O Iluminado

Stephen King · Capítulo 3 de 9 · parte 1/5

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O Iluminado

Terceira parte: O ninho de vespas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Wendy disse então:

— Veja só, velhinho. Seu nariz está escorrendo como uma mangueira de incêndio. Vamos entrar.

E entraram, fechando a porta com força contra o incessante uivo do vento.

Terceira parte

O ninho de vespas

14

NO TELHADO

“Ai, sua filha da puta desgraçada!”

Jack Torrance gritou tanto de susto quanto de dor, dando um tapa com a mão direita na camisa de cambraia azul, afugentando a grande e lenta vespa que o ferroara. Em seguida, ele começou a subir pelo telhado o mais rápido que podia, olhando por sobre os ombros para ver se os irmãos e irmãs da vespa haviam saído do ninho recém-descoberto, para lhe declarar guerra. Se isso acontecesse, não seria nada bom; o ninho ficava entre ele e a escada, e o alçapão que dava para o sótão estava trancado por dentro. O telhado ficava a vinte metros do chão cimentado do pátio, entre o hotel e a grama.

No entanto, o ninho estava parado e tranquilo.

Jack suspirou, aborrecido, por entre os dentes. No topo do telhado, sentou-se com as pernas abertas e examinou o indicador direito. Já estava inchando, e ele supôs que precisaria rastejar até a escada, passando pelo ninho, para poder descer e colocar gelo no dedo.

Era 20 de outubro. Wendy e Danny tinham ido a Sidewinder no caminhão do hotel (um Dodge velho e barulhento que ainda assim era mais digno de confiança do que o Volkswagen que agora resfolegava gravemente, parecendo estar em estado terminal) para comprar leite e fazer as compras de Natal. Ainda estava cedo para essas compras, mas não era possível prever quando a neve chegaria para ficar. Já tinha caído uma neve fraquinha, e em alguns lugares a estrada abaixo do Overlook estava escorregadia.

Até agora, o outono tinha sido de uma beleza quase sobrenatural. As três semanas que já haviam passado ali tinham sido de dias dourados. Manhãs frias de um grau abaixo de zero davam lugar a tardes de temperatura por volta dos quinze graus, perfeitas para subir no telhado da ala oeste do Overlook e trabalhar na substituição das telhas. Jack admitiu com franqueza para Wendy que poderia ter terminado o trabalho quatro dias antes, mas não viu nenhuma necessidade real de se apressar. A vista dali de cima era espetacular, mesmo comparada à da Suíte Presidencial. Mais importante do que o próprio trabalho era a calma. No telhado, ele sentia que estava se curando das feridas sofridas nos últimos três anos. No telhado, sentia-se em paz. Aqueles três anos começavam a parecer pesadelos turbulentos.

As telhas de madeira estavam podres, algumas totalmente quebradas pelas

tempestades do inverno anterior. Ele removia todas gritando “Lá vai bomba!”, ao jogá-las para baixo, pois não queria que Danny fosse atingido, caso estivesse andando por ali. Estava arrancando a calafetagem estragada quando a vespa o picou.

A parte irônica da história é que ele se lembrava de tomar cuidado sempre que subia no telhado, ficando de olho nas vespas; comprara aquela bomba de inseticida para usar se fosse preciso. Mas, naquela manhã, a calma e a paz tinham sido tão completas que sua atenção falhara. Aos poucos ia voltando ao universo da peça que estava criando, rascunhando na cabeça uma cena qualquer em que trabalharia mais tarde. A peça ia bem e, apesar de Wendy não ter feito muitos comentários, sabia que ela estava gostando. Tivera um bloqueio na cena crucial entre Denker, o diretor sádico, e Gary Benson, o jovem herói, durante os últimos infelizes seis meses em Stovington. Nesse período, a ânsia de beber era tanta que só com muito esforço conseguia se concentrar nas atividades da sala de aula, quem dirá suas ambições literárias extracurriculares.

Nas últimas doze noites, porém, sentado diante da máquina de escrever Underwood profissional que pegara emprestado do escritório principal, no andar de baixo, o bloqueio praticamente desaparecera. Tão magicamente quanto algodão-doce se dissolvendo na boca. A descrição que sempre lhe faltara sobre o caráter de Denker surgira quase sem esforço, e assim a maior parte do segundo ato foi reescrita, girando em torno da nova cena. E o terceiro ato, cada vez mais claro, já se elaborava na sua mente, quando a vespa interrompeu sua meditação. Pensou que pudesse terminar o rascunho em duas semanas e ter o original definitivo da maldita peça até o Ano-Novo.

Jack tinha uma agente em Nova York, uma ruiva durona chamada Phyllis Sandler que fumava cigarros Herbert Tareyton, bebia Jim Beam em copos de papel e achava que a literatura começara e terminara com Sean O’Casey. Ela já havia vendido três contos de Jack, incluindo o publicado na Esquire. Ele escreveu a ela, contando sobre a peça. Chamada A pequena escola, a obra narrava o conflito básico entre Denker, um estudante privilegiado que fracassara ao se tornar o diretor estúpido de uma escola preparatória, na Nova Inglaterra da virada do século XIX, e Gary Benson, o aluno que Jack via como uma versão de si mesmo. Phyllis respondera demonstrando interesse e recomendou que ele lesse O’Casey antes de começar a peça. Naquele ano, ela escrevera mais uma vez, perguntando por onde diabos andava a obra. Jack respondera evasivamente que A pequena escola estava indefinidamente — e

talvez definitivamente — parada entre a mão e a página, “naquele imenso Deserto de Góbi intelectual, conhecido como bloqueio criativo do autor”.

Agora, parecia que ela finalmente receberia a peça. Se era boa ou não, ou se seria produzida, era outro negócio. Jack não parecia dar muita importância a esse tipo de coisa. Sentia-se como se a peça em si, a obra como um todo, fosse uma síntese, um símbolo colossal dos anos tristes na escola preparatória de Stovington, do casamento que quase destruíra. Como se fosse um rapaz maluco dirigindo um calhambeque; o monstruoso ataque ao filho, o incidente com George Hatfield no estacionamento, que hoje não via mais como uma simples explosão de seu temperamento. Achava agora que parte do seu problema com a bebida resultara de um desejo inconsciente de se ver livre de Stovington e da segurança que a escola representava, que sufocava qualquer estímulo criativo que tivesse. Havia parado de beber, mas a necessidade de se libertar era igualmente grande. Então aconteceu George Hatfield. Agora, tudo o que restava daqueles dias era uma peça sobre a escrivaninha no quarto que dividia com Wendy. Depois de finalizada e enviada à minúscula agência de Phyllis, em Nova York, a obra permitiria que ele se voltasse para outras atividades. Não um romance, não estava preparado para se meter no pântano de outro empreendimento literário por mais três anos. Porém, com certeza escreveria mais contos. Talvez um volume deles.

Movimentando-se com cuidado, Jack engatinhou telhado abaixo, passando pela linha de demarcação onde as telhas verdes davam lugar à seção do telhado que ele tinha acabado de limpar. Chegou na beirada à esquerda do ninho das vespas que descobrira e se moveu cauteloso em sua direção, pronto para recuar e descer correndo a escada caso a situação se complicasse.

Ele se inclinou sobre o buraco e o examinou.

O ninho estava lá dentro, encravado entre a antiga calafetagem e o forro de tábuas do telhado. Era enorme. A acinzentada bola de papel parecia a Jack ter quase sessenta centímetros de diâmetro. A forma não era perfeita, pois o espaço entre os calafetos e as tábuas era muito estreito, mas ainda assim ele achava que os pequenos insetos haviam executado um trabalho razoavelmente respeitável. A superfície do ninho estava cheia de vespas lentas e pesadas. Não eram aquelas abelhas com listras pretas e amarelas, menores e mais calmas, e sim marimbondos. Tinham ficado lerdos devido à queda de temperatura no outono, mas Jack, que entendia de vespas desde a infância, deu-se por satisfeito por ter sido picado apenas uma vez. E, pensou, se Ullman tivesse contratado alguém para fazer o trabalho em pleno verão, o

cara que arrancasse aquele pedaço de calafetagem teria uma enorme surpresa.

De verdade. Quando uma dúzia de vespas perigosas ataca você de uma só vez e começa a lhe ferroar o rosto, as mãos e os braços, picando as pernas através das calças, é inteiramente plausível se esquecer da altura de vinte metros do solo. Seria perfeitamente possível sair correndo para fora do telhado enquanto se tenta fugir delas. Tudo por causa dessas coisinhas, a maior delas com apenas a metade do comprimento de um toco de lápis.

Lera em algum lugar — num suplemento de domingo ou em algum artigo de revista — que sete por cento de todas as fatalidades automobilísticas são inexplicáveis. Nenhuma falha mecânica, nem excesso de velocidade, bebida alcoólica ou mau tempo. Simplesmente um carro se acidenta em áreas desertas das estradas (um único morto, o motorista, sem poder explicar o que aconteceu). O artigo incluía uma entrevista com um policial; ele teorizava que muitos desses tais “acidentes inexplicáveis” resultavam de insetos no carro. Vespas, abelhas, possivelmente até aranhas ou mariposas. O motorista entra em pânico, tenta dar um golpe violento no inseto ou abrir a janela para deixá-lo sair. Provavelmente o inseto o pica. Talvez o motorista perca o controle. De qualquer forma, é bum… e acabou. E o inseto, geralmente ileso, zumbindo feliz, deixa os destroços em chamas à procura de pastos melhores.

O policial era a favor de que os legistas procurassem veneno de insetos ao fazerem a autópsia em tais vítimas, lembrava-se Jack.

Observando o ninho agora, parecia que ele servia tanto como um compreensível símbolo do que Jack vivera quanto como um presságio de dias melhores. De que outra forma se poderia explicar o que lhe acontecera?

Ainda sentia que as experiências negativas que tivera em Stovington precisavam ser analisadas tendo Jack Torrance na voz passiva. Não fizera coisas; coisas haviam sido feitas a ele. Conhecera muitas pessoas do corpo docente de Stovington, duas delas exatamente no Departamento de Inglês, que bebiam muito. Zack Tunney tinha o hábito de comprar um barril de cerveja nas tardes de sábado, enfiá-lo no meio da neve do quintal e beber tudo no dia seguinte, assistindo a futebol americano e a filmes antigos. Ainda assim, a semana inteira, Zack ficava sóbrio como um juiz: um pequeno coquetel no almoço era uma festa.

Já Al Shockley e Jack eram alcoólatras. Procuravam-se um ao outro como dois náufragos, que ainda eram sociáveis o bastante para preferirem afogar-se juntos, em vez de se acabarem sozinhos. Em vez de sal, o mar deles tinha cevada.

Olhando para as vespas, enquanto elas lentamente executavam seu trabalho instintivo antes que o inverno chegasse para matá-las e deixar apenas a rainha hibernada, Jack ia mais longe. Ainda era um alcoólatra, sempre seria. Talvez o fosse desde aquela festa, no segundo ano do secundário, quando bebera seu primeiro drinque. Não tinha nada a ver com força de vontade, moralidade, fraqueza ou caráter. Havia um parafuso solto em algum lugar lá dentro, ou um fusível qualquer que não funcionava, e ele tinha sido impelido pela correnteza, a princípio devagar, depois acelerando, à medida que Stovington o pressionava. Ou como se estivesse num escorrega gigante, onde, no final, havia uma bicicleta despedaçada e sem dono, e um filho com um braço quebrado. Jack Torrance na voz passiva. O temperamento era a mesma coisa.

Ele tinha passado a vida inteira tentando controlá-lo. Recordava-se de levar palmadas de uma vizinha, quando tinha sete anos, porque brincava com fósforos. Outra vez, saiu e jogou uma pedra num carro que passava. O pai, tendo visto, voou em cima do pequeno Jacky, aos berros. Deixou seu traseiro vermelho… e o olho roxo. E, quando o pai voltou para dentro de casa, resmungando, para assistir à televisão, Jack viu um cachorro vira-lata e o chutou para a sarjeta. Envolveu-se em duas dúzias de brigas no primário, mais outras ainda no ginásio, que lhe garantiram duas suspensões e incontáveis castigos, apesar das boas notas. O futebol funcionava como uma válvula parcial de escape, apesar de se lembrar perfeitamente de que passava os jogos inteiros puto da vida, bloqueando e derrubando os jogadores como se fossem seus inimigos pessoais. Era um bom jogador, participara dos campeonatos intercolegiais do ginásio e secundário e sabia muito bem que era tudo graças ao temperamento ruim… Ou tudo culpa dele. Não gostava de futebol americano. Toda partida era um horror.

E, ainda assim, apesar de tudo, não se sentia um filho da puta. Nunca se sentira malvado. Julgava-se um sujeito bacana que só precisava aprender a lutar contra seu mau gênio, antes que se metesse em confusão. Assim como tinha que aprender a lutar contra a bebida. Mas era um alcoólatra, tanto emocional quanto físico, e ambos, sem dúvida, estavam ligados em algum ponto em seu interior, onde não se podia ver. Mas não importava muito se as causas primárias eram relacionadas ou independentes; sociais, psicológicas ou fisiológicas. Precisava arcar com as consequências: as palmadas, as surras de seu velho, as suspensões, as tentativas de explicar o uniforme de escola rasgado nas brigas no parque. E, mais tarde, as ressacas, a lenta dissolução de seu casamento, aquela única roda de bicicleta com os raios tortos apontados

para o céu, o braço quebrado de Danny. E George Hatfield, naturalmente.

Sentiu que tinha inconscientemente enfiado a mão no Maior Ninho de Vespas do Mundo. Como imagem, era péssimo. Como perfil da realidade, podia ser considerado útil. Enfiara a mão numa calafetagem podre em pleno verão, e aquela mão e o braço inteiro consumiram-se em fogo sagrado, destruindo todo pensamento consciente, fazendo o conceito de comportamento civilizado se tornar esquecido. É possível esperar que alguém aja como um ser humano racional, quando sua mão está sendo espetada por malditas agulhas incandescentes? É possível esperar que se ame o próximo, quando uma nuvem escura e furiosa surge de um buraco no tecido das coisas (tecido esse que você julgava tão inocente) e se lança como flecha em sua direção? É possível que uma pessoa seja considerada responsável por suas próprias ações, quando enlouquece em cima de um telhado, sem saber para onde correr, em pânico, sabendo que um passo em falso poderá levá-la acidental e desastradamente para a morte, no concreto, vinte metros abaixo?

Jack não achava que isso fosse possível. Quando alguém inadvertidamente enfia a mão em um ninho de vespas, é como se fizesse um pacto com o diabo, jogando para o alto seu eu civilizado com os conceitos de amor, respeito e honra. Tudo simplesmente acontece. Passivamente, sem nenhum aviso, você deixa de ser uma criatura racional e se torna um ser irracional; de homem civilizado a deplorável macaco, em apenas cinco segundos.

Pensou em George Hatfield.

Alto e louro, George era um rapaz de uma beleza insolente. Usando jeans apertados e desbotados, exibindo os braços bronzeados sob o suéter de Stovington com as mangas cuidadosamente dobradas até os cotovelos, ele fazia Jack se lembrar de um Robert Redford jovem. Jack também duvidava que George tivesse muita dificuldade em arranjar mulheres — não mais do que aquele jovem demônio do futebol americano que Jack Torrance havia sido dez anos antes. Podia dizer, honestamente, que não tinha inveja de George ou de sua aparência. Aliás, começara quase que inconscientemente a visualizar George como a encarnação do herói de sua peça, Gary Benson — o oposto do sombrio Denker, fracassado e envelhecido, que passou a odiar Gary com intensidade. Mas ele, Jack Torrance, nunca tinha se sentido assim em relação a George. Se algum dia sentiu, não se deu conta. Estava certo disso.

George era um aluno relapso em Stovington. Astro do futebol e do beisebol, seu programa curricular não era dos mais difíceis, e ele se

contentava com notas quatro e esporádicos sete em história e biologia. No campo, era um competidor feroz, mas na sala de aula era um aluno indiferente e distraído. Jack estava habituado com o tipo, mais pela própria vivência como estudante secundário e universitário do que por suas observações como professor. George Hatfield era um atleta. Podia ser uma figura calma e indulgente na sala de aula, mas, quando lhe eram aplicados os estímulos competitivos certos (como eletrodos nas têmporas do monstro de Frankenstein, pensou Jack), podia se transformar num colosso.

Em janeiro, George se candidatara, com mais doze alunos, à equipe de debates. Fora muito franco com Jack. O pai era advogado corporativo e queria que o filho seguisse a mesma carreira. George, que não tinha vocação para mais nada, cedeu. Suas notas não eram das melhores, mas, afinal de contas, Stovington era apenas uma escola preparatória, e ainda havia tempo.

Se as possibilidades se concretizassem, o pai poderia mexer os pauzinhos. A própria habilidade atlética de George abriria ainda outras portas. Mas Brian Hatfield queria que o filho fizesse parte da equipe de debates. Seria bom como experiência, e conselhos de admissão das faculdades de direito sempre davam valor a esse tipo de atividade. Então, George entrou para a equipe de debates, e, em fins de março, Jack o retirou do grupo.

Os debates de fim de inverno entre as diversas equipes tinham incendiado o espírito competitivo de George Hatfield. Ele se tornou um debatedor determinado e inflexível, preparando com ferocidade sua posição pró ou contra. Não importava que o assunto fosse legalização da maconha, restabelecimento da pena de morte ou subsídios à exploração do petróleo.

George desenvolveu a habilidade, e seu nível de agressividade patriótica era tal que ele honestamente não se importava de que lado estava. Jack sabia se tratar de uma qualidade rara e valiosa até em debatedores de alto nível. As personalidades de um aventureiro político e de um verdadeiro debatedor não estavam muito longe uma da outra; ambas apaixonadamente ficavam à espreita da melhor oportunidade. Até aqui tudo bem.

Mas George Hatfield era gago.

Esse obstáculo não aparecia na sala de aula, onde George se mantinha sempre quieto e calado (tivesse ou não feito os deveres de casa) e, especialmente, nas quadras de esporte de Stovington, onde conversar não era uma virtude e às vezes os jogadores eram até expulsos de campo por excesso de discussão.

Porém, quando George se envolvia totalmente em um debate, a gagueira

aparecia. Quanto mais impaciente ficava, pior ela se tornava. E, quando percebia que o oponente estava praticamente derrotado, uma espécie de febre intelectual parecia se implantar entre o centro da fala e sua boca, e o rapaz ficava completamente congelado enquanto o tempo de resposta dele acabava.

Era doloroso de ver.

— En-t-t-tão, eu ach-ch-cho que p-p-podemos dizer que os f-f-f-fatos no c-caso que o sr. D-D-D-Dorsky está ci-citando fo-foram tornados ob-b-b-bsoletos por c-causa da última d-d-decisão tomada…

A campainha tocava, e George, confuso, olhava furioso para Jack, sentado ao lado. George ficava vermelho naqueles momentos, e as anotações eram espasmodicamente amassadas em uma das mãos. Jack segurou George na equipe por muito tempo, bem depois de ter eliminado os alunos obviamente fracos, na esperança de que o rapaz conseguisse melhorar. Lembrava-se do fim de tarde, cerca de uma semana antes quando, com relutância, entregou os pontos. George permaneceu na escola depois de os outros terem saído, e então confrontou Jack, com raiva.

— Você adiantou o cr-cr-cronômetro.

Jack levantou os olhos dos papéis que estava guardando de volta na pasta.

— George, do que você está falando?

— Você não me deu os cinco m-m-minutos completos. Adiantou o cr-cr-cronômetro. Eu estava olhando o re-re-relógio.

— O relógio e o cronômetro podem ter uma pequena diferença, George; mas eu nunca toquei no maldito cronômetro. Palavra de escoteiro.

— V-V-Você mexeu, sim!

O modo violento e incisivo com que George olhava evocou o espírito intempestivo de Jack. Fazia dois meses que não bebia, o que era muito tempo, e ele estava com os nervos à flor da pele. Tentou conter-se pela última vez.

— Posso lhe garantir que não, George. É a sua gagueira. Tem alguma ideia da causa? Você não gagueja em aula.

— Eu n-n-não s-s-sou g-g-gag-gago!

— Fale baixo.

— V-V-Você q-quer me p-pegar! Você n-não me q-quer na sua m-m-maldita t-turma!

— Fale baixo, já disse. Vamos conversar racionalmente.

— Fo-foda-se i-isso!

— George, se controlar sua gagueira, ficarei contente em tê-lo na equipe.

Você se prepara bem e é bom em pesquisar o histórico das pautas, o que significa que raramente é apanhado de surpresa. Mas tudo isso não significa muito, se não puder controlar essa…

— N-n-nunca gaguejei! — gritou o rapaz. — É v-você! Se outra p-p-pessoa ficasse enc-encarregada da e-q-q-quipe de d-d-ddebates, eu poderia…

Jack não conseguiu conter seu mau gênio.

— George, você nunca será um bom advogado, nem corporativo nem de outro tipo, se não conseguir controlar isso. Direito não é futebol. Duas horas de treino toda noite não vão acabar com isso. O que você vai fazer? Ficar em pé diante do conselho diretor e dizer: “Ag-ggg-gora, s-senhores, qu-quanto a este p-problema?”.

De repente, Jack ruborizou, não de raiva, mas de vergonha por sua crueldade. Na sua frente não havia um homem, mas sim um rapaz de dezessete anos, que enfrentava a primeira grande derrota de sua vida, e talvez usasse da única maneira de que dispunha para pedir que Jack o ajudasse a vencer.

George lançou-lhe um olhar final e furioso, contorcendo os lábios, lutando contra as palavras que se engarrafavam por trás e faziam esforço para sair.

— V-V-Você m-mesmo ad-d-admite! Você m-me o-o-odeia p-porque s-s-s-sabe… você sabe… s-s-s-…

Com um grito inarticulado, correu para fora da sala de aula batendo a porta com força suficiente para chacoalhar o vidro, que era reforçado com uma tela.

Jack ficou ali parado, sentindo, em vez de ouvir, o eco dos passos do rapaz no corredor vazio. Ainda sob o domínio do seu temperamento ruim e da vergonha por ter zombado da gagueira do aluno, seu primeiro pensamento foi uma espécie de alegria doentia: pela primeira vez na vida, George Hatfield havia desejado algo que não poderia ter. Pela primeira vez havia um problema que nem todo o dinheiro do pai poderia consertar. Não se pode subornar o centro da fala. Ninguém pode oferecer cinquenta dólares por semana e mais uma bonificação de Natal à língua, para que ela concorde em parar de vibrar como uma agulha de vitrola num sulco defeituoso. Em seguida, a alegria foi simplesmente sufocada pela vergonha, exatamente o que havia sentido depois de quebrar o braço de Danny.

Deus do céu, eu não sou um filho da puta. Por favor.

Aquela alegria doentia pela saída abrupta de George era mais típica do personagem Denker, na peça, do que de Jack Torrance, o dramaturgo.

Você me odeia porque sabe…

Porque sabe o quê?

O que poderia por acaso saber sobre George Hatfield, que o faria detestá-lo? Que o futuro se abria diante dele? Que se parecia um pouco com Robert Redford e que as meninas paravam de falar quando ele se exibia na piscina?

Que jogava futebol e beisebol com um talento inato?

Ridículo. Totalmente absurdo. Não invejava George Hatfield em nada. Se a verdade podia ser dita, Jack se sentia pior pela infeliz gagueira do rapaz do que o próprio George, pois sabia que ele realmente poderia se tornar um grande orador. E, se Jack tivesse adiantado o cronômetro — e é claro que não havia feito isso —, seria porque tanto ele quanto os demais membros da equipe sentiam constrangimento pelo esforço de George e se angustiavam, da mesma maneira como se sentiam quando o orador da festa da turma esquecia alguns trechos do discurso. Se tivesse adiantado o cronômetro, seria apenas para… poupar George de sua desgraça.

Mas ele não havia adiantado o cronômetro. Tinha certeza.

Uma semana mais tarde, Jack excluiu George e, durante esse tempo, manteve-se calmo. Os gritos e as ameaças haviam partido de George. Uma semana depois, Jack saiu, no meio da aula, para buscar uma pilha de livros que esquecera no porta-malas do fusca. E lá estava George, ajoelhado, com os cabelos compridos caídos no rosto e uma faca de caçador na mão. Estava cortando o pneu dianteiro direito. Os pneus traseiros já estavam rasgados, e o carro acaçapado com os pneus furados parecia um cachorro cansado.

Jack ficou fora de si, e lembrava muito pouco da luta que se seguira.

Lembrava-se de um rosnado grave que pareceu sair da sua própria garganta:

— Muito bem, George. Se é assim que quer, venha aqui tomar seu remédio.

Lembrava-se de George erguendo os olhos, alarmado e amedrontado, dizendo:

— Sr. Torrance… — Como se quisesse explicar que tudo aquilo era apenas um engano, que os pneus já estavam vazios quando chegou, e que ele só estava limpando a sujeirinha das bandas de rodagem dianteiras com a ponta da faca que casualmente estava com ele, e…

Jack avançara de punhos erguidos. Aparentemente estava sorrindo, mas não tinha certeza disso.

A última lembrança que tinha era de George levantando a faca e dizendo:

— É melhor não chegar mais perto…

E depois só se lembrava da srta. Strong, a professora de francês,

segurando-o pelo braço, gritando, berrando:

— Pare com isso, Jack! Pare! Você vai matar o garoto!

Jack piscou e olhou em volta obtusamente. Adiante, a faca reluzia inofensiva no asfalto do estacionamento, a três metros de distância. E seu Volkswagen, seu pobre fusca velho e surrado, veterano de muitas bebedeiras, se apoiava sobre três sapatos furados. Ele notou que lá estava um novo amassado no para-lama dianteiro direito, e havia algo no meio do amassado que seria tinta vermelha, ou sangue. Por um momento, seus pensamentos ficaram confusos

(Deus do céu afinal de contas o atropelamos)

sobre aquela outra noite. Em seguida, seus olhos voltaram-se para George, que estava caído, atordoado, no asfalto. A equipe de debates saíra e todos se acotovelavam à porta, olhando para George. Havia sangue em seu rosto, provocado por uma lesão do crânio, que parecia pequena. Mas havia sangue também saindo de um dos ouvidos, e isso provavelmente significava uma concussão. Quando George quis se levantar, Jack se desvencilhou da srta.

Strong e foi até ele. George se encolheu de medo.

Jack colocou as mãos sobre o peito de George, fazendo o rapaz permanecer deitado.

— Fique deitado e parado — disse ele. — Não tente se mover. — Virou para a srta. Strong, que olhava para os dois, horrorizada. — Por favor, chame o médico da escola, srta. Strong.

A professora voou para a secretaria. Jack então olhou, de maneira incisiva, para a equipe de debates, pois havia voltado a ser o professor. E, quando podia ser inteiramente ele mesmo, era o cara mais bacana no estado de Vermont. Os alunos com certeza sabiam disso.

— Podem ir para casa — ordenou com calma. — Nós nos veremos amanhã de novo.

Mas, no fim daquela semana, seis dos seus alunos pediram para sair. Dois deles eram o ouro da equipe, mas naturalmente isso não importava muito, pois, na mesma ocasião, ele foi informado de que deveria se demitir.

Ainda assim, de alguma forma, conseguiu ficar sem beber e supôs que isso significasse alguma coisa.

E não odiava George Hatfield. Tinha certeza disso. Não tinha agido: as coisas agiram sobre ele.

Você me odeia porque sabe…

Mas não sabia nada. Nada. Juraria diante do Trono do Todo-Poderoso,

exatamente como juraria que adiantara o cronômetro não mais do que um minuto. E não por ódio, mas por pena.

Duas vespas rastejavam preguiçosas pelo telhado, ao lado do buraco na calafetagem.

Jack as observou até que elas abriram suas asas aerodinâmicas, silenciosas, porém estranhamente eficientes, e lançaram-se ao sol de outubro, talvez para picar outra pessoa. Deus achara conveniente dar-lhes ferrões, e Jack supunha que elas tinham que usá-los em alguém.

Há quanto tempo estaria sentado ali, olhando o buraco com suas surpresas desagradáveis, digerindo lembranças? Olhou o relógio. Quase meia hora.

Escorregou para a borda do telhado, baixou uma perna e tateou com o pé até encontrar o degrau da escada. Iria ao galpão de equipamentos, onde guardara a bomba de inseticida, numa prateleira alta. E, então, as vespas é que teriam uma surpresa. Quem com ferro fere com ferro será ferido.

Acreditava nisso sinceramente. Daqui a duas horas o ninho não seria mais do que um papel mastigado, e Danny poderia até guardá-lo em seu quarto, se quisesse — Jack tivera um em seu quarto, quando era criança. Tinha um cheiro leve de madeira queimada e gasolina. Poderia guardá-lo junto à cabeceira da cama, que não o machucaria.

— Estou melhorando.

O som de sua própria voz, confiante, no silêncio da tarde, o deixou mais tranquilo, apesar de não ter desejado falar alto. Estava melhorando. Era possível passar da voz passiva à ativa e considerar a coisa que quase o levara à loucura como um prêmio sem importância que não passava de um interesse ocasional. E, se havia um lugar onde a coisa pudesse ser feita, com certeza seria este.

Desceu a escada para pegar a bomba de inseticida. Pagariam. Pagariam por tê-lo picado.

15

NO JARDIM

Duas semanas antes, Jack encontrara nos fundos do galpão de equipamentos uma imensa cadeira de vime pintada de branco. Ele a arrastara para a varanda sob os protestos de Wendy, que dizia ser realmente a coisa mais feia que já vira na vida. Estava sentado nela agora, distraindo-se com uma edição de E.

L. Doctorow, Bem-vindo aos dias difíceis, quando a esposa e o filho subiram a entrada de carros no barulhento caminhão do hotel.

Wendy estacionou, pisou no acelerador fazendo um sonoro VRUM e desligou a

ignição. A única lanterna traseira apagou-se. O motor deu um engasgo e finalmente parou. Jack levantou-se da cadeira e, devagar, desceu para encontrá-los.

— Oi, pai! — gritou Danny, correndo para Jack. Carregava uma caixa em uma das mãos. — Olha o que a mamãe comprou pra mim.

Jack pegou o filho nos braços, rodopiou com ele duas vezes e carinhosamente deu um beijo na sua boca.

— Jack Torrance, o Eugene O’Neill de sua geração, o Shakespeare americano! — disse Wendy, sorrindo. — Que surpresa encontrá-lo aqui, tão longe, nas montanhas.

— A plebe cansou-me, cara dama — respondeu, passando os braços em volta dela. Beijaram-se. — Como foi a viagem?

— Foi boa. Danny reclamou que fico dando solavancos com o carro, mas não o deixei morrer nem uma vez e… Ah, meu Deus, Jack, você terminou!

Ela estava olhando para o telhado, e Danny seguiu seu olhar. O menino franziu o cenho de leve, quando viu a grande extensão de telhas novas no topo da ala oeste do Overlook, um verde mais claro do que o resto do telhado.

Olhou então para a caixa em sua mão, e seu rosto se iluminou novamente. À

noite, as imagens que Tony mostrara voltavam a assombrá-lo em toda sua clareza original, mas, à luz do dia, eram mais fáceis de esquecer.

— Olha, papai, olha.

Jack pegou a caixa da mão do filho. Era um carro, uma das miniaturas que Danny admirava no passado. Este era o Violento Volkswagen Violeta, e o desenho na caixa mostrava um imenso fusca roxo, com lanternas grandes de um Cadillac Coupé Deville 59, brilhando sobre um rastro de poeira. Por uma abertura na capota, saía um monstro gigante cheio de verrugas, com olhos vermelhos esbugalhados, um riso de louco, um capacete gigante de corrida caído nas costas e mãos agarradas ao volante.

Wendy sorria para ele, e Jack retribuiu com uma piscadela.

— É isso que me impressiona em você, velhinho — disse Jack, devolvendo a caixa. — O seu gosto pelo discreto, pelo sóbrio, pelo introspectivo. Tal pai, tal filho.

— Mamãe me disse que você vai me ajudar a montar, assim que eu terminar de ler a primeira cartilha.

— Isso tem que ser até o fim de semana — falou Jack. — O que mais veio nesse caminhão elegante, madame?

— Nananinanão. — Wendy segurou o braço de Jack e o afastou. — Nada

de espiar. Algumas dessas coisas são para você. Danny e eu vamos levar lá pra dentro. Você pode levar o leite. Está no chão do carro.

— É só pra isso que eu sirvo! — gritou Jack, batendo com a mão na testa.

— Apenas um burro de carga, uma besta de carga. Carrega isso, carrega aquilo, o tempo todo.

— Então carregue aquele leite direto para a cozinha, senhor.

— Assim também é demais! — ele respondeu jogando-se ao chão, enquanto Danny, montado sobre suas costas, dava risadas.

— Levante, seu burro — ordenou Wendy, dando-lhe uma cutucada com a ponta do tênis.

— Está vendo? — ele falou para Danny. — Ela me chamou de burro. Você é testemunha.

— Testemunha, testemunha! — Danny repetiu alegre, saltando de cima do pai caído.

Jack se sentou.

— Isto me faz lembrar uma coisa, amigão. Eu também tenho uma coisa para você. Na varanda, ao lado do cinzeiro.

— O que é?

— Esqueci. Vá lá e veja.

Jack se levantou e ficou de pé ao lado de Wendy, ambos olhando Danny correr pela grama e subir os degraus da varanda de dois em dois. Passou a mão em volta da cintura da esposa.

— Está feliz, amor?

Ela olhou para ele com seriedade.

— Nunca estive tão feliz, desde que nos casamos.

— Verdade?

— Juro por Deus.

Ele a apertou com força.

— Eu amo você.

Wendy o abraçou forte, emocionada. Essas não eram palavras banais na boca de Jack Torrance; podia contar nos dedos o número de vezes que as ouvira, tanto antes quanto depois do casamento.

— Eu também amo você.

— Mamãe! Mamãe! — Danny estava na varanda, gritando feliz. — Venha ver! Puxa! Que bacana!

— O que é? — perguntou Wendy enquanto saíam do estacionamento, de mãos dadas.

— Esqueci — Jack tentou despistar.

— Ah, você vai ver — comentou enquanto dava uma leve cotovelada nele.

— Vai ver só.

— Estou querendo ver hoje à noite — ele retrucou, e Wendy riu. Um minuto depois, ele perguntou: — Você acha que Danny está feliz?

— Você é quem devia saber. É você que tem longas conversas com ele toda noite, antes de dormir.

— Geralmente falamos sobre o que ele quer ser quando crescer, ou se Papai Noel existe. Isso tem muita importância para ele. Acho que o amiguinho Scott andou falando no assunto. Mas não, ele não me falou nada sobre o Overlook.

— Nem para mim — considerou Wendy. Subiam os degraus da varanda.

— Mas ele passa muito tempo calado. Acho que perdeu peso, Jack, acho mesmo.

— Ele está crescendo.

Danny estava de costas para eles. Examinava alguma coisa junto à mesa de Jack, mas Wendy não sabia o que era.

— Também não está comendo muito bem. Era um comilão. Lembra como era no ano passado?

— Isso é só uma fase — ele respondeu de modo vago. — Acho que já li isso em algum livro do dr. Spock. Vai voltar a comer como um leão quando estiver com sete anos. — Pararam no último degrau.

— Ele também está se esforçando demais naquelas leituras — disse ela. —

Sei que está querendo nos agradar… agradar você — completou, relutante.

— Mas é para agradar a si próprio, acima de tudo — respondeu Jack. —

Não o tenho pressionado em nada sobre essas leituras. Aliás, preferiria que não se esforçasse tanto.

— Acharia besteira se eu agendar um exame médico? Há um clínico-geral em Sidewinder, um médico jovem, pelo que disse o caixa do mercado…

— Você está um pouco preocupada com a neve, não está?

Wendy encolheu os ombros.

— Acho que sim. Se você acha que é besteira…

— Não acho. Aliás, pode agendar um horário para nós três. Veremos que está tudo bem com nossa saúde e assim poderemos dormir tranquilos.

— Vou marcar as consultas hoje à tarde — disse ela.

— Mãe! Olha, mamãe!

Danny correu em direção a ela com um grande objeto cinza nas mãos. Por

um momento tragicômico, Wendy pensou que fosse um cérebro. Viu o que era e recuou instintivamente.

Jack a abraçou.

— Tudo bem. Os inquilinos que não fugiram voando foram despejados.

Usei a bomba de inseticida.

Ela olhou para o ninho grande de vespas que o filho segurava, mas não o tocou.

— Tem certeza de que não é perigoso?

— Absoluta. Tive um em meu quarto quando menino. Presente de meu pai.

Quer ficar com ele em seu quarto, Danny?

— Quero! Agora mesmo!

O menino virou de costas e saiu correndo, entrando pelas portas grandes.

Os pais podiam ouvir o ruído surdo de seus pés na escada principal.

— Havia vespas lá — ela afirmou. — Você foi picado?

— Cadê minha medalha de condecoração? — perguntou ele, exibindo o dedo. Estava menos inchado, mas, para sua satisfação, ela se espantou, dando um beijo no machucado.

— Arrancou o ferrão?

— Vespas não deixam ferrão. As abelhas é que deixam, pois têm ferrões ásperos. Os das vespas são mais lisos. Isso é o que faz com que sejam tão perigosas. Podem picar várias vezes.

— Jack, tem certeza de que não é perigoso Danny guardar esse negócio?

— Segui as instruções da bomba. É morte certa para qualquer inseto em duas horas, depois o veneno evapora, sem deixar resíduo.

— Eu odeio elas — comentou Wendy.

— O quê… as vespas?

— Qualquer coisa que pica — respondeu. Cruzou os braços sobre os seios, as mãos agarrando os cotovelos.

— Eu também — concordou Jack, abraçando-a.

16

DANNY

No quarto, Wendy podia ouvir a máquina de escrever, que Jack trouxera lá de baixo, martelar durante trinta segundos, cair em silêncio por um minuto ou dois, e então voltar a bater novamente por pouco tempo. Era como ouvir o disparo de uma metralhadora dentro de um abrigo isolado de concreto.

Aquele som era como música para seus ouvidos. Jack não escrevia tão regularmente desde o segundo ano de seu casamento, quando escreveu a

história que fora publicada na Esquire. Ele achava que até o final do ano ficaria tudo pronto, estando a peça boa ou não, e então começaria a escrever algo novo. Dizia não se importar se A pequena escola não provocasse entusiasmo quando Phyllis a mostrasse aos produtores teatrais, não se importava se a obra desaparecesse sem deixar rastros, e Wendy concordava.

O próprio fato de ele estar escrevendo a enchia de esperança, não porque esperasse por um grande sucesso, mas porque o marido parecia estar lentamente fechando uma enorme porta de um cômodo cheio de monstros. Já havia muito tempo que ele virara as costas para essa porta, mas finalmente ela agora estava fechada.

Cada tecla batida fechava a porta um pouco mais.

— Veja, Dick, veja.

Danny estava debruçado sobre uma das cinco cartilhas velhas que Jack comprara após fazer uma seleção impiedosa em diversas lojinhas e sebos de Boulder. Essas cartilhas levariam Danny exatamente ao nível de leitura de segunda série, um programa que Wendy já dissera a Jack achar demasiado ambicioso. O filho era inteligente, sabiam disso, mas seria um erro pressioná-lo demais. Jack concordara. Não fariam pressão. Mas, se o menino aprendesse rápido, estariam preparados. E agora imaginava se Jack não estaria certo quanto a isso, também.

Danny, preparado por quatro anos de Vila Sésamo e três anos de Electric Company, parecia estar pegando as coisas com uma velocidade espantosa.

Isso a incomodava. Ele ficava debruçado sobre os livrinhos inocentes, deixando o rádio de pilha e o aviãozinho na prateleira em cima dele, como se sua vida dependesse da alfabetização. Seu rostinho estava mais tenso e pálido do que ela gostaria, sob o brilho aconchegante e próximo da lâmpada do abajur que instalaram no quarto. Ele levava muito a sério, tanto a leitura quanto a série de exercícios que o pai preparava para ele todas as tardes. Jack fazia o desenho de uma maçã e de um pêssego; a palavra maçã escrita no inferior da folha, com a caligrafia muito clara e limpa. Ele pedia para Danny fazer um círculo em torno do desenho certo, aquele que combina com a palavra. E o filho olhava, atentamente, da palavra para os desenhos, os lábios se movendo, soletrando, com dificuldade. Com o lápis vermelho e gigante, torcendo seu pulso direito gordinho com esforço, ele podia agora escrever cerca de três dúzias de palavras sozinho.

O dedo acompanhava lentamente as palavras na leitura. Sobre elas, um desenho que Wendy ainda recordava do seu tempo de alfabetização,

dezenove anos atrás. Um garoto risonho com cabelos castanhos encaracolados. Uma menina de vestido, cabelos com cachos dourados, uma corda de pular em uma das mãos. Um cachorro saltitante correndo atrás de uma grande bola de borracha vermelha. O trio do primeiro ano: Dick, Jane e Jip.

— Jip vê a bola — Danny lia devagar. — Veja, Jip, veja. Veja, veja, veja.

— Parava, acompanhava a frase com o dedo. — Veja a… — Curvava-se para mais perto, o nariz quase encostando na página. — Veja a…

— Não chegue tão perto, velhinho — disse Wendy, com calma. — Não faz bem aos olhos. A palavra é…

— Não diga! — ele pediu, sentando-se aos arrancos. A voz alarmada. —

Não diga, mamãe, eu consigo!

— Certo, meu bem. Mas não é tão importante assim. Não é mesmo.

Sem dar atenção a ela, Danny curvou-se novamente sobre o livro. No seu rosto havia a expressão que seria mais adequada para um universitário durante as provas em alguma faculdade. Ela gostava cada vez menos disso.

— Veja a… B-O. BO L-A. LA. Veja a loba? Veja a olba. Bola! — Triunfalmente.

Feroz. A ferocidade em sua voz a amedrontava. — Veja a bola!

— Isso mesmo — disse ela. — Meu bem, acho que por hoje chega. — Só mais umas páginas, mamãe? Por favor?

— Não, velhinho. — Fechou, firme, o livro de capa vermelha. — Já pra cama.

— Por favor?

— Não me aborreça com isso, Danny. Mamãe está cansada.

— Tá bem. — Mas olhou ansioso para a cartilha.

— Vá dar um beijo em seu pai e lavar o rosto. Não se esqueça de escovar os dentes.

— Está bem.

Saiu desanimado, um menininho de pijama de flanela com o desenho de uma bola de futebol americano na frente e o nome do time NEW ENGLAND PATRIOTS nas costas.

A máquina de Jack silenciou, e ela ouviu o beijo de Danny.

— Boa noite, papai.

— Boa noite, velhinho. Como está?

— Bem, eu acho. Mamãe me fez parar.

— Mamãe está certa. Já passa de oito e meia. Está indo ao banheiro?

— Estou.

— Bom. Tem batatas brotando de seus ouvidos. E cebolas, e cenouras, e cheiro-verde, e…

A risada de Danny diminuiu e em seguida sumiu ao trancar a porta do banheiro. Gostava de privacidade no banheiro, enquanto ela e Jack eram um pouco mais relaxados. Mais um sinal — e eles se multiplicavam a toda hora

— de que havia outro ser humano ali, não apenas uma cópia de um deles, ou uma combinação dos dois. Ficou triste. Algum dia seu filho seria um estranho para ela, e ela seria uma estranha para ele… mas não tão estranha quanto sua própria mãe havia se tornado para ela. Por favor, não deixe que isso aconteça, Deus. Deixe Danny crescer e ainda amar sua mãe.

A máquina de Jack reiniciou sua marcha irregular.

Ainda sentada na cadeira, ao lado da mesa de leitura de Danny, Wendy deixou seus olhos passearem pelo quarto do filho. A asa do aviãozinho caprichosamente consertada. A mesa, cheia de livros com gravuras, livros de colorir, revistinhas velhas do Homem-Aranha, com metade das capas rasgadas, lápis de cor, uma pilha desarrumada de blocos de madeira. A miniatura do Volkswagen estava cuidadosamente colocada sobre esses objetos menores, ainda intocada no invólucro de plástico. Ele e o pai a montariam na noite seguinte, ou na próxima, se Danny mantivesse o ritmo, e adeus fim de semana. As gravuras do Ursinho Pooh, do burrinho Bisonho e de Christopher Robin estavam presas na parede, para, em breve, serem substituídas por pôsteres de pin-ups e de cantores de rock drogados, supunha ela. Da inocência à experiência. Natureza humana, meu bem. Agarre-a com unhas e dentes. Ainda se sentia triste. Ano que vem Danny entraria na escola, e ela perderia, pelo menos, metade dele, talvez mais, para seus amigos. Jack e Wendy tentaram ter outro filho quando as coisas pareciam correr bem em Stovington, mas depois ela voltou a tomar a pílula. As coisas mostravam-se muito incertas. Só Deus sabia onde estariam daqui a nove meses.

Seus olhos bateram no ninho de vespas.

O novo objeto ocupava o lugar de destaque máximo no quarto de Danny, apoiado sobre um grande prato plástico na mesinha de cabeceira. Wendy não gostava daquilo, mesmo ele estando vazio. Imaginava vagamente se teria germes. Pensou em perguntar a Jack, depois achou que ele iria rir dela. Mas perguntaria ao médico amanhã, se tivesse uma chance de falar com ele longe de Jack. Não gostava da ideia daquela coisa, construída pela mastigação e pela saliva de tantas criaturas hostis, ali a poucos centímetros da cabeça de seu filho.

A água ainda corria no banheiro, e ela se levantou, dirigindo-se até a suíte para ter certeza de que estava tudo bem. Jack não levantou os olhos; estava perdido no mundo que criava, fitando fixamente a máquina de escrever, com um cigarro apertado entre os dentes.

Bateu de leve na porta do banheiro.

— Tudo bem, velhinho? Está acordado?

Nenhuma resposta.

— Danny?

Nenhuma resposta. Tentou abrir a porta. Estava trancada.

— Danny? — Estava agora apreensiva. A ausência de qualquer outro ruído a não ser a água correndo, regular, a deixou preocupada. — Danny, abra a porta, meu bem.

Nenhuma resposta.

— Deus do céu, Wendy, não vou conseguir pensar se você ficar esmurrando essa porta a noite inteira.

— Danny se trancou no banheiro e agora não responde.

Jack deu a volta na mesa, aborrecido. Esmurrou a porta com força.

— Abra, Danny. Não estou brincando.

Nenhuma resposta.

Jack bateu com mais força.

— Deixe de brincadeira, velhinho. Hora de dormir, é hora de ir dormir. Se você não abrir, vai levar palmada.

Está perdendo o controle, pensou ela, e sentiu mais medo. Desde aquela noite, há dois anos, Jack não tocara em Danny com raiva. Mas agora parecia estar chateado o suficiente para fazê-lo.

— Danny, meu bem… — recomeçou ela.

Nenhuma resposta. Apenas a água correndo.

— Danny, se me fizer quebrar a fechadura posso garantir que você vai passar o resto da noite dormindo de bruços — advertiu Jack.

Nada.

— Arrombe — ela pediu, e de repente teve dificuldade em falar. —

Rápido.

Ele levantou um pé e deu um chute na porta, à direita da maçaneta. A fechadura era fraca; cedeu imediatamente. A porta, estremecendo, abriu, bateu no azulejo do banheiro, voltou e ficou entreaberta.

— Danny! — berrou ela.

A água saía com toda a força da torneira. Ao lado, um tubo de pasta de

dentes, sem tampa. Danny estava sentado na beirada da banheira, do outro lado. Segurava a escova de dentes, limpa, na mão esquerda, e com uma espuma fina da pasta em volta da boca. Os olhos arregalados, como que em êxtase, miravam o espelho do armário sobre a pia. Sua fisionomia era de horror entorpecido, e seu primeiro pensamento foi que ele estivesse sofrendo um ataque epiléptico e tivesse engolido a língua.

— Danny!

Ele não respondeu. Sons guturais saíam de sua garganta.

Wendy foi então empurrada para o lado com tanta força que bateu no porta-toalhas, e de repente Jack estava ajoelhado em frente ao menino.

— Danny — ele gritou. — Danny, Danny! — Estalou os dedos diante dos olhos vazios do filho.

— Ah, claro — respondeu Danny. — Torneio. Ponto…

— Danny…

— Roque ! — falou Danny, com a voz subitamente grossa, quase como um homem. — Roque . Ponto. O taco de roque … tem duas extremidades…

— Jack, meu Deus, o que está acontecendo?

Jack agarrou os cotovelos do menino e o sacudiu com força. A cabeça de Danny balançou para trás e então caiu para a frente como um balão pendurado numa vareta.

— Roque. Ponto. Redrum.

Jack sacudiu o filho mais uma vez, e os olhos de Danny de repente se iluminaram. A escova caiu de sua mão com um barulhinho sobre o ladrilho.

— O quê? — perguntou, olhando em redor. Viu o pai ajoelhado à sua frente, Wendy encostada na parede. — O quê? — perguntou Danny de novo, em crescente alarme. — O q-q-q-que e-s-s-t…

— Não gagueje! — berrou Jack de repente. Danny gritou de susto, o corpo tenso, tentando se desvencilhar do pai, e em seguida explodiu em lágrimas.

Arrependido, Jack o puxou novamente para junto de si. — Ah, meu bem, desculpe. Desculpe, velhinho. Por favor. Não chore. Desculpe. Está tudo bem.

A água jorrava sem parar na pia, e Wendy sentiu que de repente havia penetrado em um pesadelo terrível, onde o tempo voltava atrás, à época em que o marido, bêbado, quebrara o braço do filho, e em seguida choramingara sobre ele repetindo praticamente as mesmas palavras.

( Ah, meu bem. Desculpe. Desculpe, velhinho. Por favor. Desculpe.) Correu em direção aos dois, de alguma forma arrancou Danny dos braços

de Jack (viu a raiva brotar, de novo, no rosto do marido, mas arquivou a informação para consideração posterior) e o levou para o quarto pequeno; Danny abraçado a ela, e Jack os seguindo.

Continuar: parte 2 de 5