O poeta-espião

Paulo Andrade · Capítulo 8 de 9

Páginas do PDF

O poeta-espião

Notas finais

 

Fazer o papel de mediador, de tradutor, não de uma língua a outra, mas da linguagem poética do outro – Sebastião Uchoa Leite – carregada de opacidade, para a linguagem da crítica é um desafio que não se finda com o nosso texto. No amplo leque de possibilidades de abordagem delineamos o enfoque a partir da problemática do sujeito, ethos dominante na obra do poeta, observando como a sua literatura enfrenta o impasse entre romper com a tradição e a impossibilidade de sair dela, o que aponta para uma crise da palavra poética e para uma literatura de esgotamento, que se revela numa reescrita constante da cultura e da tradição literária.

A reescrita do legado poético da modernidade, que Sebastião como poeta culto e refinado conhece profundamente, provoca estranhamento em parte da crítica, que demonstra certo desconforto diante dos procedimentos utilizados pelo poeta. Exemplo da dificuldade em face da escrita peculiar de Uchoa Leite, pode ser observado na resenha de lançamento de A espreita (2000), “A poesia como inimiga”, na revista Bravo!, na qual Miguel Sanchez Neto avalia de forma negativa a obra do poeta.

Recaindo sobre o intenso diálogo intertextual, empreendido pelo poeta, Sanchez Neto reduz a poética de Uchoa Leite a uma escrita de repetição, que se posiciona “a reboque de uma biblioteca intransigente lida e relida até a exaustão” e que redunda num “saldo de leitura”. Ou seja, Sanches Neto acusa a poesia de Sebastião Uchoa Leite de ser destituída de “um universo particular, tal como acontece com os escritores necessários à língua” (Neto, 2000, p.89).

O que suscita inquietação no crítico é estar diante de um escritor que arquiteta um desconcertante entrelaçamento de vozes, advindas de um sem número de direções da história da cultura, compondo uma cadeia complexa de discursos. Mas a falta de hospitalidade, aliada à má vontade, para recepcionar o texto de Uchoa Leite, faz Sanchez, enquanto poeta e crítico, esquecer que todo discurso é submetido às condições do diálogo. Encontra-se latente na crítica de Sanchez Neto uma ideia ancorada na estética romântica, que concebe o texto enquanto expressão de uma individualidade, de um autor in praesentia, fundador da autenticidade de uma obra, um Adão mítico, detentor da origem e fundamento da sua criação e do seu discurso poético. Sebastião recusa a noção de autor, enquanto demiurgo, doador de sentido e responsável pela gênese absoluta daquilo que escreve.

Por outro lado, ao fazer ressoar a polifonia do texto literário, absorvendo, e transformando os textos numa máquina pulverizadora de novos sentidos, Uchoa Leite demonstra a consciência aguda desse cenário de saturação e desgaste das formas poéticas, que o coloca num beco sem saída para reinventar novas estruturas. Talvez a recuperação de temas, procedimentos e metáforas calcificadas pela tradição sejam a tentativa de saída da condição de fechamento, o que leva o poeta a escrever por entre “escombros, ruínas de uma tradição”, fazendo sobressair “a desconfiança de que, em seu lugar, poderiam melhor funcionar outros meios de representação, tais como o cinema, os jornais, ou os comics”, como observa João Alexandre Barbosa (2000, p.17).

Quando Miguel Sanchez Neto evoca os “escritores necessários à língua” em oposição a Sebastião Uchoa Leite, parece referir-se aos formadores do cânone literário, os quais Foucault denomina “fundadores de discursividade”. O que tais escritores têm em comum, segundo Foucault, é o fato de não serem apenas autores de suas obras, mas de produzirem uma teoria, de serem autores de uma tradição ou de uma disciplina, no interior da qual outros livros, textos e autores se encontram.

O que diferencia estes “fundadores de discursividade” de outros autores é terem produzido a “possibilidade e a regra de formação de outros textos” (Foucault, 1992, 58). Freud, Marx, Nietzsche são exemplos de “instauradores de discursividade”. Pela criação de doutrinas e por iniciarem uma tradição “abriram o espaço para outra coisa diferente deles e que, no entanto, pertence ao que eles fundaram” (ibidem, p.60).

Deslocando tais formulações para o espaço literário, podemos inserir nesta categoria Dante Alighieri, Shakespeare, Camões, Baudelaire, Mallarmé, fundadores do cânone da moderna poesia ocidental. Em solo nacional, poderíamos identificar como “fundadores de discursividade” Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond, Manuel Bandeira, João Cabral, poetas que nortearam a poesia no século XX, abrindo espaço a uma produção que tem por modelo e princípio as suas obras, mesmo para os que se posicionam contra. Mas, vale lembrar que, ao se constituírem na função autoria, tais autores se inserem numa rede de formulações que os antecederam, o discurso literário, o discurso histórico, em que confluem a memória histórica e a memória social.

As formulações de Foucault sobre uma concepção de autoria vinculada às apropriações de textos advindas de discursos e culturas diversas podem ser articuladas à concepção de Barthes, para quem um texto é um espaço de dimensões múltiplas, onde se entrecruzam “escrituras variadas, das quais nenhuma é original”. O texto é um “tecido de citações, saídas, dos mil focos da cultura” (Barthes, 1988, p.69) ou um “mosaico de citações”, como diz Kristeva (Jenny, 1979, p.60), configurando-se como absorção e transformação de outros textos

Para Sebastião, o poema não é um produto de criação individual, mas um artefato gerado a partir das relações que estabelece com outros poemas e outras fontes de significados culturais. A sua poética apresenta traços decididamente peculiares e um olhar integrado à realidade histórica, trazendo fortes marcas de subjetividade. Este sentimento de mundo coeso, eticamente engajado com certas ideias políticas e com o olhar armado para a crítica da realidade possibilita-nos ver que sua escrita traz fortes marcas de autoria e seu projeto literário, por extensão, tem um grau de singularidade e de “originalidade”, como avalia o próprio poeta em depoimento:

Esta “obra”, [...] tem naturalmente, a pretensão de alguma

originalidade. [...] Em todo o caso o “mélange adultère de tout”,

de Tristan Corbière, terminou se tornando quase um lema para

tudo o que escrevo desde então, desde os anos 70. Mas peço-

lhe que não exagere sobre a intertextualidade, pois tento

também, na medida do possível, dado nos meus textos um

testemunho, talvez crítico, sobre a realidade, ou ao menos

sobre o meu tempo.1

Em meio à multiplicidade de vozes que murmuram nos escritos poéticos de Sebastião Uchoa Leite emerge a voz particularíssima de sua experiência pessoal, como referências autobiográficas, à política e à realidade imediata. Por outro lado, ciente dos limites da sua capacidade de reinvenção de uma nova forma de expressão poética, afirma: “Não sou Drummond ou um Cabral, poetas

enormes. Tento abordar a realidade a meu modo, muito relativo”.2

Ele não se filia a nenhuma corrente ou grupo. Se a poesia de Uchoa Leite absorve as conquistas dos grandes mestres modernos e modernistas, como a combinação do elevado e do vulgar, as imagens-choque, o humor, procedimentos que foram ampliados e consolidadas nas obras de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, por outro lado, busca um caminho de invenção cabralino-concretista sem assumir uma postura epigônica ou de ruptura com nenhuma das vertentes. Em suma, situa-se como continuador do modernismo, esforçando-se por demarcar suas diferenças, como um poeta que oscila entre a travessia e o impasse.

Seu modo de trabalho está inserido na experiência pós-moderna da arte, aqui entendida como um estado dentro da modernidade (Lyotard, 1993, p.98), em que os artistas repensam e reescrevem a tradição moderna, buscando não só o que permanece, mas também aquilo que ficou recalcado pela tradição moderna. Um dos exemplos dessa contínua reavalização do pensamento moderno pode ser vista numa entrevista concedida por Uchoa Leite ao Suplemento Literário de Minas Gerais, na qual ele reconhece a importância que Valéry, enquanto crítico e poeta, exerceu em sua formação intelectual. Mesmo reconhecendo sua dívida a Valéry, Sebastião enfatiza que esta força foi sendo reavaliada no decorrer dos tempos:

Embora Valéry tenha dito coisas preciosas, ele ignorou muita

gente e acho que revelou alguns preconceitos e restrições

temáticas que hoje já não mais se sustentam. Ainda me babo

ao ler, por exemplo, “Ébauche d’un serpent”. [...] Mas tenho

outras aspirações intelectuais, mais impuras, já explicitadas

aqui. (Leite, 2001, p.15)

Tal projeto textual híbrido reflete o percurso nômade de Uchoa Leite que transita, entre a tradição da modernidade e as referências do mundo contemporâneo. Dessa trajetória resulta uma produção poética que requer um leitor equipado com o repertório da tradição da alta cultura, mas igualmente em sintonia com as linguagens do mass media.

É mais produtivo avaliar Sebastião pela via da negatividade do que pela circunscrição positiva de sua poética. Não é um poeta de vanguarda, no sentido da permanente busca da invenção. Ao contrário, ele persegue a linguagem desgastada e marcada por clichês. Ao mesmo tempo em que incorpora a cultura de massa, sua poesia é refratária à adequação do gosto e da linguagem às capacidades de recepção do público médio.

“Antimétodo 2”, da série Aos que perguntam, de A regra secreta (2002), é bom poema para finalizar este trabalho, pois funciona como síntese do seu processo de criação e exemplo de um sujeito lírico, cuja “regra secreta” é a não demarcação de territórios:

Pouco a pouco

Embaralho tudo e nada

Sou meu próprio

Espantalho

Fujo

De mim mesmo

Finjo-me

Da minha própria

Esfinge

Perdido em meu próprio

Labirinto

Sou o que sou

Ou minto? Será isso

Uma regra secreta? (p.62)

 

1 E-mail enviado no dia 7 de dezembro de 2002.

2 E-mail enviado no dia 7 de dezembro de 2002.