O poeta-espião

Paulo Andrade · Capítulo 1 de 9

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O poeta-espião

Prefácio

 

O termo “contemporâneo” acompanha a longa tradição da literatura moderna e se transforma num conceito inútil quando desacompanhado de referência temporal mais precisa. Neste prefácio ao livro de Paulo Andrade, O poeta-espião: a antilírica de Sebastião Uchoa Leite, para conferir um conteúdo operacional ao termo, vamos tomá-lo em referência a um período específico, na literatura brasileira, que corresponde a quatro décadas, de 1960 a 1990. Ainda carente de denominação mais precisa, a produção poética desse período configura-se como um universo conflitivo, em que poetas de múltiplas linhagens estéticas e ideológicas constroem sua dicção com base em uma série de embates, ora com a própria tradição da modernidade, entendida como o lirismo que se configurou a partir de Baudelaire, Mallarmé e Valéry, entre outros, ora com os mestres do Modernismo brasileiro, de modo especial Drummond, Bandeira e João Cabral, ora com as coerções e inquietações de um contexto político violento, que mobilizava as energias criadoras de grande parte de artistas, críticos, intelectuais e pensadores da cultura brasileira.

Os poetas que publicam suas obras nesse momento enfrentam uma série de impasses, alguns herdados da própria tradição moderna e outros mais específicos, surgidos no contexto da sociedade contemporânea e da ditadura militar no Brasil. Entre os desafios herdados da modernidade, avulta a necessidade de enfatizar os procedimentos formais e construtivos em detrimento de uma expressão poética direta dos sentimentos e da visão de mundo do poeta. Alicerçada principalmente numa elaboração técnica esmerada, a poesia moderna deve colocar em cena a relevância da linguagem, como matéria-prima mobilizada na criação de um universo elevado e singular. Do trabalho com essa matéria-prima resulta uma rede de significados, construída com elementos de todos os níveis de linguagem que compõem a estrutura de um poema, desde a camada sonora e visual, passando pelas unidades de sentido, até os motivos e temas. O mundo ficcional, criado a partir dessa elaboração formal, permite ao poeta e ao leitor a experiência sublime de transcenderem a banalidade do cotidiano.

Além do desafio de criar um universo original e único, a partir do trabalho especial com a linguagem, os poetas contemporâneos herdam dos seus antepassados, a necessidade de romper com a tradição, em busca do novo. Romper com a tradição, para instalar um novo paradigma estético, passou a ser a condição para se alimentar o próprio conceito da modernidade. Mas romper com a tradição também envolve outro aspecto caracterizador da modernidade lírica, que é a função crítica do poeta. Ser poeta moderno implica uma consciência perquiridora, que se volta contra o passado e contra o contexto social.

A consciência crítica e a necessidade de renovação alimentam a poesia moderna, configurando uma tradição, até o momento em que se começa a questionar a modernidade enquanto permanência. O que se tem chamado de pós-modernidade, desde o início dos anos 1960, é o questionamento da modernidade enquanto tradição. Alguns pensadores e poetas, entre os quais Octavio Paz, no livro Os filhos do barro, em 1972, começam a apontar os paradoxos decorrentes desta permanência.

Paulo Andrade analisa, com muita propriedade, alguns traços dessa pós-modernidade na “antilírica” de Sebastião Uchoa Leite. Com perspicácia crítica vai rastreando os passos de um sujeito poético mergulhado na modernidade, que não esconde seus conflitos entre o desejo de romper com o passado, para manter viva a chama da poesia moderna, e a necessidade de se realimentar desse passado, para enfrentar um cotidiano cada vez mais banalizado pelos discursos da mídia e habitado por seres fragmentados, dispersos e reificados.

Na luta contra a modernização programada de todo sistema de produção, com o qual, querendo ou não, o poeta está irremediavelmente ligado, pelo contexto histórico em que lhe foi dado viver, Sebastião Uchoa Leite enfrenta o impasse entre retomar os procedimentos adotados pelos primeiros poetas modernos e a necessidade de apontar desilusão do sujeito lírico diante da trágica ineficácia dos mesmos. Se ser moderno é confiar na consciência crítica, na capacidade de criar uma linguagem original e única e apostar na contribuição da poesia para um aperfeiçoamento do ser humano e da sociedade, ser pós-moderno é ter perdido totalmente a confiança na utopia de uma poesia nova ou de um mundo melhor.

Mas a pós-modernidade não se configura como um modelo único de fazer poético. O modo como cada poeta vai buscar solução para os impasses vividos na contemporaneidade define uma pluralidade de poéticas, com dicções muito fortes e singulares.

A produção poética de Sebastião Uchoa Leite é exemplo dessa força híbrida da poesia brasileira contemporânea, que articula linhas de força opostas para atingir momentos de grande originalidade, mesmo quando questiona a possibilidade de qualquer transcendência no contexto de simulacros e banalidades que coloniza até mesmo o inconsciente dos indivíduos.

Um dos méritos do trabalho de Paulo Andrade é apontar como a poesia de Sebastião Uchoa Leite, embora mobilize uma série de procedimentos, imagens, recursos estilísticos e temáticos que dialogam com a obra poética de Baudelaire, Mallarmé e, principalmente, Valéry, ou de outros mestres, como Jules Laforgue e Tristan Corbière, paralelamente, a contrapelo, vai tecendo também uma forte negação de muitos dos principais fundamentos da estética moderna.

Trabalho semelhante, de revisão e deslocamento, o poeta empreende ao dialogar com seus mestres modernistas, Drummond, Bandeira e João Cabral de Melo Neto.

Herdeiros dos simbolistas e poetas modernos, os modernistas também adotam vários elementos propostos pelas vanguardas, incorporando os elementos do cotidiano, os despojamentos da linguagem coloquial, os versos livres, a rejeição dos esquemas formais preestabelecidos e da retórica elevada que a poesia de seus precursores ainda apresentava.

O estudo de Paulo Andrade põe em destaque uma produção poética circunscrita a um campo de tensão – desvios e aproximações – tanto com a tradição moderna quanto com as propostas modernistas, que impossibilita a demarcação de limites para a classificação da obra de Sebastião Uchoa Leite. Não concebendo o modernismo como força propulsora, mas como forma, o poeta não descarta as conquistas de 1922 e das décadas seguintes, empenhando-se, porém, em transgredi-las, ao contaminá-las com referências de toda ordem, seja da alta cultura, seja de elementos líricos retomados de tradições mais antigas, como a obra de François Villon, seja da cultura de massa ou de linguagens as mais diversas. Ruminando o modernismo, mas centrado no contexto de seu tempo, o sujeito poético utiliza-se de uma linguagem concisa para expressar as preocupações em relação à cultura contemporânea, que faz dos signos e símbolos mera mercadoria.

O grande mérito do trabalho de Paulo Andrade é situar a obra de Sebastião Uchoa Leite nesse contexto específico. Por meio de minuciosa análise textual, de poemas selecionados de todos os livros, o crítico traça um roteiro de leitura que desnuda para o leitor os principais procedimentos técnicos, temas e motivos adotados pelo poeta para refletir sobre seu projeto poético e sobre o próprio sujeito lírico, que se oculta e se multiplica sob máscaras diversas na forma de serpentes, vampiros, personagens de quadrinhos e cinema e clássicos da literatura.

Maria Lúcia Outeiro Fernandes