O Iluminado

Stephen King · Capítulo 1 de 9 · parte 1/3

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O Iluminado

Primeira parte: Introdução

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Mas, ao cessar dos suaves ecos musicais, a assembleia impregnava-se de risos leves… e ( eles) sorriam do seu nervosismo...

sussurravam juras de que o tocar do próximo carrilhão não lhes provocaria emoção semelhante; e então, depois do intervalo dos sessenta minutos... um outro tocar de carrilhão do relógio, seguido da mesma inquietação, agitação e meditação de antes.

Mas, apesar de tudo, aquilo era um alegre e esplêndido festim…

Edgar Allan Poe, “A máscara da morte rubra”

O sono da razão produz monstros.

Goya

Tudo tem seu tempo certo.

Dito popular

Primeira parte

Introdução

1

ENTREVISTA DE EMPREGO

Jack Torrance pensou: Que babaquinha pomposo. Ullman media um metro e sessenta e se locomovia daquele modo afetado que parecia exclusividade de todo homem gordo e baixo. O cabelo era bem repartido, e seu terno escuro era sóbrio, mas confortável. “Sou o homem para quem você pode trazer seus problemas”, o terno parecia dizer ao cliente. Com os empregados, porém, o terno falava de forma mais ríspida: “Acho bom tudo correr certinho”. Trazia um cravo vermelho na lapela, talvez para que ninguém na rua tomasse Stuart Ullman pelo agente funerário local.

Enquanto ouvia Ullman, Jack admitiu que, naquelas circunstâncias, não conseguiria gostar de nenhum homem do outro lado da mesa.

Ullman fez uma pergunta que Jack não entendeu. Isso era ruim. Ullman era o tipo de homem que guardava esses lapsos em um arquivo mental para consultas posteriores.

— Como disse?

— Perguntei se sua esposa compreendeu qual seria sua função aqui. Há seu filho também, claro. — Deu uma olhada no formulário de candidatura à vaga que estava na sua frente. — Daniel. Sua esposa não está um pouco intimidada com a ideia?

— Wendy é uma mulher extraordinária.

— E seu filho? Também é extraordinário?

Jack sorriu, um largo sorriso de relações-públicas.

— É, achamos que sim. É uma criança muito independente para seus cinco anos.

Ullman não retribuiu o sorriso. Colocou o formulário de Jack de volta na pasta e a devolveu à gaveta. A mesa ficou completamente limpa, exceto por um mata-borrão, um telefone, uma luminária e uma caixa de entrada e saída de papéis, que também estava vazia.

Ullman se levantou e foi até o arquivo do canto.

— Dê a volta na mesa, por favor, sr. Torrance. Vamos dar uma olhada nas plantas do hotel.

Pegou cinco folhas grandes e as colocou na mesa de nogueira polida. Jack ficou de pé ao lado, sentindo o perfume da colônia de Ullman. O slogan Todos os meus homens usam English Leather ou não usam nada veio à mente

de Jack sem motivo algum, e ele precisou se segurar para evitar uma gargalhada. Podiam-se ouvir os ruídos dos preparativos do almoço vindos da cozinha do Hotel Overlook.

— O último andar — anunciou Ullman com entusiasmo. — O sótão. No momento não existe absolutamente nada lá, a não ser quinquilharias. O

Overlook já teve vários proprietários desde a Segunda Guerra Mundial, e aparentemente cada novo gerente resolveu colocar no sótão tudo aquilo que não tinha utilidade. Quero ratoeiras e veneno espalhados por todo o lugar.

Algumas camareiras do terceiro andar dizem que já escutaram barulhos vindos de cima. Nunca acreditei nisso, mas não posso deixar que haja a menor possibilidade de que um rato continue vivo no Hotel Overlook.

Jack, que sempre suspeitou da existência de ao menos um ou dois ratos em todos os hotéis do mundo, segurou a língua.

— Naturalmente o senhor não deixará seu filho ir ao sótão em hipótese alguma.

— Não — respondeu Jack, mostrando novamente o largo sorriso de relações-públicas. Situação humilhante. Por acaso aquele babaquinha achava que Jack deixaria o filho brincar em um sótão cheio de ratoeiras, móveis velhos e sabia lá Deus mais o quê? Ullman tirou a planta do sótão de cima da mesa e a colocou embaixo das outras.

— O Overlook tem cento e dez apartamentos de hóspedes — informou em tom professoral. — Trinta deles, todos suítes, estão aqui no terceiro andar.

Dez na ala oeste, incluindo a Suíte Presidencial, dez no centro e mais dez na ala leste. Todos com vistas deslumbrantes.

Será que ele poderia pelo menos dispensar o discurso de vendedor?

Jack continuou calado. Precisava do trabalho.

Ullman colocou a planta do terceiro andar embaixo da pilha, e os dois passaram a examinar o segundo andar.

— Quarenta apartamentos — continuou Ullman —, trinta de casal e dez de solteiro. E, no primeiro andar, vinte de cada. Além disso, temos três rouparias em cada andar e também um almoxarifado que fica no final da ala leste, no segundo pavimento, e outro na extremidade da ala oeste, no primeiro.

Alguma pergunta?

Jack negou com a cabeça. Ullman pôs de lado as plantas do segundo e do primeiro andar.

— Vejamos agora o saguão. Aqui no meio está a recepção. Na parte de

trás, os escritórios. O saguão se estende por vinte e quatro metros para cada lado do balcão. Bem aqui, na ala oeste, ficam o restaurante do Overlook e o Salão Colorado. Os salões de banquete e de baile ficam na ala leste. Alguma pergunta?

— Apenas sobre o porão — respondeu Jack. — Para um zelador de temporada de inverno, essa é a área mais importante de todas. É onde se concentra o movimento, por assim dizer.

— Watson vai lhe mostrar tudo. A planta do porão está na parede da sala da caldeira. — Ullman franziu a testa, talvez para mostrar que, como gerente, não se preocupava com aspectos tão banais do funcionamento do Overlook quanto a caldeira e o encanamento. — Não seria má ideia colocar algumas ratoeiras lá também. Só um momento…

Rabiscou um bilhete em um bloco que tirou do bolso interno do paletó (cada folha tinha a inscrição de seu nome em negrito), destacou a folha e a depositou na caixa de saída de papéis. O papel ficou ali, solitário. O bloco voltou para o bolso do paletó de Ullman como em um passe de mágica. Está vendo, Jack? Agora não está vendo mais. Aquele cara era realmente um saco.

Voltaram a seus lugares. Ullman atrás da mesa e Jack diante dele; entrevistador e entrevistado, relutante patrono e suplicante. Um homem careca, baixo, vestido com um terno de banqueiro e uma gravata cinza modesta. Em uma lapela tinha uma flor, e na outra um broche com a palavra PESS OA L em letras douradas e pequenas. Ullman juntou as mãozinhas bem cuidadas em cima da mesa e fixou o olhar em Jack:

— Serei franco com o senhor. Albert Shockley é um homem poderoso, com muito interesse no Overlook, que registrou lucro nesta temporada, pela primeira vez na história. O sr. Shockley também faz parte do Conselho Diretor, mas não é um hoteleiro por excelência e é o primeiro a admitir tal fato. Em relação à vaga de zelador, seus desejos são óbvios. Ele quer que você seja contratado. E é o que vou fazer. No entanto, se eu tivesse o poder de decisão, não o contrataria.

As mãos suadas de Jack estavam em seu colo, e ele as apertava.

Babaquinha pomposo, babaquinha pomposo, babaquinha…

— Não creio que você goste muito de mim, sr. Torrance. Não me importo.

Sua opinião a meu respeito, na realidade, não interfere na minha certeza de que o senhor não é a pessoa certa para esse trabalho. Durante a temporada que vai de 15 de maio a 30 de setembro, o Overlook emprega cento e dez funcionários em regime integral; um para cada apartamento do hotel,

podemos dizer. Acho que a maioria não gosta de mim e suspeito que alguns me considerem um filho da puta. Estão corretos no julgamento do meu caráter. Tenho que ser um filho da puta para poder dirigir este hotel como ele merece.

Olhou para ele à espera de comentários, e o sorriso de relações-públicas de Jack se iluminou largo e cheio de dentes.

— O Overlook foi construído entre 1907 e 1909 — continuou Ullman. —

A cidade mais próxima é Sidewinder, a sessenta e cinco quilômetros a leste daqui, por estradas que ficam fechadas em meados de outubro ou novembro até abril. Foi um homem chamado Robert Townley Watson, avô do nosso encarregado da manutenção, que o construiu. Aqui já se hospedaram os Vanderbilt, os Rockefeller, os Astor e os Du Pont. Quatro presidentes já ocuparam a Suíte Presidencial: Wilson, Harding, Roosevelt e Nixon.

— Não me orgulharia tanto de Harding e Nixon — murmurou Jack.

Ullman franziu a testa, mas continuou o discurso.

— O investimento foi pesado demais para o sr. Watson, e o hotel precisou ser vendido em 1915. Foi mais uma vez vendido em 1922, em 1929 e em 1936. Ficou abandonado até o fim da Segunda Guerra Mundial, quando foi comprado e totalmente reformado por Horace Derwent, inventor, piloto, produtor de cinema e empreendedor milionário.

— Conheço de nome — disse Jack.

— Sim. Tudo o que ele tocava parecia se transformar em ouro… exceto o Overlook. Injetou mais de um milhão de dólares no negócio, antes que o primeiro hóspede do pós-guerra entrasse pela porta, e transformou uma relíquia decrépita em uma construção exemplar. Foi Derwent quem construiu a quadra de roque que o senhor admirava quando chegou.

— Roque?

— Um antepassado britânico do nosso croquet, sr. Torrance. Croquet é um roque degenerado. Conta a lenda que Derwent aprendeu o jogo com a secretária particular e nunca mais deixou de praticar. Nossa quadra deve ser a melhor do país.

— Não duvido — Jack comentou em um tom sério. Uma quadra de roque, arbustos cortados em formato de animais… o que mais? Um jogo de tabuleiro em tamanho natural atrás do galpão de ferramentas? Estava cansado do sr. Stuart Ullman, mas podia notar que ele não havia terminado.

Continuaria até a última palavra do que tinha a dizer.

— Depois de perder três milhões, Derwent vendeu o hotel para um grupo

de investidores da Califórnia. A experiência deles com o Overlook foi igualmente ruim. Não eram pessoas especializadas em hotelaria. Em 1970, o sr. Shockley e um grupo de sócios compraram o hotel e me encarregaram da gerência. Durante muitos anos também ficamos no vermelho, mas posso lhe assegurar, com satisfação, que a confiança dos proprietários atuais em mim nunca foi abalada. Encerramos o último ano em equilíbrio: nem lucros, nem prejuízos. E, pela primeira vez em sete décadas, nossa contabilidade encerrou o ano no azul.

Jack supôs que o orgulho daquele homenzinho irritante era justificável, mas logo sua antipatia inicial por Ullman o atravessou novamente, como uma onda.

— Não vejo nenhuma relação entre a história, realmente interessante, do Overlook e a impressão que o senhor tem de que eu seja a pessoa errada para ocupar o cargo, sr. Ullman — Jack respondeu.

— Uma das razões para a perda de tanto dinheiro é a depreciação que ocorre a cada inverno. Essa depreciação diminui a margem de lucro mais do que se possa pensar, sr. Torrance. Os invernos são profundamente cruéis.

Com o objetivo de lidar com esse problema, criei o cargo de zelador de inverno em tempo integral, para ligar a caldeira e aquecer áreas diferentes do hotel, em um rodízio diário. As atribuições também incluem verificar o surgimento de vazamentos e consertá-los e fazer reparos para que elementos hostis não invadam o hotel. É necessário estar em constante alerta em toda e qualquer contingência. Durante nosso primeiro inverno, empreguei uma família em vez de um homem sozinho. Foi uma tragédia. Uma tragédia terrível.

Ullman olhou Jack friamente, avaliando-o.

— Cometi um erro. Admito. O homem era um beberrão.

Jack esboçou um sorriso vago e sem graça… a antítese do sorriso de relações-públicas.

— Então é isso? Fico surpreso que Al não tenha contado. Eu parei de beber.

— Sim, o sr. Shockley me disse que o senhor não bebe mais. Ele também me contou sobre seu último emprego… seu último cargo de confiança, digamos assim. O senhor ensinava inglês em uma escola preparatória em Vermont e perdeu o controle. Não creio que precise ser mais claro do que isso. Mas realmente acredito que o caso de Grady tenha alguma relevância, e foi por isso que eu trouxe à tona o assunto de seus… antecedentes. No

inverno de 1970-1971, após a reforma do Overlook e antes de nossa primeira temporada, contratei esse… esse coitado chamado Delbert Grady. Ele se instalou nas dependências que o senhor, sua esposa e seu filho vão ocupar.

Ele tinha esposa e duas filhas. Eu me preocupava com algumas questões, sobretudo com a severidade do inverno e com o fato de os Grady precisarem se isolar do mundo externo por cinco ou seis meses.

— Mas isso não é verdade, é? Há telefones aqui e provavelmente um radiotransmissor. O Parque Nacional das Montanhas Rochosas está ao alcance de um helicóptero, e certamente um parque grande desses deve ter um ou dois deles.

— Não sei — respondeu Ullman. — O hotel de fato tem um radiotransmissor que o sr. Watson vai lhe mostrar, junto com a lista das frequências corretas a serem usadas no caso de vocês precisarem de ajuda. As linhas telefônicas daqui para Sidewinder ainda não são subterrâneas e quase todo inverno caem em algum lugar do caminho, ficando sem funcionar entre três semanas e um mês e meio. Temos um snowmobile no galpão de ferramentas também.

— Então o hotel não fica isolado.

Ullman pareceu irritado.

— Vamos supor que seu filho ou sua esposa tropecem na escada e fraturem o crânio, sr. Torrance. Não pensaria que este lugar é isolado?

Jack entendeu o argumento. Um snowmobile em alta velocidade poderia levá-lo a Sidewinder em uma hora e meia… talvez. Um helicóptero do Serviço de Salvamento poderia chegar em três horas… se o tempo estivesse favorável. Em uma tempestade de neve, talvez nem fosse possível levantar voo. Também não se poderia correr o risco de pilotar um snowmobile em alta velocidade, mesmo ousando expor uma pessoa gravemente ferida a uma temperatura de trinta e cinco graus abaixo de zero… ou quarenta e cinco negativos, considerando a sensação térmica.

— No caso de Grady — Ullman continuou —, raciocinei da mesma forma que o sr. Shockley parece ter feito no seu caso. A solidão em si pode ser prejudicial. É melhor para um homem estar junto de sua família. Pensei que, se houvesse algum problema, seria provavelmente algo menos urgente do que uma fratura de crânio ou um acidente com as ferramentas elétricas ou algum tipo de convulsão. Uma gripe forte, uma pneumonia, um braço quebrado ou mesmo uma apendicite. Tudo isso daria tempo suficiente para que uma providência fosse tomada.

“Acho que o que aconteceu foi o resultado de excesso de uísque barato, que Grady tinha em grande estoque e era de meu total desconhecimento, e uma situação curiosa que se chama síndrome da cabana. Conhece a expressão?”

Ullman deu um sorrisinho superior, pronto para a explicação necessária assim que Jack admitisse sua ignorância, mas Jack ficou feliz em responder rápida e decisivamente.

— É um jargão usado para uma reação de claustrofobia que pode ocorrer quando um grupo de pessoas é confinado por um longo período. A sensação de claustrofobia é exteriorizada na forma de aversão pelas pessoas que estão confinadas em sua companhia. Em casos extremos, isso pode levar a alucinações e violência… já houve até casos de assassinatos provocados por banalidades, como uma refeição queimada ou uma discussão sobre quem deveria lavar a louça.

Ullman ficou bem desconcertado, o que deixou Jack satisfeitíssimo. Resolveu constranger mais um pouco, mas silenciosamente prometeu a Wendy que seria comedido.

— Parece que o senhor se equivocou mesmo. Ele agrediu elas?

— Ele as matou, sr. Torrance, e depois cometeu suicídio. Matou as duas meninas com uma machadinha, a esposa com uma espingarda e se suicidou com essa mesma arma. A perna dele estava quebrada. Sem dúvida devia estar tão bêbado que rolou escada abaixo.

Ullman espalmou as mãos e olhou para Jack de modo meio presunçoso.

— Ele chegou a terminar o colégio?

— Na realidade, não — Ullman respondeu um tanto friamente. — Eu imaginava que um… digamos, um indivíduo menos imaginativo seria menos suscetível a intempéries, à solidão…

— Foi esse seu erro — sentenciou Jack. — Um sujeito ignorante tem uma tendência maior à síndrome da cabana, da mesma forma que é mais propenso a dar um tiro em alguém em uma mesa de jogo ou a roubar por impulso. Ele fica entediado. Quando a neve chega, não tem nada para fazer, a não ser assistir à televisão ou jogar paciência e trapacear quando não consegue liberar todos os ases. Não tem nada para fazer, a não ser encher o saco da mulher e resmungar para as crianças e beber. É muito difícil dormir, pois não há nada para ouvir. Assim, bebe até conseguir dormir e acorda de ressaca. Fica impaciente. E então o telefone pode ficar mudo e a antena da TV dar problema, e não há nada para fazer, a não ser pensar e trapacear no jogo de paciência e

se tornar cada vez mais e mais impaciente. Finalmente… bum, bum, bum.

— E quanto a um homem mais instruído, como o senhor?

— Minha esposa e eu gostamos de ler. Estou escrevendo uma peça de teatro, como Al Shockley provavelmente contou. Danny tem seus quebra-cabeças, os livros para colorir e o rádio. Pretendo ensinar ele a ler e também quero ensiná-lo a andar com sapatos de neve. Wendy também quer aprender.

Ah, sim, eu acho que conseguiremos nos manter ocupados e não nos estressarmos uns com os outros se a televisão pifar. — Fez uma pausa. — E

Al disse mesmo a verdade quando contou que não bebo mais. Já bebi, e chegou a ficar sério. Mas não bebi nem um copo de cerveja nos últimos catorze meses. Não pretendo trazer nenhuma bebida alcoólica para cá e não acho que terei chance de conseguir uma depois que a neve começar a cair.

— Quanto a isso, tem toda a razão — confirmou Ullman. — No entanto, uma vez que vocês três estejam aqui, a possibilidade de problemas se multiplica. Eu falei sobre isso ao sr. Shockley, e ele assume a responsabilidade. Agora eu estou falando a mesma coisa ao senhor, e aparentemente o senhor está disposto a arcar com a responsabilidade…

— Estou.

— Muito bem. Aceito, já que não tenho escolha. Continuo preferindo um jovem universitário descompromissado tirando um ano de folga. Bem, talvez o senhor dê certo. Vou encaminhá-lo ao sr. Watson, que lhe mostrará o porão e o restante da propriedade. A não ser que o senhor ainda tenha alguma pergunta.

— Não, nenhuma.

Ullman se levantou.

— Espero que não haja ressentimentos, sr. Torrance. Não há nada de pessoal nas coisas que lhe disse. Só quero o melhor para o Overlook. É um grande hotel. Desejo que permaneça assim.

— Não. Nenhum ressentimento.

O sorriso de relações-públicas se iluminou novamente, mas Jack ficou feliz por Ullman não ter estendido a mão. Havia ressentimentos. De todos os tipos.

2

BOULDER

Ela olhou pela janela da cozinha e o avistou sentado no meio-fio, sem brincar com seus caminhões, carrinhos ou com o avião que o havia distraído na última semana, desde que Jack lhe dera de presente. Só estava sentado ali, esperando o velho Volkswagen, os cotovelos enterrados nas pernas e o

queixo apoiado nas mãos. Um menino de cinco anos à espera do pai.

De repente, Wendy se sentiu mal e quase começou a chorar.

Pendurou a toalha perto da pia e desceu a escada enquanto fechava os dois primeiros botões do vestido de ficar em casa. Jack e seu orgulho! Não, Al, não preciso de adiantamento. Por enquanto estou bem. As paredes do hall de entrada estavam um pouco esburacadas e rabiscadas com giz de cera, lápis de carpinteiro e tinta spray. A escada era íngreme e lascada. O prédio todo tinha um cheiro azedo de velho. Enfim, aquele não era lugar para Danny depois de terem morado na bela casinha de tijolos em Stovington. Os vizinhos do terceiro andar não eram casados, e, apesar de isso não a incomodar, as brigas constantes e violentas eram desagradáveis. Elas a assustavam. O cara se chamava Tom e, depois que os bares fechavam e o casal voltava para casa, as brigas começavam para valer… no resto da semana, em comparação, era apenas uma prévia. Jack as chamava de Lutas de Sexta à Noite, mas não era engraçado. A mulher (o nome dela era Elaine) por fim se debulhava em lágrimas, repetindo sem parar: “Não, Tom. Por favor, não. Por favor, não”. E ele gritava com ela. Uma vez chegaram a acordar Danny, mesmo o menino dormindo como uma pedra. Na manhã seguinte, Jack encontrou Tom de saída e conversou com ele na calçada por um tempo. O vizinho começou a vociferar, e Jack lhe falou mais alguma coisa, baixo demais para que Wendy pudesse ouvir, então Tom se limitou a balançar a cabeça mal-humorado e foi embora. Isso havia acontecido uma semana atrás, e as coisas melhoraram por alguns dias, mas, depois do fim de semana, tudo voltou ao normal… ou melhor, ao anormal. Era ruim para o menino.

A tristeza tomou conta dela mais uma vez, mas Wendy já estava na calçada e conteve o sentimento. Ajeitando o vestido sob as pernas e sentando-se no meio-fio, disse:

— O que é que há, velhinho?

Danny sorriu para a mãe, mas foi um gesto mecânico.

— Oi, mãe.

O avião estava entre os pés calçados de Danny, e Wendy notou que uma das asas estava começando a se partir.

— Quer que eu veja se consigo consertar, meu bem?

Danny tinha voltado a olhar para a rua.

— Não. O papai vai consertar.

— Pode ser que o papai não chegue antes do jantar, velhinho. O caminho até as montanhas é longo.

— Você acha que o fusca pode enguiçar?

— Não, acho que não. — O filho havia acabado de lhe dar um novo motivo para se preocupar. Obrigada, Danny. Era justamente o que eu precisava.

— O papai disse que era possível — Danny falou de forma incisiva, quase aborrecido. — Ele disse que a bomba de gasolina tava uma merda.

— Não diga isso, Danny.

— Bomba de gasolina? — perguntou, honestamente surpreso.

Wendy suspirou.

— Não. “Merda.” Não diga isso.

— Por quê?

— Porque é vulgar.

— O que quer dizer vulgar, mamãe?

— Vulgar é você limpar o nariz à mesa ou fazer xixi com a porta do banheiro aberta. Ou então dizer palavras feias como “merda”. É uma palavra vulgar. Gente educada não diz isso.

— O papai diz. Um dia, quando estava consertando o motor do fusca, ele disse: “Meu Deus, essa bomba de gasolina tá uma merda”. Papai não é uma pessoa educada?

Como é que você se mete nessas, Winnifred? Você procura?

— Ele é educado, mas é também um adulto. E ele toma muito cuidado para não falar coisas assim perto de pessoas que poderiam não entender.

— Como o tio Al?

— Sim, isso mesmo.

— Quando crescer, vou poder dizer?

— Acho que sim, mesmo que eu não goste.

— Com quantos anos?

— O que você acha de vinte, velhinho?

— É muito tempo para esperar.

— Acho que sim. Mas você vai tentar?

— Tá bem.

O menino voltou a observar a rua. Ele se mexeu um pouco, como se pretendesse se levantar, mas o fusca que estava chegando era muito mais novo e de um vermelho muito mais vivo. Danny relaxou novamente. Wendy começou a pensar no quanto a mudança para o Colorado havia sido difícil para o filho. Ele não falava nada a respeito, mas a incomodava vê-lo passar tanto tempo sozinho. Em Vermont, três colegas de Jack da faculdade tinham

filhos da idade de Danny… e havia também a escolinha. Na vizinhança atual, porém, ele não tinha nenhuma criança para brincar. A maioria dos apartamentos estava ocupada por estudantes da Universidade do Colorado. E, dos poucos casais da rua Arapahoe, apenas uma pequena porcentagem tinha filhos. Ela havia observado talvez uns doze no ensino fundamental, três bebês e só.

— Mamãe, por que o papai perdeu o emprego?

Wendy foi tirada do seu devaneio e se atrapalhou para encontrar uma resposta. Jack e ela já haviam debatido maneiras de lidar com essa pergunta de Danny, maneiras que podiam ir desde respostas evasivas até a verdade nua e crua. Mas o filho nunca havia perguntado. Não até aquele momento, quando a mãe estava deprimida e menos preparada para responder. Ainda assim, ali estava Danny, talvez lendo a confusão em seu semblante e formando as próprias ideias a respeito do assunto. Wendy achava que, para as crianças, os motivos e as atitudes dos adultos pareciam tão gigantes e assustadores quanto a visão da sombra de animais selvagens em uma floresta sombria. As crianças eram manipuladas como marionetes, com noções muito vagas dos porquês. O pensamento a deixou perigosamente próxima das lágrimas mais uma vez e, enquanto lutava contra elas, inclinou-se, tomou o aviãozinho e o girou nas mãos.

— Seu pai era o instrutor da equipe de debates, Danny. Você lembra?

— Claro — respondeu ele. — Discussões divertidas, certo?

— Isso. — Wendy girou o avião repetidamente, olhando para a marca do brinquedo (SP EE DOGLIDE), para os decalques de estrelas azuis nas asas e, de repente, se viu contando a verdade ao filho.

— Havia um rapaz chamado George Hatfield que o papai teve que tirar da equipe. Isso quer dizer que George não era tão bom quanto os outros. Mas o rapaz disse que seu pai o excluiu porque não gostava dele, e não porque não era bom o bastante. Então George fez uma coisa feia. Acho que você sabe.

— Foi ele que furou os pneus do fusca?

— Ele mesmo. Foi depois da aula, e seu pai o pegou no flagra. — Wendy hesitou de novo, mas não havia mais razão para ser evasiva; agora ou era a verdade, ou a mentira. — Seu pai… às vezes faz coisas de que se arrepende.

Às vezes não pensa como deveria. Isso não acontece sempre, mas às vezes sim.

— Ele machucou George Hatfield como fez comigo quando molhei os papéis dele?

Às vezes…

(Danny com o braço engessado)

… faz coisas de que se arrepende.

Wendy apertou os olhos com força, segurando as lágrimas.

— Algo assim, meu bem. O papai bateu em George para ele parar de furar os pneus, e George bateu a cabeça. Então os homens que tomavam conta da escola disseram que George não poderia mais voltar lá e que seu pai não poderia mais dar aulas. — Wendy parou de falar, sem ter mais o que dizer, e aguardou com pavor ser inundada de perguntas.

— Ah — respondeu Danny. E voltou a prestar atenção na rua.

Aparentemente o assunto estava encerrado. Se pelo menos pudesse ser encerrado assim tão facilmente para ela…

Wendy se levantou.

— Vou subir e tomar uma xícara de chá, velhinho. Quer uns biscoitos e um copo de leite?

— Acho que vou ficar esperando o papai.

— Não acho que ele vai chegar muito antes das cinco.

— Talvez ele chegue cedo.

— Talvez — concordou Wendy. — Talvez chegue.

Estava no meio da escada quando ouviu:

— Mamãe?

— O que foi, Danny?

— Você quer morar naquele hotel no inverno?

Agora, qual das cinco mil respostas deveria usar para essa pergunta? A que pensara na noite anterior ou a que pensara pela manhã? Eram todas diferentes. O pensamento oscilava entre o rosa mais claro e o preto mais escuro.

— Se é o que seu pai quer, está bom para mim. — Wendy fez uma pausa.

— E você?

— Eu acho que quero — disse Danny por fim. — Não tem ninguém pra brincar comigo aqui.

— Tem saudades dos seus amigos, não tem?

— Às vezes sinto falta de Scott e de Andy. Mas é só.

Wendy voltou e deu um beijo no filho, acariciando os fios claros que já estavam perdendo a delicadeza do cabelo de bebê. Era um menininho tão sério, e às vezes ela imaginava como é que Danny conseguia sobreviver tendo ela e Jack como pais. Que contraste entre as grandes esperanças deles e

a realidade daquele prédio desagradável em uma cidade que não conheciam.

Veio-lhe à mente a imagem de Danny engessado. Alguém no Departamento de Recrutamento e Seleção do Céu havia cometido um erro que Wendy temia não poder ser corrigido e pelo qual só o espectador mais inocente poderia pagar.

— Não fique no meio da rua, velhinho — falou, dando um abraço apertado nele.

— Claro, mamãe.

Wendy subiu e foi para a cozinha. Pegou a chaleira e pôs alguns biscoitos recheados em um prato para Danny, caso ele resolvesse subir enquanto ela estivesse deitada. Sentada à mesa, com a grande xícara de cerâmica à sua frente, Wendy o observava pela janela, ainda sentado no meio-fio, com o jeans e o pulôver verde-escuro grande demais da escola preparatória de Stovington, e o aviãozinho ao lado. As lágrimas que haviam ameaçado cair o dia todo vieram de uma só vez, e Wendy se inclinou sobre a fumaça perfumada e sinuosa do chá e chorou. De tristeza e saudade do passado e de temor pelo futuro.

3

WATSON

Perdeu o controle, dissera Ullman.

— Muito bem. Aqui está a fornalha — falou Watson, acendendo a luz do cômodo escuro e com cheiro de mofo.

Watson era um homem forte. Usava camisa branca e calça verde-escura e tinha o cabelo cheio e encaracolado. Ele abriu uma pequena grelha metálica quadrada no bojo da fornalha, e os dois espiaram juntos.

— Esta é a chama-piloto. — Uma chama fixa azul e branca assobiava para cima, canalizando uma força destrutiva. A palavra principal, pensou Jack, era destrutiva, e não canalizando: se você metesse a mão ali dentro, o churrasco estaria pronto em três ligeiros segundos.

Perdeu o controle.

(Você está bem, Danny?)

A fornalha ocupava todo o cômodo, de longe a maior e mais velha que Jack já havia visto.

— A chama-piloto tem um mecanismo de segurança — continuou Watson.

— Um pequeno sensor ali mede o calor. Se a temperatura cair abaixo de certo ponto, um alarme será acionado em seu apartamento. A caldeira está do outro lado. Vou lhe mostrar.

Watson fechou a grelha com força e conduziu Jack para trás da enorme fornalha de ferro, em direção à outra porta. O metal irradiava um forte calor, e por alguma razão Jack imaginou um gato grande e sonolento. Watson balançava as chaves e assobiava.

Perdeu o…

(Quando ele voltou ao escritório e viu Danny ali parado, apenas de fralda e com um sorriso, uma nuvem de fúria, pesada e vermelha, eclipsou-lhe a razão. Em sua cabeça, tinha parecido lento, pois tudo deve ter acontecido em menos de um minuto. Pareceu lento da mesma forma que sonhos parecem.

Os sonhos ruins. Todas as portas e gavetas do escritório pareciam ter sido saqueadas durante sua breve ausência. Closet, armários, estante. Todas as gavetas foram puxadas até travarem. O manuscrito — a peça de três atos que vinha desenvolvendo aos poucos, a partir de uma novelinha que escrevera sete anos antes, ainda na universidade — estava espalhado pelo chão. Jack estava tomando uma cerveja e fazendo correções no segundo ato quando Wendy o chamou para atender o telefone. Danny então derramou a lata de cerveja em todas as páginas. Provavelmente para vê-la espumar. Vê-la espumar, vê-la espumar, as palavras se repetiram em sua mente como um acorde doentio em um piano desafinado, completando o circuito de sua raiva.

Jack avançou deliberadamente em direção ao filho de três anos, que o olhava com um sorriso de prazer, o prazer de haver concluído recentemente, e com sucesso, um trabalho no escritório do pai; Danny começou a falar alguma coisa e foi então que Jack agarrou a mão da criança e a dobrou para que ele largasse a borracha da máquina de escrever e a lapiseira que estava segurando. Danny gritou um pouco… não… não… diga a verdade… ele berrou. Era tudo muito duro para ser lembrado através de uma névoa de raiva, do baque solitário daquele acorde satírico. Wendy, em algum lugar, perguntava o que estava acontecendo. A voz dela soava débil e umedecida pela neblina interior. Aquilo era entre Jack e Danny. O pai virou o filho para lhe dar umas palmadas; os grandes dedos de adulto afundaram na carne escassa do braço da criança, fechando-se ao redor dele em um punho, e o estalar do osso se quebrando não foi alto; não alto, mas muito alto, IMENSO, mas não alto. O som foi apenas suficiente para abrir uma fenda na névoa vermelha como uma flecha… Mas, em vez de deixar entrar a luz do sol, aquela fenda deixou entrar uma nuvem escura de vergonha e remorso, o terror, as agonizantes convulsões da alma. Um som claro, separando o passado de um lado e todo o futuro de outro, um som como o do grafite de um lápis se

partindo ou de um pequeno graveto sendo quebrado no joelho. Um momento de silêncio absoluto do outro lado, em respeito ao futuro que iniciava, talvez todo o resto da sua vida. Ver a face de Danny perder a cor e se tornar branca como cera, ver seus olhos, sempre grandes, tornando-se ainda maiores e ficando vitrificados, fez Jack ter certeza de que o menino ia cair morto na poça de cerveja e papéis. A própria voz de Jack, fraca e bêbada, arrastada, tentava voltar atrás e encontrar um caminho para contornar aquele som não tão alto do osso se partindo, um caminho para o passado (existe um statu quo nesta casa?), dizendo: “Você está bem, Danny? ”. Ao berro de resposta de Danny seguiu-se uma exclamação de surpresa de Wendy quando ela entrou no escritório e viu o ângulo peculiar que o antebraço do menino formava com o cotovelo; nenhum braço deveria estar pendurado daquela forma em um mundo de famílias normais. O próprio grito dela quando o acolheu em seus braços e o murmúrio sem sentido: “Ai Deus Danny ai meu Santo Deus ai meu bom Deus seu pobre bracinho”; e Jack ali parado, atordoado e idiota, tentando entender como uma coisa daquelas poderia ter acontecido. Ele estava ali parado, seus olhos se encontraram com os da mulher e ele viu que Wendy o odiava. Não lhe ocorreu o que aquele ódio poderia significar em termos práticos; foi só mais tarde que percebeu que ela poderia tê-lo abandonado naquela noite, ido para um hotel e contratado um advogado de divórcio na manhã seguinte. Ou chamado a polícia. Viu apenas que a mulher o odiava, sentiu-se abalado com isso, completamente sozinho. Sentiu-se péssimo. Era como se a morte estivesse chegando. Então Wendy voou para o telefone e ligou para o hospital, segurando o menino que berrava, e Jack não foi atrás dela, ficou apenas ali, em meio à bagunça do escritório, sentindo cheiro de cerveja e pensando…)

Perdeu o controle.

Jack esfregou a mão na boca rudemente e acompanhou Watson até a sala da caldeira. Estava úmido ali, mas era algo além da umidade que estava produzindo aquele suor viscoso e doentio em sua testa, barriga e pernas. Era a lembrança que fazia aquilo, era a soma de todos os fatores que faziam aquela noite de dois anos atrás parecer como se tivesse acontecido duas horas antes.

Não havia defasagem de tempo. A lembrança trouxe de volta a vergonha e a repulsa, a sensação de não ter valor algum. E aquele sentimento sempre o fazia querer beber, e a vontade de beber trazia um desespero ainda mais sombrio… Teria ele, em algum momento, uma hora — não uma semana ou mesmo um dia, entenda, mas apenas uma hora — de consciência em que o

desejo de beber não o surpreendesse daquela forma?

— A caldeira — anunciou Watson. Ele tirou do bolso de trás um lenço vermelho e azul, assoou o nariz forte e ruidosamente e enfiou o lenço de volta, longe da vista, depois de uma rápida olhada para ver se ali continha algo digno de atenção.

A caldeira ficava em cima de quatro blocos de cimento; era um grande tanque cilíndrico de metal, revestido de cobre e remendado com frequência.

Ficava embaixo de um emaranhado de tubos e dutos que ziguezagueavam para cima até o teto alto e enfeitado com teias de aranha daquele porão. À

direita de Jack, dois grandes tubos de aquecimento atravessavam a parede, vindos da fornalha na sala adjacente.

— O manômetro está aqui — Watson bateu nele de leve. — Libras por polegada quadrada. Acho que você já sabe disso. Eu regulei a temperatura agora para trinta e oito graus, e os apartamentos ficam um pouco frios à noite.

Alguns hóspedes enchem a porra do saco reclamando disso. Eles que são malucos de virem pra cá em setembro. Além do mais, esta belezinha já está velha. Tem mais remendos do que roupa de mendigo. — O lenço reapareceu.

Outra assoada ruidosa. Outra espiada. De volta ao bolso.

— Tô com a porra de um resfriado — disse Watson informalmente. —

Todo setembro é assim. Fico aqui remendando esta puta velha, depois saio para cortar grama ou passar ancinho no campo de roque. “Se apanhar friagem, fica gripado”, costumava dizer minha velha mãezinha. Que Deus a tenha. Morreu há seis anos. O câncer pegou ela. Se o câncer te pegar, melhor fazer logo seu testamento.

“Cê vai querer manter a pressão não muito acima de cinquenta, talvez sessenta. O sr. Ullman diz para aquecer a ala oeste em um dia, a ala central no seguinte e a ala leste no outro. Não é maluco? Odeio aquele filho da puta.

Au-au-au o dia inteiro. Ele é que nem aqueles cachorrinhos que mordem seu tornozelo, depois correm e mijam em todo o tapete. Se o cérebro dele tivesse pólvora, o cara não ia nem poder assoar o nariz. É uma pena quando você vê certas coisas e não tem uma arma na mão.

“Veja aqui. Você abre e fecha os dutos puxando estas argolas. Marquei todas elas para você. As etiquetas azuis são para os quartos da ala leste. As vermelhas, para os do meio. As amarelas, para os da ala oeste. Quando você aquecer a ala oeste, lembre que esse é o lado do hotel mais exposto. Aqueles quartos ficam mais gelados que uma mulher frígida com uma pedra de gelo lá dentro. Nos dias de aquecer a ala oeste, pode forçar a pressão até oitenta. É o

que eu faria pelo menos.”

— Os termostatos lá em cima… — ia dizendo Jack.

Watson sacudiu a cabeça com veemência, fazendo o cabelo macio balançar no topo da cabeça.

— Não estão ligados a nada. Estão lá de fachada. Alguns dos hóspedes da Califórnia acham que só não existe alguma coisa errada se estiver quente o suficiente para cultivar uma palmeira dentro da merda do quarto. Toda a calefação vem daqui de baixo. Mas é importante verificar a pressão. Está vendo como ela aumenta?

Ele deu uma batidinha no mostrador principal, que se movera de cem para cento e duas libras por polegada quadrada enquanto Watson monologava.

Jack sentiu um arrepio súbito percorrer-lhe a espinha e pensou: Senti o cheiro da morte. Em seguida, Watson girou a roda de pressão e esvaziou a caldeira.

Houve um silvo alto, e o marcador caiu para noventa e um. Ele fechou a válvula e o silvo morreu com relutância.

— Ela aumenta sozinha — disse Watson. — Se você disser isso àquele caipira branquelo e gordo do Ullman, ele pega as planilhas de contabilidade e passa três horas demonstrando como não podemos arcar com a compra de uma máquina nova até 1982. Te digo, todo este lugar vai pelos ares qualquer dia desses, e só espero que aquele gordo filho da puta esteja aqui para pilotar o foguete. Meu Deus, eu gostaria de ser tão caridoso quanto minha mãe. Ela via o lado bom de todo mundo. Eu sou tão ruim quanto uma cobra venenosa.

Porra, um homem não pode lutar contra a própria natureza.

“Agora, você tem que lembrar de vir aqui duas vezes por dia e uma vez de noite, antes de ir dormir. Tem que verificar a pressão. Se você esquecer, ela vai aumentando, aumentando, e você e sua família vão acabar acordando quando estiverem na porra da Lua. É só deixar vazar um pouco e não terá problema.”

— Qual seria o máximo?

— Oficialmente ela aguenta até duzentos e cinquenta, mas explodiria muito antes disso. Ninguém me faria descer e ficar perto com o mostrador a cento e oitenta.

Continuar: parte 2 de 3