O Iluminado

Stephen King · Capítulo 6 de 9 · parte 1/2

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O Iluminado

Os segredos do Hotel Overlook

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Quando Stephen King escreveu O iluminado, nos anos 1970, o manuscrito original continha, além da trama principal, um prólogo e um epílogo que narravam a história do Hotel Overlook, intitulados, respectivamente, “Antes do ato” e “Depois do ato”. Em uma decisão editorial, esses dois capítulos foram cortados da versão final do livro.

Embora o prólogo tenha sido publicado em 1982 na Whispers Magazine, em uma edição limitada e raríssima, o epílogo permaneceu esquecido por todos esses anos. Até que um colecionador, ao adquirir uma cópia do manuscrito original de O iluminado, notou a presença do conteúdo inédito e já considerado perdido até pelo autor.

Nesta edição estão incluídos os textos de “Antes do ato” e “Depois do ato”, que de certa forma complementam a trama de O iluminado.

ANTES DO ATO

Cena I: O terceiro andar de um hotel passando por tempos difíceis Era o dia 7 de outubro de 1922, e o Hotel Overlook tinha fechado as portas no final de outra temporada. Quando reabrisse, em meados de maio de 1923, estaria sob nova direção. Havia sido comprado por dois irmãos chamados Clyde e Cecil Brandywine; bons rapazes do Texas com mais dinheiro antigo de gado e dinheiro novo de petróleo do que sabiam em que usar.

Bob T. Watson estava em frente à grande janela da Suíte Presidencial, olhando para a encosta das Montanhas Rochosas, onde os choupos agora já haviam perdido a maior parte das folhas, e torceu para os irmãos Brandywine fracassarem. Desde 1915 até então, o hotel pertencera a um homem chamado James Parris. Parris começou sua vida profissional em 1880, como um advogado trambiqueiro qualquer. Um dos seus melhores amigos chegou à presidência de uma grande companhia ferroviária no Oeste, um barão ladrão entre outros barões ladrões, e Parris ficou rico com o espólio desse homem.

Ele não era, no entanto, dotado da elegância do amigo; era um homenzinho grisalho, sempre de olho nas planilhas de contabilidade. Ele teria vendido o Overlook de qualquer jeito, pensou Bob T. Watson, enquanto continuava olhando pela janela. Só que o filho da mãe trambiqueiro caiu morto antes de ter a chance.

Foi o próprio Bob T. Watson que vendeu o Overlook para James Parris.

Um dos últimos magnatas do Oeste que surgiram entre os anos 1870 e 1905, Bob T. veio de uma família que fez uma fortuna impressionante com prata nos arredores de Placer, Colorado. Eles foram à falência, reconstruíram a fortuna com especulação de terras para ferrovias e faliram mais uma vez na depressão de 1893-1894, quando um homem suspeito de integrar o crime organizado matou o pai de Bob T. com um tiro, em Denver.

Entre 1895 e 1905, sem nenhuma ajuda, Bob T. recuperou o patrimônio.

Nessa época começou a procurar alguma coisa, uma coisa perfeita, para coroar suas realizações. Depois de dois anos analisando com cuidado (nesse período ele também comprou um governador e um representante no Congresso americano), decidiu, do jeito modesto dos Watson, construir o maior hotel de temporada do país. Ficaria no topo dos Estados Unidos, sem nada mais alto além do céu. Seria o playground da elite nacional e

estrangeira, das pessoas que três gerações depois seriam conhecidas como super-ricas.

A construção começou em 1907, sessenta e cinco quilômetros a oeste de Sidewinder, Colorado, supervisionada pelo próprio Bob T.

— Sabe… — Bob T. falou em voz alta, na suíte do terceiro andar daquele que era o maior conjunto de apartamentos, do maior hotel dos Estados Unidos. — Nada mais deu certo depois disso. Nada.

O Overlook o envelhecera. Ele tinha quarenta e três anos quando começaram a obra em 1907, e, quando a construção foi finalizada, dois anos depois (mas tarde demais para que o hotel abrisse as portas antes de 1910), Bob T. estava careca. Havia desenvolvido uma úlcera. Um de seus dois filhos, o que ele mais amava e que estava destinado a dar continuidade ao legado Watson no futuro, morreu em um acidente estúpido, cavalgando no terreno do hotel. Boyd tentou fazer o pônei saltar por sobre uma pilha de madeira, onde agora ficavam os arbustos, mas o pônei prendeu a pata traseira e quebrou a perna. Boyd quebrou o pescoço.

A família passou por dificuldades financeiras em outras frentes. A fortuna Watson, que parecia tão segura em 1905, começou a ficar abalada naquele outono de 1909. Foi feito um enorme investimento em munição, em expectativa a uma guerra estrangeira que só veio a acontecer em 1914. Um contador desonesto aplicou um golpe na parte madeireira da operação e, apesar de ter sido preso e ficado na cadeia por vinte longos anos, provocou primeiro um prejuízo de meio milhão de dólares.

Talvez deprimido com a morte do filho mais velho, Bob T. ficou imprudentemente convencido de que o caminho para recuperar o dinheiro era o mesmo que o pai havia tomado anos atrás: o da prata. Alguns conselheiros se opuseram, mas, após o golpe do contador, que era filho de um dos melhores amigos do pai, Bob T. confiava cada vez menos no Conselho. Ele se recusou a acreditar que os dias de mineração no Colorado tinham chegado ao fim. Um milhão de dólares em investimento sem retorno não o convenceu.

Dois milhões, sim. E, quando o Overlook abriu as portas no final da primavera de 1910, Bob T. percebeu que estava precariamente próximo de começar do zero mais uma vez… e se reerguer das ruínas aos quarenta e cinco anos de idade podia ser impossível.

O Overlook era sua esperança.

O Hotel Overlook, construído no teto do céu, com suas topiarias de arbustos podados em formato de animais para encantar as crianças, o

parquinho, a linda e longa pista de croquet, o campo verde de golfe, as quadras de tênis externas e de shuffleboard internas, a sala de jantar e sua janela oeste com vista para os picos irregulares das Montanhas Rochosas, o salão de baile voltado para o leste, onde a terra caía em vales verdes de píceas e pinheiros. O Overlook, com seus cento e dez quartos, funcionários especialmente treinados, e não um, mas dois chefs franceses. O Overlook, com o saguão tão amplo e grandioso quanto três vagões de trem Pullman, a grande escadaria subindo ao segundo andar e a mobília neovitoriana pesada, tudo sob o enorme candelabro de cristal, pendurado acima da escada como um monstro de diamante.

Bob T. se apaixonou já pela ideia do hotel, e seu amor aumentou conforme a construção foi tomando forma. Não era mais apenas algo em sua mente, mas uma construção verdadeira, com linhas fortes e precisas e infinitas possibilidades. Sua esposa passou a odiar o hotel; em determinado momento em 1908, ela disse a ele que preferiria ter ciúmes de outra mulher, pois ao menos saberia como lidar. Mas ele desconsiderou o ódio dela como uma reação feminina histérica pela morte de Boyd.

— Você não entende do assunto — argumentou Sarah. — Quando olha para lá, parece que perde o bom senso. Ninguém pode falar sobre custos nem perguntar como as pessoas vão chegar aqui se os últimos cem quilômetros de estrada nem estão pavimentados…

— Eles serão pavimentados — ele respondeu baixinho. — Eu vou pavimentar.

— E quanto isso vai custar? — perguntou Sarah histericamente. — Mais um milhão?

— Nem perto disso — retrucou Bob T. — E, se custasse, eu pagaria.

— Está vendo? Não consegue ver? Você não leva jeito para a coisa. Esse hotel tirou a sua razão, Bob T.!

Talvez tivesse tirado mesmo.

A temporada inaugural do Overlook foi um pesadelo. A primavera começou tarde, e as estradas só ficaram transitáveis no primeiro dia de junho.

E, mesmo assim, eram horríveis, cheias de buracos, de papelão colocado apressadamente sobre lama grudenta e de valas que destruíam as suspensões dos carros. Choveu mais naquele ano do que Bob T. já tinha visto na vida e do que jamais veria, chegando ao auge de nevar em agosto… Neve negra, as mulheres idosas diziam, um presságio terrível para o inverno que viria. Em setembro, ele contratou um empreiteiro para pavimentar os últimos trinta

quilômetros da estrada que levava para o oeste do Estes Park até Sidewinder, uma obra cara e extensa para terminar as duas estradas antes que a neve as cobrisse no longo inverno. O inverno em que sua esposa morreu.

Mas as estradas e a estação curta não foram o pior do primeiro ano do Overlook. Não. O hotel foi oficialmente aberto no dia 1o de junho de 1910, em uma cerimônia com direito a fita cortada, comandada pelo congressista de estimação de Bob T. O dia foi quente, limpo e claro, o tipo de dia que o Denver Post devia ter em mente quando escolheu o slogan “É um privilégio morar no Colorado”. E, quando o congressista cortou a fita, a esposa de um dos primeiros hóspedes desmaiou. Os aplausos que tinham começado morreram em pequenas exclamações de alarme e preocupação. Sais aromáticos a despertaram, claro, mas sua consciência voltou com uma expressão de terror atordoado tão grande no rostinho insípido que Bob T. a estrangularia com prazer.

— Eu achei que vi alguma coisa no saguão — disse ela. — Não parecia um homem.

Mais tarde, ela admitiu que devia ter sido o calor inesperado, depois de tanto tempo frio. Mas obviamente, àquela altura, o dano já tinha sido feito.

E a história dos maus presságios daquele dia nem tinha terminado.

Um dos dois chefs queimou o braço quando estava preparando o almoço e teve que ser levado ao hospital mais próximo, que ficava em Boulder. A sra.

Arkinbauer, esposa do rei dos frigoríficos, escorregou enquanto saía do banho e quebrou o pulso. E finalmente, o toque de mestre, no jantar daquela noite: o congressista de Bob T. engoliu um pedaço de bife de alcatra do jeito errado e morreu engasgado, sob os olhares horrorizados de duzentos convidados, quase todos lá a convite pessoal de Bob T. Watson.

O congressista primeiro segurou o pescoço, ficou vermelho e depois roxo e começou a cambalear em meio aos presentes durante a convulsão mortal, indo de mesa em mesa, os braços agitados derrubando taças de vinho e vasos cheios de flores frescas, os olhos saltando horrivelmente diante dos convidados reunidos. Um dos amigos de Bob T. disse para ele, bem mais tarde e em particular, que parecia a história de Poe sobre a Morte Rubra ganhando vida na frente de todo mundo. E, talvez, a chance que tinha Bob T.

de fazer seu amado hotel virar sucesso tenha morrido naquela primeira noite.

Uma morte convulsionada, trêmula e infeliz ao lado da do congressista e na frente de todos.

O filho de um dos convidados para essa semana de inauguração de cortesia era estudante do segundo ano de medicina, e fez uma traqueostomia de emergência na cozinha. Ou ele realizou o procedimento tarde demais ou sua mão tremeu no momento indevido; de qualquer modo, o resultado foi o mesmo. O homem estava morto e, antes de a semana chegar ao fim, metade dos convidados tinha ido embora.

Bob T. lamentou com a esposa que nunca tinha visto nem ouvido falar de uma sequência tão espetacular de azar.

— Você tem tanta certeza assim de que não passa de azar? — perguntou ela, agora a apenas seis meses da própria morte.

— O que mais pode ser, Sarah? O que mais?

— Você colocou aquele hotel em um altar no seu coração! — ela respondeu com voz aguda. — Construiu sobre os ossos do seu primogênito!

A menção a Boyd ainda fazia a voz de Bob T. vacilar, mesmo um ano depois.

— Sarah, Boyd está enterrado em Denver, ao lado da sua mãe.

— Mas ele morreu aqui! Ele morreu aqui! E quanto está custando a você, Bob T.? Quanto você enfiou nesse maldito lugar e que nunca vamos recuperar?

— Eu vou recuperar.

Sua esposa inculta, que já havia dividido com ele uma casa que não passava de um chalé de madeira com apenas um cômodo, enunciou uma profecia:

— Você vai morrer pobre e arrependido, Bob T. Watson, antes de ver o primeiro centavo de lucro daquele lugar.

Ela morreu de gripe, assumindo seu lugar entre o filho e a mãe.

A temporada de 1911 também começou mal. A primavera e o verão chegaram em épocas mais favoráveis, mas o filho mais novo de Bob T., um garoto de catorze anos chamado Richard, levou a má notícia para o pai em meados de abril, um mês antes do começo da temporada do hotel.

— Papai, aquele filho da mãe do Grondin passou você para trás —

informou Richard.

Grondin era o empreiteiro que havia pavimentado os cem quilômetros de estrada a um custo total de setenta mil dólares. Ele usou material sem qualidade para reduzir os custos da obra. Depois de um outono de geada, um inverno congelante e um degelo de primavera, o asfalto estava se quebrando em pedaços grandes e podres. Os cem quilômetros finais de viagem até o Overlook seriam intransponíveis por charrete, e menos ainda por aquelas

máquinas modernas.

Bob T. achava que o pior, o mais assustador, era que ele havia passado pelo menos dois dias de cada semana supervisionando as obras. Como Grondin podia ter conseguido fazer o material sem qualidade passar por ele?

Como ele pôde ser tão cego?

Grondin, evidentemente, não foi encontrado.

Repavimentar as estradas era mais caro do que a pavimentação original, porque era necessário retirar os resíduos da primeira. Eles não serviriam nem de base para a nova estrada. Mais uma vez, o trabalho precisou acontecer dia e noite, resultando em pagamento de horas extras. Houve atrasos, obstáculos e confusões. Carroças que buscavam o material no terminal ferroviário de Estes Park perderam as rodas. Cavalos tiveram ataques cardíacos tentando puxar carroças sobrecarregadas por aclives íngremes. Choveu uma semana inteira no começo de maio. A estrada só ficou pronta na primeira semana de julho, e àquela altura a maioria das pessoas que Bob T. esperava atrair já havia feito seus planos para o verão, e menos da metade dos cento e dez quartos do Overlook ficou ocupada.

Apesar do clamor de pânico dos contadores (e até do seu filho Richard), Bob T. se recusou a despedir funcionários do hotel. Ele não quis demitir nem um dos dois chefs renomados (eram contratações novas, pois os dois do ano anterior não tinham voltado), embora mal houvesse trabalho para um. Estava teimosamente convencido de que, no final de julho… ou em agosto… talvez até mesmo em setembro, quando os choupos começassem a mudar… que os hóspedes chegariam, os ricos iriam com seus criados e seus parasitas e seu dinheiro indolente. Os estadistas iriam, os políticos de conchavos, os atores e atrizes consagrados nos palcos da Broadway, a nobreza estrangeira que estava sempre procurando um lugar novo e divertido. Eles ouviriam falar do exuberante hotel que havia sido construído para o desfrute deles nos Estados Unidos e iriam. Mas eles nunca foram. E, quando o inverno deu fim à segunda temporada de funcionamento do Overlook, apenas cento e seis hóspedes tinham assinado o registro em três meses.

Bob T. suspirou e continuou olhando pela janela da Suíte Presidencial, que, em 1922, só havia hospedado um presidente: Woodrow Wilson. E, nessa época, já era um homem destruído de todas as formas: em corpo, em espírito, na credibilidade com as pessoas. Quando Wilson foi ao hotel, ele havia se tornado uma piada lamentável. Circulavam boatos de que a esposa dele era a verdadeira Presidente dos Estados Unidos.

Se Sarah não tivesse morrido, Bob T. pensou, enquanto passava a ponta do dedo sem rumo na janela, e u talvez os tivesse despedido; alguns, pelo menos.

Ela talvez tivesse me convencido. É possível… mas acho que não.

Você colocou aquele hotel em um altar no seu coração.

A temporada de 1912 foi melhor. De certa forma, pelo menos; o Overlook só ficou oitenta mil dólares no vermelho. As duas temporadas anteriores custaram a ele mais de duzentos e cinquenta mil, sem contar a pavimentação daquela estrada duplamente… não, triplamente maldita. Quando a temporada de 1912 terminou, ele estava esperançosamente convencido de que as arestas tinham sido enfim aparadas, que os contadores reclamões poderiam guardar as canetas vermelhas e começar a escrever com as de tinta azul.

A temporada de 1913 foi ainda melhor, apenas cinquenta mil dólares de prejuízo. Ele ficou convencido de que sairia do vermelho em 1914. Que o Overlook estava finalmente entrando no rumo certo.

Seu contador-chefe o procurou em setembro de 1914, enquanto a temporada ainda tinha três semanas pela frente, recomendando que Bob T.

declarasse falência.

— De que você está falando, em nome de Deus? — perguntou Bob T.

— Estou falando dos quase duzentos mil dólares de dívida que você não tem como pagar. — O contador se chamava Rutherford. Era um homem meticuloso, um sujeito do Leste.

— Isso é ridículo — retorquiu Bob T. — Saia daqui. — O chef principal, Geroux, chegaria em pouco tempo. Eles planejariam o cardápio das três noites de encerramento, o que Bob T. nomeou de Festival Overlook.

Rutherford deixou uma pilha fina de papéis na mesa de Bob T. e saiu.

Três horas mais tarde, depois de o chef sair, Bob T. se viu olhando os papéis. Não dê importância para eles, disse a si mesmo. I rão para o lixo.

Vou demitir o filho da mãe, ele e seu sotaque de Boston e os ternos de três peças. Ele não passava de um imbecil inexperiente. E quem manteria uma pessoa na folha de pagamento depois que ela recomendava pedir falência?

Era risível.

Ele pegou os papéis que Rutherford deixara, com a intenção de guardá-los no arquivo circular, mas acabou olhando. O que viu foi o bastante para fazer o sangue congelar nas veias.

Em cima estava uma nota fiscal do Keystone of Golden Obras de Pavimentação. O serviço mais os juros somavam um total de setenta mil dólares. O vencimento era a data do recebimento da nota. Embaixo, um

recibo do Denver Electrical Outfitters, Inc., que cuidou de toda a fiação elétrica do Overlook e instalou não um, mas dois geradores gigantescos no enorme porão. Isso havia sido feito no final do outono de 1913, quando seu filho Richard garantiu que a eletricidade tinha chegado para ficar e que em pouco tempo os hóspedes esperariam que o hotel a oferecesse, não só como luxo, mas como necessidade. Esse recibo tinha o valor de dezoito mil dólares.

Bob T. mexeu no resto dos papéis com horror crescente. Uma nota de manutenção predial, uma de jardinagem, o segundo poço que ele mandara cavar, além dos empreiteiros que naquele mesmo momento estavam construindo uma enfermaria, os que tinham terminado recentemente as duas estufas e, por fim… por fim, uma discriminação na caligrafia clara e implacável de salários a pagar.

Quinze minutos depois, Rutherford estava de pé na frente dele de novo.

— Não pode ser tão ruim — sussurrou Bob T., rouco.

— É pior — confirmou Rutherford. — Se minhas estimativas estiverem certas, você vai terminar essa temporada vinte mil dólares ou mais no vermelho.

— Só vinte? Se conseguirmos segurar até o ano que vem, podemos sair do vermelho…

— Não tem como conseguirmos — sentenciou Rutherford pacientemente.

— As contas do Overlook não estão acabando, sr. Watson. Elas estão vazias.

Eu até fechei a conta de despesas menores na tarde de quinta-feira para conseguir preparar os envelopes de pagamento dos funcionários. As contas-correntes estão igualmente vazias. Seus direitos minerários em Haggle Notch foram encerrados, por ordem sua, em julho. Isso é tudo… — Os olhos de Rutherford brilharam com uma breve esperança. — Quer dizer, tudo de que eu tenho conhecimento.

— É tudo. — Bob T. assentiu com tristeza, e a esperança nos olhos de Rutherford sumiu. Bob T. se empertigou um pouco. — Vou para Denver amanhã. Vou fazer uma segunda hipoteca para o hotel.

— Sr. Watson — disse Rutherford com uma gentileza inesperada. — Você fez uma segunda hipoteca no inverno passado.

E fez mesmo. Como posso ter esquecido uma coisa dessas?, perguntou-se Bob T., com medo de verdade. Da mesma forma que esqueceu duzentos mil dólares de pagamentos atrasados? Simplesmente esqueci? Quando um homem começava a “simplesmente esquecer” coisas assim, era hora de esse homem sair do mercado antes de ser expulso.

Mas ele não queria deixar o Overlook.

— Vou conseguir uma terceira — afirmou. — Bill Steeves vai me dar uma terceira.

— Não, não acredito que vá — respondeu Rutherford.

— O que você quer dizer com não acredita que vá, seu verme de Boston?

— rugiu Bob T. — Billy Steeves e eu nos conhecemos desde 1890! Eu promovi o começo da carreira dele… ajudei a capitalizar o banco… mantive meu dinheiro lá em 1894, quando todo mundo a oeste do Mississippi estava cagando pra eles! Ele vai me dar uma décima hipoteca, senão vai se ver comigo!

Rutherford olhou para Bob T. e se perguntou o que devia dizer, o que podia dizer que o velho já não soubesse. Podia contar que William Steeves tinha colocado em risco a própria posição como presidente do First Mercantile Bank of Denver ao conceder a segunda hipoteca, quando a situação do Overlook já não tinha mais volta? Que Steeves havia decidido dar a hipoteca mesmo assim sob a convicção ridícula de que tinha uma dívida para com Bob T. Watson (na mente de Rutherford, sempre precisa, a verdadeira dívida já havia se triplicado)? Podia argumentar que, se Steeves colocasse a própria garganta na forca e aceitasse tentar uma terceira hipoteca, ele só conseguiria se recolocar no mercado de trabalho em severa crise? Que mesmo que o impensável acontecesse e a hipoteca fosse concedida, não bastaria para acabar com as dívidas?

O velho devia saber essas coisas.

Velho, refletiu Rutherford. Ele pode não ter mais de cinquenta anos, mas nesse momento parece ter setenta e cinco. O que há para dizer a ele? Que a esposa dele talvez tivesse razão, que os credores estavam certos? O hotel sugou tudo dele. Roubou seu tino comercial, sua sabedoria, até seu bom senso. Era preciso um tipo de sentido especial para sobreviver no mercado americano, um tipo especial de visão. E agora, Bob T. Watson estava cego. O hotel havia cegado e envelhecido Bob T.

Rutherford falou:

— Eu acredito que é o meu momento de agradecer pelos dois anos de emprego e pedir minha demissão, sr. Watson. Abro mão de qualquer outra gratificação. — Isso era uma piada amarga.

— Pode ir — respondeu Bob T. Seu rosto estava obscuro e contraído. —

Seu lugar não é no Oeste. Você não entende como é o Oeste. Você não passa de uma latrina de latão barato com mente de relógio. Saia daqui.

Bob T. pegou a pilha de contas a pagar, rasgou no meio, em quatro partes e, com uma força que subiu pelos braços até os ombros, em oito partes. Jogou os pedaços na cara de Rutherford.

— Saia daqui! — gritou ele. — Volte para Boston! Eu ainda vou estar cuidando deste hotel em 1940! Eu e meu filho Richard! Saia! Saia!

Bob T. se virou da janela e olhou pensativo para a cama enorme, onde o presidente Wilson e a esposa dormiram… se é que dormiram. Parecia a Bob T. que muita gente que ia para o Overlook dormia mal.

Eu ainda vou estar cuidando deste hotel em 1940!

Bom, de certa forma era verdade. Era mesmo. Ele foi para a sala, um homem alto e curvado, agora quase completamente careca, que vestia um macacão de carpinteiro e calçava sapatos duros em vez das botas caras que costumava usar. Levava um martelo em um bolso e uma corrente no outro, e no aro no final da corrente estavam todas as chaves do hotel. Mais de cinquenta no total, inclusive uma chave mestra diferente para cada ala de cada andar, mas nenhuma com etiqueta: ele conhecia todas pela visão e pelo toque.

Nunca faltou comprador para o Overlook, e Bob T. achava que nunca faltaria. Havia alguma coisa no local que o lembrava aquela velha história grega sobre Homero e as ninfas no mar. Empresários (os Homeros do século XX) que eram sadios e cabeças-duras ficavam irracionalmente convencidos de que podiam dar conta do negócio e prosperar além dos seus mais ousados sonhos. Bob T. gostava muito da história. Era como descobrir que não estava sozinho na loucura. Ou talvez só saber que o Overlook nunca ficaria vazio e deserto. Ele achava que não conseguiria suportar isso.

Apesar dos protestos de Rutherford de que só seria possível salvar alguma coisa declarando falência e deixando o banco vender o hotel, Bob T. decidiu vender o Overlook ele mesmo. Estava cada vez mais próximo do filho Richard (talvez ele nunca fosse ocupar o lugar de Boyd, mas era um garoto bom e trabalhador, e agora que a mãe havia morrido eles só tinham um ao outro), e não ia permitir que o garoto crescesse com o estigma da falência pairando sobre sua cabeça.

Três grupos se mostraram interessados, e Bob T. se manteve firme até conseguir o preço estipulado, sempre um passo à frente dos credores ávidos, que queriam derrubá-lo e dividir os espólios entre si. Ele pagou inúmeras dívidas antigas, algumas da época do pai. Para manter o Overlook sob seu controle e longe das mãos do banco, ele chantageou uma viúva até que ela

beirasse a histeria, ameaçou um editor de jornal de Albuquerque de revelar um segredo (o editor tinha uma queda por garotas jovens, por pré-adolescentes, na verdade), ficou de joelhos, implorando para um homem, que ficou tão repugnado que deu a Bob T. um cheque de dez mil dólares só para que ele não ficasse mais de joelhos e saísse da sala dele.

Nada bastou para diminuir a maré crescente de tinta vermelha (nada poderia fazer isso, ele reconhecia), mas naquele inverno de 1914-1915 ele reuniu o suficiente para deixar o hotel longe da falência.

Na primavera, negociou o hotel com James Parris, o homem que começou a vida como advogado trambiqueiro. O preço dado por Bob T., ridiculamente baixo, foi cento e oitenta mil dólares e empregos vitalícios para ele e para seu filho… como funcionários da manutenção do Overlook.

— Você é louco, cara — disse Parris. — É para isso que você quer evitar a falência? Para que os jornais de Denver possam noticiar que você é zelador no hotel do qual já foi proprietário? — E reiterou: — Você é louco.

Bob T. foi inflexível. Ele não queria sair do hotel. E, mesmo com toda a fala insensível de empresário, sabia que Parris iria ceder. O discurso distante não escondeu a expressão comicamente ansiosa no olhar de Parris. Aquela expressão não era conhecida pelo próprio Bob T.? Não tinha visto aquilo no espelho nos últimos seis anos?

— Não preciso discutir com você sobre isso — concluiu Parris, fingindo indiferença. — Se eu esperar mais dois meses, talvez só três semanas, você vai quebrar. E aí, posso negociar com o First Mercantile.

— E eles vão cobrar duzentos e cinquenta mil se decidirem vender —

respondeu Bob T.

Para esse argumento, Parris não tinha resposta. Ele poderia pagar o salário dos Watson pelo resto da vida deles com o dinheiro que economizaria comprando daquele lunático em vez de aguardar negociar com o banco.

Assim, o negócio foi fechado. Os cento e oitenta mil dólares finalmente extinguiram a tinta vermelha. A estrada estava paga, e a eletricidade, e os jardins e todo o resto. A falência foi evitada. James Parris assumiu o escritório do gerente no andar de cima. Bob T. e Dick Watson se mudaram da suíte na ala oeste do terceiro andar para um apartamento no enorme porão. O cômodo ficava atrás de uma porta que dizia MANUTENÇÃO — NÃO ENTRE!

Se James Parris imaginou que a insanidade de Bob T. se estenderia ao trabalho, ele se enganou. Bob T. era o zelador ideal, e o filho se mostrou mais adequado para aquela vida do que para uma de riqueza. Faculdade e negócios

deixavam sua cabeça doendo só de pensar; Dick era um aprendiz dedicado.

— Se nós somos zeladores — disse Bob T. uma vez para o filho —, então aquela coisa que está acontecendo na França não passa de uma briguinha de bar.

Eles deixavam o local limpo, sim, Bob T. era meio maníaco quanto a isso.

Mas faziam mais. Mantinham os geradores em perfeitas condições de funcionamento. De junho de 1915 até aquela data, 7 de outubro de 1922, nunca houve falta de energia. Quando os telefones foram instalados, Bob T. e seu filho Richard montaram a mesa telefônica sozinhos, se orientando por manuais que ficaram lendo por noites seguidas. O telhado também estava sempre em perfeitas condições: substituíam vidraças quebradas, viravam o tapete da sala de jantar uma vez por mês, pintavam, cobriam de gesso e supervisionaram a instalação do elevador em 1917.

E moravam lá durante o inverno.

— Não é muito animado aqui no inverno, né? — perguntou uma vez o chefe dos carregadores de mala, em um intervalo de trabalho. — O que vocês fazem, hibernam?

— Nós nos ocupamos — Bob T. respondeu brevemente. E Richard só deu um sorriso inquieto, porque afinal todos os hotéis tinham um esqueleto ou dois no armário, e às vezes os esqueletos sacodiam os ossos.

Em uma tarde no final de janeiro, quando Bob T. estava instalando uma peça de vidro em cima da bancada da recepção, um barulho horrível soou na sala de jantar. Era um barulho engasgado e apavorante, que o encheu de horror e o levou de volta àquela primeira noite, quando seu congressista morreu engasgado com um pedaço de bife.

Bob T. permaneceu imóvel, esperando que o barulho parasse, mas os horrendos ruídos estrangulados continuaram. Ele pensou: Se eu entrasse lá agora, eu o veria, cambaleando de mesa em mesa como um pedinte maltrapilho no banquete de um rei, os olhos saltados, implorando para que alguém o ajudasse…

Seu corpo todo ficou arrepiado, até a pele fina das costas. E, tão repentinamente quanto havia começado, o som engasgado tornou-se um gemido fraco e gargarejado, depois nada.

Bob T. rompeu a paralisia que tomara conta dele e correu para a grande porta dupla que levava à sala de jantar. Parecia que o tempo havia sofrido algum tipo de falha e que, quando ele entrasse, veria o congressista esticado no chão com os convidados impotentes ao redor. Bob T. gritaria, como fez

naquele dia, muito tempo antes, “Tem algum médico aqui?”, e o aluno de segundo ano de medicina andaria pela multidão e diria: “Vamos levá-lo para a cozinha”.

Mas, quando Bob T. abriu a porta dupla, a sala de jantar estava vazia, todas as mesas em um canto com as cadeiras viradas em cima delas, e não havia som nenhum além do vento cantando alto nas calhas. Lá fora estava nevando, obscurecendo as montanhas por um momento e as revelando em outro, como o movimento de cortinas rasgadas.

Aconteceram outras coisas. Dick contou que ouviu sons de batidas dentro do elevador, como se alguém tivesse ficado preso lá dentro e estivesse pedindo para sair. Só que, quando ele abriu a porta com a chave especial e empurrou a porta pantográfica, o elevador estava vazio. Outra noite, os dois acordaram pensando ter ouvido uma mulher chorando em algum lugar acima

— parecia ser no saguão —, mas subiram e não encontraram nada.

Tudo isso aconteceu fora da temporada, e Bob T. nem precisou pedir para Dick não comentar nada com ninguém. Muita gente, inclusive o sr. Arrogante Parris, já achava que eles eram malucos.

Mas às vezes Bob T. se perguntava se as coisas não aconteciam também durante a alta temporada. Se alguns funcionários e alguns hóspedes não ouviam nada estranho… ou viam. Parris manteve a qualidade do serviço e até acrescentou uma cortesia em que Bob T. nunca tinha pensado: uma limusine que a cada três dias fazia o percurso de Longhorn House, no centro de Denver, até o Overlook. Ele manteve os preços baixos apesar da inflação gerada pela guerra do Kaiser, na esperança de dar gás ao negócio. Na esperança de criar fama. Acrescentou uma piscina aos outros atributos formidáveis de diversão no hotel.

No entanto, as pessoas que iam ao Overlook apreciar esses atributos raramente voltavam para uma segunda visita. Também não davam ao Overlook o benefício daquele mais barato e eficiente tipo de propaganda, o boca a boca, recomendando aos amigos. Alguns faziam reserva para um mês e iam embora em duas semanas, balançando a cabeça de forma quase constrangida e evitando as perguntas preocupadas de Parris: Houve algo errado com a comida? Você foi maltratado? O serviço foi ineficiente? As camareiras foram descuidadas? Parecia que não era nenhuma dessas coisas.

As pessoas iam embora e raramente voltavam.

Bob T. ficou satisfeito de ver o Overlook virar uma obsessão para Parris. O

homem estava ficando grisalho por causa do hotel, tentando e não conseguindo entender o que havia de errado.

Será que o Overlook teve alguma temporada fora do vermelho entre 1915

e 1922? , perguntou-se Bob T. agora, sentado na sala da Suíte Presidencial, olhando para seu reflexo. Isso era entre Parris e o contador, claro, e eles eram bem íntimos. Mas o palpite de Bob T. era que não. Talvez Parris nunca tivesse deixado sua obsessão fugir de controle, como aconteceu com o primeiro dono e construtor do Overlook (hoje, Bob T. às vezes pensava que tinha tentado controlar e romper o azar que cresceu com o hotel da mesma maneira como o avô montaria e domaria um cavalo selvagem). Mas tinha certeza de que Parris injetara grandes quantias de dinheiro no hotel a cada temporada sem obter nada de volta, como ele mesmo tinha feito.

Você vai morrer pobre e arrependido, Bob T. Watson, antes de ver o primeiro centavo de lucro daquele lugar.

Sarah dissera isso para ele. Sarah estava certa. Também estava certa em relação a Parris. O advogado podia não estar totalmente falido, mas provavelmente estava arrependido de ter se metido naquele negócio quando morreu de um aparente ataque cardíaco enquanto andava pela propriedade, no último mês de agosto.

O garoto de Bob T. (Dick na verdade já não era mais tanto um garoto; tinha idade para beber, fumar e votar, idade para planejar se casar em dezembro) encontrou Parris bem cedo. Dick foi podar os arbustos do parquinho às sete da manhã, e ali estava Parris, caído morto entre dois leões.

O engraçado sobre aquelas topiarias era que elas de certa forma haviam se tornado a marca registrada do Overlook, de um jeito inesperado. Foi ideia do paisagista cercar o parquinho com arbustos em forma de animais. Ele mandou um desenho para Bob T. com a área cercada de leões, um búfalo, um coelho, uma vaca e assim por diante. Bob T. assinou uma autorização no memorando que acompanhava o desenho, sem nem pensar. De qualquer modo, não conseguia se lembrar de ter pensado duas vezes na questão. Mas muitas vezes era dos arbustos do parquinho que os hóspedes saíam falando em vez de comentar sobre as refeições ou a decoração minimalista nos quartos e suítes. Bob T. achava que era só mais um exemplo de como nada no Overlook acontecia como o previsto.

Concluíram que Parris devia ter saído para fazer uma caminhada noturna no gramado, passado pelo campo de golfe e pelo parquinho até a estrada. No caminho de volta, o ataque cardíaco o derrubou. Não havia ninguém para sentir sua falta, porque a esposa o havia deixado em 1920.

De certa forma, o Overlook também teve sua parcela de culpa nisso. Entre 1915 e 1917, Parris não passou mais do que duas semanas da temporada lá.

Sua esposa, uma jovem bonita e mal-humorada que havia sido alguma coisa na Broadway, não gostava do lugar, ou era o que diziam. Em 1918, eles passaram um mês no hotel e, de acordo com as fofocas, brigaram muito por causa disso. Ela queria ir para as Bahamas ou para Cuba, e ele perguntava sarcasticamente se ela queria pegar uma doença tropical. Ela respondia que, se ele não a levasse, ela iria sozinha. Ele dizia que, se ela fizesse isso, poderia encontrar outra pessoa que bancasse suas extravagâncias. E ela ficou.

Naquele ano.

Em 1919, Parris e a esposa permaneceram lá durante seis semanas, ocupando uma suíte no terceiro andar. O hotel estava exercendo o controle sobre ele, Bob T. pensou com certa satisfação. Depois de um tempo, a sensação era de que Parris havia se tornado um jogador que não conseguia sair da mesa.

Parris estava planejando uma estada mais longa e, no final da sexta semana, a mulher teve um ataque histérico. Duas empregadas do andar de cima a escutaram chorando e gritando, implorando para que ele a levasse dali, levasse para qualquer lugar. Eles foram embora na mesma tarde, Parris de cara fechada, o belo rosto da esposa pálido e sem maquiagem, os olhos como passas escuras no fundo das órbitas, como se ela estivesse dormindo mal ou sem dormir. Parris nem parou para falar com o gerente ou com Bob T. E, quando voltou, em junho de 1921, estava sem esposa. A irmã da camareira principal morava em Nova Jersey, e ela mandou um daqueles jornais de fofoca com a notícia de que a esposa de Parris havia pedido divórcio alegando “crueldade mental”, fosse lá o que isso significasse.

— O que acho que quer dizer — falou o jardineiro Harry Durker para Bob T. enquanto eles tomavam uísque — é que ela não conseguiu garimpar o ouro tão rápido quanto achou que conseguiria.

Ou foi o Overlook? , perguntou-se Bob T. Não importava. Parris estava lá na abertura da temporada seguinte, a décima terceira do Overlook, e só foi embora em uma charrete funerária. O testamento ainda estava sendo validado, mas essa questão seria bem direta. O gerente do hotel recebeu uma carta da firma de advogados de Nova York que agia como executores, e a carta mencionou os irmãos Brandywine do Texas, compradores previstos.

Eles queriam manter o gerente, se ele quisesse ficar, e com um salário substancialmente melhor. Mas o gerente já tinha contado para Bob T.

(também tomando uísque) que ia recusar a proposta.

— Este lugar nunca vai dar certo — afirmou para Bob T. — Não ligo se Jesus Cristo em pessoa comprar o hotel e botar João Batista como gerente.

Me sinto mais um zelador de cemitério do que gerente de hotel. Parece que morreu alguma coisa nas paredes e todo mundo que vem aqui consegue sentir o cheiro de vez em quando.

Sim, pensou Bob T., é exatamente assim. Só que não é engraçado como isso pode ser capaz de controlar um homem?

Ele se levantou e se espreguiçou. Ficar sentado ali pensando no passado era muito bom, mas não ia tocar o trabalho, e havia muita coisa a fazer naquele inverno. Novos cabos de elevador para instalar. Um novo galpão para ser construído atrás, e isso tinha que ser feito antes de a neve cair e os isolar. As janelas tinham que ser instaladas, claro, e…

Bob T., a caminho da porta, parou de repente.

Ele ouviu, ou pensou ter ouvido, a voz de Boyd, aguda e jovem e cheia de alegria. Estava baixa pela distância, mas inconfundivelmente era de Boyd.

Vindo da direção do que agora eram os arbustos.

— Vem, Rascal! Vem! Vem! Continue!

Rascal era o nome do pônei de Boyd.

Como em um sonho, como um homem preso em um delírio lento e arrastado, Bob T. se virou para o janelão. Mais uma vez teve aquela sensação curiosa do tempo voltando. Quando chegasse lá e olhasse, ele não veria os animais de cerca viva, porque o ano era 1908, e as topiarias ainda não tinham sido feitas. Ele veria um terreno lamacento, cheio de materiais de construção; veria uma pilha de madeira nova, onde mais tarde seria construída a entrada do parquinho; veria Boyd correndo para essa pilha de madeira em cima de Rascal; veria os dois subirem; veria as patas de trás de Rascal prenderem no alto da pilha e veria os dois caírem juntos, toda a graça sumindo e com ela toda esperança de vida.

Bob T. cambaleou até a janela onde veria a cena, o rosto pálido como massa de pão; a boca, um buraco flácido. Ele conseguia ouvir (não podia ser coisa da mente dele podia?) cascos batendo no chão lamacento.

— Vai, Rascal! Pule, garoto! Vamos…

Um baque, um estalo. A gritaria, o grito agudo e nada humano do pônei, o barulho de madeira, o baque final.

— Boyd!? — gritou Bob T. — Ah, meu Deus, Boyd! BOYD!

Ele bateu na janela com força, estilhaçando três das seis vidraças, fazendo

um corte irregular e raso nas costas da mão direita. O vidro caiu para fora, girando sem parar, cintilando no sol, e bateu e se quebrou ainda mais no telhado projetado do segundo andar abaixo.

Ele olhou para o gramado, verde e bem cuidado, que seguia suavemente pelo campo de golfe, chegando aos arbustos. Os três leões que protegiam o caminho de cascalho estavam agachados nas posturas de sempre, meio ameaçadoras e meio brincalhonas. O coelho estava de pé nas patas de trás com as orelhas levantadas de forma arrogante. A vaca estava parada, como era de esperar, pastando com algumas folhas amareladas de outono presas na cabeça e nas laterais.

Não havia pilha de madeira. Nada de Boyd. Nada de Rascal.

Ouviu passos lá fora. Bob T. se virou para a porta na hora em que ela se abriu e Dick entrou correndo com a caixa de ferramentas na mão.

— Pai, você está bem?

— Estou.

— Você está sangrando.

— Cortei a mão — explicou Bob T. — Tropecei nos meus próprios pés e bati na janela. Acho que arrumei mais trabalho para nós.

— Mas você está bem?

— Estou, já falei — repetiu com irritação.

— Eu estava no final do corredor, olhando os cabos do elevador. Pensei ter ouvido alguém lá fora.

Bob T. olhou para o filho intensamente.

— Você não ouviu ninguém, ouviu, pai?

— Não — respondeu Bob T. Ele tirou o lenço do bolso de trás e enrolou na mão sangrando. — Quem estaria aqui nessa época do ano?

— Pois é — comentou Dick. E seu olhar se encontrou com o do pai, com uma espécie de choque elétrico, e naquele segundo os dois viram mais do que talvez desejassem. Eles baixaram os olhos ao mesmo tempo.

— Venha — disse Bob T. com mau humor. — Vamos ver se temos vidro para consertar essa porcaria.

Eles saíram juntos, e Bob T. lançou um único olhar para trás. Olhou para a sala da Suíte Presidencial, com o papel de parede sedoso e a mobília pesada como se sonhassem ao sol de fim de tarde.

Acho que também vão ter que me levar no rabecão, como foi com Parris, pensou ele. É o único jeito de me fazerem ir embora. Ele olhou com amor para o filho, que estava mais à frente.

Dick também. Acho que este lugar nos pegou.

Foi um pensamento que o fez sentir desprezo e amor ao mesmo tempo.

Cena II: Um quarto nas altas horas da madrugada

Ir para lá foi um erro, e Lottie Kilgallon não gostava de admitir seus erros.

E não vou admitir esse, pensou ela com determinação enquanto olhava para o teto que cintilava acima.

O marido, com quem estava casada havia dez dias, dormia ao seu lado. O

sono dos justos, como alguns poderiam dizer. Outros, mais sinceros, poderiam chamar de sono dos monumentalmente estúpidos. Ele era William Pillsbury, dos Pillsbury de Westchester, filho único e herdeiro de Harold M.

Pillsbury, de fortuna antiga e confortável. Eles gostavam de falar do mercado editorial, porque essa era uma profissão de cavalheiros, mas possuíam também uma cadeia de indústrias têxteis na Nova Inglaterra, uma fundição em Ohio e uma extensa exploração agrícola no Sul: algodão, cítricos e outras frutas. Uma fortuna antiga era sempre melhor do que a dos nouveaux riches, mas os dois tinham dinheiro saindo pelo rabo. Se Lottie algum dia dissesse isso para Bill, ele ficaria pálido e talvez até desmaiasse. Não tema, Bill. A profanação da família Pillsbury nunca vai passar pelos meus lábios.

A ideia de passar a lua de mel no Overlook, no Colorado, havia sido dela, que levara em conta dois motivos para isso. Primeiro, embora fosse tremendamente caro (como os melhores resorts eram), não era um lugar “da moda”, e Lottie não gostava de lugares da moda. Para onde você foi na lua de mel, Lottie? Ah, para um hotel perfeito e maravilhoso no Colorado, o Overlook. Que lugar lindo. Meio distante, mas tão romântico. E suas amigas, que na maioria das vezes só não eram mais burras do que o próprio William Pillsbury, olhariam para ela com um deslumbramento imbecil. Lottie conseguiu de novo!

Seu segundo motivo foi de importância mais pessoal. Ela queria passar a lua de mel no Overlook porque Bill queria ir para Roma. Era imperativo descobrir certos aspectos do casamento o mais rápido possível. Ela conseguiria fazer as coisas do jeito dela imediatamente? Se não, quanto tempo demoraria para dobrar o marido? Ele era burro e a seguia como um cachorro com a língua para fora desde o baile de debutante dela. Mas seria tão maleável depois que as alianças tivessem sido trocadas, como era antes?

Lottie sorriu um pouco no escuro, apesar da insônia e dos pesadelos que vinha tendo desde que chegaram lá. Chegaram lá era a expressão chave. “Lá”

não era o American Hotel em Roma, mas o Overlook no Colorado. Ela ia conseguir mandar nele direitinho, era isso o que importava. Só faria com que ele ficasse mais quatro dias (tinha planejado originalmente três semanas, mas os pesadelos a fizeram mudar de ideia), depois eles podiam voltar para Nova York. Afinal, era lá que tudo estava acontecendo naquele agosto de 1929. O

mercado de ações estava enlouquecendo, o céu era o limite, e Lottie esperava se tornar herdeira de muitos milhões, em vez de só um ou dois, no prazo de um ano. Claro que alguns covardes alegavam que o mercado estava a caminho de uma queda, mas ninguém nunca havia chamado Lottie Kilgallon de covarde.

Agora sou Lottie Kilgallon Pillsbury, pelo menos é assim que vou assinar minhas cartas… e meus cheques, claro. Mas, por dentro, sempre serei Lottie Kilgallon. Porque ele nunca vai tocar em mim. Não por dentro, onde conta.

O fato mais cansativo desse primeiro conflito no casamento era que Bill gostava do Overlook. Todos os dias, dois minutos depois do amanhecer, ele acordava, perturbando o pouco sono que ela conseguia depois das noites agitadas, olhando com ansiedade para o nascer do sol como um nojento fanático pela natureza. Ele saiu duas ou três vezes para caminhadas, fez várias trilhas com outros hóspedes e a entediou tanto com histórias sobre o cavalo em que montou, uma égua chamada Tessie, que a fez querer gritar. Bill tentou convencê-la a ir nesses passeios com ele, mas Lottie se recusava. Cavalgar significava usar calça, e seu traseiro era um pouco largo demais para isso. O idiota também sugeriu que ela fosse caminhar com ele e alguns outros. O filho do zelador foi como guia, Bill contou com entusiasmo, e ele conhecia mil trilhas. A quantidade de animais que se via, disse Bill, fazia parecer que o ano era 1829, e não cem anos depois. Lottie também jogou água fria nessa ideia.

— Acredito, querido, que todas as caminhadas deviam ser só de ida, entende?

— Só de ida? — Sua ampla testa anglo-saxônica se franziu e tremeu com a expressão habitual de incompreensão. — Como alguém pode fazer uma caminhada só de ida, Lottie?

— Chamando um táxi para trazer você de volta para casa quando os pés começam a doer — respondeu ela friamente. A crítica foi em vão. Ele foi sem ela e voltou exultante. O filho da mãe burro estava ficando bronzeado.

Lottie não havia sequer gostado das noites de bridge na sala de jogos, e isso não era normal, pois ela era fera no bridge. Se fosse digno de uma dama

jogar por dinheiro com companhias mistas, ela poderia ter levado um dote de dinheiro vivo para o casamento (não que fosse fazer isso, claro). Bill era um bom parceiro de jogo, tinha as duas qualificações: entendia as regras básicas e permitia que a esposa o dominasse. Ela achava que era justiça poética seu novo marido passar a maior parte das noites de bridge como o morto.

Seus parceiros no Overlook eram às vezes os Compson, mas os Verecker com mais frequência. Verecker tinha setenta e poucos anos, um cirurgião que se aposentou depois de um ataque cardíaco quase fatal. Sua esposa sorria muito, falava baixo e tinha olhos como moedinhas brilhantes. Eles jogavam bridge apenas por diversão, mas viviam vencendo Lottie e Bill. Nas ocasiões em que os homens jogaram contra as mulheres, os homens acabaram massacrando Lottie e Malvina Verecker. Quando Lottie e o dr. Verecker jogavam contra Bill e Malvina, ela e o médico costumavam vencer, mas não havia muito prazer nisso, porque Bill era um imbecil e Malvina não conseguia ver o jogo de bridge como nada além de uma ferramenta social.

Continuar: parte 2 de 2