O Mundo Perdido

Arthur Conan Doyle · Capítulo 12 de 12

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O Mundo Perdido

Capítulo XVI · Uma Passeata

 

Fizemos muitos amigos na Amazônia, e seria injusto se não registrasse aqui a gentileza e hospitalidade que a nós dedicaram. Quero agradecer, especialmente, ao Sr. Penalosa e outros funcionários do governo brasileiro, por tudo o que fizeram para nos ajudar, e também ao Sr. Pereira, do Pará, que providenciou roupas e tudo o mais necessário para nos recompormos com uma aparência de homens civilizados. No mais, registro que foi feliz e quase monótona, por sua excessiva tranquilidade, a viagem de regresso.

Embora, quando ainda estávamos no Brasil, já tivéssemos ouvido falar da excitação que os rumores sobre nossas aventuras (digo rumores, pois ainda não declaráramos nada oficialmente) havia provocado, não tínhamos a menor idéia da expectativa que naquele momento se manifestava na Inglaterra e em outros países europeus. Contudo, quando nos encontrávamos a cerca de quinhentas milhas do porto de Southampton, recebemos, à bordo do Ivernia, dezenas e dezenas de mensagens telegráficas de múltiplos jornais e agências de notícias, oferecendo-nos altos pagamentos por declarações sobre a expedição. Isso era a prova cabal do enorme interesse que havíamos despertado. De todo modo, havíamos decidido não fazer declaração alguma à imprensa enquanto não nos tivéssemos apresentado à ilustre assembléia no Instituto Zoológico de Londres, de que fôramos os delegados oficiais nessa espinhosa missão.

Desse modo, ao desembarcarmos em Southampton, expusemos à multidão de jornalistas, que ali nos aguardava, nossa intenção de divulgarmos toda e qualquer in-formação apenas no dia seguinte, sete de novembro, quando seria realizado nosso encontro. Fomos notificados que, em razão de toda a expectativa gerada, os orga-nizadores haviam transferido o encontro do Instituto de Zoologia, cujo auditório era por demais acanhado, para o Queens Hall, que poderia acolher um público maior. Como se pôde constatar depois, mesmo esse foi pequeno para acolher tanta gente, e nem o gigante Albert Hall daria conta de receber toda aquela multidão.

No dia de nossa chegada, após termos conseguido nos livrar dos jornalistas, cada um de nós seguiu para tratar de seus assuntos pessoais. Por ora, não quero falar dos meus. Estou ainda sob forte emoção e preciso de tempo para me refazer. O leitor deve se lembrar o que motivou minha busca de aventuras e, talvez, esteja ansioso para saber suas consequências no âmbito de minha vida sentimental, mas peço um pouco de paciência. Apesar de tudo, entretanto, afirmo que de nada me arrependo e até agradeço a força que me empurrou em direção àquele mundo maravilhoso.

Prefiro dedicar essas linhas ao relato do último e significativo momento relacionado às nossas aventuras. Enquanto procurava as palavras melhores para fazê-lo, encontrei uma edição de oito de novembro do jornal em que trabalho, com uma reportagem completa e detalhada do evento. Transcrevo-a, aqui, primeiramente como forma de agradecer ao jornal pela confiança que em mim depositou, ao enviar-me como seu correspondente. Em segundo porque garante uma certa imparcialidade, pois a matéria não foi escrita por mim, mas sim por meu colega de reda-ção Macdona. Eis, então, a reportagem:

UM MUNDO NOVO Importante reunião no Instituto Zoológico

CENAS DE TUMULTO

UM INCIDENTE SENSACIONAL

"A muito esperada reunião do Instituto de Zoologia, especialmente convocada com o fito de acolher o relatório da Comissão de Investigação enviada à América do Sul para verificar a veracidade das afirmações do professor G.E. Challenger quanto à existência de vida prê-histórica naquele continente, realizou-se na noite de ontem no grande auditório do Queen's Hall, constituindo-se num acontecimento de tal magnitude para a história das Ciências que, sem dúvida, nenhum dos presentes jamais poderá esquecê-la. {Convenhamos, colega Macdona, este parágrafo de abertura está horrivelmente grande.)

"Embora teoricamente os convites estivessem restritos aos membros do Instituto, muito antes das oito, hora prevista para o início da reunião, todas as poltronas do Hall estavam literalmente tomadas. Um princípio de revolta do público que não havia conseguido entrar degenerou em tumultuada invasão do auditório, com diversos feridos, entre os quais o inspetor Scoble, da Divisão H, que lamentavelmente teve a perna fraturada. Com a invasão, o público leigo lotou todo o recinto, incluindo corredores e o espaço reservado à imprensa, e números extra-oficiais indicavam a presença de aproximadamente cinco mil pessoas no local, aguardando a chegada dos membros da expedição.

"Finalmente eles chegaram, ocupando lugares no palco, onde já se encontravam influentes cientistas da Inglaterra, mas também da França e Alemanha, além de um representante da Suécia, o professor Sergius, decano da Universidade de Upsala. A entrada do grupo de expedicionários foi saudada efusivamente, com o público aplaudindo de pé ao longo de alguns minutos. Havia, no entanto, alguns sinais de desacordo entre os aplausos — um ensaio de vaias, aqui e ali —, fazendo entrever que a reunião poderia assumir contornos polêmicos. Apesar disso, ninguém poderia prever o insólito rumo que aquele encontro viria de fato assumir.

"A imagem dos quatro expedicionários já foi por demais exibida pelos jornais nos últimos meses, e pouco podemos acrescentar a isso. Diremos apenas que o professor Challenger parecia um pouco mais desalinhado do que costumeiramente, sobretudo pela barba desgrenhada. O professor Summerlee mais circunspecto e estóico e lorde John Roxton parecia ter emagrecido um pouco. Os três, no entanto, estavam bronzeados e aparentavam excelentes condições físicas. Quanto ao meu colega, E. D. Malone, grande jornalista e conhecido jogador de rugby, mostrava-se, igualmente, com muita disposição, exibindo para a platéia um permanente sorriso no rosto sincero, mas feio. (Por essa você me paga, caro Mac.)

"Ao cabo de alguns minutos, o público — que até então mostrara-se um tanto excitado — acalmou-se, retomando as poltronas, e o duque de Durham, que presidia a mesa, fez uso da palavra declarando que seria breve, pois sabia que todos ali estavam ansiosos. Nada anteciparia do discurso do professor Summerlee, mas já era de conhecimento geral que a expedição tinha sido coroada de êxito. [Aplausos prolongados.) — A fase heróica das aventuras ainda não terminou — acrescentou ele — e estes senhores nos provarão o fato de que coisas imaginadas pela fantasia literária muitas vezes se comprovam pelos cientistas em suas investigações. Quero dizer também que me alegro — decerto, como todos os presentes — por estes senhores terem retornado são e salvos de tão árdua e perigosa missão, pois, se algo trágico tivesse ocorrido, representaria uma perda inestimável à ciência zoológica. (Aplausos entusiasmados, principalmente os do professor Challenger.)

"Chamado à tribuna, o professor Summerlee teve recepção calorosa, que se repetiria em diversos momentos de seu discurso. Não o reproduziremos aqui na íntegra, pois um relato detalhado em breve será publicado por este órgão num suplemento especial escrito pelo jornalista E.D. Malone. Entretanto, forneceremos ao leitor os pontos centrais do discurso do professor Summerlee.

"Após referir-se aos fatos que deram origem ã expedição — sem se furtar a um emocionado pedido público de desculpas ao professor Challenger, por não ter acreditado antes em suas afirmativas —, o professor Summerlee apresentou o itinerário que a expedição havia percorrido, omitindo, contudo, dados mais concretos que pudessem fornecer a localização exata do platô. Assim, descrevendo detalhes da viagem pelo Amazonas até o penhasco, impressionou o público ao relatar as dificuldades que tiveram para escalá-lo, acrescentando que aquelas desesperadas tentativas — que por fim tiveram bom êxito — , infelizmente custaram a vida de dois mestiços que os acompanhavam.

"Depois de narrar os eventos que os tornaram prisioneiros do topo rochoso — em face da queda da ponte improvisada —, ele passou a relatar tanto as maravilhas quanto os horrores da região. Não falou em tom pessoal, antes preferindo destacar as conquistas científicas que alcançaram, como a catalogação de quarenta e seis novas espécies de coleóteros e cento e noventa e quatro de lepidópteros. Naturalmente, o interesse do público estava voltado para animais maiores do que insetos, em especial aqueles identificados como jurássicos. Quanto a esses, o professor forneceu uma lista considerável, que seria sensivelmente aumentada — ele acrescentou — quando a região fosse explorada de maneira mais sistemática e profunda por outros cientistas. Como primeiro exemplo, referiu-se a uma cobra de coloração roxa, medindo aproximadamente vinte metros, para depois falar de um espécime branco, provavelmente mamífero, cuja pele emanava intensa fosforescência na escuridão. Havia, igualmente, uma imensa mariposa negra cuja picada os índios diziam ser mortífera. A despeito do interesse despertado por esses exemplos, a grande sensação ocorreu quando ele começou a falar de criaturas jurássicas já encontradas em sítios arqueológicos. Entre outras, o medonho estegossauro, visto pelo Sr. Malone tomando água no lago: a mesma criatura que constava do bloco de desenhos do aventureiro americano que primeiro havia penetrado naquela região. Falou também do iguanodonte e do pterodáctilo — as primeiras formas jurássicas que a expedição avistou —, e dos ferozes dinossauros carnívoros, que por diversas vezes os perseguiram, constituindo para eles o ser mais estranho e formidável entre os encontrados no platô. Revelou, igualmente, o encontro com uma ave feroz, o phoreractus e de um gigantesco veado que também ali habita.

"Forte comoção causaram suas descrições das maravilhas encontradas no lago, especialmente o estranho pei-xe-lagarto de três olhos, e as enormes serpentes que pululam naquelas águas. Outra sensação foi a longa referência aos macacos antropóides, cuja existência, segundo o professor Summerlee, representava a solução do enigma relativo ao 'elo perdido' da evolução humana, uma vez que eram uma forma muito mais evoluída e desenvolvida do que o fóssil do pitecantropo encontrado em Java. Por fim, na parte mais divertida do relato, descreveu as peripécias vividas com o balão inventado pelo professor Challenger, encerrando o discurso com as derradeiras aventuras que propiciaram o retorno deles ao mundo civilizado.

"Quando todos esperavam o fim dos trabalhos, com a aprovação unânime do voto de congratulações proposto pelo professor Sergius, da Universidade de Upsala, um fato veio dar novo rumo à reunião. O professor James Illingworth, da Universidade de Edimburgo, levantou-se e pediu um aparte, solicitando a inclusão de um reparo no relatório final. Foi autorizado a falar, mas antes que começasse foi interrompido pelo professor Summerlee.

"— Gostaria de colocar em suspeição o reparo deste senhor, pois trata-se de meu inimigo notório, desde a nossa polêmica no Quaterly Journal of Science.

"Feito o registro, a palavra coube ao professor Illingworth. Inicialmente, sua voz não podia ser ouvida com nitidez, pois a platéia se manifestava, através de apupos, em clara oposição. Entretanto, fazendo uso de sua voz potente, e impulsionado por um certo número de apoiadores que pouco a pouco se pronunciavam, ele pôde impor sua presença.

"O professor Illingworth destacou inicialmente seu elevado respeito pela obra científica dos professores Summerlee e Challenger, lamentando, contudo, que pudesse ser atribuído qualquer sentimento de ordem pessoal às suas palavras, uma vez que elas seriam ditadas, única e exclusivamente, pela busca absoluta da verdade científica. A atmosfera da reunião era de nervosismo, e pôde-se ouvir, inclusive, o professor Challenger perguntar ao presidente da mesa se este lhe permitia jogar o professor Illingworth porta afora.

"O cientista de Edimburgo prosseguiu sua intervenção:

"Muitos viajantes, em diversos tempos, chegaram de regiões remotas com relatos que foram aceitos apressadamente. Constatou-se, depois, que não passavam de mera especulação e fantasia. Por esta razão, seria muito temerário que uma entidade do porte e da importância do Instituto de Zoologia de Londres aceitasse, sem reparos, o que foi aqui exposto. (Aplausos e vaias se misturavam.) Não coloco em dúvida a integridade destes homens, mas a natureza humana é muito complexa e contraditória, e mesmo importantes cientistas podem ser presas da vaidade que cega. Ora, caçadores são célebres por exagerar seus feitos (nesse ponto, um indignado lorde John Roxton fez menção de se levantar, enquanto gritava: 'Esse sujeito está me chamando de mentiroso?'), enquanto jornalistas — continuou o professor Illingworth — buscam, a qualquer preço, 'furos de reportagem' que os façam superar seus rivais, produzindo, por essa razão, reportagens eivadas de sensacionalismo.

"Um imenso tumulto se instaurou. Tentando evitar piores consequências, o presidente da mesa pediu que o professor Illingworth concluísse sua fala, apresentando o reparo.

"— Excelência, eu teria mais a dizer, mas acato a sua decisão. Em face do já exposto, solicito que do relatório final conste um 'não comprovado' e que as investigações sejam conduzidas por outra comissão, maior e mais con-fiável.

"A confusão, que já havia começado, generalizou-se em pancadaria, envolvendo os que apoiavam o reparo (em menor número) e a parte da plateia que contestava: ambos os grupos formados majoritariamente por estudantes de medicina. De repente, porém, algo magnetizante fez acalmar a balbúrdia: o professor Challenger levantou-se e, numa atitude calma, mas absolutamente dominadora, exigiu ordem e silêncio e todos sentaram, expectantes, para ouvi-lo falar.

"— Alguns dos presentes devem se recordar das cenas de estupidez que marcaram o encontro que deu origem ã expedição. Pois bem, naquela oportunidade ouvi ofensas do professor Summerlee, que há pouco apresentou publicamente suas desculpas. Esta noite recebi novos ataques, ainda mais ofensivos, e sou obrigado a fazer um esforço de auto-humilhação para descer ao nível mental de meu oponente. [Risadas e gritos na platéia.) Não obstante o relato oficial feito por Summerlee, sou o pivô de todo esse debate e, como tal, cabe a mim o papel de seu resultado. Conduzi estes três senhores àquele mundo, convencendo-os da verdade de minhas afirmações. Em nosso retorno, esperava não encontrar seres tão medíocres que colocassem em dúvida as conclusões, não apenas minhas, mas de todo um grupo de pessoas inteligentes e responsáveis. Mas a experiência anterior não foi em vão e decidi, desta vez, munir-me de provas que pudessem convencer até mesmo indivíduos de mediana capacidade mental. Como já foi dito pelo professor Summerlee, os homens-macacos invadiram nosso acampamento e estragaram muitos dos negativos de fotos que havíamos feito. ('Lorota!', 'Conte outra!' e outros gritos maliciosos eclodiram em parte da platéia.) Apenas me referi aos homens-macacos, pois muitos dos ruídos vindos da platéia se assemelham aos seus grunhidos. (Risos.) Embora muitos negativos tenham sido destruídos, temos ainda muitas fotos de valor substancial para corroborar nossas afirmações. Crêem que forjaríamos as fotografias?

[Algumas vozes gritaram 'Sim!', ocorrendo aí novo tumulto que culminou com a expulsão de várias pessoas do recinto.) De todo modo, as fotografias serão colocadas à disposição dos peritos. Por outro lado, como o próprio professor Summerlee falou, não pudemos trazer muitas bagagens, mas o que me dizem das borboletas e besouros que ele trouxe, exemplares absolutamente desconhecidos entre nós (Havia gritos de 'Isso não vale!', 'Não!')."

"— Quem disse não? — perguntou o professor Challenger.

"E o professor Illingworth levantou-se e falou:

"— Nossa opinião é que esses espécimes poderiam ter sido colhidos em qualquer lugar, não necessariamente no platô pré-histórico.

"— Sem dúvida — reconheceu o professor Challenger. — Mas deixando de lado borboletas e besouros, poderíamos mostrar inúmeras fotos de pterodáctilos, algumas retratando, inclusive, seus hábitos...

"— Nenhuma fotografia poderia nos convencer. Podem ser forjadas.

"— Que quer então o senhor? — perguntou o professor Challenger, com voz atordoadora.

"— Gostaria de ver... Ver ao menos uma prova palpável... — atalhou o oponente.

"— Queria talvez que lhe trouxéssemos um pterodác-tilo vivo? — perguntou o professor, com um sorriso irónico.

"— Oh! não digo tanto — replicou o professor Illingworth.

"— Então — continuou Challenger, cada vez mais zombeteiro e sorridente — então, se lhe apresentássemos um pterodáctilo vivo, ficaria convencido?... Pois nada mais fácil."

"Fez um sinal para a porta e todos viram, cheios de expectativa, o Sr. Malone dirigir-se ao fundo do palco e voltar acompanhado de um negro imenso (que depois ficamos sabendo chamar-se Zambo), ambos carregando uma grande caixa. Colocaram-na sobre a mesa da presidência, e Challenger abriu rapidamente um cadeado que a fechava, ergueu a tampa e, curvando-se, fez estalar os dedos, chamando algo como quem chama um cãozinho:

"—Aqui... aqui, vem cá, gracinha.

"Ouviu-se um ruído esquisito de ossos entrechocados e de garras que raspam madeira... E, de súbito, surgiu acima da borda do caixote a horrenda cabeça de um pterodáctilo ainda jovem. E o medonho animal, erguendo-se com bastante esforço, colocou-se pousado sobre a borda do caixote.

"O movimento na multidão foi de assombro e curiosidade tão intensa que um espectador, demasiadamente debruçado na galeria superior ou talvez impelido pelos que estavam em posição menos favorável para ver, caiu da galeria na orquestra... Embora tenha caído sobre outras pessoas, ninguém se machucou gravemente; mas a queda fez um estrondo imenso, seguido de alarido e gargalhadas de toda a assistência. Esse rumor súbito e formidável assustou o pterodáctilo que, abrindo as enormes asas de couro, abriu vôo na sala.

"Então o tumulto foi indescritível. A figura inverossímil da criatura antediluviana apresentou-se em todo o seu horror aos olhos do público, causando uma impressão de susto irreprimível. Numerosas mulheres desmaiaram, outras caíram em ataques, com gritos estridentes. Os homens em sua maioria tentaram sair da sala ou agitaram as bengalas e chapéus para afugentar o monstro. Tudo isso acabou de alucinar o pterodáctilo, que começou a se bater pelas paredes, procurando uma saída.

"— A janela! — bradava o professor Challenger desesperado. — Fechem a janela!

"Referia-se a uma larga vidraça ogival que, acima das galerias, arejava a sala.

"Mas ninguém obedeceu a seus brados aflitos e o pterodáctilo, entrevendo o céu por essa abertura, precipi-tou-se por ela e desapareceu.

"O professor Challenger pulava de furor e movia as mãos agoniadamente.

"Mas o público vira, vira com os próprios olhos, o animal que parecia ressuscitado da era pré-histórica, e toda a gente, num ímpeto de entusiasmo, ergueu-se cercando os quatro expedicionários, quase sufocando-os numa consagração difícil de narrar. Em vão, eles lutavam para se libertar, mas o público, eufórico, ergueu-os nos ombros e os conduziram para a rua, gritando: Regent Street!', 'Regent Street!'. Quando ali chegaram, ocorreu um espetáculo incrível. Uma multidão não inferior a cem mil pessoas os aguardava, estendendo-se desde o Hotel Langham até Oxford Circus. Carregados, sendo a atração central daquela imensa passeata, eles seguiram com a multidão pela Regent Street, pela Pall Mall, St. James Street e Piccadilly, causando uma confusão imensa no tráfego, com inúmeras colisões envolvendo carros particulares, táxis e até mesmo viaturas da polícia. Por fim, apenas depois da meia-noite, os consagrados, mas exaustos heróis, foram liberados em frente aos aposentos de lorde John Roxton, no Albany. Antes de se dispersar, contudo, a multidão cantou músicas populares em homenagem aos heróis, encerrando o programa da noite com o Hino Nacional Britânico. Desse modo transcorreu uma das mais memoráveis e significativas noites da história recente de Londres."

Essa foi a reportagem de meu amigo Macdona e pode ser considerada um relato fiel, descontados, é claro, alguns exageros. Se a atração central do encontro foi uma surpresa enorme para a platéia, o leitor deve desconfiar que não o foi para nós. Lembra-se quando encontrei lorde Roxton, com uma arapuca curiosa? E minhas menções sobre a grande bagagem do professor Challenger? Tudo isso faz parte, por-tanto, do nosso empenho para trazer o animal, que — diga-se de passagem — nos deu um trabalho danado durante a viagem, pois tínhamos que continuamente alimentá-lo com porções generosas de peixe podre. Não disse nada antes porque o professor Challenger havia nos solicitado absoluto sigilo, pois tratava-se de um trunfo que deveria ser guardado como argumento irrefutável e final para desmontar a argumentação desqualificadora de nossos inimigos.

Agora, algumas palavras sobre o destino de nosso pterodáctilo perdido em Londres. Nos dias seguintes, tentei conseguir informações, pistas que pudessem conduzir à sua localização. Encontrei muitos boatos infundados, mas mesmo assim prossegui nas buscas.

Ao fim de alguns dias, apesar de toda a minha dedicação, concluí que nunca mais seria possível encontrá-lo. Colhi, no entanto, algumas histórias. Duas senhoras tinham visto sua silhueta fantástica, destacando-se sobre a Lua, num telhado do Queen's Hall. O soldado Miles, dos Coldstream Guards, de sentinela à porta de um paiol em Plymouth, fora sujeito a corte marcial por ter desertado de seu posto. Alegara, em sua defesa, ter sido atacado por um pássaro horrendo "do tamanho de um boi", como ele dizia, o que não foi considerado pelos juízes que conduziram o julgamento.

O mais provável, contudo, é que o estranho animal, arrastado pelo instinto de orientação, tentara voltar ao Brasil e havia morrido, esgotado pela fadiga, em pleno Atlântico.

Quanto a Gladys, minha doce Gladys, cujo nome ficaria gravado para sempre nos anais da ciência, por títulos que eu conquistara jogando a própria vida... Bem, o lago será rebatizado como lago Central, por razões que agora já tenho coragem de contar. Mas, antes, algumas indagações que faço a meu próprio coração: Como não pude ver, em seu rosto angélico, os traços de sua dura natureza? Como não percebi que não havia amor de verdade em suas palavras, quando provocou meu orgulho para tornar-me herói de não importa qual aventura? Ela amaria um homem ou somente seria capaz de amar o heroísmo que ele gerasse e que nela se refletisse?

Mas permitam-me, em poucas palavras, retratar o que aconteceu. Quando retornei, nem uma carta, nem um simples bilhete, trouxe-me palavras delas. O que teria acontecido? — perguntei-me. Meu primeiro pensamento foi quanto à saúde dela. Teria acontecido alguma coisa? Louco de apreensão, corri para a rua em que ela morava. Com que ansiedade penetrei na bela residência em que tantas vezes suspirara em vão!

O criado, que bem me conhecia, fez-me logo entrar no vasto salão e eu vi Gladys recostada, como de costume, no divã ao lado do piano, folheando uma revista. Dir-se-ia que eu a deixara ali ontem, naquela mesma atitude.

— Gladys!... — murmurei, com voz estrangulada pela emoção.

Ela voltou a cabeça e ergueu-se com a expressão da mais viva surpresa.

Eu estendi-lhe as mãos num gesto de intenso carinho; porém ela retraiu-se, dizendo:

— Perdão.

— Oh, Gladys! — exclamei — Que tem? Por que a encontro tão mudada?

Ela sorriu com desdém, como aquele que se tem pelas crianças, que não compreendem as coisas mais simples. Depois, esclareceu a situação com as seguintes palavras:

— Meu caro Malone, permita que lhe apresente William Pott, meu marido. Casamo-nos há um mês.

E eu, atônito, mas escravo dos gestos habituais da boa educação, achei-me de súbito apertando a mão de um homenzinho, magro e semi-calvo, cuja presença, em meu estado quase hipnótico, não havia percebido. Ele estava sentado na poltrona que eu julgava somente minha.

— Papai quis que nós ficássemos morando aqui, por enquanto. Estamos terminando a nossa casa — disse simplesmente minha ex-noiva.

— Ah!

— Você não recebeu uma carta que eu lhe escrevi para o Pará?

— Não.

— Oh! Que pena... Explicava-lhe tudo.

— Mas não há o que explicar.

— Sim... sim. Contei a William tudo a nosso respeito. Não há segredos entre nós. Sinto pelo que aconteceu, mas creio que não havia nada de verdadeiro entre nós, já que você foi capaz de sumir pelo mundo, deixando-me aqui sozinha.

Curvei-me. Apertei novamente a mão de William e di-rigi-me para a saída.

Ele me acompanhou até a porta e eu não resisti à tentação de perguntar-lhe:

— Que atos de heroísmo praticou para merecê-la? Que fez neste mundo? Subiu o monte Everest? Atravessou o oceano de avião? Como conseguiu?

Com uma expressão vazia no rosto bem-humorado e com barba a fazer, ele me disse, sorrindo:

— Creio que isso é muito pessoal, não acha?

— Bem, apenas mais uma pergunta: o que faz? Qual é a sua profissão?

— Sou segundo assistente de um escritório de advocacia, o Kohnson & Marivale, na Chacery Lane — disse ele.

— Ah!... Boa noite.

E fui embora, com um sentimento misto de raiva, tristeza e, mesmo alegria, fervendo dentro de mim.

Uma última cena para terminarmos de vez essa narrativa. Na noite passada, lorde Roxton convidou a mim e a seus outros dois companheiros de viagem para jantar em sua casa. Terminada a refeição, apanhou sobre uma mesa próxima uma caixa de charutos. Fumamos num clima de grande camaradagem, enquanto recordávamos nossas recentes peripécias. Era curioso ver as velhas caras, tão conhecidas, num ambiente totalmente diferente. Challenger, com seu sorriso intolerante, sobrancelhas semi-cerradas, barba selvagem, peito enorme e arfante, ditando regras para Summerlee. Este, com seu costumeiro cachimbo curto, enfiado entre o bigode ralo e a barba de bode, discutindo acaloradamente, com o seu constante e, agora, amistoso oponente. E, claro, o nosso anfitrião, lorde John, com seus enganosos olhos frios, que na verdade escondem um menino travesso e cheio de generosidade. E foi depois de uma conversa amistosa que este nosso amigo levantou-se, foi até uma estante, e apanhou uma pequena caixa.

Abriu-a e tirou dela umas trinta pedrinhas de formas variadas que espalhou sobre a toalha. Algumas eram do tamanho de um grão de feijão; outras porém alcançavam a proporção de uma noz.

— O que é isso!... — exclamou logo o professor Summerlee. — Oh! Você parece ter ai uma fortuna espantosa.

Voltando-se especialmente para mim, lorde Roxton disse:

— E são de primeira grandeza.

Em seguida, ele tirou do bolso do colete uma pedra já lapidada que cintilava como mil fogos. Continuou.

— Lembra-se do dia em que me encontrou metido em uma espécie de gaiola de bambus, andando pelo rebordo do platô em direção ao charco dos pterodáctilos? Parece-me que você até notou que eu me perturbava um pouco com sua presença, pois meu interesse não compreendia apenas a caça de um exemplar da criatura. É que eu anda va por ali tentando uma coisa que podia ter resultados magníficos, mas que também podia não ter resultado algum. Por isso, eu queria manter secreta minha tentativa. Tratava-se do seguinte. Eu não sou um cientista como estes eminentes amigos mas, tendo viajado muito pelo vasto mundo, possuo também alguns conhecimentos da natureza. E, como estive no Transvaal, vi muito bem o que são terrenos diamantinos. Ora, quando pela primeira vez descobrimos o ninho dos pterodáctilos, eu fiquei impressionado pelo aspecto do terreno. Lembra-se?... Era uma antiga cratera de vulcão, cheia de argila azul. Eu só vira até aquele momento um terreno semelhante: o das riquíssimas minas de diamantes de Beers, em Kimberley. Imediatamente tive a idéia de que ali também devia haver diamantes. Nada lhes disse porque os nossos ilustres professores só se interessam por problemas científicos e não dariam importância a vantagens financeiras. Quanto a você, muito jovem ainda, apaixonado, poderia entusiasmar-se demasiadamente com a idéia e sofrer depois um desengano. Preferi fazer a experiência só. Armei aquela singular proteção de bambu para me prevenir contra qualquer ataque dos medonhos habitantes do pântano e andei por lá duas ou três horas escavando o solo com minha faca de caça.

— Aqui está o que eu pude recolher — concluiu ele, rolando as preciosas pedras entre os dedos. Calei-me ainda durante a viagem porque podia estar enganado sobre o valor de minha colheita. Só hoje, tendo mandado lapidar um dos diamantes e verificado que é dos melhores, resolvi convidá-los para jantar comigo e ouvir este último relatório. Spink, o joalheiro de Regent Street, que além de meu amigo é um homem de bem, avaliou em conjunto o lote e oferece por ele duzentas mil libras. Ora, nós fizemos juntos essa viagem, juntos passamos pelos mais duros trabalhos e pelos mais desesperados perigos. Além da glória, o que se apurou de todas essas aventuras foi essa quantia. Parece-me lógico que a dividamos igualmente. Diga o senhor, professor Challenger... Que vai fazer das cinquenta mil libras que lhe cabem?

— Eu... eu — balbuciou o cientista. — Se o meu amigo persiste nessas generosas intenções, fundarei meu museu paleontológico, que há muito tempo sonho.

— E o senhor, professor Summerlee?

— Eu deixo minhas aulas para me dedicar a uma classificação definitiva dos fósseis calcários.

— Pois eu volto ao platô. Com este dinheiro vou organizar uma expedição com todos os elementos para insta-ar-me ali durante pelo menos um mês. Quanto ao nosso bravo Malone — continuou ele, batendo-me num ombro —, nem é preciso perguntar qual é seu programa. Vai casar.

— Não... Pelo menos, por enquanto não penso nisso — murmurei, procurando disfarçar minha tristeza. — Se o senhor aceitar, gostaria de acompanhá-lo na expedição.

Lorde Roxton nada respondeu, mas procurando minha mão por sobre a mesa, apertou-a vigorosamente.

FIM

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