O Guardião
O longo hábito de viver
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Tudo bem com você, mamãe? — perguntou Chris.
— Será que fabricam aspirinas de meio quilo? — perguntou Laura.
— Sei que é muita coisa para compreender — disse Stefan. — Mas esse é Heinrich Kokoschka. Ou era. Ele tirou os explosivos que eu coloquei. Por causa dele... e daquela falha na força que desligou o detonador... o instituto existe ainda, e agentes da Gestapo estão nos perseguindo... para nos matar.
— Por quê? — perguntou Laura.
— Por vingança — disse Chris.
— Estão atravessando quarenta anos de tempo para nos matar só por vingança? — perguntou Laura. — Deve haver outro motivo.
— Sim, há — disse Stefan. — Querem nos matar porque acreditam que somos as únicas pessoas vivas capazes de descobrir um meio de fechar o portão, antes que vençam a guerra e alterem seu futuro.
E estão certos.
— Como? — perguntou ela, atônita. — Como podemos destruir o instituto que está há 45 anos no passado?
— Ainda não sei ao certo — respondeu Stefan. — Mas vou pensar no assunto.
Laura ia fazer outras perguntas, mas Stefan balançou a cabeça. Disse que estava exausto e logo adormeceu novamente.
Chris preparou um almoço de sanduíche de creme de amendoim e outras coisas que comprara no supermercado. Laura não quis comer.
Imaginou que Stefan ia dormir por algumas horas e aproveitou para um banho de chuveiro. Sentiu-se bem melhor depois, mesmo sem trocar de roupa.
Os programas de televisão durante toda a tarde foram simplesmente idiotas: novelas, jogos, mais novelas, reprises de Ilha da fantasia, e Phil Donahue correndo de um lado para o outro no estúdio entre o público, que o exortava a tomar conhecimento — e ter compaixão — da tragédia dos dentistas travestis.
Laura recarregou a Uzi com a munição comprada naquela manhã.
Lá fora, com o fim do dia, nuvens negras começaram a se amontoar até nada mais se ver do céu azul. A palmeira em leque ao lado do Buick roubado parecia juntar suas folhas à espera da tempestade.
Laura sentou com os pés apoiados na cama, fechou os olhos e cochilou por algum tempo. Acordou de um pesadelo no qual ela era feita de areia e aos poucos era dissolvida pela chuva. Chris dormia na outra cadeira e Stefan roncava ainda, suavemente, na cama. Chovia. As gotas tamborilavam no telhado do motel, estalando nas poças d'água do estacionamento, como gordura fervente, embora fizesse frio. Era uma típica tempestade do sul da Califórnia, tropicalmente pesada e constante, mas sem relâmpagos nem trovões. Ocasionalmente esse espetáculo pirotécnico era acompanhado de chuva naquela parte do mundo, mas muito raramente. Agora Laura tinha um motivo especial para ser grata a essa característica climatológica, porque se houvesse trovões e relâmpagos, não ia saber se eram naturais ou aviso da chegada dos agentes da Gestapo vindos de outra era.
Chris acordou às 5:15, e Stefan Krieger uns cinco minutos depois. Ambos disseram que estavam com fome, e além do apetite, Stefan demonstrava outros sinais de estar recuperando as forças. Os seus olhos, antes congestionados, estavam claros. Conseguiu erguer-se na cama apoiado no cotovelo. A mão esquerda, até então praticamente paralisada, parecia normal agora e ele podia abrir e fechar os dedos.
Laura não queria jantar. Queria resposta a algumas perguntas, mas a vida a ensinara a ser paciente — entre outras coisas. Naquela manhã, um pouco depois das 11 horas, quando chegaram ao motel, ela havia visto um restaurante chinês no outro lado da rua. Embora relutando em deixar Stefan e Chris, saiu na chuva para comprar comida.
Levou o .38 sob o casaco e deixou a Uzi ao lado de Stefan, na cama. A arma era pesada demais para Chris, mas Stefan talvez pudesse manejá-la apoiando-se na cama, usando só a mão direita, embora o impacto do coice da Uzi pudesse reabrir seu ferimento.
Quando voltou, encharcada pela chuva, puseram as vasilhas de papelão encerado sobre a cama — menos duas porções de sopa de berinjela, que eram para Stefan e que Laura pôs na mesinha-de-cabeceíra ao lado dele. Quando entrou no restaurante e sentiu o delicioso cheiro da comida, Laura sentiu fome e acabou comprando comida demais: galinha com limão, carne com sabor de laranja, camarão com pimenta, moo goo gai pan, porco moo shu e duas porções de arroz.
Enquanto ela e Chris experimentavam todos os pratos com os garfos de plástico e tomavam Coca-Cola, comprada na máquina de refrigerantes do motel, Stefan tomou a sopa. Pensou que não seria capaz de suportar comida mais sólida, mas quando terminou a sopa, começou a experimentar o moo goo gai pan e a galinha.
A pedido de Laura, falou sobre sua vida, enquanto comiam. Nascera em 1909 na cidade alemã de Gittelde, nas montanhas Harz, portanto tinha 35 anos. ("Muito bem", disse Chris, "por outro lado, se contar os 45 anos que saltou quando viajou de 44 para 89, você tem oitenta anos!" O garoto riu, satisfeito com a própria esperteza. "Cara, você está muito bem para um velhote de oitenta anos!") Depois de mudar com a família para Munique, no fim da Primeira Guerra, o pai de Stefan, Franz Krieger, tornou-se partidário de Hitler, em 1919, membro do Partido Trabalhista Alemão desde a primeira semana da carreira política de Hilter nessa organização. Chegou mesmo a trabalhar com Hitler e Anton Drexler na redação da plataforma com a qual o grupo, essencialmente uma sociedade de debate, transformou-se finalmente num verdadeiro partido político, mais tarde o Partido Nacional Socialista.
— Fui um dos primeiros membros da Juventude Hitlerista em 1926, quando tinha 17 anos — disse ele. — Menos de um ano depois entrei para a Sturmabteilung, ou SA, os camisas-pardas, grupo de reforço do Exército, praticamente um exército particular. Entretanto, em 1929, passei a ser membro do Schutzstaffel...
— A SS! — disse Chris, com o mesmo misto de horror e fascinação com que falaria de vampiros e lobisomens. — Você foi da SS? Usava aquele uniforme negro com a caveira prateada, usava a adaga?
— Não me orgulho disso — respondeu Stefan Krieger. — É claro que naquela época eu me orgulhava. Eu era um tolo. O tolo do meu pai.
Nos primeiros tempos, a SS era um grupo pequeno, a essência do elitismo, e tínhamos como objetivo proteger der Führer com nossas vidas se necessário. Todos tinham 18 a 22 anos, todos jovens, ignorantes e belicosos. Em minha defesa posso dizer que eu não era muito belicoso, não tão fanático quanto os outros. Estava fazendo a vontade do meu pai, mas por ignorância, admito que estava tendo mais do que podia suportar.
A chuva levada pelo vento açoitava a janela e gorgolejava ruidosamente na calha do lado de fora da parede contra a qual ficava a cama.
Stefan parecia muito melhor depois do sono tranqüilo e natural e a sopa sem dúvida havia ajudado a recobrar parte das suas forças. Mas agora, lembrando a juventude passada num cadinho de ódio e morte, empalideceu e seus olhos pareciam mais fundos sob as sobrancelhas espessas.
— Nunca deixei a SS porque era uma posição altamente desejável e porque abandoná-la significava que perdera a fé no nosso adora do líder. Mas ano após ano, mês após mês, dia após dia, cada vez me horrorizava mais com o que estava vendo, com tanta loucura, crime e terror.
Nem o camarão, nem a galinha pareciam tão saborosos e a boca de Laura estava tão seca que não conseguia engolir o arroz. Empurrou a comida para o lado, tomou a Coca-Cola em pequenos goles.
— Mas, se nunca deixou a SS... quando estudou, quando se envolveu com a pesquisa científica?
— Bem — disse ele. — Eu não estava no instituto como pesquisador. Não fiz curso superior. A não ser... durante dois anos fiz um curso intensivo de inglês, procurando falar com sotaque americano.
Eu fazia parte do projeto que lançou centenas de agentes secretos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Mas nunca consegui dominar com perfeição a pronúncia, por isso não me mandaram para o exterior; além disso, como meu pai era um dos primeiros partidários de Hitler, eles confiavam em mim, portanto deram-me outras atribuições. Eu fui designado para uma missão especial entre o pessoal do Führer, onde fazia trabalhos delicados, especialmente de ligação entre facções contrárias do governo. Era uma posição excelente para obter informações úteis aos britânicos, o que eu fiz a partir de 1938.
— Você era um espião? — perguntou Chris cheio de entusiasmo.
— Mais ou menos. Precisava fazer o possível para derrubar o Reich, para me redimir por ter feito parte dele. Era uma reparação...
embora parecesse impossível. Então, no outono de 1943, quando Penlovski começou a ter sucesso com o portão do tempo, enviando animais só Deus sabe para onde e trazendo-os de volta, fui designado para trabalhar como observador no instituto, representante pessoal do Führer.
E também cobaia, pois fui o primeiro ser humano enviado ao futuro.
Quando ficaram prontos para enviar um homem, não queriam arriscar a vida de Penlovski, de Januskaya, de Helmut Volkaw, de Mitter ou Shenck, nem as dos outros cientistas que podiam fazer falta para a continuação do projeto. Ninguém sabia se um homem voltaria em perfeitas condições como os animais... se voltaria são de corpo e espírito.
Chris balançou a cabeça afirmativa e solenemente.
— Era possível que a viagem no tempo fosse dolorosa ou provo casse desequilíbrio mental, ou coisa assim, certo? Quem podia saber?
Sim, pensou Laura, quem podia saber?
— Além disso queriam enviar uma pessoa de confiança e capaz de manter a missão em segredo — disse Stefan. — Eu era a escolha ideal.
— Oficial da SS, espião e o primeiro crononauta — disse Chris.
— Puxa! Que vida fascinante.
— Espero que Deus te dê uma vida menos acidentada — disse Stefan Krieger.
Então olhou para Laura mais diretamente do que antes. Seus olhos eram belos, muito azuis, mas revelavam uma alma torturada.
— Laura... o que pensa do seu guardião agora? Não um anjo, mas um comparsa de Hitler, um assassino da SS.
— Não um assassino — disse ela. — Seu pai, sua época e sua sociedade podem ter tentado fazer de você um assassino, mas não conseguiram dominar uma parte do seu espírito. Não um assassino, Stefan Krieger. Nunca. Não você.
— Mas também não um anjo — disse ele. — Nada parecido com um anjo, Laura. Quando eu morrer e as manchas em minha alma forem inter pretadas por Aquele que julga, ganharei meu espaço especial no inferno.
A chuva martelando no telhado parecia o tempo passando, milhões e milhões de minutos preciosos, horas, dias e anos escorrendo nas sarjetas e nas calhas, entrando na terra, gastos.
Depois de recolher a comida que sobrou e jogar na lata de lixo atrás do escritório do motel, depois de tirar mais três Coca-Colas da máquina, uma para cada um, Laura finalmente fez ao seu guardião a pergunta que queria fazer desde que ele saíra do estado de coma.
— Por quê? Por que se concentrou em mim, na minha vida, e por que continuou me ajudando, salvando-me uma vez ou outra? Não entendo o que minha vida pode ter em comum com nazistas, viajantes do tempo, o destino do mundo.
Na sua terceira viagem ao futuro, explicou ele, fora até a Califórnia em 1984. Califórnia porque suas duas viagens anteriores — duas semanas em 1954, duas semanas em 1964 — haviam demonstrado que a Califórnia seria o futuro centro cultural e científico da mais avançada nação do planeta. Em 1984 porque estava exatamente a quarenta anos da sua época. Já não era o único homem que atravessava o portão do tempo; quatro outros começaram a viajar quando verificaram que não corriam riscos. Naquela terceira viagem, Stefan estava ainda fazendo um reconhecimento no futuro, aprendendo em detalhe o que havia acontecido no mundo durante e depois da guerra. Aprendia também quais os avanços da ciência que deviam ser transportados para Berlim, 1944, para ganhar a guerra para Hitler, não por querer ajudar esse objetivo, mas na esperança de poder sabotá-lo. Suas pesquisas envolviam a leitura de jornais, assistir televisão e circular na sociedade americana, apreendendo o ambiente do fim do século XX.
Apoiado nos travesseiros agora,, lembrando aquela terceira viagem com voz muito diferente do tom sombrio com que havia contado sua vida até 1944, ele disse:
— Não podem imaginar o que significou para mim andar pelas ruas de Los Angeles pela primeira vez. Se eu tivesse viajado mil anos no futuro, e não apenas quarenta, não ficaria mais maravilhado. Os carros! Carros por toda a parte! E muitos deles alemães, o que indicava uma forma de perdão pela guerra, aceitação de uma nova Alemanha, e isso me comoveu.
— Nós temos um Mercedes — disse Chris. — É legal, mas prefiro o jipe.
— Os carros — disse Stefan —, os estilos, o espantoso desenvolvimento em tudo: relógios digitais, computadores domésticos, video cassetes para assistir filmes em casa! Mesmo depois dos primeiros cinco dias da visita eu ainda estava em estado de choque e a cada dia entusiasmava-me com a perspectiva de novas maravilhas. No sexto dia, quando passava por uma livraria em Westwood, vi uma fila de pessoas esperando para conseguir livros autografados do escritor. Entrei curioso para ver que tipo de livro era tão popular, procurando compreender melhor a sociedade americana. E lá estava você, Laura, sentada na frente da mesa onde empilhavam-se os exemplares do seu terceiro livro, seu primeiro grande sucesso, Ledges.
Laura inclinou-se para a frente, como se a perplexidade fosse uma força que a impelia para a beirada da cadeira.
— Ledges? Mas nunca escrevi um livro com esse título.
Chris compreendeu.
— É o livro que você teria escrito na vida que teria vivido se o sr. Krieger não interferisse.
— Você tinha 29 anos quando a vi pela primeira vez naquela livraria de Westwood — disse Stefan. — Estava numa cadeira de rodas porque não podia andar. Seu braço esquerdo também estava paralisado.
— Aleijada? — perguntou Chris. — Mamãe estava aleijada?
Laura estava na ponta da cadeira agora, pois, embora o que seu guardião dizia parecesse fantástico demais para ser verdade, sabia que era real. Num plano mais primitivo que o instinto, sentia a exatidão da imagem, da sua imagem numa cadeira de rodas, as pernas atrofiadas; talvez estivesse captando o fraco eco do destino modificado.
— Você era paralítica de nascença — disse Stefan.
— Por quê?
— Eu só fiquei sabendo muito mais tarde, depois de uma exaustiva pesquisa sobre sua vida. O médico que fez o parto de sua mãe em Denver, Colorado, em 1955... Markwell era o nome dele... era alcoólatra. Foi um parto muito difícil...
— Minha mãe morreu quando nasci.
— Sim, naquela realidade ela morreu também. Mas naquela realidade Markwell trabalhou mal e provocou uma lesão na sua espinha que a aleijou para sempre.
Laura estremeceu. Como para provar que havia realmente escapado daquele destino, levantou-se e foi até a janela, usando as pernas, suas pernas ilesas e tão úteis.
Stefan voltou-se para Chris:
— No dia em que vi sua mãe na cadeira de rodas, ela estava tão linda. Oh, tão linda. Seu rosto, é claro, era o mesmo de hoje. Mas não era só o rosto que a fazia bela. Havia uma aura de coragem à sua volta, e parecia tão bem-humorada, apesar da sua deficiência. Cada pessoa que se aproximava com o livro na mão, afastava-se com o autógrafo e um sorr so feliz. Mesmo condenada a viver numa cadeira de rodas, sua mãe era tão alegre, tão bem-humorada. Observei de longe e fiquei encantado e profundamente comovido, com uma sensação completamente nova para mim.
— Ela é bacana — disse Chris. — Nada assusta a minha mãe.
— Tudo assusta sua mãe — disse Laura. — Toda esta conversa maluca está me deixando morta de medo.
— Você nunca foge de nada, nem se esconde — disse Chris, olhando para ela. O garoto corou. Na sua idade, os meninos deviam ser pedantes, pois começavam a imaginar se não eram infinitamente mais sábios do que suas mães. Num relacionamento comum, aquelas expressões de admiração nunca eram usadas de forma tão direta antes do filho completar 14 anos ou se a mãe morresse. — Talvez você sinta medo, mas nunca demonstra.
Laura aprendera muito cedo que quem demonstra o medo é considerado alvo fácil.
— Comprei um exemplar de Ledges naquele dia — disse Stefan — e o levei para o hotel. Li todo durante a noite, e era um livro tão belo que certos trechos me fizeram chorar... e tão cheio de humor que em certas passagens eu ri alto. No dia seguinte comprei seus outros dois livros, Silverlock e Fields of Night, tão bons, tão comoventes quanto o que a fizera famosa, Ledges.
Era estranho ouvir aquela crítica favorável de livros que jamais havia escrito. Mas Laura estava menos interessada na trama daqueles livros do que na resposta a uma pergunta arrepiante:
— Nessa vida que eu deveria ter vivido, naquele outro 1984... eu era casada?
— Não.
— Mas eu ia conhecer Danny e...
— Não. Nunca conheceu Danny. Nunca se casou.
— Eu nunca nasci! — disse Chris.
— Todas essas coisas aconteceram porque eu voltei a Denver, Colorado, em 1955, e evitei que o sr. Markwell fizesse o parto. O médico que o substituiu não salvou sua mãe, mas trouxe você ao mundo, perfeita e saudável. E a partir desse ponto, tudo mudou em sua vida. Era seu passado que eu estava mudando, sim, mas era o meu futuro, portanto flexível. E agradeço a Deus essa peculiaridade da viagem no tempo, pois do contrário eu não poderia evitar que você fosse paraplégica.
O vento soprou em rajadas e outra barragem de chuva bateu na vidraça onde Laura estava.
Mais uma vez ela teve a desagradável sensação de que o quarto em que estava, a terra sobre a qual era construído e o universo no qual girava eram tênues como fumaça, sujeitos a mudanças bruscas.
— Depois disso eu acompanhei sua vida — disse Stefan. — De meados de janeiro de 1944 a meados de março, fiz mais de trinta viagens secretas para ver como você estava. Na quarta viagem, quando fui para 1964, descobri que você e seu pai estavam mortos há um ano, assassinados por aquele viciado que assaltou o armazém. Então, fui até 1963 e o matei antes que ele pudesse matá-la.
— Viciado? — perguntou Chris, confuso.
— Conto mais tarde, meu bem.
— E até a noite em que Kokoschka apareceu na estrada da montanha — continuou Stefan — eu havia conseguido fazer sua vida mais fácil e melhor. Porém minha interferência não a privou da sua arte nem teve como resultado livros menos belos do que os da sua outra vida. Diferentes, mas não inferiores, com a mesma voz, na verdade, que você usa hoje para escrever.
Com pernas pouco firmes, Laura voltou para a cadeira.
— Mas, por quêl Por que teve tanto trabalho para melhorar minha vida?
Stefan Krieger olhou para Chris, depois para ela, fechou os olhos e finalmente disse:
— Depois de vê-la naquela cadeira de rodas, autografando exemplares do Ledges, depois de ler seus livros, eu me apaixonei por você...
me apaixonei profundamente por você.
Chris remexeu-se na cadeira, embaraçado com aquelas palavras que tinham como objeto de afeição sua própria mãe.
— Sua mente era mais bela do que seu rosto — disse Stefan com voz suave. Seus olhos estavam ainda fechados. — Eu me apaixonei por sua grande coragem, talvez porque a coragem verdadeira era algo que eu jamais havia visto no meu mundo de fanáticos pomposos de uniforme. Eles cometiam atrocidades em nome do povo e chamavam a isso coragem. Estavam dispostos a morrer por um ideal totalitário distorcido, e chamavam a isso coragem quando na verdade era insanidade, estupidez. E eu me apaixonei por sua dignidade, pois eu não possuía nenhuma, nenhum auto-respeito como via em você. Eu me apaixonei por sua compaixão, uma parte tão rica dos seus livros, pois no meu mundo havia visto pouca compaixão real. Eu me apaixonei, Laura, e compreendi que podia fazer por você o que todos os homens fariam pelas mulheres que amam, se tivessem o poder dos deuses: fiz o melhor possível para poupar você do pior que o destino havia reservado.
Stefan abriu os olhos.
Eram de um azul belíssimo. E torturados.
Laura estava imensamente grata a ele. Não o amava também, pois mal o conhecia. Mas confessando a profundeza da sua paixão, uma paixão que o levara a transformar seu destino e a navegar pelos vastos mares do tempo para estar com ela, de certo modo ele havia restaurado aquela aura mágica na qual ela antes o via. Mais uma vez ele parecia maior do que a vida, erguido da simples condição de mortal pela natureza do seu compromisso generoso para com ela.
Naquela noite, Chris compartilhou a cama de molas barulhentas com Stefan Krieger. Laura tentou dormir na cadeira, com os pés na outra.
O ritmo constante da chuva era um embalo e Chris adormeceu logo. Laura ouvia a respiração suave do filho.
Depois de ficar sentada por uma hora, no escuro, ela disse:
— Você está dormindo?
— Não — respondeu Stefan imediatamente.
— Danny — disse Laura. — Meu Danny...
— Sim?
— Por que você não...
— Não fiz uma segunda viagem naquela noite, em 1988, para matar Kokoschka antes que ele matasse Danny?
— Sim. Por quê?
— Porque... veja bem, Kokoschka era do mundo de 1944, portanto o fato de matar Danny e sua própria morte eram parte do meu passado, que eu não podia desfazer. Se eu tentasse nova viagem àquela noite, em 1988, algumas horas mais cedo, para deter Kokoschka antes que ele ma tasse Danny... eu teria sido atirado de volta ao portão imediatamente, voltando ao instituto, sem ter ido a parte alguma; a lei da natureza contra o paradoxo teria evitado que eu fosse, em primeiro lugar.
Laura ficou em silêncio.
— Você compreende? — perguntou Stefan.
— Compreendo.
— Você aceita?
— Nunca vou aceitar a morte de Danny.
— Mas... acredita em mim.
— Acho que sim, acredito.
— Laura, sei o quanto você amava Danny Packard. Se eu pudesse ter evitado a morte dele, mesmo em troca da minha vida, eu teria feito. Não teria hesitado.
— Acredito em você — disse ela. — Porque sem você... eu jamais teria Danny.
— O Enguia — disse ela.
— O destino procura refazer o padrão do que estava determina do — disse Stefan, no escuro do quarto. — Quando você tinha oito anos eu matei aquele viciado, evitei que ele a violentasse e matasse, mas o destino a aproximou de outro pedófilo, um assassino em potencial. Willy Sheener. O Enguia. Mas o destino determinou também que você seria uma escritora famosa, que traria ao mundo a mesma mensagem, nos seus livros, não importa o que eu pudesse fazer para modificar sua vida. Esse é um bom padrão. Há algo de assustador e ao mesmo tempo tranqüilizador no modo pelo qual certo poder tenta restabelecer os desígnios interrompidos do futuro... quase como se houvesse um sentido no universo, algo que, apesar da sua insistência no nosso sofrimento, podemos até chamar de Deus.
Durante algum tempo ouviram a chuva e o vento varrendo o mundo lá fora.
Mas por que você não resolveu o caso do Enguia para mim?
— Esperei por ele certa noite no apartamento em que morava...
— Deu uma surra nele. Sim, eu sabia que tinha sido você.
— Dei uma surra e mandei que ficasse longe de você. Disse que da próxima vez eu o mataria.
— Mas isso só fez com que ficasse mais obcecado por mim. Por que não o matou logo?
— Devia ter matado. Mas... não sei. Talvez tivesse visto mortes demais e tivesse participado em muitas... e tinha esperança de que pelo menos daquela vez não precisasse matar.
Laura pensou no mundo de Stefan, um mundo de guerra, campos de concentração, genocídio, e compreendeu por que ele tinha preferido evitar um crime, embora Sheener não merecesse viver.
— Mas quando Sheener me atacou na casa dos Dockweiler, por que você não estava lá para detê-lo?
— Quando verifiquei sua vida pela segunda vez, você tinha 13 anos, e já havia matado Sheener e sobrevivido, por isso resolvi não voltar.
— Eu sobrevivi — disse ela. — Mas Nina Dockweiler não. Tal vez se ela não tivesse chegado naquele momento, não tivesse visto o sangue, o corpo...
— Talvez — disse ele. — E talvez não. O destino procura restaurar o padrão determinado do melhor modo possível. Talvez ela tivesse morrido mesmo assim. Além disso, eu não podia proteger você de to dos os traumas da vida, Laura. Seriam necessárias milhares de viagens no tempo para fazer isso. E talvez esse exagero de proteção não fosse bom para você. Sem nenhuma adversidade, talvez não se tornasse a mulher pela qual eu me apaixonei.
Ficaram em silêncio. Laura ouviu o vento, a chuva. Ouviu as batidas do próprio coração. Finalmente ela disse:
— Eu não te amo.
— Eu compreendo.
— Mas tenho a impressão de que devia... um pouco.
— Nem me conhece ainda.
— Talvez nunca possa te amar.
— Eu sei.
— Apesar de tudo que fez por mim.
— Eu sei. Mas se sobrevivermos a isto... bem, sempre há tempo.
— Sim — disse ela. — Acho que sempre há muito tempo.
Seis
COMPANHEIRO DA NOITE
1
No sábado, 18 de março de 1944, no laboratório principal do instituto, o SS Obersturmführer Erich Klietmann e sua equipe de três homens altamente treinados preparavam-se para viajar para o futuro e eliminar Krieger, a mulher e o garoto. Estavam vestidos de modo a passar por jovens executivos da Califórnia, no ano 1989: ternos risca de giz de Yves St. Laurent, camisas brancas, gravatas escuras, sapatos pretos Bally, meias pretas e óculos Ray-Ban, se o tempo exigisse; haviam sido informados de que, no futuro, isso era chamado power look, e embora Klietmam não soubesse exatamente o significado da expressão, gostava do som das palavras. Suas roupas tinham sido compradas no futuro por pesquisadores do instituto, em viagens anteriores; nada neles, nem a roupa de baixo, era anacrônico.
Cada um levava uma pasta de executivo Mark Cross, um modelo elegante de couro com metais dourados, também compradas no futuro, bem como as Uzi adaptadas e pentes de bala que elas continham.
Uma equipe de pesquisadores do instituto estivera em missão nos Estados Unidos no ano e mês em que John Hinckley tentou assassinar o presidente Reagan. Vendo o filme do atentado na televisão, ficaram muito impressionados com as armas automáticas compactas levadas pelos agentes do serviço secreto em pastas de executivo. Podiam ser retiradas das pastas e postas em posição de tiro em questão de segundos. Agora a Uzi era não só a arma preferida das agências policiais e do Exército de 1989, como também dos comandos de viajantes do tempo da Schutzstaffel.
Klietmann havia treinado com a Uzi. Tinha pela arma tanta afeição quanto podia ter por um ser humano. A única coisa que o desagradava era o fato de ser uma arma desenhada e manufaturada pelos israelenses, produto, portanto, de um bando de judeus. Por outro lado, em pouco tempo a nova direção do instituto aprovaria a integração da Uzi no mundo de 1944, e os soldados alemães estariam equipados para derrotar as hordas de subumanos que pretendiam derrubar der Führer.
Olhou para o relógio no painel de programação do portão e verificou que haviam passado sete minutos desde que a equipe de pesquisa partira para a Califórnia e para 15 de fevereiro de 1989. Tinha como missão examinar os registros públicos — especialmente números atrasados de jornais — a fim de descobrir se Krieger, a mulher e o garoto haviam sido descobertos pela polícia e detidos para interrogatório sobre os tiroteios em Big Bear e San Bernardino. Voltariam então para 1944 e diriam a Klietmann o dia, a hora e o lugar certo para encontrar Krieger e a mulher. Uma vez que os viajantes do tempo voltavam ao instituto exatamente 11 minutos depois da partida, independente do tempo que passavam no futuro, Klietmann e sua equipe só tinham mais quatro minutos de espera.
2
Na quinta-feira, 12 de janeiro de 1989, Laura completava 34 anos e o dia foi passado no mesmo quarto do Motel Pássaro Azul da Felicidade. Stefan precisava de mais um dia de descanso para recuperar as forças e para que a penicilina fizesse efeito completo. Precisava também de tempo para pensar; tinha um plano para destruir o instituto e o problema era bastante complexo para exigir horas de intensa concentração.
Não chovia mais, porém o céu parecia ferido, inchado. A previsão era de outra tempestade mais ou menos à meia-noite.
Assistiram ao noticiário local das cinco horas na televisão com a história sobre Laura, Chris e o homem ferido que haviam levado à casa do dr. Brenkshaw. A polícia ainda os procurava e a teoria mais lógica parecia ser de que os traficantes que haviam assassinado seu marido estavam atrás de Laura e do filho para evitar que eles os identificassem ou então porque ela estava de algum modo ligada ao tráfico de drogas.
— Mamãe, traficante de drogas? — disse Chris ofendido com a insinuação. — Que bando de palhaços!
Embora não tivessem encontrado nenhum corpo em Big Bear ou em San Bernardino, um fato sensacional garantia o interesse da mídia.
Os repórteres souberam que havia considerável quantidade de sangue nos dois lugares — e que fora encontrada a cabeça decapitada de um homem na viela atrás da casa de Brenkshaw, entre duas latas de lixo. Laura lembrou do segundo atirador que havia surpreendido perto do portão, atrás da casa de Brenkshaw. Ela atingira com sua Uzi o pescoço e a cabeça do homem e naquele momento teve a impressão de que o havia decapitado.
— Os SS sobreviventes apertaram o botão de volta no cinto do morto — disse Stefan — mandando o corpo para o instituto.
— Mas por que não a cabeça? — perguntou Laura, achando o assunto desagradável, mas curiosa demais para não fazer a pergunta.
— Deve ter rolado para longe, para o meio das latas de lixo — disse Stefan —, e não conseguiram encontrá-la porque tinham poucos segundos para sair dali. Se a tivessem encontrado a teriam colocado sobre o corpo com os braços cruzados sobre ela. Qualquer coisa que esteja em contato com o viajante do tempo é levada com ele. Mas com as sirenes se aproximando e a escuridão da viela... não tiveram tempo para procurar a cabeça.
Era de esperar que Chris ficasse entusiasmado com essas complicações bizarras, mas o garoto deixou-se cair na cadeira, com as pernas cruzadas sob o corpo e ficou em silêncio. Talvez a imagem daquela cabeça separada do corpo fizesse a morte mais real para ele do que todos os tiroteios em que já estivera envolvido.
Laura o abraçou com força garantindo que iam sair daquilo tudo sãos e salvos. Entretanto, os assassinos estavam à procura dele também e suas palavras deviam parecer um tanto falsas, pois não estava realmente convencida do que dizia.
Almoçaram e jantaram a comida comprada no restaurante chinês no outro lado da rua. Na noite anterior nenhum dos empregados do restaurante a reconhecera como a escritora famosa ou a fugitiva, portanto sentia-se relativamente a salvo ali. Parecia tolice procurar outro lugar, arriscando reconhecimento.
Quando terminaram de jantar e Laura recolhia os recipientes vazios, Chris apareceu com dois bolinhos de chocolate com uma vela amarela em cada um. Comprara os bolos e as velas no supermercado na manhã anterior e os escondera até aquele momento. Com grande cerimônia, Chris levou os bolos do banheiro para o quarto e acendeu as velas. O reflexo dourado do fogo trêmulo brilhava nos seus olhos. Deu um largo sorriso vendo a surpresa e satisfação da mãe. Na verdade, Laura continha-se para não chorar. Era comovente ver que, mesmo naqueles momentos de medo e perigo, o filho tivera presença de espírito para lembrar o seu aniversário e procurar dar algum prazer a ela. Para Laura, era a essência do que significa o amor entre mãe e filho.
Os três comeram os bolos. Cinco biscoitos da sorte tinham vindo com o jantar chinês.
Recostado nos travesseiros, Stefan abriu o seu.
— Se ao menos fosse verdade! "Você viverá em tempos de paz e prosperidade.”
— Pode ainda ser verdade — disse Laura. Abriu o seu e tirou o pedaço de papel. — Ora essa, acho que já tive bastante, muito obriga da: "A aventura será sua companheira.”
Chris abriu seu biscoito. Não havia nenhum pedaço de papel, nenhuma previsão da sua sorte.
Um estremecimento de medo percorreu o corpo de Laura. Era como se o biscoito vazio significasse que Chris não tinha futuro. Bobagem, superstição. Mas não podia evitar a ansiedade.
— Tome — disse ela, estendendo para o filho os dois últjmos biscoitos. — Quando se tira um vazio, a gente tem direito a mais duas sortes.
Chris abriu o primeiro, leu em voz baixa, riu, depois leu para eles:
— "Você conquistará fama e fortuna.”
— Quando você for podre de rico vai sustentar sua velha mãe?
— perguntou Laura.
— É claro. Bem... desde que você continue cozinhando para mim, especialmente sua sopa de vegetais.
— Então vai fazer sua velha mãe ganhar o sustento, é isso?
Stefan Krieger sorriu e disse:
— Ele é durão, não é?
— Provavelmente vai me obrigar a lavar o chão quando eu tiver oitenta anos — disse Laura.
Chris abriu o segundo biscoito:
— "Você terá uma boa vida com pequenos prazeres — livros, música, arte.”
Chris e Stefan não notaram que as duas previsões eram opostas, uma cancelando a outra, o que, de certo modo, confirmava o sombrio significado do biscoito vazio.
Você está ficando doida, Shane, doida varrida, pensou ela. São apenas biscoitos da sorte. Não são previsões reais.
Mais tarde, com as luzes apagadas e Chris dormindo, Stefan disse:
— Eu tenho um plano.
— Para destruir o instituto?
— Sim. Mas é muito complicado e vamos precisar de várias coisas. Não estou bem certo... mas acho que algumas delas não podem ser compradas por particulares.
— Posso conseguir qualquer coisa — disse Laura com segurança. — Tenho contatos. Qualquer coisa.
— Precisamos de muito dinheiro.
— Não é fácil. Tenho uns quarenta dólares e não posso retirar dinheiro no banco porque deixaria uma pista...
— Certo. Isso os traria diretamente a nós. Não há ninguém em quem possa confiar e que confie em você, alguém disposto a lhe dar muito dinheiro sem contar que esteve com você?
— Sabe tudo sobre minha vida — disse Laura —, portanto conhece Thelma Ackerson. Mas, meu Deus, não quero envolver Thelma nisto. Se alguma coisa acontecer a ela...
— Pode ser arranjado sem nenhum risco para Thelma — insistiu ele.
Lá fora, a chuva prevista chegou bruscamente.
— Não — disse Laura.
— Mas é nossa única esperança.
— Não.
— Onde mais pode arranjar o dinheiro?
— Vamos pensar em outro modo que não exija tanto.
— Mesmo com outro plano, vamos precisar de dinheiro. Seus quarenta dólares não vão durar mais um dia. E eu não tenho nenhum.
— Não quero arriscar a vida de Thelma — disse Laura.
— Como eu já disse, podemos fazer sem nenhum risco para ela, sem...
— Não.
— Então, estamos vencidos — disse Stefan, desanimado.
Laura ouviu a chuva, que em sua mente transformou-se no ronco dos bombardeiros da Segunda Guerra — e então o som de uma multidão cantando enlouquecida. Finalmente, ela falou:
— Mesmo que nosso plano não seja arriscado para ela, a SS pode estar vigiando Thelma. Devem saber que é minha melhor amiga...
minha única amiga verdadeira. Por que não podem ter mandado alguns homens na frente, para vigiar Thelma, esperando que ela os traga até nós?
— Porque é um meio tedioso e desnecessário — disse Stefan. — Podem simplesmente enviar equipes ao futuro, a fevereiro, março e abril deste ano, mês após mês, para verificar os jornais, até descobrirem onde estamos. Cada viagem toma apenas onze minutos no tempo deles, lembre-se, é rápida; e esse método, mais cedo ou mais tarde, terá resultados, porque não podemos nos esconder a vida toda...
— Bem...
Stefan esperou um longo tempo. Finalmente, disse:
— Vocês são como irmãs. E se não pode pedir ajuda a uma irmã num momento como este, com quem pode contar, Laura?
— Se pudermos pedir ajuda de Thelma sem arriscar a vida dela...
acho que devemos tentar.
— Amanhã cedo — disse ele.
Choveu durante toda a noite e choveu também nos sonhos de Laura, com trovões e relâmpagos violentos. Acordou assustada, mas a noite chuvosa em Santa Ana não estava sendo cortada por aqueles barulhentos presságios de morte. Era uma tempestade relativamente calma, sem trovões, relâmpagos ou vento, mas Laura sabia que aquilo não ia durar.
3
As máquinas estalavam e zumbiam.
Erich Klietmann olhou para o relógio. Dentro de três minutos a equipe estaria de volta.
Dois cientistas, herdeiros de Penlovski, Januskaya e Volkaw estavam na frente do painel de programação, estudando os inúmeros botões e medidores.
A sala era iluminada artificialmente, pois as janelas não estavam apenas protegidas para evitar que algum raio de luz os denunciasse aos bombardeiros inimigos, mas fechadas com tijolos por motivos de segurança. O ar no laboratório estava abafado.
De pé num canto da sala, perto do portão, o tenente Klietmann esperava ansioso sua viagem a 1989, não porque o futuro estava repleto de maravilhas, mas porque a missão dava a ele a oportunidade de servir der Führer como poucos homens poderiam servir. Se conseguisse matar Krieger, a mulher e o garoto, seria premiado com um encontro pessoal com Hitler, uma chance de ver o grande homem de perto, sentir o toque da sua mão e através dele sentir o poder, o tremendo poder do Estado alemão, do povo e do destino da Alemanha. O tenente arriscaria a vida dez, mil vezes pela oportunidade de conseguir a atenção pessoal do Führer, que Hitler o notasse, não como outro oficial da SS, mas como um indivíduo, como Erich Klietmann, o homem que salvou o Reich do terrível destino que quase se havia realizado.
Klietmann não era o tipo ariano ideal e estava sempre consciente dessa incoveniência. Seu avô materno era polonês, um nojento vira-lata eslavo, o que fazia com que Klietmann fosse apenas três quartos alemão. Além disso, embora seus outros três avós e seus pais fossem louros, de olhos azuis e traços nórdicos, Erich tinha olhos castanho-claros, cabelo escuro e os traços mais pesados e sensuais do avô eslavo e bárbaro. Ele odiava a própria aparência, e tentava compensá-la sendo o nazista mais vigilante, o soldado mais corajoso e o mais ardoroso seguidor de Hitler em toda a Schutzstaffel, o que não era fácil, porque a competição era grande para essa honra. Às vezes desanimava de ser escolhido pela glória. Mas não desistia e agora estava muito perto do heroísmo que lhe daria um lugar no Valhalla.
Kleitmann queria matar Stefan Krieger pessoalmente, não só para conquistar o favor do Führer mas porque Krieger era o ariano ideal, louro, de olhos azuis, todos os seus traços realmente nórdicos e de linhagem pura. Com todas essas vantagens, o odioso Krieger tinha preferido trair seu Führer, e isso enfurecia Klietmann, que tinha de caminhar penosamente para a grandeza sob o fardo de genes impuros. Agora, faltando menos de dois minutos para a volta da equipe de busca, Klietmann olhou para seus três subordinados, todos vestidos como jovens executivos de outra era, e sentiu um orgulho feroz e cheio de emoção que quase fez as lágrimas assomarem aos seus olhos. Todos eram de origem humilde. Unterscharführer Felix Hubatsch, sargento de Klietmann e segundo em comando, era filho de um tecelão alcoólatra e mãe devassa, ambos desprezados por ele. Rottenführer Rudolph von Manstein era filho de um pobre fazendeiro cuja vida de fracassos o envergonhava e Rottenführer Martin Bracher era órfão. Apesar de originários de quatro cantos diferentes da Alemanha, os dois cabos, o sargento e o tenente Klietmann tinham uma coisa em comum, que os fazia sentir como irmãos: compreendiam que o relacionamento mais verdadeiro, mais profundo e mais precioso de um homem não era com a família, mas com o Estado, com a mãe pátria, e com seu líder, que simbolizava a pátria; o Estado era a única família que importava; esse simples item de convicção os elevava e fazia deles dignos pais da super-raça do futuro.
Klietmann discretamente enxugou os cantos dos olhos com o polegar, disfarçando as lágrimas que não conseguia evitar.
Dentro de um minuto a equipe de busca estaria de volta. As máquinas estalavam e zumbiam.
4
Às três horas da tarde de sexta-feira, 13 de janeiro, uma pickup branca entrou no estacionamento do motel, foi diretamente para a ala dos fundos e parou ao lado do Buick com as placas do Nissan. A pickup tinha uns cinco ou seis anos. A porta do lado do passageiro estava amassada e enferrujada. Evidentemente o dono estava restaurando a lataria aos poucos, porque algumas partes haviam sido lixadas e preparadas, mas não pintadas.
Laura observou o carro por detrás das cortinas semicerradas do motel. A Uzi estava em sua mão.
Os faróis da caminhonete foram apagados, os limpadores de pára-brisa desligados e logo depois uma mulher com cabelo louro crespo desceu e dirigiu-se para a porta do quarto de Laura. Bateu três vezes.
Chris estava de pé atrás da porta, olhando para a mãe.
Laura acenou com a cabeça.
Chris abriu a porta e disse:
— Oi, tia Thelma. Puxa, que peruca horrível! Thelma entrou,
abraçou Chris com força e disse:
— Ora, muito obrigada. E se eu dissesse que você nasceu com um nariz extremamente feio, mas tem de viver com ele, ao passo que eu não preciso viver com esta peruca? O que você diz?
Chris riu:
— Nada. Porque sei que tenho um nariz bonitinho.