O Mundo Perdido
Capítulo II · Não Quer Arriscar a Sorte com o Professor Challenger?
Eu sempre gostei do editor-chefe da Daily Gazette, o ruivo, idoso e algo rabugento Sr. Ardle, e também tinha a impressão que ele me apreciava. O diretor do jornal, Sr. Beaumont, era muito importante para que eu tivesse com ele um contato mais constante. Às vezes, eu o via passar com seu ar majestoso, como se estivesse acima de qualquer crise internacional ou da queda de um ministério. Com o Sr. Ardle era diferente, com ele é que eu tinha de me entender. Dirigi-me a seu gabinete e tive desde a entrada um bom acolhimento.
— Sr. Malone, o senhor está indo muito bem. Sua reportagem sobre a explosão da mina de carvão estava excelente — disse-me ele, acentuando o sotaque escocês.
— Obrigado, Sr. McArdle.
— Não tem que me agradecer nada, Sr. Malone: é justiça. Mesmo a reportagem do incêndio de Southwark já tinha sido interessantíssima... Mas creio que vinha para me dizer alguma coisa...
— Sim. Queria lhe pedir um favor... Não tem algum serviço de reportagem bem importante, e mesmo perigoso?
Os olhos do Sr. Ardle inquietaram-se.
— Como? Que disse?
— Digo-lhe que sou jovem, robusto, corajoso; preciso lazer carreira e desejo encontrar ocasião para empreender algo que valha a pena...
— Mas que história é essa? Por que essa resolução súbita de procurar riscos de vida?
— Para poder viver.
— Hum! E todas essas belas ambições vieram-lhe assim de repente? Bem... bem... Não quero ser indiscreto, mas o senhor está mesmo muito exaltado. Como sabe, as reportagens especiais são confiadas apenas a jornalistas experientes, porque, além de tudo, custam caro ao jornal. Mas espere um pouco... Ah, sim, tenho mesmo uma idéia que estava amadurecendo há muito tempo, sem saber a quem confiá-la. Quer tomar a si a missão de desmascarar um impostor, um Munchhausen* moderno, que anda contando mil histórias mirabolantes?
— Excelente... O que eu quero é que seja um caso sensacional.
— Esse poderá sê-lo. Creio até que só mesmo o senhor, com seu dom natural de inspirar simpatia (nesse momento, curvei-me lisonjeado...) poderá realizar a missão, pois se trata do homem mais exaltado e brutal de toda a Inglaterra: o professor Challenger, de Enmore Park.
— Como? Challenger, o famoso e amalucado zoologista, que partiu a cabeça de Blundell, do Daily Telegraph?
O sr. Ardle esboçou um sorriso.
— Parece-lhe muito perigoso esse trabalho? Não quer arriscar a sorte com o professor Challenger?
— Não tenho dúvidas de que pode ser uma grande aventura. Mas isso não quer dizer que a recuse. Ao contrário. Além disso, o senhor não é Blundell; tem outros do-tes de sedução, uma qualidade fundamental para situações como essa... Escute bem: há talvez grandes coisas a fazer com o caso Challenger. Eu observo-o já há meses e tenho sobre ele informações detalhadas.
* Alusão ao Barão de Munchhausen (1720-1797), célebre por contar aventuras supostamente verdadeiras, em que ele era sempre o herói. (N. do E.)
Tirou da gaveta uma espécie de ficha e leu:
"George Edward Challenger. Nascido em Large, no ano de 1863. Estudos brilhantes. Nomeado adjunto no British Museum e depois professor de antropologia comparada (1893). Demitiu-se no mesmo ano, após desavenças com todos os seus colegas do Museum. Titular da medalha Crayston por seus trabalhos zoológicos e membro de várias academias nacionais e estrangeiras, entre elas..." E citou inúmeras entidades do mundo inteiro. Depois, continuou: "Publicou diversos trabalhos, como 'Algumas observações sobre os crânios Kamlmuck', 'Esboços da evolução dos vertebrados", e um texto polémico, 'O erro básico de Weissmann', que provocou discussões intensas no Congresso de Zoologia de Viena."
— Mas a que propósito irei entrevistá-lo? — perguntei. O Sr. McArdle prosseguiu:
— Imagine que há cerca de dois anos ele partiu para a América do Sul em viagem de exploração. Voltou há poucos meses e recusou-se a dizer exatamente por onde andou. Isto é: havia começado a fazer uma descrição da viagem ao seu colega, o repórter Blundell, porém este se atreveu a fazer uma objeção e ele resolveu não dizer mais nada a ninguém. De duas, uma: ou teve nessa viagem aventuras pouco banais ou é simplesmente um contador de histórias, um mentiroso. Dizem que ele trouxe algumas fotografias em mau estado e que parecem de fantasia: mas a manifestação de qualquer dúvida a esse respeito irrita-o a ponto de o tornar agressivo, capaz de atacar o primeiro que lhe aparecer pela frente. Foi num momento desses que abriu a cabeça de seu colega...
Estampando no rosto vermelho o seu peculiar sorriso, o Sr. McArdle calou-se, indicando que a nossa conversa havia terminado.
Saí dali pensativo e, sem rumo certo, andei longamente pelas ruas. Depois, entrei no Savage Club, ali encontrando o meu amigo Turp Henry, da Nature Review — um sujeito magro que esconde, por detrás do jeito áspero e introspectivo, uma imensa generosidade. Pedi a ele informações sobre Challenger.
— Ah! — exclamou Henry — esse tipo partiu para a América do Sul e voltou com histórias extravagantes.
— Que histórias?
— Pura tolice: voltou dizendo haver encontrado animais absolutamente fantásticos. Mas as suas primeiras declarações provocaram tantas controvérsias que ele não se atreveu a prosseguir. De início, deu uma entrevista para a Reuter's, mas o rebuliço foi tão grande que resolveu se calar. Apenas uma ou duas pessoas pareceram dispostas a tomar a sério sua narrativa, porém ele próprio se encarregou de desanimá-las.
— Como?
— Com sua inqualificável grosseria. O velho Sir Wadley, presidente do Instituto Zoológico, convidou-o para assistir a uma sessão... Pois ele mandou uma resposta com termos tão desrespeitosos que não pôde nem ser publicada.
— Nossa!
— Foi assim mesmo. Trata-se de um sujeito impossível. Muito inteligente, não há dúvida, mas intolerante, grosseiro, com idéias fixas, orgulhoso de tal forma que se considera superior a todo mundo e recebe qualquer obje-ção como uma ofensa pessoal.
Como Henry parecia querer encerrar ali sua explanação sobre Challenger, insisti:
— Fale-me mais sobre ele.
— Você sabe, sou bacteriologista, minha vida é o microscópio, e tenho mesmo dificuldades em me relacionar com seres humanos, que são todos enormes e ameaçadores. Pela mesma razão, não gosto de me envolver com dis-que-disques tão comuns nos meios científicos, um mundo cheio de vaidades. Mas o caso de Challenger é diferente, e de fato provocou minha curiosidade. Uma mente brilhante como aquela, criando fantasias maníacas e, por elas, arrumando encrencas com todo mundo...
— Mas você falou em idéias fixas. Cite-me uma.
— A mais recente tem por objeto as teorias evolucionistas e causou um barulho infernal na Academia de Viena. Eu não conheço bem o caso, mas venha comigo ã revista e poderá ler a transcrição das atas, onde toda a questão está claramente exposta.
Uma hora depois eu lia atentamente o calhamaço, que dava conta de um erudito debate sobre as teorias de Weissmann* e Darwin**, tão erudito que meu insuficiente conhecimento científico não me permitia entendê-lo direito.
Em todo caso, como não convinha perder tempo, resolvi escrever a seguinte carta:
"Ilustre professor Challenger:
Sou apenas um modesto curioso das leis naturais e, como tal, sempre acompanhei com profundo interesse seus luminosos estudos sobre Darwin e Weissmann. Relendo hoje sua magistral comunicação à Academia de Viena pude perceber que se trata de uma contribuição inestimável para a discussão do tema. Contudo, há uma especulação que me deixou em dúvida. Transcrevo-a aqui: 'Oponho-me fortemente contra a absurda e dogmática proposição de que cada id é, em si, um microcosmo dotado de uma estrutura histórica paulatinamente elaborada por meio de uma série de modificações. ' Julguei a afirmação muito enfática, razão pela qual peço-lhe a gentileza de uma explicação. Espero que não negue esse favor a um humilde discípulo, que terá a honra de procurá-lo na quarta-feira, às onze horas.
Com meus sentimentos de admiração e respeito,
Edward Malone."
Como eu deveria usar o endereço da Nature Review, uma publicação científica, evitando, desse modo, possíveis suspeitas de Challenger, tive de submeter a carta à aprovação de Henry:
— Seu grande canalha! — brincou ele, ao terminar de lê-la. — Só espero que ele não venha aqui quebrar toda a redação da revista.
— Pelo menos, essa é uma forma de me aproximar do homem. Depois, caso ele desconfie das minhas reais intenções, posso até contar-lhe a verdade.
— Ah, sim. E você vai levar uma grande surra! O melhor mesmo é você ir preparado, usando um daqueles uniformes do futebol americano. É bem provável que você venha a se arrepender tremendamente de ter querido mexer com o briguento Challenger.
* August Weissmann (1834-1914) — Biólogo e zoologista alemão que, ao propor uma teoria acerca dos fatores da hereditariedade, lançou as bases da genética moderna. (N. do E.)
** Charles Darwin (1809-1882) — Naturalista inglês que primeiro formulou um conjunto de teorias da evolução sobre bases totalmente científicas, apresentadas em sua obra-prima Da origem das espécies através da seleção natural, publicada em 1859. (N. do E.)