O Guardião
Uma Luz nas Trevas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Quando você for incrivelmente rica e famosa — disse ele, enrolando o espaguete no garfo —, deixo meu trabalho e me dedico apenas a controlar seu dinheiro.
— E se eu nunca for rica nem famosa?
— Vai ser. .
— Se nem conseguir publicar meu livro?
— Então eu me divorcio.
Laura jogou um pedaço de pão no marido.
— Seu animal.
— Megera.
— Quer mais carne?
— Não, se vai jogar em cima de mim.
— Minha raiva já passou. Faço almôndegas muito boas, não faço?
— Ótimas — concordou ele.
— Merece uma comemoração, não acha, o fato de você ter uma mulher que faz almôndegas deliciosas?
— Definitivamente merece comemoração.
— Pois então vamos fazer amor.
— No meio do jantar? — perguntou Danny.
— Não, na cama — Laura empurrou a cadeira e levantou-se. — Venha. O jantar pode ser requentado.
Naquele primeiro ano fizeram amor freqüentemente, e em sua intimidade Laura encontrou mais do que satisfação sexual, algo muito além do que esperava. Estar com Danny, senti-lo dentro dela, era uma sensação de união tão perfeita que às vezes era como se fossem uma só pessoa — um corpo e uma mente, um espírito, um sonho. Laura o amava sem restrições, mas aquela sensação de unidade era mais do que amor, ou pelo menos era diferente do amor. No primeiro Natal que passaram juntos, compreendeu que pela primeira vez em muito tempo sentia que pertencia a alguma coisa, uma sensação de família; pois aquele era seu marido e ela sua mulher, e, algum dia, dessa união nasceriam filhos — depois de dois ou três anos, de acordo com o Plano — e no abrigo da família havia uma paz que não se encontrava em nenhum outro lugar.
Ela pensou que trabalhar e viver numa felicidade contínua, em harmonia e segurança, talvez conduzisse à letargia mental, que seu trabalho de escritora ia sofrer com tanta felicidade, que precisava de uma vida de altos e baixos, com dias infelizes para manter o nível do seu trabalho. Mas a idéia de que o artista precisa sofrer para produzir era um conceito dos jovens e inexperientes. Quanto mais feliz, melhor ela escrevia.
Seis semanas antes do primeiro aniversário de casamento, Laura terminou o livro Noites de Jerico e enviou uma cópia a um agente literário em Nova York, Spencer Keene, que havia respondido favoravelmente à sua carta, um mês atrás. Duas semanas depois, Keene telefonou dizendo que representaria o livro, esperava uma boa e rápida venda e achava que Laura tinha um esplêndido futuro como escritora. Com uma rapidez que espantou o próprio Keene, o livro foi comprado pela primeira editora que procurou, a Viking, por um adiantamento modesto, mas perfeitamente respeitável de 15 mil dólares e o contrato foi assinado na sexta-feira, 14 de julho de 1978, dois dias antes do aniversário de casamento de Danny e Laura.
4
O lugar que ele havia visto à distância da estrada era um restaurante e taverna à sombra de imensos pinheiros. As árvores tinham 60m de altura, ornadas com conjuntos de cones de 12cm, com a casca dos troncos finamente desenhada e alguns galhos curvados ao peso da neve das tempestades anteriores. O restaurante era feito de troncos de árvores e tão protegido pelas árvores, em três lados, que o telhado tinha mais agulhas de pinheiro do que neve. Os vidros das janelas estavam opacos de vapor ou de geada e a luz que vinha de dentro difundia-se suavemente através da fina camada sobre o vidro.
No estacionamento na frente do restaurante havia duas pickups e um Thunderbird. Certificando-se de que não podia ser visto, Stefan aproximou-se de um dos jipes, abriu a porta que não estava trancada e entrou no carro.
Tirou a Walther PPK/S .380 do coldre a tiracolo que usava por dentro da jaqueta e a colocou no banco ao seu lado.
Estava com os pés doloridos de frio e queria parar e tirar a neve das botas. Mas tinha chegado tarde, atrasando o horário planejado e não queria perder nem um minuto. Embora gelados e doloridos, os pés não estavam congelados, portanto não corria perigo.
A chave não estava na ignição. Stefan empurrou o banco do carro para trás, localizou os fios da partida sob o painel e fez a ligação direta rapidamente.
Stefan ergueu a cabeça do painel no momento em que o dono do jipe, com um terrível bafo de cerveja, abriu a porta do carro:
— Ei, que diabo está fazendo, cara?
Não havia mais ninguém no estacionamento coberto de neve.
Laura estaria morta dentro de 25 minutos.
O dono do jipe estendeu o braço e Stefan deixou que ele o puxasse do banco, apanhando o revólver ao mesmo tempo, quase se entregando às mãos do homem, usando o impulso para jogar o adversário para trás no chão escorregadio. Caíram. Quando tocaram o solo, Stefan estava por cima e encostou o cano da arma sob o queixo do dono do carro.
— Pelo amor de Deus, não me mate!
— Vamos levantar agora. Cuidado, nada de movimentos bruscos.
Ficaram de pé e Stefan colocou-se atrás do homem, segurou o revólver pelo cano e com uma coronhada violenta deixou o homem inconsciente no chão coberto de neve.
Stefan olhou para a taverna. Ninguém havia saído.
Não ouvia ruído de carros na estrada, mas o vento uivante podia abafar o barulho dos motores.
A neve começou a cair com maior intensidade. Stefan guardou o revólver no bolso da jaqueta e arrastou o homem desacordado até o carro mais próximo, o Thunderbird. A porta estava aberta. Pôs o homem no banco traseiro, fechou a porta e correu para o jipe.
O motor tinha morrido. Stefan refez a ligação direta.
Quando saiu do estacionamento para a estrada, o vento sibilava na janela do carro. A neve ficou mais densa, neve de tempestade e nuvens da neve acumulada na véspera erguiam-se do solo espiralando em colunas cintilantes. Os pinheiros gigantescos envoltos em sombras balançavam ao sabor do inverno.
Laura tinha pouco mais de vinte minutos de vida.
5
Comemoraram o contrato para a publicação de Noites de Jerico e a harmonia extraordinária do primeiro ano de casamento no lugar preferido deles — Disneylândia. O céu estava azul e sem nuvens, o ar seco e quente. Praticamente alheios à multidão, andaram nos Piratas do Caribe, tiraram fotografias com Mickey Mouse, rodaram doidamente nas xícaras de chá do Chapeleiro Maluco, caricaturistas fizeram seus retratos, comeram cachorros-quentes, tomaram sorvete e comeram bananas geladas cobertas com chocolate enfiadas em palitos, e à noite dançaram ao som da banda Dixieland em New Orleans Square.
A magia do parque parecia maior ao cair da noite, e viajaram no barco a vapor de Mark Twain dando três voltas na ilha de Tom Saw-yer, os dois no convés superior, olhando para a água, abraçados. Danny disse:
— Sabe por que gostamos tanto deste lugar? Porque é o mundo ainda não poluído pelo mundo. Como o nosso casamento.
Mais tarde, tomando sundaes de morango no Pavilhão Cravo, sob árvores enfeitadas com lâmpadas de Natal, Laura disse:
— Quinze mil dólares por um ano de trabalho... não é bem uma fortuna.
— Também não é salário de escravo. — Danny empurrou a taça do sundae para o lado e segurou as mãos de Laura sobre a mesa.
— O dinheiro vai chegar porque você é brilhante, mas não é o dinheiro que me interessa. O importante é você ter algo especial para compartilhar. Não. Não é bem isso. Não se trata apenas de você ter algo especial, você é algo especial. Eu compreendo, de certo modo, mas não sei explicar. Sei que aquilo que você é, quando compartilha do, levará esperança e alegria a muita gente, em muitos lugares, como traz tudo isso para mim, aqui, ao seu lado.
Procurando conter as lágrimas, Laura disse:
— Eu te amo.
Noites de Jerico foi publicado dez meses depois, em maio de 1979. Danny insistiu para que Laura usasse seu nome de solteira, porque sabia que durante todos os anos difíceis em Mcllroy e Caswell Hall ela conseguira sobreviver porque queria crescer e fazer alguma coisa para oferecer ao pai e talvez também à mãe que não havia conhecido. O livro vendeu poucos exemplares, não foi escolhido por nenhum clube literário e a Viking concedeu licença para sua publicação, em brochura, por um pequeno adiantamento.
— Não faz mal — disse Danny. — Tudo vai chegar na hora certa. Tudo. Por causa do que você é.
Laura estava no meio do segundo livro, Shadrach. Trabalhando dez horas por dia, seis dias por semana, terminou em julho.
Numa sexta-feira enviou uma cópia para Spencer Keene em Nova York e deu o original para Danny. Ele foi o primeiro a ler o livro. Saiu mais cedo do trabalho e começou a ler às 13 horas de sexta-feira, na sua cadeira da sala de estar, passou para o quarto, dormiu apenas quatro horas e às dez da manhã de sábado estava outra vez na sala, tendo lido dois terços do script. Não fez nenhum comentário. Nem uma palavra.
— Só quando terminar de ler. Não seria justo para com você analisar e reagir antes de ler todo o livro, antes de compreender toda a trama. E não seria justo para comigo mesmo porque, se começásse mos a discutir, você poderia me contar a história que ainda não li.
Laura o observava para ver se franzia a testa, se sorria, atenta a qualquer reação, e quando Danny reagia, ela imaginava se seria a reação certa. Às dez e meia de sábado Laura não agüentava mais ficar no apartamento e foi de carro até South Costa Plaza, entrou em várias livrarias, almoçou, embora não estivesse com fome, foi até Westminster Mall e olhou as vitrines, tomou iogurte, foi até o Orange Mall, entrou em algumas lojas, comprou um pedaço de bolo de chocolate, comeu a metade. "Shane", disse para si mesma, "vá para casa, senão na hora do jantar vai estar do tamanho de Orson Welles.”
Quando estacionou na garagem do prédio viu que o carro de Danny não estava na vaga. Entrou no apartamento, chamou por ele mas não teve resposta.
O manuscrito de Shadrach estava na mesa da cozinha.
Laura procurou um bilhete. Não encontrou.
— Oh, meu Deus — disse ela.
O livro era péssimo. Fedia. Era nojento. Um vomitório. O pobre Danny tinha saído para tomar uma cerveja e arranjar coragem para dizer que ela devia fazer um curso de encanadora enquanto era ainda jovem, para começar uma nova carreira.
Laura sentiu vontade de vomitar. Correu para o banheiro, mas a náusea passou. Lavou o rosto com água fria.
O livro era um vomitório.
Muito bem, teria de viver com aquilo. Para ela Shadrach era muito bom, melhor do que Noites de Jerico, muito melhor, mas evidentemente estava errada. Pois então ia escrever outro.
Foi até a cozinha e abriu uma garrafa de refrigerante. Tinha tomado dois goles quando Danny chegou com uma caixa embrulhada em papel de presente do tamanho certo para conter uma bola de basquete. Pôs a caixa na mesa ao lado do manuscrito, olhou solenemente para Laura e disse:
— Para você.
Ignorando a caixa, Laura pediu:
— Diga o que achou.
— Abra o presente primeiro.
— Oh, meu Deus, é tão ruim? Tão ruim que precisa amaciar o golpe com um presente? Diga. Eu agüento. Espere! Deixe-me sentar.
— Puxou a cadeira e sentou pesadamente. — Acerte seu melhor golpe, grandalhão. Sou uma sobrevivente.
— Você tem um senso exagerado de drama, Laura.
— O que está dizendo? O livro é melodramático?
— Não o livro. Pelo menos neste momento. Quer, pelo amor de Deus, parar de bancar a jovem artista arrasada e abrir seu presente?
— Tudo bem, tudo bem, se tenho de abrir o presente antes de ou vir o que tem a dizer, então eu abro o maldito presente.
Com a caixa no colo — era pesada — desamarrou a fita enquanto Danny sentava na frente dela, observando.
A caixa era de uma loja de artigos caros, mas Laura não estava preparada para o que havia dentro dela: uma enorme e maravilhosa tigela de lalique; clara, exceto pelas alças verde-claro de cristal opaco, cada uma formada por dois sapos saltando, quatro sapos ao todo.
Laura ergueu os olhos arregalados.
— Danny, nunca vi nada igual. É a coisa mais linda que já vi.
— Gosta, então?
— Meu Deus, quanto custou?
— Três mil.
— Danny, não podemos gastar isso!
— Oh, sim, podemos.
— Não podemos, não. Só porque escrevi um livro péssimo e quer me fazer sentir melhor...
— Você não escreveu nenhum livro péssimo. Escreveu um livro que merece um sapo. Um livro quatro sapos numa escala de um a quatro, sendo quatro o melhor. Podemos comprar essa vasilha exatamente porque você escreveu Shadrach. Este livro é lindo, Laura, infinitamente melhor do que o primeiro e é lindo porque é você. O livro é o que você é, e ele cintila.
No seu entusiasmo e na pressa para abraçar Danny, Laura quase deixou cair a tigela de três mil dólares.
6
A estrada agora estava recoberta por uma camada de neve recente. O jipe com tração nas quatro rodas era equipado com correntes nos pneus, assim Stefan conseguiu fazer a viagem em bom tempo.
Mas não suficiente.
Calculou que a taverna onde roubou o carro ficava a uns vinte quilômetros da casa dos Packard, que ficava numa entrada da estrada 330, alguns quilômetros ao sul de Big Bear. As estradas na montanha eram estreitas, sinuosas, cheias de subidas e descidas, a neve que caiu prejudicava a visibilidade e sua velocidade média não ia além de 65km/h. Não podia ir mais depressa, ou com menor cuidado, pois não seria de nenhuma utilidade para Laura, Danny e Chris se perdesse o controle do jipe, despencando no precipício. Entretanto, naquela velocidade, chegaria à casa dez minutos depois de terem partido.
Sua intenção fora fazer com que ficassem em casa até passar o perigo, mas esse plano não era mais viável.
O céu de janeiro parecia ter descido tanto sob o peso da tempestade que não ultrapassava a altura das fileiras de árvores perenes que flanqueavam a estrada. O vento sacudia as árvores e martelava o jipe. A neve grudava nos limpadores de pára-brisa transformando-se em gelo. Stefan ligou o descongelador e inclinou-se sobre a direção, tentando enxergar melhor.
Quando consultou novamente o relógio, viu que tinha menos de 15 minutos. Laura, Danny e Chris estariam entrando no seu Chevrolet. Talvez já estivessem saindo.
Teria de interceptá-los na estrada, a poucos segundos da Morte. Tentou aumentar um pouco a velocidade sem abrir demais nas curvas.
7
Cinco semanas depois de ter ganhado a tigela de lalique de Danny, no dia 15 de agosto de 1979, alguns minutos depois do meio-dia, Laura estava na cozinha esquentando uma lata de sopa para o almoço quando recebeu um telefonema de Spencer Keene, seu agente literário em Nova York. A Viking estava oferecendo cem mil por Shadrach.
— Dólares? — perguntou ela.
— É claro — disse Spencer. — O que pensou que fosse? Rublos russos? O que ia comprar com eles... um chapéu, talvez?
— Oh, meu Deus — Laura teve de se encostar na bancada da cozinha porque de repente suas pernas ficaram bambas.
Spencer disse:
— Laura, meu bem, só você sabe o que é melhor, mas a não ser que estejam dispostos a deixar que os cem sejam o lance mínimo num leilão, quero que considere a possibilidade de rejeitar essa oferta.
— Rejeitar cem mil dólares? — perguntou ela incrédula.
— Quero enviar o manuscrito para umas seis ou oito editoras, marcar uma data para leilão e ver o que acontece. Acho que sei, Laura, todos vão adorar o livro tanto quanto eu adorei. Por outro lado...talvez não. É uma decisão difícil, e você precisa pensar por algum tempo antes de responder.
Assim que Spencer desligou, Laura telefonou para o escritório de Danny e contou o que o agente havia dito. Danny disse:
— Se não fizerem da oferta o lance mínimo para leilão, não aceite.
— Mas Danny, podemos fazer isso? Quero dizer, meu carro tem 11 anos e está caindo aos pedaços. O seu tem quase quatro anos...
— Escute, o que eu disse sobre o livro? Não disse que ele é você, um reflexo do que você é?
— Você é um amor, mas...
— Não aceite. Escute, Laura. Está pensando que rejeitar cem mil é como cuspir no rosto dos deuses da sorte; é como convidar aquele relâmpago de que me falou. Mas você mereceu e o destino não vai tirá-lo das suas mãos.
Laura telefonou para Spencer Keene e comunicou sua decisão.
Agitada, nervosa, já sentindo a perda dos cem mil dólares, Laura voltou para a sala de trabalho, sentou na frente da máquina e ficou olhando por algum tempo para a história inacabada até sentir o cheiro da canja que estava no forno. Correu para a cozinha e viu que metade da sopa tinha se evaporado; macarrão queimado grudara-se no fundo da panela. Às duas e dez, cinco e dez em Nova York, Spencer telefonou novamente para dizer que a Viking tinha concordado em fazer dos cem mil o lance mínimo para leilão.
— Agora, o mínimo que vai ganhar com Shadrach são cem mil dólares. Acho que vou marcar o leilão para 26 de setembro. Vai ser um grande leilão, Laura. Tenho certeza.
Laura passou o resto da tarde tentando se entusiasmar, mas não conseguiu livrar-se da ansiedade. Shadrach já era um sucesso, independente do que pudesse acontecer no leilão. Não tinha nenhum motivo para ficar ansiosa, mas também não conseguia se livrar da sensação.
Naquela noite Danny chegou com uma garrafa de champanhe, um buquê de rosas e uma caixa de chocolates Godiva. Sentaram no sofá comendo chocolate e falando sobre o futuro, que parecia perfeitamente brilhante; mas a ansiedade não abandonava Laura.
Finalmente ela disse:
— Não quero chocolate, champanhe nem rosas, nem cem mil dólares. Quero você. Leve-me para a cama.
Fizeram amor por um longo tempo. O sol de inverno aos poucos desapareceu das janelas e a noite chegou antes que os dois se separassem com relutância. Deitado ao lado dela, no escuro, Danny beijou ternamente os seios, o pescoço, os olhos e finalmente os lábios de Laura. A ansiedade finalmente a deixou. Não foi a satisfação sexual que expulsou seus temores. A intimidade, a entrega total e a sensação de esperanças, sonhos e destinos compartilhados eram o verdadeiro remédio; a grande e boa sensação às família que compartilhava com ele era o talismã que realmente afastava a fria má sorte.
Na quarta-feira, 26 de setembro, Danny não foi ao escritório, para esperar com Laura as notícias de Nova York.
Às sete e meia da manhã, dez e meia em Nova York, Spencer Keene telefonou para dizer que a Random House havia feito o primeiro lance acima do mínimo.
— Cento e vinte e cinco mil e estamos a caminho.
Duas horas mais tarde, ele voltou a telefonar.
— Todos saíram para almoçar, portanto estamos descansando.
Neste momento, já chegamos a 350 mil e seis editoras estão ainda fazendo seus lances.
— Trezentos e cinqüenta mil? — repetiu Laura.
Danny, que estava lavando a louça, deixou cair um prato.
Laura desligou e olhou para Danny. Ele disse com um largo sorriso:
— É impressão minha, ou esse é o livro que você pensou que era um vomitório?
Quatro horas e meia mais tarde, quando estavam sentados à mesa da cozinha aparentemente concentrados num jogo de cartas, a falta de atenção traída pela incapacidade dos dois de manter uma contagem lógica de pontos, Spencer Keene telefonou. Danny ficou ao lado de Laura ouvindo o que ela dizia.
Spencer disse:
— Está sentada, meu bem?
— Estou pronta, Spencer. Não preciso de uma cadeira. Pode dizer.
— Terminou. Simon e Schuster. Um milhão e duzentos e vinte e cinco mil dólares.
Trêmula de emoção, Laura conversou por dez minutos com Spencer e quando desligou não tinha a mínima noção do que tinham falado depois de ele dizer o preço. Danny a observava esperando, e Laura compreendeu que ele não sabia o que tinha acontecido. Disse o nome da editora e a quantia.
Por um momento entreolharam-se em silêncio, e então ela disse:
— Acho que agora podemos ter um filho.
8
Stefan chegou ao alto de uma colina e olhou para os oitocentos metros de estrada coberta de neve onde o acidente ia acontecer. À esquerda, além da pista que ia para o sul, a encosta arborizada descia íngreme até a estrada. À direita, a pista para o norte tinha um acostamento plano com mais ou menos um metro e meio de largura, e além dele a encosta da montanha descia para um profundo precipício. Não havia grades de proteção naquele lugar perigoso.
No fundo da encosta a estrada virava para a esquerda e desaparecia de vista. Entre aquela curva e o topo de colina que ele acabava de subir, as duas pistas estavam desertas.
Segundo seu relógio, Laura estaria morta em um minuto. Dois minutos no máximo.
De repente, Stefan compreendeu que não devia ter tentado chegar até a casa dos Packard depois do seu atraso na primeira parte da viagem no tempo. Devia ter desistido de impedir que saíssem e identificar e deter o carro dos Robertson mais atrás, na estrada para Arrowhead. Teria funcionado do mesmo modo.
Tarde demais agora.
Stefan não tinha tempo para voltar, nem podia arriscar continuar para o norte, na direção dos Packard. Não sabia o momento exato das suas mortes, não o segundo exato, e a catástrofe estava muito próxima. Se tentasse seguir por mais uns oitocentos metros e os detivesse antes que chegassem na descida fatal, podia alcançar o fim da encosta e, dando meia-volta, passar por eles indo na direção contrária, sem poder voltar e alcançá-los antes que o caminhão dos Robertson se chocasse de frente com o carro deles.
Freou o carro lentamente e começou a subir a pista que ia para o sul, parando numa parte larga na curva da estrada, na metade da descida, tão perto do acostamento que não podia abrir a porta do seu lado. O coração de Stefan estava disparado quando pôs o carro em ponto morto, puxou o freio de mão, desligou o motor, e desceu pela porta da direita.
A neve e o ar gelado açoitaram seu rosto, e por toda a encosta o vento guinchava e uivava como muitas vozes, talvez as vozes das três parcas do mito grego, zombando da sua tentativa desesperada para evitar o que elas haviam determinado.
9
Depois de receber as sugestões da editora, Laura começou a fácil revisão de Shadrach, entregando a versão final em meados de dezembro de 1979, e Simon e Shuster programaram o lançamento do livro para setembro de 1980.
Foi um ano tão ocupado para Danny e Laura que ela mal tomou conhecimento da crise dos reféns iranianos e da campanha presidencial, e só vagamente ouviu as notícias dos inúmeros incêndios, acidentes de avião, tráfico de tóxicos, assassinatos em massa, enchentes, terremotos e outras tragédias dos noticiários. Foi o ano da morte do coelho. Foi o ano em que ela e Danny compraram sua primeira casa — quatro quartos, dois banheiros, lavabo, uma construção tipo espanhol em Orange Park — e deixaram o apartamento em Tustin. Laura começou seu terceiro livro, A borda dourada, e certo dia, quando Danny perguntou como ia seu trabalho, ela disse:
— Vomitório.
E ele disse:
— Ótimo!
No dia 1º. de setembro, ao receber um cheque substancial pelos direitos de filmagem de Shadrach, vendidos à MGM, Danny deixou o emprego na corretora e tornou-se administrador financeiro da mulher. No sábado, 21 de setembro, três semanas depois de ter chegado às livrarias Shadrach apareceu na lista de bestsellers do New York Times, em décimo segundo lugar. No dia 5 de outubro de 1980, quando Laura deu à luz Christopher Robert Packard, Shadrach estava na terceira edição, em oitavo lugar na lista do Times, e recebeu o que Spencer Keene chamou de "estrondosamente boa" crítica na página cinco da sessão literária do jornal.
O menino chegou ao mundo às 2h30min da tarde, com uma quantidade de sangue muito maior do que a normal. Com dores lancinantes e hemorragia, Laura recebeu um litro e meio de sangue durante a tarde e a noite. Passou a noite melhor do que esperavam; e de manhã ainda estava dolorida e cansada, mas fora de perigo.
No dia seguinte Thelma Ackerson foi ver o bebê e a nova mãe. Ainda vestida à moda punk e adiantada para a época — cabelo comprido no lado esquerdo, com uma faixa branca como a noiva de Frankenstein, e curto no lado direito, sem a faixa branca —, ela entrou no quarto de Laura, foi diretamente para onde Danny estava e o abraçou com força, dizendo:
— Meu Deus, você é imenso. Você é um mutante. Admita, Packard, sua mãe talvez fosse humana, mas seu pai era um urso-pardo.
Aproximou-se da cama onde Laura estava apoiada em três travesseiros, beijou-a na testa e depois no rosto.
— Fui ao berçário e dei uma espiada em Christopher Robert através do vidro, e ele é um amor. Mas acho que você vai precisar dos milhões que ganha com seus livros, garota, porque aquele garoto vai ser igual ao pai, e sua conta de comida vai ser de trinta mil por mês. Até você conseguir ensinar alguma coisa, ele vai estar comendo seus móveis.
— Estou muito contente com sua visita — disse Laura.
— Acha que eu ia perder isso? Se eu estivesse trabalhando num clube da Máfia em Bayonne, Nova Jersey, e tivesse de cancelar parte de um compromisso para voar até aqui, talvez então eu não viesse, porque quebrar um contrato com aqueles caras significa ter os polegares cortados e ter de usá-los como supositório. Mas eu estava a oeste do Mississípi quando recebi a notícia ontem à noite, e só uma guerra nuclear ou um encontro com Paul McCartney podiam me impedir de ver vocês.
Há quase dois anos Thelma finalmente havia conseguido algum tempo no palco, no Improv, e foi um sucesso absoluto. Arranjou um agente e começou a conseguir papéis em clubes de terceira classe — e finalmente de segunda classe — em todo o país. Laura e Danny haviam ido de carro duas vezes a Los Angeles para assistir ao número de Thelma e a acharam hilariante; ela mesma escrevia o texto e representava com a comicidade bem dosada que possuía desde a infância e que havia aperfeiçoado durante os anos. Seu ato tinha um aspecto diferente que podia fazer de Thelma um fenômeno nacional ou relegá-la à obscuridade: entremeada com as piadas havia uma forte sensação de melancolia, a sensação da tragédia da vida que existia ao lado da beleza e do humor. Na verdade era muito parecido com o tom dos livros de Laura, mas o que atraía os leitores não tinha a mesma atração para espectadores que pagavam para rir.
Thelma inclinou-se sobre a grade da cama, olhou para Laura atentamente e disse:
— Ei, você está pálida. E com olheiras...
— Thelma, minha querida, detesto destruir suas ilusões, mas os bebês não são trazidos pela cegonha. A mãe tem de fazer com que ele saia do próprio útero, e a passagem é bastante estreita.
Thelma olhou demoradamente para Laura, depois para Danny, que estava do outro lado da cama segurando a mão de Laura:
— O que há de errado por aqui?
Laura suspirou e com uma careta de dor mudou de posição na cama. Disse para o marido:
— Está vendo? Eu disse que ela tem um faro perfeito.
— Não foi uma gravidez fácil, foi? — perguntou Thelma.
— A gravidez foi boa — disse Laura. — O problema foi o parto, —
Você não... esteve à morte ou coisa assim, Shane?
— Não, não, não — respondeu Laura, e a mão de Danny apertou mais a dela. — Nada tão dramático. Desde o começo sabíamos que ia haver dificuldades, mas tivemos o melhor médico e ele esteve atento o tempo todo. Só que... não posso mais ter filhos. Christopher é o nosso último.
Thelma olhou para Danny, para Laura e disse em voz baixa:
— É uma pena.
— Está tudo bem — disse Laura, forçando um sorriso. — Temos o pequeno Chris e ele é lindo.
Seguiu-se um silêncio constrangido, e então Danny disse:
— Eu ainda não almocei e estou faminto. Vou até a lanchonete e volto daqui a uma hora mais ou menos.
Quando Danny saiu, Thelma observou:
— Ele não está com fome nenhuma, está? Mas sabe que queremos conversar a sós.
Laura sorriu:
— Danny é um homem adorável.
Thelma abaixou a grade de um dos lados da cama e disse:
— Se eu me sentar aí ao seu lado não vou sacudir suas entranhas, vou? Não vai ter uma hemorragia e me sujar de sangue, vai, Shane?
— Tentarei não fazer isso.
Thelma sentou na beirada da cama. Segurou a mão de Laura entre as suas.
— Escute, eu li Shadrach e é bom demais. É aquilo que muitos escritores tentam fazer e raramente conseguem.
- Você é um amor.
— Sou uma mulher durona, cínica, decidida. Escute, estou falando sério. O livro é brilhante. E eu vi a bovina Bowmaine nele, e Tammy. E Boone, o psicólogo. Nomes diferentes, mas eu os vi. Você os capturou com perfeição, Shane. Meu Deus, em certos momentos você traz tudo de volta, e um arrepio subia e descia na minha espinha e eu tinha de largar o livro e sair para andar no sol. E algumas vezes eu ria como uma louca.
Todos os músculos de Laura doíam, todas as juntas. Não tinha força para abraçar a amiga como desejava. Disse apenas:
— Eu te amo, Thelma.
— É claro que o Enguia não está lá.
— Estou reservando para outro livro.
— E eu, droga. Não estou no livro, e sou o tipo mais interessante que você já conheceu.
— Estou guardando para um livro só para você — disse Laura.
— Fala sério, não fala?
— Sim. Não o que estou escrevendo, mas o que virá depois.
— Escute, Shane, acho melhor me fazer maravilhosa, ou eu te processo. Está ouvindo?
— Estou ouvindo.
Thelma mordeu o lábio e depois disse:
— Será que você...
— Sim, vou pôr Ruthie também no livro.
Ficaram em silêncio por algum tempo, de mãos dadas. Lágrimas que não chegaram a sair enevoaram os olhos de Laura e viu que Thelma procurava conter as suas também.
— Não faça isso. Vai escorrer toda essa maquiagem punk.
Thelma levantou um pé.
—Esta bota é esquisita, não acha? Couro negro, ponta fina, calcanhar com botões. Me faz parecer uma dominadora, concorda?
—Quando você entrou, a primeira coisa que pensei foi quantos homens já chicoteou ultimamente.
Thelma suspirou e fungou.
— Shane, escute, e escute com atenção. Esse seu talento talvez seja mais precioso do que pensa. Você pode capturar vidas no papel, e quando as pessoas desaparecem, o papel ainda está lá, a vida ainda está lá. Você pode pôr sentimentos no papel e qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode sentir o que você descreve, você pode tocar o coração, pode nos fazer lembrar o que significa ser humano num mundo que cada vez mais esquece disso. E um talento e um motivo para viver: muito mais do que muita gente tem. Portanto... bem, eu sei o quanto você deseja uma família... três ou quatro filhos, você dizia... assim, sei o quanto deve estar sofrendo agora. Mas tem Danny e Christopher e esse talento maravilhoso e isso é muito, muito mesmo. A voz de Laura estava embargada.
— Às vezes... sinto tanto medo.
— Medo do quê, meu bem?
— Eu queria uma família grande porque... seria menor a possibilidade de serem todos tirados de mim.
— Ninguém vai ser tirado de você.
— Só com Danny e o pequeno Chris... apenas dois... alguma coisa pode acontecer.
— Não vai acontecer nada.
— E então eu ficarei sozinha.
— Não vai acontecer nada — repetiu Thelma.
— Algo sempre acontece. É a vida.
Thelma deitou-se ao lado de Laura e encostou a cabeça no ombro da amiga.
— Quando você disse que foi um parto difícil... e eu a vi tão pálida... fiquei assustada. Tenho amigos em Los Angeles, é claro, mas to dos do mundo teatral. Você é a única pessoa real que está mais perto de mim, embora não nos vejamos muito, e a idéia de que você podia ter estado quase...
— Mas não estive.
— Mas podia ter estado — Thelma riu sem alegria. — Que diabo, Shane, uma vez órfã, sempre uma órfã, certo?
Laura a abraçou e acariciou seus cabelos.
Logo depois do primeiro aniversário de Chris, Laura terminou A borda dourada. O livro foi publicado dez meses depois, e quando Chris fez dois anos, era o número um na lista de bestsellers do Times, a primeira vez que um livro de Laura chegava a essa posição.
Danny administrava o dinheiro de Laura com tanta diligência, cautela e brilhantismo que em poucos anos, apesar dos impostos, não só seriam ricos — já eram ricos, por muitos padrões — mas extremamente ricos. Laura não sabia o que pensar a respeito. Jamais esperou ficar rica. Quando pensava nas suas circunstâncias invejáveis, achava que devia ficar entusiasmada ou, considerando a miséria do mundo, chocada, mas não sentia muito nem uma coisa nem outra pelo dinheiro. A segurança que o dinheiro dava era bem-vinda; inspirava confiança. Mas não tinham planos de deixar a casa agradável de quatro quartos, embora pudessem comprar uma mansão. O dinheiro estava ali, isso era tudo; Laura não pensava muito nele. A vida não era dinheiro; a vida era Danny e Chris e, com menor importância, seus livros.
Com um garotinho começando a andar, Laura não tinha mais disposição para trabalhar sessenta horas por semana no seu processador de palavras. Chris estava falando, andando e não apresentava nem o temperamento instável nem a rebeldia que os livros especializados atribuíam aos dois e três anos. Era um prazer estar com ele. Era um menino inteligente e interessado. Laura passava com ele todo o tempo que podia passar sem arriscar estragá-lo com mimos.
As extraordinárias gêmeas Appleby, seu quarto livro, só foi publicado em outubro de 1984, dois anos depois de A borda dourada, mas não teve a diminuição do interesse, comum quando o escritor não publica um livro por ano. O preço do adiantamento pago pela editora foi o maior de todos.
No dia 1o. de outubro, Laura estava com Danny e Chris no sofá da sala de estar, assistindo desenhos animados no vídeo — "Vummm, vummm", Christopher dizia cada vez que o Corredor Maluco acelerava — comendo pipoca, quando Thelma telefonou de Chicago, chorando. Laura atendeu na cozinha, mas na TV, na sala ao lado, o coiote tentava destruir com um sopro seu inimigo, mas só conseguia destruir a si mesmo, por isso Laura disse:
— Danny, acho melhor eu atender na sala de trabalho. Nos quatro anos desde o nascimento de Chris, a carreira de Thelma havia seguido em constante ascensão. Trabalhou em algumas lanchonetes de casinos de Las Vegas ("Ei, Shane, devo ser muito boa porque as garçonetes trabalham quase nuas, só seios e bumbuns, e às vezes os caras na audiência olham para mim e não para elas. Por outro lado, talvez eu só seja atraente para os bichas."). No ano anterior Thelma havia passado para o palco principal no MGM Grand com um ato de abertura para Dean Martin e tinha aparecido quatro vezes no show apresentado por Johnny Carson. Estavam falando em fazer um filme, e até mesmo uma série para televisão, nos quais ela seria a estrela. Assim, Thelma caminhava para o estrelato como comediante. Agora estava em Chicago e ia estrear como atriz principal em um grande clube. Talvez a longa cadeia de fatos positivos em suas vidas fosse o motivo do pânico que Laura sentiu ao ouvir o choro de Thelma. Durante algum tempo estava sempre esperando que o céu desabasse inesperadamente, pegando-a de surpresa. Deixou-se cair na cadeira ao lado da mesa de trabalho e segurou o fone.
— Thelma? O que aconteceu, o que houve?
— Acabo de ler... o novo livro.
Laura não sabia o que em As extraordinárias gêmeas Appleby podia afetar Thelma tão profundamente, e então imaginou se alguma coisa em Carrie e Sandra Appleby a havia ofendido. Embora nenhum dos fatos principais da história fosse uma descrição da vida real de Ruthie e Thelma, as Appleby eram, evidentemente, baseadas nas irmãs Ackerson. Mas as duas personagens foram descritas com muito amor e bom humor; sem dúvida nada havia no livro que pudesse ofender Thelma, e em pânico Laura tentou dizer isso.
— Não, não, Shane, sua boba — disse Thelma entre soluços. — Não estou ofendida. Não consigo parar de chorar porque você fez a coisa mais maravilhosa. Carrie Appleby é Ruthie, exatamente como a conheci, mas no seu livro você a deixa viver muitos anos. Você deixa Ruthie viver, Shane, e isso é um trabalho muito melhor do que Deus fez na vida real.
Conversaram durante uma hora, especialmente sobre Ruthie, lembrando o passado, não com muitas lágrimas agora, mas com muita afeição. Danny e Chris apareceram na porta algumas vezes, parecendo abandonados, e Laura jogou beijos para eles, mas continuou no telefone com Thelma porque era um daqueles raros momentos em que a lembrança dos mortos era mais importante do que cuidar dos vivos.
Quinze dias antes do Natal de 1985, quando Chris tinha um pouco mais de cinco anos, a estação chuvosa começou no sul da Califórnia com uma forte tempestade que fazia as folhas das palmeiras estalar como ossos entrechocando-se, tirando as últimas flores dos arbustos e inundando as ruas. Chris não podia brincar lá fora. Seu pai tinha saído para ver um terreno, um provável investimento, e o garoto não estava com vontade de brincar sozinho. Procurava pretextos para interromper o trabalho de Laura e às onze horas ela desistiu de continuar na sua sala de trabalho escrevendo seu livro. Mandou Chris para a cozinha para tirar as assadeiras do armário e prometeu fazer com ele biscoitos de chocolate.
Antes de juntar-se ao filho, Laura tirou da gaveta as botas especiais, o pequeno guarda-chuva e o cachecol em miniatura de Sir Tommy Sapo. A caminho da cozinha, arrumou tudo ao lado da porta de entrada.
Mais tarde, quando estava pondo os biscoitos no forno, mandou Chris verificar se o entregador de encomendas havia deixado alguma coisa na caixa do correio ao lado da porta e Chris voltou corado de excitação:
— Mamãe, venha ver, venha ver.
No hall de entrada ele mostrou as três peças em miniatura e Laura disse:
— Acho que são de Sir Tommy. Oh, eu me esqueci de contar a Você que temos um hóspede: um sapo muito educado, da Inglaterra, que está aqui a serviço da rainha.
Laura tinha oito anos quando seu pai inventou Sir Sapo e aceitou o fabuloso sapo como uma fantasia divertida, mas Chris tinha só cinco e levou a coisa mais a sério.
— Onde ele vai dormir? No quarto de hóspedes? E o que vamos fazer quando o vovô vier nos visitar?