O Iluminado

Stephen King · Capítulo 2 de 9

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O Iluminado

Segunda parte: Dia de encerramento

Vou encontrar você! Vou encontrar você!

— Tony? — murmurou novamente, mas sem muita esperança.

Só o vento respondeu, dessa vez mais forte, espalhando folhas no telhado sobre sua janela. Algumas escorregavam para a calha e ali ficavam como bailarinas cansadas.

Danny… Danniii…

Danny pôs-se em direção ao som daquela voz familiar e se debruçou na janela, as mãozinhas no peitoril. A voz de Tony parecia dar vida à noite, sussurrando até quando o vento cessava, as folhas se aquietavam e as sombras se imobilizavam. Pensou que tivesse visto uma sombra mais escura no ponto de ônibus, no outro quarteirão, mas era difícil dizer se era algo real ou uma ilusão de óptica.

Não vá, Danny…

O vento então soprou forte mais uma vez, fazendo seus olhos piscarem, e a sombra no ponto de ônibus desapareceu… se é que estivera ali. Danny permaneceu na janela por mais

(um minuto? uma hora?)

algum tempo, mas não viu mais nada. Finalmente se arrastou de volta para a cama, cobriu-se e ficou observando as sombras, lançadas pela luz do poste da rua. Elas então foram se transformando em uma floresta sinuosa cheia de plantas carnívoras que queriam apenas se mover em torno dele, sugar-lhe a vida e arrastá-lo para a escuridão, na qual uma palavra desastrosa flamejava: REDRUM.

Segunda parte

Dia de encerramento

8

UMA VISÃO DO OVERLOOK

Mamãe estava preocupada.

Temia que o fusca não aguentasse as subidas e descidas das montanhas e que os três ficassem encalhados na estrada até que alguém passasse correndo e os atropelasse. Danny estava mais otimista; se papai acreditava que o fusca aguentaria esta última viagem, então provavelmente aguentaria.

— Estamos quase chegando — informou Jack.

Wendy tirou o cabelo das têmporas.

— Graças a Deus.

Ela estava sentada no banco do carona, com um livro aberto virado para baixo no colo. Usava o vestido azul que Danny achava o mais bonito. Tinha gola de marinheiro e a fazia parecer muito jovem, como uma menina pronta para a formatura de ginásio. Papai colocava a mão nas pernas dela e ia subindo, e Wendy, rindo, o afastava dizendo:

— Cai fora, mosca.

Danny estava impressionado com as montanhas. Papai já os havia levado, certa vez, para as que ficavam perto de Boulder, chamadas Flatiron, mas estas aqui eram muito maiores. Além disso, na mais alta delas era possível ver uma fina camada de neve, e papai disse que ficava lá praticamente o ano inteiro.

Estavam quase dentro delas, sem brincadeira. As montanhas íngremes os envolviam, tão altas que dificilmente conseguiam enxergar os cumes, mesmo esticando o pescoço para fora da janela. Quando saíram de Boulder, a temperatura estava em torno de vinte graus. Agora, pouco depois do meio-dia, o ar aqui em cima era fresco e frio como em Vermont em novembro, e papai ligou o ar quente… mas não funcionou muito bem. Passaram diante de várias placas que diziam ÁR EA DE DESLIZAMENTO DE PEDRAS (Wendy lia cada uma para ele), e, apesar de Danny ter ansiado pelo deslizamento de alguma pedra, nada acontecera. Pelo menos por enquanto.

Uma hora antes, haviam cruzado outra placa que papai dizia ser muito importante. A placa informava ENTRANDO NO DESFILADEIRO DE SIDEWINDER, e papai contou que, durante o inverno, as máquinas de limpar neve só iam até ali. Depois daquele ponto, a estrada ficava íngreme demais. No mesmo período, ela ficava bloqueada a partir da cidadezinha de Sidewinder, pela qual eles tinham passado pouco antes de ver a placa, até Buckland, no estado de Utah.

Agora eles passavam diante de outra placa.

— O que diz aquela, mamãe?

— VEÍCULOS LENTOS, USEM A PISTA DA DIREITA. Ou seja, nós.

— O fusca vai aguentar — assegurou Danny.

— Por favor, meu Deus — disse mamãe, cruzando os dedos.

Danny olhou para os pés dela e viu que, nas sandálias abertas, seus dedos também estavam cruzados. Deu uma risadinha. Ela retribuiu o sorriso, mas ele sabia que a mãe ainda estava preocupada.

A estrada era sinuosa, com uma série de curvas em S. Jack reduziu a marcha de quarta para terceira e, em seguida, para segunda. O fusca bufou como se protestasse, e Wendy manteve os olhos fixos no velocímetro, que caía de sessenta e cinco para cinquenta, depois para trinta, onde a agulha pairou, relutantemente.

— A bomba de gasolina… — disse ela, timidamente.

— A bomba de gasolina ainda vai aguentar mais cinco quilômetros —

retrucou Jack, taxativo.

A encosta da montanha desapareceu do lado direito e deu lugar a um vale, que parecia não ter fim e era delineado de verde-escuro por pinheiros e abetos das Montanhas Rochosas. Os pinheiros eram seguidos de penhascos profundos. Wendy viu a queda d’água sobre o rochedo, o sol da tarde faiscando na água como um peixe dourado preso em uma rede azul. Eram montanhas belíssimas, mas duras. Não achava que pudessem perdoar muitos erros. Um pressentimento triste brotou em sua garganta. Adiante, a oeste, em Sierra Nevada, os pioneiros do famoso Donner Party viram-se isolados pela neve e recorreram ao canibalismo como meio de sobrevivência. As montanhas não perdoavam muitos erros.

Com uma pisada forte na embreagem seguida de um solavanco, Jack passou para a primeira e começaram a subir, o motor do fusca protestando resolutamente.

— Sabe — começou ela —, não vi mais de cinco carros desde que cruzamos Sidewinder. E um deles era a limusine do hotel.

Jack assentiu.

— Ela vai direto ao aeroporto de Stapleton, em Denver. Watson contou que já há alguns trechos de neve nos arredores do hotel, e a previsão é de que caia mais neve amanhã. Qualquer pessoa que estiver viajando pelas montanhas agora vai querer rodar pela estrada principal, por via das dúvidas.

Aquele desgraçado do Ullman… acho bom que ainda esteja lá em cima.

Acho que vai estar.

— Tem certeza de que a despensa está cheia? — perguntou ela, ainda pensando nos integrantes do Donner Party.

— Diz ele que sim. Gostaria que Hallorann examinasse ela com você.

Hallorann é o cozinheiro.

— Hm — respondeu desanimada, olhando para o velocímetro. Tinha caído de vinte e cinco para quinze quilômetros por hora.

— Lá está o topo — disse Jack apontando. — Há um mirante ali, dele já dá pra ver o Overlook. Vou encostar e dar um descanso ao fusca. — Esticou o pescoço por sobre seu ombro olhando para Danny, que estava sentado numa pilha de cobertores. — O que acha, velhinho? Talvez vejamos algum cervo.

Ou uma rena.

— Claro, papai.

O fusca subiu, subiu. O velocímetro caía a pouco mais de oito quilômetros por hora e começava a engasgar, quando Jack encostou (“O que diz aquela placa, mamãe?” “MIRANTE”, leu ela, obediente.) e puxou o freio de mão, deixando o fusca em ponto morto.

— Vamos — disse ele, saindo.

Caminharam juntos para a cerca de segurança.

— Aí está — Jack anunciou enquanto apontava para a paisagem. Wendy sentiu como se estivesse descobrindo a verdade num clichê e ficou sem ar. Por um momento nem conseguia respirar; a vista tirara-lhe o fôlego.

Estavam parados próximos ao topo de um pico. Do outro lado — sabia-se lá a que distância — uma montanha ainda mais alta empinava-se no céu, com o cume recortado, sendo apenas uma silhueta aureolada pelo sol que começava a descer. O vale estendia-se a seus pés, os aclives nos quais o fusca valente havia subido dissolviam-se com tal rapidez que ela sabia que, se olhasse para baixo por muito tempo, sentiria enjoo e vomitaria. A imaginação parecia criar vida para além do reino da razão, e olhar o abismo era ver a si mesmo mergulhando e caindo e caindo e caindo, céu e encostas invertendo suas posições em lentas cambalhotas, o grito desgarrando-se da boca como um balão preguiçoso, enquanto o cabelo e o vestido revolviam-se…

Ela arrancou o olhar da queda quase por força, e seguiu o dedo de Jack.

Podia ver a estrada fincada no declive desta torre de catedral, dando voltas e mais voltas mas sempre rumando para noroeste, ainda subindo, porém menos íngreme. Mais adiante, aparentemente encravados na própria encosta, ela viu os pinheiros rigidamente fixados darem lugar a um gramado muito verde. Ao

centro, contemplando tudo, o hotel. O Overlook. Ao avistá-lo, tomou fôlego e recuperou a voz.

— Ah, Jack, é lindo!

— É, sim. Ullman disse que esse é o lugar mais lindo dos Estados Unidos.

Não gosto muito dele, mas acho que está… Danny! Danny, você está bem?

Wendy olhou em volta, procurando pelo filho, e o medo súbito que sentiu pelo menino apagou todo o resto, maravilhoso ou não. Ela disparou em sua direção. Danny segurava com força a cerca de segurança, olhando para o hotel com um rosto acinzentado. Os olhos tinham a expressão vazia de alguém à beira de um desmaio.

Ela se ajoelhou ao lado dele e pousou as mãos de maneira tranquilizadora sobre seus ombros.

— Danny, o que…

Jack estava ao lado dela.

— Você está bem, velhinho? — perguntou dando uma sacudidela, e os olhos do menino se iluminaram.

— Tô bem, papai. Tô bem.

— O que foi, Danny? — indagou a mãe. — Ficou tonto, meu bem?

— Não, eu tava só… pensando. Desculpe, não queria assustar vocês. —

Olhou para os pais ajoelhados diante dele e sorriu embaraçado. — Acho que foi o sol. O sol nos meus olhos.

— Vamos até o hotel e você vai beber um pouco de água lá — disse o pai.

— Está bem.

E no fusca, que passou a subir com mais segurança os aclives menos íngremes, Danny, entre o meio dos dois, olhava para fora; a estrada desenrolava-se, possibilitando vistas ocasionais do Hotel Overlook, o bloco maciço de janelas voltadas para o oeste refletindo o sol. Era o lugar que ele tinha visto no meio da tempestade de neve, o lugar escuro do estrondo, onde uma criatura incrivelmente familiar procurava-o pelos corredores cobertos de mato. O lugar sobre o qual Tony o havia alertado. Era ali. Seja lá o que REDRUM fosse, estaria ali.

9

FAZENDO UMA CHECAGEM GERAL

Assim que passaram pelas portas largas e antigas, encontraram Ullman esperando por eles. O gerente apertou a mão de Jack e cumprimentou Wendy com um frio aceno de cabeça, talvez percebendo a maneira como os olhares a acompanhavam quando ela entrou no saguão, os cabelos louros caídos sobre

os ombros do vestido simples tipo marinheiro. A bainha ia até alguns poucos centímetros acima do joelho, mas não era preciso ver mais para saber que se tratava de belas pernas.

Ullman foi caloroso apenas com Danny, mas Wendy já estava acostumada com aquilo. Danny era o tipo de criança que cativava até mesmo os adultos que odiavam crianças. Curvou-se e estendeu a mão para Danny. O menino a apertou formalmente, sem sorrir.

— Meu filho, Danny — apresentou Jack. — E minha esposa, Winnifred.

— Muito prazer em conhecê-los. Quantos anos você tem, Danny?

— Cinco, senhor.

— Senhor. — Ullman sorriu e lançou o olhar para Jack. — É muito bem-educado.

— Claro que é — confirmou Jack.

— E a sra. Torrance. — Curvou-se diante dela também e, por um instante, Wendy pensou que ele fosse beijar sua mão. Ela a estendeu para Ullman, que a tomou. Mas, muito rapidamente, envolveu a mão dela entre as dele. Mãos pequenas, secas, macias que a fizeram pensar que estivessem cheias de talco.

O saguão estava um alvoroço. Quase todas as cadeiras antigas de espaldar alto estavam ocupadas. Carregadores corriam de um lado para outro com malas e, na recepção, havia uma fila que terminava em uma enorme caixa registradora. Os decalques de cartões de crédito nela colocados pareciam dissonantemente anacrônicos.

À direita, em direção a duas portas duplas abertas e isoladas por cordas, havia uma lareira antiga com a brasa ardendo. Três freiras estavam sentadas no sofá posicionado praticamente dentro do fogo. Conversavam e sorriam, com malas amontoadas de cada lado, aguardando a fila de pessoas que encerravam a conta diminuir um pouco. Enquanto Wendy as observava, explodiram num coro de risadinhas, como se fossem adolescentes. Sentiu um sorriso aflorar em seus próprios lábios; nenhuma delas poderia ter menos de sessenta anos.

Ao fundo, o constante zumbido de conversa misturava-se ao tilintar em surdina da campainha prateada ao lado da caixa registradora, quando um dos dois funcionários de serviço a tocava, com pedidos ligeiramente impacientes de “Próximo, por favor”. Wendy foi tomada por lembranças doces e vívidas de sua lua de mel com Jack em Nova York, no Beekman Tower. Pela primeira vez, permitiu-se acreditar que aquilo era exatamente o que os três precisavam: uma temporada juntos, longe do mundo, uma espécie de lua de

mel em família. Sorriu afetuosamente para Danny, que arregalava os olhos para tudo. Outra limusine, cinza como grafite, encostara à entrada.

— O último dia da temporada — Ullman explicou. — Dia de encerramento. Sempre caótico. Eu estava esperando vocês mais por volta das três, sr. Torrance.

— Quis dar um tempo extra ao fusca, caso ele resolvesse ter um colapso nervoso — Jack respondeu. — Mas não teve.

— Que sorte — falou Ullman. — Gostaria de levar os três para um passeio pelos arredores um pouco mais tarde, e é lógico que Dick Hallorann pretende mostrar à sra. Torrance a cozinha do Overlook. Mas receio que…

Um dos funcionários aproximou-se, afobado.

— Com licença, sr. Ullman…

— Sim. O que é?

— É a sra. Brant — disse o funcionário, constrangido. — Ela se recusa a pagar a conta com qualquer coisa que não seja o cartão de crédito American Express. Eu informei a ela que desde a última temporada não estamos mais aceitando o American Express, mas ela não… — Seus olhos pousaram na família Torrance e, em seguida, em Ullman. Encolheu os ombros.

— Deixe que cuido do assunto.

— Obrigado, sr. Ullman.

O funcionário voltou à recepção, onde uma mulher monstruosamente grande, embrulhada num casaco longo de pele e num boá de penas negras, protestava em voz alta.

— Frequento o Overlook desde 1955 — dizia ela ao funcionário, que sorria e encolhia os ombros. — Continuei vindo mesmo depois que o meu segundo marido morreu de derrame naquela quadra enfadonha de roque … eu avisei que o sol estava muito quente naquele dia… e nunca… repito: nunca…

paguei com outra coisa que não fosse meu cartão de crédito American Express. Se quiser, pode chamar a polícia! Eles que me prendam! E ainda assim me recusarei a pagar com algo diferente do meu cartão de crédito American Express. Repito…

— Com licença — pediu Ullman.

Os três o observaram cruzar o saguão. Ullman tocou respeitosamente o braço da sra. Brant, estendeu as mãos, assentindo com a cabeça enquanto ela fazia o longo discurso. Ele a escutou com paciência, assentiu com a cabeça mais uma vez e retrucou alguma coisa. A sra. Brant sorriu triunfante, voltou-se para o infeliz funcionário e disse em voz alta:

— Graças a Deus, existe um funcionário neste hotel que ainda não se transformou completamente num filisteu!

A velha permitiu que Ullman, cuja altura mal alcançava o volumoso ombro do casaco de pele, lhe tomasse o braço e a conduzisse a outro lugar, provavelmente seu escritório.

— Uau! — disse Wendy, sorrindo. — Aquele cara merece a grana que ganha.

— Mas ele não gostava daquela senhora — comentou Danny, imediatamente. — Estava fingindo que gostava dela.

Jack deu um sorriso malicioso.

— Certamente estava, velhinho. Mas a lisonja é a graxa das engrenagens do mundo.

— O que é lisonja?

— Lisonja — respondeu Wendy — é quando seu pai diz que gosta de minhas novas calças amarelas, mesmo que ele não tenha gostado de verdade, ou então quando diz que não preciso perder uns quilinhos.

— Já sei. Uma mentirinha de brincadeira?

— Alguma coisa bem parecida com isso.

O menino olhou Wendy de perto e então disse:

— Você é muito bonita, mamãe. — E franziu o cenho, confuso, quando os pais se entreolharam e explodiram numa gargalhada.

— Ullman não desperdiçou muita lisonja comigo — comentou Jack. —

Vamos até a janela. Eu me sinto muito exposto parado aqui no meio, com a minha jaqueta jeans. Francamente não pensei que fosse ter muita gente no último dia de temporada. Acho que errei.

— Você está muito bonito — Wendy falou, e riram novamente, ela pondo a mão na boca. Danny ainda não entendia, mas paciência. Estavam amando um ao outro. Danny pensou que este hotel trazia à mãe a lembrança de um outro lugar

(o Beekman Tower)

onde ela fora feliz. Seria bom que ele gostasse tanto dali quanto ela gostava, e repetia a si próprio que nem sempre o que Tony dizia se realizava.

Mas tomaria cuidado. Prestaria atenção a alguma coisa chamada REDRUM. Mas não diria absolutamente nada, a menos que fosse necessário. Porque estavam felizes, riam, e não tinham maus pensamentos.

— Olhem só a paisagem — disse Jack.

— Ah, é deslumbrante! Veja, Danny.

Mas Danny particularmente não achava tão deslumbrante. Não gostava de alturas; ficava tonto. Adiante da ampla varanda da frente que abrangia toda a extensão do hotel, um belo gramado, bem cuidado (havia uma área para treinar golfe à direita), levava a uma grande piscina retangular. Um aviso de FECHADO estava sobre um tripé em uma das extremidades da piscina; Fechado era um aviso que conseguia ler, assim como Pare, Saída, Pizza e alguns outros.

Adiante da piscina, um caminho de cascalho serpenteava por entre pinheirinhos, abetos e álamos. Ali havia uma placa, com uma seta e uma palavra que ele não conhecia: ROQUE.

— O que é R-O-Q-U-E, papai?

— Um jogo — respondeu Jack. — É um pouco parecido com croquet; a diferença é que, em vez de grama, é jogado em uma quadra de cascalho com laterais que lembram uma grande mesa de bilhar. É um jogo muito antigo, Danny. Às vezes há torneios aqui.

— A gente joga com um taco de croquet?

— Parecido. Só que o cabo é mais curto, e a ponta tem dois lados. Um lado é de borracha, o outro é de madeira — explicou Jack.

( Saia, seu pedaço de merda! )

— Pronuncia-se rôuque — acrescentou. — Posso te ensinar, se quiser.

— Talvez — Danny respondeu com uma vozinha estranha e sem vida, que fez os pais se entreolharem confusos. — Pode ser que eu não goste.

— Bem, se não gostar, velhinho, não precisa jogar. Entendido?

— Claro.

— Você gostou dos animais? — perguntou Wendy. — Isto aqui é um jardim de topiaria. — Além do caminho que levava ao roque, havia arbustos podados no formato de vários animais. Danny, cujos olhos eram aguçados, visualizou um coelho, um cachorro, um cavalo, uma vaca e um grupo de três animais maiores que pareciam leões brincando.

— Foi por causa desses animais que o tio Al pensou em mim para o emprego — comentou Jack. — Sabia que, quando eu estava na universidade, trabalhava em uma empresa de paisagismo, cuidando de gramados, arbustos e cercas vivas? Estava acostumado a podar a topiaria de uma senhora.

Wendy tapou a boca prendendo o riso. Jack retrucou, olhando pra ela:

— É… eu costumava podar a topiaria dela pelo menos uma vez por semana.

— Cai fora, mosca — Wendy disse, prendendo o riso novamente.

— Ela tinha arbustos bonitos, pai? — Danny perguntou, e então os dois

abafaram uma explosão de gargalhadas. Wendy riu tanto que lágrimas rolaram pelo seu rosto e ela precisou tirar um lenço de papel da bolsa.

— Não eram animais, Danny — Jack explicou quando conseguiu se controlar. — Eram cartas. Espadas, copas, paus e ouros. Mas elas crescem, veja…

( Ela aumenta sozinha, dissera Watson… não, não as plantas, a pressão da caldeira. Se você esquecer, ela vai aumentando, aumentando, e você e sua família vão acabar acordando quando estiverem na porra da Lua. ) Os pais olharam Danny, confusos. O sorriso desaparecera do rosto do garoto.

— Pai? — perguntou Danny.

Jack piscou os olhos, como se estivesse voltando de muito longe.

— Elas crescem, Danny, e perdem sua forma. É preciso então aparar uma ou duas vezes por semana, até que com o frio elas param de crescer o resto do ano.

— Aqui tem um parquinho também — disse Wendy. — Meu menino sortudo.

O parquinho ficava depois da topiaria. Havia dois escorregas, um conjunto de seis balanços de diferentes alturas, gangorras, um túnel de manilhas, uma caixa de areia e uma casa de bonecas que era uma réplica do próprio Overlook.

— Está gostando, Danny? — perguntou Wendy.

— Claro — ele respondeu, na esperança de parecer mais entusiasmado do que na realidade estava. — É bacana.

Depois do parquinho, havia uma discreta cerca de arame; mais à frente, a estrada larga e pavimentada que levava ao hotel, e, adiante, o vale se estendendo sob a neblina azul da tarde. Danny não conhecia a palavra isolamento, mas, se alguém a tivesse explicado, ele a teria usado naquele momento. Lá embaixo, deitada ao sol como uma longa cobra negra que decidira dormir um pouco, ficava a estrada que passava pelo Desfiladeiro de Sidewinder, levando de volta a Boulder. A estrada que ficaria fechada por todo o inverno. Ele se sentiu um pouco sufocado com o pensamento e quase saltou, quando sentiu as mãos do pai sobre seus ombros.

— Vou pegar pra você aquela água assim que puder, velhinho. Estão um pouco ocupados agora.

— Claro, papai.

A sra. Brant saiu do escritório com um ar de vitória. Minutos depois, dois

carregadores, atrapalhados em meio a oito malas, seguiam a senhora da melhor maneira possível, enquanto ela saía triunfalmente pela porta. Danny viu pela janela um homem de uniforme cinza e um quepe, como o de um capitão do Exército, que havia trazido o grande carro prateado da mulher até a porta e saltara. O homem tirou o chapéu para a mulher e correu para abrir o porta-malas.

E, num desses lampejos que às vezes vinham, Danny teve acesso a um pensamento completo dela; um pensamento que tinha flutuado por sobre o burburinho de emoções e cores que ele geralmente captava em lugares movimentados.

( queria me meter nas calças dele)

Danny franziu as sobrancelhas, enquanto os carregadores acomodavam a bagagem no porta-malas. Ela olhava fixamente para o homem de uniforme cinza, que supervisionava o carregamento. Por que ela queria as calças daquele homem? Estaria com frio, mesmo usando aquele longo casaco de pele? E, se estava com tanto frio, por que não vestira sua própria calça?

Mamãe usava calça praticamente o inverno inteiro.

O homem de uniforme cinza fechou o porta-malas e voltou para ajudá-la a entrar no carro. Danny observou mais de perto para ver se a mulher diria alguma coisa sobre a calça dele, mas ela apenas sorriu e lhe deu uma nota de um dólar — uma gorjeta. Minutos depois, ela estava dirigindo o grande carro prateado estrada abaixo.

Pensou em perguntar à mãe por que razão poderia a sra. Brant querer a calça do homem do carro, mas resolveu não dizer nada. As perguntas, às vezes, o metiam em confusão. Já acontecera antes.

Em vez disso, ele se espremeu entre os dois no pequeno sofá, olhando para as pessoas que iam embora. Estava contente por mamãe e papai estarem felizes e se amando, mas não podia ignorar sua preocupação. Não podia.

10

HALLORANN

O cozinheiro não correspondia em nada ao que Wendy imaginava ser o protagonista da cozinha de um resort. Para começar, o personagem de sua imaginação atendia por chef, não por algo tão mundano como cozinheiro —

cozinhar era o que ela fazia na cozinha do apartamento, quando jogava as sobras num pirex untado e acrescentava macarrão. Além disso, o especialista em gastronomia de um hotel como o Overlook, que tinha anúncios dominicais na seção de resorts do New York Times, deveria ser baixinho,

gordinho e pálido (como um pedaço de massa); deveria ter um bigode fino como os astros de comédias da década de 1940, olhos escuros, sotaque francês e um temperamento detestável.

De todas essas características, Hallorann só tinha os olhos escuros. Era um homem negro, alto, com um discreto penteado afro que começava a ficar grisalho. Tinha um leve sotaque de sulista e ria muito, exibindo dentes muito brancos e uniformes que só poderiam ser uma dentadura da Sears, safra de 1950. O pai de Wendy tivera um par igual, que chamava de Roebuckers. Por vezes, à mesa do jantar, ele olhava para a filha e pressionava a dentadura para fora de maneira cômica… sempre, Wendy se lembrava agora, que a mãe estava na cozinha pegando alguma coisa ou falando ao telefone.

Danny arregalou os olhos diante do gigante negro com uniforme azul, e sorriu quando Hallorann o levantou com facilidade e o colocou no colo, dizendo:

— Você não vai ficar por aqui o inverno todo, não é?

— Vou sim — respondeu Danny, com um sorriso tímido.

— Não, você vai comigo para St. Pete e vai aprender a cozinhar. E irá à praia toda noite para procurar caranguejos. Certo?

Danny deu uma risada, encantado, e balançou a cabeça em negativa.

Hallorann o pôs de volta no chão.

— Se mudar de ideia — disse Hallorann, muito sério, inclinando-se sobre ele —, é melhor se apressar. Em trinta minutos, estarei no meu carro. Duas horas e meia mais tarde, estarei sentado na sala de espera do Portão 32 do aeroporto internacional de Stapleton, na cidade de Denver, Colorado. Três horas depois disso, estarei alugando um carro no aeroporto de Miami a caminho da ensolarada St. Pete; vou vestir meu calção de banho e ficar morrendo de rir de todo mundo que está aqui preso na neve. Entendeu, meu rapaz?

— Sim, senhor — confirmou Danny, sorrindo.

Hallorann voltou-se para Jack e Wendy.

— Parece um bom menino.

— Achamos que ele vai dar pro gasto — disse Jack, estendendo a mão.

Hallorann a apertou. — Sou Jack Torrance. Minha esposa, Winnifred. Danny você já conhece.

— E foi um prazer. Como é, moça, você é Winnie ou Freddie?

— Sou Wendy — ela respondeu, sorrindo.

— Muito bem. Melhor que os outros dois nomes. Por aqui. O sr. Ullman

quer que façam um tour, e é exatamente o que vamos fazer. — Balançou a cabeça e murmurou entre os dentes: — E vou ficar muito feliz em ver ele pela última vez.

Hallorann começou o passeio pela maior cozinha que Wendy já vira em toda sua vida. Era reluzente de tão limpa. Todas as superfícies polidas. Era mais do que grande; era intimidadora. Ela caminhava ao lado de Hallorann, enquanto Jack, totalmente desambientado, ficou um pouco para trás com Danny. Ao lado de quatro pias, um suporte comprido exibia instrumentos cortantes que iam de facas a cutelos, tão grandes que tinham que ser usados com as duas mãos. A tábua de pão tinha o mesmo tamanho da mesa de cozinha no apartamento em que moraram em Boulder. Um impressionante desfile de panelas e frigideiras de aço inoxidável, penduradas do chão ao teto, cobrindo toda uma parede.

— Acho que vou ter que deixar um rastro de migalhas de pão toda vez que vier aqui — comentou ela.

— Não fique preocupada com o tamanho — tranquilizou-a Hallorann. —

É grande, mas, ainda assim, é somente uma cozinha. Você não vai nem mexer na maioria das coisas. Apenas mantenha tudo limpo, é tudo o que peço. Aqui está o fogão que eu usaria, se fosse você. Tem três desses no total, mas este é o menor.

Menor, pensou ela distante, olhando para o fogão. Tinha doze bocas, dois fornos comuns e uma assadeira, uma área côncava para cozinhar molhos ou feijão, uma grelha e uma gaveta para manter a comida quente… mais um milhão de mostradores e medidores.

— Tudo a gás — falou Hallorann. — Já cozinhou com gás, Wendy?

— Já…

— Adoro gás — disse ele, abrindo uma das bocas. Uma chama azul surgiu e ele a ajustou até que se tornasse um leve brilho com um toque delicado. —

Gosto de ver a chama que será usada para cozinhar. Está vendo onde os botões dos queimadores estão?

— Sim.

— Os mostradores do forno estão marcados. Eu pessoalmente prefiro o do meio, porque assa mais uniformemente, mas você pode usar o que achar melhor… Ou os três, se quiser.

— Um pacote de comida congelada em cada um — Wendy respondeu, sorrindo.

Hallorann deu uma gargalhada.

— Se é o que você gosta, tudo bem. Deixei uma lista de tudo que é comestível perto da pia. Está vendo?

— Aqui, mamãe! — Danny segurava duas folhas de papel, escritas dos dois lados.

— Bom menino — disse Hallorann, pegando os papéis e passando a mão na cabeça da criança. — Tem certeza de que não quer ir para a Flórida comigo, rapaz? Não quer aprender a cozinhar o camarão mais delicioso deste lado do paraíso?

Danny colocou as mãos na boca dando uma risadinha e se afastou para o lado do pai.

— Vocês três têm comida para um ano, acho — informou Hallorann. —

Temos uma despensa, um frigorífico, armários carregados de legumes e duas geladeiras. Venham, vou mostrar a vocês.

Durante os dez minutos seguintes, Hallorann abriu armários e portas, exibindo quantidades de comida que Wendy nunca havia visto. O estoque de alimentos a deixou impressionada, mas não a tranquilizou tanto quanto imaginara: a lembrança dos pioneiros canibais sempre voltava, não como uma ideia fixa de canibalismo (com toda essa comida, certamente levaria tempo até que chegassem a comer um ao outro), mas a fazia perceber que isto era realmente um negócio muito sério: quando a neve caísse, sair daqui não seria questão de uma viagem de uma hora a Sidewinder, mas uma operação bem mais complicada. Estariam plantados no deserto deste grande hotel, se alimentando com o que havia no estoque, como personagens de uma fábula, ouvindo o vento amargo no telhado coberto de neve. Em Vermont, quando Danny quebrara o braço

(quando Jack quebrara o braço de Danny)

ela discou o número que havia num cartão colado ao telefone e chamou o serviço médico de urgência. Dez minutos depois, estavam em sua casa. Havia outros números escritos naquele cartãozinho. Em cinco minutos, lá estaria o carro de polícia. O caminhão de bombeiros chegaria em menos tempo ainda, pois o Corpo de Bombeiros ficava a três quarteirões de sua casa. Havia alguém a quem chamar no caso de falta de luz, ou no caso de o chuveiro enguiçar, ou de a televisão pifar. Mas, como seria aqui se Danny tivesse um de seus desmaios e enrolasse a língua?

( ai, Deus, que pensamento! )

E se o lugar pegasse fogo? E se Jack caísse no poço do elevador e fraturasse o crânio? E se…?

( e se tivessem uma temporada maravilhosa? Pare com isso agora, Winnifred! )

O primeiro lugar que Hallorann mostrou foi o frigorífico, onde a respiração deles provocava baforadas de vapor que pareciam balões de histórias em quadrinhos. Ali dentro, era como se o inverno já tivesse chegado.

Hambúrgueres em grandes sacos plásticos, cinco quilos em cada saco, doze sacos ao todo. Quarenta galinhas inteiras penduradas em ganchos enfileirados nas paredes revestidas de madeira. Uma dúzia de presuntos enlatados empilhados como fichas de pôquer. Abaixo das galinhas, dez mantas de carne assada, dez de porco assado e um imenso quarto de carneiro.

— Gosta de cordeiro, velhinho? — perguntou Hallorann, sorrindo malicioso.

— Adoro — Danny respondeu imediatamente, mesmo sem nunca ter comido um.

— Eu sabia que você gostava. Não há nada como duas boas fatias de cordeiro com geleia de menta numa noite fria. Aqui também tem geleia de menta. Cordeiro faz bem ao estômago. Não é um tipo de carne muito forte.

Por trás deles, Jack disse curioso:

— Como sabia que o chamávamos de velhinho?

Hallorann virou-se para ele.

— Perdão?

— Danny. Às vezes o chamamos de velhinho. Como o Pernalonga dos desenhos animados.

— Ele parece um pouco um velhinho, não parece? — Franziu o nariz para Danny, estalou os lábios e disse: — Ehhh, o que é que há, velhinho?

Danny deu uma risadinha, e então Hallorann disse alguma coisa ( Tem certeza de que não quer ir para a Flórida comigo, velhinho? ) para ele, muito claramente. Danny ouviu cada palavra. Olhou para Hallorann, chocado e um pouco amedrontado. Hallorann piscou solenemente e voltou-se para a comida.

Por trás das costas largas do cozinheiro, Wendy olhou o filho. Tinha a estranha sensação de que alguma coisa se passara entre eles, alguma coisa que não conseguira captar.

— Há doze pacotes de linguiça e doze de bacon. Coitado do porco. Nesta gaveta, dez quilos de manteiga.

— Manteiga mesmo? — perguntou Jack.

— De primeiríssima qualidade.

— Acho que não como manteiga de verdade desde minha infância em Berlin, Nova Hampshire.

— Bem, aqui você vai comer até se fartar — Hallorann comentou, sorrindo. — Aqui, neste depósito, vocês têm pão… trinta pães brancos, vinte pães pretos. Tentamos manter o equilíbrio racial, sabe? Admito que cinquenta pães não é muito, mas há ingredientes suficientes para fazer mais, e pão fresco é melhor do que o congelado em qualquer dia da semana. E aqui fica o peixe. Comida para o cérebro, certo, velhinho?

— É, mamãe?

— Se o sr. Hallorann está dizendo, meu bem… — Ela sorriu. Danny fez uma careta.

— Não gosto de peixe.

— Está redondamente enganado — respondeu Hallorann. — É que nunca comeu um peixe que gostasse de você. Estes aqui vão te adorar. Dois quilos e meio de truta-arco-íris, cinco quilos de rodovalho, quinze latas de atum…

— Ah, sim, gosto de atum.

— … e dois quilos e meio do linguado mais delicioso que já nadou no mar.

Meu filho, quando a primavera chegar, você vai agradecer ao velho… —

Estalou os dedos como se tivesse esquecido alguma coisa. — E agora? Qual é mesmo o meu nome? Acho que escapuliu de minha cabeça.

— Sr. Hallorann — Danny respondeu com uma risadinha. — Dick, para os amigos.

— Isso mesmo! E, sendo meu amigo, você pode me chamar de Dick.

Enquanto eram conduzidos para o outro lado, Jack e Wendy trocaram um olhar confuso, ambos tentando lembrar se Hallorann havia dito seu primeiro nome.

— E isso aqui é algo bem especial — disse Hallorann. — Espero que gostem.

— Ah! Puxa, não precisava! — Wendy exclamou, comovida. Era um peru de dez quilos envolto em uma larga fita vermelha com um laço no topo.

— Vocês precisam de um peru no Dia de Ação de Graças, Wendy —

respondeu Hallorann, muito sério. — Acho que há algum frango gordo congelado por aqui para o Natal. Com certeza, vocês vão topar com ele.

Vamos sair daqui antes que a gente pegue uma pneumonia. Certo, velhinho?

— Certo!

Havia mais maravilhas na despensa fria. Uma centena de caixas de leite em pó (Hallorann aconselhou Wendy a ir a Sidewinder e comprar leite fresco

para Danny até quando fosse possível), cinco sacos de seis quilos de açúcar, um garrafão de melado, cereais, arroz, macarrão, espaguete; filas de latas de conservas de frutas e salada de frutas; uma caixa de maçãs frescas que faziam o lugar exalar outono; passas, ameixas e damascos (“Você tem que comer fibras se quiser ser feliz”, comentou Hallorann, dando uma gargalhada para o teto da despensa fria, onde uma lâmpada antiga estava pendurada numa corrente); um caixote fundo cheio de batatas; e caixas menores de tomates, cebolas, nabos, morangas e repolhos.

— Acho que… — começou Wendy, enquanto saíam. Mas, ao ver toda aquela quantidade de comida fresca, comparada a seu orçamento de trinta dólares para compras de mês, ficou tão atordoada que nem pôde dizer qual era sua opinião.

— Estou um pouco atrasado — informou Hallorann, olhando o relógio. —

Deixarei vocês darem uma passada pelos armários e geladeiras depois de acomodados. Temos queijos, leite condensado, fermento, bicarbonato, tortas, alguns cachos de bananas que não estão sequer perto de ficarem maduras…

— Chega — ela interrompeu, levantando a mão e rindo. — Não vou conseguir nunca me lembrar de tudo. Está ótimo. E prometo deixar tudo limpo.

— É tudo o que peço. — Voltou-se para Jack. — O sr. Ullman chegou a comentar sobre os amigos roedores?

Jack deu uma risadinha.

— Ele disse que possivelmente existam alguns no sótão, e o sr. Watson falou que pode ser que haja outros no porão. Encontrei umas duas toneladas de papel por lá, mas não vi nada roído para ninhos.

— Aquele Watson — disse Hallorann, balançando a cabeça, fingindo tristeza. — Ele não é o cara com a boca mais suja que você já conheceu?

— Ele é uma figuraça — concordou Jack, cujo próprio pai tinha sido o homem com a boca mais suja que ele já havia conhecido.

— É quase uma pena — Hallorann falou enquanto os levava em direção às portas de vaivém que davam para a sala de jantar do Overlook. — A família dele tinha dinheiro, há muito tempo. Foi o avô ou o bisavô de Watson… não me lembro… quem construiu este lugar.

— Ele me contou — comentou Jack.

— O que aconteceu? — perguntou Wendy.

— Bem, não souberam fazer a coisa andar — respondeu Hallorann. —

Watson vai lhe contar a história toda… duas vezes por dia, se você deixar. O

velho ficou obcecado com este lugar. Deixou isto tudo o abater, eu acho.

Tinha dois filhos, e um morreu num acidente quando cavalgava na propriedade durante a construção do hotel. Acho que em 1908 ou 1909. A mulher morreu de gripe, e então restaram só o velho e o filho mais novo.

Terminaram como zeladores do hotel que o próprio velho construiu.

— É mesmo uma pena — lamentou Wendy.

— E o que aconteceu com ele? O velho? — indagou Jack.

— Enfiou o dedo numa tomada, por acidente, e esse foi seu fim. Por volta do início da década de 1930, antes que a Depressão fizesse o hotel ficar fechado por dez anos. Bem, Jack, eu queria que você e sua esposa ficassem de olho em ratos na cozinha, também. Se vocês virem algum… usem ratoeiras. Veneno, não.

Jack piscou.

— Claro. Quem colocaria veneno para ratos na cozinha?

Hallorann riu zombeteiramente.

— Sabe quem faria isso? O sr. Ullman. Ele teve essa ideia brilhante no outono passado. Eu conversei com ele, falei: “Se a gente estiver aqui no próximo mês de maio, sr. Ullman, e eu servir o tradicional jantar da noite de abertura”… que calha de ser salmão com um molho delicioso… “e todo mundo ficar doente, o médico vai chegar aqui e dizer: ‘Ullman, o que foi que você fez aqui? Temos oitenta dos caras mais ricos dos Estados Unidos intoxicados com veneno pra ratos’”.

Jack jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada alta:

— E o que Ullman respondeu?

Hallorann cutucou a bochecha com a língua como se tivesse um pouco de comida ali.

— Ele disse: “Ponha umas ratoeiras, Hallorann”.

Neste momento, todos riram, até Danny, que, apesar de não ter entendido muito bem a piada, compreendia o fato de ter alguma coisa a ver com o sr.

Ullman, que, afinal de contas, não era o dono de verdade.

Os quatro se dirigiram à sala de jantar, agora vazia e silenciosa, com sua maravilhosa vista para os picos polvilhados de neve. Cada toalha branca de linho havia sido coberta com um pedaço de um resistente plástico transparente. O tapete estava agora enrolado, em pé, no canto, como uma sentinela.

Do outro lado da sala larga, havia uma porta de vaivém dupla, e em cima dela uma placa antiga, onde estava escrito em letras douradas: Salão

Colorado.

Com o olhar fixo, Hallorann disse:

— Se gosta de beber, espero que tenha trazido suprimento próprio. Este lugar está zerado, não sobrou absolutamente nada. Festa dos empregados ontem à noite, sabe? Tudo quanto é camareira e carregador está por aí hoje com dor de cabeça, inclusive eu.

— Não bebo — respondeu Jack laconicamente. Voltaram ao saguão.

O saguão tinha se esvaziado bastante durante a meia hora que passaram na cozinha. O longo salão principal começava a ficar em silêncio, com uma aparência desértica, e Jack supôs que fosse logo se habituar com isso. As cadeiras de espaldar alto estavam vazias. As freiras que estiveram sentadas perto da lareira tinham ido embora, e o próprio fogo se reduzira a uma confortável camada de carvão incandescente. Wendy olhou para o estacionamento e viu que todos os carros, exceto mais ou menos uma dúzia, haviam desaparecido. Surpreendeu-se desejando entrar no fusca e voltar para Boulder… Ou qualquer outro lugar.

Jack procurava por Ullman, mas ele não estava no saguão.

Uma empregada jovem, com o cabelo louro-acinzentado preso, aproximou-se.

— Sua bagagem está no portão, Dick.

— Obrigado, Sally — ele respondeu, dando um beijo ligeiro na testa da moça. — Aproveite o inverno. Ouvi dizer por aí que você vai se casar!

Voltou-se para os Torrance, enquanto ela andava, rebolando atrevida.

— Tenho que ir andando, se não quiser perder o avião. Desejo boa sorte pra vocês. Tenho certeza de que vão ter.

— Obrigado — disse Jack. — Você foi muito gentil.

— Vou tomar conta de sua cozinha — prometeu Wendy mais uma vez. —

Divirta-se na Flórida.

— Eu sempre me divirto — comentou. Colocou as mãos nos joelhos e curvou-se para Danny. — Última chance, rapaz. Quer ir para a Flórida?

— Acho que não — respondeu Danny, sorrindo.

— O.k. Quer me dar uma ajuda levando as malas para o carro?

— Se a mamãe deixar.

— Pode ir — assentiu Wendy. — Mas tem que abotoar o casaco. — Ela se abaixou para fechá-lo, mas Hallorann passou à sua frente, os dedos grandes movimentando-se com suave destreza.

— Daqui a pouco eu devolvo ele — disse Hallorann.

— Tudo bem — concordou Wendy, acompanhando os dois até a porta.

Jack ainda procurava por Ullman. Os últimos hóspedes do Overlook fechavam a conta na recepção.

11

O ILUMINADO

Quatro malas estavam empilhadas bem à porta. Três eram enormes, velhas e gastas, cobertas com uma imitação de couro escuro de jacaré. A última era uma imensa sacola xadrez, desbotada, com um fecho de zíper.

— Acho que você aguenta aquela ali, né? — Hallorann perguntou. Pegou duas das malas grandes e segurou a outra debaixo do braço. — Claro — confirmou Danny. Ele a agarrou com as duas mãos e seguiu o cozinheiro pelos degraus da varanda, tentando corajosamente não gemer e disfarçar o peso que carregava.

Um frio e cortante vento de outono tinha surgido depois que chegaram; assobiava no estacionamento, fazendo Danny apertar os olhos, enquanto segurava a mala de zíper à sua frente, batendo-a contra os joelhos. Umas poucas folhas soltas de álamo esvoaçaram e reviravam no asfalto agora praticamente deserto, fazendo Danny pensar momentaneamente naquela noite da semana anterior, quando ele acordou no meio do pesadelo e ouviu — ou pelo menos imaginara ouvir — Tony lhe dizendo para não ir.

Hallorann colocou a bagagem junto ao porta-malas de um Plymouth bege.

— Isso aqui não é lá grande coisa — Hallorann confidenciou a Danny. —

É alugado. A minha queridinha é igual àquela ali na outra ponta. Aquilo sim é um carro. Um Cadillac 50, e como roda bem! Pode ter certeza. Eu deixo ela na Flórida porque é muito velha para estas subidas todas. Quer uma ajuda?

— Não, senhor — respondeu Danny. Conseguiu carregá-la os últimos dez ou doze passos sem gemer e colocá-la no chão com um grande suspiro de alívio.

— Muito bem. — Hallorann tirou as chaves do bolso da jaqueta azul e abriu o porta-malas. Levantando a bagagem, disse: — Você é iluminado, garoto. Mais do que qualquer outro que já conheci em minha vida. E veja que vou completar sessenta anos janeiro que vem.

— Hum?

— Você tem um dom — continuou Hallorann, virando-se para ele. — Sempre chamei isto de iluminação. Era como minha avó chamava. Ela também tinha. A gente costumava sentar na cozinha quando eu era da sua idade, e tínhamos longas conversas sem nem abrir a boca.

— É mesmo?

Hallorann sorriu ao ver Danny boquiaberto, com uma expressão quase faminta, e disse:

— Entra aqui no carro comigo um pouco. Quero conversar com você.

Bateu a tampa do porta-malas.

No saguão do Overlook, Wendy Torrance viu o filho entrar no carro de Hallorann e sentar-se no banco ao lado do motorista. Foi atingida por uma pontada aguda de medo, e abriu a boca para dizer a Jack que o cozinheiro não estava mentindo quando dissera que levaria Danny para a Flórida… Um sequestro estava prestes a acontecer. Mas os dois ficaram apenas sentados lá.

Mal enxergava o contorno da cabeça do filho, que estava atentamente voltada para a cabeça grande de Hallorann. Mesmo à distância, ela reconhecia o jeito daquela cabecinha… era assim que o filho ficava quando assistia na televisão a alguma coisa que o fascinava, ou quando ele e o pai jogavam cartas. Jack, que estava ainda procurando Ullman, não havia percebido. Wendy ficou calada, observando, nervosa, o carro de Hallorann, imaginando sobre o que poderiam estar conversando, o que seria capaz de fazer Danny inclinar a cabeça daquela maneira.

No carro, Hallorann dizia:

— Você deve se sentir solitário, achando que é o único, certo?

Danny, que às vezes tinha se sentido não apenas solitário, mas também assustado, assentiu.

— Sou o único que o senhor já viu? — perguntou.

Hallorann riu e balançou a cabeça.

— Não, criança, não. Mas você é o mais iluminado.

— Existem muitos, então?

— Não — respondeu Hallorann —, mas você realmente os ultrapassa.

Muitas pessoas têm um pouquinho dessa iluminação. Elas não sabem que têm, mas são aquelas que sempre aparecem com flores quando as esposas estão com TPM, fazem boas provas na escola sem terem sequer estudado, conseguem ter uma boa ideia de como os outros estão se sentindo logo ao entrar numa sala. Já topei com uns cinquenta ou sessenta sujeitos assim. Mas talvez só uma dúzia deles, contando minha avó, sabiam que eram iluminados.

— Puxa! — exclamou Danny, refletindo sobre o assunto. E depois: — O

senhor conhece a sra. Brant?

— Aquela mulher? — Hallorann perguntou com desprezo. — Ela não é iluminada. Simplesmente devolve o jantar duas ou três vezes toda noite.

— Sei que não é — respondeu Danny, seriamente. — Mas você conhece o homem de uniforme cinza que busca os carros?

— Mike? Claro que conheço o Mike. Por quê?

— Sr. Hallorann, por que ela poderia querer se meter na calça dele?

— De que você está falando, menino?

— Bem, enquanto olhava para ele, ela pensava que gostaria mesmo de se meter nas calças dele, e fiquei pensando por quê…

Mas não continuou. Hallorann jogou a cabeça para trás, e uma gargalhada cheia saiu de seu peito, ressoando no carro como um canhão. O banco balançou com o impacto. Danny sorriu, confuso, e finalmente a tempestade cessou aos poucos. Hallorann puxou um lenço grande de seda do bolso da camisa, como uma bandeira de paz, e enxugou os olhos.

— Menino — ele falou ainda bufando —, você vai saber tudo que precisa saber sobre a condição humana antes de completar dez anos. Não sei se invejo você ou não.

— Mas a sra. Brant…

— Não se incomode com ela — interrompeu o cozinheiro. — E também não vá perguntar a sua mãe. Você só chatearia ela, sacou?

— Sim, senhor — Danny respondeu. Ele sacava muito bem. Já tinha chateado sua mãe antes.

— Aquela tal de sra. Brant é apenas uma velha safada, cheia de fogo, é tudo o que precisa saber. — Olhou, pensativo, para Danny. — Qual é a força do seu ataque, velhinho?

— Hum?

— Me dá uma porrada mental. Pense para mim. Quero ver se você é tão forte quanto imagino.

— O que você quer que eu pense?

— Em qualquer coisa. Mas pense com força.

— Tá bem — concordou Danny. O menino pensou por um momento, e então reuniu sua concentração e a atirou na direção de Hallorann. Ele nunca havia feito nada exatamente assim antes e, no último instante, uma parte instintiva de si veio à tona e abrandou a força bruta do pensamento… ele não queria ferir o sr. Hallorann. Ainda assim, o pensamento disparou com uma potência que nunca imaginaria ter. Foi como um arremesso forte e rápido de Nolan Ryan, com um pouco de força extra.

(Puxa, espero não machucar ele)

E o pensamento foi:

(OI, DICK !!! )

Hallorann tremeu e foi jogado para trás no banco. Os dentes trincaram com um estalido forte, fazendo caírem do lábio inferior algumas poucas gotas de sangue. Suas mãos foram involuntariamente impulsionadas das pernas para a altura do peito, e então caíram de volta em seguida. Por um momento, suas pálpebras tremeram frouxamente sem controle consciente, e Danny sentiu medo.

— Sr. Hallorann? Dick? O senhor está bem?

— Não sei — respondeu Hallorann, dando uma risada fraca. —

Honestamente, não sei. Meu Deus, menino, você é como um raio.

— Sinto muito — disse Danny, alarmado. — Quer que eu chame papai?

Vou correndo chamá-lo.

— Não, já estou melhor. Estou bem, Danny. Fique sentadinho aí. Estou me sentindo um pouco tonto, é só.

— Não fiz com toda a minha força — confessou Danny. — Fiquei com medo, no último minuto.

— Sorte minha que você se segurou… do contrário, meus miolos sairiam pelos ouvidos. — Viu o rosto alarmado de Danny e sorriu. — Não foi nada.

Como você se sentiu?

— Como se fosse Nolan Ryan arremessando uma bola com força —

respondeu.

— Você gosta de beisebol, não gosta? — Hallorann esfregava a testa cautelosamente.

— Papai e eu torcemos pelos Angels. Os Red Sox na Liga Americana do Leste, e os Angels, na Oeste. Assistimos ao jogo dos Red Sox contra Cincinnati no Campeonato Mundial. Eu era muito menor. E papai estava…

O rosto de Danny ficou sombrio e agitado.

— Estava o quê, Dan?

— Esqueci — respondeu Danny, antes de pôr o dedo na boca e começar a chupá-lo. Era um hábito de criança. Depois pousou novamente as mãos sobre as pernas.

— Consegue ouvir o que sua mãe e seu pai estão pensando, Danny? —

Hallorann o observava de perto.

— Na maioria das vezes consigo, se eu quiser. Mas geralmente eu não tento.

— Por que não?

— Bem… — fez um minuto de pausa, inquieto. — Seria como se estivesse

espionando pelo quarto enquanto eles estão fazendo aquela coisa que faz bebês. Conhece aquela coisa?

— Já ouvi falar — respondeu Hallorann, muito sério.

— Eles não iam gostar disso. E não iam gostar que eu espionasse os pensamentos deles. Seria sujeira.

— Entendo.

— Mas sei como se sentem — continuou Danny. — Não posso evitar isso.

Sei também como você se sente. Machuquei você. Desculpe.

— É só uma dor de cabeça. Já tive ressacas piores. Consegue ler o pensamento de outras pessoas, Danny?

— Não sei ler ainda, só algumas palavras. Mas papai vai me ensinar neste inverno. Papai ensinava a ler e a escrever numa escola grande.

Principalmente escrever, mas ele sabe ler também.

— Digo, você consegue dizer o que alguém está pensando?

Danny pensou.

— Consigo se for alto — respondeu, finalmente. — Que nem a sra. Brant e a calça. Ou como uma vez, quando mamãe e eu estávamos numa loja grande para comprar sapatos para mim, e tinha um menino mais velho olhando para os rádios e ele tava pensando em levar um, mas sem comprar. Depois o menino pensava no que ia acontecer se pegassem ele. Depois, ele pensava que queria muito o rádio. Depois, pensava novamente que iam pegar ele. Ele estava ficando mal com isso e me deixando mal. Mamãe estava conversando com o homem que vende os sapatos, e então fui até lá e disse: “Garoto, não leve esse rádio. Vá embora!”. E ele ficou com medo mesmo. Ele saiu rapidinho.

Hallorann deu um largo sorriso.

— Aposto que saiu mesmo. Consegue fazer mais alguma coisa, Danny?

São só pensamentos e sensações, ou tem mais alguma coisa?

Com cautela:

— Acontecem outras coisas com o senhor?

— Às vezes — respondeu Hallorann. — Nem sempre. Às vezes… às vezes são sonhos. Você sonha, Danny?

— Às vezes sonho quando estou acordado. Depois que Tony aparece. —

Teve vontade de chupar o dedo de novo. Nunca havia comentado com ninguém a respeito de Tony, a não ser com a mãe e o pai. Fez a mão voltar para o colo.

— Quem é Tony?

E, de repente, Danny teve um daqueles lampejos de compreensão que mais o apavoravam; era como a aparição rápida e repentina de uma máquina estranha que podia salvar ou podia ser mortal. Era muito jovem para saber qual. Era muito jovem para entender.

— Tem alguma coisa errada? — gritou. — Está me perguntando tudo isso porque está preocupado, não é? Por que se preocupa comigo? Por que se preocupa conosco?

Hallorann pôs suas mãos grandes e negras sobre os ombros do menino.

— Pare — pediu o cozinheiro. — Talvez não seja nada. Mas se é alguma coisa… bem, existe algo muito importante em sua cabeça, Danny. Acho que você ainda tem que crescer muito para poder compreender. Precisa ser corajoso.

— Mas eu não entendo as coisas! — explodiu Danny. — Entendo, mas não entendo! As pessoas… sentem coisas, e eu sinto, mas não sei o que sinto! —

Olhou, triste, para o colo. — Queria saber. Às vezes, Tony me mostra placas e dificilmente consigo ler qualquer uma delas.

— Quem é Tony? — Hallorann perguntou novamente.

— Mamãe e papai dizem que ele é meu “amigo imaginário” — respondeu Danny, recitando as palavras com cuidado. — Mas ele é de verdade mesmo.

Pelo menos, eu acho que é. Às vezes, quando eu faço força para entender as coisas, ele vem. E diz: “Danny, quero lhe mostrar algo”. E é como se eu desmaiasse. Só que… tenho sonhos, como você disse. — Olhou para Hallorann e engoliu. — Eles eram bons. Mas agora… não lembro da palavra que se usa para os sonhos que assustam e fazem a gente chorar.

— Pesadelos? — perguntou Hallorann.

— É. Isso mesmo. Pesadelos.

— Com este lugar? Com o Overlook?

Danny olhou novamente para o dedo.

— Sim — sussurrou. Depois, começou a falar com voz estridente, olhando para o rosto de Hallorann: — Mas não posso contar pro papai, e você também não pode! Ele precisa deste emprego, porque foi o único que tio Al conseguiu para ele, e precisa terminar a peça, ou então pode começar a fazer a Coisa Feia de novo, e eu sei o que é isso, é ficar bêbado, é exatamente isso, é quando ele ficava bêbado o tempo todo, e era uma Coisa Feia de se fazer. —

Parou, quase chorando.

— Shhh… — Hallorann puxou o rosto de Danny para junto do tecido grosso de sua jaqueta, que cheirava a naftalina. — Tudo bem, filho. E, se o seu dedo gosta de ficar na boca, deixa ele. — Mas seu rosto estava inquieto.

E continuou: — O que você tem, filho, eu chamo de iluminação, a Bíblia chama de visões, e alguns cientistas chamam de premonição. Já li sobre isso, filho. Já estudei. Tudo isso significa ver o futuro. Entende?

Danny meneou a cabeça contra o casaco de Hallorann.

— Eu me lembro da visão mais forte que já tive… não costumo esquecer.

Foi em 1955. Eu ainda estava no Exército, servindo na Alemanha Ocidental.

Faltava uma hora para o jantar, e eu estava parado perto da pia, brigando com um dos ajudantes da cozinha, porque ele desperdiçava muita batata enquanto estava descascando. Eu falei: “Olhe aqui, deixe eu mostrar como se faz”. Ele esticou os braços para me entregar a batata e o descascador, e então a cozinha inteira desapareceu. Simplesmente desapareceu. Você diz que vê este cara, Tony, antes… de sonhar?

Danny assentiu.

Hallorann pôs um braço em volta do garoto.

— Comigo é o cheiro de laranjas. Aquela tarde inteira eu passei sentindo esse cheiro, mesmo sem pensar nelas, pois faziam parte do menu do jantar…

tínhamos trinta caixotes. Todo mundo naquela maldita cozinha cheirava a laranja naquela noite. Por um minuto, era como se eu tivesse desmaiado. E

então ouvi uma explosão e vi chamas. Havia gente gritando. Sirenes. E ouvi um chiado que só podia ser de um vapor. E depois parecia que eu me havia aproximado da coisa, qualquer que fosse ela, e vi um vagão de trem descarrilhado e tombado. Nele estava escrito Ferrovia da Geórgia e Carolina do Sul, e eu soube, como num lampejo, que meu irmão Carl estava naquele trem que tinha virado e Carl estava morto. Assim. A imagem desapareceu e ali estava aquele ajudante da cozinha medroso e idiota, diante de mim, ainda segurando a batata e o descascador. Ele disse: “O senhor está bem, sargento?”. E eu: “Não. Meu irmão acaba de morrer na Geórgia!”. E, quando eu finalmente consegui fazer uma ligação internacional para minha mãe, ela me contou como foi. Mas veja, garoto, eu já sabia o que tinha acontecido.

Sacudiu a cabeça devagar, como se livrando da lembrança, e olhou para os olhos arregalados do menino.

— Mas o que você precisa lembrar, meu garoto, é o seguinte: Essas coisas nem sempre acontecem. Também me lembro de quando, há quatro anos, trabalhava como cozinheiro numa colônia de férias de meninos, em Long Lake, no Maine. Estava sentado junto ao portão de embarque no aeroporto de Boston, esperando meu voo, e comecei a sentir o cheiro de laranja. Pela

primeira vez em cinco anos, talvez. Pensei “Meu Deus, o que vai acontecer agora neste show maluco?”, então corri para o banheiro e me sentei numa privada, para ficar sozinho. Não cheguei a desmaiar, mas comecei a ter a sensação, cada vez mais forte, de que meu avião ia cair. A sensação desapareceu junto com o cheiro de laranjas, e eu sabia que tinha terminado.

Fui ao balcão da companhia aérea e mudei meu voo para três horas depois. E

sabe o que aconteceu?

— O quê? — perguntou Danny, num sussurro.

— Nada! — respondeu Hallorann, rindo, sentindo-se aliviado ao ver o menino rir também. — Absolutamente nada! Aquele velho avião aterrissou no horário, sem nenhuma turbulência ou batida. Você pode ver então… às vezes essas sensações não dão em nada.

— Ah! — exclamou Danny.

— Veja, por exemplo, quando vou ao jóquei. Vou lá com frequência e, geralmente, me dou muito bem. Fico parado junto à grade quando vão largar, e às vezes me vem uma iluminação sobre esse ou aquele cavalo. Em geral essas sensações ajudam a me sentir muito bem. Digo sempre a mim mesmo que qualquer dia desses vou apostar num azarão e ganhar o suficiente para me aposentar de uma vez. Isso ainda não aconteceu. Mas houve ocasiões em que voltei a pé do jóquei para casa, em vez de ter uma carteira recheada para pegar um táxi. Ninguém acerta o tempo todo, com exceção talvez de Deus, lá no céu.

— Sim, senhor — concordou Danny, pensando quando, no ano passado, Tony lhe mostrara um bebê deitado num berço em sua casa em Stovington.

Ficara feliz com aquilo e aguardara, sabendo que levaria tempo, mas não viera bebê algum.

— Agora, ouça — falou Hallorann, segurando as duas mãos de Danny. —

Já tive sonhos ruins aqui e já tive sensações desagradáveis. Já trabalhei aqui durante duas temporadas, e talvez por uma dúzia de vezes já tive… bem, pesadelos. E, talvez uma meia dúzia de vezes, pensei ter visto coisas. Não, não vou dizer o quê. Não são coisas para meninos como você. São apenas coisas ruins. Uma vez, foi algo relacionado com a droga daqueles arbustos, podados para parecerem animais. Outra vez foi uma empregada, o nome dela era Delores Vickery, e ela era um pouco iluminada, mas não acho que ela soubesse. O sr. Ullman demitiu ela… você sabe o que é isso, rapaz?

— Sim, senhor — respondeu Danny, candidamente. — Meu pai foi demitido da escola, e acho que é por isso que estamos no Colorado.

— Bem, o sr. Ullman demitiu Delores, porque ela disse ter visto alguma coisa em um dos quartos onde… bem, onde aconteceu algo ruim. Era o apartamento 217, e quero que me prometa que não vai entrar lá, Danny. O

inverno inteiro. Fique bem longe.

— Está bem — concordou Danny. — A senhora, a camareira, ela pediu para você ir ver?

— Pediu. E tinha uma coisa ruim lá. Mas… não acho que era uma coisa ruim que pudesse ferir alguém, Danny, é o que estou tentando dizer. Os iluminados às vezes podem ver coisas que vão acontecer, e acho que, às vezes, podem ver coisas que aconteceram. Como se fossem desenhos num livro. Já viu algum desenho num livro que tenha assustado você, Danny?

— Já — respondeu o menino, pensando na história do Barba Azul. O

desenho era da nova mulher do Barba Azul abrindo a porta e vendo todas as cabeças.

— Mas você sabia que elas não podiam lhe machucar, não sabia?

— Si… im — Danny falou, um pouco incerto.

— Bem, é assim que as coisas são neste hotel. Não sei por quê, mas parece que todas as coisas ruins que já aconteceram aqui ainda têm pedacinhos espalhados, como pedacinhos de unha cortada ou melecas que alguém muito porco limpou debaixo de uma cadeira. Não sei por que é só aqui. Coisas ruins acontecem em todo hotel do mundo, acho. Já trabalhei numa porção deles e nunca tive problemas. Só aqui. Mas, Danny, não acho que essas coisas possam machucar ninguém. — Enfatizou cada palavra da frase sacudindo de leve os ombros do menino. — Portanto, se enxergar alguma coisa, num corredor, quarto ou lá fora perto dos arbustos… Vire para o outro lado e, quando olhar de novo, já terá desaparecido. Certo?

— Certo — concordou Danny. Estava se sentindo muito melhor, mais calmo. Ajoelhou-se no banco, deu um beijo no rosto de Hallorann e depois um abraço apertado. Hallorann o abraçou também.

Quando soltou o menino, perguntou:

— O pessoal de sua família não é iluminado, é?

— Não. Acho que não.

— Testei eles que nem fiz com você — informou Hallorann. — Sua mãe é um pouquinho iluminada. Acho que todas as mães têm um pouco de luz, sabe? Pelo menos até os filhos já estarem crescidos e responsáveis. Seu pai…

Hallorann fez uma pausa momentânea. Sondara o pai do menino e simplesmente não conseguia saber. Não era como conhecer alguém que

tivesse luz, ou alguém que definitivamente não tivesse. Bisbilhotar o pai de Danny era… estranho, como se Jack Torrance tivesse alguma coisa —

alguma coisa — que escondesse. Ou algo que guardava tão profundamente dentro de si, que era impossível alcançar.

— Não acho que seja de forma alguma iluminado — concluiu Hallorann.

— Portanto, não se preocupe com eles. Cuide-se. Não acho que algo aqui possa machucar você. Então fique tranquilo, tá bem?

— Tá bem.

— Danny! Ei, velhinho!

Danny olhou ao seu redor.

— É mamãe. Está me chamando. Tenho que ir.

— Eu sei — disse Hallorann. — Divirta-se por aqui, Danny. Da melhor maneira possível.

— Eu vou me divertir. Obrigado, sr. Hallorann. Estou me sentindo bem melhor.

Os pensamentos sorridentes surgiram em sua mente:

(Dick, para os amigos.)

(Sim, Dick, tá bem.)

Os dois se entreolharam, e Dick Hallorann piscou.

Danny arrastou-se no banco do carro e abriu a porta. Quando saía, Hallorann falou:

— Danny?

— O quê?

— Se houver problemas… dê um sinal. Um chamado forte como o que você deu minutos atrás. Pode ser que eu o escute até mesmo lá da Flórida. E, se isso acontecer, virei correndo.

— Tá bem — Danny respondeu com um sorriso.

— Se cuida, garotão.

— Tá bem.

Danny bateu a porta e correu, atravessando o estacionamento em direção à varanda, onde Wendy estava parada segurando os cotovelos por causa do vento frio. Hallorann observava com seu largo sorriso, que ia diminuindo aos poucos.

Não acho que algo aqui possa machucar você.

Não acho.

Mas, e se Hallorann estivesse errado? Ele sabia que esta tinha sido sua última temporada no Overlook, desde que vira aquilo na banheira do

apartamento 217. Era pior do que qualquer desenho em qualquer livro. E, olhando daqui, o menino correndo parecia tão pequeno…

Não acho…

Seus olhos voltaram-se para os arbustos em forma de animais.

Ligou o carro bruscamente, engatou e saiu, tentando não olhar para trás. E

é claro que acabou olhando, e naturalmente a porta estava fechada. Eles já haviam entrado. Era como se o Overlook os tivesse engolido.

12

O GRANDE TOUR

— O que vocês conversaram, meu bem? — perguntou Wendy quando entraram.

— Nada de mais.

— Para algo sem importância, até que rendeu muito.

O filho encolheu os ombros, e Wendy sentiu naquele gesto a herança paterna; Jack dificilmente o faria melhor. Não conseguiria arrancar mais nada de Danny. Sentiu uma forte irritação misturada com um amor ainda maior: o amor não a ajudava em nada, e a irritação veio da sensação de estar sendo deliberadamente excluída. Com os dois, às vezes, sentia-se como uma intrusa, um pouco como uma atriz de papel pequeno que de repente interrompe, no palco, a cena mais importante de uma peça. Bem, seus dois homens irritantes não poderiam excluí-la neste inverno; estariam perto demais para isso. De repente caiu em si e notou que estava com ciúme da proximidade entre o marido e o filho. Sentiu-se envergonhada. Isso se parecia muito com o que sua mãe deve ter sentido… parecido demais para servir de consolo.

O saguão agora estava vazio, restando apenas Ullman e o chefe da recepção (estavam na caixa registradora, fazendo a contabilidade do dia), algumas funcionárias, que tinham se trocado e vestiam calças de lã e suéteres, paradas junto à porta da frente, olhando para fora com a bagagem em volta, e Watson, o responsável pela manutenção. Watson a surpreendeu olhando para ele e piscou o olho… decididamente uma piscadela maliciosa. Wendy voltou então o olhar para o outro lado. Jack estava na janela, bem ao lado do restaurante, estudando a paisagem. Parecia absorto e sonhador.

As contas aparentemente bateram, pois agora Ullman fechava a caixa registradora com um tapa autoritário. Rubricou a fita e a guardou numa pasta de zíper. Wendy elogiava mentalmente o chefe da recepção, que parecia aliviado. Ullman era o tipo de homem capaz de arrancar a pele do

empregado… sem derramar uma gota de sangue. Wendy não gostava muito de Ullman ou de suas maneiras pomposas, ostentosas e alvoroçadas. Era como todos os patrões que conhecia, homens ou mulheres. Para os hóspedes, doce como açúcar, e um tirano com a equipe nos bastidores. Mas os deveres haviam terminado, e o prazer do chefe da recepção estava estampado no rosto. Terminaram para todos, exceto para Jack, Danny e ela.

— Sr. Torrance — gritou Ullman, peremptório. — Pode vir até aqui, por favor?

Jack caminhou, fazendo um sinal com a cabeça para que Wendy e Danny fossem também.

O chefe da recepção, que saíra dali, voltava vestindo um casaco.

— Tenha um inverno muito agradável, sr. Ullman.

— Duvido muito — respondeu Ullman, de longe. — Dia 12 de maio, Braddock. Nem um dia antes. Nem um dia depois.

— Sim, senhor.

Braddock deu a volta na recepção, o rosto sóbrio e cheio de dignidade, adequado ao posto que ocupava, mas, quando ficou de costas para Ullman, sorriu como um garotinho. Conversou um pouco com as duas moças ainda junto da porta, esperando pela carona, e finalmente explodiu numa gargalhada sufocada.

Agora, Wendy começava a perceber o silêncio do lugar. Caíra sobre o hotel como um cobertor pesado que cobria tudo, quebrado apenas pela vibração leve do vento da tarde, lá fora. De onde estava, podia ver o escritório muito limpo e muito arrumado, com as duas mesas totalmente vazias e os dois arquivos cinzentos. Adiante, podia ver a imaculada cozinha de Hallorann, as grandes portas duplas abertas e presas por cunhas de borracha.

— Pensei em tomar uns poucos minutos a mais e mostrar o Hotel a vocês

— disse Ullman, e Wendy pensou que sempre poderia ouvir aquele H

maiúsculo na voz de Ullman. — Estou certo de que seu marido conhecerá muito bem todos os detalhes do Overlook, sra. Torrance, mas a senhora e seu filho vão, sem dúvida, ficar mais no térreo e no primeiro andar, onde estão seus alojamentos.

— Sem dúvida — murmurou Wendy afetada, e Jack lançou-lhe um olhar furtivo.

— É um lugar maravilhoso — Ullman observou, expansivo. — Gosto muito de exibi-lo.

Aposto que gosta, pensou Wendy.

— Vamos ao terceiro andar, e de lá iremos conhecer as demais instalações

— anunciou Ullman. Falava positivamente entusiasmado.

— Se estivermos atrapalhando… — começou Jack.

— Não, não — interrompeu Ullman. — O movimento está encerrado. Tout fini, pelo menos por esta temporada. E pretendo pernoitar em Boulder… no Boulderado, claro. O único hotel decente do lado de cá de Denver… com exceção do próprio Overlook, naturalmente. Por aqui, por favor.

Eles entraram juntos no elevador. A cabine era ornada com arabescos de cobre e latão, mas afundou perceptivelmente antes que Ullman fechasse a grade. Danny ficou agitado, se sentindo um pouco desconfortável, e Ullman sorriu para ele, que por sua vez tentou retribuir o sorriso, porém sem nenhum sucesso.

— Não se preocupe, rapazinho — disse Ullman. — É seguro como uma casa.

— O Titanic também era — respondeu Jack, olhando para o globo de vidro lapidado no centro do teto do elevador. Wendy mordeu o lábio inferior para não rir.

Ullman não achou graça. Fechou a grade interna com muito barulho.

— O Titanic só fez uma viagem, sr. Torrance. Este elevador já fez milhares, desde que foi instalado em 1926.

— Isso é reconfortante — Jack comentou, agitando o cabelo de Danny. —

O avião não vai cair, velhinho.

Ullman levantou a alavanca e, por um momento, não houve nada a não ser um estremecimento sob seus pés e o choro torturante do motor embaixo deles. Wendy teve uma visão dos quatro ficando presos entre os andares, como moscas numa garrafa, e sendo encontrados na primavera… com pedaços arrancados… como os pioneiros canibais…

( Pare! )

No início, o elevador começou a subir com vibrações, batidas e pancadas.

Depois, a subida se tornou mais suave. No terceiro andar, Ullman puxou a alavanca de freio com um impacto, empurrou a grade e abriu a porta. Ainda estava quinze centímetros abaixo do nível do piso. Danny olhou atento para a diferença de altura entre o piso do terceiro andar e o do elevador, como se tivesse acabado de perceber que o universo não era tão racional como haviam dito. Ullman pigarreou e ajustou a alavanca, fazendo o elevador subir um pouco mais. Ele parou com um tranco (ainda cinco centímetros abaixo) e os

quatro subiram o degrau de saída. Sem o peso, o elevador deu um solavanco e ficou quase no nível do piso do terceiro andar, um fato que Wendy não achou nada agradável. Seguro como uma casa ou não, ela achou que seria melhor usar a escada para subir ou descer no prédio. E, em hipótese alguma, permitiria que os três entrassem juntos naquela geringonça.

— O que está olhando, velhinho? — indagou Jack, irônico. — Está vendo manchas por aí?

— Claro que não — Ullman respondeu, irritado. — Todos os tapetes foram lavados, há dois dias.

Wendy olhou o tapete. Bonito, mas definitivamente não era o que escolheria para decorar sua casa, se é que algum dia teria uma. O tapete era grosso, azul e estampado com o que parecia ser uma cena de uma selva surrealista, cheia de cipós, trepadeiras e árvores repletas de pássaros exóticos.

Era difícil determinar o tipo de pássaros, porque todo o desenho fora feito em preto, sem sombreado, mostrando apenas os contornos.

— Gosta do tapete? — Wendy indagou a Danny.

— Gosto, mamãe — respondeu ele, desanimado.

Caminharam pelo corredor, que era confortavelmente amplo. O papel de parede era de seda, de um azul mais claro que contrastava com o tapete.

Lamparinas elétricas estavam dispostas em espaços de três metros, a dois de altura. Adaptadas para parecerem com os lampiões de Londres, as lâmpadas ficavam escondidas por trás de vidro fosco, preso com tiras de aço.

— Muito bonitas — comentou Wendy.

Ullman concordou satisfeito.

— O sr. Derwent instalou-se no hotel depois da guerra… da Segunda Guerra, quero dizer. Aliás, a maior parte… não toda… da decoração do terceiro andar foi planejada por ele. Aqui está o número 300, a Suíte Presidencial.

Ele girou a chave na fechadura das largas portas de mogno e as abriu. A vista da sala de estar os deixou perplexos, o que era, provavelmente, a intenção de Ullman. Sorriu.

— Bela paisagem, não é?

— É mesmo — concordou Jack.

A janela corria de ponta a ponta, e através dela via-se o sol, equilibrado entre os dois picos, espalhando luz pelas encostas e pela neve nos cumes. As nuvens, que ornavam este cartão-postal, eram também matizadas de dourado.

Um raio de sol cintilava, leve, por entre os troncos dos pinheiros.

Jack e Wendy estavam tão distraídos com a vista que não perceberam que Danny fitava, com olhos fixos, não a paisagem, mas o papel de parede de seda, com listras vermelhas e brancas, onde uma porta à esquerda dava para um quarto. E seu espanto, que se misturara ao deles, não teve nenhuma relação com a beleza do local.

Placas grandes de sangue seco, salpicadas de pedacinhos de um acinzentado tecido humano, estavam grudadas no papel de parede. Danny sentiu nojo. Era como um desenho louco feito em sangue, uma gravura surrealista do rosto de um homem possuído pelo terror e pela dor, a boca aberta e metade da cabeça triturada…

( Portanto, se enxergar alguma coisa… vire para o outro lado e, quando olhar de novo, já terá desaparecido. Certo? ) Deliberadamente, Danny olhou para a janela, tendo o cuidado de não demonstrar nenhuma expressão. Quando a mão de Wendy se aproximou da sua, ele a segurou, cuidando para não apertá-la ou dar qualquer espécie de sinal.

O gerente dizia alguma coisa ao pai sobre a necessidade de manter o janelão bem trancado para que o vento forte não o abrisse. Jack assentia com a cabeça. Danny, com cuidado, olhou de volta para a parede. A mancha grande de sangue desaparecera, e os pedacinhos de tecido acinzentado espalhados também.

Em seguida, Ullman os levou para outro lugar. Mamãe perguntou se achava as montanhas bonitas. Danny respondeu que sim, apesar de, de uma forma ou de outra, não ter dado muita importância à paisagem. Enquanto Ullman fechava a porta, Danny olhou de volta sobre os ombros. A mancha de sangue voltara, só que agora era fresca. O sangue escorria. Ullman, olhando diretamente para o lugar, prosseguia discorrendo sobre os homens famosos que já se haviam hospedado ali. Danny descobriu que mordera o lábio com força suficiente para fazê-lo sangrar, mas sequer sentiu. Andando pelo corredor, ficou um pouco para trás, limpou o sangue com a mão e pensou sobre

(sangue)

(O sr. Hallorann havia visto o sangue, ou coisa pior?) ( Não acho que algo aqui possa machucar você) Havia um grito estridente por trás de seus lábios, não o deixaria escapar.

Seus pais não podiam ver tais coisas; nunca conseguiram. Ficaria calado.

Papai e mamãe se amavam, e aquilo era uma coisa real. O resto era como

desenhos de um livro. Alguns eram assustadores, mas eles não podiam machucar. Eles… não podiam… machucar.

O sr. Ullman mostrou mais alguns quartos no terceiro andar, conduzindo os três por corredores que se emaranhavam e davam voltas. Como um labirinto. Mostrou a eles um dos quartos onde uma senhora chamada Marilyn Monroe ficara quando era casada com um homem de nome Arthur Miller (Danny entendeu vagamente que Marilyn e Arthur se divorciaram não muito tempo depois de passarem pelo Hotel Overlook).

— Mamãe?

— O que é, meu bem?

— Se eram casados, por que tinham sobrenomes diferentes? Você e papai têm o mesmo sobrenome.

— Sim, mas nós não somos famosos, Danny — respondeu Jack. — As mulheres famosas mantêm o mesmo sobrenome, mesmo depois de casadas, pois seus nomes são seu ganha-pão.

— Ganha-pão — repetiu Danny, completamente aturdido.

— O que papai quer dizer é que as pessoas gostavam de ir ao cinema e ver Marilyn Monroe — explicou Wendy —, mas talvez não fossem gostar de ir ver Marilyn Miller.

— Por que não? Ela seria ainda a mesma mulher. Ninguém sabia disso?

— Sim, mas… — Olhou para Jack sem saber o que dizer.

— Truman Capote ficou uma vez neste quarto — interrompeu Ullman, impaciente. Abriu a porta. — Foi na minha época. Um homem tremendamente simpático. Fino.

Não havia nada de extraordinário em nenhum dos quartos, nada que Danny pudesse temer. Aliás, havia apenas uma coisa no terceiro andar que o aborrecia, e não sabia dizer por quê. Era a mangueira de incêndio que vira na parede, exatamente antes de voltarem para o elevador que ainda estava parado esperando, como se fosse uma boca aberta cheia de dentes de ouro.

Era uma mangueira antiga, achatada e enrolada umas doze vezes sobre si mesma, com uma extremidade presa a uma grande válvula vermelha, a outra terminando num bocal de metal. As dobras da mangueira eram presas por uma tira vermelha de aço com uma dobradiça no topo. Em caso de incêndio, bastaria empurrar a tira de aço para cima com um empurrão forte, e a mangueira estaria pronta. Danny olhava aquilo tudo; gostava de observar o funcionamento das coisas. Quando tinha dois anos e meio, já conseguia abrir a grade protetora que o pai instalara no topo da escada, na casa de Stovington. Observara como funcionava o trinco. O pai dizia que era uma questão de JEITO. Algumas pessoas tinham JEITO, outras não.

A mangueira era um pouco mais antiga do que outras que ele já havia visto

— a do jardim de infância, por exemplo —, mas não era tão diferente assim.

No entanto, ele se sentia incomodado em ver a mangueira enrolada junto ao papel de parede azul-claro, parecendo uma cobra adormecida. E ficou feliz quando não a viu mais.

— Evidentemente, todas as janelas têm que ficar com as venezianas fechadas — informou o sr. Ullman enquanto entravam no elevador. Agora estavam descendo. — Mas me preocupo principalmente com a janela da Suíte Presidencial. O custo original daquela janela foi de quatrocentos e vinte dólares, e isso há trinta anos. Hoje, sua recolocação custaria oito vezes mais.

— Vou mantê-la fechada — assegurou Jack.

Chegaram ao segundo andar, onde havia mais quartos, mais emaranhados e voltas dos corredores. A luz das janelas começava a morrer, pois o sol estava se deslocando por detrás das montanhas. O Sr. Ullman mostrou um ou dois apartamentos, e foi só. Passaram em frente ao 217, aquele sobre o qual Dick Hallorann o prevenira, com grande ênfase. Danny olhou para a plaqueta da porta com inquietante fascinação.

De volta ao primeiro andar. Ali o sr. Ullman não mostrou nenhum quarto até chegarem à escada, com um grosso carpete, que levava de volta ao saguão.

— Aqui estão seus aposentos — anunciou. — Creio que ficarão satisfeitos.

Entraram. Danny estava preparado para qualquer coisa que estivesse ali.

Não havia nada.

Wendy Torrance sentiu uma sensação forte de alívio. A Suíte Presidencial, com sua elegância austera, fez com que ela se sentisse estranha e pouco à vontade. Uma coisa era visitar um edifício histórico restaurado, com uma placa ornamental indicando que Abraham Lincoln ou Franklin D. Roosevelt haviam dormido ali, mas outra coisa, inteiramente diferente, era imaginar-se deitada com o marido, debaixo de lençóis de linho, e talvez fazendo amor, onde os homens mais famosos do mundo deitaram-se uma vez (os mais poderosos, que seja, ela se corrigiu). Mas este apartamento era mais simples, mais aconchegante, quase convidativo. Pensou que poderia tolerar o lugar durante a temporada sem grande dificuldade.

— É muito agradável — disse ela a Ullman, sentindo gratidão na própria voz.

Ullman meneou a cabeça, concordando.

— Simples, mas confortável. Durante a temporada, aqui ficam o cozinheiro e sua esposa, ou o cozinheiro e seu auxiliar.

— O sr. Hallorann morou aqui? — interrompeu Danny.

O sr. Ullman inclinou, condescendente, a cabeça para Danny.

— Certamente. Ele e o sr. Nevers. — Voltou-se para Jack e Wendy. —

Esta é a sala de estar.

Havia várias cadeiras que pareciam confortáveis sem serem caras, uma mesinha de canto que já fora elegante, mas que tinha agora uma grande lasca do lado, duas estantes (cheias de versões resumidas de livros publicados pela Reader’s Digest e trilogias de Histórias de detetives da década de 1940, que Wendy percebeu, achando graça), e um televisor comum, menos elegante do que os consoles de madeira amarela dos quartos.

— Naturalmente não conta com uma cozinha — continuou Ullman —, mas há um elevador para comida. Este apartamento está exatamente em cima da cozinha.

Ele se dirigiu para o lado de um painel e dali tirou uma bandeja quadrada, larga. Depois a empurrou e ela desapareceu, arrastando a corda atrás de si.

— É uma passagem secreta! — Danny disse animado para a mãe, esquecendo momentaneamente todos os medos com relação àquele poço atrás da parede. — Exatamente como Abbott e Costello encontram os monstros!

O sr. Ullman franziu a testa, mas Wendy sorriu indulgente. Danny correu até o elevador e observou o cabo com atenção.

— Por aqui, por favor.

Ullman abriu a porta no fundo da sala de estar, que dava para um quarto espaçoso e arejado. Havia duas camas de solteiro. Wendy olhou para o marido, sorrindo e encolhendo os ombros.

— Não tem problema — disse Jack. — Juntaremos as camas.

O sr. Ullman olhou de soslaio, realmente confuso.

— Perdão?

— As camas — repetiu Jack, satisfeito. — Podemos juntá-las.

— Ah, sim — respondeu Ullman, ainda confuso. Em seguida, sua fisionomia clareou e ele ficou vermelho. — Como quiserem.

Voltaram à sala de estar, onde outra porta dava para um segundo quarto equipado com um beliche. Um aquecedor zunia num canto, e o tapete no assoalho era de um estampado horrível de selva e cactos… Wendy percebeu que Danny já estava apaixonado. As paredes eram revestidas com lambri de

pinho.

— Acha que dá para aguentar isto aqui, velhinho? — perguntou Jack.

— Claro que sim. Vou dormir na cama de cima. Tá bem?

— Se é o que você quer…

— Gosto do tapete também. Sr. Ullman, por que não coloca todos os tapetes iguais?

O gerente parecia ter mordido uma fatia de limão. Em seguida, sorriu e deu uma batidinha na cabeça de Danny.

— São seus aposentos — disse ele —, exceto o banheiro, que dá para o quarto principal. Não é um apartamento enorme, mas naturalmente terão o resto do hotel para circularem. A lareira do saguão está funcionando bem, pelo que Watson me disse. Sintam-se à vontade se quiserem comer no restaurante.

Ele disse aquilo como se estivesse concedendo um grande favor.

— Muito bem — concluiu Jack.

— Vamos descer? — perguntou Ullman.

— Certamente — Wendy respondeu.

Desceram pelo elevador, e o saguão estava agora completamente deserto, restando somente Watson, que estava recostado à porta principal, vestindo uma jaqueta de couro cru, com um palito entre os dentes.

— Pensei que já estivesse a quilômetros daqui — criticou Ullman, com a voz um pouco fria.

— Fiquei um pouco mais só para lembrar o sr. Torrance da caldeira —

falou Watson, se ajeitando. — Fique de olho nela, cara, e tudo vai correr bem. Baixe a pressão algumas vezes durante o dia. Ela costuma aumentar.

Ela aumenta, pensou Danny, e as palavras ecoaram pelo corredor comprido e silencioso de sua mente, um corredor cheio de espelhos, para o qual as pessoas raramente olhavam.

— Fique tranquilo — respondeu o pai.

— Vocês vão ficar bem — Watson afirmou, estendendo a mão para Jack, que a apertou. Watson voltou-se para Wendy e inclinou a cabeça. —

Madame.

— Muito prazer — respondeu Wendy, e pensou que o que dissera tinha soado esquisito. Mas não tinha. Ela nascera e crescera na Nova Inglaterra, e parecia que este homem, Watson, de cabelos encaracolados, em poucas palavras acabara de resumir o que era o Oeste. E não se incomodou com a piscadela atrevida de horas antes.

— Jovem mestre Torrance — disse Watson seriamente, estendendo a mão.

Danny, que há um ano aprendera a cumprimentar, estendeu a mão com cuidado e sentiu como se ela tivesse sido engolida pela do homem. — Cuide bem deles, Dan.

— Sim, senhor.

Watson soltou a mão de Danny e se ajeitou. Olhou para Ullman.

— Até o ano que vem, eu acho — falou, também estendendo a mão.

Ullman a apertou com frieza. O anel no seu dedo mínimo piscou malignamente sob as luzes elétricas do saguão.

— Doze de maio, Watson. Nem antes, nem depois.

— Sim, senhor — respondeu Watson, e Jack quase podia ler o pensamento de Watson… Sua porra de bicha velha.

— Tenha um bom inverno, sr. Ullman.

— Ah, duvido muito — retrucou Ullman, sem dar importância.

Watson abriu uma das duas grandes portas principais; o vento assobiou mais alto e mexeu com a gola de sua jaqueta.

— Se cuidem, pessoal.

— Sim, senhor — respondeu Danny.

Watson, cujo parente não muito distante fora proprietário do lugar, saiu humildemente pela porta, que se fechou atrás dele, amortecendo o vento.

Juntos, os que ficaram o observaram descer os largos degraus de entrada com as botas velhas de vaqueiro. Folhas frágeis de álamo, amarelas, rolavam em volta de seus calcanhares, enquanto ele atravessava o pátio até sua picape International Harvest. Uma fumaça azul saiu do escapamento enferrujado quando o motor foi ligado. A força mágica do silêncio os envolveu, enquanto Watson dava a ré e deixava o estacionamento. A picape desapareceu no alto da colina e reapareceu em seguida, menor, na estrada principal, rumo ao oeste.

Por um momento, Danny se sentiu mais solitário do que nunca.

13

A VARANDA DA FRENTE

A família Torrance estava parada na grande varanda de entrada do Hotel Overlook como se estivesse posando para uma fotografia: Danny no meio, a jaqueta do outono passado já muito pequena e começando a esgarçar no cotovelo, fechada até o pescoço; Wendy atrás dele, com a mão sobre seu ombro, e Jack à esquerda, com a mão levemente pousada sobre a cabeça do filho.

O sr. Ullman estava um degrau abaixo deles, enfiado em um casaco de pelo de cabra angorá, marrom e de aparência cara. O sol estava agora completamente por trás das montanhas, infiltrando-se como fogo dourado, tornando as sombras em redor compridas e de cor violeta. Os únicos três carros que estavam no estacionamento eram o caminhão do hotel, o Lincoln Continental de Ullman e o fusca maltratado de Torrance.

— Está com as chaves, e tudo entendido sobre a fornalha e a caldeira, então? — Ullman perguntou a Jack, que balançou a cabeça afirmativamente, sentindo pena do gerente.

Tudo pronto, e a bola de barbante estava cuidadosamente enrolada até 21

de maio próximo — nem um dia antes, nem depois. E Ullman, que se responsabilizava com inconfundível paixão por tudo o que se referia ao hotel, não podia deixar de procurar pontas soltas.

— Acho que está tudo sob controle — Jack respondeu.

— Bom. Vou manter contato. — Ullman ainda hesitava, como se esperasse que o vento o tomasse pela mão e talvez o levasse até o carro. Suspirou. —

Muito bem. Tenham um bom inverno, sr. Torrance, sra. Torrance. Para você também, Danny.

— Muito obrigado — Danny agradeceu. — O senhor também.

— Duvido muito — Ullman anunciou, triste. — O lugar para onde vou na Flórida é um pardieiro, para dizer a verdade. É um servicinho para me manter ocupado. Não é o meu emprego. O Overlook é o meu verdadeiro emprego.

Cuide dele por mim, sr. Torrance.

— Acho que ele ainda vai estar no mesmo lugar quando voltar na primavera — assegurou Jack, e um pensamento lampejou na mente de Danny (e nós, estaremos?)

e desapareceu.

— Claro. Claro que estará.

Ullman olhou para o jardim, onde os arbustos em formato de animais farfalhavam ao vento. Baixou a cabeça, mais uma vez, de modo muito profissional.

— Então, até a próxima.

Caminhou apressado e afetado para o carro — aliás, um carro grande, ridículo para um homem tão pequeno — e entrou. O motor do Lincoln ronronou e as lanternas traseiras acenderam-se enquanto saía da vaga.

Quando o carro partiu, Jack conseguiu ler a plaquinha que dizia: RESERVADO PARA O SR.

ULLMAN, GERENTE.

— Certo — disse Jack, calmamente.

Ficaram olhando o carro até que ele sumisse de vista, no declive. Quando desapareceu, os três se entreolharam em silêncio, quase apavorados. Estavam sozinhos. Folhas de álamo rodopiavam e deslizavam, sem rumo, pela grama muito bem cortada e longe dos olhos de qualquer hóspede. Não havia ninguém para ver as folhas de outono correndo furtivas, só os três. Jack teve uma curiosa sensação de encolhimento, como se sua vida tivesse sido reduzida a uma simples faísca, enquanto o hotel e o jardim de repente duplicavam de tamanho e se tornavam sinistros, sufocando-os. Como se fossem dotados de um poder inanimado.