O Infante Navegador: Poemeto
Capítulo 3
Não, porque da ambição fosse vil presa,
Mas para dar á Fé maior grandeza!
3
Varão de largo estudo e são talento,
Em vez de braço inerte na indolencia,
Nos prazeres da côrte, e luzimento
D'uma banal e inutil existencia;
Em vez dos galanteios de momento,
Que passam, como as nuvens d'uma essencia,
Votou a vida, desde a florea edade,
Ao trabalho, com honra e lealdade.
4
Foi de Sagres, nos sonhos radiosos,
Embalados, do mar, nas harmonias,
Quando o mar, nos anceios carinhosos,
Ia, meigo, beijar-lhe as penedias,
Como para attrahil-o aos gloriosos,
Altos projectos de futuros dias,
Que concebeu os planos de conquista,
Lançando, ao longe, a penetrante vista.
5
Ninguem, como elle, ousára ainda tanto,
Abrir caminho certo a essas paragens,
Onde a noite é mortal, o sol quebranto,
Os habitantes negros e selvagens;
Porque ninguem sentira o doce encanto
De lograr tão esplendidas miragens;
Porque ninguem, como elle, decifrava
Os enigmas, que o mar apresentava.