O Mundo Perdido
Capítulo VIII · Ultrapassando os Limites do Desconhecido
Nossos amigos da Inglaterra podem rejubilar conosco: estamos para alcançar o fim de nossa viagem; pelo menos até o ponto em que já podemos confirmar a veracidade de algumas informações fornecidas antes pelo professor Challenger. Se ainda não subimos ao platô, pelo menos já o vemos diante de nós. O professor Summerlee nada diz para não confessar que seu rival pode estar certo em suas assertivas sobre a terra de mistérios. Cala-se, então, sobre este fato, refugiando-se em objeções de detalhe.
Mas retomemos a narração no ponto em que a deixei em minha última carta. Liquidemos em primeiro lugar as más notícias.
Gomez, um dos mestiços de que já falei, é trabalhador e atento, mas tem o péssimo hábito de ser indiscreto. Ao que parece, na noite passada ele se escondeu perto da tenda onde discutíamos os nossos planos, mas foi observado pelo negro Zambo que, além de ser o mais fiel, detesta mestiços. Ao surpreendê-lo oculto, ouvindo nossa conversa, Zambo agarrou-o pelo pescoço e iniciou-se uma violenta briga. O outro puxou uma faca e, não fosse o vigor excepcional do negro, tê-lo-ia matado. Foi necessária a nossa Intervenção para separá-los e, graças a Deus, o incidente não teve maiores consequências. Obrigamos os dois a se reconciliarem e tudo pareceu ter voltado ao normal.
Por outro lado, as discussões entre os nossos dois cientistas continuam no mesmo pé, criando entre nós uma situação de inquietação constante... Mas já estamos nos acostumando com isso.
O dia seguinte marcou, de fato, a primeira data decisiva em nossa expedição. Toda a nossa bagagem cabia perfeitamente em duas canoas e a viagem podia se fazer bem, contanto que os dois professores fossem separados. Eu ia, numa delas, com Challenger, que parecia enlevado com a perspectiva de chegar ao maravilhoso planalto. Ficar ao lado deste homem é uma experiência marcante, pois jamais se pode sentir tédio, considerando seu temperamento entusiasticamente imprevisível.
Durante dois dias subimos um rio caudaloso, de águas escuras mas razoavelmente translúcidas. Metade dos afluentes do Amazonas tem essas características, enquanto a outra metade apresenta águas mais claras, diferenças que se explicam, naturalmente, pelo tipo de terreno em que es-ses rios correm. Por duas vezes encontramos corredeiras, que nos obrigaram a saltar e carregar as canoas nos braços. De um lado e outro era a floresta incessante com arvores gigantescas e folhagens tão espessas que o sol mal lograva atravessá-las. Nos troncos havia uma prodigiosa exposição de orquídeas, admiráveis pela beleza e proporções.
No terceiro dia de viagem ao longo dessa floresta deslumbrante tivemos os primeiros indícios da presença humana. Galhos partidos aqui e ali, restos de fogueiras... Depois ouvimos um ruído semelhante ao de um tambor, um ruído ritmado e grave, que aumentava ou decrescia caprichosamente da manhã à noite.
Logo que ouvimos esse ruído, os dois índios, que iam remando, detiveram-se imóveis, como se tivessem sido paralisados pelo terror.
— Que é isso? — perguntei.
— Tambores — respondeu displicentemente lorde Roxton. — Tambores de guerra. Já os ouvi muitas vezes.
— Sim — disse Gomez, intervindo na conversa com a sem-cerimônia peculiar à sua raça. — São tambores de guerra e isso não é bom sinal. Estamos atravessando uma zona de índios bravos. Se puderem, nos matam, eles estão nos vigiando.
— Como, se ainda não os vi?
O mestiço olhou-me com certo desprezo.
— Os índios sabem... Eles conhecem caminhos por onde ninguém passa e estão nos vigiando mesmo quando não vemos ninguém. Falam e transmitem notícias a grande distância com o tambor.
Na tarde desse dia — meu calendário indicava quarta-feira, dezoito de agosto — ouvimos seis ou sete tambores batendo em pontos diferentes e de fato notei que seus sons e suas cadências variavam constantemente, como se transmitissem perguntas e respostas numa espécie de telegrafia musical. Era profundamente temerária essa situação de viajar sob a vigilância de centenas de olhos invisíveis e expostos a cada instante a uma flechada mortal. Nada se movia na floresta, que se mantinha muda e serena. Mas por trás dela, à sua sombra, havia um ruído ameaçador.
Os tambores indígenas soaram assim durante toda a noite e, diante dos indígenas e mestiços evidentemente apavorados, pude notar que Challenger e Summerlee possuíam a singular coragem científica, do mesmo tipo daquela que sustentou o ânimo de Darwin, entre os gaúchos argentinos, e o de Wallace, entre os degoladores da Malásia. A natureza misericordiosa deu a esses homens de cérebro superior uma espécie de inconsciência do perigo, que lhes permite afrontar o desconhecido em busca da verdade.
Creio mesmo que eles não se lembravam do perigo porque seu espírito estava inteiramente ocupado com as preocupações do problema de história natural e antropologia, que os índios representavam a seus olhos.
— São índios canibais da tribo dos Miraúbas e dos Arnajuacas — disse Challenger, agitando o polegar na direção de onde vinham os sons.
E Summerlee acrescentava:
— Certamente... Como todas as tribos dessa espécie, creio que utilizam um idioma polissintético e se assemelham ao tipo mongol.
— Quanto ao idioma tem razão — redarguiu Challenger, com indulgência. — Em todo este continente as línguas indígenas são polissintéticas; mas quanto ao tipo mongol...
— Como não? — protestou o outro. — O mais superficial conhecimento de anatomia comparada assegura-nos...
E entraram numa discussão furibunda, e como se estivessem nas margens do Tâmisa, prosseguiam alheios ao aviso sinistro dos tambores, que pareciam anunciar: "Vamos acabar com vocês... vamos acabar com vocês... vamos acabar com vocês."
À noite detivemo-nos no meio do rio, usando pedras para ancorar as canoas, e mantivemos sentinelas alertas até o amanhecer. Nada, porém, aconteceu. Logo que o sol surgiu prosseguimos a viagem e, cerca de três horas da tarde, chegamos a uma corredeira, que tinha mais de uma milha de extensão. Tratava-se da mesma em que Challenger tivera seu desastroso naufrágio. Confesso que a visão da corredeira me foi bastante animadora, pois era mais uma mostra direta das narrativas feitas anteriormente pelo nosso rabugento professor.
Foi preciso desembarcar e carregar canoas e bagagens por terra, através de vegetação tão espessa, que só cedia a golpes de machado. Os nossos auxiliares traziam os carregamentos, enquanto nós, os brancos, íamos de rifle em punho e olhar atento. Antes do anoitecer, ancoramos novamente diante de um afluente secundário; calculo que estávamos a cem milhas do Amazonas.
No dia seguinte, Challenger despertou bastante inquieto e entusiasmado: íamos, afinal, empreender a marcha para o planalto. Ele explorou um pouco os arredores e, de súbito, teve um grito triunfante. Mostrou-nos uma árvore isolada, que se estendia de modo singular sobre o rio, e perguntou:
— Que diz a isso?
— É uma palmeira açaí — observou Summerlee.
— Exatamente. Uma palmeira açaí. Aqui começa meu domínio, foi esta palmeira que tomei como ponto de referência em minha viagem. A passagem secreta fica a meia milha daqui — ali, onde aqueles juncos verdes ocupam o lugar do mato escuro, está a nossa entrada particular para o desconhecido.
Entramos pelo pequeno rio afluente, empurrando os botes com varas compridas, porque era pouco fundo, embora a largura fosse ainda considerável — vinte metros ou mais.
De um lado e outro a paisagem era alucinante de riqueza e variedade. Notei também espantosa multiplicidade de bichos de toda a espécie, que andavam pela água, pelas margens ou pelos galhos, sem manifestar temor algum, como se estivessem acostumados a ver homens. Jacarés, antas, macacos, tapires, tamanduás e até uma onça parda esgueirando-se entre os arbustos, fitavam-nos com espanto ou curiosidade, mas sem medo.
Perguntava-me por que os índios não haviam ocupado essa região maravilhosa. Uma observação de Gomez deu-me a chave desse mistério.
— Os índios nunca vêm para estes lados. Têm medo do Curupira — disse ele.
Ao terceiro dia, o rio já não era fundo suficiente para permitir que continuássemos utilizando as canoas. Não houve remédio senão puxar as canoas para a beira e acampar durante a noite, antes de empreendermos a marcha a pé.
Ao acordar, fiz com lorde Roxton uma exploração de duas milhas pela floresta, ao longo do rio. Confirmamos, então, que havíamos alcançado o limite possível de onde se poderia ir navegando. Portanto, ocultamos as canoas em lugar seguro, distribuímos entre todos nós as bagagens, armas e utensílios. E partimos.
Summerlee estava de mau humor, insuportável, em razão das atitudes que Challenger tomava, ditando ordens para todo mundo e levando demasiadamente a sério o papel de "chefe" da expedição. As discussões estavam se tornando terríveis.
Felizmente, havia ali mais dois homens com bom senso. Lorde Roxton e eu tínhamos um trabalho incessante para impedir que aquelas criaturas chegassem às vias de fato, evitando assim que a petulância e infantilidade de nossos eruditos companheiros nos obrigassem a voltar para Londres de mãos abanando. Por sorte, acabamos descobrindo um terreno neutro, o único em que era possível colocar em acordo os dois sábios. Ambos tinham ódio igual a um terceiro antropologista, o professor Illingworth, de Edimburgo; de modo que era bastante pronunciar esse nome para que os dois, esquecendo as próprias discussões, fizessem uma aliança temporária para espicaçar o rival comum...
A proporção que caminhávamos, quase sempre em fila indiana pela borda da água, o rio ia se tornando mais estreito. Milhões de mosquitos volteavam no ar, em nuvens sonoras; o fétido dos pântanos próximos tornava a atmosfera quase irrespirável.
No segundo dia, após deixarmos as canoas, verificamos que a região havia mudado acentuadamente de aspecto; o terreno começou a se elevar, tornou-se seco e a vegetação perdeu a exuberância tropical. As árvores gigantescas, peculiares à flora do Amazonas, cediam lugar aos coqueiros e palmeiras, com densos arbustos entre as árvores.
Challenger dirigia-se unicamente corn o auxílio da bússola e, como de certo ponto em diante suas indicações não concordassem com as dos índios, nós preferimos, segundo a frase indignada do professor, "colocar o instinto falacioso dos selvagens acima da opinião mais autorizada da ciência européia moderna". E fizemos muito bem, porquanto, guiados pelos índios, encontramos em pouco tempo os primeiros vestígios da viagem anterior de Challenger: quatro pedras enegrecidas pela fumaça — quatro pedras, que ele próprio reconheceu serem as mesmas que juntara para armar uma fogueira em seu último acampamento...
O terreno continuava a se elevar e a vegetação havia mudado mais uma vez. A árvore predominante agora era o pau-marfim, e havia uma abundância de lindas orquídeas, entre as quais me foi permitido conhecer a rara Nuttonia Vexillaria, além das belíssimas catléias, de cor escarlate vibrante. Pequenos rios com fundo de pedregulhos, entre margens repletas de samambaias e avencas, constituíam bons locais para nossos acampamentos, e ficávamos horas admirando cardumes de peixinhos azulados, que algumas vezes nos proporcionaram jantares formidáveis, com um sabor que fazia-nos lembrar da truta inglesa.
No nono dia de marcha, quando já tínhamos caminhado talvez cento e vinte milhas, toda a flora estava reduzida a arbustos magros e, sobretudo, a bambuzais tão densos, que só podíamos vencê-los a golpes vigorosos das foices e facões que os índios haviam trazido. Superar esses obstáculos custou-nos muito, cerca de doze horas, com apenas dois intervalos de uma hora para descanso. Difícil enfrentar tarefa mais fatigante e monótona, porque mesmo nossa possibilidade de visão do que vinha à frente estava reduzida a oito ou nove jardas. Na verdade, a única coisa que eu enxergava pela frente era a jaqueta de lorde Roxton, além das paredes de bambu que margeavam o nosso caminho. Para completar este trabalho sombrio, apenas frestas de luz conseguiam penetrar aquelas paragens, pois os bambuzais, com cerca de dez ou até quinze metros de altura, formavam uma capoeira que quase impossibilitava o acesso da luminosidade. Ao longo do caminho, por diversas vezes, ouvimos o barulho da passagem de animais que presumimos serem grandes e robustos, mas não nos foi possível identificá-los. Lorde Roxton afirmou que provavelmente se tratava de algum tipo de boi selvagem. Quando anoiteceu, conseguimos finalmente vencer a região do bambuzal e acampamos, exauridos, no primeiro lugar que encontramos.
Levantamos cedo no dia seguinte, já constatando que novamente as características da região haviam mudado.
Atrás de nós estava o paredão de bambuzais e, à nossa frente, uma planície, um pouco aclivada, com uma vegetação em que pequenas árvores, entrelaçadas de samambaias, terminava, ao longe, num conjunto de penhascos que compunham a forma de um corpo de baleia. Seguindo, ao meio-dia alcançamos os penhascos e percebemos que, para além deles, havia um vale raso e, depois, nova subida conduzia a uma série de outras elevações. Quando já atravessávamos a primeira delas, ocorreu um fato digno de importância.
Em companhia de dois índios, o professor Challenger seguia na frente do grupo: subitamente, estancou, apontando entusiasticamente para a direita. Olhamos para aquela direção, a aproximadamente uma milha de distância, e vimos algo que parecia ser uma ave enorme e acinzentada erguer-se do solo e voar suavemente, como se estivesse planando, desaparecendo depois entre as árvores.
—Viram, viram! — excitado, Challenger gritou, olhando principalmente para Summerlee.
—Viu o quê? — este respondeu.
— Um pterodáctilo!
Summerlee soltou uma gargalhada:
— Não seja ridículo, Challenger: só se fosse um "pterogonha" — brincou. — Não passava de uma cegonha, e eu sei reconhecer uma quando a vejo.
Challenger ficou tão encolerizado que nem ao menos conseguiu responder à provocação. Lorde Roxton, entretanto, aproximou-se, com o cenho cerrado, de onde eu estava e trazendo nas mãos seus binóculos, disse:
— Focalizei a criatura antes que ela sumisse entre as árvores e uma coisa posso lhe afirmar: nunca vi nenhuma ave como essa em toda a minha vida!
A questão, portanto, ficou encoberta em brumas, mas eu sentia a nítida sensação que estávamos, verdadeiramente, ultrapassando os limites do desconhecido. De todo modo, relatei o evento da forma como ocorreu, para que o leitor tire suas próprias conclusões. A você, leitor que tem me acompanhado até agora, navegando os rios amazônicos.
Ao final de minha última carta, informava que estávamos a umas sete milhas da linha de penhascos, a qual, decerto, circunscreve o platô referido pelo professor Challenger. Quando nos aproximamos, vimos que essas ribanceiras eram muito mais altas do que pareciam a distância. Em certos pontos, elas pareciam ainda mais altas do que Challenger havia descrito, pois elevavam-se no mínimo a trezentos e cinquenta metros, apresentando sempre a sucessão de estrias que caracterizam tão curiosamente as formações basálticas. Algo parecido pode ser encontrado em Salisbury Crags, em Edimburgo. Ao alto apareciam indícios de vegetação luxuriante, com arbustos perto das beiras e, para além, muitas árvores portentosas. Mas não se via o menor indício de vida animal.
Acampamos, nessa noite, junto ao paredão, que, vertical na base, alargava-se à meia altura, desafiando assim qualquer tentativa de escalada. Em certo ponto, porém, à pequena distância da muralha, havia uma coluna rochosa, uma verdadeira agulha isolada e quase da mesma altura do planalto, com uma árvore na extremidade.
— Foi ali — disse o professor Challenger, apontando para essa árvore — que o pterodáctilo estava pousado. Subi metade da ribanceira antes de matá-lo a tiros. Creio que homens robustos como nós são capazes de subir aquela pedra. Dali, ao menos, podemos lançar um olhar pelo platô.
No momento em que Challenger falava no pterodáctilo, eu fitei o professor Summerlee e tive a impressão de que seu ceticismo já não era tão intransigente. Ao contrário, ele parecia tomar uma atitude de interesse e surpresa. Challenger também notou essa mudança de comportamento em seu contumaz oponente, aproveitando para provocá-lo mais uma vez:
— Claro que o professor Summerlee compreenderá que quando falo de pterodáctilo, na verdade estou me referindo a cegonha. Uma cegonha especial, porém: ao invés de penas, tem pele de couro; suas asas têm membranas, e seu bico é uma bocarra cheia de dentes ferozes. — Depois sorriu para o desconsolado Summerlee.
Dormimos e, pela manhã, depois de havermos tomado uma refeição frugal com café e mandioca cozida a fim de poupar nossas provisões, reunimo-nos em conselho: Challenger cada vez mais sério no papel de chefe, sentado em uma rocha redonda, com o inverossímil chapéu de palha atirado para trás; Summerlee, digno e reservado, de cachimbo na boca; lorde Roxton mais esbelto do que nunca, com os olhos luzindo na face tostada pelo sol. Por trás de nós o negro, os dois mestiços e os índios formavam um círculo respeitoso.
— Não preciso dizer — começou Challenger — que em minha viagem anterior tentei por todos os meios escalar essa muralha e, se um homem como eu não o conseguiu, não acredito que alguém o consiga, pois sou excelente alpinista. É certo que, na primeira vez, eu nada trouxera que me ajudasse a subir e não podia demorar porque a estação das chuvas estava próxima. À vista disso, peço que me indiquem o que lhes parece mais conveniente fazer.
— Só vejo uma providência racional — disse Summerlee. — Da outra vez o senhor explorou a muralha para oeste. Vamos para o lado leste, para ver se encontramos um caminho.
— De inteiro acordo — disse lorde Roxton. — Em último caso daremos volta ao platô, que não pode ser muito extenso, de modo que poderemos circundá-lo até encontrarmos um ponto mais indicado para a escalada.
— Por mim — disse Challenger —, estou convencido de que é quase impossível que exista caminho, pois se o houvesse os animais antediluvianos teriam descido. É verdade que talvez haja algum local que um ser humano pudesse galgar, mas que fosse impossível para aqueles animais enormes e desajeitados. Pensando melhor, é certo que há um caminho onde a subida é possível.
— Como pode o senhor afirmar? — interrompeu Summerlee, já eriçado.
— Pelo álbum de Mapple White. Somente no platô ele poderia ter encontrado o animal que desenhou...
— Isso é concluir sem prova — protestou Summerlee. — Eu admito a existência do platô porque o tenho diante de meus olhos, mas nada me demonstra que haja nele vida de qualquer espécie...
— Admita o senhor ou não, a verdade é que...
Mas nesse momento Challenger, tendo erguido os olhos, fez um gesto de triunfo e, precipitando-se para Summerlee, segurou-o pelo pescoço e, obrigando-o a erguer a cabeça, exclamou uma voz rouca pela emoção:
— E agora? Ainda sustenta que não há vida animal no platô?
Erguemos todos o olhar e vimos entre a vegetação do bordo da muralha uma enorme serpente. Durante alguns minutos o réptil agitou mansamente a cabeça, depois desapareceu.
Summerlee, desarmado pela curiosidade, não fizera até esse momento resistência alguma; mas, desde que a cobra se recolheu à sombra da floresta, ele repeliu seu irascível colega com um gesto indignado, observando:
— Parece-me que não lhe será difícil fazer suas afirmações sem me segurar as goelas. Nem acredito que o aparecimento de uma píton vulgar possa justificar semelhantes liberdades...
— Mas o caso é que há vida no platô. Isso o senhor não pode mais negar.
Acalmamos os nossos colegas e iniciamos a viagem de exploração para o oriente.
Ao fim de uma hora de marcha tivemos uma feliz surpresa: encontramos alguns indícios indiscutíveis de um antigo acampamento; latas de conservas com marca de uma fábrica de Chicago, uma garrafa de brandy e um número do Chicago Democrat, cuja data se tornara ilegível.
— Eu não vim para estes lados. Portanto este acampamento foi de Mapple White.
Lorde Roxton considerava com atenção uma árvore, que estendia sua sombra sobre esse ponto.
— Olhem — disse ele pouco depois —, aqui está uma coisa que me parece um sinal indicativo.
De fato havia ali, pregado ao tronco, um pedaço de tábua, que parecia indicar a direção oeste.
— Sim, sim — murmurou Challenger, cheio de entusiasmo. — O que mais poderia ser? Nosso pioneiro receou não encontrar o caminho na volta e marcou o itinerário. Vamos seguindo... Haveremos de encontrar outros indícios.
Com efeito não tardamos a encontrar um e tão terrível que ainda estremeço ao recordá-lo. Junto à muralha havia uma moita de bambus enormes, alguns com seis a oito metros de altura, já secos e com pontas como lanças formidáveis. Passando, meu olhar foi atraído para algo branco entre esses bambus. Aproximei-me e distingui um crânio humano. Curvei-me para observar melhor. Estava ali um esqueleto inteiro no chão, embora a caveira tivesse se destacado, indo parar alguns passos à frente.
Abrimos espaço a machado para examinar de perto aqueles tristes restos. O vestuário do morto estava reduzido a alguns farrapos: só as botinas se conservavam perfeitas. Recolhemos entre os ossos um relógio com a marca "Hudson, New York", uma corrente da qual pendia uma caneta tinteiro e uma cigarreira de prata com as iniciais "J. C. de A.E.S.". O estado em que os objetos se encontravam pareciam indicar que a tragédia não tinha acontecido há muito tempo.
— Quem teria sido esse pobre coitado? — perguntou lorde Roxton. — Seus ossos estão todos quebrados...
— Oh! — exclamou nesse momento Summerlee. — Reparem!... Um dos bambus passa por entre suas costelas esmigalhadas. O bambu é uma planta que cresce com grande rapidez, mas o esqueleto parece muito recente para que este bambu tenha nascido, alcançado a altura de oito metros e secado depois da morte deste infeliz. Portanto...
Não ousou concluir e quedamo-nos os quatro estupefatos e apavorados diante daquela cena chocante. Challenger foi o primeiro a romper o silêncio.
— Quanto à identidade do morto — disse ele —, posso adiantar que, quando vinha agora procurá-los em Manaus, fiz no Pará uma investigação minuciosa sobre Mapple White. Felizmente, eu tinha um ponto de partida: um desenho de seu álbum, que o representa almoçando com um sacerdote protestante. Encontrei esse eclesiástico e ele informou-me que Mapple viajava em companhia de outro norte-americano, um tal James Calver, desenhista.
— Sim, sim — murmurou lorde Roxton, pensativo —, deve ser ele... Porém o mais impressionante é que este corpo... com o bambu assim atravessado pelas costelas... Só há uma explicação... Este homem morreu empalado, caído do alto do platô.
Um silêncio angustiado seguiu-se a estas palavras. Exatamente por cima do lugar onde estava o esqueleto, a linha superior da muralha formava uma saliência, uma espécie de plataforma, que avançava pelo espaço. E veio-me um questionamento terrível: teria o morto caído acidentalmente ou havia sido precipitado por alguém? Aquela terra misteriosa começava a aparecer-nos com trágicos presságios.
Nenhum de nós se animava a enunciar os sombrios pensamentos que, decerto, atormentavam a todos. Continuamos a caminhar ao longo da muralha, que se estendia uniforme e ininterrupta como os icebergs das regiões antárticas. Ao fim de cinco milhas ainda não tínhamos descoberto coisa que se parecesse sequer com uma vereda. Mas, de súbito, em uma cavidade, que a chuva não podia alcançar, vimos uma flecha desenhada a giz, indicando o oeste.
— É uma marca de Mapple White — bradou Challenger. — Eu encontrei em sua mochila uma caixa de giz de várias cores. Recordo-me que o giz branco estava deveras gasto, quase um pequeno toco.
— Bem — declarou Summerlee —, isso é uma prova aceitável. Vamos adiante.
Encontramos outra flecha, a três milhas de distância, diante de uma larga fresta, onde uma terceira flecha, desenhada com a ponta para cima, parecia convidar a subir.
Suspiramos aliviados, pois aquelas indicações nos pareceram alvissareiras e, como não comíamos desde o amanhecer, decidimos fazer uma refeição antes de tentar mais alguma coisa. Porém nossa tensão de nervos era tal que, apesar da fome e da fadiga, enquanto os mestiços preparavam o café, não resistimos à tentação de iniciar a escalada.
A fenda tinha cerca de doze metros de largura na face central do rochedo, mas estreitava-se à medida que seguia para o topo, de modo que não era possível, por ali, alcançarmos o platô. Contudo, em pouco tempo compreendemos a indicação de Mapple White. Foi o olhar experimentado de lorde Roxton que descobriu o que procurávamos. A certa altura havia um círculo de sombra mais negra... Decerto, a entrada de uma caverna, que naturalmente comunicava-se com a parte de cima. E o acesso até ela era relativamente fácil. Fora aquele o caminho seguido por Mapple White e seu companheiro.
Em nossa impaciência resolvemos reconhecer imediatamente essa pista. Lorde Roxton fez funcionar sua lâmpada elétrica portátil e tomou a frente, lançando o feixe de luz que seguíamos em fila indiana.
A caverna era obra das águas, pois as paredes eram lisas e o chão estava repleto de pedras arredondadas. Ao longo de uns cinquenta metros tinha a forma de um corredor quase plano; mas depois começava a subir rapidamente, a tal ponto que tivemos de subir engatinhando, amparan-do-nos uns aos outros para não escorregarmos em função das pedras soltas que permeavam o caminho.
De súbito, porém, lorde Roxton deteve-se, exclamando:
— Oh! O caminho está bloqueado.
— Como? Por quê?
— O teto desmoronou.
De fato, enormes blocos de pedra, decerto caídos do alto, obstruíam completamente a passagem. Tentamos afastá-los; mas logo vimos que isso seria muito perigoso, porquanto os blocos ameaçavam rolar pelo estreito túnel, esmagando-nos.
Tivemos de nos render à irredutível constatação: já não era possível utilizarmos o caminho seguido por Mapple White. Desanimados, voltamos novamente ao solo e, nesse momento, ocorreu um incidente ao qual as verificações anteriores provaram ser de significação terrível.
Estávamos reunidos em grupo, à pequena distância da fresta, quando um bloco enorme de pedra caiu junto de nós com uma força espantosa. Mais um metro e teríamos sido esmagados horrivelmente. Recuamos apavorados... erguemos o olhar. Sem dúvida alguma, aquele bloco só podia ter vindo do alto da muralha, onde, entretanto, não havia pedras vacilantes ou simplesmente soltas. Portanto aquele projétil grosseiro, mas brutalmente mortífero, devia ter sido atirado propositalmente contra nós... Tudo apontava para uma presença hostil — humana? — no alto do platô.
Batemos em retirada, profundamente emocionados pelo incidente e ainda pelo que ele prometia para o futuro. Nossa situação, que antes já era bastante difícil, poderia tornar-se trágica se a cega obstrução da Natureza fosse aumentada pela oposição voluntária e deliberada do Homem. Entretanto, diante de tão fascinantes segredos, quem seria capaz de voltar a Londres sem os haver desvendado?
Voltamos para o nosso acampamento discutindo o problema e consideramos que o melhor procedimento seria continuar a contornar o platô, na esperança de encontrarmos outro modo de alcançarmos o topo. Retomamos, desse modo, a investigação. A linha de penhascos, conforme andávamos, diminuía consideravelmente de altura, e já começava a mudar de oeste para norte. Caso considerássemos a formação rochosa como um arco circular, como de fato julgávamos que era, a circunferência inteira não podia ser grande, e poderíamos completá-la a contento. O máximo que poderia acontecer era retornarmos ao ponto de partida em alguns dias.
Caminhamos nesse dia mais vinte e duas milhas, sem descobrir novas frestas ou ladeiras. Felizmente, como o solo era ali já cem metros acima do nível do mar, estávamos livres dos insuportáveis mosquitos e a vegetação era de característica quase européia.
Na noite que se seguiu a essa marcha tivemos uma nova aventura e de tal gravidade que dissipou por completo quaisquer dúvidas do Sr. Summerlee sobre as maravilhas de que estávamos tão próximos.
Foi rápido como um relâmpago. Lorde Roxton tinha abatido um desses pequenos animais que os índios chamam ajutu e que se assemelham muito a nosso porco doméstico; os mestiços tinham armado uma fogueira para assá-lo. Como a temperatura baixara muito com o crepúsculo, estávamos todos sentados em torno do braseiro, conversando, quando algo, subitamente, surgiu do céu, como se fosse um aeroplano.
Num instante, duas asas de couro abriram-se sobre nós como um toldo enorme, e vimos um pescoço longo como uma serpente, dois olhos vermelhos e ferozes, um enorme bico eriçado de dentes agudos... Foi um instante, uma visão rápida... E o monstro desapareceu, levando nosso jantar. Erguendo a cabeça, eu já mal distinguia uma sombra enorme, que se afastava no espaço, movendo as asas desmedidas, e desaparecia no platô.
Ficamos mudos de espanto por alguns instantes e foi afinal o professor Summerlee quem primeiro rompeu o silêncio, dizendo com voz grave e ainda trêmula de emoção:
— Professor Challenger, devo-lhe minhas desculpas. Confesso que fui injusto a seu respeito e peço-lhe que me perdoe pelo que disse no passado.
Foram belas palavras, ditas com dignidade e, pela primeira vez, aqueles dois homens apertaram-se as mãos. Pelo menos, a perda de nosso jantar não foi em vão, considerando a reconciliação daqueles dois homens magníficos.
Mas, se havia animais pré-históricos no platô, não deviam ser em grande quantidade porque três dias se passaram sem que fosse nos apresentado mais nenhum só sinal das criaturas. Durante esse tempo, exploramos a muralha para o norte e depois para o leste, ao longo de uma região estéril onde os desertos pedregosos alternavam com pântanos onde só viviam aves selvagens. Por todo esse lado, a muralha continuava inacessível. Além disso, aquela parte do terreno era infestada por jararacas, a mais venenosa e agressiva serpente da América do Sul, obrigando-nos a um cuidado redobrado em nossos deslocamentos. Ali devia ser uma espécie de ninho delas, pois os peçonhentos répteis apareciam por todos os cantos, rastejando em direção a nós. Como eram tantas e tantas, nossos tiros não as impediam de avançar, de modo que tivemos de fugir intempestivamente para não sermos pegos. Nunca esquecerei como, olhando para trás, via as serpentes pululando entre os bambus ressequidos, ansiosas por nos atacarem. Nomeamos o lugar como Pântano das Jararacas e o incluímos no mapa que estávamos desenhando.
A sequência de penhascos, até então de tom avermelhado, havia adquirido uma coloração amarronzada, e a vegetação do cume era mais esparsa. Constatamos, também, que a altura se reduzira para cerca de cem ou cento e vinte metros, mas não conseguíamos vislumbrar um ponto acessível para a escalada. Este local parecia ainda mais inacessível do que os anteriores.
— Mas esperem! — exclamei eu de repente, depois de observar um pouco. — Se não há nenhum declive deste planalto para o solo, por onde se escoam as águas da chuva, que nele cai?
— Este jovem tem às vezes uns lampejos de bom senso — bradou Challenger, batendo-me no ombro com certo carinho. — Como não encontramos sua saída por fora, claro que ela existe por dentro, em algum canal subterrâneo.
— Alguma antiga cratera — sugeriu Summerlee —, mesmo porque este planalto é evidentemente de formação vulcânica.
No sexto dia, tendo contornado todo o platô, chegamos a nosso ponto de partida junto à agulha rochosa. Não tínhamos achado caminho algum, e o local que havia servido a Mapple White, aquele indicado pela seta, estava obstruído. Que poderíamos fazer?
Nossas reservas de provisões vinham resistindo bem, principalmente porque não nos faltava caça; porém, mais cedo ou mais tarde, necessitaríamos de mais mantimentos. Além disso, dentro de dois meses começaria a estação das chuvas, que nos expulsaria dali, irremediavelmente.
Aquelas rochas eram incrivelmente duras, tornando impossível qualquer tentativa de rompê-las, até mesmo porque não tínhamos ferramentas para um trabalho de tal proporção. Por tudo isso, aquela primeira noite no acampamento foi sombria: estávamos desanimados, e praticamente não trocamos palavras. Para iludir o mau humor, todos tentaram dormir cedo. Apenas Challenger se manteve desperto. Recordo-me que, antes de ir dormir, enxerguei-o agachado como um sapo imenso diante da fogueira, a cabeça desproporcional entre as mãos peludas, como se estivesse refletindo profundamente. Nem respondeu ao boa-noite que lhe dirigi.
Na manhã seguinte, ao despertar, encontrei um Challenger completamente mudado, irradiando contentamento enquanto passeava de um lado para outro, com ar mais triunfante do que nunca. Sua barba eriçava-se de orgulho e seu peito inflado parecia desafiar nossa admiração. Quando o interrogamos, respondeu simplesmente:
— Eureca! Enquanto os senhores dormiam o sono da inocência, eu resolvia o maior problema do nosso século...
— Achou um caminho para o platô?
— Não achei. Inventei um. E tão fácil! É só subir aquela agulha rochosa.
— Ora! — exclamou Summerlee. — Mas entre a agulha e o platô há um espaço enorme.
— Bem o sei — concedeu Challenger, com ar compreensivo. — Mas venham comigo. Eu ainda não esgotei minhas faculdades inventivas.
Enfim!... Como a subida para a agulha era relativamente fácil, não nos recusamos a segui-lo. Munimo-nos com rolos de corda, paus ferrados, ganchos de ferro e Challenger colocou na cintura uma machadinha.
Eu era o único noviço como alpinista — tanto lorde John quanto Summerlee eram experientes —, mas a minha agilidade compensava a falta de prática. Subimos... Não direi que foi sem esforço e sem risco, pois em muitos momentos meus cabelos chegaram a se arrepiar de temor. A primeira metade da escalada foi razoavelmente fácil, mas depois tornou-se mais íngreme e, sobretudo na parte final, poderia chamar de penosa, pois tínhamos que nos apoiar com os dedos das mãos e as pontas dos pés em estreitíssimas fendas e estrias rochosas. Eu não teria conseguido (e nem mesmo Summerlee) completar a escalada, caso Challenger não tivesse conseguido chegar rapidamente ao topo e ali amarrar uma corda numa árvore. Com o auxílio da corda, que ele nos lançara de cima, pudemos concluir a subida e, finalmente, chegamos ao alto da agulha rochosa. Tratava-se de uma pequena plataforma quase circular, com oito metros de diâmetro.
O espetáculo dali era um deslumbramento: de um lado toda a planície brasileira parecia estender-se a nossos pés, coberta de vegetação espessa como eu jamais vira; de outro, no mesmo nível em que estávamos, o platô cheio de vegetação e de mistério. Mas o professor Summerlee interrompeu meu êxtase com uma exclamação de assombro:
— Ora essa!... Já observaram esta árvore?
— Um cedro — disse Challenger.
— Que surpresa encontrar um compatriota nesta latitude!
— E que diz o senhor? Um compatriota! — interveio Challenger. — No momento, esta árvore é para mim mais do que isso; é uma aliada. Ela é que vai abrir-nos o caminho em direção ao platô.
— Excelente! — exclamou lorde Roxton, compreendendo sua idéia. — Vamos improvisar uma ponte.
— Pois claro! — respondeu Challenger, com a face toda iluminada por um sorriso. — Derrubamos esta árvore, cortando o tronco somente do lado de cá e forçosamente ela cairá para a esquerda, ligando este ponto ao planalto. É tão simples!
E o singular homenzinho bamboleava-se de orgulho, com os polegares nas cavas do colete e num tal ardor que, sem o pulso forte de lorde Roxton, que o deteve a tempo, teria rolado da agulha até o chão.
De fato, a idéia era inteligente e trazia-nos a solução do problema. Por isso apressamo-nos para colocá-la em prática.
Challenger tomou a direção da manobra, ordenan-do-me:
— Como este jovem tem bons músculos, vai cortar a árvore. O tronco tem seguramente vinte metros de altura, há de alcançar o planalto. Apenas, peço ao jovem amigo que a corte abstendo-se de pensar; faça somente o que eu lhe disser.
Empunhei o machado e meti mãos à obra. Ao fim de um quarto de hora, lorde Roxton rendeu-me nesse penoso serviço. Trabalhamos assim, alternadamente, durante uma hora. Por fim, a árvore vacilou, inclinou-se... O tronco partiu-se com um estalido formidável e seus galhos foram esmagar-se sobre a borda do planalto.
Tínhamos lançado uma ponte para o desconhecido. Sem uma palavra, todos apertamos a mão de Challenger, que recebeu essa homenagem com muita satisfação, fazendo curiosas mesuras com o chapéu de palha.
— Reclamo a honra de ser o primeiro a pisar o planalto maravilhoso — declarou ele, de maneira quase solene, como se posando para uma pintura histórica.
E já se aproximava do tronco quando lorde Roxton deteve-o:
— Perdão... Não posso permitir que...
— Quem é o senhor que se atreve a não me permitir? — perguntou Challenger, já todo eriçado.
— Ouça — disse lorde Roxton, muito calmo. — Todos aqui têm profissão nítida. O senhor e seu colega são professores. Este jovem é jornalista. Eu tenho formação militar. Ao que parece, há nesse planalto gente ou entes hostis, talvez canibais que contam conosco para seu almoço. Portanto, não posso consentir que entre por aí às cegas. Espero que nenhum perigo nos alcance ou surpreenda; espero-o e desejo-o; mas a prudência nos aconselha a agir como se o houvesse. Eu e Malone vamos descer para buscar nossos quatro rifles e traremos também Gomez. Então, um de nós poderá ser o primeiro a atravessar a ponte, sob a proteção dos outros.
Challenger sentou-se no chão, rosnando de impaciência. Descemos por uma corda, que só chegava a meia altura da agulha, mas cujo auxílio foi muito útil para o regresso. Em uma hora ali estávamos de novo devidamente armados, trazendo também uma caixa de provisões, que lorde Roxton, sempre prático, se lembrara de preparar.
— Agora — disse ele a Challenger —, se faz questão de ser o primeiro...
— Agradeço-lhe imensamente a gentileza — disse Challenger furioso, demonstrando sua singular intolerância. — Já que o senhor teve a bondade de permitir, assumo a primazia que fiz por merecer.
E, montando no tronco, com as pernas pendentes e a machadinha enfiada no cinto, agilmente iniciou a passagem. Depois, chegando ao platô, ergueu e agitou os braços, gritando:
— Enfim! Enfim!
Fitei-o inquieto, receando que nesse momento acontecesse qualquer outra coisa espantosa; mas tudo se manteve tranquilo. Apenas um pássaro de forma estranha se ergueu a pouca distância e desapareceu entre as árvores.
Summerlee passou em segundo lugar, levando dois rifles — o seu e o de Challenger —, demonstrando uma energia inusitada para alguém com uma aparência tão frágil. Fui o terceiro, fazendo esforços para não ver o abismo, que se abria sob mim. Lorde Roxton passou em último lugar, de pé, com uma tranquilidade impressionante. Que criatura de admirável coragem!
Era um instante supremo. Estávamos afinal no território inverossímil de que toda a ciência européia negara a existência. Demos as costas e seguimos, pois, a despeito da sensação maravilhosa de vitória que sentíamos, estávamos ansiosos para prosseguir na aventura.
Mas foi então que surgiu o incidente trágico, que devia separar-nos, talvez para sempre, do mundo civilizado. Tínhamos caminhado cerca de cinquenta metros pela borda do platô, quando ouvimos um grande estrondo à nossa retaguarda. O ímpeto de voltar foi imediato e, então, vimos uma coisa horrível. A ponte desaparecera.
Sim; o tronco lançado com tanto esforço entre a agulha rochosa e a borda do planalto caíra. Como? Talvez tivesse cedido sob o próprio peso. Por um instante, esta nos pareceu a explicação mais plausível. Contudo, logo após vimos surgir, do lado oposto da rocha, o rosto moreno de Gomez, mas com uma expressão diferente daquela hesitante e boçal que exibia anteriormente. Seu rosto estava agora contorcido de ódio.
— Lorde Roxton! Lorde Roxton! — bradou Gomez, gesticulando como um doido, os olhos faiscantes. Ele estava acompanhado de outro mestiço.
— Aqui estou — respondeu nosso companheiro.
— Sim, aí está você seu porco inglês? Esperei muito, mas a minha vingança chegou! Se vocês acharam difícil subir até aí, tentem descer agora... — e soltou uma gargalhada tresloucada, que ecoava através do abismo.
Estávamos perplexos demais para dizer algo, o máximo que conseguíamos era permanecer estáticos, impotentes, os olhos fixos de surpresa e assombro. Víamos também, jogado num canto, um grosso galho quebrado, que Gomez havia usado como alavanca para deslocar o tronco. O outro prosseguiu sua fala alucinada:
— Quase tínhamos conseguido matá-los com a pedra, na caverna, mas assim vai ser bem melhor... Agora, vocês vão morrer bem devagar, seus porcos ingleses... Lembra-se de Lopez, o peão peruano que você matou há cinco anos no Acre?... Era meu irmão. Sim, inglês maldito... Eu o reconheci no Pará e segui-o para me vingar... Não se lembra? Você o matou, seu lorde nojento, mas eu estou vivo e agora você ficará aí com seus companheiros... Nunca mais, estão ouvindo?... Nunca mais sairão daí.
E, então, junto com o outro mestiço, precipitou-se pela corda, que tivera o cuidado de atirar para o outro lado da agulha, a fim de ficar ao abrigo de nossa vista. E tudo ficou silencioso.
Mas lorde Roxton mostrou por que era conhecido na região como o "Flagelo do Senhor": correu pela borda do planalto para ficar em boa visada quando o miserável pousasse no solo. Ao fim de alguns minutos o homem saiu correndo pela planície. Lorde Roxton fez pontaria e o mestiço caiu como uma massa compacta, depois de emitir um horrível grito de dor. Voltando, lorde Roxton nos disse, transtornado:
— Fui um idiota. Deveria ter-me dado conta de que essa gente não esquece o passado, principalmente em se tratando de vinganças de membros da família. Deveria ter ficado mais atento durante a contratação dos homens. Agora, enfiei todos vocês nessa encrenca.
— E o outro mestiço? — perguntei. — Seria necessário que os dois agissem juntos para remover o tronco.
— Eu poderia tê-lo matado também! — murmurou o lorde. — Mas a minha raiva estava totalmente voltada para Gomez.
Só agora nós compreendíamos a atitude equívoca que o mestiço sempre tivera; seu constante desejo de conhecer nossos planos de viagem, como naquela noite em que Zambo o surpreendera espionando e tentando ouvir o que conversávamos na tenda.
Estávamos discutindo o caso animadamente quando um novo incidente na planície atraiu nossa atenção.
O outro mestiço, chegando ao acampamento, começava a reunir sua bagagem para fugir quando Zambo se atirou contra ele. Os dois corpos rolaram confusamente pelo chão; mas, em pouco, a força prodigiosa do negro decidiu a vitória. Ele ergueu-se e correu para nós, agitando alegremente os braços. O outro ficou estendido, imóvel para sempre.
Os dois haviam sido mortos, porém o mal já estava feito. Estávamos nós presos naquele pináculo de rocha, isolados, sem nada podermos fazer. Aquele incidente havia alterado tudo, pois não conseguíamos vislumbrar nenhuma possibilidade para superarmos aquele impasse.
Entretanto, o dedicado negro subiu pela agulha com uma agilidade incrível e, logo, seu corpo hercúleo aparecia entre as rochas.
— E agora, que querem os senhores que eu faça? — perguntou ele com a maior naturalidade, como se tratasse de serviço normal.
Como responder a semelhante pergunta? O bom negro, que nos mostrava todos os dentes do outro lado do abismo, representava nosso último ponto de contato com o mundo exterior.
— Eu estou aqui — continuava o negro, rindo amavelmente. — Os índios têm medo de Curupira, querem ir-se embora; mas eu fico.
— Não, não — protestei. — Peça-lhes que esperem até amanhã. Eu quero que eles levem uma carta para Manaus.
Quanto às providências de momento, lorde Roxton ordenou-lhe a única coisa que era possível fazer. Zambo amarrou uma extremidade da corda ao toco do tronco e atirou-nos a outra ponta. Infelizmente essa corda não era bastante resistente para sustentar um homem; mas permitiu o transporte do caixote de provisões, que nos asseguraria no mínimo uma semana de alimentação. Nosso fiel ajudante fez uma série de viagens, subindo e descendo a agulha, para nos fornecer pelo mesmo caminho diversas bagagens úteis, inclusive munições.
Já vinha caindo a noite quando ele retornou para o acampamento — com a promessa de obrigar os índios a permanecerem até o dia seguinte —, e nós terminamos esses laboriosos transportes. Acampamos e ceiamos na borda do planalto e é aqui, à luz de uma vela, que escrevo estas linhas. Por precaução, abstivemo-nos de acender outras luzes e não sei quando poderei enviar outra correspondência.
Amanhã — melhor dizendo, hoje, pois está quase amanhecendo — nós arriscaremos nossa primeira entrada nessa região estranha. Daqui, de onde escrevo essas linhas, posso ver que os índios ainda estão no acampamento, e tenho certeza de que Zambo virá buscar a carta. Espero, somente, que ela possa chegar ao destino.
P. S. — Quanto mais reflito mais me parece que nossa situação é sem remédio. A corda é muito curta para nos permitir descer por ela. Todos juntos não teríamos forças para arrastar um novo tronco de árvore até aqui. Ainda que o fizéssemos, não teríamos aparelhos para estendê-lo até a agulha. Nossa situação é desesperada... Sim, desesperada.
CAPÍTULO X
DE SURPRESA EM SURPRESA
Todo o meu material de jornalista está restrito a dois lápis e cinco cadernos de bolso; mas enquanto me restarem forças, hei de ir relatando, dia a dia, o que nos acontecer. Ainda que não se opere um milagre que nos restitua à vida civilizada, posso atirar as cartas a Zambo, que continua a rondar junto da muralha como um cão fiel.
Um período novo se abriu para nós no dia seguinte àquele em que a traição de Gomez nos deixou prisioneiros do platô misterioso. O incidente, que inaugurou esse período, deu-nos logo uma idéia pouco favorável da região em que nos achávamos. Pela manhã, e despertando de um breve sono, notei que minha meia, caída sobre o sapato, deixava ver em minha perna descoberta uma coisa que parecia um bago de uva, avermelhado e espesso. Curvei-me, segurei entre dois dedos essa coisa singular e logo ela rebentou, lançando jatos de sangue para todos os lados.
Ao grito que soltei, os dois professores acudiram.
— Muito interessante — disse Summerlee, curvando-se para minha perna. — É um inseto da família dos carrapatos e, ao que me consta, ainda não classificado.
— Primeira recompensa de nossos esforços — mugiu Challenger, com ar doutoral. — Parece-me que é de justiça chamá-lo Ixodes Malone. O pequeno inconveniente de uma picada fica assim contrabalançado pela honra de ter seu nome inscrito nos anais da zoologia. Pena é que você tivesse destruído um tão precioso exemplar que...
— Precioso exemplar, uma porcaria destas! — exclamei com mau humor, coçando a perna, que começava a avermelhar-se.
Challenger franziu os espessos sobrolhos e, pousando a mão sobre meu ombro, observou:
— Jovem! Você precisa se acostumar a ver as coisas com distanciamento, assumindo um ponto de vista científico. Esse inseto, com o ferrão em forma de lanceta e o estômago extensível, é uma obra-prima da natureza... Oxalá possamos encontrar outro...
— Isso não tardará — observou Summerlee, com uma risadinha sarcástica. — Não tardará, porque agora mesmo vi um outro meter-se por seu colarinho...
Challenger deu um pulo, mugindo como um touro, arrancando o casaco e rasgando a camisa para se despir mais depressa.
Nós ríamos tanto que não tínhamos força para auxiliá-lo. Por fim, resolvemos extrair do pêlo espesso, que formava um juncal no peito do bravo professor, um Ixodes Malone, que ainda não começara a picá-lo. Mas logo depois verificamos que em torno, pelo chão e pelas ervas, estava cheio de tais bichos e só havia um recurso para escapar-lhes: levantar o acampamento.
Antes, porém, tínhamos que dar instruções ao bom Zambo, que do alto da agulha rochosa continuava a atirar-nos caixotes de chocolate, de conservas e de biscoitos. Ordenamos-lhe que guardasse para seu uso uma parte de nossas provisões, distribuísse alguma coisa aos índios da escolta e os despedisse.
Minutos depois, vimos a pequena caravana de índios partir e Zambo ficou instalado em nossa tenda, ao pé da agulha rochosa. Quanto a nós, procuramos refúgio em uma clareira bem fechada, com o solo coberto de pedras e tendo ao lado uma nascente. Colocamos ali nossas bagagens e foi então que, pela primeira vez, ouvimos no platô a voz de um ente vivo; uma espécie de uivo singular.
Nossas riquezas eram ali as seguintes: quatro carabinas, com mil e trezentos cartuchos, e mais uma pequena espingarda de caça, com cento e cinquenta cartuchos de pequeno calibre; provisões para quatro ou cinco semanas, fumo, aparelhos científicos e algumas ferramentas. Começamos por organizar uma espécie de cerca de galhos de árvores em torno da clareira e batizamos esse modesto reduto com o nome pomposo de Forte Challenger.
Era meio-dia quando terminamos esses preparativos e, como o calor fosse quase intolerável, sentamo-nos para ouvir lorde John Roxton expor seu "plano de campanha".
— Parece-me — dizia ele — que não temos interesse algum em andar com precipitação. Como não conhecemos os perigos que nos podem ameaçar nesta região, e como pode haver aqui não só animais como até homens perigosos, julgo que toda a prudência será recomendável. Para começar, evitemos o uso de armas de fogo. Bem sei, fui eu o primeiro a dar o mau exemplo e lamento não ter podido resistir à cólera que...
Tratamos depois de dar nomes aos lugares para melhor nos entendermos. Por proposta de Challenger, o platô ficou chamado Terra de Mapple White e, como nada mais tínhamos por enquanto, iniciamos circunspectamente a exploração do terreno. E não tardaram as surpresas.
Tendo atravessado um trecho de bosque espesso, onde todas as árvores me eram desconhecidas mas que Summerlee classificou como antediluvianas, chegamos diante de um vasto pântano. Lorde John, que ia adiante, exclamou:
— Olhem!... Aqui estão pegadas que, se não me engano, são do antepassado de todos os pássaros atuais.
Havia ali de fato a marca de uma pata enorme com três dedos. Evidentemente, o animal atravessara o charco vindo do bosque. Seria mesmo um pássaro? A pata parecia de avestruz, mas era quatro ou cinco vezes maior. Lorde John olhou em torno de si e pôs dois cartuchos no rifle.
— Por minha reputação de caçador, afirmo que essas pegadas são recentes. Não faz dez minutos que esse animal passou por aqui... E aqui estão marcas de outro menor.
Sim; ao lado das primeiras pegadas e na mesma direção havia outras, que só se distinguiam pelo tamanho.
— E o que diz desta? — exclamou de súbito Summerlee, mostrando, entre aquelas marcas com três dedos, uma outra, que parecia de uma gigantesca mão humana, com cinco dedos nitidamente desenhados.
— Oh! — exclamou por sua vez Challenger. — Eu já vi indícios semelhantes na argila de Wealden. Umas e outras são marcas de um animal que caminha de pé sobre as patas traseiras mas, de quando em quando, apóia no solo as patas dianteiras, que têm cinco dedos. Mas esse animal não é um pássaro, meu caro Roxton: é um réptil, um dinossauro... Só um dinossauro pode deixar no solo marcas semelhantes. Eu me lembro bem da surpresa que causara essas pegadas na primeira vez em que foram descobertas em um terreno terciário, há cerca de noventa anos...
Mas, de repente, deteve-se, e sua voz estrangulada pela emoção extinguiu-se num murmúrio quase indistinto.
— Minha nossa!... Quem poderia imaginar semelhante espetáculo?
Seguindo as pegadas, nós tínhamos contornado o pântano e, atravessando um linha de árvores altas, chegamos a um descampado onde estavam cinco animais fantásticos, dois adultos e três mais jovens, mas todos de estatura colossal. Os menores eram já do tamanho de elefantes. Tinham o couro cor de ardósia, cobertos de escamas luzentes. Mantinham-se de pé, apoiados na cauda robusta e, com os cinco dedos das patas dianteiras, colhiam folhas nas árvores. O aspecto geral era o de cangurus com sete a oito metros de altura e pele de crocodilo.
Não sei quanto tempo ficamos ali imóveis, contemplando aqueles monstros cuja força parecia incomensurável. Um deles, tendo dificuldades em alcançar o cume de uma árvore, segurou-a pelo meio do tronco e arrancou-a com raízes e tudo.
Lorde Roxton mantinha um dedo sobre o gatilho de seu rifle e só Deus sabe o que daria ele para que a cabeça de um daqueles dinossauros fosse ornar o salão de sua casa. Mas, recordando os conselhos da prudência, continha-se. Quanto aos dois professores, tinham as faces iluminadas por um sorriso etéreo.
— Que dirá a Inglaterra? — murmurou afinal Summerlee.
— Que dirá? — explodiu Challenger. — Dirá que o senhor é um mentiroso, um charlatão... Dirá o que o senhor e outros já disseram de mim.
— Mas desta vez há testemunhas — replicou o outro. — Aqui estão estes amigos para atestar que no dia 28 de agosto nós vimos cinco iguanodontes vivos em uma clareira da Terra de Mapple White. Encontram-se vestígios desse animal em todo o sul da Inglaterra, onde eles habitavam no período terciário.
Por mim, confesso que a visão de animais assim formidáveis apenas me inspirava uma sensação de insegurança muito desagradável. Que novos gigantes íamos encontrar entre aquelas árvores misteriosas? Eu pouco sabia da vida pré-histórica, mas recordava-me de ter lido uma obra de divulgação popular, falando de animais que fariam com os leões e tigres atuais o que os gatos fazem com os camundongos.
Em pouco tempo, os fatos se encarregaram de demonstrar que meu pavor instintivo não era injustificado. Íamos atravessando lentamente um novo bosque e tínhamos já percorrido umas três milhas, margeando um rio, quando avistamos uma espécie de muralha formada por blocos de granito; tão logo, porém, começamos a galgá-la ouvimos um rumor esquisito, um conjunto descompassado de silvos, pios e zumbidos. Lorde Roxton fez-nos um sinal para que nos detivéssemos e continuou a subir sozinho. Chegando ao alto, avançou cautelosamente a cabeça e logo recuou com uma tal expressão de pasmo que, a despeito do temor, não resistimos à tentação de subir também.
Alcançamo-lo rastejando e lançamos um olhar. Aquela crista de rochedos dava para uma escavação circular, decerto uma antiga cratera, muito vasta, tendo ao fundo, a umas cem jardas, alguns charcos esverdeados. O lugar, já sinistro por si mesmo, tomava, pela espécie de seus habitantes, o aspecto de um dos sete círculos de Dante.*
Era o centro de reunião dos pterodáctilos, que ali estavam às centenas. Na borda dos charcos os filhotes brincavam e em torno os adultos moviam-se, coaxando descompassadamente. Os machos, enormes, horrendos, cinzentos, mantinham-se alertas, voltando para todos os lados os olhos vermelhos e batendo os bicos monstruosos; asas imensas e membranosas envolvia-os como mantos. Os dois professores, na embriaguez em que aquela descoberta os mergulhava, eram capazes de passar ali todo o dia; mas Challenger, sempre impetuoso, não se conteve e levantou a cabeça acima do rochedo que o abrigava. Imediatamente o pterodáctilo mais próximo soltou um silvo agudo; suas asas, que tinham seguramente sete metros de envergadura, bateram o ar e ele ergueu vôo. Muitos outros imitaram-no e vieram todos em nuvem sobre nós, descrevendo um largo círculo, como se pretendessem cercar-nos.
— Depressa! Refugiemo-nos na floresta — bradou lorde Roxton, empunhando o rifle pelo cano, para utilizá-lo como um porrete.
Mas não tivemos tempo para alcançar as árvores e as coronhadas que distribuímos a torto e a direito de nada nos valeram. Summerlee foi o primeiro alcançado por uma bicada no rosto e caiu com um grito rouco. Quase no mesmo instante, eu senti-me ferido na nuca e vacilei sob o choque.
Challenger caiu também. Quis socorrê-lo, mas um novo choque atirou-me sobre ele. Nesse instante o rifle de lorde Roxton começou a crepitar. Um dos monstros rolou pelo solo, com uma asa partida, o bico desmesuradamente aberto, soltando espuma e sangue, como um dragão de pinturas medievais.
Os outros ganharam altura e limitaram-se a obser-var-nos.
— Aproveitemos este instante — bradou lorde Roxton, dando-nos o exemplo.
Corremos todos para as árvores; mas antes de alcançá-las os monstros já voltavam a nos atacar. O professor Summerlee foi de novo atirado ao solo. Levantei-o, arrastando-o comigo. Eis-nos afinal em segurança num bosque espesso onde os pterodáctilos não podiam entrar, em razão do volume espantoso de suas asas. Mas ainda ouvíamos seus gritos lancinantes.
— Muito interessante a aventura — murmurou Challenger, lavando num riacho o sangue que lhe corria pelo joelho. — Gostaria que todos os jornalistas de Londres recebessem uma bicada destas. Não há melhor forma de convencimento. Que diz você, Summerlee? Somos os primeiros zoólogos do mundo a conhecer os costumes dos pterodáctilos.
* Referência ao Inferno descrito em A Divina Comédia. (N. do E.)
Summerlee nada respondeu, pois estava muito ocupado com o próprio ferimento que tinha no rosto, e lorde Roxton, o único que saíra ileso, ajudava a estancar o sangue que me corria de um músculo do pescoço.
— O pior é que fui obrigado a dar uns tiros — murmurou com mau humor.
— Sem eles não estaríamos vivos nesse momento.
— Querem minha opinião? — prosseguiu o lorde. — Acho que já tivemos emoções suficientes hoje. Proponho que voltemos ao acampamento para desinfetar estes ferimentos com ácido fênico. Quem sabe se esses imundos animais não são venenosos?
Mas um novo desastre nos esperava no Forte Challenger. A entrada do reduto estava como a tínhamos deixado, entulhada com pedras e galhos sólidos; mas um visitante ali estivera, vindo do alto. Um ramo ainda pendente mostrava-nos por onde ele tinha vindo; e o estado lastimável de nossas bagagens demonstrava o vigor prodigioso do nosso visitante. Uma caixa de conservas estava reduzida a farelos; outra, de cartuchos, havia se transformado em estilhaços. Interrogamos com olhares de pavor os arredores e nada vimos. Mas que tipo de monstro estaria por ali, oculto entre as folhagens, observando-nos?
Com que prazer ouvimos a voz de Zambo, que veio nos arrancar dessa dolorosa expectativa, chamando por lorde Roxton!
Corremos à beira do platô. Lá estava o nosso bom ajudante, de pé sobre o cume rochoso mostrando, num riso largo, todos os dentes.
— Eu estou aqui. Eu não vou sair daqui. Querendo alguma coisa, chamem.
A presença do criado humilde nos foi salutar, revigorando em nosso espírito a consciência de que pertencíamos à Terra do século XX.
Sentamo-nos; depois os dois professores começaram a discutir sobre os animais que nos tinham atacado. Eram propriamente pterodáctilos ou simples dimadorfons?
Coloquei-me um pouco à distância, farto de ouvir termos sábios com desinência latina. Lorde Roxton aproximou-se lentamente.
— Ó Malone... diga-me uma coisa... Você observou bem o lugar em que estavam aqueles bichos imundos? Não lhe pareceu uma antiga cratera?
— Sem dúvida alguma.
— Mas reparou bem o solo em torno da água?
— Era uma argila azulada.
— Sim... uma argila azulada na boca de um vulcão — repetiu o lorde com ar pensativo.
Estaria louco? Cheguei a acreditá-lo por um instante. Mas a fadiga era tal que não pude refletir por mais tempo. Adormeci.