O Mundo Perdido

Arthur Conan Doyle · Capítulo 4 de 12

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O Mundo Perdido

Capítulo III · Uma Criatura Impossível!

Dias depois, voltei à Nature e encontrei um envelope, com o carimbo postal de West Kensington, dirigido a mim numa caligrafia horrenda. Eis o conteúdo da carta:

"Senhor,

Recebi a sua carta, que parece endossar algumas das minhas posições, mas ao mesmo tempo utiliza a palavra especulação ao tratar de minhas pesquisas sobre a teoria de Weissmann.

O senhor, sem dúvida, é um ignorante, mas prefiro um ignorante a um malicioso, razão pela qual relevo a afirmação. Embora creia que somente uma inteligência subumana deixaria de entender o sentido do que foi ali expresso, concedo em atendê-lo na hora solicitada.

Quando chegar, apresente, portanto, este envelope ao meu criado Austin, que é a pessoa encarregada de impedir a aproximação de seres indesejáveis, notadamente aqueles velhacos que se chamam a si próprios de 'jornalistas'.

Atenciosamente, George Edward Challenger."

Quarta-feira, pontualmente às onze horas, um táxi deixava-me diante de uma casa cujo aspecto denotava a excelente situação de fortuna do temível professor. A porta foi-me aberta por um homem moreno e forte, de perneiras. Soube depois que ele era o chofer e substituía os criados de quarto todas as vezes em que esses (mais ao alcance das garras do patrão) se demitiam bruscamente.

Ele examinou-me com atenção e desconfiança:

— Está sendo esperado? — indagou.

— Sim — respondi, entregando-lhe a carta.

— Ah! Então é o senhor mesmo — disse o chofer.

E fez-me entrar para um corredor onde encontrei uma senhora ainda jovem, de pequena estatura, mas graciosa. Ela me deteve:

— Um instante, senhor. Diga-me: já falou alguma vez com o meu marido?

— Ainda não tive essa honra.

— Então permita que eu o previna e lhe apresente antecipadamente minhas desculpas. É uma criatura impossível, absolutamente impossível. Prefiro preveni-lo desde já.

— Mas, minha senhora...

— E tome bem nota da minha recomendação. Se ele se exaltar, não fique em seu gabinete nem mais um instante. Não perca tempo com palavras: fuja, fuja imediatamente. Diga-me somente uma coisa: é sobre o caso da América do Sul que vem falar com ele?

Era impossível mentir a uma senhora.

— Ah, meu Deus — ela suspirou. — É o mais perigoso dos assuntos! Ele vai lhe contar coisas que o senhor não vai poder acreditar. Eu sou a primeira a achar natural que não acredite. Mas, pelo amor de Deus, não deixe transparecer a menor dúvida, senão ele fica furioso, pois acredita no que diz. Posso afirmar-lhe que Challenger é um homem absolutamente honesto. Agora, vá... Deus o acompanhe. Eu vou ficar aqui no corredor, pois mesmo nos momentos de maior exaltação ele conserva um certo respeito por mim.

Dito isso, deixou-me seguir o chofer até uma porta no fundo do corredor. Passado o limiar, entrei num vasto gabinete e vi-me em frente do professor.

Estava sentado diante de uma mesa, cheia de papéis, mapas, diagramas, e seu aspecto cortou-me a respiração. Eu julgava-me prevenido para todas as eventualidades, mas nunca esperaria encontrar uma personalidade tão formidável. Nunca havia visto uma cabeça tão grande, estou mesmo certo que nunca houve uma cabeça com tais proporções sobre um corpo humano. E o resto evocava, por não sei que linhas gerais, a idéia de um touro assírio. Muito vermelho, com uma barba negra azulada em ondas espessas até o meio do peito, e cabelos lisos, empastados sobre a fronte curva. Os olhos, muito azuis e muito claros, sob as espessas sobrancelhas negras, tinham uma acuidade imperiosa, vigilante, quase insuportável. Os ombros, também amplos, um dorso rotundo e, pousadas sobre a mesa, mãos de gigante, cobertas por pêlo áspero.

— Então? — perguntou ele, fitando-me com insolência, com uma voz que mais parecia um mugido.

— Senhor... — balbuciei humildemente. — Teve a bondade de permitir que eu viesse e...

— Ah! Sim. O senhor é o jovem que não conseguiu entender o que eu escrevi em inglês bem claro, mas que concorda com as minhas conclusões gerais.

— Inteiramente, meu caro professor, inteiramente.

— Que grande honra para mim! O senhor traz-me a dupla autoridade de sua idade e de sua situação. Enfim... sempre vale mais do que esses miseráveis porcos de Viena... Mas vamos ao que interessa. Esta palestra não deverá ter para o senhor grandes encantos e, para mim, com certeza, irá aborrecer profundamente. O senhor, ao que parece, tem observações a fazer sobre a minha tese. Explique-se!

Sua maneira brutal e sua voz trovejante não me permitiam hesitar. Entrei logo no assunto.

— Queira perdoar minha ousadia. Eu sou um humilde estudante, mas parece-me que o senhor tratou Weissmann com excessiva severidade, pois os fatos até agora verificados concorrem até para consolidar sua doutrina...

— Que fatos? — perguntou Challenger, com uma calma apavorante.

— Sim, quero dizer... fatos positivamente não, mas a... o... o que poderíamos chamar de tendência científica geral do pensamento moderno.

Ele inclinou-se para mim com um ar muito interessado:

— O senhor deve saber que o ângulo craniano é um fator constante.

— Naturalmente.

— E que a telegomia é uma hipótese ainda controvertida.

— Sem dúvida.

— E que o protoplasma germinativo é substancialmente diverso do ovo partenogenético?

— É claro — respondi entusiasticamente, surpreso com a minha própria cara-de-pau.

— E o que isso prova? — perguntou ele com voz muito doce, como se tentasse me convencer.

— Sim, de fato, o que isso prova? — repeti sem saber o que dizer.

— Eu vou lhe dizer o que isso prova — exclamou o professor, em um súbito acesso de cólera. — Nada do que eu disse tem o menor nexo e isso prova que o senhor é um miserável que nunca estudou coisa alguma e cuja ignorância só é igual à sua falta de vergonha. Você pertence à corja desses escribas de pasquim, que se consideram onipoten-tes a ponto de achar que podem criar ou destruir a integridade de alguém. Vocês não podem derrotar esse homem chamado G.E.C., seus vermes nojentos.

Erguera-se impetuosamente, com os olhos esbugalhados de furor, e eu recuei surpreendido. De pé, o professor mal me chegava aos ombros. Seu crescimento de hércules detivera-se na adolescência e ele havia desenvolvido apenas em largura, espessura e volume cerebral a sua espantosa vitalidade.

Ele avançava em minha direção, totalmente ameaçador.

— Você será o quarto ou quinto verme que eu enxoto da minha casa. Eu tenho pago caro por isso, coisa de três libras e pouco cada processo. Mas vale a pena...

E continuava em seu avanço lento, mas implacável, andando nas pontas dos pés como um dançarino desajeitado.

Pensei em fugir, mas isso iria ferir por demais o meu orgulho, além do que já despertava em mim uma ira impulsionadora para o embate.

— Peço-lhe que fique longe de mim, pois senão...

— Senão o quê? — ameaçou ele, deixando à mostra grandes dentes caninos.

— Advirto-lhe que tenho quase cem quilos e sou jogador de rugby no time dos irlandeses de Londres. Se o senhor...

Nesse momento ele me atacou com tal virulência, que rompemos a porta — que estava apenas encostada — e rolamos pelo corredor. Assim fomos, trombando em cadeiras em direção ã porta da rua, que foi diligentemente aberta pelo criado Austin. Agarrados um ao corpo do outro, numa massa humana que incluía movimentos desajeitados de braços e punhos tentando atingir-se reciprocamente, rolamos os degraus e chegamos à rua. Levantando-se esbaforido e, colocando-se em posição de guarda, ele disse:

— Quer mais?

— Seu crápula! — berrei, colocando a mão sobre meu olho esquerdo, que doía intensamente.

Challenger ia atirar-se novamente contra mim, quando entre nós surgiu a figura enorme de um policial:

— O que é isso? Os senhores não têm vergonha? Eram as primeiras palavras sensatas que eu ouvia

desde que havia chegado àquela casa. O policial continuou, tirando do bolso um caderno e um lápis.

— Nos últimos tempos, rara é a semana em que coisas como essas não acontecem por aqui. — Depois, voltando-se para mim, perguntou: — Quer apresentar queixa da agres são? Devo prender este homem?

— Não — respondi prontamente. — Fui o culpado, em parte. Introduzi-me na casa deste homem indevida mente, com um falso pretexto.

O policial fechou o caderno e, como já quatro ou cinco pessoas haviam parado para observar-nos, disse severo:

— Todos andando. É proibido ajuntamentos na via pública.

E afastou-se.

Eu também me preparava para ir embora, quando ouvi Challenger dizer, com uma expressão de riso:

— Venha cá. Eu ainda não acabei com o senhor. Muito embora seu convite parecesse mais uma

ameaça, acompanhei-o, e o chofer Austin fechou mais uma vez a porta atrás de nós.