O Guardião
Uma Luz nas Trevas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Alugamos um quarto no sótão para Sir Tommy — disse Laura — e não devemos incomodá-lo nem falar a respeito dele com ninguém, exceto com seu pai, porque Sir Tommy está aqui em missão secreta para a rainha.
Chris arregalou os olhos e Laura teve vontade de rir, mas conteve-se. O garoto tinha cabelos e olhos castanhos como a mãe e o pai, mas seus traços eram delicados, mais parecidos com os da mãe. Embora fosse ainda muito pequeno, Laura estava certa de que seria alto e solidamente estruturado como o pai. Chris inclinou-se para a mãe e disse em voz baixa:
— Sir Tommy é um espião?
Durante a tarde, fizeram biscoitos, arrumaram a cozinha e jogaram cartas, e o tempo todo Chris fazia perguntas sobre Sir Tommy. Laura descobriu que inventar histórias para crianças era, de certa forma, mais difícil do que escrever para adultos.
Quando Danny voltou às quatro e meia, anunciou sua presença em voz alta na porta da garagem.
Chris saltou da mesa onde jogava cartas com Laura e disse para o pai falar baixo.
— Silêncio, papai, Sir Tommy pode estar dormindo agora, fez uma longa viagem, ele é a rainha da Inglaterra e está espionando no nosso sótão!
Danny franziu a testa.
— Eu saio de casa por algumas horas e enquanto estou fora so mos invadidos por espiões britânicos?
Naquela noite, na cama, depois de Laura ter feito amor com uma paixão que surpreendeu até ela própria, Danny disse:
— O que deu em você? Durante toda a noite esteve tão... animada, tão excitada.
Aconchegando-se a ele, sentindo o prazer do corpo nu contra o seu, ela disse:
— Oh, não sei, é porque estou viva, e Chris está vivo, você está vivo, estamos juntos. E também essa história do Tommy Sapo.
— Ela te diverte?
— Sim, me diverte. Mas é mais do que isso. É... que de certo mo do me faz sentir que a vida continua, que o ciclo é sempre renovado... parece bobagem? E que a vida vai continuar para nós, para todos nós, por muito tempo.
— Bem, é isso, acho que tem razão — disse Danny. — E se você tiver tanta disposição todas as vezes que fizermos amor de agora em diante, acho que vai me matar em três meses.
Em outubro de 1986, quando Chris fez seis anos, foi publicado o quinto livro de Laura, Rio infinito, aclamado pela crítica e com vendas maiores do que todos os outros. Seu editor havia previsto um enorme sucesso: "Tem todo o humor, toda a tensão, toda a tragédia, toda a estranha variedade da obra de Laura Shane, mas não é tão sombrio quanto os outros, o que o torna especialmente atraente.”
Há dois anos Laura e Danny levavam Chris às montanhas San Bernardino pelo menos um fim de semana por mês, ficando no lago Arrowhead e em Big Bear, tanto no verão quanto no inverno, para que o menino soubesse que o mundo não era só os bairros urbanizados de Orange County. Com o florescimento da sua carreira e o sucesso das estratégias de investimento de Danny, e considerando a recente disposição de Laura para viver o otimismo e não apenas senti-lo, resolveram que estava na hora de satisfazer alguns desejos e compraram uma casa nas montanhas.
Era uma construção de pedra e madeira com onze cômodos e trinta acres de terreno, perto da rodovia estadual 330, a poucos quilômetros de Big Bear. Na verdade, era uma casa mais luxuosa que a de Orange Park. A propriedade era coberta de árvores, juníperos, pinho ponderosa, pinho sacarino e o vizinho mais próximo ficava muito distante. No primeiro fim de semana que passaram nas montanhas, quando estavam fazendo um boneco de neve, três gamos apareceram na entrada da floresta, a uns vinte metros, e os observaram com curiosidade.
Chris ficou encantado e naquela noite, na cama, estava certo de que eram gamos de Papai Noel. Era para aquele lugar que o alegre velhinho ia depois do Natal, insistiu ele, e não, como dizia a lenda, para o pólo Norte.
Vento e estrelas foi publicado em outubro de 1987 e teve maior sucesso do que os livros anteriores. O filme baseado em Rio infinito foi lançado no Dia de Ação de Graças daquele ano, o maior sucesso de bilheteria de 1987.
Na sexta-feira, 8 de janeiro de 1988, satisfeitos com o fato de Vento e estrelas, naquele domingo, ocupar o primeiro lugar na lista de best-sellers do Times há uma semana, saíram à tarde para Big Bear, logo que Chris chegou da escola. Na terça-feira seguinte, Laura ia completar 33 anos, e pretendiam comemorar com antecedência, só os três, nas montanhas, com a neve servindo de cobertura do imenso bolo e o vento cantando para ela.
Acostumados com eles, os gamos chegaram muito perto da casa na manhã de domingo. Mas agora Chris tinha sete anos e na escola disseram que Papai Noel não existia, portanto começava a achar que aqueles não passavam de gamos comuns.
O fim de semana foi perfeito, talvez o melhor que já tinham passado nas montanhas, mas tiveram de interromper a estada. Pretendiam sair às seis horas da manhã de segunda-feira de volta a Orange County a tempo de deixar Chris na escola. Porém, uma grande tempestade atingiu a área mais cedo do que esperavam, no fim da tarde de sábado, e embora estivessem a pouco mais de noventa minutos do clima mais ameno da costa, de manhã a neve atingia quase um metro de altura do solo. A fim de não ficarem isolados e impedidos de voltar, o que faria com que Chris perdesse as aulas — uma possibilidade, mesmo com o carro de tração nas quatro rodas — fecharam a grande casa de pedra e madeira e partiram para o sul, na rodovia 330, um pouco depois das quatro horas.
O sul da Califórnia é um dos poucos lugares do mundo onde se pode viajar de um lugar coberto de neve para uma temperatura sub-tropical em menos de duas horas e Laura sempre havia gostado — e admirado — a viagem. Os três estavam com agasalhos para neve — meias de lã, botas, roupa de baixo próprias para o frio, calças pesadas, suéteres, jaquetas — mas dentro de uma hora e pouco estariam num clima mais quente onde ninguém andava agasalhado, e em duas horas estariam em temperatura de mangas de camisa.
Laura dirigia, enquanto Danny, sentado ao lado dela, e Chris, no banco traseiro, brincavam de associação de palavras, como sempre faziam naquelas viagens. A neve caindo rapidamente alcançava até as áreas da estrada protegidas por árvores nos dois lados e onde não havia essa proteção os flocos brancos levados pelo vento forte rodopiavam nas caprichosas correntes de ar das montanhas, às vezes obscurecendo o caminho. Laura dirigia com cautela, sem se importar em fazer a viagem em três horas em vez de duas; como haviam saído cedo, tinham muito tempo, todo o tempo do mundo.
Quando saiu da grande curva, alguns quilômetros ao sul da sua casa e entrou na descida de quinhentos metros, viu um jipe vermelho estacionado no acostamento e um homem com jaqueta de marinheiro no meio da estrada. Ele descia a colina, acenando com os dois braços, fazendo sinal para que parasse.
Inclinando-se para a frente para ver melhor entre os limpadores de pára-brisa, Danny disse:
— Parece que ele enguiçou, precisa de ajuda.
— Patrulha Packard em serviço de salvamento! — disse Chris.
Laura diminuiu a marcha e o homem na estrada com gestos nervosos fazia sinal para que parasse no acostamento da direita.
Danny disse preocupado:
— Há alguma coisa estranha com ele...
Sim, estranha, sem dúvida, pensou Laura. Era seu guardião especial. A presença dele, depois de tantos anos, a assustou.
10
Stefan mal tinha saído do jipe roubado quando o Blazer apareceu na curva no sopé da colina. Correu para o carro e percebeu que Laura diminuía a marcha, mas estava ainda no meio da estrada, por isso fez sinal para que parasse no acostamento. A princípio ela continuou em marcha muito lenta no meio da estrada, como se não soubesse se se tratava de um motorista com problemas ou um homem perigoso, mas quando chegou mais perto e viu o rosto dele, obedeceu imediatamente. Acelerou o carro levando-o para a parte mais larga do acostamento, a uns sete metros do jipe de Stefan. Ele deu meia-volta e correu para o Blazer, abrindo a porta do lado de Laura.
— Não sei se vai bastar sair da estrada. Saiam, subam a encosta, rápido, agora
— Escute aqui, espere um pouco... — disse Danny.
— Faça o que ele está dizendo! — gritou Laura. — Chris, venha, saia do carro!
Stefan segurou a mão de Laura e a ajudou a sair do carro. Quando Danny e Chris acabavam de sair também, Stefan ouviu o barulho de um motor mais forte que o zunido do vento. Olhou para o topo da longa subida e viu o enorme caminhão começar a descida na direção deles. Puxando Laura, deu a volta pela frente do Blazer.
Seu guardião disse:
- Suba a encosta, venha — e começou a subir pela pilha de neve congelada atirada pelos limpadores de neve, na direção das árvores.
Laura olhou para o topo da colina e viu o caminhão, a quatrocentos metros deles e a uns trinta metros do topo da descida, começar uma longa e terrível derrapagem no asfalto traiçoeiro até ficar de lado na estrada, continuando a deslizar. Se não tivessem parado, se seu guardião não os tivesse interceptado, estariam exatamente na frente do caminhão quando ele perdeu o controle; a essa hora já teriam sido atingidos.
Ao lado dela, com Chris nos seus ombros, Danny obviamente percebeu o perigo. O caminhão podia continuar sua descida descontrolada e atingir o jipe e o Blazer. Arrastando Chris, Danny subiu correndo a encosta coberta de neve, gritando para que Laura corresse também.
Ela subiu, agarrando o que encontrava para apoio, tropeçando. A neve congelada parecia mármore, com rachaduras, partindo-se e soltando pedaços. Varias vezes Laura caiu para trás escorregando até o acostamento. Quando todos se reuniram, seu guardião, Danny, Chris e Laura, três metros acima da estrada, numa plataforma estreita de rocha não coberta de neve, ao lado das árvores, Laura teve a impressão de que a subida levara anos. Mas evidentemente sua noção de tempo estava distorcida pelo medo, pois quando olhou para baixo viu o caminhão ainda deslizando para eles, a cinqüenta metros. Então o carro pesado fez uma volta completa e começou a deslizar de lado outra vez.
Lá vinha ele, sobre a neve, em câmara lenta, o destino sob a forma de algumas toneladas de aço. Carregava um veículo de neve, aparentemente solto no compartimento de carga; o motorista havia confiado na inércia para mantê-lo no lugar. Mas agora o veículo de neve batia de um lado para o outro, para a frente e para trás, no compartimento do caminhão, e durante a derrapagem de quatrocentos metros esse movimento contribuía para desestabilizar o veículo até parecer que o caminhão, completamente inclinado, ia rolar e capotar de um momento para outro.
Laura viu o motorista lutando com a direção e uma mulher ao lado dele, gritando, e pensou: Oh, meu Deus, aquela pobre gente!
Como que adivinhando seu pensamento, seu guardião gritou acima do uivo do vento:
— Estão bêbados, e sem correntes de neve.
Se você sabe tanto sobre eles, pensou Laura, deve saber quem são, então por que não os fez parar, por que não os salvou também?
Com um estrondo terrível, a frente do caminhão bateu no lado do jipe e a mulher, sem cinto de segurança, foi atirada contra o pára-brisa, ficando com a metade do corpo para dentro do caminhão e a outra metade para fora...
— Chris! — Laura gritou.
Mas viu que Danny havia tirado o menino dos ombros e o segurava contra o peito para que não visse o que estava acontecendo.
A colisão não parou o caminhão; vinha com muito-impulso e a estrada estava muito escorregadia para os pneus sem correntes. Porém, o impacto brutal desviou a direção da derrapagem; o caminhão virou violentamente para a direita, de frente para a descida, e o veículo de neve explodiu para fora do compartimento de carga, voando e batendo no Blazer, destruindo o pára-brisa do carro. Logo depois, a traseira do caminhão bateu na frente do Blazer, atirando-o para trás, apesar do freio de mão.
Vendo a destruição, lá de cima, Laura segurou com força o braço de Danny, apavorada com a idéia de que sem dúvida teriam sido feridos, talvez mortos se tivessem se refugiado na frente ou atrás do Blazer.
Agora o caminhão ricocheteou no Blazer; a mulher ensangüentada caiu dentro da cabine; e deslizando mais lentamente, porém ainda descontrolado, o caminhão fez uma volta de 360?, num sinistro e gracioso bale da morte, deslizou pelo acostamento, pela pista coberta de neve e despencou do outro lado da estrada, para o vazio, para baixo, desaparecendo.
Nenhum horror podia ser visto agora, mas Laura cobriu o rosto com as mãos, talvez tentando apagar a imagem do caminhão com seus ocupantes escorregando pelas rochas do desfiladeiro por centenas e centenas de metros. O motorista e sua companheira estariam mortos antes de chegar ao fundo. Acima do vento ela ouviu o caminhão bater numa rocha e depois em outra. Mas logo o ruído daquela sinistra descida cessou e só se ouvia o gemido insano da tempestade.
Chocados, desceram a encosta, escorregando e tropeçando até o acostamento entre o jipe e o Blazer, onde pedaços de vidro e metal espalhavam-se pela neve. O líquido quente do radiador do Blazer escorria na neve e a fumaça erguia-se do carro que estalava sob o peso do veículo de neve embebido na sua frente.
Chris chorava. Laura estendeu o braço e o ergueu do chão, encostando a cabeça do filho no seu ombro.
Atordoado, Danny voltou-se para seu salvador.
— Quem... quem, em nome de Deus, é você?
Laura olhou para seu guardião, mal podendo acreditar que ele estivesse ali. Há mais de vinte anos não o via, desde seus doze anos, no cemitério, no dia do enterro do seu pai sob as árvores copadas. Há quase 25 anos não o via de perto, desde quando ele havia atirado no assaltante do armazém. Quando ele não apareceu para salvá-la do Enguia, quando deixou que ela se defendesse sozinha, perdeu a confiança que sentia e a dúvida aumentou quando ele não apareceu para salvar Nina Dockweiler também — ou Ruthie. Com a passagem do tempo ele havia se tornado uma figura de sonho, mais mito do que realidade, e nos últimos dois anos Laura não tinha pensado nele, deixando de acreditar, como Chris estava deixando de acreditar em Papai Noel. Guardava ainda o bilhete que ele havia deixado em sua mesa depois do enterro do seu pai. Mas há muito tempo estava convencida de que não fora escrito por um guardião mágico, mas talvez por Cora ou Tom Lance, os amigos do seu pai. Agora ele os salvara outra vez, miraculo-samente, e Danny queria saber, em nome de Deus, quem ele era, exatamente o que Laura queria saber também.
O mais estranho era que ele parecia com o homem que atirara no assaltante. Exatamente o mesmo. Laura o reconheceu imediatamente, mesmo depois de tanto tempo, porque ele não tinha envelhecido. Parecia ainda ter trinta e poucos anos. Incrivelmente, os anos não haviam deixado nenhuma marca, nenhum fio branco nos cabelos louros, nenhuma ruga no rosto. Naquele dia do assalto no armazém, seu guardião tinha a idade do seu pai e agora pertencia à geração de Laura. Antes que o homem pudesse responder ou encontrar um meio de evitar a resposta, um carro apareceu no alto da colina descendo pela estrada na direção deles. Era um Pontiac último tipo equipado com correntes nos pneus que chiavam sobre a neve. O motorista evidentemente viu o jipe e o Blazer quase destruídos e as marcas recentes do caminhão, ainda não obliteradas pelo vento e pela neve; diminuiu a marcha — o ruído das correntes tornou-se metálico e áspero — e passou para a pista que ia para o sul. Em vez de sair para o acostamento, o carro continuou para o norte na contramão, parando a três metros deles, perto da traseira do jipe. Quando abriu a porta e o motorista desceu do carro — um homem alto com roupas escuras —, empunhava um objeto que, tarde demais, Laura identificou como uma metralhadora portátil.
O guardião exclamou: — Kokoschka!
Nesse momento Kokoschka atirou.
Embora mais de 15 anos tivessem passado desde o Vietnã, Danny reagiu com o instinto de um soldado. As balas ricochetearam no jipe, na frente deles e no Blazer, atrás, e Danny agarrou Laura e a empurrou, com Chris, para o chão entre os dois carros.
Laura caiu abaixo da linha de fogo e viu Danny ser atingido nas costas. Foi ferido pelo menos uma vez, talvez duas, e Laura teve um movimento convulsivo como se tivesse sido atingida também. Danny caiu de joelhos contra a frente do Blazer.
Laura deu um grito e, segurando Chris com um braço, procurou alcançar o marido com a outra mão.
Danny ainda estava vivo, e voltou-se para ela, sempre de joelhos. Seu rosto estava branco como a neve que caía sobre eles, e Laura teve a estranha e terrível sensação de estar olhando para um fantasma e não um homem vivo.
— Vá para baixo do jipe — disse Danny, empurrando a mão dela. Sua voz parecia espessa e molhada, como se algo tivesse se partido na garganta. — Rápido! _- Uma das balas havia atravessado seu corpo. O sangue muito vermelho escorria pela frente da jaqueta de esqui azul.
Laura hesitou. Danny moveu-se na direção dela, com as mãos e os joelhos no chão e a empurrou para baixo do jipe. Outra explosão da metralhadora soou no ar gelado. O homem sem dúvida ia se aproximar aos poucos da frente do jipe e liquidar os três. Mas não tinham para onde fugir. Se subissem a encosta na direção das árvores, ele os atingiria antes que chegassem à segurança da floresta; se atravessassem a estrada, seriam mortos antes de chegar ao outro lado, e no outro lado havia apenas a descida para o precipício; se tentassem subir pela estrada, estariam indo na direção dele; para baixo, ficariam de costas para o assassino, alvos fáceis para sua arma.
A metralhadora pipocou. Os vidros dos carros se partiram. Balas atingiram o metal com o ruído seco, ricocheteando.
Arrastando-se para a frente do jipe, levando Chris com ela, Laura viu seu guardião deslizar para o estreito espaço entre o veículo e o acostamento coberto de neve. Ele estava agachado perto do pára-choque, onde não podia ser visto pelo homem chamado Kokoschka. Não mais parecia mágico, não mais o anjo guardião, mas apenas um homem; e na verdade ele não era mais o salvador, mas um agente da Morte, pois sua presença ali havia atraído o assassino.
Obedecendo à insistência de Danny, Laura enfiou-se sob o jipe. Chris a acompanhou, não mais chorando, procurando ser corajoso como o pai; mas não tinha visto o pai ser atingido pelos tiros, porque seu rosto estava apertado contra o seio da mãe, protegido pela jaqueta de Laura. Aparentemente de nada adiantava ficar embaixo do jipe porque Kokoschka os encontraria. Não podia ser tão idiota que não fosse procurar ali, se não os visse em outro lugar, portanto, estavam apenas procurando ganhar tempo, mais um minuto de vida no máximo.
Quando já estava sob o jipe, puxando Chris para ela, procurando protegê-lo com seu corpo, ouviu a voz de Danny vinda da frente do carro:
— Eu te amo.
A angústia a assaltou pois compreendeu que eram palavras de adeus.
Stefan deslizou para a área entre o jipe e a pilha suja de neve sobre o acostamento. Era um espaço estreito, nem dera para ele sair do jipe quando parou, mas suficiente para esgueirar-se na direção do pára-choque traseiro onde Kokoschka não esperava que ele aparecesse e de onde talvez pudesse usar sua arma antes que o assassino desse meia-volta e o abatesse com a metralhadora.
Kokoschka. Stefan jamais ficara tão surpreso em sua vida como quando viu Kokoschka sair do Pontiac. Significava que estavam sabendo de suas atividades contra o instituto. E sabiam também que ele havia se colocado entre Laura e seu verdadeiro destino. Kokoschka havia tomado a Estrada do Relâmpago com a intenção de eliminar o traidor e evidentemente Laura também.
Agora, mantendo a cabeça baixa, Stefan forçou a passagem entre o jipe e o acostamento. A metralhadora entrou em ação, partindo os vidros acima dele. A neve acumulada atrás dele estava coberta de gelo em vários lugares e eram como pontas agudas de facas no seu corpo; quando, enfrentando a dor, comprimia as costas contra elas, o gelo se partia e a neve que estava sob ele comprimia-se dando passagem. O vento zunia no pequeno espaço, uivando entre o metal e a neve, dando a impressão de que não estava sozinho, mas na companhia de uma criatura invisível que sibilava no seu rosto.
Stefan vira Laura e Chris esconderem-se sob o jipe mas sabia que o carro significava uma proteção provisória, de minutos ou segundos. Quando Kokoschka chegasse na frente do jipe e não os encontrasse, iria procurá-los no precário esconderijo, e então bastava o homem se abaixar e abrir fogo, dilacerando os dois.
E Danny? Era um homem tão grande, tão forte, certamente grande demais para entrar embaixo do jipe. E já estava ferido; devia estar congelado de dor. Além disso, não era o tipo de homem que fugia ao perigo, nem mesmo a um perigo como aquele.
Finalmente Stefan chegou ao pára-choque traseiro. Ergueu a cabeça cautelosamente e viu o Pontiac parado a oito metros, na pista que ia para o sul, com a porta esquerda aberta, o motor ligado. Não viu Kokoschka. Com sua Walther PPK/S .380 na mão, Stefan colocou-se atrás do jipe. Agachou e espiou por trás do outro pára-choque.
Kokoschka estava no meio da estrada, movendo-se para a frente do jipe, onde pensava que todos estavam escondidos. Sua arma era uma Uzi com pente de balas saliente, escolhido para aquela missão porque não seria um anacronismo. Quando Kokoschka chegou à abertura entre o jipe e o Blazer, o homem abriu fogo novamente, girando a arma da esquerda para a direita. As balas batiam estridentemente no metal, estouravam os pneus e penetravam com um ruído surdo na neve empilhada.
Stefan atirou e errou.
De repente, com uma coragem insana, Danny Packard atirou-se sobre Kokoschka, saindo do seu esconderijo, apoiado no jipe, tão perto do chão que estava abaixo das balas da metralhadora. Estava ferido mas ainda poderoso e rápido, e por um momento pareceu que ia atacar o assassino e desarmá-lo. Kokoschka estava girando a arma da esquerda para a direita, afastando-se já do alvo, quando viu Danny dirigindo-se para ele. Inverteu o movimento da Uzi. Se estivesse um pouco mais perto do jipe e não no meio da estrada não teria visto Danny a tempo.
— Danny, não! — gritou Stefan, desfechando três tiros em Kokoschka enquanto Danny se atirava contra o homem.
Mas Kokoschka mantinha uma distância segura e apontou a arma diretamente para Danny quando este estava a um ou dois metros de distância. Danny foi atingido e lançado para trás.
Para Stefan, o fato de Kokoschka ter sido ferido ao mesmo tempo que acertava Danny não serviu de consolo. O assassino fora atingido por duas balas da Walther, uma na coxa esquerda, outra no ombro esquerdo. Com o impacto ele caiu. A Uzi saltou de sua mão e rolou pelo asfalto.
Laura, sob o jipe, gritava.
Stefan saiu de trás do pára-lama traseiro do jipe e correu para Kokoschka, que estava no chão perto do Blazer. Ele escorregou na neve, procurando manter o equilíbrio.
Muito ferido, sem dúvida em choque, Kokoschka ainda assim viu Stefan correndo na direção dele. Rolou até a Uzi, perto do pneu do Blazer.
Stefan atirou três vezes enquanto corria, mas sem firmeza por causa do movimento. Além disso, Kokoschka continuava a rolar o corpo e Stefan errou os tiros, escorregou outra vez e caiu, batendo o joelho no meio da estrada com tamanha violência que a dor subiu pela sua coxa até a cintura.
Rolando, Kokoschka alcançou a metralhadora.
Compreendendo que jamais chegaria a tempo, Stefan ajoelhou e ergueu a Walther, segurando-a com as duas mãos. Estava a uns sete metros de Kokoschka. Mas até um bom atirador pode errar a essa distância, dependendo das circunstâncias, e estas eram todas contra Stefan: o estado de pânico, um difícil ângulo de tiro, a força do vento desviando a bala.
Abaixo dele, deitado no chão, Kokoschka abriu fogo, assim que conseguiu pegar a Uzi, antes mesmo de apontar a arma para o alvo, perdendo os primeiros vinte tiros que foram parar debaixo do Blazer, estourando os pneus dianteiros.
Quando Kokoschka girou a arma para ele, Stefan disparou suas últimas três balas. Apesar do ângulo e do vento, tinha de acertar, pois não teria tempo para recarregar.
O primeiro tiro da Walther não acertou o alvo.
Kokoschka continuou a virar a sua arma e o arco de tiro atingiu a frente do jipe. Laura estava debaixo do jipe com Chris, e Kokoschka atirava do chão, portanto, alguns tiros passaram por onde os dois estavam.
Stefan atirou outra vez. A bala atingiu o peito de Kokoschka e a Uzi emudeceu. O último tiro de Stefan acertou a cabeça de Kokoschka. Estava terminado.
De onde estava, embaixo do jipe, Laura viu o arremetido de bravura incrível de Danny, viu quando ele caiu pela segunda vez de costas, viu o marido imóvel e compreendeu que ele estava morto. Dessa vez não havia esperança. Um lampejo de dor como a luz terrível de uma explosão invadiu-a com a previsão de um futuro sem Danny, um cenário tão sombrio e uma dor tão violenta que ela quase desmaiou.
Então pensou em Chris, vivo ainda, abrigando-se contra seu corpo. Isolou seu sofrimento, certa de que voltaria a ele mais tarde — se sobrevivesse. O importante agora era manter Chris vivo e, se possível, protegê-lo da cena do corpo do pai crivado de balas.
O corpo de Danny bloqueava parte da sua visão, mas viu Kokoschka cair atingido pelas balas. Viu seu guardião aproximando-se do homem caído, e por um momento pareceu que o pior tinha passado. Então, seu guardião escorregou e caiu sobre um joelho, enquanto Kokoschka rolava o corpo na direção da metralhadora que deixara cair. Mais tiros. Muitos em poucos segundos. Um ou dois passaram sob o jipe, assustadoramente próximos, as balas cortando o ar com o murmúrio mortal mais alto do que qualquer outro som do mundo.
O silêncio depois do tiroteio foi, por algum tempo, perfeito. A princípio, Laura não ouviu o vento nem os soluços abafados do filho. Gradualmente esses sons invadiram seus sentidos.
Viu que seu guardião estava vivo, e sentiu um misto de alívio e de fúria irracional, porque ele tinha sobrevivido depois de levar Kokoschka até eles, o homem que havia matado Danny. Por outro lado, Danny, ela e Chris sem dúvida teriam sido mortos na colisão se o guardião não tivesse aparecido. Quem afinal era ele? De onde vinha? Por que interessava-se tanto por ela? Laura estava assustada, furiosa, chocada, magoada e extremamente confusa.
O guardião ferido ergueu-se e cambaleou até Kokoschka. Laura olhou para o sopé da colina, além da cabeça imóvel de Danny. Não podia ver o que seu guardião fazia, mas aparentemente rasgava a roupa de Kokoschka.
Depois de alguns momentos ele começou a subir a estrada carregando alguma coisa que havia tirado do homem morto.
Quando chegou ao jipe, Stefan agachou e olhou para ela.
— Pode sair. Acabou. — Estava pálido e parecia ter envelhecido pelo menos alguns dos vinte anos que perdera. Ele pigarreou. Com a voz repleta de remorso profundo e genuíno, disse: — Eu sinto muito, Laura. Eu sinto muito.
De bruços no chão, Laura arrastou-se para a traseira do jipe, batendo a cabeça no chassi. Puxou Chris com ela, pois se saísse pela frente o menino veria o corpo do pai. O guardião os ajudou a levantar. Laura encostou no pára-lama traseiro e apertou Chris contra ela.
Com voz trêmula, o garoto disse:
— Quero papai.
Eu também quero.-pensou Laura. Oh, meu filho, eu o quero tanto, tudo que quero no mundo é seu pai.
A tempestade estava agora violenta, a neve caindo do céu com bastante pressão. A tarde chegara ao fim, a luz desaparecia, e em volta deles o dia cinzento dava lugar à escuridão fosforescente da noite coberta de neve.
Com aquele tempo não devia haver muitos viajantes na estrada, mas Stefan tinha certeza de que alguém ia passar por eles. Não mais de dez minutos tinham passado desde que havia feito parar o Blazer dirigido por Laura, mas mesmo naquela tempestade e naquela estrada rural, não demoraria para aparecer um carro. Precisava conversar com ela e afastar-se antes de ser envolvido pelas conseqüências daquele confronto sangrento.
Agachou na frente dela e do menino, atrás do jipe, e disse:
— Laura, preciso sair daqui, mas voltarei logo, dentro de alguns dias...
— Quem é você? — perguntou ela, zangada.
— Não temos tempo para isso agora.
— Mas eu quero saber, que diabo. Tenho direito de saber.
— Sim, tem direito, e vou lhe contar daqui a alguns dias. Mas neste momento precisamos combinar uma história, como naquele dia no armazém. Lembra?
— Ora, vá para o inferno.
Imperturbável, ele disse:
— É para o seu bem, Laura. Não pode contar a verdade porque não parece real, não acha? Vão pensar que está mentindo. Especial mente depois de me ver partir... bem, se contar como foi que parti, ficarão certos de que você é cúmplice de assassinato, ou é louca.
Laura olhou zangada para ele, mas não disse nada. Stefan não a culpava por estar zangada. Talvez ela até desejasse sua morte, mas Stefan compreendia isso também. Entretanto, as únicas emoções que sentia eram amor, pena e um profundo respeito.
— Deve dizer que quando você e Danny saíram da curva, no começo da subida, viram três carros na estrada: o jipe estacionado no acostamento, o Pontiac na contramão, exatamente onde está agora, e outro carro, parado na pista que vai para o norte. Havia... quatro homens, dois deles armados, e aparentemente tinham empurrado o ji pe para fora da estrada. Vocês apareceram na hora errada, foi tudo.
Sob a ameaça da metralhadora foram obrigados a sair da estrada e do carro. Disseram alguma coisa sobre cocaína... drogas, de um modo geral, você não sabe muito bem o quê, mas estavam discutindo sobre drogas e ao que parece, perseguindo o homem do jipe...
— Traficantes aqui, no meio do nada? — disse ela com desprezo.
— Pode haver laboratórios ilegais por perto... uma cabana no bosque, para processar PCP talvez. Escute, pelo menos a história tem alguma lógica, eles vão acreditar. A história verdadeira não faz sentido, portanto não deve contá-la. Diga então que os Robertson apareceram no topo da subida, na pickup... naturalmente você não sabe o nome deles... e a estrada estava bloqueada por todos aqueles carros, e quando ele freou, o caminhão começou a deslizar na neve...
— Você tem um sotaque — disse ela, furiosa — não muito acentuado, mas dá para perceber. De onde você vem?
— Eu conto tudo daqui a alguns dias — disse Stefan impaciente, olhando para os dois lados da estrada açoitada pela neve. — Vou contar, mas agora prometa que vai usar esta história falsa, pode elaborar quanto quiser, mas não conte a verdade.
— Não tenho escolha, tenho?
— Não — disse ele, aliviado, por ver que Laura compreendia sua posição.
Laura apertou mais o filho contra o peito e ficou calada.
Stefan começava a sentir novamente a dor nos pés quase congelados. O calor da ação dissipara-se e agora tremia de frio. Entregou a Laura o cinto que havia tirado de Kokoschka.
Guarde isto dentro da sua jaqueta. Não deixe que ninguém veja. Quando chegar em casa, guarde bem em algum lugar.
— O que é isto?
— Mais tarde. Tentarei voltar dentro de algumas horas. Apenas algumas horas. Não se deixe levar pela curiosidade, não ponha o cinto na cintura e, pelo amor de Deus, não aperte o botão amarelo.
— Por que não?
— Porque você não vai querer ir ao lugar para onde ele a levará.
Laura piscou os olhos, confusa.
— Que ele me levará?
— Eu explicarei, mas não agora.
— Por que não o leva com você, seja lá o que for esta coisa?
— Dois cintos, um corpo, é uma anomalia, provocará uma anormalidade no campo de energia e só Deus sabe onde eu iria parar e em que condições.
— Não compreendo. Do que está falando?
— Mais tarde. Porém, Laura, se por qualquer motivo eu não puder voltar, quero que tome certas precauções.
— Que tipo de precauções?
— Arranje uma arma. Esteja preparada. Provavelmente não virão procurá-la se me apanharem, mas tudo é possível. Só para me dar uma lição, para me humilhar. Eles vivem da vingança. E se vierem atrás de você... serão muitos homens, bem armados.
— Quem são eles?
Sem responder, Stefan levantou-se com um gesto de dor. Recuou alguns passos com um último e longo olhar para Laura. Então, deu meia-volta e a deixou no frio e na neve, encostada no jipe amassado e crivado de balas, com o filho apavorado e o marido morto.
Stefan caminhou lentamente para o meio da estrada, onde a luz 132 parecia vir da neve em movimento e não do céu. Ela o chamou mas Stefan não respondeu.
Guardou a arma sem balas no coldre, dentro da jaqueta. Enfiou a mão dentro da camisa, localizou o botão amarelo do seu cinto e hesitou.
Tinham mandado Kokoschka para matá-lo. Agora deviam estar esperando ansiosamente no instituto, para saber o resultado. Seria detido assim que chegasse. Provavelmente jamais teria oportunidade de viajar pela Estrada do Relâmpago e voltar para Laura, como havia prometido.
A tentação de ficar era muito grande.
Entretanto, se ficasse, mandariam alguém para matá-lo e passaria o resto da vida fugindo dos assassinos — vendo o mundo à sua volta passar por mudanças terríveis demais para suportar. Por outro lado, se voltasse, havia uma pequena possibilidade de conseguir destruir o instituto. O dr. Penlovski e os outros obviamente sabiam tudo sobre sua interferência no fluxo normal da vida daquela mulher, mas talvez não soubessem que Stefan havia colocado explosivos no sótão e no porão do instituto. Nesse caso, se dessem a ele a oportunidade de entrar no seu escritório por um momento, poderia ligar o detonador e explodir o instituto — e todos os seus arquivos — mandando tudo para o inferno, que era seu lugar. Era muito provável que tivessem encontrado os explosivos e desligado o detonador. Mas enquanto existisse uma possibilidade de destruir o projeto e fechar a Estrada do Relâmpago, tinha a obrigação moral de voltar ao instituto mesmo que isso significasse nunca mais ver Laura.
Com o fim do dia a tempestade ficou mais violenta. Nas montanhas, acima da estrada, o vento soava como um lamento entre os enormes pinheiros, e os galhos emitiam um som sinistro, como uma criatura gigantesca de muitas pernas, descendo a encosta. Os flocos de neve eram agora finos e secos, quase como pedacinhos de gelo, raspando o mundo como uma lixa raspa a madeira, até não existir mais picos e vale, nada além de uma planície alta e plana, estendendo-se até onde a vista podia alcançar.
Com a mão ainda dentro da camisa, Stefan apertou o botão amarelo três vezes em rápida sucessão, ligando o raio luminoso. Com pena e medo voltou ao próprio tempo.
Abraçada a Chris, que não soluçava mais, Laura sentou no chão, atrás do jipe e viu seu guardião caminhar na neve escorregadia, passando pela traseira do Pontiac de Kokoschka.
Ele parou no meio da estrada e ficou imóvel por um longo momento, de costas para ela e então aconteceu uma coisa incrível. Primeiro, o ar ficou pesado; Laura sentiu uma estranha pressão, algo que jamais sentira antes, como se a atmosfera da terra estivesse condensada num cataclismo cósmico, e de repente teve dificuldade para respirar. Havia um cheiro estranho também, exótico mas familiar, e, depois de alguns segundos, ela identificou como o cheiro típico de fios elétricos aquecidos e isoladores chamuscados, como o da sua cozinha quando a tomada da torradeira entrou em curto, um odor misturado ao cheiro áspero mas não desagradável de ozônio, o cheiro do ar durante uma violenta tempestade. A pressão aumentou, até Laura ter a impressão de estar pregada ao solo e o ar estremeceu e girou em ondas concêntricas como se fosse água. Com o som de um rolha enorme saindo de uma garrafa, o guardião desapareceu no anoitecer cinza-púrpura de inverno, e ao mesmo tempo uma forte lufada de vento cortou o ar, como se quantidades maciças de atmosfera estivessem sendo levadas para preencher um grande vazio. Por um momento Laura sentiu-se presa num vácuo, sem conseguir respirar. Então a pressão diminuiu, o ar cheirava agora a neve e pinho, e tudo voltou ao normal.
Contudo, depois do que acabava de ver, nada mais seria normal para ela.
A noite chegou muito escura. Sem Danny, era a noite mais escura da sua vida. Apenas uma luz iluminava sua luta na direção de uma felicidade distante: Chris. A última luz na escuridão.
Mais tarde apareceu um carro no alto da colina. Os faróis cortaram a noite e a neve que caía pesadamente.
Laura levantou-se com dificuldade e foi com Chris para o meio da estrada. Acenou com os braços, pedindo ajuda.
Quando o carro diminuiu a marcha, Laura imaginou se não ia aparecer outro homem armado de metralhadora, abrindo fogo contra eles. Nunca mais ia sentir-se segura.