! Se não se podia amar o rei, que fugira, devia-se defender a patria, que ficára.
Mas, disse-o Camões, e é uma profunda verdade, que
O fraco rei faz fraca a forte gente
Perdoemo-nos a nós, porque nos rehabilitamos depois, e perdoemos ao rei, que já hoje é do tumulo, e que no triste curso de sua attribulada existencia mais inspira por vezes compaixão do que odio.
Mas tornemo-nos a Graça Strech, que deixámos ferido em companhia da ronda franceza.
Fôra elle transportado a um dos muitos hospitaes de sangue que se estabeleceram nos conventos do Porto:—o convento de S. Francisco. O serviço cirurgico, na maior parte d'estes hospitaes improvisados, era feito, por ordem do marechal Soult, pelas mulheres que acompanhavam o exercito invasor. Uma d'ellas, conhecida entre os seus pela alcunha de lá gentille vivandière, recebeu o ferido e, ajudada por outras, deitou-o no catre e começou o curativo do ferimento com certo carinho, que só a ordem do marechal Soult não explicaria cabalmente.
É que fez impressão a Rosina a physionomia, posto que dolorosa, serena, do soldado portuguez. Pareceu-lhe um roble que baqueára magestosamente. Não havia a menor contração n'aquelle corpo athletico; por entre os labios, descórados e immoveis, não se coava um gemido. Verdade era que não era desesperado o ferimento, e que mais para recear parecia a gravidade da prostração que a do golpe. Não obstante, o soldado, que a espaços abria os olhos, nem uma gota d'agua pedia.
Durante a noite a vivandeira acercou-se do catre, por muitas vezes, a escutar. Pela madrugada sobreveiu o delirio ao abatimento, e o ferido dizia com manifesta difficuldade algumas palavras que ella não entendia. Como, porém, de uma das vezes o visse febrilmente apalpar o peito, comprehendeu-o, e, tirando do forro da fardeta, que lhe tinha despido, o maço de papeis, insinuou-lh'o entre as mãos. O ferido, conhecendo-o provavelmente pelo tacto, abriu por algum tempo os olhos, e demorou em Rosina o doce e apagado olhar. Talvez fosse este um acto puramente{52} mechanico e talvez não; a verdade, melhor que os medicos, a sabe Deus.
A vivandeira ficou sobremodo commovida do que a ella lhe pareceu intencional. Apiedou-se do soldado, que tinha porventura a sua mesma idade, e parecia guardar n'aquelles papeis uma querida memoria, como ella, como ella n'aquella madeixa de cabellos que possuia...
Aqui entra o leitor a sentir desejos de saber a historia da madeixa.
Rosina era a filha adoptiva d'um dos regimentos da brigada Arnaud. Por seu pai, moribundo, um dos bravos militares do exercito francez, natural das Ardennas, aquella vasta floresta, Arduenna sylva, golpeada por quatro rios, o Semoy, o Lesse, o Ourthe e o Sure, fora confiada como precioso deposito, no campo de batalha, á velhice d'um camarada fiel, soldado do mesmo regimento.
O bom velho, que penhorado acceitára tão grave legado, era só, e n'uma época em que o exercito francez estava em continua mobilisação, achou que o melhor meio de velar pelo destino da creança era trazel-a sempre ao pé de si.
Assim foi que Rosina, então de quatorze annos, estivera em pessoa, se bem que entre a bagagem e mantimentos, na batalha de Austerlitz, em 1805. Vira por seus proprios olhos, a distancia, o imperador Alexandre e o imperador Francisco. Nos breves instantes de repouso que n'essa arriscada campanha tinha o exercito francez, era sempre Rosina o assumpto das conversações do acampamento, a mariposa inquieta que passava sorrindo de umas correias a outras, de um soldado a outro soldado. D'essa campanha ficou até na memoria do regimento uma agudeza da pequena vivandeira. Estavam os soldados chasqueando uma vez da fealdade de certo camarada.
—Que tal te parece, Rosina? perguntou um á pequena.
—Parece-me mal, respondeu ella, porque já vi os trez imperadores.
Como se sabe, é esta uma designação vulgar da batalha de Austerlitz, onde estiveram os dois imperadores já nomeados, completando Napoleão a trindade coroada.
Rosina seria pois a andorinha da caserna se não{53} fosse antes a mariposa do acampamento. Tinha um pouco da floresta, seu berço, e um pouco do quartel, seu ninho. Estes poucos fizeram o todo. Tinha a pureza da vegetação virgem, a suavidade inculta da floresta, e ao mesmo passo o destemor da vivandeira, a facilidade de morder um cartucho de polvora e de cantar uma canção marcial. Na alma tinha os murmurios das correntes patrias; nos olhos o brilho da polvora.
Era, n'uma palavra, a pastora tornada vivandeira. Respeitava-a todo o regimento e conhecia-a todo o exercito.
Quando o seu velho protector morreu, um anno depois de Austerlitz, ella acompanhou-o com os camaradas á sepultura, e, como limpasse furtivamente duas lagrimas, disse-lhe um dos soldados:
—Pois tu choras, Rosina, tu, a que viste os trez imperadores?!
E ella, voltando-se de subito, respondeu:
—Não choro eu, chora a França.
Porfiaram os soldados em escolher-lhe novo protector; todos a estimavam a ponto de querer adoptal-a. Por fim decidiu-se que Rosina cortasse o nó gordio. Ella observou:
—Os meus paes eram os que morreram; já não posso ter outros. Serei portanto de hoje em deante filha do regimento. Para onde elle fôr, irei eu; onde estiver, estarei tambem.
E assim foi.
Era quasi um soldado; muitas vezes dizia que a sua morte havia de occasional-a uma bala perdida.
Viera com o exercito a Hespanha e Portugal, com a mesma facilidade com que iria, licenciada pelo commandante do regimento, visitar as Ardennas, sua patria.
Contava agora dezoito annos, e estava em todo o vigor da sua gentil formosura.
Gentil é a palavra; por isso lhe chamavam lá gentille vivandière.
E o caso é que á sua origem e á sua formosura devia por certo as immunidades que lhe outhorgavam os superiores. Era ella o melhor intercessor do regimento; requerimento que ella levasse á chancellaria militar, trazia sempre bom despacho. É que as flôres... {54}
Ora a historia da madeixa é muito mais breve que a historia de Rosina, e por isso ficou para o fim.
Seu pae, o bravo official das Ardennas, sentindo-se morrer dos graves ferimentos que recebera, pediu ao velho camarada, no momento de confiar-lhe a filha, que lhe entregasse aquella madeixa que elle cortára do seu proprio cabello, para que ella possuisse sequer alguma coisa que o tornasse lembrado.
E como entre os cabellos alguns apparecessem já grisalhos, acrescentou o militar moribundo:
—Dize-lhe que alguns d'elles embranqueceram a pensar no destino d'ella...
O soldado, com os olhos marejados de lagrimas, respondeu commovido:
—Vá descançado, meu capitão. Emquanto Jacques Regnau tiver vida, o paiol não ha de arder. Depois que vier a metralha da morte, o Deus dos exercitos velará por ella...
O soldado Jacques estava na confidencia do nascimento de Rosina. Fôra elle que, annos antes, saltára ao jardim de uma casa da rua das Tournelles, para receber dos braços de uma criada uma creança, cuja mãe procurava assim occultar o segredo da sua deshonra.
Jacques Regnau atravessou com ella nos braços o boulevard da Bastilha, e ia dizendo comsigo:
—O caso é que ainda tenho geito para estas aventuras mysteriosas. Suppunha-me velho e levo aqui esta creança mais como pae do que como avô. E todavia o que decerto vem a acontecer é que eu seja o avô, e o meu capitão o pae...
E assim, em verdade, aconteceu, com uma unica differença. Se Rosina, no decurso de sua vida, precisasse de nobilitar-se com um appellido, o pae, ao invés do que acontece em todas as familias, não lhe daria o seu appellido, mas sim o do leal camarada. Diria provavelmente:
—Põe lá: Rosina Regnau.
Ella porém não precisava de appellido paterno. Era a filha do regimento. Chamava-se simplesmente Rosina, lá gentille vivandière.
Esta era a enfermeira do nosso ferido.{55}
[5] Referencia á proclamação de Soult.