O Mundo Perdido

Arthur Conan Doyle · Capítulo 2 de 12

Páginas do PDF

O Mundo Perdido

Capítulo I · O Mundo Está Cheio de Possibilidades de Heroísmo

 

O Sr. Hungerton, pai de Gladys, era a pessoa mais impertinente e desagradável deste mundo: como uma espécie de grande papagaio emplumado, mostrava-se sempre todo falante e cheio de si, mas, apesar de tudo, tinha um bom coração. Se alguma coisa neste mundo pudesse afastar-me dela, seria o receio de ter um sogro desse tipo.

Acredito também que ele tinha a ingenuidade de supor que eu ia três vezes por semana à sua casa, em Chestnuts, para desfrutar de sua companhia e ouvi-lo expor, de maneira interminável, suas opiniões sobre a teoria bimetalista, uma tagarelice sobre a necessidade de se ter o equivalente das moedas em ouro e prata, assunto que para ele já havia tomado as proporções de uma obsessão.

— Imagine — disse ele, com seu jeito empolado — se todos os credores do mundo quisessem receber suas dívidas ao mesmo tempo e imediatamente. Considerando a situação presente, o que aconteceria?

Respondi que eu estaria falido e ele, reprovando minha brincadeira — que impedia-o de prosseguir com o seu lenga-lenga monetário —, saiu da sala afirmando que ia se arrumar para encaminhar-se a uma reunião na loja maçônica.

Finalmente, pude ficar sozinho com Gladys, o momento que tão ansiosamente eu aguardava. Sentia-me, naquela noite, como um soldado a caminho de uma missão arriscada, com meu espírito oscilando entre a esperança de vencer e o medo absoluto da derrota.

Eu admirava seu rosto altivo e delicado, que se emoldurava sobre o fundo vermelho da cortina da sala. Como era bela e, ao mesmo tempo, tão distante de mim! Não havia entre nós coisa alguma; isto é — ainda não tinha havido. Conhecíamo-nos desde a infância e sempre havíamos sido bons amigos, convivendo com prazer e desembaraço. Ultimamente é que — coincidindo com os sonhos que eu começara a arquitetar cheio de ternura — Gladys começara a tratar-me com certa reserva. A princípio esse fato deso-lou-me; depois, pensando bem, vi nele um bom sintoma. Não aprecio mulheres excessivamente ousadas e, ao mesmo tempo, creio que a timidez e a desconfiança são os sinais efetivos da verdadeira atração sentimental. Mesmo sendo jovem, eu já havia aprendido que, quando uma moça não se sente perturbada nem intimidada diante de um rapaz, é porque não imagina sequer a possibilidade de lhe amar.

Ligeiramente morena, de uma tez quase oriental, ela tinha cabelos negros, grandes olhos expressivos e lábios carnudos. Tudo em Gladys era profundamente feminino, embora alguns a considerassem, impropriamente, um tanto fria. Em meio à nossa amizade, que vinha desde a meninice, foi ela talvez a primeira a compreender que eu começava a amá-la. E naquele instante estava decidido a saber, definitivamente, se eu era correspondido ou não. Foi quando, ainda imerso nesse pensamento, ouvi sua voz afirmar com doce reprovação:

— Sinto que você está para dizer algo sobre nós dois, mas peço que não o faça. Não vamos mudar o que está tão bem.

Puxei a minha cadeira para ficar mais próximo dela.

— Como você soube que eu pretendia falar sobre nós dois? — indaguei-lhe num tom que denunciava minha autêntica surpresa.

— É a intuição feminina. Ou você acha que uma mulher não percebe quando vai receber uma declaração de amor? Mas, por favor, não vamos estragar a nossa amizade: não vê que é tão bom podermos falar um com o outro como bons amigos?

— Querida Gladys, conversar da forma que fazemos eu posso até com o chefe da estação ferroviária (nem sei por que ele surgiu no meio da conversa, mas o fato nos fez rir). — Quero muito mais, quero poder abraçá-la, sentir o peso de sua cabeça em meu peito, eu quero...

Ela se levantou com rapidez ao perceber que eu pretendia demonstrar mais fisicamente os meus sentimentos.

— Assim você vai estragar tudo! Tudo estava tão bem como era antes. Será que você não consegue se controlar?

— Eu não tenho culpa! — falei desoladamente. — Não posso impedir a força natural do amor!

— Mas eu nunca senti esses ímpetos.

— Oh Gladys, fomos feitos para amar. Linda e sensível como é, você não pode se furtar ao sentimento do amor.

— Então é preciso esperar que aconteça para mim.

— Quer dizer que você não consegue me amar, Gladys? Você me acha muito feio?

Concedendo um pouco, ela graciosamente empurrou minha cabeça para trás e olhou-me com um sorriso triste. Depois de alguns segundos, disse:

— Não é nada disso — disse delicadamente. — É algo muito mais profundo.

— Então é o meu caráter?

Com um severo movimento de cabeça, ela confirmou.

— Mas o que devo fazer? Por favor, sente-se, eu não vou fazer nada. Só quero ouvi-la...

O jeito com que ela olhava deixava-me desnorteado, a ponto de não conseguir, agora, colocar em forma escrita o que senti então. Finalmente, ela resolveu sentar:

— Diga-me, Gladys, o que há de tão errado em mim?

Com a resposta que ela me deu, foi a minha vez de dar um salto da cadeira:

— Eu amo outra pessoa — ela falou, olhando para o meu rosto perturbado. Depois, rindo, completou: — Não é ninguém em particular, mas sim uma forma ideal de homem, que eu ainda não encontrei na realidade.

— Como você o imagina?

— Bem, poderia parecer-se bastante com você.

— Ah, como você é gentil em dizer-me isso! Então, o que devo fazer para me aproximar desse tipo ideal? Devo tornar-me abstêmio, vegetariano, aeronauta, teosofista, super-homem...? Dê-me ao menos uma idéia do que você deseja.

— Em primeiro lugar, creio que o meu tipo ideal não daria tanta atenção aos caprichos de uma jovem boba, como você está fazendo. Porém, antes de mais nada, este homem teria a coragem de enfrentar a morte sem jamais temê-la, seria o autor de grandes feitos e de experiências insólitas. Creio que não apenas seria capaz de amar esse homem, como também as suas glórias, que estariam refletidas em mim. Um exemplo: Richard Burton*. Ao ler a biografia escrita por sua esposa, compreendi perfeitamente porque ela o amava tanto. E Lady Stanley**: leu o que ela escreveu sobre o marido? São esses os tipos de homens que eu adoraria com toda a força de meu espírito, ao mesmo tempo em que seria vista como a inspiradora de suas ações extraordinárias.

A forma linda e entusiasmada com que ela falava, impelia-me a agarrá-la, beijá-la ardentemente. Mas pude controlar-me e repliquei:

 

* Sir Richard Francis Burton — (1821 -1890) — Explorador britânico que, em busca das nascentes do rio Nilo, descobriu o lago Tanganica, em 1858. (N. do E.)

** JohnRowlands Stanley (1841-1904) —Jornalista e viajante britânico; como repórter, viajou pela África em busca do paradeiro do missionário escocês Livingstone, que se encontrava perdido. Após localizá-lo, empreendeu aventuras nas quais descobriu o curso do rio Congo. Foi também responsável pela colonização do Congo Belga. (N. do E.)

— Nem todos têm a oportunidade de se tornarem Burtons e Stanleys. Mas seu a tivesse, eu procuraria aproveitá-la.

— O mundo está cheio de possibilidades de heroísmo — ela falou, decidida. — Todo grande homem, daquele a quem ninguém e nada pode deter, é capaz de criar suas oportunidades de aventura. E cumpre a ele realizá-las e à mulher recompensá-lo com seu amor. Lembra-se do jovem francês, aquele que na semana passada subiu aos ares num balão? Apesar do forte vendaval, não temeu e continuou a empreitada. Seu balão foi arrastado por dois mil e quinhentos quilômetros, durante vinte e quatro horas, e ele foi parar bem no meio da Rússia. Está aí um exemplo do homem que eu amaria. Imagine sua mulher, invejada por tantas outras! Isso mesmo: eu gostaria de ter um homem como esse para ser invejada por outras mulheres.

— Ora, para agradá-la, eu também teria feito isso.

— Não, não apenas para agradar-me: faria-o porque é da sua natureza, porque o homem que você é quer mostrar-se em ações heróicas. Na reportagem que fez sobre a explosão da mina de carvão, semanas atrás, você não poderia ter descido para salvar aqueles desafortunados, apesar de todo o risco que havia?

— Mas eu fiz isso.

— Mas não me disse...

— Não vi motivo para contar vantagens.

— Não sabia... — ela me disse, olhando-me de um modo diferente. — Foi um ato corajoso.

— Tinha que ir lá. Numa reportagem, é preciso estar no centro dos acontecimentos.

— Dizendo assim, você tira todo o romantismo do que fez. De todo modo, você o fez e fico orgulhosa por isso.

Em seguida, ela estendeu-me a mão e eu a beijei, ternamente. Ela continuou:

— Não passo de uma mulher com fantasias de menina. Porém, é assim que penso, é assim que sinto. Quero me casar com um homem célebre.

— E por que não? — repliquei. Creio que são mulheres como você que fazem os homens alcançarem as grandes metas. Por isso, eu também buscarei a minha oportunidade, assim como Clive*, um simples funcionário burocrático que acabou conquistando a Índia. Ah, sim, eu também farei algo importante!

Ela achou graça dessa manifestação súbita de meu entusiasmo irlandês.

— Claro que pode, você tem tudo para isso: é jovem, forte, inteligente, corajoso. Gostei muito de termos conversado e, mais ainda, por ter despertado em você essa vontade.

— O que você acha se eu...?

Ela interrompeu minha indagação colocando sua mão de veludo em meus lábios:

— Senhor, não diga mais nada... Aliás, você deveria estar no plantão noturno da redação do jornal há muito tempo, mas eu não quis interromper nossa conversa. Voltaremos a nos encontrar, quem sabe, quando você tiver conquistado o seu ato de bravura.

Saí dali, naquela noite brumosa de novembro, com o coração palpitando e, já no bonde de Camberwell, pensava em não perder mais nenhum minuto para encontrar algo que pudesse oferecer à minha amada. Mas eu não poderia sequer imaginar a estranha aventura que me esperava, nem mesmo os diversos e incríveis acontecimentos que me levariam a ela.

Pode parecer ao leitor que este primeiro capítulo pouca relação terá com a minha narrativa. Porém, sem os fatos contados aqui, não teria desabrochado o desejo vivo da aventura, que moveu a mim e a tantos outros homens. Essa força interna que nos obriga a romper a fronteira do comum e penetrar o reino maravilhoso das grandes realizações e das grandes recompensas.

Na redação do Daily Gazette, eu era apenas mais um entre tantos outros seres insignificantes. Mas agora eu estava absolutamente convencido de que encontraria o desafio que faria honrar minha Gladys! Ela teria me pedido isso por puro egoísmo? Esta indagação pode surgir-me agora, na maturidade, mas não faria sentido para aquele jovem de vinte e três anos com o coração transbordando de amor.