O Guardião
O longo hábito de viver
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Não tenho tempo, doutor. Preciso correr.
— Escute — disse ele —, talvez eu não diga nada a ninguém.
— Vai dizer — respondeu Laura. — Pode pensar que não, mas vai contar tudo. Se não contasse, não haveria registro policial nem notícias nos jornais e sem esses registros no futuro, aqueles atiradores não poderiam me encontrar.
— Que bobagem está dizendo?
Laura inclinou-se e beijou o rosto dele:
— Não tenho tempo para explicar, doutor. Obrigada pela ajuda.
E, desculpe, mas acho melhor levar essa cadeira também.
O médico dobrou a cadeira e a colocou na mala do carro. Agora a noite estava repleta de sirenes. Laura entrou no Cutlass, bateu a porta.
— Cinto de segurança, Chris.
— Colocado — respondeu ele.
Laura entrou à esquerda e foi até o fim do quarteirão, afastando-se da casa de Brenkshaw, chegando à rua transversal onde vira a radiopatrulha há poucos instantes. Imaginou que, se a polícia estava convergindo em resposta aos chamados por causa dos tiros, devia estar chegando de diferentes áreas da cidade, de diferentes pontos de patrulhamento, portanto, talvez não houvesse nenhum outro carro naquela rua. A avenida estava quase deserta e os veículos que passavam não tinham luzes giratórias. Virou para a direita, afastando-se sempre da casa do médico, atravessou San Bernardino, imaginando onde encontraria um santuário.
3
Laura chegou em Riverside às 3hl5min da manhã, roubou um Buick numa rua residencial, passou o ferido para a cadeira de rodas e depois para o carro, abandonando o Cutlass. Chris dormiu durante toda a operação e teve de ser carregado de um carro para o outro.
Meia hora depois, em outro bairro, exausta e precisando dormir, Laura usou uma chave de parafuso da caixa de ferramentas do Buick para roubar duas placas de um Nissan. Pôs as placas no Buick e as do Buick na mala, porque na certa o número iria parar no relatório da polícia.
O dono do Nissan podia não notar a falta das placas por alguns dias, e quando comunicasse o roubo, a polícia não daria a mesma atenção que dava a carros roubados. As placas geralmente eram tiradas por garotos por puro vandalismo e sua recuperação não figurava na lista de alta prioridade do departamento de polícia, sempre sobrecarregado com crimes maiores. Esse era mais um dos fatos úteis que havia aprendido em suas pesquisas.
Laura parou também para vestir e calçar seu guardião, evitando que ele se resfriasse. Em certo momento ele abriu os olhos, piscou rapidamente, para ver melhor e disse o nome dela. Laura pensou que estava saindo do coma, mas logo mergulhou na inconsciência, murmurando numa língua que Laura não podia identificar porque não ouvia bem as palavras.
De Riverside foram para Yorba Linda, em Orange County, onde Laura parou na extremidade do estacionamento de um supermercado, atrás do posto de Coleta da Boa Vontade, às 4:50 da madrugada. Desligou o motor e os faróis, desafivelou o cinto. Chris estava ainda com o cinto de segurança, encostado na porta, dormindo profundamente. No banco traseiro, seu guardião continuava inconsciente, mas sua respiração parecia mais suave do que antes da visita a Carter Brenkshaw. Laura não acreditava que pudesse dormir; pensou em refazer um pouco as forças e descansar a vista, mas em poucos minutos estava dormindo. Depois de matar pelo menos três homens, de ter sido alvo das balas repetidamente, depois de roubar dois carros, e sobreviver a uma caçada que a levara através de três condados, o normal seria sonhar com a morte, com corpos destroçados, sangue, com o som frio das automáticas como música de fundo do pesadelo. Podia sonhar que tinha perdido Chris, a única luz nas suas trevas, ele e Thelma, e temia a idéia de continuar vivendo sem ele. Mas Laura sonhou com Danny, belos sonhos, não pesadelos. Danny estava vivo outra vez, e estavam revivendo a venda de Shadrach por mais de um milhão de dólares, mas Chris estava no sonho também, e tinha oito anos, embora não fosse nascido naquele tempo, e comemoravam a boa sorte passando o dia na Disneylândia, onde os três foram fotografados com Mickey Mouse, e no Pavilhão dos Cravos Danny disse que a amaria para sempre, enquanto Chris fingia que sabia falar numa língua toda confusa que tinha aprendido com Carl Dockweiler, que estava sentado à mesa próxima com Nina e o pai de Laura, e em outra mesa estavam as maravilhosas gêmeas Ackerson tomando sundaes de morango...
Laura acordou mais de três horas depois, às 8:26, descansada, tanto pelo efeito daquela reunião familiar criada pelo subconsciente quanto pelo sono. O sol no céu sem nuvens cintilava nos cromados do carro e entrava numa faixa luminosa pelo vidro traseiro. Chris dormia ainda. No banco de trás, o homem ferido continuava inconsciente.
Laura arriscou uma pequena caminhada até o telefone público ao lado do supermercado, de onde podia ver o carro. Tirando algumas moedas da bolsa, ligou para Ida Palomar, a professora de Chris em lago Arrowhead, para avisar que não estariam em casa no resto daquela semana. Não queria que a pobre Ida entrasse na casa crivada de balas e suja de sangue perto de Big Bear, onde as equipes de medicina legal da polícia sem dúvida estariam trabalhando. Não disse de onde estava telefonando; de qualquer modo, não pretendia demorar-se em Yorba Linda.
Voltou para o carro e enquanto observava as pessoas que entravam no supermercado, bocejou, espreguiçou e massageou a nuca. Estava com fome. Com olhos sonolentos e hálito pesado, Chris acordou menos de dez minutos depois e Laura deu dinheiro a ele para comprar pãezinhos doces e suco de laranja, não o mais nutritivo café da manhã, mas fornecedor de energia.
— E ele? — perguntou Chris, mostrando o guardião.
Laura lembrou o que Brenkshaw havia dito sobre o risco de desidratação. Mas sabia também que não era possível obrigá-lo a tomar líquidos enquanto estivesse em estado de coma; ele morreria sufocado.
— Bem... traga três sucos de laranja. Talvez eu consiga acordá- lo. — Quando Chris saiu do carro, ela disse: — Acho melhor comprar também alguma coisa para o almoço, alguma coisa que não se estrague... digamos um pão e um vidro de creme de amendoim. Compre também um desodorante spray e um vidro de xampu.
Chris deu um largo sorriso.
— Por que não me deixa comer assim em casa?
— Porque se não se alimentar bem vai acabar com um cérebro mais deturpado do que já tem, garotão.
— Mesmo fugindo de assassinos, não sei como você não trouxe um microondas, vegetais frescos e um vidro de vitaminas.
— Está dizendo que sou uma boa mãe mas muito chata? Elogio anotado, crítica considerada. Agora vá.
Chris começou a fechar a porta.
— E, Chris... — disse Laura.
— Já sei — continuou o menino. — Tome cuidado.
Laura ligou o motor e o rádio para ouvir o noticiário das nove. Ouviu uma história a seu respeito: a cena em sua casa perto de Big Bear, o tiroteio em San Bernardino. Como a maioria das reportagens, era inexata, confusa, sem sentido. Mas uma confirmação de que a polícia a procurava por toda a Califórnia. Segundo o repórter, as autoridades esperavam encontrá-la em breve, especialmente porque seu rosto era muito conhecido.
Laura ficara chocada quando Brenkshaw a reconheceu como Laura Shane, famosa escritora. Não se considerava uma celebridade; era apenas uma contadora de histórias, uma tecelã de contos, que usava um tear de palavras, com o qual fabricava um tecido especial. Havia feito uma única turnê para um dos seus primeiros livros e detestou. Não repetiu a experiência. Não aparecia com freqüência na televisão. Nunca patrocinara qualquer produto num comercial, nunca havia apoiado publicamente qualquer político e de um modo geral evitava tomar parte do circo da mídia. Seguia a tradição da fotografia na quarta capa dos seus livros porque parecia inofensiva e aos 33 anos podia admitir, sem nenhum embaraço, que era uma mulher muito bonita, mas nunca imaginou, como dizia a polícia, que seu rosto fosse muito conhecido.
Agora, preocupava-se, não apenas porque a perda do anonimato a fazia presa fácil para a polícia, mas também porque sabia que ser uma celebridade na América significava perder a capacidade de autocrítica e um grave declínio na capacidade artística. Poucos conseguiam ser ao mesmo tempo figuras públicas e bons escritores, mas a maioria era corrompida pela atenção da mídia. Laura temia aquela armadilha tanto quanto temia ser apanhada pela polícia.
De repente compreendeu com alguma surpresa que, se era capaz de se preocupar em ser uma celebridade e perder seu senso artístico, era porque acreditava ainda num futuro em segurança, no qual escreveria outros livros. Certas vezes, durante a noite, havia decidido lutar até a morte, até o fim para proteger o filho, mas naqueles momentos sentira que a situação era praticamente sem esperança, o inimigo poderoso demais e inatingível demais para ser destruído. Agora, alguma coisa havia mudado, levando-a a um otimismo tênue e cauteloso.
Talvez fosse efeito do sonho.
Chris voltou com um pacote de pãezinhos de canela, três sucos de laranja e outras coisas. Comeram os pãezinhos e tomaram o suco, e nunca nada pareceu tão delicioso para os dois.
Quando terminou, Laura passou para o banco de trás e tentou acordar seu guardião. Não conseguiu.
Deu o terceiro suco de laranja para Chris e disse:
— Guarde para ele. Provavelmente vai acordar logo.
— Se não pode beber, não pode tomar a penicilina — disse Chris.
— Não precisa tomar por enquanto. O dr. Brenkshaw deu uma dose bem forte ontem à noite; ainda está fazendo efeito.
Mas Laura estava preocupada. Se ele não recuperasse a consciência, jamais saberiam a verdadeira natureza daquele perigoso labirinto onde estavam perdidos — e talvez nunca encontrassem a saída.
— E agora? — perguntou Chris.
— Vamos procurar um posto de gasolina, usar os banheiros, de pois parar numa loja de armas e comprar munição para a Uzi e para o revólver. Depois... vamos procurar um motel, do tipo certo, onde possamos nos esconder.
Quando resolveram parar, deviam estar a pelo menos oitenta quilômetros da casa do dr. Brenkshaw, onde os inimigos os haviam encontrado. Mas será que a distância tinha significado para homens que mediam suas viagens em dias e anos e não em quilômetros?
Certas áreas de Santa Ana, as vizinhanças do sul de Anaheim e arredores ofereciam o maior número de motéis do tipo que Laura procurava. Não queria um moderno e cintilante Red Lion Inn, nem um Howard Johnson's Motor Lodge, com televisão em cores, tapete espesso e piscina aquecida, porque esses estabelecimentos exigiam identidade e cartão de crédito, e não podia correr o risco de deixar uma trilha de papel que servisse de guia para a polícia ou para seus assassinos. Procurava um motel que já não fosse muito limpo, nem muito conservado para atrair turistas, um lugar onde ficavam felizes por conseguir fregueses, ávidos pelo dinheiro, e onde não faziam perguntas . que podiam afugentar os hóspedes.
Sabia que não ia ser fácil encontrar um quarto, e não ficou surpresa ao verificar que os primeiros 12 lugares que procurou não tinham condições de acomodá-la. As únicas pessoas que entravam ou saíam desses motéis eram jovens mexicanas com filhos no colo ou pela mão, e mexicanos de meia-idade de tênis, chinos, camisas de flanela e casacos de sarja ou veludo, alguns com chapéus de palha de caubói e outros com bonés de beisebol, todos com ar vigilante e de suspeita. Muitos motéis decrépitos eram agora pensões para imigrantes ilegais, centenas ou milhares que residiam em Orange County de modo semi-secreto. Famílias inteiras moravam num quarto, cinco, seis ou sete pessoas amontoadas, dormindo na mesma cama com duas cadeiras e um banheiro com o mínimo de capacidade funcional, pagando por isso 150 dólares ou mais por semana, sem roupa de cama nem faxineira, sem nenhum tipo de facilidades, e no meio de milhares de baratas. Sujeitavam-se a essas condições e deixavam que os explorassem como trabalhadores mal pagos para não voltar para sua terra e viver sob o domínio do "governo revolucinário do povo" que durante décadas só lhes dera a irmandade do desespero.
No 13º. motel, o Pássaro Azul da Felicidade, o dono esperava ainda servir a faixa menos favorecida do comércio de turismo e não havia sucumbido ainda à tentação de ganhar dinheiro à custa do sacrifício e do sangue dos pobres imigrantes. Algumas das 24 unidades estavam alugadas para ilegais, mas o motel fornecia ainda roupa de cama limpa diariamente, serviço de empregada, televisão e dois travesseiros extras em cada closet. Entretanto, o fato de o atendente no balcão aceitar dinheiro, não exigir identidade e evitar olhar Laura de frente, era prova de que cm mais um ano o Pássaro Azul da Felicidade seria outro monumento à burrice política e à avareza humana, num mundo tão repleto desse tipo de monumentos, como qualquer velho cemitério repleto de lápides.
O motel tinha três alas, formando um U, com o estacionamento no centro, e o quarto de Laura ficava no canto direito da ala traseira. Uma grande palmeira em leque erguia-se perto da porta, aparentemente não castigada pelo smog nem limitada pelo pequeno pedaço de solo no meio de tanto asfalto, cheia de brotos mesmo no inverno, como se a natureza a tivesse escolhido para símbolo da sua intenção de retomar cada pedaço de solo depois da passagem do homem.
Laura e Chris armaram a cadeira de rodas e puseram o ferido nela, procurando disfarçar o que estavam fazendo, como se estivessem apenas ajudando uma pessoa deficiente. Completamente vestido, com os curativos cobertos pela roupa, o guardião podia passar por um paraplégico — a não ser pelo modo como sua cabeça rolava nos ombros.
O quarto era pequeno mas relativamente limpo. O tapete esgarçado mas recentemente lavado, e alguns cotões de poeira num canto não eram tão grandes quanto rolos de amaranto feitos pelo vento. A colcha xadrez marrom da cama de casal estava esgarçada nas bordas, e o desenho não chegava a disfarçar dois remendos, mas os lençóis eram engomados e cheiravam a detergente. Passaram o ferido da cadeira para a cama e apoiaram sua cabeça em dois travesseiros.
A televisão de 17 polegadas estava pregada a uma mesa com tampo arranhado e laminado e as pernas traseiras da mesa eram pregadas no chão. Chris sentou em uma das cadeiras, ligou o aparelho e girou o botão à procura de desenhos animados ou reprise de algum bom programa. Escolheu Agente 86, mas queixou-se que era "burro demais para ser engraçado" e Laura imaginou quantos meninos daquela idade pensariam assim.
Ela sentou na outra cadeira.
— Por que não toma um banho de chuveiro?
— E depois vestir a mesma roupa? — perguntou ele, hesitante.
— Sei que parece besteira, mas tente. Garanto que vai se sentir mais limpo, mesmo sem trocar de roupa.
— Mas tanto trabalho para tomar banho, depois vestir roupa amarrotada!
— Não sabia que tinha virado modelo tão exigente que não suporta algumas rugas na roupa.
Chris sorriu, levantou e foi para o banheiro imitando o passo de um modelo — O rei e a rainha ficariam chocados me vendo deste jeito.
— Nós arranjaremos vendas para seus olhos quando vierem nos visitar.
Num minuto ele estava de volta.
— Tem um inseto morto no vaso. Acho que é uma barata, mas não tenho certeza.
— Importa a espécie? Devemos avisar o parente mais próximo?
Chris riu. Meu Deus, como Laura gostava de ouvir aquela risada.
Ele disse:
— O que devo fazer... dar a descarga?
— A não ser que queira pescá-lo, colocar numa caixa de fósforos e o enterrar no canteiro lá fora.
Chris riu outra vez.
— Nem pensar. Sepultamento no mar.
No banheiro ele cantarolou o toque de silêncio e puxou a descarga.
Enquanto Chris estava no banheiro, o Agente 86 acabou e começou Os Harlem Globetrotters na ilha Gilligan. Laura não estava na verdade olhando para a tela; a televisão estava ligada como um som de fundo, mas há limites para o que até mesmo uma mulher em fuga pode aturar. Mudou para o canal 11 no programa Hour Magazine.
Olhou para seu guardião por algum tempo, mas aquele sono tão pouco natural a deprimia. Sem sair da cadeira, abriu as cortinas algumas vezes, examinando o estacionamento do motel, mas ninguém podia saber onde estavam; não corriam perigo iminente. Então, olhou para a televisão, sem interesse, até ficar praticamente hipnotizada. O apresentador da Hour Magazine estava entrevistando um jovem ator que falava vagarosamente sobre ele mesmo, nem sempre com coerência, e depois de algum tempo Laura notou que ele estava dizendo alguma coisa sobre água, mas agora ela estava cochilando e aquela insistência em falar sobre água era mesmérica e entediante ao mesmo tempo.
— Mamãe!
Laura piscou os olhos, endireitou o corpo na cadeira e viu Chris na porta do banheiro. Acabava de sair do chuveiro. Estava com o cabelo molhado e só de cueca. Olhando para o corpo magro do menino — só costelas, cotovelos e joelhos — Laura sentiu um aperto no coracão, pois ele parecia tão inocente e vulnerável. Chris parecia tão pequeno e frágil que Laura imaginou como poderia protegê-lo, e o medo apossou-se dela novamente.
— Mamãe, ele está falando — disse Chris, apontando para o homem na cama. — Não ouviu? Ele está falando.
— Água — disse o guardião com voz pastosa. — Água.
Laura foi rapidamente até a cama e inclinou-se sobre ele. Não estava mais comatoso. Tentava sentar na cama, mas não tinha forças. Os olhos azuis abertos e congestionados fixaram-se nela, alerta e observadores.
— Sede — disse ele.
— Chris...
O menino já estava ali com o copo cheio d'água na mão.
Laura sentou na beirada da cama, ergueu a cabeça do ferido e o ajudou a beber. Obrigou-o a tomar pequenos goles; não queria que se engasgasse. Os lábios dele estavam rachados pela febre e a língua coberta por uma camada branca, como se tivesse comido cinza. Tomou mais de um terço da água, e então fez sinal de que era bastante. Laura pôs a cabeça dele no travesseiro e a mão na sua testa.
— Não está tão quente quanto antes.
O guardião girou a cabeça de um lado para o outro, tentando ver o quarto. Apesar da água, sua voz estava seca, crestada pela febre.
— Onde estamos?
— A salvo — disse Laura.
— Nenhum lugar é seguro.
— Acho que descobrimos mais sobre esta situação do que pode imaginar — disse ela.
— Isso mesmo — disse Chris, sentando ao lado da mãe. — Sabe mos que você é um viajante do tempo!
O homem olhou para o garoto, conseguiu dar um sorriso muito fraco, fez uma careta de dor.
— Tenho remédio — disse Laura. — Um analgésico.
— Não — respondeu ele. — Agora não. Mais tarde, talvez. Mais água.
Laura ergueu a cabeça dele novamente e Stefan tomou toda a água que restava no copo. Laura lembrou-se da penicilina e pôs uma cápsula em sua boca, que foi tomada com os últimos dois goles.
— De quando você vem? — perguntou Chris, intensamente interessado, sem dar importância às gotas de água do banho que pinga vam do seu cabelo. — De quando?
— Meu bem — disse Laura —, ele está muito fraco, e não deve mos fazer muitas perguntas ainda.
— Mas pode dizer pelo menos isso, mamãe — voltou-se para o homem. — De quando você vem?
O guardião olhou para Chris, depois para Laura e a expressão sombria voltou aos seus olhos.
— De quando você vem, hem? Do ano 2100? 3000?
Com sua voz seca como papel, o guardião disse:
— Mil novecentos e quarenta e quatro.
Aqueles minutos de atividade evidentemente o tinham cansado, pois suas pálpebras pareciam pesadas e a voz ficou mais fraca. Laura estava certa de que estava delirando outra vez.
— Quando? — repetiu Chris, atônito com a resposta.
— Mil novecentos e quarenta e quatro.
— Isso é impossível — disse Chris.
— Berlim — disse o guardião.
— Está delirando — falou Laura.
A voz do ferido ficou arrastada, enfraquecida pelo cansaço, mas a palavra soou clara: Berlim.
— Berlim? — disse Chris. — Quer dizer, Berlim... Alemanha?
O sono tomou conta do homem ferido, não o sono do coma, mas o sono repousante, imediatamente marcado por um leve ronco, mas antes de adormecer completamente, ele disse:
— Alemanha nazista.
4
Uma vida para viver estava passando na televisão, mas Laura e Chris não prestavam atenção ao seriado. Tinham aproximado as cadeiras da cama e observavam o homem adormecido. Chris estava vestido, com o cabelo quase seco, úmido ainda na nuca. Laura queria tomar um banho, mas não ia deixar seu guardião que podia acordar outra vez e falar. Ela e o filho conversavam em voz baixa.
— Chris, pensei uma coisa. Se esses homens fossem do futuro, por que não teriam armas de raio laser ou coisa assim?
— Para que não soubessem que vinham do futuro — disse Chris.
— Usariam armas e roupas que não chamassem atenção. Mas, mamãe, ele disse que era da...
— Eu sei o que ele disse. Mas não faz sentido. Se em 1944 eles tivessem a tecnologia da viagem no tempo, hoje nós saberíamos disso.
À uma e meia o guardião acordou, parecendo um tanto confuso. Pediu mais água e Laura o ajudou a beber. Disse que se sentia um pouco melhor, mas ainda muito fraco e com sono. Pediu para ficar sentado na cama. Chris apanhou os dois travesseiros do closet e ajudou a mãe a erguer um pouco o ferido.
— Como é o seu nome? — perguntou Laura.
— Stefan. Stefan Krieger.
Laura repetiu o nome suavemente, não era melódico mas sólido, um nome masculino. Mas não era o nome de um anjo da guarda, e com certo humor ela percebeu que depois de tantos anos, incluindo duas décadas durante as quais dizia a si mesma que não acreditava mais nele, ainda esperava ouvir um nome extremamente musical.
— E na verdade vem de...
— Mil novecentos e quarenta e quatro — repetiu ele.
O esforço de mudar de posição na cama fizera aparecer gotas de suor na testa dele — ou talvez fossem provocadas pela lembrança do tempo e do lugar de onde tinha vindo.
— Berlim, Alemanha. Havia um brilhante cientista polonês, Vladimir Penlovski, considerado louco por muitos, e na verdade talvez fosse... muito louco, eu acho... mas também um gênio. Em Varsóvia ele estudou certas teorias sobre a natureza do tempo durante mais de 25 anos antes da invasão do seu país pela Alemanha e pela Rússia, em 1939...
Penlovski, segundo Stefan Krieger, simpatizava com os nazistas e recebeu com satisfação o Exército de Hitler. Talvez soubesse que Hitler concederia o apoio financeiro para as pesquisas que fazia, o que não conseguia de fontes mais equilibradas. Com patrocínio pessoal de Hitler, Penlovski e seu assistente Wladyslaw Januskaya foram para Berlim a fim de criar o instituto de pesquisa do tempo, um empreendimento tão secreto que nem recebeu um nome. Era chamado simplesmente do instituto. Ali, com ajuda de cientistas alemães tão dedicados e de ampla visão quanto ele, financiados por uma fonte aparentemente inexaurível de fundos do Terceiro Reich, Penlovski descobriu um meio para cortar a artéria do tempo, movimentando-se livremente naquela corrente de dias, meses e anos.
— Blitzstrasse — disse Stefan.
— Blitz... isso significa relâmpago — disse Chris. — Como Blitz- kríeg... guerra relâmpago... em todos aqueles filmes antigos.
— Estrada do Relâmpago, neste caso — disse Stefan. — A estrada no tempo. A estrada para o futuro.
Literalmente podia ser chamada de Zukunfstrasse, ou Estrada do Futuro, explicou Stefan, pois Vladimir Penlovski não conseguiu descobrir um meio de enviar pessoas para o passado com o portão que tinha inventado. Só era possível viajar para a frente, para o futuro, e voltar automaticamente para seu próprio tempo.
— Parece haver um mecanismo cósmico que impede os viajantes do tempo de interferir nos próprios passados, a fim de alterar as circunstâncias do presente. Vocês compreendem, se pudessem voltar ao passado, seria criada uma série de....
— Paradoxos! — disse Chris, entusiasmado.
Stefan ficou surpreso vendo o garoto fazer uso daquela palavra. Laura sorriu e disse:
— Como eu já disse, tivemos uma longa conversa sobre suas possíveis origens, e a viagem no tempo nos pareceu a mais lógica. E aqui você está vendo meu especialista em coisas estranhas.
— Paradoxo — concordou Stefan. — A mesma palavra em ale mão. Se o viajante do tempo pudesse voltar ao próprio passado e interferir em algum fato histórico, essa mudança teria tremendas ramificações. Poderia alterar o futuro do qual ele vinha. Portanto ele não poderia voltar ao mesmo mundo que havia deixado...
— Paradoxo! — disse Chris alegremente.
— Paradoxo — concordou Stefan. — Aparentemente, a natureza detesta paradoxos e de um modo geral não permite que o viajante do tempo provoque essa situação. Graças a Deus. Porque... imaginem se, por exemplo, Hitler enviasse um assassino ao passado para matar Franklin Roosevelt e Winston Churchill, muito antes de chegarem aos cargos de presidente e primeiro-ministro. Outros homens seriam eleitos nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, homens menos brilhantes e mais maleáveis, que teriam conduzido Hitler ao triunfo em 1944, ou antes disso.
Stefan falava agora com uma emoção que seu estado de fraqueza não permitia que mantivesse por muito tempo e Laura percebeu que o estava debilitando rapidamente. A transpiração estava quase seca em sua testa; porém agora, embora ele não estivesse gesticulando, novas gotas de suor começavam a aparecer. As olheiras pareciam mais escuras. Mas não podia mandar que se calasse para descansar, porque queria e precisava saber tudo — e porque ele não permitiria que ela o interrompesse.
— Suponhamos que der Führer pudesse enviar assassinos ao passado para matar Dwight Eisenhower, George Patton, marechal Montgomery, matá-los no berço, eliminando-os, bem como todas as melhores mentes militares dos aliados. Então, o mundo quase todo seria seu em 1944, e nesse caso os viajantes do tempo estariam voltando ao passado para matar aqueles homens que estavam mortos há muito tempo e não representavam ameaça. Paradoxo, como podem ver. E graças a Deus, a natureza não permite esse paradoxo, não permite interferência com o passado, pois do contrário, Adolf Hitler teria transformado o mundo todo num imenso campo de concentração, um crematório.
Ficaram em silêncio por algum tempo, chocados com a possibilidade daquele inferno. Até Chris compreendeu o quadro que Stefan mostrava, de um mundo diferente, pois era um garoto da década de 1980, quando os vilões no cinema e na televisão eram sempre vorazes habitantes de uma estrela distante ou nazistas. A suástica, o símbolo da caveira prateada e os uniformes negros da SS, o fanático com o estranho bigode, representavam coisas terríveis para Chris, porque faziam parte da mitologia criada pela mídia na qual ele fora criado. Laura sabia que pessoas e eventos reais, uma vez incluídos na mitologia, eram de certo modo mais reais para uma criança do que o pão que ela comia. Stefan disse:
— Assim, do instituto só podemos viajar para a frente no tempo, mas isso tem muita utilidade também. Podíamos saltar algumas décadas para verificar se a Alemanha conseguiu suportar o tempo difícil da guerra e de certo modo inverter o curso das coisas. Mas é claro, descobrimos que isso não aconteceu, que o Terceiro Reich foi derrota do. Contudo, com esse conhecimento do futuro, não seria possível ainda modificar o resultado final? Sem dúvida Hitler poderia fazer alguma coisa para salvar o Reich, mesmo em 44. E podiam levar para o passa do certas coisas do futuro para vencer a guerra...
— Assim como bombas atômicas? — perguntou Chris.
— Ou o conhecimento para fazer essas bombas — disse Stefan.
— O Reich já possuía um programa de pesquisa nuclear, vocês sabem, e se conseguissem todo o conhecimento em tempo, se conseguissem a divisão do átomo...
— Teriam ganhado a guerra — disse Chris.
Stefan pediu água e tomou meio copo. Tentou segurar o copo mas sua mão tremia demais e a água derramou sobre as cobertas. Laura o ajudou.
Quando voltou a falar, sua voz quase desaparecia às vezes.
— Uma vez que nenhum viajante do tempo existe fora do tempo durante sua viagem, pode se movimentar, não só no tempo, mas geograficamente também. Imaginem o viajante suspenso sobre a terra, imóvel, enquanto o globo gira sob ele. Não é exatamente o que acontece, mas é mais fácil imaginar isso do que um indivíduo pairando em outra dimensão. Então, enquanto ele está lá em cima, o mundo continua girando, e se sua viagem ao futuro estiver bem controlada, pode chegar a um determinado tempo em Berlim, a mesma cidade da qual partiu anos atrás. Mas se a viagem foi programada para algumas horas a mais ou a menos, o mundo terá girado exatamente aquele tempo e ele chegará a outro lugar. O cálculo para conseguir a chegada no tempo e no lugar exatos é extremamente complexo na minha era, 1944...
— Mas devem ser mais fáceis hoje — disse Chris — com os computadores.
Apoiado nos travesseiros, numa posição pouco confortável, a mão direita trêmula sobre o ombro esquerdo ferido, como que procurando aliviar a dor, Stefan disse:
— Equipes de físicos alemães, na companhia da Gestapo, foram enviadas secretamente a várias cidades da Europa e dos Estados Unidos em 1985, para coletar informação vital sobre as armas nucleares. O material que procuravam era difícil de encontrar ou sigiloso. Com o que já sabiam do resultado de suas pesquisas, podiam obter o resto em livros e outras publicações científicas acessíveis nas bibliotecas das principais universidades em 1985. Quatro dias antes da minha partida final do instituto, essas equipes voltaram de 85 para março de 1944, com material que daria ao Reich um arsenal nuclear antes do outono daquele ano. Passariam algumas semanas estudando o material, no instituto, antes de resolver como e onde aplicar aquele conhecimento no programa nuclear alemão sem revelar sua origem. Compreendi então que precisava destruir o instituto e tudo que ele continha, homens-chaves e arquivos, para evitar um futuro moldado por Adolf Hitler.
Laura e Chris ouviam atentos. Stefan Krieger contou como havia colocado os explosivos no instituto, como nos seus últimos dias em 44 tinha eliminado Penlovski, Januskaya e Volkaw, programando o portão para levá-lo a Laura e à América daquele tempo.
Mas algo saiu errado no último momento, quando Stefan se preparava para partir. Falhou o fornecimento de força da cidade, que alimentava o instituto. A RAF havia bombardeado Berlim pela primeira vez em janeiro daquele ano, e os bombardeiros americanos fizeram seus primeiros ataques diurnos em 6 de março, portanto o fornecimento de força fora interrompido várias vezes, não somente devido aos bombardeios, mas também por sabotagem. Por isso o portão era alimentado por um gerador especial. Stefan não ouviu nenhum bombardeio naquele dia quando, ferido por Kokoschka, entrou no portão, portanto, devia ter sido obra dos sabotadores.
— E o marcador de tempo dos explosivos parou. O portão não foi destruído. Ainda está aberto e eles podem vir atrás de nós. E... ainda podem vencer a guerra.
Laura começava a sentir dor de cabeça outra vez. Levou as mãos às têmporas.
— Mas, espere. Hitler não pode ter conseguido armas atômicas nem vencido a guerra, porque não vivemos num mundo onde isso aconteceu. Não precisa se preocupar. De certo modo, apesar de todo o conhecimento que acumularam usando o portão, obviamente falharam na construção de um arsenal atômico.
— Não — disse Stefan. — Falharam até agora, mas não pode mos presumir que continuarão falhando. Para aqueles homens do instituto em Berlim, em 1944, o passado é imutável, como eu já disse.
Não podem voltar no tempo e alterar o próprio passado. Mas podem mudar seu futuro e o nosso, porque o futuro do viajante do tempo é mutável; ele pode alterar o próprio futuro.
— Mas o futuro deles é o meu passado — disse Laura. — E se o passado não pode ser mudado, como podem mudar o meu?
— É isso aí — disse Chris. — Paradoxo.
Laura disse:
— Escutem, não passei os últimos 34 anos em um mundo governado por Hitler e seus herdeiros; portanto, apesar do portão, Hitler falhou.
Stefan disse com expressão sombria:
— Se a viagem no tempo fosse inventada agora, em 1989, esse passado do qual você fala., a Segunda Guerra Mundial e tudo o que aconteceu depois... seria inalterável. Não poderia ser mudado pois a natureza não permite a viagem ao passado e os paradoxos da viagem do tempo seriam aplicados. Mas a viagem no tempo não foi descoberta aqui... ou redescoberta. Os viajantes do tempo no instituto de Berlim em 1944 podem mudar o próprio futuro à vontade, aparentemente, e embora com isso alterem simultaneamente o seu passado, nada nas leis da natureza os impediria. E aí temos o maior de todos os paradoxos... o único que a natureza parece permitir.
— Está dizendo que eles ainda podem fazer armas nucleares em 1944 com a informação obtida em 1985, e vencer a guerra? — indagou Laura.
— Sim. A não ser que o instituto seja destruído antes disso.
— E o que ia acontecer então? De repente tudo ia mudar para nós e estaríamos vivendo sob o domínio do nazismo?
— Isso mesmo. E você nem ia saber o que tinha acontecido, por que não seria a mesma pessoa. Seu passado jamais teria ocorrido. Você teria um passado completamente diferente, e não poderia lembrar de outro qualquer, nada do que aconteceu nesta sua vida porque esta vida jamais teria existido. Ia pensar que o mundo sempre fora assim, que nunca existiu um mundo onde Hitler perdeu a guerra.
Era uma idéia terrível porque fazia a vida parecer mais frágil do que nunca. O mundo sob os pés de Laura parecia menos real do que um mundo de sonho; podia dissolver-se inesperadamente atirando-a em um imenso vazio.
Horrorizada, ela disse:
— Se eles mudarem o mundo no qual cresci, eu jamais terei Danny, nunca me casarei.
— Eu não teria nascido — disse Chris.
Laura pôs a mão no braço do filho, não só para tranqüilizá-lo como também para certificar-se da realidade de sua presença.
— Eu podia não ter nascido. Tudo que eu vi, as coisas boas e más que aconteceram no mundo desde 1944... tudo teria desaparecido como um castelo de areia levado pelo mar e uma nova realidade existiria em seu lugar.
— Uma nova realidade muito pior — disse Stefan, exausto com o esforço de explicar o que estava em jogo.
— Nesse novo mundo, eu não teria escrito meus livros.
— Ou, se escrevesse — disse Stefan — seriam diferentes dos que escreveu nesta vida, obras grotescas, produzidas por uma artista sob o domínio de um governo de opressão, sob o punho de ferro da censu ra nazista.
— Se aqueles caras construírem a bomba atômica em 1944 — disse Chris — nós todos vamos nos transformar em poeira e seremos leva dos pelo vento.
— Não literalmente. Mas como poeira, sim — concordou Stefan Krieger. — Desaparecidos sem deixar traço da nossa existência.
— Temos de impedir os caras — disse Chris.
— Se pudermos — disse Stefan. — Mas primeiro precisamos nos manter vivos nesta realidade, e isso talvez não seja muito fácil.
Laura ajudou Stefan a ir ao banheiro do motel, como uma enfermeira acostumada a lidar com as funções básicas de homens doentes. Quando voltaram e ela o pôs na cama, ficou novamente preocupada; Stefan era forte mas seu corpo parecia flácido, a pele pegajosa e estava assustadoramente fraco.
Laura contou em poucas palavras o tiroteio na casa de Brenkshaw.
— Se aqueles assassinos vêm do passado e não do futuro, como sabem onde estamos? Como podiam saber em 1944 que estaríamos na casa do dr. Brenkshaw, 45 anos depois?
— Para encontrá-la — disse Stefan — fizeram duas viagens. Primeiro foram bem adiante no futuro, alguns dias mais tarde, até o próximo fim de semana, talvez, para ver se você havia aparecido em algum lugar. Se não tivesse aparecido... o que provavelmente aconteceu... eles começariam a verificar os registros públicos. Jornais atrasados, por exemplo. Procurariam reportagens sobre o tiroteio em sua casa na noite passada, e essas histórias lhes informariam que você havia levado um homem ferido à casa de Brenkshaw em San Bernardino. Então, simplesmente voltaram a 44 e fizeram outra viagem... dessa vez para a casa de Brenkshaw nas primeiras horas da manhã de 11 de janeiro.
— Eles podem pular de um lado para o outro em volta de nós — disse Chris. — Podem avançar no tempo para ver onde vamos aparecer, depois escolhem o melhor lugar para a armadilha. É assim como... se a gente fosse caubóis e os índios todos tivessem percepção extra-sensorial.
— Quem era Kokoschka? — perguntou Chris. — Quem era o homem que matou meu pai?
— Chefe de segurança do instituto — disse Stefan. — Afirmava ser parente distante de Oskar Kokoschka, o famoso pintor expressionista austríaco, mas duvido que seja verdade porque no nosso Kokoschka não existe nem um grão de sensibilidade artística. Standartenführer... que significa coronel... Heinrich Kokoschka era um eficiente matador da Gestapo.
— Gestapo — disse Chris, apavorado. — Polícia secreta?
— Polícia do Estado — disse Stefan. — De existência vastamente conhecida, mas com permissão de operar secretamente. Quando ele apareceu na estrada da montanha, em 1988, fiquei tão surpreso quanto vocês. Não houve relâmpagos. Deve ter chegado muito longe de onde estávamos, a uns vinte ou trinta quilômetros de distância, em algum outro vale das montanhas de San Bernardino, por isso não vimos os relâmpagos. — Na verdade, explicou ele, os relâmpagos associados à viagem no tempo constituíam um fenômeno muito localizado. — De pois de Kokoschka ter aparecido nas montanhas, seguindo meus passos, fiquei certo de que ia encontrar todos no instituto furiosos com minha traição, mas, quando cheguei lá, ninguém parecia saber de na da. Fiquei confuso. Então, depois que matei Penlovski e os outros, quando me preparava para a última viagem ao futuro, Heinrich Kokoschka entrou no laboratório e me feriu com um tiro. Ele não estava morto! Não fora morto naquela estrada em 1988! Então compreendi que Kokoschka só soube da minha traição quando encontrou os homens mortos no instituto. Ele viajaria a 1988 e tentaria me matar...
e a todos vocês... mais tarde. O que significava que o portão ficaria aberto para que ele pudesse fazer isso, e que eu não o teria destruído.
Pelo menos não daquela vez.
— Meu Deus, que dor de cabeça — disse Laura.
Chris aparentemente acompanhava sem dificuldade toda a trama complexa da viagem no tempo. Ele disse:
— Então, depois que você foi até nossa casa, na noite passada, Kokoschka viajou para 1988 e matou meu pai. Puxa! De certo modo, sr. Krieger, o senhor assassinou Kokoschka 43 anos depois que ele o feriu no laboratório... mas já o tinha matado antes de levar o tiro. É uma loucura, mamãe, não é? Não é bacana?
— É mesmo — concordou ela. — E como foi que Kokoschka o descobriu naquela estrada da montanha?
— Depois de descobrir que eu tinha matado Penlovski e fugido pelo portão, Kokoschka deve ter encontrado os explosivos no sótão e no porão. Então, com certeza verificou os registros automáticos da máquina de todas as viagens realizadas. Era uma parte do meu trabalho, por isso ninguém havia notado minhas viagens para interferir em sua vida, Laura. Seja como for, Kokoschka deve ter feito algumas viagens por conta própria, para ver onde eu ia, vigiando-me enquanto eu vigiava você, vendo que eu alterava seu destino para melhor. Certamente estava observando quando fui ao cemitério no dia do enterro do seu pai, e quando dei aquela sova em Sheener, mas eu jamais o vi. Assim, baseado em todas as viagens e todas as épocas em que eu apenas a observei e as vezes em que a salvei, ele escolheu um lugar para nos matar. Queria me eliminar porque eu era um traidor, e queria matar você e sua família porque... bem, porque compreendeu o quanto eram importantes para mim.
Por quê?, pensou Laura. Por que sou tão importante para você, Stefan Krieger? Por que interferiu no meu destino, tentando me dar uma vida melhor?
Teria feito essas perguntas então, mas Stefan tinha mais coisas para dizer sobre Kokoschka. Suas forças pareciam diminuir rapidamente e Stefan seguia com dificuldade o fio do próprio pensamento. Laura não queria interromper e confundi-lo mais ainda.
— Lendo os relógios e gráficos no painel programador do portão — disse Stefan —, Kokoschka pode ter descoberto minha meta final:
sua casa, a noite passada. Mas, vejam bem, na verdade minha intenção era voltar na noite da morte de Danny, como prometi, mas voltei só um ano depois porque cometi um erro de cálculo quando programei a máquina. Depois de partir pelo portão, ferido, Heinrich Kokoschka certamente encontrou meus cálculos. Deve ter compreendido meu engano e descoberto onde eu estaria, não só ontem à noite, como também na noite da morte de Danny. De certo modo, quando viajei para evitar o acidente com o caminhão nas montanhas, eu trouxe o assassino de Danny comigo. Sinto-me responsável por isso, mesmo sabendo que, se eu não viesse, Danny morreria no acidente. Pelo menos você e Chris estão vivos. Por enquanto.
— Por que Kokoschka não o seguiu até 1989, à nossa casa ontem à noite? Sabia que você estava gravemente ferido, que era presa fácil.
— Mas sabia também que eu esperava que me seguisse. Temia que eu estivesse armado e preparado para ele. Então, foi para 1988, onde eu não o esperava, onde teve a vantagem da surpresa. Além disso, provavelmente calculou que, se me seguisse até 1988 e me matasse, eu não teria voltado ao instituto e não teria a oportunidade de matar Penlovski. Certamente acho que podia fazer um truque com o tempo e desfazer aquelas mortes, salvando assim os cabeças do projeto. Mas é claro, não conseguiu, porque nesse caso estaria alterando o próprio passado, o que é impossível. Penlovski e os outros já estavam mortos nesse tempo e ficariam mortos. Se Kokoschka compreendesse melhor as leis da viagem no tempo, saberia que seria morto por mim em 1988, porque quando fez a viagem para vin gar a morte de Penlovski eu já tinha voltado a salvo para o instituto!