O poeta-espião

Paulo Andrade · Capítulo 4 de 9

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O poeta-espião

1 - A desdobra da obra (Antilogia, Isso não é aquilo e Cortes/toques)

1 – A desdobra da obra (Antilogia,

Isso não é aquilo e Cortes/toques)

 

mélange adultère de tout.

Trop cru, – parce qu’il fut trop cuit,

[...]

trop réussi, – comme raté

Tristan Corbière

Em 1988, a coleção Claro Enigma, da editora Duas Cidades, idealizada por Augusto Massi, reúne a produção poética de Sebastião Uchoa Leite de 1960 a 1988 no volume Obra em dobras, cujo título é revelador do plano de escrita perseguido pela notável consciência crítica do poeta. O título da publicação, que reúne seis livros, produção compreendida entre 1960 e 1980, é emblemático. Se o termo obra fortalece a ideia de unidade e continuidade do trabalho do artista, dobras, por outro lado, enfatiza os desdobramentos dessa unidade, forjando a identidade dessa escrita, marcada pela reflexividade, autorreferencialidade e reflexão crítica.

Neste capítulo tomaremos como corpus os livros Antilogia, Isso não é aquilo e Cortes/toques, que compreende a produção entre 1979 e 1988 de Sebastião Uchoa Leite. Analisaremos os três livros em conjunto, pois esta tríade possui afinidades temáticas, estilísticas e referenciais, constituindo um só corpo das obsessões do poeta. A análise em conjunto da obra possibilita agrupar temas e procedimentos que constituem o roteiro de ideias fixas presente nos livros, articulando, assim, forma e visão de mundo, cujo principal traço é a suspeita diante do real e da poesia como instrumento de transformação do homem e da sociedade.

Ressalte-se que, apesar das interligações formais e temáticas, os três livros em foco, não constituem uma orquestra em uníssono. Há entre neles há um movimento interno de mudanças de um livro para outro, que se tornam visíveis no ato de leitura. Dentro do rol de elementos predominantes em cada volume, destaca-se a problemática da identidade ambígua, autocorrosiva, que aparece em Antilogia e ganha densidade em Isso não é aquilo e são aprofundadas em Cortes/toques.

A ironia e o humor iniciados em Antilogia ficam mais acentuados nos livros seguintes, assim como a atitude antilírica avessa a imagens transcendentais, que elege a negatividade, as margens e os limites como procedimentos. A poética de Sebastião Uchoa Leite é refratária não apenas ao centramento do eu, mas às correntes essencialistas de poesia, senão vejamos o irônico “Não me venham com metafísicas” de Antilogia:

o corpo e a matéria em prosa

aqui e agora

nada de primeiros motores

nada de supremos valores

isso fica para os filhos da pátria

nem franscisco de assis nem santa

teresinha

amai-vos uns sobre os outros nada de temores e tremores

nem de noite escura da alma

a prosa é preferível

“sei de um estilo penetrante

como a ponta de um estilete”. flaubert

é só isso

(Leite, 1988, p.112)

O poeta recusa a poesia como meio de transmissão de conhecimento elevado ou com finalidade de busca da verdade (“os supremos valores”) ou a reflexão sobre o ser, para iluminar “a noite escura da alma” do leitor. Estes ficam para os “filhos da pátria”. Se pensarmos que Antilogia foi escrito na época endurecimento do regime, na década de 1970, o verso fica ainda mais corrosivo. O irônico e bem humorado trocadilho, “amai-vos uns sobre os outros”, famosa pichação dos anos 70, também rejeita a noção de fundamento metafísico, em favor do físico. Com o afastamento de temáticas sublimes, a própria poesia, como espaço portador de temas profundos, é desprestigiada: “O corpo e a matéria em prosa/Aqui e agora”. O projeto de recusa é, antes, de certa tradição de linguagem poética com seus temas universais e “profundos”. Daí o “Elogio da prosa”, poema de Signos e gnosis (1963-1970), escrito em 1963.

A prosa é uma bala. Cabala

controversa, cabala inversa.

A prosa é uma razão rasa,

sem melopéia ou centopéia.

A prosa é rara e clara, e fica,

transpondo o que a clarifica.

A prosa é uma rota ativa:

linha reta e não rotativa.

[...] (p.146)

A linguagem referencial da prosa (“a prosa não condiz, diz, / sem dicções nem condições”), destituída de enigmas, ornamentos, de significados metafóricos ou metalinguísticos é aqui celebrada, embora tal apologia acabe por intensificar a poeticidade do poema. É como se o poema rasurasse, na forma, o que prega no conteúdo, pois, ao contrário da prosa, que segue uma “linha reta”, e “clara”, aberta e destituída de melopeia, o poema “Elogio da prosa” é rico em recursos fônicos (ritmo, rima, aliterações, assonâncias).

A recusa da poesia “dita profunda” é reiterada em poemas como “Encore” (“toneladas de versos / ainda serão despejados / no WC da (vaga) literatura / plof!”). Já “A gosma do cosmo” vem assomada a visão escatológica sobre o lado nobre da vida, da história, da memória:

a asma e o espasmo dos orgasmos

miasmas e excrementos

moluscos e lesmas no musgo

moscas no visgo

despejos e despojos

a besta na bosta

piolhos e rabugem

o pus das vísceras

gorgulhos e borbulhos

dejetos e esponjas pegajosas

dos gargarejos cósmicos (p.113)

Mais que malabarismos verbais, o encadeamento sonoro acentua o grotesco e corrobora na recusa de um discurso poético do sublime, o que é confirmado pela escolha de um campo semântico povoado por lesmas, moscas, piolhos e dejetos orgânicos. Na galeria de bichos desprezíveis acrescente-se a este bestiário as baratas, que são enaltecidas em “Símbolos?”:

Elas são de alguma coisa.

Desorientadas

mas atentas

porque nos parecemos com elas.

Todas são paranóicas

mas

nada as destrói.

Sobreviverão:

às bombas de cobalto ou de nêutrons

às de radiação residual reduzida

às armas anti-satélite

aos lasers de raios X e de raios gama

[...]

Frequentaram a biblioteca da Babilônia.

Estiveram nas pirâmides de Quéops

Quéfrens e Miquerinos.

Grandes amigas da poesia

E do pó. (p.24)

Como os poetas, “desorientadas, mas atentas”, as baratas resistem e sobrevivem às tribulações e ao desgaste do tempo. Os versos de Tristan Corbière, que servem como epígrafe de Antilogia (1972-1979) e abrem este capítulo do livro, sintetizam os novos procedimentos do poeta a partir de então, marcando não somente a afirmação de uma dicção própria, mas de um projeto que predominará nos livros posteriores. A sua obra pretende ser “uma mistura adúltera de tudo”, à medida que busca corromper e transgredir discursos advindos de diversas fontes, corroborando, assim, o seu projeto de repúdio a enquadramentos disciplinares.

 

Problematizando a identidade

O sujeito é tema dominante na poesia de Sebastião Uchoa Leite, mas a sua configuração e forma de problematização sofrem alterações no decorrer do seu percurso. Há rastros que permanecem de um livro a outro, demonstrando a obsessão do poeta por certos temas, que dão coerência a sua obra e fazem dela o grande texto, permitindo ao leitor fazer um movimento circular entre presente-passado-presente.

O eu lírico da poesia de Sebastião rejeita a poética de autoexpressão, que marcou a poesia marginal dos anos 70, e assume o uso de máscaras que se desdobram em muitas outras. É importante ressaltar a diferença em relação ao “eu malandro” e confessional dos poemas de Chacal, Charles ou BernardoVilhena, e ao ego onipotente da poesia de Paulo Leminski (Süssekind, 1985, p.81).

Como observa Süssekind, a redefinição do sujeito, no final dos anos 70, não é uma busca particular de Sebastião. Apesar de ser uma questão central em sua poesia, a preocupação em redefinir o sujeito esteve no centro de preocupações de vários poetas, chegando, em muitos casos, a resultados parecidos, como os famosos “diários” de Ana Cristina César, cuja subjetividade é antes de tudo literária, ou as obras Crescendo durante a guerra numa província ultramarina (1978), de Silviano Santiago, e À mão livre, de Armando Freitas Filhos, para citar alguns.

Antilogia é uma livro em que a problemática do sujeito não se apresenta nem pela despersonalização, nem pelo eu centralizador e subjetivista dos anos 70, mas com base num permanente jogo de ambiguidades, cujo poema “Metassombro” é bom exemplo:

eu não sou eu

nem o meu reflexo

especulo-me na meia sombra

que é meta de claridade

distorço-me de intermédio

estou fora de foco

atrás de minha voz

perdi todo o discurso

minha língua é ofídica

minha figura é a elipse (p.132)

Estamos diante de uma estranha contemplação narcísica. Se o “reflexo é ao mesmo tempo uma identidade confirmada (pelo reconhecimento) e uma identidade roubada, portanto contestada (pela própria imagem)” (Genette, 1972, p.25), o oxímoro do verso de abertura já contesta tanto a identidade quanto seu reflexo. Um duplo que não é o mesmo nem o outro, daí o tom de assombramento explicitado no próprio título.

Podemos entender o verbo especular tanto no sentido daquele que olha para dentro quanto no sentido de espelho, originado de

speculum 1 , daquele que olha para fora, em busca de sua imagem. Tomado no segundo sentido, a sua superfície está longe de ser diáfana, já que a imagem refletida marca uma presença à “meia sombra”. Desse modo, o espelho, motivo tão explorado na tradição romântica, decadentista e mesmo modernista, não funciona, nos versos de Sebastião Uchoa Leite, como metáfora de autoconhecimento ou como instrumento de revelação de alguma verdade relativa ao ser. O ato de se deparar frente a frente com o espelho possibilita-lhe formar consciência da mutabilidade do “real” e de si mesmo, pois, cada vez que o sujeito se vê no espelho, ele se depara com um outro, que é o mesmo. O espelho, portanto, traz sempre um duplo questionamento de identidade.

O eu lírico de “Metassombro” constitui-se como identidade multiforme, problemática e paradoxal. As ambiguidades proliferam nos jogos de significantes: não se sabe se é “é meta de claridade”, um eu que tem na iluminação um alvo a ser atingido (“meta de”) ou um eu que se posiciona entre a luz e a sombra, (“metade”) claridade. Seja qual for a opção interpretativa do leitor, permanece a elipse do eu.

O não se revelar em presença, o posicionar-se “fora de foco” faz com que a voz fale por si, excluindo a marca da pessoa que fala. A impotência do eu em se manifestar e a incapacidade para se expressar (“perdi todo o discurso”) corroboram uma poética que se caracteriza pelas imagens que expressam sinuosidade e pelo uso da elipse, como enfatizam os versos finais: “Minha língua é ofídica/Minha figura é a elipse”.

A serpente, que será aprofundada adiante é uma imagem significativa para se entender a reflexão poética empreendida por Sebastião. Se expandirmos o campo semântico de “língua ofídica”, o verso alcançará sentidos como discurso, linguagem, a sinuosidade, o imprevisível, hostilidade. Todos esses atributos ajustam-se a um “eu” desfocado, que funciona como causa motriz da poesia de Sebastião, com seus recursos de ocultamentos e disfarces, que se sucedem e se multiplicam, remetendo à problematização dos limites entre o real e o imaginário, que também está engendrada na discussão sobre a identidade e o duplo. Daí que o oximoro, enquanto figura de negação de um dos termos, seja recorrente em sua obra.

A língua ofídica, expandida em seu campo semântico, alcança sentidos como discurso, linguagem, enfatizando o enigmático, a sinuosidade, o imprevisível, bem como a hostilidade contra o outro (o leitor?) e, contra si mesmo. Esses termos ajustam-se à identidade do “eu” desfocado e funcionam como causa motriz da poesia de Uchoa Leite, com seus recursos de ocultamentos e disfarces, que se sucedem e se multiplicam, remetendo à problematização dos limites entre o real e o imaginário, que também está engendrada na discussão sobre a identidade e o duplo. Daí que o oximoro, enquanto figura de negação de um dos termos, seja recorrente em sua obra.

No ensaio sobre o comics Krazy Kat, personagem criado por George Herriman e editado por mais de trinta anos na imprensa americana, Sebastião Uchoa Leite analisa diversos procedimentos recorrentes nessas histórias, tais como os jogos de despistamentos, que se sucedem e se multiplicam, remetendo ao questionamento das fronteiras entre real e ilusório, tema que está engendrado na questão da identidade e do duplo. À semelhança de Krazy Kat, o eu lírico de “Metassombro” suscita o mesmo oxímoro: “eu não sou eu”.

O fascínio que a dupla identidade exerce sobre o poeta é marcante em todos os seus livros. Em Cortes/toques (1988), os jogos de equívoco e disfarces ganham ainda relevo em poemas como “O espelho obscuro” (p.33), texto em prosa que faz uma espécie de resenha do filme dos anos 40, Dark Mirror, cuja versão brasileira ficou “Espelho d’alma”. O filme analisado pelo poeta narra a história das irmãs gêmeas, iguais em tudo, exceto a alma, ambas interpretadas pela atriz Olivia de Havilland:

A assassina e a inocente, a psicopata e a vítima, iguais e o

reverso uma da outra. O que é igual à ideia do espelho,

insinuado como a metáfora do limite e da morte. A imagem

diante do espelho: o seu igual e a sua negação. Desde o início

sabe-se que uma encobre o que a outra fez, que uma matou e

a outra oculta o crime, só não sabe quem é quem, o espelho

sendo a morte da individualidade. Não se sabe qual está do

lado de cá – o da inocência – e o que está do lado de lá – o do

reverso perverso. A trama joga com a dúvida. Quem revela e

quem engana? Quem é amada e quem é temida? Quem

estremece diante da palavra espelho? O duplo sentido da alma

e do seu contrário. [...] A trama joga com o sorriso da assassina

e com o medo da cúmplice-vítima. O medo transforma-se na

verdade da norma, enquanto o sorriso pode ocultar o outro

lado. É no equívoco entre os dois que se encontra o enigma.

(1988, p.33)

A problematização da identidade é explorada no gênero textual (afinal é um poema em prosa ou uma resenha sobre o filme Dark Mirror?) e no título: “Espelho obscuro”, que se desvia tanto do título do filme em português (“Espelho d’alma”) como do título original (“Dark Mirror”), uma vez que “obscuro” pode ser lido como dark, mas também como enigmático, ininteligível, confuso. Numa estranha subversão da lógica, o texto ressalta as cumplicidades possíveis entre imagens incompatíveis, mas interligadas umas às outras: “a assassina e a inocente, a psicopata e a vítima, iguais e o reverso uma da outra” (1988, p.33).

Os jogos de duplicidades e ocultamentos estão presentes ainda em “As relações perigosas”, espécie de resenha crítica sobre o filme Black Widow. Neste texto, duas mulheres opostas – a “agente, símbolo da ordem, e a criminosa, metáfora da desordem” – confrontam-se, “almas e corpos”. “Quando a assassina revela o jogo é a outra que está por atrás das grades, ironicamente” (1988, p.34). São poemas que questionam tanto a natureza tangível do real, passível de ser tomado como objeto de representação e matéria de enunciados verdadeiros, quanto a autonomia do homem, como razão ou espírito, apto a captar no espelho dos conceitos a essência transparente da realidade.

 

Vampiros: teatro de sombras

As máscaras tomam nestes três livros as mais variadas formas: Drácula, Frankenstein, Nosferatu, Dr. Hyde, serpentes, personagens de histórias em quadrinhos, de clássicos da literatura e do cinema, identidades que se assemelham pela via da insubordinação e da rebeldia, como se lê em “V internacional”:

antes que eles destruam vocês

atenção amigos ocultos

drácula

nosferatu

frankenstein

mr. hyde

jack the ripper

m – o vampiro de dusseldorf

monstros do mundo inteiro:

uni-vos! (p.136)

Essa empatia e defesa dos “amigos ocultos”, “monstros do mundo inteiro” demarcam a postura de um eu desajustado, cujas máscaras constituem eficiente recurso para representar a postura de distanciamento irônico, como resposta defensiva. O poema 3 da série “Take-off” é bem ilustrativo deste eu guiado pela negatividade.

que esperam de mim?

não me puxem pelo braço

sou revel

a minha consciência é o verme

e eu sou o cria corvos (p.130)

Organizados dentro de um princípio de paralelismo, os versos são dirigidos a uma terceira pessoa, estabelecendo uma relação de resistência (“que esperam de mim? / [...] / não me puxem pelo braço”) e ameaça (“sou revel, sou o cria corvos”). Há uma insistência em se autodefinir como caricatura hostil, distante e ameaçador, consolidando uma poética de antivitalismo.

Inevitável não ouvir os ecos de “Tabacaria” e de “Lisbon Revisted” (na versão de 1923), ambos do heterônimo Álvaro de Campos, outro rebelde e questionador como se pode conferir na primeira estrofe:

Não sou nada

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

Ou pelos primeiros versos de “Lisbon Revisted”:

Não: não quero nada.

Já disse que não quero nada.

[...]

não me peguem pelo braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sòzinho.

Já disse que sou sòzinho

Tanto no heterônimo pessoano quanto no sujeito lírico de Sebastião Uchoa Leite há um paradoxo, pois ao se autodenominar “revel”, o “cria corvos”, afirmam como presença, ainda que pela negatividade. Mais rebelde que o heterônomo pessoano, as máscaras construídas por Sebastião querem ser abjetas e desprezíveis, sempre procurando se colocar como caricatura burlesca, auto depreciativa:

há quem faça obras

eu apenas

solto as minhas cobras (p.129)

A expressão “soltar cobras” – dizer coisas ofensivas ou injuriosas a respeito de uma pessoa ou coisa – corrobora a poética antilírica. Esta sua postura de se contrair num núcleo defensivo, num certo tipo de recolhimento para, a partir dele, destilar escárnio e provocação é bem visível em “Complainte de nosferatu”, de Isso não é aquilo:

sou o pele pálida

o espalha-ratos

com unhas e dentes

isto é:

o que não é (p.72)

A valorização das categorias negativas é sistematicamente perseguida pelo poeta. Veja outro poema da série “Take-off”:

já vivi duas vezes

e sonho com a terceira vida

visível só como sombra (p.130)

É inevitável ler estes versos e não relacioná-los com a condição do vampiro. Todos os poemas que figuram na seção “Não”, do livro Isso não é aquilo investem nesta estética da negatividade. Não por acaso, neste conjunto de poemas, a imagem do vampiro é a mais ressaltada. A figura do vampiro é uma das imagens que mais sofrem metamorfoses dentro deste conjunto de máscaras criadas por Sebastião: ora aparece como figura sombria, mensageiro das trevas, antissocial, que vive escondido e errante, ora como figura irônica, irreverente, zombeteira, persona non grata, como em “He rides again”:

ah enfim

enfiaram a estaca

bem no fundo hein?

deixa estar

volto em 2079

mais afiado (p.70)

Tipo rebelde, o vampiro não atenua sua atitude irônica e mordaz diante das ameaças, retirando-se de cena para voltar em 2.079, um século após a data da escrita do poema, ainda mais, “mais afiado”. Como figura marginal, o vampiro na poesia de Uchoa Leite é comparado ao ator, como ressalta o comentário de Luiz Costa Lima:

O vampiro, na poesia de Uchoa Leite, é vizinho do gângster do

cinema. Insistir em seu caráter de ator significa não só acentuar

a copresença da ironia distanciadora, como destacar a

diferença da poética átona de certo vitalismo que exalta o

marginal e o criminoso enquanto operadores estéticos. (Lima,

1991, p.175)

O vampiro dramatiza no espaço do texto papéis que expressam conotações de desajustamento e de repulsa, como o protagonista de “Plaisirs d’amour”.

na transilvânia

em esquife esquálido

só acordo nos pesadelos

dos mortais normais

minha norma é não ser

mas ao vê-la

a efígie em medalha

adoeço da mortalidade

embarco espalho ratos em meu rastro

enfim te avisto em reflexos

a mão sobre o peito exangue

enlouquecendo desse sangue

transporto-me para o teu quarto

unhas em pique

dentes em ponta

mas quando o galo canta

desapareço em chamas (p.71)

Esse eu define-se como um “não ser”, que não significa ausência, o nada, mas o devir aquilo que não é, mas que deverá vir a ser. No caso do vampiro sabemos que não tem uma identidade fixa, mas multiforme: à noite transforma-se em morcego, em fogo, em lobo, em cachorro, além de exercer o comando sobre certas forças da natureza. Com efeito, o vampiro é uma metáfora produtiva também para definir esta escrita que “morde tudo o que pode”, que vampiriza textos alheios. Uma vez apropriados, esses textos tornam-se contaminados e, por fim, reescritos e desdobrados pelos novos sentidos que suscitam.

Tal como o vampiro, este eu lírico também atua nas sombras. Diante de uma possível identificação, busca desvios e subterfúgios na própria linguagem, escondendo-se atrás do discurso. Nestes poemas que abordam a temática do vampiro há uma solidariedade entre o desaparecimento da imagem do eu e a sua duplicação – como se a imagem desaparecida fosse viver a sua vida própria. O eu duplicado vive “só metade”, como intermédio. O poema “Drácula”, publicado em Antilogia, no qual aparece pela primeira vez a imagem do vampiro, é exemplar neste aspecto:

esvoaço janela adentro

estou aqui ao lado

do teu pescoço longo e branco

com meus dentes pontiagudos

para esse coito tão vermelho

você desperta em transe

esvoaço outra vez

à meia luz dos lampiões

de volta à minha máscara

quando entro na sala

com a cara distinta e lívida

de olheiras esverdeadas

a minha imagem em negativo

não se reflete no espelho

você solta um grito de horror

esvoaço janela a fora (p.126)

O pacto de não-identificação, já ressaltado em “Metassombro” e em “Plaisirs d’amour”, ganha materialidade neste poema. Todas as vezes que a vítima está prestes a se deparar com o vampiro, ele esvoaça para outro ponto. Note-se que as aliterações em /s/ reforçam o caráter deslizante do vulto, demonstrando um eu escorregadio que não almeja ser visto.

O motivo volátil é reforçado pela recorrência do verbo “esvoaçar”, que abre o primeiro verso e se repete tanto no meio do texto, quanto no verso final que, por sua vez, não fecha com “chave de ouro”, mas, ao contrário, configura-se como ponto de fuga (“esvoaço janela a fora”). O poema termina da mesma forma que começou: com a “presença” de um eu fugidio e sem origem. Por outro lado as assonâncias em /a/ e /o/ reforçam o jogo ambíguo entre a sonoridade aberta e fechada, que incitam no leitor a percepção do jogo de imagens que conotam luz e sombra (“esvoaço”, “adentro”, “lado”, “pescoço longo e branco”, “coito”, “máscara”), ressaltando a oposição entre o lado de dentro e o lado de fora.

O estrato fônico da palavra “esvoaço” além de fornecer indícios para o traço deslizante do texto, permite-nos detectar várias chaves para a apreensão dos significados do poema. O primeiro fonema [e] é uma vogal átona fechada. Em seguida, seguem duas consoantes fricativas, [s] e [v] (esvoaço). Após a vogal fechada [o] a palavra ganha intensidade sonora a partir da tônica aberta [a] (esvoaço), para, em seguida, voltar com mais um som “deslizante”, um som fricativo [s], e finalizar com um fonema fechado [u]. Em resumo, a palavra começa fechada, “alça vôo” e se fecha novamente: (es-vo-a-ço).

Longe do lendário Drácula dos Cárpatos, sombrio e sedutor, este é zombeteiro e gozador: diverte-se em não ser visto, já que a sua imagem aparece em negativo e não se reflete no espelho. A imagem não é fonte de identificação, ao contrário, o vampiro se evade todas as vezes que há possibilidade de ser reconhecido. Desse modo configura-se um eu fluidificado, que se esvazia de substância, sem deixar de estar presente.

Como muito bem observa Luiz Costa Lima (1991, p.174-75), “a imagem do vampiro vem confirmar uma poética que se afinca na dissolução do eu”, encarnando, assim, a “metáfora de um eu cuja ausência fora pretendida”, demonstrando, assim, que a desintegração do sujeito é uma decorrência da fragmentação da linguagem: “a dissolução do ego ocorre à medida que se efetua a destruição da linguagem que o conota – da linguagem que supõe a sua centralidade e a excepcionalidade de quem a compõe” (ibidem, p.169).

 

As serpentes: uma poética de deslizamentos

Nestes três livros – Antilogia, Isso não é aquilo e Cortes/toques — é possível notar uma conexão entre a serpente com a constituição do sujeito lírico. Ao eleger a serpente como um dos temas centrais de sua poesia, o poeta-crítico elabora uma série de poemas metalinguísticos, tal como “Biografia de uma idéia”, e, com base num restrito repertório de símbolos (palavras, ideias, serpentes, poemas), o poeta desenvolve uma reflexão em torno dos temas afins:

ao fascínio do poeta pela palavra

só iguala o da víbora pela sua presa

as idéias são/não são o forte dos poetas

idéias-dentes que mordem e se remordem:

os poemas são o remorso dos códigos e/ou

a poesia é o perfeito vazio absoluto

os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou

erupções sem larva e ejaculações sem esperma

ou canhões que detonam em silêncio:

as palavras são detonações do nada ou

serpentes que mordem a sua própria cauda (p.115)

Os dois versos iniciais ressaltam a palavra em sua materialidade, enquanto o terceiro, reafirmando a força da palavra em detrimento das ideias, confirma o seu paradigma cabralino-concretista. As palavras em sua autonomia e autorreferencialidade constituem o fascínio do poeta. Necessário se faz evocar a já desgastada frase de Mallarmé: “poesia se faz com palavras e não com ideias”. O discurso poético em questão concebe o poema como um fato material, rejeitando a concepção de poesia como expressão do pensamento/sentimento autoral.

“Biografia de uma idéia” interroga a um tempo a função da literatura e o papel do escritor. Se palavra é sua matéria-prima, o poeta desconfia de sua capacidade, enquanto intermediária entre o homem e a realidade e de sua eficácia enquanto interventora do eu no mundo, afinal, poemas são “canhões que detonam em silêncio”, o que equivale dizer, com Rodrigo, narrador de A hora da estrela, “quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo”. Não por acaso, o sem sentido de escrever é tema recorrente da sua estética: “quem falou em poesia? / Alguém cospe” (Leite, 2000, p.80).

A reflexão sobre a impotência do discurso poético é uma temática que permeia a poesia de muitos poetas brasileiros nos anos 70, como se pode ler em “Termo de responsabilidade”, de José Paulo Paes (1973, p.59):

mais nada

a dizer: só vício

de roer os ossos

do ofício [...]

silêncio

por dentro sol de graça

o resto literatura

às traças

Veremos a seguir alguns poemas que discutem essa poética deslizante, começando com “Enroscando no serpens”, publicado em Cortes/toques, texto que revela a autoconsciência do poeta enquanto ser no mundo:

Eis-me: o eu-em-si

monstro

enroscado em silepses

ensimesmudo

no sono eulemental

entre as vias venenosas

de pesadelos cogumelos

apocalípticos euclípticos.

Eis-me: todos-os-eus

euscatológico

eucríptico

eu-fim. (p.18)

Longe de significar um alto grau de centramento ou puro exercício narcísico, a inserção da primeira pessoa na formação dos vocábulos tem como intenção promover uma redefinição hostil e agressiva de si mesmo. Ao revelar todos-os-eus de sua identidade multiforme, o sujeito poético descreve com humor um eu escatológico e “críptico” que busca sempre esconder-se em criptas, grotas, adotando um estilo gauche e burlesco, ao se definir. A serpente é encenada em sua postura escorregadia, deslizante, cujo efeito, materializado pelas sibilantes em [s], atravessa todo o texto ampliando o traço de sinuosidade, e por sua vez, de dissimulação. Como se pode ler em “Outro esboço”, publicado em Cortes/toques:

A serpente semântica disse:

não adianta querer

significar-me

neste silvo.

Meu único modo de ser é a in

sinuosidade e a in

sinuação.

Não é possível pensar

a verdade

exceto como veneno. (p.20)

O título já entrega a referência a “Ébauche d’un Serpent”, de Paul Valéry, que exerce forte influência em Sebastião, tanto como poeta, quanto como crítico. O longo poema de Valéry, publicado na coletânea Charmes, tem como temática o mito bíblico – o Demônio, sob a forma de uma serpente:

Cobra serei, mas cobra arguta,

Cujo veneno, ainda que vil,

Deixa longe a douta cicuta!

Neste poema, a serpente faz crítica à criação de Deus;

Que o mundo é apenas um defeito

Ante a pureza do Não-ser!

Além de dialogar com Eva e recordar como a seduziu no Jardim do Éden, o Demônio invoca e desafia a Árvore do Conhecimento a dar outra coisa que não sejam frutos de morte. A intenção de Valéry, segundo Robert Monestier, retomado por Augusto de Campos, foi realizar uma peça num tom sarcástico na primeira parte e suave na segunda, servindo-se de todo arsenal de artifícios e refinamentos da palavra: cortes e suspensões, alusões, trocadilhos, repetições, aliterações, metáforas, enfim, recursos em que o sedutor é mestre. “Seu monólogo passa por todos os estágios da voz humana, da ternura à cólera, do desafio à hipocrisia, da eloquência à persuasão, da tristeza ao orgulho, do grito à argumentação, numa ironia quase contínua” (Campos, 1984, p.17).

Em “Outro esboço”, Sebastião Uchoa Leite recupera, em seu estilo minimalista, o essencial do poema de Valéry. No aspecto formal são reaproveitadas as aliterações em [s], que salientam o movimento deslizante. Os cortes e suspensões dos versos reforçam a insinuosidade e ampliam o clima de sedução e sensualidade, centrais também no poema de Valéry. No plano do conteúdo verifica-se a recuperação do discurso filosófico e o tom sarcástico e desafiador da serpente valeryana e sua impossibilidade de significação, (“Meu único modo de ser é a in/sinuosidade e a in/sinuação.”).

Questões relativas à poesia e pensamento, mais que tematizadas, são encenadas no poema. Capciosas e astutas, linguagem e serpente metamorfoseiam-se no espaço do poema. Chamamos atenção ainda para a assertiva dos últimos versos: “Não é possível pensar/a verdade/exceto como veneno.

O poeta desestrutura o conceito de verdade como adequatio, isto é, como adequação da inteligência ou da razão à coisa. Vale lembrar o clássico ensaio “Sobre a essência da verdade” (1930), no qual Heidegger discute o critério da concordância (omóiosis) do enunciado para com o seu objeto, ou seja, da enunciação do discurso ao referente: “uma enunciação é verdadeira quando aquilo que ela designa e exprime está conforme com a coisa sobre a qual se pronuncia” (Heidegger, 1979, p.133).

No poema em questão, o silvar da serpente, que garantiria a conformidade com a serpente, ou definiria a concordância da coisa à ideia, é rasurado. Isto se comprova com a própria declaração categórica da serpente: “não adianta querer/significar-me/neste silvo”. A relação proposta entre o enunciado e seu objeto é de apresentação, tendo em vista que um enunciado apenas pode ser considerado verdadeiro quando está de acordo com a essência do objeto ou coisa. Dentro da concepção tradicional de verdade é verdadeiro aquilo que concorda (coisa e essência ou coisa e enunciado), ou, como diz Heidegger, “a enunciação apresentativa exprime, naquilo que diz da coisa apresentada, aquilo que ela é, isto é, exprime-a tal qual é, assim como é”. (Heidegger, 1979, p.135). No entanto, a serpente do alerta para a impossibilidade dessa concordância entre a coisa e o enunciado, considerada uma chave para o deciframento do seu ser por meio da linguagem (do seu silvo).

A postura da serpente afasta-se da noção mimética da linguagem como representação, pois não estabelece relação entre a enunciação (o silvo) e a coisa (a serpente). A verdade da serpente não está em conformidade com o real, já que a sua forma de ser é a (in)sinuosidade. A voz lírica, antiessencialista, passa a definir a verdade como jogo de ocultação e desvelamento.

Convicta do caráter sinuoso da natureza da verdade e do real, a serpente insiste na impossibilidade de interpretá-la, pois pensando com Vattimo, “não se pode pensar a verdade como uma estrutura estável, mas sempre como (um) evento” (1987, p.56). A poética da serpente encara a linguagem da poesia como dissimulação e o poema como um engodo, como se vê no poema denominado simplesmente “Esboço”, de Cortes/toques

Se você pensa

que poesia é escamoteação:

acertou:

Metafísica é a meta dos mandriões.

Mas se pensa

que é um escaveirado corrupião:

acertou também.

Linguagem é a mira dos idiotas. (p.19)

Outra referência ao “Esboço de uma serpente”, de Valéry, este poema concentra-se na reflexão sobre a linguagem poética, construindo uma espécie de “profissão de fé” sebastiânica. Chamando a atenção para o status da poesia, ele põe sob suspeita a noção de verdade e faz deste tema um mote de seus versos. A palavra é assumida como escamoteação e a poesia como um discurso cujo objetivo é encobrir os sentidos do real. Por isso, ele zomba da poesia voltada para o transcendente e sensações abstratas, tratada como sintoma de poetas ociosos.

O “corrupião” é outra imagem utilizada para designar a poesia. Ave popularmente conhecida como “sofrê”, o corrupião é famoso pelo multicolorido da plumagem e beleza do seu canto. Mas este corrupião, utilizado como metáfora da poesia, é despojado dos seus adornos naturais, para se assemelhar a uma caveira, imagem de desconforto e negatividade.

Continuando a investigar a figura da serpente associada à linguagem da poesia, é produtivo ler outro poema metalinguístico “Noten zur Dichtung 2”:

As idéias são como sombras

As palavras são como cobras

Nada ilumina nem descobre

Tudo morde: é veneno e sono

O poético é como a lesma

E a melódia é como o visgo

Nada muda: é a mesma receita

Tudo é concreto e tudo é símbolo

Os conceitos são escorpiônicos

Que se ferram porque letais

Os poetas meros espiões

Preocupados com as chaves

As idéias são morcegos cegos

As palavras são caramujos

Nada é claro nem se revela

Pois tudo é nada e nada é tudo (p.51)

Palavras, ideias, sombras, cobras, veneno, espiões, morcegos e caramujos são alguns dos temas recorrentes no repertório das ideias fixas do poeta. Vale destacar o primeiro verso: “As idéias são como sombras”. Se classicamente, a ideia designa uma representação mental, uma imagem, ou um conceito acerca de algo no universo de Sebastião a concepção de ideia está relacionada à obscuridade. Os morcegos, os signos, as ideias, as palavras, as cobras, o caramujo, pertencem ao mesmo universo poético de Sebastião Uchoa Leite. Todos se inter-relacionam, provocando o efeito de sinuosidade, recolhimento e opacidade.

As ideias e as palavras são venenos, pois perturbam a percepção acerca do real. Manteremos, para efeito de produtividade da análise, a ambiguidade de veneno que pode significar substância tóxica e antídoto. Chama-nos a atenção os últimos versos de “Outro esboço”, afinal, o que significa pensar a verdade como veneno? Seria o veneno a própria poesia, partindo do princípio de que a verdade só existe se concebida como jogo de ocultação e desvelamento, intrínseco à linguagem poética? Para chegar a verdade é preciso corroer o real e a palavra, para que ela, a verdade, se “insinue” na estrutura visível.

“Questões de método (carta a Régis Bonvicino)”, de Isso não é aquilo é outro poemas que aborda o conceito de verdade como “ilusões, das quais se esqueceu que o são” ou “metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível” (Nietzsche, 1978, p.48):

um monte de cadáveres em el salvador

– no fundo da foto

carros e ônibus indiferentes –

será isso a realidade?

degolas na américa central

presuntos desovados na baixada

as teorias do state department

uma nova linha de tordesilhas

qual a linha divisória

do real e não real?

questão de método: a realidade

é igual ao real?

o homem dos lobos foi real? o panopticum?

o que é mais real: a leitura do jornal

ou as aventuras de indiana jones?

o monólogo do pentágono ou

orson welles atirando contra os espelhos? (p.93)

A definição nietzschiana de verdade revela-se importante clave para a leitura do universo poético de Uchoa Leite, que também entende a verdade como um jogo retórico e resultado da interpretação dos fatos.

O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas,

metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações

humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente,

transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um

povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são [...]

moedas que perderam sua efígie e agora só entram em

consideração como metal, não mais como moedas. (Nietzsche,

1978, p.48)

A interpretação, por sua vez, está relacionada a uma ilusão de que o sujeito pode construir significados sobre o mundo, pois na base da interpretação há sempre o desejo de que uma versão seja a verdadeira.

 

A corrosão dos clichês metafóricos:

procedimentos paródicos

A paródia é outro procedimento usado por Sebastião para incorporar referências da tradição. O poema “O doce estilo novo”, de Isso não é aquilo (1988), ilustra bem essa corrosão de clichês metafóricos utilizados pelo poeta. O famoso poema “Ars poétique”, de Paul Verlaine, no qual o poeta francês aconselha a torcer o pescoço da eloquência (“Toma a eloquência e torce-lhe o pescoço! / Tu farás

bem, com toda a energia, / Em tornar a rima um pouco razoável”)2 é a base para a composição de “O doce estilo novo”.

torce o pescoço dos mistérios

de enganosa plumagem

de cisnes e galináceos

dos ministérios (p.91)

O termo renascentista que traz novo modelo de formas literárias, como o soneto, é utilizado para satirizar a concepção conservadora e petrificada de poesia. A sátira em Sebastião não tem função moralizadora nem corretiva, como é convenção no gênero, embora tenha um compromisso ético com a realidade presente. A veia satírica do poeta mira contra a postura tradicional adotada e repetida pela literatura “dita profunda”, que se esconde sob falsa pompa e “plumagem”.

Se o cisne está relacionado a imagem de “nobreza” na história literária, o poeta lembra também dos galináceos, espécie domesticada despida da nobreza e elegância do cisne. Ao retomar as imagens já calcificadas pela tradição, Uchoa Leite acaba por reintroduzir “todas as obras que usaram esta metáfora famosa e consegue assim renovar o patrimônio literário onde foi colhê-la”, observa Friedrich Frosch (2002, p.54). Ainda sobre este poema, o crítico suíço ressalta o modo como o poeta atinge a esfera política, uma vez que o poema “fustiga também a linguagem mentirosa e repetitiva da esfera político-burocrática”.

Esta mesma temática é reiterada, com variações, em “Cisne”, publicado em A uma incógnita (1991a):

Primeiro

O cisne se evade

Depois é um cisne de outrora

Depois torcem

O pescoço da plumagem

A eloquência da linguagem

Enfim torcem

O pescoço do cisne (p.14)

A paródia reativa a imagem do cisne, deslocando-o para outros contextos e promovendo um distanciamento crítico dos textos evocados, sobretudo o de Baudelaire e o de Mallarmé. No Brasil, o tema já havia sido abordado por José Paulo Paes no epigrama “Lápide para um poeta oficial”: “a morte enfim torceu / o pescoço à eloquência (1973, p.13).

A obra de Sebastião desvela um exercício da reescrita da cultura e da tradição literária pela via da paródia, da ironia, do humor negro, por meio do jogo de citações retiradas da tradição moderna. Fruto de uma sociedade em que a arte fragilizou a sua função utópica, a sua poesia dramatiza o desencantamento, ao juntar peças de “uma enunciação amarga dos mitos perdidos, tais como utopia, nação, terra brasílica tropical e cordial”, como lembra Suzi Sperber (1992).

A série de poemas Pequenos Venenos (em cinco pacotinhos) publicada em Antilogia é revelador da postura cética e irônica desse anti lírico que se mostra incapaz de alimentar qualquer confiança no futuro. Anti utópica, sua poesia não abre espaço crenças como a transformação reformadora num mundo cada vez mais instável e inseguro. O poema “Nova nietzscheana” é exemplar nessa abordagem de crítica da realidade, acompanhada de desencanto pelas utopias:

Não me sinto esmagado

Pela sensação do nada

mas esganado pelo futuro

que a deus pertence (p.124)

Nota-se que a angústia não é de ordem metafísica, uma dor que se advém do tédio ou do vazio interior. A angústia, neste caso, é externa e é causada pelas constantes instabilidades do mundo. Este poema é uma releitura de “Nietzschiana”, de Manuel Bandeira, publicado em Estrela da manhã (1936):

– Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!

– Já sei, minha filha [...] É atavismo.

E ela reluzia como as mil cintilações do Êxito intacto.

Se o vazio da existência constitui tema central para Manuel Bandeira, o assunto ganha outro enfoque nas mãos de Sebastião Uchoa Leite. Isso é óbvio uma vez que as visões de mundo são inteiramente distintas, sobretudo de contextos e referencias, embora Bandeira exerça notável influência sobre a poesia de Uchoa Leite. Na época em que o texto do poeta modernista foi escrito, vivia-se a euforia das conquistas tecnológicas do século que começava. O futuro e o otimismo no progresso social e econômico não se mostravam ameaçadores, como se apresenta para o homem da virada do século XX para o XXI.

Os cinco curtos poemas que compõem a série apresentam forte teor irônico ao dialogar, pela via da paródia, com a tradição literária e cultural. Olavo Bilac, Edgar Allan Poe, personagens clássicas da bossa nova e do cinema são vozes “transcontextualizadas”, (Hutcheon, 1985, p.22), reelaborados, parodicamente, pelo poeta. Os poemas constituem-se de excertos de discursos que são retomados e subvertidos, de modo irônico, e que nos apresenta outra face do Brasil moderno e otimista do milagre econômico, como em “Ora, direis, ouvir estrelas”:

ele ainda espera

ver contente a mãe gentil

nas margens plácidas

desses tristes trópicos (p.123)

Estes quatro versos montados como um mosaico de citações amargas e antinativistas faz recircular uma visão do poeta sobre o Brasil. O título (“Ora, direis, ouvir estrelas”) é extraído do clássico homônimo de Olavo Bilac. O segundo verso do poema é uma citação do Hino à Independência e o terceiro uma referência ao Hino Nacional. Se a função de um hino é exaltar à pátria, aqui há um rebaixamento de sua função, ao transformá-lo em canto amargo e sem esperança, confirmado, em seguida pela referência a Tristes trópicos (1955), no qual Lévi-Strauss relata as experiências que fizeram parte de sua expedição pelo Brasil e, em muitos momentos, faz observações negativas a respeito do modo de vida de alguns estados brasileiros.

O mesmo procedimento é utilizado em “Prefiro rosas, meu amor, à Pátria”, onde o ceticismo é ainda mais radical:

never more!

mas ainda se ouvem as gralhas

deste solo pútrido (p.123)

A gralha substitui o célebre corvo do poema “The raven”, de Edgar Allan Poe, cuja obsessiva repetição da expressão-chave (“never more”) também nega a esperança na terra tupiniquim. Em “Crítica da desrazão”, de Isso não é aquilo, as apropriações de versos continuam embora a preocupação não seja mais o País. Os versos confessionais revelam como o poeta começou a assumir um universo poético anti-homogêneo, em que as regras não eram mais buscadas:

no meio do caminho

perdi-me na floresta negra

e não soube mais a regra

só havia o tantra e a água primeira

e naufragar-me era doce

nesta dialética. (p.99)

“No meio do caminho / Perdi-me na floresta negra”, são os versos que abrem A Divina Comédia, de Dante Alighieri (“A meio do caminho desta vida / achei-me a errar por uma selva escura”), já retomados por Carlos Drummond de Andrade. No livro de Dante, este verso é uma representação alegórica dos vícios e erros humanos, do pecado. Se encontrar-se perdido representa o ponto central do conflito em Dante, no poema de Sebastião a perda da faculdade da razão não chega a ser um conflito. Ficar “perdido” entre os textos fundadores e originais (“a água primeira”) era um

doce naufrágio que foi resolvido com a mistura, o tantrismo.3 Mergulhar no espaço dialético, ou seja, entre “o tantra” e a “água primeira” é a opção a ser perseguida, como confirmam os dois últimos versos reescrevendo, por sua vez, o poema “L’ infinito”, de Leopardi:

e naufragar-me era doce E il naufragar m’è dolce

nesta dialética in questo mare.

Ao recorrer à paródia Sebastião aciona a memória cultural do leitor, cujos trechos parodiados poderão ser identificados, ou não, dependendo do seu repertório individual.

 

1 “Speculum (espelho deu o nome à especulação: originalmente, especular era observar o céu e os movimentos relativos das estrelas, com o auxílio de um espelho [...]. O que reflete o espelho? A verdade, a sinceridade, o conteúdo do coração e da consciência. (Chevalier, Gheerbrant, 1999, p.393-94)

2 Tradução livre de Gilberto Mendonça Teles In: Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. Rio de Janeiro: Vozes, 1972, p.31-32.

3 Religião sincrética, derivada do hinduísmo, do budismo, e de cultos populares, e que se cristalizou por volta do século XV, caracterizada pela magia e ocultismos, associado a complexo simbolismo, à iconoclastia e à pratica de ioga (Ferreira, 1986 p.1.647).