O Iluminado
Quinta parte: Questões de vida e morte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Gritou com toda a força. A cabeça parecia tremer com a força.
(AH DICK AH POR FAVOR POR FAVOR POR FAVOR VENHA!!!) Acima, o relógio, o relógio em que dera corda com a chave de prata, continuava a marcar os segundos, minutos e horas.
Quinta parte
Questões de vida e morte
38
FLÓRIDA
O terceiro filho da sra. Hallorann, Dick, com um uniforme branco de cozinheiro, um Lucky Strike pendurado no canto da boca, deu ré no seu Cadillac reformado. Saiu da vaga detrás do Atacadão de Frutas e Legumes 1A e deu uma volta lentamente em torno do prédio. Masterton, agora seu sócio, que conservava desde antes da Segunda Guerra Mundial um jeito especial e próprio de andar se arrastando, empurrava uma caixa de alfaces para dentro do edifício alto e escuro.
Hallorann apertou o botão para abrir a janela do banco de carona e gritou:
— Esses abacates tão caros à beça, seu pão-duro.
Masterton olhou por cima dos ombros, deu um sorriso largo para mostrar os três dentes de ouro e gritou de volta:
— E sei exatamente onde é que você pode enfiar esses abacates, rapaz.
— Não costumo me esquecer desse tipo de comentário, mano.
Masterton fez um sinal obsceno com o dedo. Hallorann retribuiu.
— Recebeu os pepinos? — perguntou Masterton.
— Recebi.
— Venha cedo amanhã, vou lhe dar as batatas mais bonitas que já viu.
— Vou mandar o menino — informou Hallorann. — Vai passar por lá hoje à noite?
— Vai ter bebida, mano?
— Positivo e operante.
— Conta comigo. Vai devagar para casa, viu? Todo guarda daqui até St.
Pete sabe seu nome.
— Você sabe tudo sobre isso, hein? — disse Hallorann, sorrindo.
— Sei mais do que você jamais aprenderá, homem.
— Ouça este crioulo metido. Quer ouvir?
— Cai fora, sai daqui antes que eu jogue estas alfaces em cima de você.
— Pode jogar. Sendo de graça, eu pego.
Masterton fez que ia jogar um pé de alface. Hallorann desviou rapidamente a cabeça, levantou a janela e saiu. Sentia-se bem. Durante a última meia hora, sentia cheiro de laranja, mas não estranhou. Tinha passado a última meia hora em um mercado hortigranjeiro.
Eram quatro e meia da tarde, primeiro dia de dezembro, o velho inverno açoitava quase todo o país, mas aqui os homens usavam camisas abertas de manga curta, e as mulheres, vestidos leves e shorts. No topo do edifício First Bank of Florida, um termômetro digital, enfeitado com imensas grapefruits, piscava 25 graus sem parar. Agradeço a Deus por ter me dado a Flórida, pensou Hallorann, com seus mosquitos e tudo.
No banco de trás do carro havia duas dúzias de abacates, um caixote de pepinos, um de laranjas, e outro de grapefruit . Três sacolas de compras cheias de cebolas das Bermudas, o melhor vegetal que o bom Deus criou, ervilhas boas que seriam servidas com o prato principal e que voltariam intactas para a cozinha nove vezes em cada dez refeições, e uma única abóbora que era estritamente para consumo pessoal.
Hallorann parou no sinal da rua Vermont e, quando a luz verde acendeu, engatou e saiu pela estrada 219, chegando a setenta quilômetros por hora.
Manteve esta velocidade até que os prédios da cidade começaram a dar lugar a uma porção de postos de gasolina e lanchonetes. A encomenda hoje tinha sido pequena, poderia ter mandado Baedecker buscar, mas ele já estava irritado por ser sua vez de comprar carne. Além do mais, Hallorann nunca perdia uma oportunidade de bater um papo com Frank Masterton. O amigo talvez aparecesse à noite para assistir à televisão e beber cerveja com Hallorann, ou talvez não. Qualquer possibilidade era boa. Mas vê-lo era importante. De uns tempos para cá, havia se tornado importante, pois eles já não eram mais jovens. Nos últimos dias, parecia estar pensando muito neste assunto. Quando se chega próximo aos sessenta (ou… para dizer a verdade…
se ultrapassa essa idade), já não se é mais tão jovem, e é preciso começar a pensar na morte. Pode-se partir a qualquer momento. E isso não saiu de sua mente esta semana, não de uma maneira pesada, mas como um fato. Morrer é uma parte da vida. A pessoa tem que perceber isso se quiser se tornar um ser humano em sua totalidade. E, se o fato de sua própria morte era difícil de ser compreendido, pelo menos não era impossível de ser aceito.
Não sabia dizer por que isso não saía de sua mente, mas a outra razão para ele mesmo ter ido pegar a encomenda era porque assim poderia subir até o pequeno escritório sobre o Frank’s Bar e Grill. Havia lá um advogado agora (o dentista que alugava o imóvel ano passado tinha aparentemente falido), um jovem negro chamado McIver. Hallorann havia entrado lá e informado a esse McIver que queria fazer um testamento, e será que McIver poderia ajudá-lo?
Bem, McIver respondeu, para quando quer o documento? Para ontem, respondeu Hallorann, jogando a cabeça para trás e rindo. Tem alguma coisa
complicada em mente?, foi a próxima pergunta do McIver. Hallorann não tinha. Tinha seu Cadillac, sua conta bancária — uns 9 mil dólares — e um armário de roupas. Queria que tudo fosse para sua irmã. E se ela morrer antes de você?, perguntou McIver. Não se incomode, tranquilizou Hallorann. Se isso acontecer, farei um novo testamento. O documento estava pronto e assinado em menos de três horas — trabalho rápido para um rábula — e agora ficava no bolso da camisa de Hallorann, dobrado dentro de um envelope azul com a palavra TESTAMENTO em letras desenhadas.
Também não sabia dizer por que havia escolhido este dia ensolarado, por que se sentia tão bem para fazer algo que vinha adiando durante anos. Mas o impulso viera, e ele não dissera não. Havia se acostumado a seguir seus instintos.
Agora estava fora da cidade. Acelerou até os proibidos cem e deixou o carro correr na pista da esquerda, que servia de escoamento para a maior parte do tráfego em direção a Petersburg. Sabia, por experiência própria, que o Cadillac rodaria ainda com a mesma estabilidade a cento e quarenta e até a cento e noventa. Mas sua época de corredor já havia passado há muitos anos.
A ideia de meter cento e noventa numa reta simplesmente o deixava apavorado. Estava ficando velho.
( Meu Deus, essas laranjas têm cheiro forte. Será que estão passadas? ) Insetos se esmagavam contra o para-brisa. Ligou o rádio numa estação de soul de Miami e ouviu a voz macia de Al Green.
Que época linda vivemos,
Agora está ficando tarde e devemos nos separar…
Abriu a janela para jogar fora as cinzas do cigarro e afastar o cheiro de laranjas. Batucava os dedos de leve no volante e cantarolava. Pendurada no espelho retrovisor, sua medalha de São Cristóvão balançava levemente.
De repente, o cheiro forte de laranjas aumentou, e ele sabia que alguma coisa estava vindo. Viu os próprios olhos no espelho retrovisor arregalarem-se surpresos. E então veio tudo de uma vez, numa força imensa que afastou a música, a estrada adiante, a própria consciência de si mesmo como única criatura humana. Era como se alguém tivesse encostado um revólver psíquico na sua cabeça e tivesse atirado um grito de calibre .45.
(AH DICK AH POR FAVOR POR FAVOR POR FAVOR VENHA!!!)
Hallorann passou ao lado de uma van dirigida por um homem com uniforme de operário que, ao ver o carro mudando para sua pista, começou a buzinar. O Cadillac continuou a correr, o operário olhou rapidamente para o motorista e viu um grande homem negro ao volante, os olhos virados vagamente para cima. Mais tarde, o motorista disse à esposa que sabia tratar-se de um desses cabelos afros que todos os negros usam hoje em dia, mas, na ocasião, parecia que cada fio de cabelo na cabeça do crioulo estava arrepiado.
Pensou que o negro estivesse sofrendo um ataque cardíaco.
O homem freou bruscamente, aproveitando o pouco espaço que lhe restava. O Cadillac continuou a fechá-lo, e ele ficou apavorado quando as lanternas traseiras grandes e em forma de foguete cortaram a pista a menos de um centímetro do seu para-choque.
O operário mudou para a esquerda, ainda buzinando, e berrou ao passar pelo carro descontrolado. Mandou o motorista ir praticar algum ato sexual consigo mesmo. Participar de sexo oral com roedores e pássaros. Articulou seu desejo de que todas as pessoas negras voltassem ao continente de origem.
Expressou sua sincera convicção do lugar que a alma do motorista do Cadillac ocuparia depois de morto. Concluiu dizendo que achava ter conhecido a mãe do motorista numa casa de prostituição em New Orleans.
Depois, seguiu em frente e se viu fora de perigo, percebendo, de repente, que havia urinado na calça.
Na mente de Hallorann, o pensamento se repetia,
(VENHA DICK POR FAVOR VENHA DICK POR FAVOR)
mas começou a se esvanecer da mesma maneira que acontece com uma estação de rádio, quando você começa a se afastar dos limites da área de transmissão. Sentiu que o carro estava no acostamento a mais de oitenta quilômetros por hora e o dirigiu de volta à estrada, sentindo a traseira rabear por um momento, antes de retomar o asfalto.
Avistou uma lanchonete de beira de estrada logo à frente. Hallorann ligou a seta e entrou, o coração batendo forte no peito, o rosto pálido. Estacionou, tirou o lenço do bolso e secou a testa.
( Santo Deus! )
— O que deseja?
A voz o surpreendeu novamente, apesar de não ter sido a voz de Deus, mas
a de uma garçonete bonitinha, junto à janela do carro com um bloco de pedidos à mão.
— Sim, benzinho, uma vaca-preta por favor. Com duas bolas de baunilha, tá bem?
— Sim, senhor. — Ela saiu, os quadris balançando jeitosos debaixo do uniforme de náilon vermelho.
Hallorann se recostou no banco de couro e fechou os olhos. Não sobrara mais nada. O último vestígio havia se apagado quando ele estacionou e fez o pedido à garçonete. Tudo o que restou foi uma forte dor de cabeça, como se os miolos tivessem sido torcidos, espremidos e postos para secar. Uma dor de cabeça semelhante à que teve quando deixou aquele menino Danny penetrar em sua mente lá nas montanhas, na “Menina dos Olhos de Ullman”.
Mas desta vez a dor tinha sido muito mais forte. Naquela ocasião, o menino apenas brincara com ele. Desta vez, sentiu o pânico puro em cada palavra gritada em sua cabeça.
Olhou para os braços. O sol quente batia neles, mas ainda assim estavam arrepiados. Havia dito ao menino que o chamasse se precisasse de ajuda.
Lembrava-se disso. E agora o menino estava chamando.
De repente, imaginou como poderia ter deixado aquele menino por lá, iluminado como era. Certamente ele passaria por problemas, talvez sérios.
De repente, ligou o carro, deu marcha a ré e voltou para a estrada, cantando pneus no asfalto. A garçonete dos quadris salientes parou junto ao arco do anúncio, com uma bandeja nas mãos.
— Vai tirar o pai da forca? — gritou ela, mas Hallorann já havia saído.
Quando Hallorann entrou, o gerente, que se chamava Queems, falava ao telefone com o bookmaker, pois queria apostar em quatro cavalos. Não, nada de acumulada. Apenas os quatro de sempre, seiscentos dólares redondos. E os Jets no domingo. Como assim, os Jets iriam jogar contra os Bills? Ele não sabia contra quem os Jets iam jogar? Quinhentos, diferença de sete pontos.
Quando Queems desligou, parecendo desapontado, Hallorann compreendeu como um homem poderia ganhar cinquenta mil por ano como gerente deste pequeno resort e ainda assim vestir calças velhas como as que ele usava. O
gerente olhou para Hallorann com os olhos vermelhos de tanto olhar para o fundo do copo de uísque da noite anterior.
— Algum problema, Dick?
— Sim, sr. Queems, acho que sim. Preciso de três dias.
Havia um maço de Kent no bolso da camisa amarela de Queems. Ele tirou
um cigarro sem mexer no maço, segurando entre os dedos e mordendo o filtro melancolicamente. Acendeu-o com o isqueiro de mesa.
— Eu também — ironizou o gerente. — Mas o que tem em mente?
— Preciso de três dias — repetiu Hallorann. — É o meu garoto.
Os olhos de Queems baixaram para a mão esquerda de Hallorann, que não tinha aliança.
— Estou divorciado desde 1964 — informou Hallorann, com paciência.
— Dick, você sabe qual é a situação no fim de semana. Estamos lotados.
Tem hóspede saindo pelo ladrão. Até mesmo nos quartos baratos. Até o Salão Flórida vai estar cheio no sábado à noite. Portanto, eu lhe dou meu relógio, minha carteira, meu salário. Merda, eu lhe dou até minha mulher, se você aguentar. Mas, por favor, não me peça dias de folga. O que ele tem, está doente?
— Sim, senhor — confirmou Hallorann, imaginando-se amassando um chapéu de pano barato entre os dedos e revirando os olhos, em tom de solene pesar. — Levou um tiro.
— Tiro! — exclamou Queems. Colocou o Kent no cinzeiro que tinha um emblema da Universidade de Mississipi, onde ele havia se formado em administração.
— Sim, senhor — confirmou Hallorann, sombrio.
— Acidente de caça?
— Não, senhor — respondeu Hallorann, baixando o tom da voz. — Jana está vivendo com um motorista de caminhão. Um branco. Ele atirou no meu garoto. Está num hospital em Denver, Colorado. Estado grave.
— Cacete, como foi que você descobriu? Pensei que tivesse ido comprar os legumes.
— Sim, senhor, eu fui. — Antes de ir para o hotel, ele passou numa agência da Western Union para reservar um carro no balcão da Avis, no aeroporto de Stapleton. E, ao sair, roubou um formulário da empresa. Agora, tirava do bolso o formulário dobrado e em branco, mostrando para Queems, que olhava perplexo. Guardou o papel de volta no bolso e, deixando a voz baixar mais um pouco, disse: — Jana mandou. Estava na minha caixa de correio quando voltei agora.
— Jesus. Jesus Cristo — murmurou Queems. Havia uma expressão peculiar de preocupação em seu rosto, com a qual Hallorann já se habituara.
Era o mais próximo de uma manifestação de piedade que um branco que se considerava “bonzinho para com os de cor” podia conseguir, quando se
tratava de um negro ou seu filho mítico. — Sim, muito bem, pode ir. Acho que Baedecker pode substituir você durante os três dias. O menino que está trabalhando de garçom também pode ajudar.
Hallorann balançou a cabeça, deixando seu rosto parecer mais calmo, mas a ideia do menino ajudando Baedecker o fazia rir por dentro. Mesmo em dias calmos, Hallorann duvidava que o menino fosse capaz de acertar o xixi dentro do penico de primeira.
— O senhor pode descontar no pagamento desta semana — comentou Hallorann. — Tudo. Sei o problema que isto está causando para o senhor.
O rosto de Queems ficou ainda mais contraído, parecia ter um osso atravessado na garganta.
— Podemos conversar sobre isso mais tarde. Vá e arrume as malas. Vou conversar com Baedecker. Quer que eu faça uma reserva no avião?
— Não senhor, eu mesmo faço.
— Muito bem. — Queems se levantou, baixou a cabeça pesaroso e soltou uma grande quantidade de fumaça do seu cigarro. Tossiu com força, até que seu rosto fino e branco ficasse vermelho. Hallorann se esforçou para manter a expressão sombria. — Espero que tudo se resolva, Dick. Ligue quando tiver alguma notícia.
— Ligarei.
Apertaram as mãos sobre a mesa.
Hallorann desceu até o térreo e foi às dependências dos empregados explodindo numa gargalhada. Ainda ria e enxugava os olhos com o lenço, quando o cheiro de laranjas veio forte e nauseante, seguido pelo raio, que o atingiu na cabeça e o jogou, numa vertigem, contra uma parede de reboco cor-de-rosa.
(POR FAVOR VENHA DICK POR FAVOR VENHA VENHA DEPRESSA!!!) Aos poucos foi se recuperando e finalmente se sentiu capaz de subir as escadas externas do apartamento. Guardava a chave debaixo do capacho e, quando se abaixou para apanhá-la, alguma coisa caiu do seu bolso, batendo no chão com um ruído surdo. Sua mente ainda estava tão ligada à voz que ouvira na cabeça que, por um momento, só conseguia olhar para o envelope azul, sem saber o que era.
Em seguida, virou o envelope, fazendo a palavra TESTAMENTO surgir em letras negras.
( Ai meu Deus é isso? )
Não sabia. Mas poderia ser. Durante toda a semana, o pensamento do próprio fim estivera em sua mente como uma… bem, como uma ( Vá, diga)
como uma premonição.
Morte? Por um momento, visualizou sua vida inteira diante de si, não com sentido histórico nem topográfico dos altos e baixos pelos quais ele, o terceiro filho da sra. Hallorann, passara, mas sua vida como era agora. Martin Luther King certa vez contou, pouco antes de ser levado para a cova de mártir, que ele havia chegado à montanha. Dick não podia dizer o mesmo.
Nenhuma montanha, mas conseguira chegar a um platô ensolarado depois de três anos de luta. Tinha bons amigos. Tinha todas as referências de que precisasse para um emprego em qualquer lugar. Quando queria trepar, bem, encontrava sempre uma amiga simpática, sem perguntas e sem objeções sobre o significado daquilo. Ele lidava bem com sua negritude… assumira de maneira bem legal. Já tinha mais de sessenta e, graças a Deus, passava bem.
Valia a pena arriscar tudo isso — o fim dele mesmo — por causa de três brancos que sequer conhecia?
Mas isso era mentira, não era?
Conhecia o menino. Haviam se confidenciado como muitos amigos não fazem mesmo depois de quarenta anos de amizade. Conhecia o menino, e o menino o conhecia, pois ambos tinham uma espécie de farol na cabeça, algo que não haviam pedido, algo que simplesmente lhes tinha sido concedido.
( Agora você tem uma lanterna, e ele, o farol. ) E, às vezes, aquela luz, aquela iluminação parecia boa. Você podia escolher os cavalos ou, como o menino havia contado, podia dizer ao pai onde encontrar o baú perdido. Mas isso era só o molho, o molho numa salada que escondia rabanetes muito mais amargos, cobertos por pepinos frescos.
Você podia sentir o sabor de dor, morte e lágrimas. E agora o menino estava preso naquele lugar, e ele iria até lá. Por causa do menino. Porque, conversando com o menino, só se notava que eram de cor diferente quando abriam a boca. Portanto, iria. Faria o que pudesse, pois, se não o fizesse, o menino morreria exatamente dentro de sua cabeça.
Mas ele era humano, e não conseguia conter um desejo ingrato de que nunca tivesse que passar por isso.
( Ela começou a sair e ir atrás dele. ) Estava enfiando uma muda de roupa na sacola, quando uma poderosa lembrança lhe veio à cabeça e o deixou gelado, como sempre acontecia. Ele tentava se lembrar o menos possível.
A camareira, chamada Delores Vickery, tinha ficado histérica. Contara algumas coisas às outras camareiras e, pior ainda, a alguns hóspedes. Quando a informação chegou aos ouvidos de Ullman, ele a despediu imediatamente, como a tonta deveria ter imaginado. Ela foi até Hallorann aos prantos. Não por ter sido demitida, mas por causa do que havia visto naquele apartamento do segundo andar. Entrara no 217 para trocar as toalhas, dizia ela, e lá estava aquela tal da sra. Massey, deitada, morta, na banheira. Aquilo, naturalmente, era impossível. A sra. Massey tinha sido discretamente levada para longe, no dia anterior, e naquele momento voava de volta a Nova York — desta vez junto com as bagagens, em vez de junto aos passageiros da primeira classe, onde costumava viajar.
Hallorann não gostava muito de Delores, mas naquela noite subiu para ver o segundo andar. A funcionária, de vinte e três anos, tinha a pele azeitonada e trabalhava como garçonete no final da temporada, quando o movimento diminuía. Hallorann acreditava que ela era um pouco iluminada, mas uma iluminação não muito maior do que um vislumbre. Se um homem tímido chegava com sua acompanhante para jantar, ele usando um casaco desbotado, Delores trocava o atendimento de uma de suas outras mesas para atender o casal. Ao sair, o homem deixava uma boa gorjeta sob o prato, o que já era ruim para a menina que havia feito a troca, mas, para piorar, Delores ainda por cima ficava se gabando. Era preguiçosa, cometia gafes numa equipe dirigida por um homem que não admitia tais erros. Costumava se sentar sob o armário de roupas de cama, lendo fotonovela e fumando, e, quando Ullman aparecia numa de suas rondas surpresa (e ai da funcionária que fosse apanhada descansando), encontrava Delores trabalhando eficientemente, a revista escondida sob os lençóis na prateleira de cima, o cinzeiro cuidadosamente enfiado no bolso do uniforme. Sim, pensava Hallorann, ela era uma preguiçosa e uma relaxada, e as outras moças se ressentiam dela.
Mas o fato é que Delores tinha certo vislumbre de iluminação. Nunca se metia em maus lençóis. No entanto, o que ela viu no 217 a amedrontara de tal forma que estava mais do que contente em dar andamento aos documentos de demissão, e então sumir.
Por que ela havia ido até ele? Um iluminado identifica outro, pensou
Hallorann, sorrindo.
Então, ele subiu aquela noite e abriu o apartamento, que deveria ser ocupado por novos hóspedes no dia seguinte. Usara a chave mestra para entrar e, se Ullman o flagrasse com aquela chave, teria ido fazer companhia a Delores Vickery na fila da Previdência Social.
A cortina do chuveiro, em volta da banheira, estava fechada. Ele a abriu, mas, mesmo antes já pressentia o que iria ver. A sra. Massey inchada e roxa, deitada molhada na banheira que estava com água pela metade. Ele parou e ficou olhando para ela, uma pulsação forte na garganta. Aconteciam outras coisas no Overlook: um pesadelo ocorria a intervalos irregulares —
participava de uma espécie de baile à fantasia no salão do Overlook e, ao grito de retirada das máscaras, todos exibiam seus rostos, que eram como de insetos podres — e havia também os arbustos em formato de animais. Duas vezes, talvez três, ele tinha (ou pensava ter) visto os animais se movendo, sempre muito pouco. Aquele cachorro parecia sair de sua posição para outra, um pouco mais agachado, e os leões pareciam andar para a frente, como se ameaçando os pequenos vira-latas do parquinho. Ano passado, em maio, Ullman pedira para ele ir ao sótão procurar um jogo de ferramentas de lareira, aquele que agora ficava ao lado da lareira do saguão. Enquanto Hallorann estava lá em cima, as três lâmpadas penduradas se apagaram, e ele ficou perdido. Ficou ali durante um tempo indeterminado, tropeçando em tudo, cada vez mais próximo do pânico, batendo as canelas nas caixas e se chocando contra coisas, com uma sensação cada vez mais forte de que algo o espreitava no escuro. Alguma criatura grande e terrível que se esgueirara pela madeira quando as luzes se apagaram. E, quando literalmente esbarrou no trinco da porta de saída, desceu o mais depressa que pôde, deixando a porta aberta, coberto de fuligem e desgrenhado, com uma sensação de que haveria um desastre sem possibilidade de ser impedido. Mais tarde, Ullman desceu pessoalmente à cozinha, para informar que ele havia esquecido a porta do sótão aberta e as luzes acesas. Hallorann por um acaso achava que os hóspedes gostariam de subir e brincar de esconde-esconde? Achava que eletricidade era de graça?
E ele suspeitava que — não, tinha quase certeza — muitos hóspedes teriam visto ou ouvido coisas também. Nos três anos em que estivera ali, a Suíte Presidencial tinha sido ocupada dezenove vezes. Seis dos hóspedes que passaram por lá saíram mais cedo do hotel, alguns com a aparência de doentes. Vários hóspedes deixaram outros apartamentos de forma igualmente
repentina. Certa vez, em agosto de 1974, ao anoitecer, um homem que recebera condecorações Estrelas de Bronze e Prata na Guerra da Coreia (ele agora fazia parte da diretoria de três das principais empresas do país, e corriam boatos de que teria demitido pessoalmente um célebre âncora da televisão) sofreu inúmeras crises histéricas, aos gritos no gramado. E dezenas de crianças, durante a temporada de Hallorann no Overlook, simplesmente se recusavam a ir brincar no parquinho . Uma criança sofrera uma convulsão no túnel de concreto, mas Hallorann não sabia se isso poderia ser atribuído à maldição do Overlook ou não… Os empregados comentavam que a criança, filha única de um belo ator de cinema, era epiléptica e usava medicação controlada, mas simplesmente se esquecera de tomar o remédio naquele dia.
E, então, com o olhar fixo no cadáver da sra. Massey, Hallorann sentiu medo. Mas não totalmente amedrontado. Isso não era uma surpresa. O pavor real veio quando ela abriu os olhos, exibindo pupilas prateadas, e começou a sorrir para ele. O pavor veio quando
( ela começou a sair e ir atrás dele. )
Ele fugiu, o coração disparando, e não se sentira seguro nem depois de ter saído, fechado e trancado a porta. Na verdade, enquanto fechava o zíper da bolsa de viagem, admitia consigo mesmo que nunca mais havia se sentido seguro em nenhum lugar do Overlook.
E agora o menino… chamando, clamando por ajuda.
Olhou o relógio. Eram cinco e meia da tarde. Foi até a porta do apartamento, lembrou-se de que era inverno no Colorado, sobretudo nas montanhas, e voltou ao armário. Tirou o casacão comprido de pele de carneiro de um saco plástico e o pendurou nos braços. Era a única roupa de inverno que possuía. Apagou as luzes e olhou ao redor. Estava esquecendo alguma coisa? Sim. Uma coisa. Tirou o testamento do bolso da camisa e o prendeu na borda do espelho da penteadeira. Se tivesse sorte, voltaria para pegá-lo.
Claro, se tivesse sorte.
Saiu do apartamento, trancou a porta, escondeu a chave debaixo do capacho e desceu as escadas externas para seu Cadillac conversível.
No meio do caminho para o aeroporto internacional de Miami, confortavelmente distante da cabine telefônica onde Queems ou seus bajuladores ouviam as conversas dos outros, Hallorann parou numa lavanderia em um centro comercial e ligou para a United Airlines. Voos para Denver?
Havia um às 6h36 da tarde. O senhor conseguiria chegar a tempo?
Hallorann olhou o relógio, que marcava 6h02, e afirmou que conseguiria.
Há assentos disponíveis no avião?
Vou verificar.
Um ruído deu lugar a um falso Mantovani, destinado a tornar a espera mais agradável. Não tornava. Hallorann se apoiava num pé, depois em outro, alternando olhares entre o relógio e uma jovem mãe que tirava roupas da máquina de lavar com um bebê dormindo em um sling em suas costas. Ela temia chegar em casa mais tarde do que o planejado, e o assado iria queimar e o marido — Mark? Mike? Matt? — ficaria aborrecido.
Um minuto se passou. Dois. Ele tinha acabado de resolver que entraria no carro e iria até lá arriscar a sorte, quando a voz do atendente de reservas de voo, soando como uma gravação, voltou. Havia um assento, uma desistência.
Era na primeira classe. Isso fazia alguma diferença?
Não. Ele queria.
O pagamento seria em dinheiro ou com cartão de crédito?
Dinheiro, benzinho, dinheiro. Preciso viajar.
E o nome era…?
Hallorann, dois eles, dois enes. Até mais tarde.
Desligou e correu para a porta. O simples pensamento da moça preocupada com o assado foi tomando conta dele até ele pensar que ia enlouquecer. Às vezes é assim, sem nenhuma razão, você capta um pensamento, totalmente isolado, totalmente cristalino… e geralmente inútil.
Quase conseguiu.
Acelerara o Cadillac a cento e vinte, e o aeroporto já estava praticamente à vista, quando a polícia rodoviária o fez parar.
Hallorann desceu o vidro da janela automática e abriu a boca para o guarda que folheava páginas na caderneta de multas.
— Já sei — disse o guarda, em tom de consolo. — É um funeral em Cleveland. Seu pai. É um casamento em Seattle. Sua irmã. Um incêndio em San Jose que acabou com a loja de doces do vovô. Maconha guardada num armário na rodoviária em Nova York. Adoro este trecho da estrada nas proximidades do aeroporto. Desde menino, a hora das historinhas é a minha preferida.
— Ouça, seu guarda, meu filho está…
— A única parte da história que eu nunca adivinho — o guarda falou, encontrando a página certa na caderneta de multa — é o número da carteira
da habilitação do motorista/contador de histórias e seu registro. Portanto, seja bonzinho. Deixe-me dar uma olhada.
Hallorann olhou nos olhos calmos e azuis do guarda, pensando ainda assim em contar a história de que o filho estava em situação crítica, mas concluiu que só pioraria as circunstâncias. Este guardinha não era nenhum Queems.
Entregou a ele a carteira.
— Que beleza — falou o guarda. — Quer fazer o favor de tirar os documentos? Só preciso ver como estão as coisas.
Calado, Hallorann tirou a carteira de motorista e seu registro estadual e os entregou ao guarda.
— Muito bem. Está tudo tão direitinho que você vai ganhar um presente.
— O quê? — perguntou Hallorann esperançoso.
— Quando eu acabar de anotar estes números, vou deixar você soprar este balãozinho para mim.
— Ah, não, meu Deus… — resmungou Hallorann. — Seu guarda, meu voo…
— Shhh — fez o guarda de trânsito. — Não seja teimoso.
Hallorann fechou os olhos.
Chegou ao balcão da United às 6h49, torcendo, mesmo sem esperança, para que o voo estivesse atrasado. Não precisou sequer perguntar. O painel de partidas sobre o balcão informava: voo 901 para Denver, de 6h36, partira às 6h40. Há nove minutos.
— Merda — disse Dick Hallorann.
E de repente o cheiro de laranjas, forte e nauseante, voltou. Ele só teve tempo de ir ao banheiro dos homens antes que o pensamento chegasse, ensurdecedor, amedrontador:
(VENHA POR FAVOR VENHA DICK POR FAVOR POR FAVOR
VENHA!!!)
39
NA ESCADA
Com o intuito de aumentar um pouco as economias antes de se mudarem de Vermont para o Colorado, eles venderam uma coleção de duzentos discos de rock‘n’roll e blues, que pertenciam a Jack; cada um rendeu um dólar. Um desses discos, o favorito de Danny, era um álbum duplo de Eddie Cochran com quatro páginas de apresentação, escritas por Lenny Kaye. Wendy sempre se surpreendia com a fascinação de Danny pelo disco desse rapaz que
vivera pouco e morrera jovem… Quando ele morreu, ela tinha dez anos.
Às quinze para as sete (horário da montanha), enquanto Dick Hallorann contava a Queems sobre o namorado branco de sua ex-mulher, Wendy se aproximou de Danny, que estava sentado no meio da escada entre o saguão e o primeiro andar, brincando com uma bola vermelha e cantando uma das canções daquele disco. Sua voz era baixa e desafinada.
“Então, eu subo um-dois subo três subo quatro vezes”, cantava Danny,
“cinco subo seis subo mais sete… quando chego lá em cima, estou muito cansado para dançar o rock …”
Ela chegou mais perto, sentou-se num dos degraus e viu que o lábio inferior do filho estava inchado, e que seu queixo estava sujo de sangue seco.
Sentiu seu coração batendo mais forte, mas conseguiu falar com naturalidade.
— O que houve, velhinho? — perguntou ela, apesar de, no íntimo, já saber. Jack o agredira. Claro que sim. Só faltava isso, não é mesmo? Mais cedo ou mais tarde voltava ao ponto de partida.
— Chamei Tony — respondeu Danny. — No salão. Acho que caí da cadeira. Não está mais doendo. Só… parece que minha boca está muito grande.
— Foi isso mesmo que aconteceu? — perguntou Wendy, olhando para ele, agitada.
— Não foi o papai — respondeu. — Hoje não.
Olhou para ele envergonhada. A bola passava de uma das mãos para a outra. Ele lera sua mente. O filho havia lido sua mente.
— O que… o que Tony lhe disse, Danny?
— Não importa. — Seu rosto estava calmo, a voz indiferente.
— Danny. — Ela agarrou seu ombro, com mais força do que pretendia.
Mas ele não recuou nem tentou afastá-la.
( Ah, nós estamos acabando com este menino. Não é só Jack, sou eu também, e talvez não sejamos só nós, o pai de Jack, minha mãe, estariam aqui também? Claro, por que não? O lugar já é uma droga com os fantasmas que existem, por que não mais um casal? Ah, Deus do céu, ele é como uma daquelas malas que mostram na propaganda da televisão, atropelada, atirada dos aviões, passando por prensas mecânicas. Ou um relógio Timex.
Pode água entrar, ele continua a funcionar. Ah, Danny, perdão. )
— Não importa — ele repetiu. Continuava jogando a bola de uma das mãos para a outra. — Tony não pode mais vir. Eles não vão deixar. Ele está vencido.
— Quem não vai deixar?
— As pessoas no hotel — respondeu ele. Então olhou para ela, e seus olhos não estavam indiferentes. Estavam penetrantes e apavorados. — E as…
as coisas no hotel. Tem todo tipo de coisa aqui. O hotel está cheio de coisas.
— Você vê…
— Não quero ver — interrompeu, baixinho, e então olhou de volta para a bola de borracha, passando de uma das mãos para a outra. — Mas posso ouvir, às vezes tarde da noite. São como o vento, todas suspirando juntas. No sótão. No porão. Nos quartos. Em todo lugar. Achei que era minha culpa, por causa do jeito que sou. A chave. A chavinha de prata.
— Danny, não… não se aborreça assim.
— Mas ele também — disse Danny. — Papai. E você. Ele quer todos nós.
Está enganando papai, está brincando com ele, fazendo ele pensar que o hotel quer ele mais do que todos. O hotel me quer mais, mas vai levar todos nós.
— Se pelo menos aquele snowmobile …
— Eles não deixaram papai — continuou Danny, com a mesma voz baixa.
— Fizeram ele jogar uma peça na neve. Muito longe. Eu sonhei. E ele sabe que aquela mulher está mesmo no 217. — Olhou para a mãe com os olhos sombrios apavorados. — Não importa se você acredita em mim ou não.
Ela passou um braço em volta do filho.
— Acredito em você. Danny, diga a verdade. Jack… Jack vai tentar machucar a gente?
— Eles querem obrigar o papai — respondeu Danny. — Eu tô chamando o sr. Hallorann. Ele disse que, se eu precisasse dele, era só chamar. E eu chamei. Mas é muito difícil. Eu fico cansado. E o pior é que não sei se ele está me ouvindo ou não. Acho que ele não pode me responder porque é muito longe para ele. E eu não sei se é muito longe para mim ou não. Amanhã…
— O que tem amanhã?
Sacudiu a cabeça.
— Nada.
— Onde é que ele está agora? — perguntou Wendy. — Seu pai.
— No porão. Acho que ele não vai subir hoje.
Ela se levantou de repente.
— Espere aqui. Cinco minutos.
A cozinha estava fria e deserta sob as lâmpadas fluorescentes. Ela foi até a prateleira onde estavam penduradas as facas nos trilhos magnéticos. Pegou a mais comprida e mais afiada, enrolou-a num pano de prato e saiu da cozinha,
apagando as luzes.
Danny estava sentado na escada com os olhos acompanhando o movimento da bola de borracha em suas mãos. Cantava:
“Ela mora no vigésimo andar na cidade, o elevador está quebrado. Então subo um-dois subo três subo quatro…”
( Ciranda, cirandinha…)
Parou de cantar. Ouviu.
( … Vamos todos cirandar…)
A voz estava em sua cabeça, tão junto dele, tão terrivelmente nítida, que poderia ser parte de seu próprio pensamento. Era suave e infinitamente furtiva. Zombando dele. Parecendo dizer:
( Ah sim, você vai gostar daqui. Experimente, você vai gostar. Experimente, você vai goooostar…)
Agora, seus ouvidos estavam atentos, e ele os ouvia novamente; a reunião, fantasmas ou espíritos, ou talvez o próprio hotel, uma terrível casa de diversões onde todos os espetáculos terminavam em morte, onde todos os fantasmas, especialmente os pintados nas paredes, eram reais, onde arbustos caminhavam, onde uma pequena chave de prata poderia dar início à obscenidade. Suave, suspirando, sussurrando como o interminável vento do inverno que à noite brincava sob a beirada do telhado, o vento mortalmente tranquilo que os turistas do verão nunca escutavam. Era como o zumbido sonolento das vespas num ninho adormecido, como um morto que começava a acordar. Estavam a três mil metros de altitude.
( Por que um corvo é como uma escrivaninha? Quanto maior a altitude, menor o número, claro! Tome mais uma xícara de chá! ) Era um som vívido, mas não eram vozes, nem respiração. Um homem com uma inclinação filosófica chamaria de som de almas. A avó de Dick Hallorann, que havia crescido nas estradas do Sul ainda no século XIX, chamaria de assombração. Um médium teria um nome comprido para isso: eco mediúnico, psicognosia, telepatia. Mas, para Danny, era apenas o som do hotel, o velho monstro, que estalava e fechava cada vez mais o cerco em volta deles: corredores encolhiam em tempo e distância, sombras famintas, hóspedes inquietos que não descansavam em paz.
No salão escuro, o relógio sob a redoma de vidro bateu sete e meia com uma única nota musical.
Uma voz rouca, transformada pela bebida em voz brutal, gritou:
“Retirem as máscaras e vamos trepar!”
Wendy, no meio do saguão, estremeceu e ficou imóvel.
Olhou para Danny na escada, ainda brincando com a bola.
— Ouviu alguma coisa?
Danny limitou-se a olhar para a mãe e continuou jogando a bola de uma das mãos para a outra.
Dormiriam pouco aquela noite, embora deitassem juntos e com a porta trancada.
No escuro, com os olhos abertos, Danny pensava:
( Ele quer ser um deles e viver para sempre. É isso o que ele quer. ) Wendy pensava:
( Se for preciso, eu saio daqui com ele. Se vamos morrer, prefiro que seja nas montanhas. )
Ela deixara a faca debaixo da cama, ainda enrolada no pano. Mantinha a mão perto. Cochilavam e acordavam. O hotel rangia em volta deles. Lá fora, a neve começara a cair do céu como chumbo.
40
NO PORÃO
( A caldeira! A maldita caldeira!!! )
O pensamento explodiu brilhante e vivo na mente de Jack Torrance. Em seguida, a voz de Watson:
( Se você esquecer, ela vai aumentando, aumentando, e você e sua família vão acabar acordando quando estiverem na porra da Lua… oficialmente ela aguenta até duzentos e cinquenta, mas explodiria muito antes disso…
ninguém me faria descer e ficar perto com o mostrador a cento e oitenta. ) Ele havia passado a noite inteira ali, examinando caixas de discos velhos, dominado por uma sensação desvairada de que o tempo estava ficando curto e que era necessário andar depressa. Entretanto, havia sido iludido pelas pistas mais importantes, pelas conexões que esclareceriam tudo. Seus dedos estavam amarelos e sujos por causa dos papéis velhos. E ficou tão absorto que esquecera de verificar a caldeira. A última vez em que a regulara havia sido na noite anterior por volta das seis, quando desceu. Agora eram…
Olhou o relógio e se assustou, deixando cair uma porção de notas velhas.
Cristo, eram cinco e quinze da manhã.
Atrás dele, a fornalha começou a funcionar. A caldeira assobiava e gemia.
Correu até ela. O rosto, que se tornara mais magro no último mês, estava agora sombreado pela barba por fazer, e ele tinha a aparência de um prisioneiro de um campo de concentração.
O manômetro da caldeira marcava duzentos e dez libras. Julgou que praticamente pudesse ver os lados da caldeira velha, remendada e soldada, inchando com o esforço letal.
( Ela aumenta… ninguém me faria descer e ficar perto com o mostrador a cento e oitenta…)
De repente, uma voz interior, fria e tentadora, falou com ele.
( Deixe. Vá pegar Wendy e Danny e se mande daqui. Deixe que exploda. ) Podia visualizar a explosão. Uma trovoada dupla que rasgaria primeiro o coração deste lugar, depois a alma. A caldeira explodiria num brilho laranja-arroxeado que faria estilhaços quentes choverem por todo o porão. Em sua mente, podia ver os pedaços de metal incandescentes batendo no chão, na parede e no teto, como estranhas bolas de bilhar, assobiando mortalmente pelo ar. Alguns certamente entrariam por aquele arco de pedra, inflamando papéis velhos no outro lado, e queimariam como no inferno. O fogo destruiria os segredos, queimaria os indícios, um mistério que ninguém jamais decifraria. Em seguida, a explosão de gás, um grande estrondo e a crepitação de uma chama gigante que transformaria todo o hotel numa grelha. Escadas, corredores, tetos e quartos em chamas como o castelo no último rolo de um filme de Frankenstein. As chamas se alastrando para as alas, correndo pelos tapetes como hóspedes ansiosos. O papel de parede de seda carbonizando e encolhendo. Não havia sistema contra incêndio automático, apenas aquela mangueira fora de moda e ninguém para usá-la. E não havia bombeiro no mundo que pudesse chegar antes do final de março. Burn, baby, burn. Em doze horas, não restaria mais nada, simplesmente ossos.
O ponteiro do manômetro subiu para 212. A caldeira estalava e gemia como uma velha tentando se levantar da cama. Jatos de vapor que assobiavam começaram a brincar em volta dos velhos remendos; pedaços de solda começaram a chiar.
Não via; não ouvia. Estava paralisado, com a mão na válvula que baixaria a pressão e conteria o fogo, os olhos brilhando como safiras.
( É minha última chance. )
A única coisa que não haviam vendido até agora era a apólice de seguro de vida, feita com Wendy em um dos primeiros verões em Stovington. Quarenta mil dólares em caso de morte e indenização dobrada se um dos dois morresse em acidente de trem, avião ou incêndio. Como um jogo de dados, morra a morte certa e ganhe mais dinheiro.
( Um incêndio… Oitenta mil dólares. )
Teriam tempo de sair. Mesmo que estivessem dormindo, teriam tempo de sair. Acreditava nisso. E não achava que os arbustos, ou qualquer outra coisa, tentassem detê-los se o Overlook entrasse em chamas.
( Chamas. )
O ponteiro do manômetro sujo de óleo, quase opaco, subiu a duzentos e quinze.
Outra lembrança lhe ocorreu; uma lembrança da infância. Um ninho de vespas nos galhos da macieira no quintal de sua casa. Um de seus irmãos mais velhos — não se lembrava qual deles, agora — havia sido picado enquanto balançava no pneu velho que o pai pendurara em um dos galhos mais baixos da árvore. Era um fim de verão, quando as vespas estão no seu apogeu.
O pai, acabando de chegar em casa, vestido no uniforme branco e cheirando a cerveja, reunira os três meninos — Brett, Mike e o pequeno Jacky — e lhes dissera que ia se livrar das vespas.
— Agora observem — dissera sorrindo e cambaleando um pouco (nessa época não usava a bengala, a colisão com o caminhão de leite aconteceria anos depois). — Talvez aprendam alguma coisa. Foi meu pai quem me ensinou.
Juntou uma porção de folhas úmidas pela chuva, debaixo do galho onde o ninho de vespas repousava como uma fruta venenosa em meio às maçãs murchas, porém saborosas, que a macieira deles produzia no fim de setembro. Ateou fogo às folhas. O dia estava claro e sem vento. As folhas queimaram, mas não emitiram chamas. Em vez disso, exalaram um cheiro —
uma fragrância — que ele sentia a cada outono, quando os homens juntavam folhas e as queimavam. Um cheiro doce com um leve amargo, forte e evocativo. As folhas faziam muita fumaça, que subia, envolvendo o ninho.
O pai deixou as folhas queimando a tarde inteira, enquanto bebia cerveja na varanda, jogando as latas vazias em um balde de plástico. Os dois filhos mais velhos estavam ao seu lado, e o pequeno Jacky sentado nos degraus a seus pés, brincando com o joão-teimoso e cantarolando:
“Seu coração enganador… vai fazer você chorar… seu coração enganador… vai lhe denunciar.”
Às quinze para as seis, antes do jantar, o pai foi até a árvore, os filhos cuidadosamente agrupados atrás dele. Em uma das mãos, levava uma enxada.
Afastou as folhas, deixando pequenos pedaços ao redor para queimar até apagar. Levantou o cabo da enxada, tropeçando e pestanejando, e, depois de
duas ou três tentativas, derrubou o ninho no chão.
Os meninos correram à procura de segurança na varanda, mas o pai ficou ali junto do ninho, se equilibrando e pestanejando. Jacky voltou devagar para ver. Algumas vespas se arrastavam sobre sua propriedade, mas não tentavam voar. De dentro do ninho, um lugar escuro e estranho, vinha um som que nunca mais seria esquecido: um zumbido baixo, sonolento, como o ruído de fios de alta tensão.
— Por que elas não tentam picar você, papai? — perguntara Jacky.
— A fumaça deixa as vespas tontas, Jacky. Vá buscar minha lata de gasolina.
Jack correu para ir buscá-la. O pai embebeu o ninho em gasolina.
— Agora, dê o fora daqui, Jacky, a menos que queira perder as sobrancelhas.
Ele se afastou. De algum lugar em meio às dobras de seu blusão, o pai tirou um palito de fósforo, que acendeu e o jogou no ninho. Houve uma explosão branca e laranja. O pai se afastou, gargalhando selvagem. O ninho das vespas desapareceu num instante.
— Fogo — informou papai, voltando-se para Jacky com um sorriso. — O
fogo mata qualquer coisa.
Depois do jantar, os meninos saíram e, sob a luz do entardecer, se puseram solenemente de pé em volta do ninho carbonizado. Do interior ainda quente vinha um ruído de corpos de vespas pipocando como milho.
O manômetro marcava duzentos e vinte. Um ruído baixo e metálico crescia no fundo da caldeira. Jatos de vapor saíam retos em centenas de lugares como um porco-espinho.
( O fogo mata qualquer coisa. )
Jack acordou de repente. Estava cochilando… e por pouco acordaria no céu. Em nome de Deus, estava pensando no quê? Proteger o hotel era seu dever. Era o zelador.
Um suor frio se espalhou por sua mão tão rapidamente que, a princípio, ele perdeu a firmeza ao segurar a grande válvula. Em seguida, colocou os dedos nos raios da roda, que girou uma, duas, três vezes. Ouviu um imenso assobio de vapor, a respiração do dragão. Uma névoa tropical morna saiu da caldeira e o envolveu. Por um momento, não enxergou mais o marcador, e pensou que talvez tivesse esperado tempo demais; o gemido e o chiar dentro da caldeira aumentavam, seguidos por uma série de fortes ruídos e solavancos metálicos.
Quando o vapor se dissipou um pouco, ele constatou que o manômetro
caíra de volta a duzentos e ainda estava caindo mais. Os jatos de vapor que escapavam pelos remendos de solda começavam a diminuir de intensidade.
Os ruídos baixavam.
Cento e noventa… cento e oitenta… cento e setenta e cinco…
( Ele ia ladeira abaixo a cento e quarenta quilômetros por hora, quando o assobio se transformou num grito…)