O Iluminado

Stephen King · Capítulo 4 de 9 · parte 1/4

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O Iluminado

Quarta parte: Presos pela neve

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

(de croquet? ou roque?)

a boca aberta e muda. Chocou-se contra a porta do 217, que agora estava fechada. Começou a esmurrá-la, sem sequer imaginar que não estava trancada e que bastava girar o trinco para sair. Na boca ressoavam gritos surdos, que estavam além da audição humana. Só conseguia esmurrar a porta e ouvir a mulher vindo em sua direção, a barriga inchada, o cabelo seco, as mãos estendidas — algo que ficara morto durante anos, talvez, conservado ali como num passe de mágica.

A porta não abria, não abria, não abria.

E, em seguida, ouviu a voz de Dick Hallorann. Não chegou repentina e inesperadamente, mas tão calma, que suas cordas vocais presas se abriram e ele começou a gritar baixinho… não com medo, mas aliviado.

( Não acho que algo aqui possa machucar você… são como desenhos em um livro… feche os olhos e desaparecerão. )

Baixou as pálpebras. As mãos se cerraram. Os ombros se curvaram com o esforço de concentração:

( Nada ali nada ali nada ali, de jeito nenhum NADA ALI NÃO HÁ NADA! ) O tempo passou. E ele começava a relaxar, começava a compreender que a porta devia estar aberta e que podia sair, quando as mãos mortas há anos, inchadas, fedendo a peixe, fecharam-se suavemente em torno de seu pescoço e o foram virando para que ele encarasse aquele rosto morto e roxo.

Quarta parte

Presos pela neve

26

TERRA DOS SONHOS

Tricotar a deixou com sono. Hoje, até Bartók a teria deixado com sono, e não era Bartók que tocava no pequeno fonógrafo, era Bach. Suas mãos foram ficando cada vez mais lentas e, durante o tempo em que o filho era apresentado à residente permanente do apartamento 217, Wendy dormia com o tricô no colo. A lã e as agulhas subindo e descendo, no ritmo lento de sua respiração. O sono era profundo, e ela não sonhou.

Jack Torrance também adormeceu, mas o sono era leve e agitado, cheio de sonhos que pareciam ser muito vívidos para serem meros sonhos — eram certamente mais vívidos do que qualquer sonho que já tivera antes.

Seus olhos começaram a ficar pesados enquanto ele remexia pacotes de notas de compra de leite; eram cem em cada pacote, e ao todo parecia haver dezenas de milhares. Ainda assim, ele passava os olhos sobre cada uma, temendo perder a peça overlookiana que precisava para fazer a conexão mística que, com certeza, estava ali, em algum lugar. Sentiu-se como um homem segurando um fio em uma das mãos, tateando em um cômodo escuro e desconhecido à procura de uma tomada. Se encontrasse, seria recompensado com uma visão de maravilhas.

Ele decidiu que o assunto discutido com Al Shockley ao telefone e o pedido do amigo estavam resolvidos; sua bizarra experiência no parquinho o ajudara a tomar essa decisão. Aquilo chegara muito próximo a algum tipo de colapso, e Jack estava convencido de que era sua mente revoltada com o pedido extremamente arrogante que Al fizera, para desistir do projeto do livro. Talvez fosse um sinal de que seu senso de respeito próprio só pudesse chegar até aí, antes de se desintegrar por completo. Ele escreveria o livro. Se isso significasse o fim de sua amizade com Al Shockley, paciência. Escreveria a história do hotel sem rodeios, e a introdução seria sua alucinação causada pelos animais. O título seria sem sensacionalismo, mas objetivo: Um estranho resort: A história do Hotel Overlook. Sem rodeios, sim, mas não seria escrito com intuito de vingança, por querer dar o troco em Al, ou Stuart Ullman, ou George Hatfield ou seu pai (alcoólatra, brigão, miserável) ou qualquer outra pessoa. Escreveria porque o Overlook o encantara… poderia qualquer outra justificativa ser tão simples, ou tão genuína? Escreveria pelo

mesmo motivo que acreditava que toda grande literatura, ficção e não ficção, era escrita: a verdade aparece no fim, sempre aparece. Escreveria porque sentia que precisava fazer isso.

1800 litros de leite. 370 litros de leite desnatado. Pg. Na conta, 140 litros de suco de laranja. Pg.

Escorregou na cadeira, ainda segurando um punhado de recibos, mas os olhos não olhavam mais para o que estava impresso ali. Haviam ficado fora de foco. As pálpebras estavam lentas e pesadas. Sua mente se transportara do Overlook para seu pai, que fora enfermeiro no Berlin Community Hospital.

Um homem grande e gordo, que chegava a 1,88 m de altura. Era mais alto do que Jack, mesmo quando Jack já estava completamente crescido, com 1,80 m

— o velho, porém, já não estava mais por perto. “O mais fraco da ninhada”, diria ele, dando uma palmada carinhosa no filho e rindo. Jack tinha mais dois irmãos, ambos mais altos do que o pai, e uma irmã, Becky. Com 1,75 m, ela era apenas cinco centímetros mais baixa que Jack e fora mais alta que ele durante quase toda a infância.

Seu relacionamento com o pai era como o muito aguardado desabrochar de uma flor, que, depois de totalmente aberta, acabara mostrando que estava podre por dentro. Até os sete anos, Jack adorara sem restrições e com muito ardor aquele homem alto e barrigudo, apesar dos tapas, dos hematomas e do ocasional olho roxo.

Lembrou-se das suaves noites de verão: a casa calma, o irmão mais velho, Brett, na rua com a namorada, o irmão do meio, Mike, estudando, Becky e a mãe na sala, assistindo a alguma coisa na velha e teimosa televisão; e ele sentado no corredor, só de camiseta de pijama e nada mais, ostensivamente brincando com seus caminhões, mas, na realidade, esperando o momento em que o silêncio seria quebrado pelo abrir da porta, e o berro de saudação do pai, quando via que Jack o esperava, seu próprio grito agudo em resposta, enquanto o pai se dirigia ao corredor, com seu couro cabeludo rosado brilhando sob o cabelo muito curto à luz do corredor. Naquela luz, ele sempre parecia um fantasma gigante, terno e oscilante, metido nas roupas brancas do hospital, a camisa sempre solta (e, às vezes, manchada de sangue), a barra das calças caindo sobre os sapatos pretos.

O pai o pegava nos braços, e ele era delirantemente jogado para cima, tão rapidamente que podia sentir a pressão do ar contra seu crânio como um capacete de chumbo, subindo cada vez mais, os dois gritando “Elevador!

Elevador!”. Em algumas noites, o pai, na sua embriaguez, não interrompia a

tempo o movimento dos braços, e Jack voava direto por cima da cabeça reta do pai como um projétil humano e caía atrás dele, no chão do corredor. Mas, em outras noites, o pai, com bafo forte de cerveja, o pegava nos braços, fazia cócegas, o sacudia, levando o filho a um delírio de gargalhadas, e, finalmente, ele era posto de pé, com soluços.

Os recibos escorregaram de sua mão e dançaram pelo ar, caindo preguiçosos no chão; suas pálpebras, que tinham se fechado com a imagem do pai tatuada em seu interior, como imagens num estereoscópio, abriram-se um pouco e, em seguida, se fecharam novamente. Jack estremeceu. O estado consciente, assim como os recibos e como as folhas dos álamos no outono, caía dançando preguiçosamente.

Essa fora a primeira fase de seu relacionamento com o pai e, quando chegara ao fim, Jack descobriu que Becky e seus irmãos, todos mais velhos, odiavam o homem. Descobriu também que a mãe, uma mulher comum, que raramente levantava a voz acima de um murmúrio, tolerava o marido apenas porque sua formação católica a obrigava a isso. Naqueles dias não parecia estranho para Jack que o pai ganhasse todas as discussões com os filhos usando os punhos, e não parecia estranho que seu amor andasse de mãos dadas com seu medo: medo da brincadeira do elevador, que em qualquer noite poderia terminar num acidente; medo de que o bom humor oscilante do pai, no seu dia de folga, de repente se transformasse em berros cruéis e uma pancada com a “boa mão direita”; e às vezes ele lembrava que tinha medo até de que a sombra do pai caísse sobre ele, enquanto brincava. Foi aproximadamente no fim dessa fase que Jack começou a observar que Brett nunca trazia suas namoradas a sua casa, nem Mike e Becky traziam seus amigos íntimos.

O amor começou a azedar aos nove anos, quando sua mãe acabou indo parar no hospital por causa da bengala do pai. Ele começara a andar com a bengala um ano antes, quando um acidente de carro o deixara manco. Depois disso, não ficava nunca sem ela, comprida, negra, grossa, de empunhadura dourada. Agora, cochilando, o corpo de Jack se contraía, lembrando o medo do ruído que a bengala fazia no ar, um assobio assassino, seu estalar duro contra a parede… ou contra a carne. Ele batera na esposa sem razão alguma, de repente e sem avisar. Estavam à mesa de jantar. A bengala encostada em sua cadeira. Era uma noite de domingo, o final de um feriado de três dias, um fim de semana que o pai passara bebendo em seu estilo inimitável. Galinha frita. Ervilhas. Purê de batatas. O pai à cabeceira da mesa, o prato cheio,

cochilando ou quase cochilando. A mãe passando os pratos para os filhos. E, de repente, o pai despertou, os olhos enfiados nas órbitas inchadas, brilhando com uma espécie de petulância estúpida e maldosa. Eles passaram por cada membro da família, e a veia no centro de sua testa estava saliente, sempre um mau sinal. Uma de suas mãos grandes e sardentas caiu sobre a empunhadura dourada da bengala, acariciando-a. Disse qualquer coisa sobre o café — nesse dia Jack estava certo de que a palavra era “café”. A mãe abriu a boca para responder e, em seguida, a bengala zumbiu no ar, esmagando o rosto dela. O

sangue jorrou do nariz. Becky gritou. Os óculos da mãe caíram no prato de comida. A bengala retraiu-se e desceu novamente, desta vez sobre a cabeça, rompendo o couro cabeludo. A mãe caiu no chão. O pai se levantou da cadeira e foi até onde a mãe estava caída, tonta, sobre o tapete. Ele brandia a bengala, locomovendo-se com a velocidade e agilidade grotescas de um homem gordo, olhos pequenos brilhando, mandíbulas tremendo, enquanto gritava com ela, exatamente como sempre gritava com os filhos durante as explosões. “Agora. Agora pelo amor de Deus. Acho que você vai tomar seu remédio agora. Fedelho maldito. Venha tomar seu remédio agora.” A bengala subira e descera sobre ela mais sete vezes, antes que Brett e Mike pudessem segurá-lo, arrastá-lo e arrancar a bengala de sua mão. Jack (o pequeno Jacky agora ele era o pequeno Jacky agora cochilando e resmungando numa cadeira velha enquanto a fornalha rugia atrás dele) sabia exatamente quantas vezes foram, pois cada pancada no corpo de sua mãe estava gravada em sua memória como um golpe irracional de um cinzel na pedra. Sete pancadas. Nem mais, nem menos. Ele e Becky chorando, sem acreditar, olhando os óculos da mãe pousados no purê de batatas, uma lente partida suja de molho. Brett gritando com o pai do corredor dos fundos, dizendo que o mataria, caso ele se movesse. E o pai repetindo vez após outra:

“Fedelho maldito. Cria desgraçada. Me dá a bengala, seu fedelho desgraçado.

Me dá”. Brett brandindo a bengala histericamente, dizendo sim, sim, vou dar, basta você se mover um pouquinho, vou dar tudo que você quer e mais duas.

Vou dar o bastante. A mãe se levantando, devagar, tonta, o rosto já inchado como um pneu velho com muito ar, sangrando em quatro ou cinco lugares diferentes, e ela dizendo uma coisa terrível, talvez a única coisa que a mãe dissera, que Jack lembrava palavra por palavra: “Quem está com o jornal?

Seu pai quer ler os quadrinhos. Já está chovendo?”. E então prostrou-se de joelhos novamente, o cabelo caído no rosto inchado e ensanguentado. Mike chamando o médico, falando ao telefone. Poderia vir imediatamente? Era sua

mãe. Não, não podia dizer o que acontecera, não pelo telefone, não através de uma ligação. Simplesmente venha. O médico veio e levou a mãe para o hospital, onde o pai trabalhara toda sua vida. O pai, que tinha ficado mais sóbrio (ou talvez com a esperteza estúpida de qualquer animal pressionado), disse ao médico que ela caíra da escada. Havia sangue na toalha da mesa, porque ele tentara enxugar seu rosto querido. Teriam seus óculos entrado voando pela sala de jantar, caindo no purê e no molho?, perguntou o médico com um ar de sarcasmo repugnante. Foi isso o que aconteceu, Mark? Já ouvi falar de gente com um aparelho de rádio nas obturações de ouro, e já vi um homem levar um tiro no meio da testa e sobreviver para contar a história, mas essa é novidade para mim. O pai se limitou a balançar a cabeça e dizer que não sabia, deviam ter caído de seu rosto, quando a trouxe à sala de jantar. Os quatro filhos ficaram em silêncio, atordoados pela estupenda tranquilidade da mentira. Quatro dias depois, Brett largou o emprego no moinho e se alistou no exército. Jack sempre sentira que não fora apenas a surra repentina e irracional da mesa de jantar, mas o fato de que, no hospital, a mãe havia corroborado a história do pai, enquanto segurava a mão do padre da paróquia.

Revoltado, Brett abandonou a família para o que desse e viesse. Foi morto na província de Don Ho em 1965, o ano em que Jack, na universidade, aderiu ao movimento estudantil pelo fim da guerra. Sacudira a camisa ensanguentada do irmão nas reuniões que eram cada vez mais populares, mas não era a visão de Brett que tinha diante de seus olhos, quando falava… era a visão do rosto da mãe, estupidificado, sem entendimento, dizendo: “Quem está com o jornal?”.

Mike abandonou a universidade três anos depois do episódio da bengala, quando Jack tinha doze anos — frequentava a Universidade de New Hampshire, como bolsista. Um ano mais tarde, o pai morreu de um derrame enquanto preparava um paciente para cirurgia. Caíra, vestido na roupa branca e desalinhada, morto possivelmente antes de chegar ao chão de ladrilhos vermelho e preto do hospital. Três dias depois, o homem que dominara a vida de Jacky, o irracional divino fantasma branco, estava debaixo da terra.

A lápide dizia: Mark Anthony Torrance, Amoroso Pai. Àquilo, Jack acrescentaria uma linha: Sabia Brincar de Elevador.

Ele deixou muito dinheiro de seguro. Algumas pessoas colecionam seguros com a mesma compulsão de quem coleciona moedas e selos, e Mark Torrance era desse tipo. O dinheiro do seguro entrou ao mesmo tempo em que as mensalidades das apólices e as notas de bebida terminaram. Durante

cinco anos foram ricos. Praticamente ricos…

No sono leve e atormentado, seu rosto apareceu para Jack como se estivesse num espelho; era seu rosto, mas não era seu rosto. Eram apenas os olhos grandes e a boca aberta e inocente de um menino sentado no corredor com seus caminhões, esperando o pai, esperando pelo divino fantasma branco, esperando o elevador subir com velocidade vertiginosa e divertida, através da atmosfera de sal e serragem exalada das tabernas, esperando talvez a queda, expelindo molas velhas de relógio pelos ouvidos, enquanto o pai ria a bandeiras despregadas e

(transformado no rosto de Danny, muito parecido com seu próprio rosto quando criança, seus olhos eram azul-claros, enquanto os de Danny eram acinzentados, mas os lábios ainda formavam um arco, a pele era morena, Danny no escritório, de calças plásticas, todos os seus papéis encharcados e o cheiro de cerveja no ar… o ar impregnado de fermento e cevada, o odor das tabernas… estalido de osso… sua própria voz, choramingando embriagada Danny, você está bem, velhinho… Ai Deus Danny ai meu Santo Deus ai meu bom Deus seu pobre bracinho… e aquele rosto transformado em) (o rosto atordoado da mãe se levantando da mesa, inchado e ensanguentado, e a mãe dizia)

( “… de seu pai. Repito, um aviso muitíssimo importante de seu pai. Por favor, continue sintonizado, ou sintonize imediatamente para a frequência de Jack Feliz. Repetindo, sintonize imediatamente para a frequência de Happy Hour…” )

Um lento desvanecimento. Vozes soltas ecoando sobre ele, como num corredor interminável e nebuloso.

( As coisas atrapalhando, caro Tommy…)

( Medoc, está aqui? Voltei a ser sonâmbula, meu querido. São os monstros desumanos que eu temo…)

( “Desculpe, sr. Ullman, mas este não é o…” )

… o escritório, com seus arquivos, a mesa grande de Ullman, um livro de reservas em branco para o próximo ano, já no seu devido lugar — nunca perde uma jogada, aquele tal do Ullman —, todas as chaves ordenadamente penduradas nos ganchos

(exceto uma, qual, que chave, chave mestra… chave mestra, quem está com a chave mestra? se subíssemos talvez veríamos)

e o radiotransmissor grande na prateleira.

Ligou o aparelho. As transmissões do rádio chegando em pequenos estouros. Mudou de frequência e ouviu, misturados aos ruídos, música, notícia, um pregador fazendo discursos maçantes, uma previsão do tempo. E

outra voz, que voltou para ouvir. Era a voz de seu pai.

“… mate o garoto. Você tem que matá-lo, Jacky, e a ela também. Porque um artista verdadeiro precisa sofrer. Porque cada homem mata aquilo que ama. Porque estarão sempre conspirando contra você, tentando atrapalhar e arrasar você. Neste exato momento, aquele seu garoto está onde não devia.

Desobedecendo suas ordens. É o que está fazendo. Ele é um fedelho maldito.

Dê uma bengalada nele, Jacky, até ele quase morrer. Tome um gole, Jacky, meu filho, e vamos brincar de elevador. Depois eu vou com você, enquanto ele toma o remédio. Sei que pode fazer isso, claro que pode… deve matá-lo.

Deve matá-lo, Jacky, e a ela também. Porque um verdadeiro artista precisa sofrer. Porque cada homem…”

A voz de seu pai estava ficando cada vez mais alta e enlouquecedora.

Absolutamente não era humana; era algo esganiçada, petulante e atordoante, a voz do Divino Fantasma, do Deus-Porco, chegando morta até ele pelo rádio e

— Não! — gritou. — Você está morto, está no túmulo, não está de jeito nenhum dentro de mim! — Tinha afastado o pai por completo, e não era certo ele voltar, arrastando-se por este hotel a 3200 km da cidade da Nova Inglaterra, onde vivera e morrera.

Jack se levantou, pegou o rádio e o espatifou no chão, espalhando molas e válvulas, como se fosse o resultado de uma louca brincadeira de elevador que não deu certo. A voz do pai desapareceu, deixando apenas sua voz, a voz de Jack, a voz de Jacky gritando na realidade fria do escritório.

— … morto, você está morto, você está morto!

E o ruído assustador dos pés de Wendy batendo no chão sobre sua cabeça, a voz assustada e amedrontada da esposa:

— Jack? Jack!

Ele ficou olhando o rádio despedaçado. Agora só o snowmobile no depósito poderia colocá-los em contato com o mundo exterior.

Colocou as mãos nos olhos e apertou as têmporas. Ele estava ficando com dor de cabeça.

27

CATATONIA

Wendy saiu de meia pelo corredor e desceu a escada de dois em dois degraus até o saguão. Não olhou para o lance atapetado que levava ao segundo andar,

mas, se olhasse, teria visto Danny, quieto e calado, os olhos perdidos no espaço, o polegar na boca, a gola e os ombros da camisa molhados. Havia hematomas no pescoço e debaixo do queixo.

Os gritos de Jack haviam cessado, mas isso não ajudara a diminuir seu pavor. Arrancada no meio do sono pela voz do marido, naquele velho tom de valentão de que se recordava tão bem, ainda sentia como se estivesse sonhando. Mas uma parte dela sabia que estava acordada, e isso a aterrorizava mais. Imaginava que entraria no escritório e encontraria o marido, bêbado e confuso, em cima de Danny.

Empurrou a porta e Jack ali estava, esfregando as têmporas com os dedos.

O rosto dele estava cadavérico. O radiotransmissor, a seus pés, em cacos.

— Wendy? — perguntou incerto. — Wendy…?

A confusão pareceu crescer no instante em que ela viu o rosto verdadeiro de Jack, aquele que ele em geral escondia tão bem. Era um rosto de infelicidade desesperada, de um animal preso numa armadilha que estava acima de sua capacidade de decifrar e desarmar. Então, os músculos começaram a trabalhar, começaram a se contorcer debaixo da pele, a boca começou a tremer sem firmeza, o pomo de adão começou a subir e a descer.

A confusão e o espanto de Wendy estavam encobertos pelo choque: ele ia chorar. Já o tinha visto chorar antes, mas nunca depois que parara de beber…

E, mesmo naquela época, só acontecia se ele estivesse muito bêbado e sentindo um remorso patético. Era um homem firme, extremamente duro, e sua perda de controle mais uma vez a apavorava.

Ele veio em sua direção, em lágrimas. A cabeça sacudia involuntariamente, como que num esforço infrutífero para conter a tempestade emocional, e o peito se contraía em um suspiro convulsivo que foi expelido com um imenso soluço angustiante. Os pés tropeçaram nos destroços do rádio, e ele quase caiu em cima de Wendy, que cambaleou com seu peso. Sentiu seu hálito, e não tinha cheiro de bebida. Claro que não, não havia bebida por aqui.

— O que houve? — perguntou, controlando-se o máximo. — Jack, o que houve?

Mas ele apenas soluçava, agarrando-se a Wendy, quase a sufocando, com a cabeça enterrada em seus ombros numa atitude desamparada, nervosa, reprimida. Os soluços eram fortes e violentos. Ele tremia dos pés à cabeça.

— Jack? O que está acontecendo? Me diga o que houve!

Finalmente, os soluços começaram a se transformar em palavras, a princípio incoerentes, mas se tornaram mais claras à medida que as lágrimas

se esgotavam.

— … pesadelo, acho que foi um pesadelo, mas foi tão real, eu… foi minha mãe dizendo que papai ia aparecer no rádio e eu… ele estava… ele estava me dizendo para… não sei, ele gritava comigo… e então quebrei o rádio… para fazer ele se calar. Para fazer ele se calar. Ele está morto. Meu Deus, Wendy, meu Deus. Nunca tive um pesadelo assim. Nunca mais quero ter outro.

Cristo! Foi horrível.

— Você simplesmente cochilou no escritório?

— Não… não aqui. Lá embaixo. — Jack estava um pouco mais consciente agora, não se apoiava mais nela, e o constante movimento de sua cabeça diminuiu e depois parou. — Eu estava olhando uns papéis velhos. Sentado numa cadeira. Notas de leite. Coisa boba. E acho que simplesmente apaguei.

Foi quando comecei a sonhar. Devo ter andado dormindo até aqui. —

Ensaiou um sorriso trêmulo. — De novo.

— Jack, onde está Danny?

— Não sei. Não está com você?

— Ele não estava… lá embaixo com você?

Jack a olhou com preocupação, e seu rosto se contraiu ao ver a expressão dela.

— Nunca vai me deixar esquecer aquilo, não é, Wendy?

— Jack…

— Quando eu estiver no caixão, você vai se debruçar e dizer: “Bem feito, lembra quando quebrou o braço de Danny?”.

— Jack!

— Jack, o quê? — respondeu exaltado, dando um salto. — Vai negar que é nisto que está pensando? Que o machuquei? Que o machuquei uma vez e que poderia fazer isso de novo?

— Eu só quero saber onde ele está!

— Vá em frente, comece logo a berrar, isso vai fazer tudo melhorar, não vai?

Ela se virou e saiu pela porta.

Jack a observou sair, gélido por um momento, segurando em uma das mãos um mata-borrão coberto de cacos de vidro. Jogou o objeto na cesta de lixo e saiu correndo atrás dela, alcançando-a no saguão. Pôs as mãos sobre seus ombros e fez com que Wendy se virasse. A expressão de seu rosto estava rígida.

— Wendy, desculpe. Foi o pesadelo. Fiquei perturbado. Me perdoa?

— Claro — ela respondeu, sem modificar a expressão do rosto. Retirou as mãos dele de seus ombros tensos, caminhou até o meio do saguão e chamou.

— Ei, velhinho. Onde você está?

Silêncio novamente. Seguiu até as portas duplas do saguão, abriu uma delas e saiu pelo caminho que Jack havia limpado. Parecia mais uma trincheira; a neve amontoada estava na altura de seus ombros. Chamou Danny novamente, o ar saindo em uma fumaça branca. Quando entrou, começava a parecer amedrontada. Controlando sua irritação com ela, Jack perguntou moderadamente:

— Tem certeza de que ele não está dormindo no quarto?

— Já falei que ele estava brincando em algum lugar, enquanto eu tricotava.

Dava pra escutar a voz dele lá embaixo.

— Você cochilou?

— O que isso tem a ver? Sim. Danny?

— Você olhou o quarto dele quando desceu, agora?

— Eu… — ela parou.

Jack balançou a cabeça.

— Imaginei que não.

Jack começou a subir as escadas sem esperar por ela. Wendy o seguiu, quase correndo, mas ele subia os degraus dois a dois. Quase se chocou com ele, quando o marido subitamente parou. Ele ficou ali estático, olhando para cima, os olhos arregalados.

— O quê…? — começou ela, acompanhando seu olhar.

Danny estava lá, olhos vidrados, chupando o polegar. As marcas no pescoço eram cruelmente visíveis à luz das lamparinas elétricas.

— Danny! — gritou ela.

O grito quebrou a paralisia de Jack, e ambos subiram depressa até onde Danny estava. Wendy caiu de joelhos ao lado dele, acolhendo o menino em seus braços. Danny se deixou amparar docilmente, mas não retribuiu o abraço. Era como abraçar uma sacola, e o sabor do horror encheu a boca de Wendy. Danny se limitava a chupar o polegar, fixando o olhar distante na escadaria diante deles.

— Danny, o que aconteceu? — perguntou Jack, estendendo a mão para tocar o lado inchado do pescoço do menino. — Quem fez isso em v…

— Não encoste nele! — sussurrou Wendy. Apertou o filho nos braços, ficou de pé com ele no colo e se afastou até a metade da escadaria, antes que Jack fizesse outra coisa a não ser ficar ali parado, confuso.

— O quê? Wendy, o que, diabos, você está t…

— Não encoste nele! Mato você, se puser as mãos nele novamente!

— Wendy…

— Seu desgraçado!

Ela se virou e desceu correndo o resto da escada para o primeiro andar. A cabeça de Danny sacudia ligeiramente para cima e para baixo enquanto ela corria. O polegar continuava na boca. Seus olhos eram como vidros embaçados. Wendy dobrou à direita no patamar, e Jack ouviu seus passos se afastando. A porta do quarto bateu. Trinco fechando. Foi trancada. Breve silêncio. Depois, distante, palavras suaves e sussurradas de consolo.

Durante algum tempo, Jack ficou literalmente paralisado com tudo o que havia acontecido em um período tão curto. O sonho ainda parecia presente, pintando tudo com um leve sombreado irreal. Era como se tivesse tomado uma pequena dose de mescalina. Teria machucado Danny como Wendy estava pensando? Tentara estrangular o filho a pedido do pai morto? Não.

Nunca machucaria Danny.

( Caiu da escada, doutor. )

Nunca machucaria Danny agora.

( Como poderia saber que a bomba de inseticida estava com defeito? ) Nunca na vida havia sido intencionalmente mau, quando sóbrio.

( Exceto quando quase matou George Hatfield. )

— Não! — Gritou ele na escuridão. Dava murros na perna, repetidamente.

Wendy se sentou na poltrona acolchoada junto à janela, segurando Danny em seu colo, murmurando velhas palavras sem sentido, aquelas de que você nunca se lembra depois, independentemente da situação. O filho, aconchegado em seu colo, não fazia protestos, não demonstrava alegria, parecendo um desenho para ser recortado. Os olhos sequer se moveram em direção à porta, quando Jack gritou de algum lugar do corredor “Não!”.

A confusão desaparecera um pouco na mente de Wendy, que descobria agora algo ainda pior: pânico.

Jack havia feito isso, não tinha dúvida. Suas negações não significavam nada para ela. Achava perfeitamente possível que Jack, enquanto dormia, tivesse tentado estrangular Danny, da mesma forma que despedaçara o rádio.

Estava tendo uma espécie de colapso nervoso. Mas o que ela poderia fazer?

Não poderia ficar trancada ali no quarto para sempre. Também precisavam comer.

Havia, na realidade, uma pergunta, formulada de modo frio e pragmático

em seu subconsciente; era a voz de sua maternidade, uma voz fria e indiferente, que saía do círculo mãe-filho e se dirigia a Jack. Era uma voz que evocava autopreservação, mas somente depois de evocar preservação filial, e a pergunta era:

( Quão perigoso ele é exatamente? )

Ele negou ter feito isso. Havia ficado em choque ao ver o machucado, horrorizado com a débil e implacável perturbação de Danny. Se o fizera, uma parte distinta dele havia sido responsável. O fato de ter feito isso enquanto dormia era — de uma forma terrivelmente grosseira — encorajador. Não dava para confiar nele para tirá-los dali? Ele os levaria para longe. E depois…

Mas não podia imaginar outra cena além de Danny e ela chegando salvos ao consultório do dr. Edmonds, em Sidewinder. Não tinha nenhuma razão especial para ir mais adiante. A crise atual era mais do que suficiente para mantê-la ocupada.

Cantava baixinho para Danny, balançando o filho no colo. Os dedos sobre o ombro dele perceberam que a camisa estava úmida, mas não se incomodaram em transmitir a informação para o cérebro, ao menos superficialmente. Se fosse transmitida, talvez Wendy lembrasse que as mãos de Jack, quando a abraçou no escritório, aos soluços, estavam secas. Teria parado para pensar. Mas sua cabeça ainda estava pensando em outras coisas.

Precisava tomar uma decisão… aproximar-se de Jack, ou não?

Na realidade, não havia muito o que decidir. Não havia nada que pudesse fazer sozinha, nem mesmo descer com Danny para o escritório e pedir ajuda pelo radiotransmissor. O garoto sofrera um choque muito grande. Precisava ser levado rapidamente, antes que qualquer dano permanente pudesse ser causado. Recusava-se a acreditar que algum dano permanente já tivesse sido causado.

Ainda se sentia angustiada, procurando outra alternativa. Não queria expor Danny a Jack. Sabia que havia tomado uma decisão errada, quando foi contra seus instintos (e contra os de Danny), deixando que a neve os isolasse ali dentro… por causa de Jack. Outra decisão errada fora a de descartar a ideia do divórcio. Agora, estava praticamente paralisada com a possibilidade de estar cometendo outro erro, de que pudesse se arrepender a cada minuto de cada dia, pelo resto de sua vida.

Não havia nenhuma arma de fogo no hotel. Havia facas penduradas na cozinha, mas Jack estava no caminho.

Na tentativa de tomar a decisão correta, de encontrar uma alternativa, não

percebeu a ironia amarga de seus pensamentos: há uma hora, ela estava dormindo, convencida de que as coisas estavam bem, e que em breve melhorariam. Agora, considerava a possibilidade de usar uma faca de açougueiro contra o marido, se ele tentasse fazer algo com ela e o filho.

Finalmente, com as pernas trêmulas, ela se levantou, ainda com Danny nos braços. Não tinha jeito. Precisava admitir que Jack acordado era normal, e que ele a ajudaria a descer com Danny para encontrar o dr. Edmonds em Sidewinder. E, se Jack tentasse fazer qualquer coisa que não fosse ajudar, que Deus tomasse conta dele.

Foi até a porta e a destrancou. Levantando Danny até os ombros, abriu a porta e saiu para o corredor.

— Jack? — chamou, nervosa, sem resposta.

Em aflição crescente, caminhou até as escadas, mas não o encontrou lá. E, enquanto permaneceu perto das escadas, pensando no que faria depois, escutou uma canção vindo lá debaixo, sonora, irritada, amargamente satírica: Me role

na grama,

me role, me deite e faça de novo.

Wendy sentia mais medo de sua voz do que de seu silêncio, mas não tinha jeito. Desceu as escadas.

28

“FOI ELA!”

Jack ficou parado na escada, ouvindo o consolador cantarolar que vinha de trás da porta trancada. Aos poucos, sua confusão foi dando lugar à raiva. Na realidade, as coisas nunca mudaram. Não para Wendy. Ele poderia passar vinte anos sem beber e, ainda assim, quando chegava em casa à noite e ela o abraçava à porta, ele via e sentia uma pequena dilatação das narinas da esposa, tentando perceber vestígios de uísque ou gim. Ela sempre deduzia o pior; se ele e Danny sofressem um acidente de carro, causado por um motorista cego e bêbado que tivesse tido um colapso pouco antes da colisão, em silêncio ela culparia Jack pelos ferimentos de Danny e lhe daria as costas.

O rosto dela pegando Danny no colo surgiu em sua mente e, de súbito, com os punhos cerrados, ele sentiu desejo de dar vazão à raiva que estava contendo.

Ela não tinha o direito!

Sim, talvez no início ela tivesse. Ele havia sido um beberrão, feito coisas terríveis. O fato de ter quebrado o braço de Danny era uma coisa terrível.

Mas, se um homem se regenera, por acaso não merece crédito, mais cedo ou mais tarde? E, se não conseguir, não merece uma segunda chance? Se um pai acusa sempre sua virtuosa filha de viver trepando com todos os rapazes da escola, não é de esperar que ela se canse e passe a corresponder às acusações do pai? E se uma esposa, secretamente — não tão secretamente —, continua a acusar seu marido abstêmio de bêbado…

Assim, ele se levantou, desceu devagar o primeiro lance da escada e ficou ali parado por um momento. Tirou o lenço do bolso traseiro, enxugou os lábios e considerou a hipótese de descer para o primeiro andar e esmurrar a porta, ordenando que o deixasse entrar para ver o filho. Ela não tinha o direito de ser tão desgraçadamente arbitrária.

Mas, bem, mais cedo ou mais tarde, ela teria que sair, a não ser que planejasse algum tipo de jejum para os dois. Um sorriso ameaçador brotou de seus lábios com esse pensamento. Deixaria que viesse até ele. Ela viria no momento certo.

Desceu ao térreo, ficou parado sem motivo junto ao balcão de recepção por um momento e, em seguida, virou para a direita. Chegou ao restaurante e parou logo após a entrada. As mesas vazias, as toalhas brancas muito limpas, sob capas de plástico transparente, reluziam. Estava tudo deserto agora mas ( A ceia será servida às 20h

Retirada das Máscaras e Baile à Meia-Noite)

Jack caminhou por entre as mesas, por um momento se esqueceu da mulher e do filho lá em cima, se esqueceu do sonho, do rádio quebrado, dos machucados. Passou os dedos pela capa lustrosa de plástico, tentando imaginar como teria sido aquela noite quente de agosto de 1945, a guerra vencida, o futuro tão novo e com tantos caminhos, como uma terra de sonhos.

As lanternas japonesas iluminadas e multicoloridas penduradas em toda a entrada, a luz dourada que saía dessas janelas altas que estavam agora cobertas de neve. Homens e mulheres fantasiados, aqui uma princesa, ali um cavaleiro de botas de cano longo, joias e imaginação faiscando por toda a parte, dança, bebida à vontade, primeiro vinho, em seguida coquetéis, e depois talvez cerveja misturada com uísque, o volume da conversa cada vez mais alto, até que o grito animado saísse do tablado do maestro da orquestra:

“Retirem as máscaras! Retirem as máscaras!”.

( E a Morte Rubra dominava…)

Viu-se parado num canto do restaurante, junto à porta de vaivém estilizada do Salão Colorado, onde, naquela noite de 1945, a bebida toda era liberada.

( Aproxime-se do bar, cara, a bebida é toda por conta da casa. ) Jack abriu a porta de vaivém e penetrou nas sombras profundas do bar. Já estivera ali antes, para conferir o inventário que Ullman deixara, e sabia que o lugar estava completamente limpo. As prateleiras estavam vazias. Mas, agora, algo estranho aconteceu: na penumbra provocada pela luz filtrada que vinha do restaurante (que por si só já era bastante fraca, por causa da neve que bloqueava as janelas), pensou ver fileiras e mais fileiras de garrafas cintilando no escuro atrás do bar, além de sifões e cerveja pingando das três torneiras muito polidas. Sim, sentia até o cheiro de cerveja, aquele cheiro úmido e fermentado, em nada diferente do cheiro que envolvia o rosto de seu pai, toda noite quando voltava do trabalho.

Com os olhos arregalados, tateou à procura do interruptor, e a luz fraca e aconchegante do bar acendeu, lâmpadas de 20 watts que estavam no topo dos lustres coloniais.

As prateleiras estavam todas vazias. Não tinham sequer acumulado poeira.

As torneiras de cerveja estavam vazias, bem como os ralos cromados, abaixo delas. À direita e à esquerda, os assentos com encostos revestidos de veludo pareciam homens altos de costas, em mesas que pareciam ter sido projetadas para dar o máximo de privacidade ao casal que ali estivesse. Bem em frente, do outro lado do tapete vermelho, quarenta bancos ficavam em volta do bar, formando o desenho de uma ferradura. Cada banco era forrado de couro e trabalhado com marcas de gado — “H” dentro de um círculo, “D” entre barras, “W” em meio círculo, “B” deitado.

Foi chegando mais perto, espantado e sacudindo um pouco a cabeça. Foi como aquele dia no parquinho, quando… mas não fazia sentido pensar nisso.

Ainda assim, ele podia jurar que tinha visto aquelas garrafas, mesmo que vagamente, da mesma forma que era possível visualizar a silhueta escura de móveis numa sala com as cortinas fechadas. Reflexos suaves no vidro. A única coisa que ainda restava era o cheiro de cerveja. E Jack sabia que era um cheiro que, depois de algum tempo, impregnava a madeira de todos os bares do mundo e não saía com nenhum produto de limpeza até agora inventado. O

cheiro aqui ainda parecia mais forte… quase fresco.

Ele se sentou num banco e enterrou os cotovelos na borda revestida de

couro. À esquerda, viu um pratinho de amendoim… vazio, claro. Era o primeiro bar onde pisava em dezenove meses, e a porcaria estava vazia…

para a sua sorte. Mesmo assim, uma amarga e forte onda de nostalgia caiu sobre ele, e o desejo de beber, físico e ardente, pareceu crescer da barriga para a garganta, chegando à boca e ao nariz, enrugando os tecidos por onde passava, fazendo todo o seu corpo implorar por alguma coisa fria, molhada e longa.

Olhou novamente as prateleiras, numa esperança irracional e desesperada de que estivessem tão vazias quanto antes. Sorriu de dor e frustração. As mãos cerradas lentamente faziam minúsculos arranhões no forro de couro da beirada do balcão.

— Oi, Lloyd — disse ele. — Um pouco desanimado hoje, não é?

Lloyd concordou, e perguntou o que ele ia querer.

— Fico feliz por você ter perguntado — respondeu Jack. — Feliz mesmo.

Pois tenho duas notas de vinte e duas notas de dez na carteira. E não gostaria que elas ficassem quietinhas onde estão até o próximo mês de abril. Não há nenhuma loja de conveniência por aqui, acredita? E eu que achava que elas existiam até na porra da Lua.

Lloyd assentiu.

— Veja bem — continuou Jack. — Prepare para mim exatamente vinte martínis. Exatamente vinte, isso mesmo, pronto. Um por cada mês que passei sem beber, e mais um de reforço. Pode fazer isso, não pode? Não está muito ocupado?

Lloyd respondeu que não, não estava nada ocupado.

— Bom rapaz! Enfileire esses marcianos aqui em cima do balcão, que eu vou pegar um por um. São os ossos do ofício, Lloyd, meu velho amigo.

Lloyd voltou ao trabalho. Jack enfiou a mão no bolso procurando a carteira, e em vez disso encontrou um vidro de Excedrin. Sua carteira estava na escrivaninha do quarto que a magrela da esposa fizera a gentileza de trancar. Beleza, Wendy. Sua piranha desgraçada.

— Acho que estou duro — comentou Jack. — Como está meu crédito nesta espelunca, por falar nisso?

Lloyd disse que o crédito estava bom.

— Ótimo. Gosto de você, Lloyd. Sempre foi o melhor de todos. O melhor barman de norte a sul, de leste a oeste.

Lloyd agradeceu o elogio.

Jack tirou a tampa do vidro de Excedrin, pegou dois comprimidos e os

jogou na boca. Sentiu o gosto ácido e familiar.

Teve uma estranha sensação de que as pessoas o observavam, com curiosidade e algum desprezo. As mesas atrás estavam cheias: havia senhores de meia-idade e jovens maravilhosas, todos eles fantasiados, assistindo friamente a este triste ensaio de artes cênicas.

Jack rodopiou no banco.

As mesas estavam todas vazias, enfileiradas desde a porta do salão, à esquerda, até a curva do bar em ferradura, à direita, onde havia um pequeno espaço ocupado pelo bar. Assentos e encostos forrados de couro. Mesas lustrosas de fórmica escura, um cinzeiro sobre cada uma, uma caixa de fósforos em cada cinzeiro, as palavras Salão Colorado gravadas em dourado acima da porta de vaivém.

Ele se virou, engolindo com uma careta o resto do Excedrin que se dissolvia.

— Lloyd, você é incrível. Já está tudo pronto. Sua rapidez só é ultrapassada pela beleza de seus olhos napolitanos cheios de alma. Saúde.

Jack contemplou os vinte drinques imaginários, as gotinhas de condensação nos copos de martíni, cada um com um palito enfiado numa gorda azeitona verde. Podia quase sentir o cheiro de gim no ar.

— Abstêmio. Já conheceu algum cavalheiro que tivesse embarcado no trem dos abstêmios?

Lloyd admitiu ter encontrado homens desse tipo, de tempo em tempo.

— Teve contato novamente com algum desses homens depois de ele voltar a beber?

Lloyd honestamente não se recordava.

— Então é porque você nunca encontrou nenhum deles — concluiu Jack.

Envolveu o primeiro copo com a mão e o levou até a boca, que estava aberta.

Engoliu e, em seguida, o jogou por trás dos ombros. As pessoas acabavam de voltar do baile à fantasia e o analisavam, rindo às escondidas. Podia senti-las.

Se o fundo do bar tivesse espelhos no lugar daquelas prateleiras idiotas, poderia vê-las. Deixe que olhem. Que se danem. Quem quiser olhar, que olhe. — Não, você nunca voltou a encontrar nenhum deles — repetiu. —

Poucos homens voltam a beber, mas aqueles que voltam vêm com uma história terrível para contar. Quando você embarca nesse trem, parece que você está no vagão mais limpo e claro que já viu na vida, com rodas de três metros de altura para que a cama se mantenha bem longe da sarjeta onde os bêbados estão caídos, com seus sacos cheios de vinho vagabundo e bourbon

de segunda. Você fica livre dos olhares maldosos das pessoas que pedem para você mudar de atitude ou mudar de cidade. Olhando da sarjeta, aquele é o trem mais bonito que você já viu, Lloyd, meu querido. Enfeitado de bandeirinhas, uma banda marcial na frente e três dançarinas de cada lado, girando seus bastões e mostrando as calcinhas. Cara, você precisa embarcar nesse trem e se afastar dos bêbados que tomam álcool puro, cheiram o próprio vômito para ficarem altos de novo e procuram guimbas de cigarro na sarjeta.

Bebeu mais dois drinques imaginários e jogou os copos para trás. Quase podia escutar os vidros se despedaçando no chão. Macacos me mordam se não estava mesmo ficando alto. Era o Excedrin.

— Então, você embarca — continuou a Lloyd —, e como é bom estar ali.

Meu Deus, de verdade. O trem é a coisa melhor e mais bonita de todo o desfile. Todo mundo está nas ruas, batendo palmas, gritando e acenando para você. Menos os bêbados arriados na sarjeta. Aqueles caras costumavam ser seus amigos, mas agora tudo é passado.

Jack levantou a mão vazia até a boca e bebeu o quarto… faltavam dezesseis. Progredia sensivelmente. Se mexeu um pouco no banco. Deixe que eles olhem, se é assim que querem. Tirem uma foto, gente, uma lembrança para a posteridade.

— Então você começa a ver as coisas sob a nova perspectiva, Lloyd.

Coisas que não podia ver quando estava na sarjeta. O chão do vagão, por exemplo, não tinha nada, só tábuas de pinho. Tão frescas que ainda expeliam seiva. Se você tirasse os sapatos, com certeza absoluta se machucaria com uma farpa. As únicas coisas que existem dentro do vagão são uns bancos compridos, com encostos altos, sem almofadas para você se sentar. Na verdade não são nada de mais, simples bancos de igreja com um livrinho de hinos a cada dois metros. Todas as pessoas sentadas nos bancos do vagão são mulheres sem graça, de vestidos longos, com o colarinho alto e o cabelo preso num coque tão apertado que quase se pode ouvi-lo estalando. E todos os rostos são rígidos, pálidos, cheios de fervor, todos cantando “Vamos nos encontrar no riiio, o lindo, lindo riiiiio”, e eis ali na frente uma vaca escrota de cabelos louros, tocando órgão e pedindo para todos cantarem mais alto, cantarem mais alto. Alguém enfia um livrinho de hinos na sua mão e diz

“Cante, irmão. Se espera continuar no vagão, tem que cantar de manhã, de tarde e de noite. Principalmente de noite”. E é quando você cai em si e vê o que o vagão realmente é , Lloyd. É uma igreja com grades nas janelas, uma

igreja para as mulheres e uma prisão para você.

Parou. Lloyd tinha ido embora. Pior ainda: Lloyd nunca tinha estado ali.

Os drinques nunca tinham estado ali. Só as pessoas nas mesas, as pessoas do baile à fantasia, Jack quase podia ouvir as gargalhadas sufocadas, quando levavam as mãos à boca e apontavam, os olhos brilhando cheios de crueldade.

Rodopiou mais uma vez.

— Me deixem…

(sozinho?)

Todas as mesas estavam vazias. As gargalhadas morreram como uma folha de outono. Jack olhou para o saguão vazio por um instante, os olhos bem abertos e sem expressão. Uma pulsação visível no centro da testa. E em sua alma uma certeza se formava, e essa certeza era a de que ele estava ficando louco. Sentiu vontade de pegar o banco do bar a seu lado, virá-lo de cabeça para baixo e sair do lugar como um furacão. Em vez disso, rodopiou e começou a cantar:

Me role

na grama,

me role, me deite e faça de novo.

O rosto de Danny surgiu à sua frente. Não o rosto normal de Danny, alegre e atento, os olhos brilhantes e vívidos, mas o rosto catatônico e doentio de um estranho, de olhos sem vida e opacos, chupando o polegar, como um bebê. O

que Jack estava fazendo ali sentado, falando sozinho, como um adolescente emburrado, enquanto o filho estava lá em cima em algum lugar, agindo como um louco, da mesma maneira que Wally Hollis disse que Vic Stenger estava, antes de OS HOMENS DE JALECO BRANCO terem vindo buscá-lo?

( Mas nunca encostei as mãos nele! Merda, não encostei! )

— Jack? — A voz era tímida e hesitante.

Ficou tão assustado que quase caiu do banco. Wendy estava de pé, junto à porta de vaivém. Danny, em seus braços, lembrava um boneco de cera de um espetáculo de terror. Os três ali formavam uma quadro vivo que atingiu Jack intensamente: era como se fossem atores, pouco antes de encerrar o segundo ato em uma velha peça teatral contra o alcoolismo, com uma produção tão pobre que o cenógrafo esquecera de encher as prateleiras do Antro do Pecado.

Continuar: parte 2 de 4