O Mundo Perdido
Capítulo XIII · Uma Cena que Nunca Poderei Esquecer
Quando o Sol já ia declinando, voltei a nosso devastado acampamento: o índio não havia retornado e Zambo dormia estirado ao pé da agulha rochosa. O sono pesava-me sobre os ombros com irresistível vigor. Mas podia eu adormecer naquele precário abrigo?
Era imprudente... Mas também como passar uma nova noite em claro? Buscando encontrar um outro lugar para dormir, subi até um galho de uma enorme figueira, mas não encontrei uma acomodação segura: eu certamente cairia dali tão logo adormecesse, e não estava em meus planos quebrar o pescoço daquela maneira. Desse modo, desci para o chão e pensei sobre o que fazer. Enfim, fechei o portão de arbustos, acendi três fogueiras formando um triângulo e, depois de comer razoavelmente, deitei-me entre elas e adormeci num sono de pedra. Na manhã seguinte, quando o Sol já despontava, alguém despertou-me sacudindo meu ombro com força e, assustado, tentei achar o fuzil com minha mão tateante.
Logo, porém, soltei um grito de alegria ao perceber que era ele: lorde Roxton. Estava quase irreconhecível: esfarrapado, o rosto cheio de arranhões e sujo de sangue e terra, olhos atônitos, ofegante como se tivesse corrido desesperadamente durante muito tempo. Arregalei os olhos de espanto ao vê-lo assim descomposto, mas ele não me deu tempo para fazer qualquer indagação. Enquanto falava, atropeladamente, ia pegando mantimentos:
— Depressa — disse-me com voz entrecortada. — Cada segundo é fatal... Apanhe dois rifles, eu levarei outros dois... Encha o bolso de cartuchos... Depressa, senão esta mos perdidos.
Ainda estonteado, obedeci maquinalmente e saí correndo pelo bosque, atrás de lorde Roxton, com um fuzil sob cada braço e várias latas de alimentos nas mãos. Ele seguiu por entre a parte mais densa da mata, correndo, como um autômato, sem se importar com os espinhos. Finalmente estancou, atirou-se de bruços numa clareira da mata, puxando-me para si.
— Ah! — disse-me, por fim, ofegante. — Eles irão diretamente para o acampamento. Será a primeira coisa que eles vão fazer... Acho que nós podemos respirar um pouco aqui.
— Mas que houve? — perguntei ansiosamente, enquanto tentava retomar o fôlego. — Onde estão os professores? Quem é que nos persegue?
— Os homens-macacos. Que criaturas terríveis! Fale baixo que eles têm ouvidos e olhos apuradíssimos... mas acho que o olfato deles é ruim, creio que não vão nos farejar. E quanto a você? Onde andou você toda a noite passada? Bem, foi melhor para você...
Expliquei-lhe rapidamente o que fizera, o que me acontecera.
— Que experiência! — murmurou o lorde, quando lhe falei de minha queda no buraco dos dinossauros. — Eu gosto de aventuras, porém esta é capaz de me tornar caseiro pelo resto da existência.
E resolveu-se afinal a contar o que passara.
— Ao que parece, os homens-macacos tinham se reunido durante a noite na grande árvore que dominava nosso acampamento. Ao amanhecer caíram subitamente sobre nós. Eu ainda cheguei a furar a barriga de um deles com um tiro, mas não pude resistir ao número nem à força prodigiosa dos atacantes. Amarraram-nos fortemente com cipós e levaram-nos. Falavam entre si... Sim, falavam: uma espécie de onomatopéia incompreensível para nós, mas perfeitamente articulada. Levaram-nos para uma clareira como esta e sentaram-se em torno de nós com expressão furiosa. O cúmulo é que, em vez de ficar quieto, Challenger resistia e esbravejava como um doido, mesmo estando, como todos nós, amedrontado. Num certo momento, ele levantou-se e começou a gritar, loucamente, que eles terminassem logo com aquilo. Xingou até não poder mais, de uma forma tal que provavelmente nunca fizera nem mesmo com os seus colegas jornalistas.
— E, então, o que eles fizeram?
Eu estava absolutamente estarrecido com a história que lorde Roxton narrava para mim. Ele sussurrava ao meu ouvido, ao mesmo tempo em que seus olhos permaneciam alertas e a mão empunhava o fuzil engatilhado.
— Pensei: é o nosso fim. Mas os homens-macacos ficaram a conversar longamente o tatibitate deles, aparentando calma. Por fim, um deles colocou-se ao lado de Challenger e, apesar da situação trágica, tive vontade de rir. Havia entre aquele velho homem-macaco, o chefe do bando, e o ilustre professor uma semelhança... ou, pelo menos, um ar de parentesco indiscutível. Como Challenger, ele tinha o corpo curto e atarracado, ombros e peito enormes, rosto vermelho e uma barba branca e comprida, sobrancelhas eriçadas, e o mesmo olhar insolente do nosso professor, como que permanentemente perguntando: "Quem é você, seu idiota?" A cena ficou ainda mais esdrúxula quando o chefão deles colocou a mão no ombro de Challenger, amistosamente. Summerlee, menos senhor dos próprios nervos, não resistiu. Olhou para o grupo e desatou uma gargalhada histérica, interminável... Os homens-macacos riram também... isto é: fizeram grunhidos que pareciam risos abafados... e depois nos arrastaram pela floresta. Não mexeram nas armas nem nas caixas de munições, acho que ficaram com medo, mas levaram toda a provisão que estava fora dos pacotes. Challenger, por seu turno, estava muito bem: quatro deles o carregaram às costas, como se ele fosse um imperador romano...
Mas lorde Roxton interrompeu a narração, ouvindo ao longe um ruído singular, que parecia de castanholas...
— Aí vêm eles — murmurou engatilhando o rifle. — Sabe que ruído é este? É o dos dentes, que esses canalhas batem quando estão excitados. Vamos nos colocar por trás destas pedras. Desta vez não nos apanharão desprevenidos. Ainda está ouvindo...
— Sim; mas agora parece-me mais distante.
— Naturalmente andam batendo a floresta em pequenos grupos e ainda não nos apanharam a pista. Tenho tempo para lhe contar o resto da nossa história.
— Depois dessa conferência, cujo intuito não percebi bem, os monstros levaram-nos para seu aldeamento, que é um grupo de choças construídas com galhos e folhas em um pequeno bosque a cerca de três quilômetros daqui. Aí deitaram-nos sob a guarda de uma sentinela gigantesca, armada com um porrete capaz de esmigalhar um boi. Isto é... quando digo nós, refiro-me a mim mesmo e a Summerlee. Não sei por que o chefe dos homens-macacos, depois de muito discutir com seus camaradas, dedicou a Challenger uma atenção especial. De modo que, enquanto eu e Summerlee jazíamos amarrados como fardos, ele estava comodamente instalado no galho de uma árvore, comendo abacaxis, bananas e outras iguarias, que o chefe lhe mandara dar e de que ele, verdade seja dita, atirava-nos boas porções, disfarçadamente, sempre que podia. Se você o visse nessa atitude, conversando com seu irmão gêmeo!... O professor, tão irascível e impaciente, sabe adaptar-se às situações e, nesse momento, portou-se com habilidade admirável. Como o chefe parecia interessar-se por todos os seus gestos, ele tratava de distraí-lo, movendo sem cessar e falando em todos os tons possíveis para que o outro apreciasse os seus recursos vocais. De bom humor, ele entoou, em diapasão tonitroante, o Rule Britarmia e não sei mais que canções de estudantes. Mas, é claro, nós não estávamos com disposição para risos. E eu só pensava em você, dizendo comigo: se Malone não morreu por aí, há de acabar por aparecer e, bem armado, talvez consiga salvar-nos.
— Ah!... E você precisa saber de outra coisa... — continuou ele. — Você disse que viu fogueiras e outros sinais reveladores da presença de homens neste platô... Pois fique sabendo que nós vimos esses homens, esses infelizes indígenas, que passam aqui a existência mais miserável que é possível imaginar. Vivem do outro lado do platô, onde você viu cavernas; os homens-macacos vivem deste lado e há entre eles guerras de morte. Esta é a situação, da forma como pude perceber. Ontem, os homens-macacos conseguiram, não sei como, aprisionar uma dúzia de indígenas e nós tivemos, bem a contragosto, a ocasião de observar a que horrores chega essa guerra sangrenta entre eles. Os desgraçados prisioneiros, quando chegaram ao acampamento em que nos achávamos, vinham já cobertos de sangue dos ferimentos e dentadas que tinham recebido. Logo, mataram dois a pauladas; foi monstruoso, praticamente arrancaram o braço de um. Eles morreram bravamente, mal deram um pio... Em seguida, o espetáculo horroroso continuou. Lembra-se daquela moita de bambus, que vimos lá embaixo e onde estava espetado o esqueleto do companheiro de Mapple White? Ali é o campo de execuções dos homens-macacos. Exatamente por cima dessa moita, há no platô uma esplanada onde esses monstros se reúnem para consumar o morticínio de seus prisioneiros. Atiram-nos lá de cima e seu divertimento consiste em verificar se eles esborracham-se no solo ou ficam empalados nos bambus. Obrigaram-nos a assistir uma dessas cenas. Quatro dos indígenas foram atirados e atravessados pelos bambus como se fossem pedaços de manteiga. Não é de estranhar, portanto, que tenhamos encontrado o esqueleto do americano, lá embaixo...
— Os outros seis foram reservados para hoje e, pelo que percebi, eu e Summerlee devíamos suportar o mesmo suplício. Isso me deu coragem para tentar a fuga. Só podia contar comigo para essa empreitada porque os dois professores, mesmo na situação em que se acham, não entram em acordo. A única vez em que puderam trocar algumas palavras, desde que estão prisioneiros, entraram a discutir furiosamente e a trocar insolências discordando sobre a classificação científica dos homens-macacos. Um afirmava que são pithecantropus; outro jurava que são driopithecus... Doidos, positivamente doidos!... Eu, sem me preocupar em classificações, tinha observado os monstros e notado que eles, prodigiosamente robustos, são entretanto pesados, com pernas curtas, incapazes de vencer em corrida, em campo raso, um homem normal. Além disso, não conhecem armas de fogo... Portanto, se pudesse recuperar meu rifle teria probabilidades de enfrentá-los. Então, esta madrugada, tendo conseguido libertar os braços, dei, repentinamente, um pontapé no ventre de minha sentinela e, enquanto ele se curvava com a dor, fugi. Corri alucinadamente até o acampamento; encontrei você e os rifles e aqui estamos.
— E os professores? — perguntei consternado.
— Ah! É deles que se trata agora. Temos que salvá-los. Infelizmente não podia trazê-los comigo. Challenger estava em cima de uma árvore e Summerlee amarrado. Agora, porém, somos dois e com armas de fogo podemos tentar um golpe de audácia. O pior é que esses monstrengos podem ter tido a idéia de vingar-se de minha fuga, matando-os... Challenger talvez não. Não sei por quê, o chefe dos homens-macacos trata-o com certa consideração; mas Summerlee, coitado... Em todo caso, nada adiantava ficar ali, com eles, para morrer. Livre, eu comecei por livrá-lo de um aprisionamento e talvez possa fazer alguma coisa por eles. Mas é preciso não perder tempo. É preciso tentar o salvamento dos nossos amigos antes que anoiteça...
Estou reproduzindo quase textualmente as palavras de lorde Roxton: o que não é possível reproduzir é o tom ao mesmo tempo nervoso, e até mesmo um tanto humorístico, com que pronunciava cada frase, e o fulgor de seus olhos.
Felizmente, aquele homem era o verdadeiro tipo do soldado: o perigo estimulava sua vivacidade natural; seus olhos animavam-se de vida ardente; uma espécie de jovialidade agressiva eriçava seus bigodes de Dom Quixote. Via-se nele o sentimento intenso do quanto havia de dramático na situação e ao mesmo tempo uma decisão inabalável de lutar, de enfrentar o perigo como um esporte: uma partida atlética tendo por prêmio a vida e por derrota a morte. Não fossem os prodígios de horror que se acumulavam em torno de nós e eu teria verdadeiro prazer em atravessar uma aventura com tão prestigioso companheiro.
Erguíamo-nos já para sair do nosso esconderijo quando lorde Roxton me segurou pelo braço com energia, murmurando:
— Meu Deus! Aí vêm eles novamente.
Do lugar em que estávamos víamos uma vereda ladeada por grandes troncos. Por essa vereda vinha um grupo de homens-macacos, caminhando cautelosamente uns atrás dos outros, com as costas muito curvadas, as pernas dobradas, as mãos quase tocando o chão. A despeito dessa atitude pareciam ter, pelo menos, um metro e oitenta de altura e seus torsos denunciavam robustez prodigiosa. Alguns deles vinham armados com porretes e, à distância, davam a impressão de um cortejo de homens disformes e peludos. Mas não deram conosco e desapareceram entre a folhagem.
— Desta escapamos — disse lorde Roxton, que conservara o rifle engatilhado. — Mas, por enquanto, o melhor que temos a fazer é ficarmos quietos até que eles desanimem de nos procurar por aqui. Depois, veremos se é possível chegar perto de seu acampamento e atacá-los de surpresa. Vamos esperar uma hora.
Para matar o tempo durante essa hora, almoçamos uma lata de conserva. Lorde Roxton, que desde a véspera apenas tivera como alimento algumas frutas, comia como um esfomeado. Por fim, com os bolsos cheios de cartuchos e um rifle em cada mão, partimos, deixando bem marcado nosso esconderijo, que passara a ser um depósito de todos os nossos bens. Esgueiramo-nos em silêncio e, com mil precauções, seguimos através das árvores até a beira do platô próximo ao Forte Challenger, e ali paramos para que lorde Roxton me expusesse seus planos de ataque.
— Na floresta, esses malditos podem nos dominar facilmente porque sobem nas árvores e atiram-se sobre nós. Vêem-nos e nós não podemos vê-los. Em terreno aberto a situação é outra; mesmo porque não são capazes de nos alcançar em uma corrida. Portanto, o essencial para nós é conservarmo-nos ao ar livre, nas bordas do platô, onde há menos árvores. É por aqui que devemos seguir: vamos lentamente, de olhos alertas e rifles sempre engatilhados. E trate de não atirar ao acaso. Não desperdice as munições.
Entretanto, lançando um olhar para a planície, lá embaixo, eu vi o nosso fiel Zambo, fumando tranquilamente, sentado sobre uma pedra. Eu bem quisera gritar para lhe dar notícias nossas; mas tinha receio de ser ouvido pelos homens-macacos, que deviam andar espalhados pelos bosques.
Fomos seguindo pela beira do platô: por vezes, quando ouvíamos algum rumor suspeito, ocultavamo-nos entre os acidentes do terreno, e só retomávamos a marcha depois que o silêncio se fazia completo. Por isso, só nos adiantávamos muito lentamente.
Caminhamos assim durante duas horas. De repente, lorde Roxton reconheceu que estávamos próximos do acampamento do inimigo e seus movimentos tornaram-se ainda mais circunspectos. Chegando a certo ponto, ele me fez um sinal para que o esperasse quieto e adiantou-se sozinho, rastejando.
Pouco depois voltou com o rosto transtornado pela impaciência.
— Venha... venha depressa! — murmurou ele com voz entrecortada. — Queira Deus que não seja tarde demais!
Exaltado e trêmulo, arrastei-me sobre os joelhos e as mãos, a seu lado; pouco adiante, deitados lado a lado, olhamos através da folhagem e vimos a vasta clareira.
Passava-se ali uma cena que jamais poderei esquecer: tão fantástica, tão absurda que não sei como descrevê-la; uma cena tal que, depois de a ter contemplado, parece-me impossível que algum dia eu volte a sentar-me em uma poltrona do Savage Club e contemplar as margens do Tâmisa. Dir-se-ia uma visão produzida pelo delírio. Contudo, vou lhes dizer o que vi enquanto conservo a impressão de estar ainda ali. O homem que estava então ao meu lado poderia dizer-lhes se minto.
Abria-se diante de nós um espaço sem árvores, apenas coberto de ervas rasteiras. Havia, em torno, grandes árvores, todas curiosamente "trabalhadas", com os galhos formando ninhos gigantescos, que serviam como habitações dos homens-macacos. Em todos esses ninhos vi faces curiosas, grandes e pequenas. Eram, decerto, as mulheres e filhos daquele povo espantoso.
No espaço livre, à borda do platô, alinhavam-se várias centenas daqueles seres formidáveis. Pelo modo como se mantinham, via-se que havia ali uma certa disciplina, pois nenhum deles tentava sair da fila que tinham formado.
Um pequeno grupo de índios, de estatura mediana, mas bem proporcionados e com a pele cor de bronze polido, estava ao centro, juntamente com um homem branco, muito magro e alto, com as mãos amarradas sobre os rins. Esse homem, que parecia profundamente abatido, era o professor Summerlee.
Uns tantos homens-macacos cercavam os prisioneiros, de modo a impedir qualquer tentativa de fuga. Enfim, um pouco afastado, bem na borda do platô, havia um grupo tão estranho que em outras circunstâncias poderíamos considerá-lo cômico. Era formado pelo chefe dos homens-macacos e nosso irascível amigo, o professor Challenger.
O que restava de sua jaqueta caía em farrapos sobre seus ombros; a camisa desaparecera e sua barba olímpica, desgrenhada, mesclava-se aos pêlos espessos de seu peito. Perdera o chapéu e seus cabelos eriçavam-se em desordem. Um dia apenas fora suficiente para transformar aquele homem eminentemente civilizado em uma ruína reduzida ao aspecto da mais abjeta selvageria.
O chefe dos homens-macacos, com a pele muito vermelha e as barbas brancas, parecia uma réplica do nosso professor, apenas um pouco mais maciço e disforme; com o crânio um pouco mais baixo e os maxilares um pouco mais espessos. Verdadeiramente, uma caricatura do sábio cientista.
Tudo isso, que me toma tanto tempo para descrever, imprimiu-se em minha memória num segundo. De resto, não era isso o mais interessante. O drama ali estava pungente e esmagador. Dois dos homens-macacos seguraram um dos índios e arrastaram-no. O chefe fez um gesto. Seguraram o índio pelos braços e pelas pernas, balançaram-no duas ou três vezes e atiraram-no com tanta força que o corpo descreveu uma longa curva no ar antes de cair. Toda a multidão de homens-macacos correu para a borda, curvou-se e, pouco depois, ergueu-se numa explosão de alegria louca. Mas logo voltaram ao alinhamento para esperar uma nova vítima.
Havia chegado a vez do professor Summerlee. Dois guardas seguraram-no brutalmente pelos pulsos e puxaram-no. Ele debatia-se como se fosse uma galinha sendo arrastada para o abatedouro. Todo o seu corpo magro e alongado contorcia-se. Mas o infeliz tinha os braços estreitamente ligados ao corpo e não podia resistir com êxito. Challenger, voltado para o chefe, sacudia as mãos freneticamente, implorando pela vida de seu colega. O homem-macaco afastou-o com um movimento rude e agitou a cabeça. Foi o seu último gesto; porque o rifle de lorde John Roxton ressoou subitamente e o rei tombou, como um bloco.
— Fogo!... Fogo sobre os guardas! — bradou lorde Roxton.
Há curiosas profundidades de selvageria na alma do homem mais civilizado. Eu sou de natureza sensível; em minha casa nunca me atrevi a matar uma galinha ou um coelho; mas, ali, foi com verdadeiro gozo que fuzilei aquelas criaturas semi-humanas, visando de preferência o crânio para ter a certeza de matar. Atirava urrando de ferocidade, rindo de alegria bárbara. Com os nossos quatro rifles, eu e lorde Roxton fizemos terrível morticínio. Os dois guardas do professor Summerlee tinham sido os primeiros a morder o pó; porém, ele titubeava ainda no meio da clareira, como se tivesse dificuldade em compreender a situação.
A multidão dos homens-macacos corria alucinada para todos os lados, sem atinar de onde vinha aquele furacão mortal. Turbilhonavam, com gritos descompassados, tropeçando nos mortos, até que, impulsionados por um súbito instinto, correram todos para as árvores, buscando refúgio na escuridão da floresta, deixando na clareira ape-nas os mortos e os prisioneiros.
Mas já Challenger recobrara a lucidez. Segurou energicamente o professor Summerlee por um braço e obrigou-o a correr em direção a nós. Dois homens-macacos tiveram ainda a audácia de persegui-los, mas duas balas do rifle do lorde Roxton detiveram-nos. Corremos ao encontro de nossos amigos; fornecemos um rifle carregado ao professor Challenger e amparamos Summerlee, que mal se mantinha em pé. Infelizmente, os homens-macacos não tardaram a voltar a si do pânico e muitos deles saíram a correr por entre as árvores com o intuito evidente de nos cercar. Isso obrigou-nos a apressar os passos e tomar uma formação defensiva. Eu ia adiante, de rifle engatilhado, como guarda-avançado; o professor Challenger seguia-me amparando seu colega e lorde Roxton fechava a marcha, protegendo a retirada e abatendo todos os que se mostravam entre os troncos. Caminhamos assim entre três a quatro quilómetros. Depois, os simiescos desanimaram e deixaram-nos seguir em paz. Ao que parece, a certeza da pontaria de lorde John Roxton convencera-os de que só tinham a perder perseguindo-nos daquele modo.
Chegando a nosso antigo acampamento, ficamos afinal sós; isto é —julgamo-nos sós... Engano. Mal fechamos a desconjuntada porta de nosso abrigo e sentamo-nos exaustos para respirar um pouco, ouvimos vozes, gemidos lamentosos em torno da cerca. Lorde Roxton, de rifle em punho, correu para ver do que se tratava: ali, prostrados com os rostos voltados para o solo, estavam os quatro índios sobreviventes, tremendo e implorando nossa proteção.
Os infelizes tinham nos seguido sem que déssemos por isso e, indicando os arredores com gestos assustados, davam-nos a entender que havia perigo por ali e por isso não se atreviam a separar-se de nós.
Lorde John Roxton chamou-nos, mostrou-nos os suplicantes e disse puxando nervosamente a ponta do bigode:
— Que diabo vamos fazer com esses pobres índios?
E, impaciente, acrescentou:
— Vamos, rapazes, parem com isso. Tirem a cara de minhas botas!
— Vamos protegê-los — interrompeu o professor Summerlee, que recuperara instantaneamente a calma, e já preparava o cachimbo. — O senhor nos salvou, e a estes quatro índios também. Foi um ato de bravura, um ato de bravura...
— Apoiado! apoiadíssimo! — mugiu o professor Challenger, sacudindo a barba cada vez mais assíria. — E note que não fomos apenas nós, individualmente, que contraímos com o senhor uma dívida de imorredoura gratidão; mas também a ciência; coletivamente toda a ciência européia, para a qual o desaparecimento do professor Summerlee e o meu deixariam um vácuo, que não hesito em considerar... como direi?... inestimável. O senhor e o nosso jovem jornalista prestaram um relevante serviço à ciência.
Iluminava-nos com um sorriso opulento, paternal. Mas a verdade é que a ciência européia, se pudesse ver naquele momento seu ilustre representante, espantaria-se com seu aspecto. Com a cabeleira eriçada e as barbas em desordem, o vestuário em farrapos e o peludo peito descoberto, o professor Challenger, sentado sobre os restos de um caixote de munições, tinha entre os joelhos uma lata e gesticulava mantendo na mão direita um pedaço de carne de carneiro australiano em conserva. Os índios, ao vê-lo, tiveram uma impressão muito diversa da que esperávamos. Soltaram gritos de terror e atiraram-se ainda mais desesperadamente às pernas de lorde Roxton.
— Acalmem-se, rapazes — disse o lorde rindo e acariciando-lhes os cabelos. — É um homem, um homem como eu... apenas um pouco mais forte e mais barbado; mas é um homem. À primeira vista talvez não pareça, mas é...
— Senhor!... — bradou Challenger indignado.
— Oh! meu amigo... não há razão para zangar-se... Ao contrário. Todos nós sabemos que sua semelhança com o chefe daqueles macacões foi-nos muito útil...
— Francamente — mugiu o irascível professor. — O senhor está tomando umas liberdades que não sei como tolerar.
— Eu não tenho a menor intenção de molestá-lo. Tra-ta-se de um fato, que...
O professor Challenger fazia um tal esforço para se manter calmo que as volumosas veias de sua fronte pareciam prestes a rebentar. Por fim, conseguiu dizer:
— Lorde Roxton, creio que seria muito conveniente para ambos... mudarmos de assunto. O ponto essencial neste momento é decidir o que vamos fazer com esses índios. O mais racional seria conduzi-los à sua morada habitual... Mas onde será isso? Ninguém o sabe.
— Perdão, eu sei.
— Sim — continuou lorde Roxton. — O Sr. Malone foi esta noite até o lago central e pôde verificar que estes indígenas, positivamente humanos, vivem além desse lago, em cavernas abertas na encosta de uma montanha.
— A que distância mais ou menos?
— Seguramente a uns trinta quilômetros daqui — respondi eu.
— Trinta quilômetros!... — exclamou o professor Summerlee. — Que horror... eu não estou absolutamente em condições de fazer uma caminhada destas. Além disso... Ouçam... Aqueles brutos ainda andam por aí à nossa procura e eu não quero arriscar-me a cair novamente nas unhas deles.
De fato, havia já um instante, ouviam-se de novo os clamores dos homens-macacos nos bosques em torno. E os índios, a nossos pés, gemiam de pavor.
— Ouça, Sr. Summerlee — observou lorde Roxton. — Por isso mesmo não devemos ficar aqui. Este acampamento nada vale como refúgio contra esses brutamontes. Uma caverna, por pior que seja, poderá assegurar melhor nossa tranquilidade. O professor Challenger irá servir-lhe de amparo; esses índios carregarão as bagagens, eu e Malone nos encarregaremos de manter o inimigo a distância... Esse é o meu parecer. Acho que devemos procurar refúgio nas cavernas... E quanto antes, melhor.
Todos concordaram e a marcha foi iniciada no mesmo instante. Infelizmente, o professor Summerlee obrigava-nos a caminhar tão vagarosamente que não nos era possível alcançar o lago numa só esticada. Escolhemos um lugar bem abrigado com rochedos e passamos a noite sempre alerta, com um de nós em sentinela, ouvindo grunhidos e roncos dos homens-macacos de todos os lados.
Felizmente não se atreveram a chegar perto.
Lá pelas tantas, estava eu de guarda quando o professor Challenger ergueu-se e veio sentar-se a meu lado.
— Diga-me, meu caro jovem... — murmurou ele — Você está escrevendo um diário sobre tudo quanto se tem passado em nossa viagem, não é mesmo?
— Para isso é que os acompanhei. Sou testemunha e jornalista.
— Muito bem, certamente. Talvez você tenha escutado as estúpidas observações de lorde Roxton sobre uma possível semelhança entre eu...
— Entre o senhor e o chefe dos...
— Exatamente. Ora é fácil compreender... E o senhor é bastante inteligente... É fácil compreender que qualquer alusão a essas estúpidas palavras de lorde Roxton seriam para mim uma ofensa...
— Perdão — retorqui, sem querer comprometer-me. — Eu me limitarei a relatar a verdade, exclusivamente a verdade.
— Está muito bem... muito bem... — repetiu o professor, que por sua vez não parecia desejoso de entrar em conflito comigo. — Mas é claro que um jornalista hábil sabe apresentar as coisas... Eu confio em sua discrição... O senhor pode perfeitamente dar a entender que não houve nessa comparação nada de humilhante para mim. Porque afinal o chefe dos homens-macacos não tem as características bestiais de seus subalternos... Pode até ser considerado um tipo realmente superior, com expressão de inteligência notória e quase de beleza... Não lhe parece?
— Como não? Quanto a isso estamos de inteiro acordo — respondi, fazendo o possível para manter-me sério.
— Ah! Ainda bem — murmurou o professor.
E já tranquilo, enrolou-se no casaco e adormeceu.
CAPÍTULO XIV
As VERDADEIRAS CONQUISTAS
Se nós tivéssemos ainda a ilusão de que os homens-macacos não nos estavam seguindo e vigiando de perto, não tardaríamos a perdê-la. Não ouvíamos nenhum ruído no mato, tudo aparentava uma paz absoluta, mas não podíamos abandonar o estado de alerta, pois os recentes acontecimentos mostravam que não faltavam àquelas criaturas a astúcia e a paciência de nos observar silenciosamente, esperando a oportunidade para atacar. Seja qual for meu destino nessa vida, estou convencido de que nunca vi a morte de tão perto como nessa manhã. Mas deixe-me contar os eventos na ordem em que ocorreram.
Despertamos todos fatigadíssimos e esgotados pela falta de alimentação. Summerlee, principalmente, só se mantinha em pé por força de sua grande perseverança. À vista disso, resolvemos fazer uma refeição, da qual estávamos muito necessitados, e, depois, partiríamos através do platô, contornando o lago, para buscar as cavernas que eu já havia observado anteriormente. Confabulamos acerca de nossas realizações até então, observando que, após nos safarmos das contingências que a ameaça dos homens-macacos apresentavam, poderíamos tentar mais obstinadamente o nosso retorno ao mundo civilizado. Assim, víamos nossa missão quase como concluída, e até mesmo Challenger o admitia, ressaltando que o fundamental, doravante, era de fato reencontrarmos nossos semelhantes para lhes revelar as nossas espantosas descobertas.
Em meio a essas reflexões, tivemos tempo para, igualmente, observarmos melhor os índios que havíamos socorrido. Todos eles eram de pequena estatura e magros, porém rijos, ágeis, com cabelos negros e lisos, atados por uma tira de couro formando um coque no alto da nuca. Tinham as orelhas furadas, mas os brincos que deveriam estar usando haviam sido arrancados pelos homens-macacos, resultando em ferimentos bastante sofríveis. Falavam um dialeto que naturalmente não entendíamos, mas pronunciaram, diversas vezes, a palavra Acate, que deduzimos ser o nome de sua nação. O simples fato de persistirem naquele platô no meio das gigantescas feras antediluvianas e dos formidáveis homens-macacos demonstrava que eles possuíam, além de potência cerebral verdadeiramente humana, coragem admirável.
— O que pensa deles, meu caro professor — indagou lorde Roxton a Challenger. — Parece-me que aquele, com a cabeça um pouco raspada, é o chefe.
De fato, os outros se dirigiam àquele com grandes manifestações de respeito; e mesmo sem essa indicação, era suficiente notar a altivez de suas atitudes para compreender que ele era uma criatura orgulhosa e acostumada a uma posição de mando. Isso comprovou-se, ainda mais, quando Challenger, ao colocar-lhe a mão na cabeça, fez o índio dar um salto violento, como um cavalo esporeado, afastando-se do professor. Então, colocando a mão sobre o próprio peito, num ar de grande dignidade, pronunciou diversas vezes a palavra Maretas. Fingindo não perceber a atitude do índio, Challenger aproximou-se dele, segurou-o pelo braço e começou a se referir ao nativo professoralmente, como se estivesse em sala de aula fazendo preleções acerca de uma planta:
— Se o analisarmos detidamente — começou o discurso, com voz tonitroante —, perceberemos que seu tipo, sua conformação craniana, etc, não diferem daquela comum a outros membros de tribos sul-americanas, o que significa dizer que são seres humanos plenamente desenvolvidos. Por outro lado, uma lacuna imensa também separa os homens-macacos das outras espécies que aqui habitam, conduzindo-nos à suposição de que, ao menos em parte, seu processo evolutivo deu-se fora desta região.
— Então, de onde vieram todos eles — perguntou lorde Roxton.
— Trata-se de um tópico que seguramente merecerá calorosas discussões nos círculos acadêmicos tanto da Europa quanto da América — continuou Challenger, estufando o peito solenemente. — Tenho algumas hipóteses. Houve aqui um peculiar processo evolutivo que permitiu tanto a sobrevivência das espécies mais antigas quanto o surgimento das novas. Isso explica que tenhamos encontrado animais, digamos, contemporâneos (como o tapir, o veado e o tamanduá), mas também os espantosos seres jurássicos, todos dividindo o mesmo espaço. Não obstante, tendo a crer que os nossos homens-macacos não são autóctones. É provável que em priscas eras tenha existido na América do Sul um macaco antropóide. Há alguns registros nesse sentido. Pois bem, esse espécime (por uma razão que só a Natureza pode explicar) de alguma maneira encontrou um caminho de acesso para essas paragens e, aqui fixando-se, completou sua evolução, constituindo-se finalmente nas criaturas interessantes e argutas que viemos a conhecer — nesse ponto, Challenger olhou para mim, insistentemente. — Para os índios, a explicação é bem mais simples: sua imigração deu-se em período mais recente. Talvez impulsionados pela fome ou obrigados a fugir de outras tribos guerreiras, esses nativos deixaram a planície e vieram para cá. Numa luta feroz, defrontaram-se (e ainda se defrontam) com toda uma gama de seres jurássicos, mas, principalmente, com os homens-macacos, inimigos que, além da força, possuem a astúcia. É por essa razão que os índios encontram-se em menor número: estão sendo dizimados. Muito bem, caros senhores, solucionei o enigma a contento ou ainda paira alguma dúvida?
Ao contrário do que Challenger esperava, o professor Summerlee não contestou suas conclusões: estava muito deprimido e cansado para qualquer embate acadêmico; apenas sacudiu a cabeça, num desconsolado sinal de desaprovação. Lorde Roxton, por sua vez, disse que aquele debate fugia à sua especialidade, e desconversou. Quanto a mim, preferi trazer a conversa para um tom mais prosaico: comentei que um dos índios havia desaparecido.
— Mandei-o buscar um pouco de água no regato próximo — disse lorde Roxton.
Pareceu-me imprudente a ordem e, sem nada dizer, apanhei o rifle e saí na direção indicada. O rio de água corrente muito próximo guiava-me e eu adiantei-me vagarosamente com circunspecção. Mas apenas tinha dado uns cem passos, vi no chão, sob uma árvore o corpo ensanguentado do pobre índio. Ele estava caído meio de lado, braços e pernas encolhidos, e a cabeça retorcida, como se tivesse sido puxado por trás. Soltei um grito de terror e também para chamar a atenção de meus companheiros. Creio que meu anjo da guarda estava atento, pois, de súbito, algo me fez erguer a cabeça e eu vi, pendendo da folhagem espessa, dois braços longos, musculosos, peludos. Mais alguns segundos e as grandes mãos traiçoeiras ter-me-iam agarrado pelo pescoço. Assim é que o índio morrera. Pulei para trás, mas infelizmente meu gesto não foi rápido o suficiente. Aquelas mãos não conseguiram segurar-me diretamente pela garganta; porém, uma delas alcançou-me a nuca e a outra passou sobre meu rosto. Ergui os braços para proteger a garganta e, imediatamente, a mão que me cobria o rosto passou a segurar meus pulsos.
Senti-me ligeiramente erguido do solo e ao mesmo tempo uma pressão intolerável forçava-me a cabeça para trás. Entretanto, eu continuava a debater-me... Erguendo os olhos, vi uma face horrenda, com olhos azuis implacáveis, olhos frios, claros, inexoráveis, olhos terríveis com uma espécie de poder magnético que me entorpecia. O monstro sentiu que eu fraquejava e, então, dentes enormes e ferozes despontaram em sua boca. Cinco dedos longos e ossudos alcançaram mais fortemente o meu pescoço, erguendo-me francamente do solo e, ao mesmo tempo, dobrando-me a nuca para trás com força lenta e invencível.
Vi de novo sobre mim — como um reflexo deformado e monstruoso de um rosto — aquela face lívida, com os olhos azuis, redondos e frios, o nariz achatado, os lábios enormes e sardônicos deixando ver os dentes pontudos... Vi esse rosto que acompanhava no meu a expressão de agonia, com atenção jubilosa... Aqueles olhos, de certo modo, fascinavam-me, e a sensação de aperto na garganta e de flexão na nuca fazia desaparecer em mim todas as sensações do corpo. Eu não sentia os braços nem as pernas; todo o meu corpo parecia ter desaparecido, ter-se dissolvido no ar... E veio-me à memória a lenda de que os enforcados morrem numa espécie de êxtase. Um círculo de bruma vermelha formou-se diante de meus olhos; ouvi vagamente, como se fosse muito longe, o som abafado de um disparo, e perdi os sentidos.
Quando voltei a mim, estava de novo em nosso esconderijo, deitado sobre a relva, e lorde Roxton aspergia-me o rosto com água, que fora buscar no regato próximo. Todos pareciam muito inquietos, mas eu tivera apenas um princípio de asfixia e não tardei a restabelecer-me.
— Você escapou por um triz, meu caro jovem — murmurou o lorde, com expressão de profundo alívio. — Ouvi seu grito e saí correndo... Quando o vi suspenso no ar, com o pescoço torcido, fiquei tão aflito que errei o tiro. Felizmente o maldito homem-macaco assustou-se também e largou-o logo. Canalha!... Se eu tivesse aqui mais dez atiradores e munições com fartura não descansaria enquanto não exterminasse essa raça de monstros. Não havia de deixar um só para amostra.
O incidente tinha porém uma significação de caráter geral bastante grave. Os homens-macacos não nos tinham perdido de vista e estavam dispostos a seguir-nos e a atacar-nos em todas as ocasiões propícias, especialmente à noite. Portanto, o melhor era partir sem demora; com entes traiçoeiros e formidáveis como aqueles, o mais prudente era alcançar as cavernas o quanto antes. Na floresta não havia segurança possível...
Resolvemos descer ao longo do rio não só porque era esse o roteiro mais seguro como porque, tendo eu já seguido por ali, tínhamos a certeza de que esse caminho daria diretamente nas cavernas. Eu só tinha com isso um pesar: o de perder o contato com o bom Zambo, o único laço que ainda nos ligava ao mundo civilizado. Enfim... restava-nos o consolo de pensar que ele não abandonaria seu posto e que, voltássemos quando voltássemos, havíamos de encontrá-lo ali.
Partimos. O jovem chefe índio ia à frente, mas recusou, com indignação, carregar qualquer fardo. Os outros é que levaram nossas bagagens já bem magras. Os homens-macacos, que até então tinham se mantido em cauteloso silêncio, saudaram nossa partida com grande alarido, como se triunfassem com isso ou insultassem o que consideravam nossa fuga.
Mas nenhum se atreveu a aparecer e nós seguimos, sem grande imponência, esfarrapados, arrastando as pernas... Não pude deixar de ser irónico ao observar meus três companheiros e a mim mesmo: onde havia ido parar aquele elegante lorde John Roxton com quem eu conversara, entre tapetes persas e quadros de grandes artistas, naquela noite em Albany? E quanto ao acadêmico professor Challenger, de peito inflado e gestos imponentes, em seu suntuoso gabinete de Enmore Park? Sem esquecer, também, o austero e formal professor Summerlee, naquele momento pálida sombra se comparado com a eminência que se ergueu, decidido, na reunião do Instituto de Zoologia. Estávamos em estado pior do que qualquer mendigo da Survey Street. Uma semana de estadia no platô fantástico fora o suficiente para dar a quatro cavalheiros de suprema civilização o mais miserável dos aspectos.
Ia caindo a tarde quando avistamos, afinal, as águas do lago Gladys, e os índios começaram a saltar de alegria, todos apontando para uma mesma direção. Tivemos então o mais imprevisto dos espetáculos; toda uma flotilha de canoas dirigia-se para nós à força dos remos. Estavam ainda a grande distância, mas tão logo puderam distinguir as pessoas de nossa caravana, os tripulantes dos botes ergueram-se com gestos e gritos de grande alegria. Depois, cur-varam-se para os remos com redobrado ardor e, saltando em terra, correram a prosternar-se diante do jovem chefe. Em seguida, um deles, já muito idoso, com braceletes e colar de contas azuis e os ombros cobertos por uma pele de animal, aproximou-se, enlaçou afetuosamente o jovem chefe e começou a fazer-lhe perguntas que, evidentemente, se referiam a nós. O jovem respondeu-lhe sorrindo. Então ele caminhou para nosso lado, abraçou-nos também, um por um, com mostras de grande respeito, e disse qualquer coisa aos remadores, que se atiraram ao solo e mantiveram-se alguns instantes prostrados para nos render homenagem. Senti-me um tanto embaraçado ao receber tal celebração, e o mesmo pude perceber nas fisionomias de lorde John e Summerlee. Challenger, entretanto, viu as coisas de maneira diferente:
— Podem ser subdesenvolvidos — disse, cofiando a desgrenhada barba —, mas sabem reconhecer quem lhes é superior. Isso deveria servir de lição a muitos europeus que se dizem civilizados...
Notei, então, que todos aqueles índios pareciam preparados para uma expedição guerreira; vinham armados com lanças, arcos, flechas e uma espécie de tacape pendurado à cintura. Decerto vinham à procura dos companheiros e dispostos a salvá-los ou vingá-los. Os olhares de cólera, que lançavam em direção à floresta e uma palavra constantemente repetida: Doda, levou-nos a compreender que esse era o nome com que designavam os homens-macacos. Pareceu-nos também, pelo modo como se portavam, que o jovem altivo era filho do chefe da tribo; exatamente o velho, que tinha o pescoço e os braços ornados de contas.
Os índios reuniram-se em conselho, sentados no chão em círculo e discutiram animadamente. O jovem chefe fez uma exposição; mais dois ou três guerreiros falaram e todos indicaram o bosque com ardor, como se propusessem uma expedição contra os homens-macacos. O velho fez uma observação e o jovem, correndo a nós, mostrou nossas espingardas para significar que com tais aliados não havia derrota a temer. Os outros aplaudiram, brandindo as armas.
Lorde Roxton, com instinto ardoroso de soldado, compreendera a situação e vibrava de entusiasmo.
— Devemos nos unir a eles. Não fossem os homens-macacos, muitas mortes teriam sido evitadas. Mesmo para nós, não há segurança enquanto aqueles monstros estiverem por aí, nos ameaçando.
E continuou, ainda mais entusiasmado.
— Os índios são nossos amigos. São guerreiros corajosos e odeiam os homens-macacos tanto quanto nós. Vamos lutar, companheiros, para morrermos ou vivermos, pois a coragem é o melhor alimento da alma.
Apesar de não entenderem o significado das palavras, os índios prestavam ávida atenção ao discurso de lorde Roxton e, quando ele terminou de falar, explodiram em grande manifestação de euforia, alguns aplaudindo freneticamente, outros agitando suas armas rudimentares. O lorde pediu que eles aguardassem um pouco. Depois, voltou-se para nós:
— Então, o que dizem? Como puderam ver, eu já estou decidido, pois tenho contas a acertar com o inimigo, e não descansarei enquanto não aniquilá-los. E você, meu caro jovem? — perguntou ele, olhando para mim:
— Eu irei, certamente.
— Challenger?
— Estou pronto a colaborar.
Quando ia fazer a mesma pergunta a Summerlee, este se antecipou:
— Perdão, eu vim aqui em missão científica e não para andar em guerra contra macacos antropóides, à frente de uma horda de selvagens.
— Muito bem — disse lorde John, já impaciente, olhando para o professor Summerlee —, nós estamos dispostos a enfrentá-los. O senhor, se quiser, fique aí.
Como havia o pobre homem de ficar sozinho?
Já em seguida, lorde Roxton, com grandes gestos, indicava aos indígenas que podiam contar com o nosso auxílio. O velho chefe apertou a mão de todos nós, ao mesmo tempo que seus guerreiros exibiram um entusiasmo ainda maior do que haviam demonstrado antes. Mas, como já era muito tarde para tentarmos qualquer avanço naquela noite, resolvemos acampar, esperando o romper do dia. Alguns índios armaram fogueiras e outros, tendo se afastado um pouco, não tardaram a voltar, trazendo um filhote de iguanodonte.
A presteza com que se tinham apoderado do animal e a docilidade com que este se deixou abater levou-nos a compreender que os bandos de iguanodontes existentes no platô estavam domesticados e eram rebanhos que os índios criavam para seu uso, como nós criamos bois ou carneiros. Enormes mas indefesos e quase sem cérebro, aqueles monstros deviam ser, de resto, fáceis de domesticar. Observando melhor, vimos que o iguanodonte tinha, em seu couro, uma mancha de asfalto, e aí compreendemos que aquilo que nos havia causado tanta perplexidade não passava de uma marca de propriedade do rebanho.
Comemos a fartar. Depois, Summerlee, de mau-humor, deitou-se e dormiu ou fingiu que dormia; nós começamos a passear como curiosos em torno do lago. À pequena distância, encontramos duas fossas de argila azul, semelhantes às que já tínhamos visto na cratera dos pterodáctilos. Essas antigas manifestações vulcânicas interessaram profundamente ao lorde Roxton e, principalmente, ao professor Challenger que, mais adiante, encontrando um geyser de lama quente, ficou em grande excitação, reclamando um pedaço de bambu e um fósforo.
Quando teve o bambu entre suas enormes mãos, enfiou-o jeitosamente na lama, no lugar em que as bolhas de ar apareciam mais numerosas, e esperou um pouco. Depois aproximou um fósforo aceso da outra extremidade do bambu e ergueu-se ali uma débil chama azul.
O professor soprou-a e, apanhando febrilmente uma bolsa de couro de nossas bagagens, colocou-a sobre a extremidade do bambu. Pouco depois, a bolsa começou a inchar e mover-se, com evidente tendência para erguer-se.
— Magnífico, magnífico! — exclamou o professor, com expressão de profundo júbilo. — Há aqui um gás inflamável, sensivelmente mais leve do que o ar... E não hesito em afirmar que ele contém uma boa quantidade de hidrogênio livre. Meus amigos... o professor George Edward Challenger ainda não esgotou todos os seus recursos. Talvez eu ainda mostre que um cérebro verdadeiramente superior é capaz de utilizar os prodígios da Natureza em seu favor.
Seu vozeirão estrondeava com tal vigor que despertou a atenção de Summerlee e o fez aproximar-se cheio de curiosidade; mas o professor Challenger não se dignou a lhe dar explicações sobre sua descoberta.
Eu não via ali espetáculo mais interessante do que o do lago, o lago que tinha o nome de minha amada. Nossa presença, e o rumor que fazíamos, tinham afugentado de suas margens todos os animais, com exceção de alguns pterodáctilos, que continuavam a planar em círculo, em grande altura. Mas sobre os ilhotes de areia andavam rastejando sombras suspeitas: tartarugas imensas, sáurios de formas curiosas. De repente, ergueu-se num desses ilhotes um vulto enorme e fantástico: um longuíssimo pescoço ondulante, com cabeça pequena e chata, um corpo pesado, em forma de pipa e sem pernas, munido apenas de largas e possantes nadadeiras.
Challenger e Summerlee saudaram esse monstro com expressões de êxtase:
— Um plesiossauro... É um plesiossauro — murmurava Summerlee enlevado. — Estou vendo um plesiossauro vivo... Ah! Professor Challenger, nossos nomes merecem ser abençoados entre os zoologistas de todos os tempos!
Voltamos ao acampamento e adormeci, deixando-os ainda a discutir com excessos de entusiasmo e de termos científicos. Despertamos ao amanhecer e partimos logo para a memorável expedição.
Nossa tropa, reforçada durante a noite pela chegada de muitos outros índios, compunha-se agora de cerca de quinhentos homens. Um batalhão de batedores foi enviado à frente, enquanto o resto dos homens, formando uma sólida coluna humana, subiam a ribanceira coberta de mato rasteiro até nos aproximarmos da floresta. Nesse ponto, os índios organizaram uma linha, algo sinuosa, de lanceiros e arqueiros. Dois grandes grupos de guerreiros se formaram: Roxton e Summerlee chefiavam o flanco direito; eu e Challenger comandávamos o flanco esquerdo. Assim estávamos nós, numa batalha em plena Idade da Pedra, mas com os conhecimentos da arte guerreira de St. James Street e do Strand.
O inimigo não tardou a aparecer. Estávamos ainda a um quilômetro da floresta, quando um grande grupo de homens-macacos veio a nosso encontro, brandindo seus pesados porretes e atirando pedras. Foi uma carga heróica, mas tola, porque, muito pesados e com as pernas curtas, eles enfrentavam sem esperança de êxito a maravilhosa agilidade dos índios.
Era horrível. Eles espumavam de cólera, atirando-se como cegos, sem poder alcançar os inimigos, que saltavam em torno deles e os crivavam de flechas. Nós não precisamos disparar um só tiro nesse primeiro encontro; os índios sozinhos cercaram o bando inimigo e exterminaram-no sem piedade, até o último.
Mas, entrando na floresta, a situação mudou. Agora, todas as vantagens estavam do lado dos homens-macacos, que, às vezes, abatiam quatro ou cinco índios antes de serem atingidos por uma lança. A superioridade de sua força era tal que cada um de seus golpes esmagava irremediavelmente a pobre vítima. Foi então que nossos rifles desempenharam papel decisivo; infelizmente Summerlee adiantou-se muito; um dos homens-macacos, com um só golpe de seu porrete, despedaçou-lhe o rifle e ia fazer o mesmo com sua cabeça caso eu não esvaziasse o pente de meu fuzil em cima do monstro. Houve um momento em que era tal a multiplicidade de nossos inimigos que os chefes índios tiveram que empregar toda a energia para manter seus comandados na linha de combate. Os monstros atiravam-se do alto das árvores e lançavam contra nós pedregulhos formidáveis.
Mas nossos tiros eram tão certeiros e causavam tal morticínio em suas fileiras que eles acabaram tomados de pânico, procurando fugir afoitamente, com estupidez tamanha que nem cuidavam mais de se defender, deixando-se massacrar como bois no matadouro.
Nunca vi tanto sangue em minha vida. Mesmo o próprio lorde Roxton, antes o mais exaltado inimigo dos homens-macacos, sentiu-se farto do massacre; e como os índios vitoriosos tinham cercado a floresta para atear-lhe fogo, ele resolveu cessar o tiroteio.
— Basta — disse ele. — Agora os índios são suficientes para acabar com eles.
O professor Challenger, porém, parecia contentíssimo com a situação.
— Meus amigos — dizia ele, girando sobre si mesmo como um galo cheio de orgulho. — Tivemos a honra e a glória de assistir a um acontecimento típico... mais ainda: tivemos a glória de tomar parte em uma das batalhas decisivas, que decidiram a sorte do mundo. Que vale diante disto a conquista de um país por outro? Tratava-se, como no princípio do mundo, de saber se a Terra pertenceria à força estúpida ou ao poder mental. Foi a uma vitória desse gênero que acabamos de assistir. Doravante estamos certos de que o platô pertencerá ao género humano e não às feras.
Para encarar aquele cenário trágico, somente acreditando piamente que o fim justifica os meios. Mesmo o professor tendo razão, o resultado daquela batalha era profundamente horrível. Andávamos pelo meio de verdadeiros montes de cadáveres. De um lado, a ferocidade cega dos homens-macacos, de outro a segurança terrível das flechas e dos rifles... A consequência dessa união havia sido medonha para aquelas criaturas primitivas, que jaziam às centenas, entre algumas dezenas de índios, que tinham sido alcançados por seus terríveis golpes. Embora dispostos a não mais tomar parte efetiva na luta, acompanhamo-la de longe.
Os índios perseguiram o inimigo até sua cidade de árvores, onde os oitenta a cem machos sobreviventes tentaram ainda uma última resistência. Mas estavam já muito abatidos pela derrota e a superioridade numérica dos assaltantes era esmagadora.
Foram massacrados até o último, pois os sobreviventes foram atirados do precipício, gritando e esperneando, desesperadamente, em direção aos pontiagudos bambus, da mesma forma como faziam antes com os seus prisioneiros. Com essa aniquilação, cumpriu-se, de maneira dramática, a previsão de Challenger: havia sido estabelecido, para sempre, o reinado do homem na Terra de Mapple White. Todos os machos adultos haviam sido exterminados, e os índios vitoriosos levaram suas mulheres e filhos para uma vida em cativeiro.
Pudemos então voltar a nosso primeiro acampamento e recolher o resto de nossas provisões. Conseguimos, também, comunicarmo-nos com Zambo que, de longe, tinha ficado apavorado com a quantidade de homens-macacos que haviam sido lançados no precipício.
— Saiam daí! Saiam daí! — ele gritava com os olhos estatelados. — O espírito mal vai pegar vocês...
— Finalmente, uma voz sensata... — observou Summerlee, com gravidade. — Já basta de aventuras! A partir de agora, não farei outra coisa senão buscar uma forma para sairmos daqui e retomarmos a civilização.
CAPÍTULO XV
Nossos OLHOS VIRAM MARAVILHAS SEM IGUAL
Escrevo estas notas dia a dia, de modo que não me apareceu uma ocasião para expressar toda a profundidade que essas experiências nos proporcionaram. Em todo o caso, posso dizer que o destino parecia guiar os nossos passos. Logo que retornamos ao platô, nossa primeira sensação foi de desânimo absoluto, por não encontrarmos um meio de sair dali. Mas agora felicitamo-nos por essa permanência forçada, pois permitiu-nos conhecer muito mais das maravilhas desta terra de prodígios e estranhos seres.
A vitória dos índios e o aniquilamento da tribo dos homens-macacos marcou o início de uma nova e benfazeja fase de nossas aventuras. Desde esse momento, ficamos senhores do platô. Reconhecendo o auxílio que lhes tínhamos trazido, os nativos passaram a nos considerar com gratidão e quase com temor, mostrando a maior solicitude em satisfazer todos os nossos desejos.
Naturalmente, nosso maior desejo era partir, mas, a esse respeito, eles não puderam nos dar nenhuma informação útil. Tanto quanto nos foi possível compreender através de gestos e mímicas de toda ordem, diziam eles que teria havido antes um caminho subterrâneo — provavelmente o mesmo utilizado por Mapple White e seu companheiro; e também, quem sabe, a via de acesso que havia possibilitado, tanto aos antropóides quanto aos índios, em épocas anteriores, chegar ao platô onde constituíram suas civilizações. Mas um desmoronamento recente o destruíra. Quando nós insistíamos em explicar que queríamos descer, ir para a planície, os bons índios sacudiam a cabeça e erguiam os ombros como quem não vê solução possível para tal problema.
Depois da vitória retumbante sobre os homens-macacos, suas fêmeas e filhotes — sobreviventes do massacre — haviam sido aprisionados nas cercanias das cavernas. De agora em diante, tornar-se-iam escravos dos índios, repetindo-se naquelas paragens perdidas o destino de incontáveis povos que, ao longo da história, haviam se transformado no butim humano pilhado pelo vencedor. À noite, podíamos ouvir seus gritos pesarosos, lancinantes, pranteando a liberdade destituída e também, talvez, a nostalgia pelo tempo recente em que eram poderosos naquele mundo rudimentar e primitivo.
De nossa parte, passamos assim dois dias, em Contatos laboriosos e inúteis com os anfitriões. Tínhamos estabelecido um acampamento junto ao paredão granítico em que os índios tinham sua morada. Eles haviam nos oferecido hospitalidade; mas lorde Roxton, sempre prudente, recusara, por julgar que se nos metêssemos nas cavernas estaríamos à mercê de uma traição. Assim, entretendo relações cordiais com os índios, mantínhamos armas prontas e quartos de sentinela.
Visitamos, porém, as cavernas. Não nos foi possível averiguar se eram obra da natureza ou da mão do homem, tão antigas pareciam elas. Abriam-se todas a vinte ou vinte e dois metros do solo e só eram acessíveis mediante escadas abertas na rocha; escadas tão estreitas e tão íngremes, que nenhum animal poderia galgá-las. Interiormente eram forradas com ervas e tinham as paredes cobertas de pinturas formidáveis, representando os vários animais do platô.
Nos arredores, os índios mantinham campos limitados por fossos, onde criavam bandos de iguanodontes, sob a guarda de mulheres e crianças. Mas ainda lhes restavam inimigos terríveis e não tardamos a verificá-lo em um incidente trágico que se produziu no terceiro dia de nossa instalação junto das cavernas.
Eu e lorde Roxton estávamos de guarda ao acampamento. Enquanto isso, os dois professores tinham ido até as margens do lago Gladys, onde alguns índios, sob sua direção, pescavam com lanças alguns curiosos espécimes de lagartos primitivos. De súbito, ouviu-se um grito de alarme e a palavra Stôa, repetida com expressão de grande susto por centenas de bocas. De todos os lados homens e mulheres corriam alucinadamente, buscando refúgio nas cavernas.
Então, ao voltarmos os olhos para o lado de onde vinha toda aquela gente em pânico, vimos surgir por entre as árvores que fechavam o horizonte, dois monstros do gênero daquele que havia tentado atacar nosso acampamento e perturbara minha primeira excursão ao lago Gladys. Eram apavorantes, com a forma geral de um sapo, deslocando-se em saltos sucessivos, porém maiores, bem maiores do que elefantes. Nós só os tínhamos visto à noite e — soubemos depois — aqueles temíveis animais eram, de fato, notívagos, só aparecendo à luz do dia quando eram provocados em suas covas ou quando a fome os excitava com excepcional energia.
Detivemo-nos estupefatos ante seu aspecto fantástico. Tinham o couro coberto de excrescências e pústulas, além de uma iridescência curiosa, semelhante a dos peixes, faiscando ao Sol. Mas não tivemos muito tempo para admirá-los. Os monstros, em pulos imensos, alcançaram um grupo de índios retardatários e começaram a fazer horrível carnificina.
Caiam sobre eles com todo o seu peso e logo que tinham esmagado um atiravam-se a outro. Em vão os desgraçados, com gritos horríveis, procuravam fugir à implacável agilidade dos monstros. Dos quinze ou vinte índios que haviam saído da floresta, perseguidos de perto pelo animal, restavam apenas cinco ou seis, quando finalmente eu e lorde Roxton chegamos para tentar socorrê-los. Mas vimos logo que nossa intervenção, ao invés de lhes ser útil, apenas nos expunha a igual perigo. À cerca de duzentos metros de distância, abrimos fogo contra os monstros e multiplicamos os tiros até esgotar a munição, mas nossas balas produziam neles o mesmo efeito que se lhe atirássemos bolinhas de papel. Aqueles seres de natureza reptiliana afrontavam sem risco os ferimentos, porque eram desprovidos de centros nervosos e a difusão de células essenciais ao longo de sua espinha dorsal tornava-os invulneráveis às armas modernas. O máximo que podíamos fazer era retardar sua marcha, distraindo sua atenção com os fulgores e os estampidos dos tiros, para dar tempo aos indígenas e permitir que eles alcançassem as cavernas.
Como, então, destruir semelhantes flagelos? Soubemos depois que onde eram ineficazes os fuzis modernos, mesmo com balas explosivas, a humilde flecha dos primitivos conseguia resultado. Os índios exterminavam aqueles monstros com flechas envenenadas, cujas pontas eram mergulhadas num sumo de strophantus* e curtidas, posteriormente, em carne apodrecida. Infelizmente, a ação do veneno era lenta, e antes que o animal sentisse seus efeitos, certamente já teria conseguido abater quem o tivesse atingido.
Chegamos à escadaria como pudemos, deixando mais três indígenas mortos e pusemo-nos a salvo. Os monstros seguiram-nos e uma saraivada de dardos caiu sobre eles de todas as aberturas do paredão. Os espantosos animais ficaram em pouco como paliteiros; mas isso não parecia incomodá-los; continuavam a saltar e a fazer esforços para galgar a escadaria, passando as enormes unhas na rocha lisa, babando de impaciência e furor, e dando por vezes saltos tais que pareciam capazes de chegar até nós.
* Strophantus ou estrofanto — Planta venenosa, da família das aponináceas, que em pequenas doses tem propriedades medicinais. (N. do E.)
Por fim o veneno, que circulava pouco a pouco em suas veias, começou a agir. Um deles caiu logo, com um ronco prolongado e horrível. O outro resistiu mais. Saltou longamente com gemidos profundos, descrevendo grandes círculos, até que baixou a cabeça disforme e imobilizou-se.
Então, com alegria louca, os indígenas desceram todos e puseram-se a dançar uma ronda desenfreada em torno dos colossais cadáveres. Quando já era noite fechada, cessaram as manifestações de regozijo, e despedaçaram os corpos, não para comê-los por causa do veneno, mas para afastá-los dali, com receio de uma infecção. O professor Challenger aproveitou o momento para me fazer verificar uma admirável particularidade da organização desses animais primitivos em que as fontes de vida eram múltiplas e independentes.
Quando os índios despedaçaram os restos das temíveis feras, ele dirigiu a operação e conseguiu que os dois corações fossem extraídos inteiros e ficassem ali, no solo, diante das cavernas. Pois bem, separados dos corpos e abandonados, esses corações continuavam a bater, animados por vida própria, erguendo-se e baixando, num movimento rítmico e constante... Só se detiveram ao fim de três dias.
Mais tarde, quando eu dispuser de uma mesa mais cômoda do que esta minúscula caixa de conservas e um instrumento mais eficaz do que uma ponta de lápis, que mal posso segurar, hei de escrever minuciosamente os costumes desses índios, denominados Acalás. Relatarei o que foi nossa vida entre eles e darei aspectos mais detalhados dos horizontes que contemplamos nessa maravilhosa Terra de Mapple White. Tenho a certeza de que a memória não me há de falhar. Há coisas que não se esquecem e, enquanto me restar um fôlego, recordarei, como se fosse hoje, todas as horas, todos os incidentes e visões deste período de minha vida. Nenhum fato poderá apagar impressões tão profundas.
Quando chegar a ocasião, eu hei de saber descrever-lhes a admirável noite de luar em que um jovem ictiossauro — estranha criatura, meio peixe, com olhos circundados por ossos dos dois lados do focinho e um terceiro olho no alto da cabeça — se debatia na rede de um índio, com tanta força que chegou a virar-lhe o bote. E a outra noite em que uma serpente de água, surgindo subitamente de entre os juncos do lago, arrebatou e levou o remador do bote em que ia o professor Challenger. Também não esquecerei de narrar nossas visões de um estranho animal noturno — tão estranho que até hoje não sabemos se era réptil ou mamífero — que vivia num pântano fétido a leste do lago, e emitia um brilho fosforescente na escuridão. Os nativos tinham tanto horror da criatura que nunca se aproximavam do lugar. Por duas vezes, nós fomos até lá, porém não conseguimos chegar mais próximos do atoleiro que constituía seu hábitat. Decerto, o que posso afirmar é que era pouco maior que uma vaca e dele emanava um enjoativo odor semelhante ao almíscar. Falarei também de outra aventura de Challenger, que foi uma vez perseguido até a escada das cavernas por uma espécie de avestruz, porém muito maior e que corria com incrível rapidez. Desta vez porém as armas do século XX foram vitoriosas. Com um só tiro, lorde Roxton conseguiu abater essa singular ave, que tinha cerca de sete metros de altura e Challenger, ainda arquejante da correria, classificou como um phoreractus. Parece-me vê-lo ainda, na agonia, agitando com força a cabeça chata, de olhos amarelos ferozes. Permita Deus que eu viva bastante para ver um dia essa cabeça empalhada entre os troféus de Albany. Por último, não olvidarei de fazer uma descrição do toxodonte, gigantesco roedor de três metros, incisivos afiados como punhais de gigante, que abatemos quando matava a sede à beira do lago numa esplendorosa manhã.
Hei de descrever tudo isso com vagar e sobretudo pintar com ternura as noites deliciosas, quando, após a fadiga de dias laboriosos, deitávamos no alto capim vizinho à floresta, admirando, deslumbrados, as aves estranhas e os animais desconhecidos que saíam sorrateiramente de suas tocas para observar-nos ao mesmo tempo que, olhando para os céus e contemplando sua abóboda profundamente azul, víamos também os galhos das árvores e, entre eles, apetitosos frutos e lindas, lindas flores exóticas. Queira Deus que eu possa, igualmente, falar das noites, prolongadas noites em que nos deitávamos em barcaças deslizando no lago com os olhos fixos naquelas águas mágicas, vislumbrando em seus reflexos o súbito mergulho de um monstro fantástico ou o súbito brilho verde-lume que ao longe, em meio à escuridão, era emitido por alguma criatura. Não, jamais esquecerei essas cenas maravilhosas, que um dia registrarei com tinta e papel.
Mas — talvez o leitor pergunte — se teve tempo para acumular tantas recordações é porque se demorou muito no platô. Não era sua intenção, e a de seus companheiros, abandoná-lo o quanto antes? Sim, isso nós havíamos resolvido; mas não era fácil a execução de nosso plano. Dia e noite, nossa única preocupação era essa: descobrir meios e modos de descer do platô; mas, por enquanto, nossas descobertas se limitavam a um ponto. Tínhamos verificado que não podíamos contar com auxílio algum dos índios para essa empresa. Para tudo mais estavam dispostos a servir-nos prontamente. Porém, quando a eles recorríamos para encontrar um tronco capaz de formar uma ponte para a agulha rochosa, ou para cortar cipós, com vistas à confecção de uma corda, eles recusavam gentil mas firmemente. Sorriam, piscavam os olhos e sacudiam a cabeça. Até mesmo o velho chefe obstinava-se na negativa e apenas Mareto, o jovem príncipe da tribo, procurava fazer-nos compreender por gestos que achava razoável nosso sofrimento e nosso desejo de partir. Chegaram, inclusive, a nos oferecer esposas e uma caverna exclusiva, com o fito de nos fazer esquecer daquele desejo imenso de deixar o platô. Cremos, porém, que tudo se devia ao papel que desempenhamos anteriormente. Depois de nossa intervenção no extermínio dos homens-macacos e em outras ocasiões perigosas, consideravam nossa presença tão útil que seriam talvez capazes de tomar quaisquer providências para nos impedir de deixá-los.
A despeito do risco de encontrar um dinossauro carnívoro e, em parte amparado pela certeza de que esses animais são essencialmente noturnos, eu fui duas vezes até o nosso antigo acampamento, levar notícias nossas a Zambo e indagar se não teria chegado o auxílio que havíamos mandado pedir. O bom negro lá estava, mas não vira chegar coisa alguma.
— Ele virá logo, Sr. Malone. Em alguns dias, em uma semana, o índio voltará com as cordas.
Uma tarde voltava eu de uma dessas expedições, quando, a cerca de dois quilômetros do charco dos pterodáctilos, vi uma coisa extraordinária: um homem, que se adiantava cautelosamente, protegido dos pés à cabeça por uma espécie de gaiola de bambu, que o cobria como um sino. Deixei que ele se aproximasse sem me mostrar e quando o tive mais perto reconheci lorde Roxton naquele homem, que por ali andava de modo tão original. Saí, então, de entre a folhagem que me ocultava, e ele, desembaraçando-se da gaiola, veio a meu encontro, simulando bom humor, mas visivelmente contrariado:
— Olá, jovem — disse-me ele —, não imaginava encontrá-lo por aqui.
— E o senhor?... Que anda fazendo com esta arapuca?
— Vim observar alguns amigos, os pterodáctilos.
— Ora essa!... Para quê?
— Para nada... Porque são animais interessantes. Não são apenas os professores que têm gosto pelos mistérios da ciência. Infelizmente, como esses interessantes bichos são um pouco agressivos, eu me preveni e armei esta gaiola de palha para me proteger de seus bicos. Quer me parecer que não há nisso nada de extraordinário...
— Nem eu disse que havia... Apenas, como não contava encontrá-lo com tal aparato defensivo, tive certa surpresa.
Lorde Roxton pareceu-me menos aborrecido e retomando o tom habitual, despediu-me:
— Bem. Volte para as cavernas. Estamos aqui muito perto dos tais bichos; eu assim estou garantido, mas você não está.
Meteu-se de novo na gaiola e afastou-se entre as árvores.
Se a atitude de lorde Roxton me causara estranheza, ainda mais me provocou a do professor Challenger. Encontrei-o muito atarefado, junto ao geyser de lama, cercado por numerosas mulheres índias que, sob sua direção, tratavam de cozer várias tiras de couro de iguanodonte bem raspado a uma enorme bolsa membranosa que (soube-o depois) não era mais do que o estômago de um dos enormes peixes-lagartos, pescados no lago Gladys. Essa bolsa bem cozida por todos os lados conservara uma única abertura, um estreito orifício no qual estavam inserindo diversos pedaços de bambu, que ligados a funis de argila recolhiam os gases do geyser.
Fiquei a observar. Ao fim de algum tempo a bolsa começou a inflar-se e mostrar uma tão forte propensão para elevar-se que Challenger foi obrigado a prendê-la pelas tiras de couro em árvores mais próximas... Meia hora depois a bolsa tomara positivamente a forma de um balão e, pelo jeito com que esticava suas amarras, mostrava uma considerável força ascensional. Challenger, comovido como um pai diante dos primeiros passos de um filho, fitava o balão, sorridente, passando a mão pela barba, com ar de profunda satisfação.
A voz ácida e irritante do professor Summerlee foi a primeira a romper o silêncio.
— Espero que, além de todos os outros disparates, o senhor não pretenda que partamos daqui nessa engenhoca.
— E eu espero que mesmo o senhor, depois de ter demonstrações indiscutíveis do poder ascensional de meu balão, não hesite em confiar nele sua preciosa carcaça.
— Isso nunca! — bradou Summerlee, resolutamente. — Embora não dê à minha carcaça o valor que o senhor atribui às suas banhas, estou resolvido a escolher um processo menos ridículo de suicídio, no dia em que me decidir a suicidar. Imagino que lorde John pensará como eu.
— O que eu penso — respondeu o fidalgo — é que esta engenhoca, como o senhor a chama, é muito interessante. Estou ansioso por vê-la funcionar.
— Irá vê-la — prometeu majestosamente Challenger. — Há muitos dias aplico todas as minhas energias cerebrais à solução desse problema: descer daqui; e, visto que não há caminho praticável para descer o penhasco nem meios de fazer uma escada, a idéia de um balão impunha-se a qualquer espírito lógico. A natureza veio ao encontro de minha imaginação, pondo diante da minha curiosidade geysers de natureza vulcânica, com emanações que, pude constatar, eram de hidrogênio livre. Só me restava encontrar a matéria-prima para fazer o balão. Para isso servi-me das imensas bolsas digestivas do lagarto primitivo que, como vêem, tem as proporções necessárias.
Estava imponente, o professor, com seu vestuário em farrapos e gesticulando como se estivesse na sala de conferências da Sociedade de Geografia. E o imprevisto balão, agitando-se sobre as amarras como se estivesse prestes a erguer-se no espaço, parecia aprová-lo com entusiasmo.
— Maluco... — resmungou o professor Summerlee.
— Estupendo, magnífico!... — bradou lorde John. — E a barquinha? Como vai arranjar a barquinha?
— Estou tratando disso e já tenho resolvido o essencial. Já pensei num modo de fabricá-la e adaptá-la ao balão. Por ora, limito-me a afirmar-lhes e a demonstrar-lhes que meu aparelho é capaz de nos levar...
— Todos juntos?
— Não. Creio que o melhor será descer um de cada vez, como uma espécie de pára-quedas. Após cada descida, não será difícil fazer com que o balão volte ao platô para buscar os demais passageiros. Passemos porém a demonstração de capacidade do meu invento.
Já tinha ali perto um enorme bloco de basalto, apropriado a segurar a uma corda em seu centro. Essa corda era a que havíamos utilizado para subir à agulha rochosa e conservávamos em nossas bagagens. Tinha trinta e tantos metros de comprimento, era fina, mas muito resistente. Trabalhamos todos para ligá-la com segurança às tiras de couro, que prendiam à boca do balão. Feito isso, o professor Challenger amarrou a corda ao bloco de basalto e deixou pendente um longo pedaço, que enrolou a seu robusto braço.
— Agora — disse ele com um sorriso triunfante —, Verão a força de meu balão.
E, rapidamente, começou a cortar as tiras de couro que prendiam o balão às árvores próximas.
— Meu Deus!
Esse foi o grito geral. Jamais nossa expedição científica esteve tão perto de sua total aniquilação. O estranho balão, feito de vísceras de um lagarto antediluviano, estava neste momento tão inflado que pouco lhe faltava para rebentar. Libertado das correias de couro, o balão deu um verdadeiro salto, erguendo o pesado bloco como se fosse uma pena. Challenger retesou os músculos, contando que seu peso respeitável e sua força temível seriam capazes de deter o movimento, mas foi arrastado também. Num ímpeto irresistível, atirei-me para diante e mal tive tempo de agarrá-lo pela cintura, abraçando-o estreitamente. Senti-me também erguido no espaço. Lorde John Roxton, por sua vez, precipitou-se e senti seus braços nervosos cruzarem-se sobre os meus tornozelos... Mas foi arrastado igualmente, o mesmo acontecendo com o professor Summerlee que, por dedicação ou terror de ficar sozinho, agarrou-se a lorde John e também foi erguido.
E ali estávamos nós, todos quatro, pelos ares, agarrados à corda do improvisado balão, como papelotes de um rabo de pipa.
Felizmente a corda era menos forte do que o poder ascensional do balão e do que nosso peso... Rebentou quase imediatamente, deixando-nos cair antes que chegássemos a altura superior a três metros.
Rolamos uns sobre os outros num bolo, enquanto o balão se perdia no espaço, levando o pedaço de basalto a que estava preso.
— Bravo!... Bravíssimo! — mugiu o professor Challenger, erguendo-se e friccionando vigorosamente o corpo contundido pela queda. — Não poderia haver prova mais concludente. Eu mesmo não esperava êxito tão completo. Dentro de uma semana terei pronto outro balão e poderemos partir. Estejam certos de que, na próxima vez, teremos uma viagem segura e confortável para o nosso retorno ao lar.
Até esse incidente eu havia anotado, dia a dia, quase hora a hora, os acontecimentos desta nossa terrível jornada. Mas passei três dias sem escrever e somente agora retomo o lápis para falar de nosso primitivo acampamento, que por tanto tempo ficou sob a guarda de Zambo, nosso fiel auxiliar. Dificuldades e perigos do platô maldito, tudo ficou para trás como um pesadelo. Eis-nos de novo no solo abençoado da planície amazônica, prontos para recomeçar a jornada a caminho da velha Inglaterra. Nossos corações e mentes já estão voltados para a grande cidade-mãe, nossa querida Londres.
Nem foi preciso que o visionário professor Challenger fizesse um novo balão. Na mesma noite da acidentada experiência, o jovem príncipe índio, o único entre os de sua raça que parecia disposto a nos auxiliar em nossos projetos de fuga, veio ter comigo, num momento em que eu me achava só (talvez por termos aproximadamente a mesma idade, ele sempre se dirigia a mim) e entregou-me um rolo de casca de madeira curiosamente gravado. Tão logo eu comecei a examinar esse objeto, ele interrompeu-me para mostrar com grande insistência as linhas desenhadas, uma a uma.
Então, quando eu fiz um movimento para me precipitar em busca de meus companheiros, a fim de lhes mostrar o rolo de madeira, ele conteve-me fazendo um gesto que em todos os países do mundo significa: Cuidado!... Silêncio!... Prudência!...
Resolvi agir sem alarde e obedecer ao jovem príncipe, que se afastou, sempre garboso e altivo, repetindo seu gesto de prudência. Quando meus companheiros, que andavam passeando pelos arredores, voltaram para nosso acampamento, eu os reuni para que juntos examinássemos aquela espécie de mapa. Tinha uma série de linhas singularmente desenhadas a carvão, parecendo uma rudimentar partitura musical. Aqui está uma reprodução daquele mapa:
—Seja o que for, creio que é importante — falei aos meus companheiros. — O índio tinha uma expressão muito séria, não podia estar brincando conosco.
—Se não é brincadeira — atalhou Summerlee —, parece que estes sinais, de fato, representam algo.
—Certamente, é algum tipo de escrita primitiva — disse Challenger.
—Em forma que quebra-cabeças — completou lorde John, esticando o pescoço para ver melhor. — Em seguida, tomou em suas mãos o rolo de casca de árvore.
—Meu Deus! — exclamou. — Creio que o decifrei. Olhem aqui: existem dezoito marcas. Se vocês observarem bem, há igualmente dezoito aberturas de cavernas nas rochas.
—De fato, ele apontava para as cavernas enquanto me mostrava o mapa. É isso mesmo! — acrescentei, entusiasmado.
— Então não temos dúvidas: trata-se de um mapa relacionado às cavernas. Ele mostra, portanto, que algumas são curtas, outras profundas, várias se bifurcam, exatamente como vimos em nossas visitas lá em cima. Mas vejam, há uma cruz nesta aqui. E esta marca é muito mais comprida que as outras.
— Esta deve atravessar a rocha! — pontifiquei eufórico.
— O nosso jovem deve estar certo — concedeu Challenger. — A caverna deve, certamente, atravessar a rocha, contudo o mais importante é saber se, caso consigamos chegar a um ponto correspondente ao lado exterior do penhasco, quanto teremos que descer para atingir o solo.
— Trinta metros, talvez — resmungou o sempre pessimista Summerlee.
— Que seja! Nós temos uma corda com trinta metros — ponderei. — Nós conseguiremos descer.
— Mas... e os índios? Eles poderão nos impedir... — interveio Summerlee novamente.
— Os índios não moram naquelas cavernas situadas mais em cima. Eles usam-nas como celeiro, depósito... Por que não vamos lá dar uma espiada?
Pegamos alguns tocos de uma madeira seca e escura — que Challenger afirmou ser uma espécie de araucária —, a mesma que os índios usavam para fazer suas tochas, e seguimos o caminho que conduzia às cavernas. Subimos os degraus cobertos de capim, chegando à caverna marcada no mapa. Ela estava deserta, e seus únicos ocupantes naquele momento era um bando de morcegos enormes, que voavam em torno de nós à proporção que avançávamos na escuridão. Era o momento de acender as tochas. Riscamos os fósforos e, então, pudemos ver o interior da caverna: era um túnel bastante curioso, com paredes desenhadas com símbolos indígenas, um teto que se assemelhava a um arco e o solo coberto por uma areia branca, que brilhava sob o fogo de nossos fachos. Seguimos rapidamente por esse túnel até que, para nossa total decepção, nos deparamos com um paredão de rocha, sem nenhuma fenda.
Olhávamos, desconsolados, para aquele obstáculo. Não havia ali nada que pudéssemos fazer. Tratava-se, simplesmente, de um beco sem saída.
— Deixe isso para lá... — disse Challenger, tentando nos injetar um pouco de ânimo. — Não se esqueçam de meu balão...
Summerlee soltou um triste suspiro.
— Talvez estejamos na caverna errada — atalhei.
— Não, não é possível — disse lorde John, indicando o mapa. — A caverna é realmente esta.
Observei a marca que ele apontava com o dedo e dei um grito de alegria:
— Descobri! Descobri! Venham comigo...
Empunhando o facho de fogo, fiz todos me seguirem de volta pelo caminho que havíamos percorrido.
— É aqui — afirmei, apontando os fósforos queimados. — Aqui foi onde acendemos as tochas...
— Exatamente.
— Vejam, no mapa a caverna está marcada num ponto onde há uma bifurcação. No escuro, não percebemos que era aqui. Sei que estou certo, vamos seguir.
De fato, eu não havia me enganado. Pouco menos de trinta metros depois, encontramos uma abertura escura na parede à nossa direita. Seguimos por ela e encontramos um outro túnel, muito mais amplo. Ansiosos, prendendo a respiração, avançamos mais uns duzentos metros por esse corredor. Subitamente, então, em meio à escuridão que nos permeava ali, avistamos o brilho de uma luz vermelha, como se houvessem chamas queimando à nossa frente. Seguimos, e conforme avançávamos, nenhum ruído, movimento ou calor nos afrontava: apenas víamos aquela luminosidade vermelha e intensa à nossa frente, refletindo no interior da caverna e fazendo suas paredes parecerem cobertas de estranhas pedras preciosas. Quando, por fim, chegamos mais perto, estancamos maravilhados.
— Deus meu! Deus meu! É a Lua! Vamos seguir, senhores, vamos atravessar o penhasco — gritou lorde John.
Era de fato a Lua cheia que brilhava diretamente sobre uma abertura na rocha. Tratava-se de uma fenda razoável, pouco maior do que uma janela, que nos permitiria passar. Espiando por ela, constatamos que a descida não seria difícil, pois a planície estava logo abaixo de nós. Percebemos também por que não nos havia sido possível avistá-la da base do penhasco: este se curvava acima dela, fazendo a escalada parecer impossível, razão pela qual passou despercebida quando fizemos a inspeção. Mais uma vez, constatamos a facilidade da descida e, repletos de alegria, decidimos voltar ao acampamento para iniciarmos os preparativos de nossa jornada de volta para casa.
Para não despertarmos nenhuma suspeita dos índios, que poderiam impedir a nossa partida até naqueles derradeiros minutos, fizemos tudo rapidamente e em segredo: organizamos as nossas coisas, principalmente armas e munições, separando apenas mantimentos absolutamente necessários. Challenger, contudo, preparou um volume de bagagens absolutamente incompatível com as nossas possibilidades de transporte, e insistiu de tal maneira em fazê-lo que não tivemos outra alternativa senão ceder. O dia passou numa lentidão indescritível, mas, finalmente, anoiteceu. Com multo esforço, principalmente pela bagagem pouco parcimoniosa do nosso teimoso professor, levamos tudo para a beira dos degraus e lançamos um último e prolongado olhar para aquele estranho e maravilhoso lugar, que aprendemos — com multo sofrimento, é verdade — a amar imensamente. Enquanto olhávamos — cada um de nós imersos em seus próprios sonhos e pensamentos — ouvíamos a algazarra dos índios lá embaixo, que cantavam e dançavam seus ritos, sem saber que os está-vamos deixando. De repente, ouvimos um grito longo, sonoro, mágico, de algum animal exótico. Entendemos aquilo como a voz da Terra de Mapple White, que vinha se despedir de seus intrépidos visitantes. Seguimos.
Algumas horas mais tarde estávamos na base do penhasco. Descemos sem muita dificuldade, a não ser pelas tralhas de Challenger. Ao chegarmos, deixando tudo no pê do rochedo, partimos diretamente para o primeiro acampamento, onde Zambo deveria estar. Quando nos aproximamos, ainda de madrugada, havia, para nossa surpresa, dezenas de fogueiras. Os índios estavam com ele. Eram cerca de vinte, munidos de cordas, estacas de madeira e tudo mais para nos prestar o socorro. Agora, nada daquilo era mais necessário, mas de todo modo os índios nos auxiliariam no transporte de nossa carga. No dia seguinte, partimos de volta em direção ao Amazonas.
Desse modo, orgulhoso, porém humilde e agradecido, encerro esta parte de meu relato. Nossos olhos viram maravilhas sem igual e nossos espíritos se purificaram pe-las provações. Sem dúvida, somos outros homens, transformados pela esplêndida experiência que acabamos de viver. Deveremos ficar algum tempo no Pará, pois precisamos nos preparar para o retorno. Por esta razão, é provável que a carta que ora escrevo chegue pouco antes do que nós. Ou não. De todo modo, meu caro Sr. McArdle, em breve estarei apertando suas mãos.