O poeta-espião

Paulo Andrade · Capítulo 2 de 9

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O poeta-espião

Apresentação

 

Este livro, fruto da tese de doutorado (Silva, 2005), tem por objetivo analisar os procedimentos técnicos, temas e motivos construídos pelo poeta Sebastião Uchoa Leite para refletir sobre seu projeto poético e seu sujeito lírico, que se oculta e se multiplica sob máscaras diversas como serpentes, vampiros, personagens de quadrinhos, de cinema e clássicos da literatura. Trata-se de uma poesia, cuja voz se coloca em permanente desconfiança em relação ao mundo, ao outro e a si próprio. No percurso da análise, outros temas e procedimentos afins são abordados para articular a questão central. Entre eles, destacam-se o humor, a ironia, a autoironia e a relação, tensa, entre a retomada e a transgressão de certa tradição moderna, que faz do poeta um herdeiro singular de Paul Valéry, T. S. Eliot, João Cabral, Carlos Drummond, Manuel Bandeira e dos poetas concretistas.

Lendo retrospectivamente o conjunto de poemas produzidos em mais de duas décadas, o leitor notará que a escrita de Sebastião Uchoa Leite é um contínuo desdobrar-se em espiral. Mas a visível linha evolutiva não significa uma busca de novas formas de expressão por si, senão uma depuração de procedimentos que o poeta operou ao longo de quatro décadas, perseguindo os mesmos temas.

A obra de Sebastião Uchoa Leite, sobretudo a partir de Antilogia (1972-1979), livro em que o poeta começa a desenvolver dicção própria em relação aos escritos das duas décadas anteriores, possui forte relação crítica com a realidade, aliando poesia e pensamento.

Este livro organiza-se em quatro capítulos. No primeiro, há uma exposição do “projeto poético” de Uchoa Leite, destacando-se traços e metáforas recorrentes nos livros Antilogia, Isso não é aquilo e Cortes/toques, a fim de demonstrar que sua escrita desenvolve-se por meio de desdobramentos e transformações, embora mantenha uma coesão temática e estrutural a cada livro publicado.

O segundo capítulo amplia as discussões, ao eleger a configuração do sujeito lírico como o centro de nossas reflexões acerca da obra de Sebastião Uchoa Leite. Concentramos a análise na persona do voyeur, para discutir o modo peculiar de o poeta olhar a realidade e a si mesmo, expondo poeticamente experiências autobiográficas. Analisamos, nesse segundo capítulo, poemas de quatro livros: A uma incógnita (1991), A ficção vida (1993), A espreita (2000) e A regra secreta (2002), perseguindo o olhar à espreita e ambíguo que explora os jogos de duplicidade para observar o mundo, o outro e a si próprio.

Expandindo a questão, no terceiro capítulo, abordamos como aquele mesmo olhar lê, obliquamente, a tradição modernista brasileira e a vanguarda, ressaltando seu percurso de travessia e impasse, desvio e aproximação do poeta em relação aos modernistas. Nem continuidade nem ruptura: o que se apresenta na poética de Sebastião Uchoa Leite é uma insolúvel tensão diante de certas matrizes, sobretudo as linhagens cabralina e concretista, que faz dele uma voz singular no quadro da poesia brasileira contemporânea.

O quarto capítulo vem corroborar, no plano teórico, as discussões e análises em torno dos poemas. A intenção é mostrar que os entrecruzamentos de linguagens e as mesclas de territórios presentes na obra de Uchoa Leite constituem, ao lado do uso consciente de clichês, da desconfiança do novo, do questionamento da originalidade e da autoria, marcas do universo pós-moderno, em cujo contexto circula o sujeito lírico. O relacionamento do poeta com o passado não é marcado pelo desapreço ou pela agressividade, mas, ao contrário, apropria-se da tradição, devorando linguagens e discursos disponíveis em seu contexto cultural.