O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 5 de 6 · parte 2/4

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O Sári Vermelho

Ato Iv - a Mão Oculta do Destino

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Conheço sua postura e a de seus filhos com relação a assum ir o m anto de sua fam ília, m as, diante da extrem a gravidade da situação, vim em nom e dos com panheiros de Raj iv para lhe pedir que o faça. Eu sei o que você acha da política, todos sabem . Sei que você vai dizer que não m as eu faltaria com m eu dever se não insistisse. E eu não o faria se achasse que há um a solução m elhor. Eu sem pre achei que você tinha força, que poderia perfeitam ente ser um bom presidente do partido - diz Sônia.

Nã o tenho apoio suficiente. Talvez, no futuro, tenha, agora não. Neste m om ento de m áxim a gravidade, a solução passa por você ou por seus filhos. Está m e dizendo que se eu não entrar para a política estarei faltando com m inha responsabilidade? O hom em não se atreve a responder. Quero lhe fazer ver outro aspecto do problem a - prossegue. - Suponham os que o Congresso dessapareça... O que acontecerá com sua segurança? Fazendo política ou não, há m uita gente que os vê com o um a am eaça pelo que representam . Aqueles que são contra os princípios fundam entais do Congress são contra vocês tam bém . E, infelizm ente, são um a legião, cada dia m ais. Mesm o que nunca quiser fazer política, o fato de m orar nesta casa é, em si m esm o, um ato político.

Sônia não responde. Sua cabeça gira. Digvij ay Singh prossegue: Se tiraram a casa de Raj iv, vão tirá-la de vocês, não tenha a m enor dúvida. Se o Congress desaparecer com o força política, quem vai custear a enorm e segurança de que você e seus filhos necessitam ?

Sônia estrem ece porque sabe que seu interlocutor tem razão. Atrever-se-iam a deixá-los desprotegidos? Tudo é possível nesse suj o m undo da política. Há inim igos do lado de fora, e tam bém dentro do partido, os m esm os que retiraram a proteção de Raj iv. Uns por um a razão, outros por outra. Está claro que, se o partido afundar, ficarão indefesos. Mas aceitar e entrar na política para salvar o partido não é tentar o diabo? Não é expor-se ainda m ais às balas de qualquer louco? Não há saída no labirinto de sua vida. Tudo acaba se m isturando em sua cabeça: o senso de responsabilidade e o m edo, o ódio à política e a necessidade de segurança. Pela prim eira vez, Sônia está percebendo que não é só o poder que precisa dela; a fam ília tam bém precisa da proteção do poder. Senão, está claro: o legado deixará de existir, o sacrifício de Indira e Raj iv cairá no esquecim ento e talvez eles - Sônia, Priy anka e Rahul - tam bém deixem de existir.

Enquanto Sônia se debate em um m ar de dúvidas, a política indiana continua se desintegrando. O conceito de "nação" criado pelo Partido do Congresso durante a luta pela independência, e que advoga um a nação plural, laica e diversa (ao contrário do Paquistão, um a nação criada ao redor de um a religião), continua perdendo terreno de m aneira alarm ante. Os m esm os adversários contra os quais o Mahatm a Gandhi, Nehru, Indira e Raj iv lutaram são os que agora ganham adeptos com sua idéia de um a índia hindu, com o um eco involuntário do Paquistão. O que vai acontecer se tom arem o poder? Haverá um a lim peza étnica? Depois, vem o lam entável espetáculo da corrupção.

Um a centena de parlam entares em Nova Délhi tem , agora, um "passado crim inoso", o que significa que foram acusados de vários crim es, m as não condenados form alm ente. Se Nehru visse isso! Depois que são eleitos, é praticam ente im possível condená-los, por isso a política está se transform ando em um incentivo im portante para delinqüentes de todo tipo. A corrupção é tão grotesca que um a líder do m aior partido de intocáveis da índia, um a m ulher de m eia-idade cham ada May awati e que ficou rica da noite para o dia alegando que seus sim patizantes são "m uito generosos", foi pega em flagrante fornecendo licenças a seus am igos construtores para construir um gigantesco parque tem ático em volta do Taj Mahal.

O escândalo obrigou-a a abandonar o proj eto, m as não a fez perder nenhum voto. A im prensa publica fotos dela recebendo seus interlocutores, sentada em um verdadeiro trono de m adeira entalhada recoberta de pão-de-ouro em sua casa-palácio de Lucknow. Com em orou seu aniversário grandiosam ente, utilizando a m áquina oficial e fundos públicos. E ela não é a única. Parece que, em vez de progredir, o país retrocede aos tem pos dos corruptos m araj ás. Retrocede para quando era com posto por um a m iríade de reinos que lutavam entre si, debilitando-se m utuam ente, facilitando as invasões de m ongóis e britânicos. Se o Congress acabar pulverizado na s próxim as eleições, o único grande partido nacional m orrerá. Agora, só restam reinos de facções que lutam não por sua ideologia, e sim para granj ear os favores de seus eleitores, cada vez m ais agrupados em castas ou com unidades regionais. A política está se atom izando. Até onde chegará essa fragm entação? Até a desintegração da índia? Os analistas não descartam essa possibilidade.

Alguns dizem que os Nehru eram a índia, que sem eles a índia não é nem sequer um a nação.

EM UMA DE SUAS NOITES SEM DORMIR, Sônia sente de novo um a pressão no peito. Às vezes é o frio que desencadeia um a crise de asm a, outras vezes surge sem explicação aparente, outras é o estresse. Os brônquios se estreitam e dificultam a passagem do ar aos pulm ões. A sensação de sufocação, de inalar e o ar não entrar, é angustiante. A asm a crônica não tem cura, aprende-se a conviver com a doença, com o o fez Sônia. Ela reconhece que a ioga lhe é de grande aj uda. A ioga ensina a respirar. Quando, nessa noite, nota os prim eiros sintom as, j á está procurando seu inalador e seus rem édios. Mas não os encontra no lugar habitual, não estão nem no arm arinho do banheiro nem no criado-m udo. "Devo tê-lo deixado no escritório", pensa. Veste seu robe e sai do quarto. De fato, o inalador está na m esa do escritório. Sônia se senta, coloca-o na boca, aperta bem no m om ento da inspiração e dá profundas inaladas. Logo se nota o efeito. Pronto, j á consegue respirar. Relaxa. A casa está em silêncio, exceto pelo barulho do vento na folhagem das árvores do j ardim e o de suas profundas expirações e inspirações. O aposento continua cheirando a incenso frio, com o quando Raj iv era vivo. Ele gostava de acender um as varetinhas quando trabalhava. Dizia que o aj udavam a se concentrar. De repente, Sônia ergue os olhos e encontra o retrato de Indira. E o de Nehru. E, a seguir, o de Raj iv. "Por que m e olham com essa insistência? Com esse sorriso enigm ático?" Nessa noite, na penum bra, parece que estão vivos. Sônia guarda seu inalador no bolso e, antes de apagar a luz, volta a olhar os retratos. Não consegue sustentar esses olhares e baixa os olhos, com o que envergonhada. Apaga a luz e volta para seu quarto para se deitar. Mas não concilia o sono e não quer tom ar um com prim ido para não se acostum ar. Dá voltas na cam a, enrosca-se no lençol, acende a luz, tenta ler, cansa-se e a apaga de novo. Não consegue afastar de sua m ente as fotos do escritório. "Estou falhando com eles", diz a si m esm a. "Eu os estou traindo. Meu Deus, o que faço?"

Precisa falar com seus filhos. Rahul acaba de chegar de Londres, onde arrum ou um em prego em um a entidade financeira depois de term inar seus estudos nos Estados Unidos. Priy anka tem um nam orado, um rapaz que conhece desde que era pequena. No dia seguinte, ao redor da m esa do café-da-m anhã, Sônia lhes conta a sensação que lhe provocaram as fotos do escritório.

Cada vez que passo diante deles, tenho a im pressão de que estão m e olhando, com o se esperassem algo de m im ...

É que esperam , m am ãe - diz Priy anka. - Com igo acontece a m esm a coisa, tenho vergonha de ficar sem fazer nada enquanto tudo vem abaixo. O que diria a vovó? Tenho certeza de que não gostaria... Tem os que evitar o fim do partido.

E com o se faz isso? - pergunta seu irm ão.

Fa ze ndo cam panha pelo Congress nas próxim as eleições - responde Priy anka. Rahul dá de om bros.

Não devem os nos m eter nessa confusão.

Eu acho que devem os pensar bem - diz Priy anka, que tem os pés na terra.

Sabe, m am ãe, eu cheguei à m esm a conclusão que você, m as por outro cam inho. Não podem os ficar com o espectadores. É m eio... m eio im oral! P ouco a pouco, avaliam os prós e contras de um a decisão que aparentem ente confunde tudo, m as que acaba m ostrando sua lógica profunda. Às vezes, é preciso deixar as preferências que se tem de lado, não acha? - pergunta Sônia, com o sem blante sério.

Seus filhos não respondem . Ela prossegue:

Eu estaria disposta a fazer cam panha pelo Congress para tentar salvar a organização, m as não a assum ir nenhum posto de governo. Vocês m e aj udariam ? Claro que sim - diz sua filha. - Lem bra o que dizia o bisavô à vovó Indira naquela carta? Que nunca poderia se desligar da tradição fam iliar. Com o tinha razão! Acho que nós tam bém não podem os. É com o um a segunda pele, gostem os ou não. Para Rahul, é difícil aceitar a decisão de sua m ãe, porque não a vê contente. Sabe que ela vai entrar em um a trilha que no fundo repudia. Sabe que faz isso porque herdou o m esm o senso de dever de Indira e Raj iv. Mas, no fim , o rapaz entende o que está em j ogo. Mam ãe, vou deixar o em prego e a acom panharei a todos os com ícios - diz para anim á-la.

SÔNIA GOSTA DE SERVIR ELA MESMA O CHÁ àqueles que vão vê-la. Dessa vez não é um a visita habitual, foi ela quem convocou o líder do Congress e velho am igo da fam ília Digvij ay Singh, esse que há alguns m eses lhe disse que estavam indo direto para o desastre. É um hom em alto e bem -apessoado, com um a elegância natural realçada por um conj unto branco de kurta e calças tipo pij am a. Chegou sem dem ora, a despeito de ter tido que passar um a noite no trem . Mas, se Sônia cham a, se atende, porque ela nunca costum a cham ar. A italiana lhe entrega a xícara de chá, que exala um cheiro de j asm im . Antes de se sentar, dá um a rápida olhada às fotos nas paredes, com o se lhes pedisse aprovação para o atrevim ento que se dispõe a propor. O que aconteceria se eu fizesse cam panha pelo Congress? - solta de repente. O hom em queim a os lábios e engasga. Será verdade o que está ouvindo?, pergunta-se. Não tinha nem idéia do que ia encontrar, por isso a pergunta o pega desprevenido. Faz-se o silêncio, um silêncio denso, que Sônia aproveita para lhe oferecer um guardanapo de linho com um G bordado.

Madam e - responde enxugando o canto dos lábios - isso teria um efeito poderoso em nossas filas. Arrasaríam os nas urnas.

Sônia está séria, m editativa. Os olhos do hom em se ilum inam . Acredita m esm o nisso?

Tenho certeza.

Para m im , é um a decisão m uito difícil de tom ar. Eu entendo perfeitam ente, m adam e. Sônia prossegue: Não sou um a líder nata, você sabe, não é algo natural em m im ... Não acho que a capacidade de liderar sej a algo inato. Vej a o exem plo de Indira. Era tím ida, e no início falava m uito m al. Ou seu m arido. Tudo se aprende. E na política aprende-se ainda m ais rápido.

Você acha que isso se pode aprender?

Tenho certeza. Vej a a quantidade de gente que a vai ver em qualquer ato. Parece que bebem suas palavras... Além do m ais, podem os prepará-la. A senhora tem a vantagem de ter à sua disposição a grande reserva de talentos que existe no Congress, a m enos que o partido se desintegre tão rapidam ente que acabem todos indo em bora antes das eleições. Mas ainda tem os os m elhores especialistas em cam pos com o a econom ia, a adm inistração ou a ciência e a tecnologia.

Sônia fica olhando para ele, m as não diz nada. Sua expressão é herm ética, com o quem se resignou a aceitar o irrem ediável.

POUCO DEPOIS DESSA REUNIÃO, Sônia age discretam ente, a sua m aneira. Dirige-se à sede do partido em Akbar Road e preenche o form ulário que acom panha o pedido de adesão à organização. Com a carteirinha na m ão, que a vincula ainda m ais a Nehru, a Gandhi e a todos os que lutaram pelos ideais de um a índia independente e livre, volta para sua casa. Vai para o escritório e, antes de guardar tudo em um a gaveta, dirige seu olhar para os retratos. Esboça um tím ido sorriso, com o se j á não sentisse vergonha de olhá-los nos olhos. Em 28 de dezem bro de 1997, Sônia anuncia publicam ente sua decisão de entrar na política e de se candidatar pelo Congress nas próxim as eleições. A notícia dá a volta ao m undo. Ninguém entende as razões dessa reviravolta, nem sua m ãe, nem suas irm ãs, nem seus am igos, nem o público em geral. Os líderes do partido fazem um grande espetáculo dando-lhe as boas-vindas, m as alguns estão receosos porque sabem que essa "neófita" acabará m andando neles. As m ás-línguas cospem seu veneno: Sônia se m ete em política para fugir do escândalo Bofors, dizem uns. Sônia quer ser prim eira-m inistra, dizem outros. Por fim , m ostra suas verdadeiras cores, clam a um terceiro. Maneka Gandhi não perde oportunidade de som ar seu grão de areia. "Ela saúda com o o lim pador de pára- brisas de um carro", diz, aludindo à saudação de Sônia a seus entusiastas seguidores na saída da sede do Partido. E acrescenta em um a entrevista ao sem anário Panchj any a: "Sônia não será eleita porque é estrangeira... A única coisa que quer é ser prim eira-m inistra um dia, para ter um a vida farta. Esse cargo é com o um brinquedo para ela, não tem consciência das dificuldades que im plica".

Sônia evita qualquer com entário sobre sua ex-cunhada. O que tenta fazer é blindar-se contra as c rític a s e os deboches, venham de onde vierem . Sem pre soube que seria subm etida a um escrutínio público ainda m ais intenso que antes. Faz parte da vida de um político. Por isso quer se preparar o m elhor possível. Ciente de suas lim itações, cerca-se dos m elhores especialistas: um a historiadora, um sociólogo, um j urista especialista em direito constitucional, um ex-diretor do Serviço de Inteligência, um especialista em ciências políticas... no geral, consideram -na um a "estudante aplicada" que, por exem plo, aprende rapidam ente os usos e costum es parlam entares. Mas com ete alguns erros. Quando a apresentam a um influente líder de um a casta do estado de Uttar Pradesh, um hom em brilhante, com um a m ente analítica capaz de explicar-lhe o delicado e quilíbr io das castas, Sônia com enta com inocência: "No Congress, eu quero que as considerações de casta sej am m inim izadas". O hom em se levanta de repente e diz que voltará quando Sônia tiver m ais noção da im portância do tem a de que está falando. Ossos do ofício.

O MOMENTO DE SUA ENTRADA NA POLÍTICA coincide com o casam ento de sua filha. Priy anka se casa com um designer de j óias, filho de um m agnata do latão de um a cidade próxim a a Nova Délhi. Sônia não vê com bons olhos essa união; o nam orado não acabou a universidade e, pior ainda alguns m em bros da fam ília têm vínculos com organizações extrem istas hindus afiliadas ao BJP. Mas para Priy anka isso não parece im portante Está apaixonada por um hom em , não por sua fam ília, nisso pensa com o um a européia, não com o um a indiana. Tom ou um a decisão e vai seguir em frente.- Priy anka está sendo m uito fiel à tradição fam iliar - diz Rahul a sua m ãe com ironia. - Está se casando com alguém com quem não tem nada em com um . Que há de m al nisso? Esse é j ustam ente o problem a.

Problem a? O que o bisavô Nehru tinha a ver com a bisavó? Nada. Vovó Indira com o vovô? Nada tam bém . Tio Sanj ay com Maneka? E você com papai... você m esm a disse, eram de m undos m uito diferentes. Às vezes funciona, às vezes não, isso nunca se sabe. Se sua irm ã e você estão confabulando contra m im , não pretendo abrir outra frente de batalha -diz Sônia, que volta a sorrir. A fina flor da sociedade com parece ao casam ento de Priy anka, filha, neta e bisneta de três prim eiros-m inistros,. Sônia, m uito elegante em um sári de seda bordô e ouro, recebe o presidente da República, o prim eiro-m inistro e os altos m em bros do partido. O a m bie nte está carregado de expectativa nesse evento classificado pela im prensa com o o "casam ento do ano". Nunca com o hoj e a fam ília "reinante" foi fonte de tantos com entários e fofocas. Desde que Sônia anunciou sua entrada na política, uns predizem seu im inente fracasso, outros m ostram sua satisfação por ter encontrado um a líder capaz de fazer o Congress ressurgir. Dizem que a m ãe aceitou fazer o sacrifício de entrar na política por seus filhos, verdadeiros herdeiros naturais da dinastia. Entre os com ensais encontra-se tam bém um rapaz alto e de boa aparência que Priy anka insistiu em convidar. É seu prim o, Firoz Varun Gandhi, filho de Maneka, que está estudando na London School of Econom ics. Vem sozinho, sem sua m ãe.

Sej a Priy anka, Rahul ou Firoz, os líderes do partido têm fé absoluta neles. Consideram -nos líderes natos, carism áticos e capazes de decidir o destino de m ilhões de pessoas. Agora que a m ãe deu o prim eiro passo, têm certeza de que o futuro do Congress, e da nação, passará por eles. Reparam que Priy anka, radiante, usa o m aravilhoso sári feito com o algodão que seu vô Nehru fiou na prisão. O m esm o que Indira usou em seu casam ento, e Sônia depois no seu. Um sím bolo, esse sári verm elho.

UM SÍMBOLO, TAMBÉM, O FATO DE SÔNIA com eçar sua cam panha onde o m arido acabou a sua, na cidade de Sriperum budur. Tem de vencer a em oção de estar no lugar que Raj iv viu pela últim a vez, sua tim idez, seu nervosism o e seus ataques de asm a na hora de falar em público. "Estou aqui diante de vocês, cercada de m edidas de segurança, neste m esm o lugar em que Raj iv esteve sozinho e desprotegido diante de seus assassinos. A voz dele foi silenciada, m as sua m ensagem e as idéias que defendia continuam m ais vivas que nunca." Já não faz alusão à lentidão da j ustiça com a raiva de antes. Por fim , em j aneiro de 1998, o j uiz que preside o tribunal contra os acusados de assassinar seu m arido ditou a sentença: pena de m orte. Os condenados apelaram ao Tribunal Suprem o, m as suas possibilidades de que com utem a pena são m ínim as.

N ã o é um consolo para Sônia, que sem pre foi contra a pena capital. Preferiria que os m antivessem atrás das grades.Fazendo referência a suas origens estrangeiras, o ponto fraco que se us adversários j á usam contra ela, acrescenta: "Eu m e tornei parte da índia há trinta anos, quando entrei no lar de Indira Gandhi com o esposa de seu filho m ais velho. Foi por m eio de seu coração que aprendi a entender e a am ar a índia". São frases sim ples, ditas em um tom natural e gentil, entrecortadas por um sorriso fraco. Repete-as ao longo de um m ês, enquanto percorre 30 m il quilôm etros, um desses sacrifícios aos quais viu vários m em bros de sua fam ília se subm eterem . Em seus discursos, que lê diretam ente em alfabeto híndi, fala tam bém de sacrifício, de estabilidade e sobretudo de laicism o. Explica que com eçou a fazer cam panha com o reação à angústia que lhe causa o fato de haver políticos pedindo votos em nom e da religião. "Vocês têm que escolher entre as forças da harm onia e o progresso ou as que pretendem exacerbar nossas diferenças para ganhar poder." Não perde qualquer oportunidade de se desculpar pelos erros do passado, com o a Operação Blue Star no Punj ab ou a dem olição da m esquita em Ay odhy a. Assum e os erros dos outros com total hum ildade. Fala com a sensação de estar im buída de um a m issão. As m ultidões com parecem a seus com ícios não só pela im ensa curiosidade que suscita, m as porque Sônia é capaz de com binar a em oção com um discurso político contundente. Sua cam panha traz um a nota de frescor e de novidade ao panoram a geral. Os líderes m ais céticos se surpreendem com a eficácia de Sônia para encher os com ícios e sensibilizar o eleitorado. No fim da cam panha, o Tim es of índia põe na prim eira página: "De im peratriz esquiva a sofrida esposa e poderosa política, a transform ação de Sônia Gandhi parece com pleta".

Sônia não arrasa nos resultados, m as consegue 146 cadeiras para o Congress e fez com que a participação dos votantes aum entasse significativam ente. Ou sej a, consegue evitar a catástrofe. Reconhecida com o salvadora do partido - e para que no futuro a organização não desapareça em cam orras internas - os líderes decidem pô-la na presidência. Sônia Gandhi torna-se o quinto m em bro da casa de Motilal Nehru a assum ir esse cargo. Ah, se Stefano Maino visse isso! Com o ficam longe as m ontanhas Asiago, as noites ao calor da lareira com suas irm ãs esperando a zuppa para o j antar, as m issas eternas dos dom ingos na igrej a de Lusiana, o cheiro de neve de final de outono, os sonhos de m enina de querer viver em um a cidade e não no cam po ordenhando vacas... E tudo por um a troca de olhares em um restaurante em Cam bridge.

ONZE MESES DEPOIS DE SEU CASAMENTO, Priy anka encontra no j ornal um a notícia sobre os assassinos de seu pai. Um a das terroristas acusadas está prestes a ser executada na forca j unto com três cúm plices. Um deles é o m arido dela. A terrorista, conhecida pelo nom e de Nalini Murugan, casou-se com ele na prisão de Vellore, um a cidade do sul, e tiveram um a filha. Todas as tardes, a m enina, acom panhada por sua avó, vai visitar a m ãe na prisão durante m eia hora. Priy anka, profundam ente abalada com a notícia, fala com Sônia e com seu irm ão. É necessário m orrer m ais gente? Já não houve tragédia o suficiente? É preciso deixar um a m enina órfã? Sônia e Rahul estão igualm ente alterados. Nenhum dos três é a favor da pena de m orte. A j ustiça foi feita, e em certa m edida isso serviu para os reconciliar com o dram a vivido. Mas um ato de Estado deixar órfã um a m enina por causa das ações de seus pais é algo que lhes parece inj usto. Não vai nos dar nenhum consolo - diz Sônia.

Ao contrário - acrescenta Rahul. - O que podem os fazer? Pedir clem ência para a m ãe - sugere Priy anka - e conseguir fazer com que a execução dos outros sej a adiada indefinidam ente.

Quando o presidente da República recebe Sônia em audiência especial em sua residência de Rashtrapati Bhawan, o antigo palácio do vice-rei, fica atônito com o que ouve; afinal de contas, Sônia havia protestado pela lentidão da j ustiça. "Meus filhos ficaram órfãos de pai, e isso basta", diz Sônia. "Nosso argum ento é que nenhum a outra criança tem que ficar órfã. Não querem os que a tragédia engendre m ais tragédia. Peço-lhe que faça o possível para conseguir um indulto para Nalini

Murugan a fim de que possa criar sua filha."

Quando vão tirar da cela a j ovem terrorista, ela tem certeza de que é para sua últim a viagem . Mas a levam perante o j uiz de Vellore, que anuncia que sua pena capital foi substituída pela de prisão perpétua. "Tom ara que isso sirva para algum a coisa, nem que sej a só para cham ar a atenção sobre a futilidade dos atos terroristas, que conduzem som ente à destruição e à m orte", declara Rahul à im prensa. A seguir, graças à m ediação de Sônia, Nalini consegue um visto para que sua filhinha e seus avós paternos possam ir à Austrália, onde são acolhidos por m em bros no exílio da com unidade tâm il. A m enina poderá ser educada em um am biente não estigm atizado pela situação de seus pais.

Sônia devolveu a esperança ao m aior partido do m undo, m as não lhe devolve o poder. Não conseguiu deter o auge dos hinduístas do BJP, cuj os resultados lhe perm item liderar um a coalizão para form ar governo. Continuarão atiçando a rivalidade entre com unidades? Continuarão em purrando o país para o abism o? Ainda bem que o novo prim eiro-m inistro, Atai Bihari Vaj pay ee, é um hom em culto, m oderado, m uito respeitado em círculos políticos. Conseguirá controlar os m ais extrem istas? O país inteiro se faz essas perguntas, principalm ente em vista do progra m a do partido, que é de fazer qualquer um trem er: um a índia hindu, reform a da Constituição, construção do tem plo Ram a em Ay odhy a etc. É natural que m uitos tenham depositado sua confiança em Sônia, a quem cabe assum ir o papel de líder da oposição por ser presidente do Congress. Na Itália, parentes, am igos e vizinhos aglom eram - se em frente a seus aparelhos de tevê para acom panhar a história inconcebível dessa filha da terra. A gata borralheira de Orbassano cedeu às súplicas de seus cortesãos e luta pelo poder do reino... Mas não sente vertigem ? Não tem m edo que a m atem ? Não tem e por seus filhos? Por que não larga tudo e vem para cá m ontar um a loj a de decoração e viver tranqüila? Não entendem o que passa pela cabeça dessa m ulher que se apaixonou por um príncipe e pode acabar se transform ando em rainha.

Oito anos depois do assassinato de Raj iv, as portas do Parlam ento se abrem para Sônia. Ao subir a escadaria, vem -lhe à m em ória um a frase da sogra, que dizia que sua fam ília não era norm al, "porque esperam m ilagres de nós". Não era um m ilagre encontrar-se nesse edifício singular, redondo, im enso, no coração de Nova Délhi, onde convergem as aspirações de um a nação que agora conta com um bilhão de habitantes, onde Nehru, Indira e Raj iv defenderam seus ideais? Onde agora lhe cabe defender os seus, ela que vem de tão longe, que m orre de vergonha quando a olham , que aceitou esse desafio tão contrário a seu tem peram ento para proteger a fam ília do hom em que m ais am ou e para salvar o país do j ugo fundam entalista. Será capaz de fazer esses m ilagres?

Qua nto cam inho percorrido, quantas alegrias e expectativas, quantas decepções e lágrim as vertidas! Acim a de tudo, quanto am or por esse m arido, cuj a doce presença ela sente nesse lugar que ele freqüentava. Se concentra em sua m em ória, a ele pede proteção quando, em 29 de outubro de 1999, tem que fazer seu prim eiro discurso. Todo seu corpo está tenso. Foi cinco vezes ao banheiro pensando no que a espera. Sabe que há quinhentos pares de olhos observando cada m ovim ento seu, um a tortura para um a m ulher de um a tim idez doentia. Mas ela faz isso pelo m esm o senso de dever pelo qual seu m arido entrou para a política. Não faz por prazer, e sim por am or. Desse am or incom ensurável tira energia para ir contra si, para vencer a si m esm a, para agüentar os olhares dos que ocupam a tribuna da im prensa, dos visitantes e dos diplom atas que lotam o local. Na bancada do governo está Maneka, recém -nom eada m inistra da Cultura pela coalizão liderada pelo BJP. AS duas cunhadas representam as facções m ais opostas do espectro ideológico, com o um a m etáfora da divisão que sofre o país. Se Indira pudesse ver! Na bancada do Congress há pelo m enos um a dúzia de com panheiros dispostos a socorrer Sônia caso lhe falte um dado, caso se confunda, caso com eta um erro. Ela é a própria im agem da elegância, com seu cabelo preto e brilhante caindo em um suave cacho sobre os om bros, seu sári de seda em tons de verde pastel, seu porte altivo, seu olhar direto.

Coloca os óculos. Chega preparada com um texto im presso em letra bem grande para que não pareça que lê, um velho truque da fam ília. Um texto que denuncia que o regim e atual se atribui reform as que na origem foram prom ovidas pelo Congress, e especificam ente por Raj iv. Não se im porta com as vaias e assovios da bancada da coalizão no poder. Ao contrário, segue adiante e denuncia as últim as m anobras do governo para desacreditar seu m arido no caso Bofors. "Não se pode lançar suspeitas sobre um hom em que é inocente e que, além de tudo, não está aqui para se defender", exclam a. Seu discurso em ocional causa um im pacto m uito favorável em seus deputados, que constatam que Sônia é capaz de pegar o touro à unha em um tem a tão delicado c om o o da Bofors. De repente, é com o se as lem branças de um Raj iv sorridente e j ovial reaparecessem . Mas todos se perguntam a m esm a coisa: O que vai acontecer quando precisar atacar ou defender determ inadas opções econôm icas? O que vai acontecer quando seu discurso não tiver carga em ocional?

Ao longo de vários m eses, atreve-se a fazer curtas arengas no Parlam ento relativas à atualidade do m om ento, m as evita pronunciar-se sobre assuntos econôm icos. Nisso, confia plenam ente em um hom em que conheceu quando foi form ado o prim eiro governo depois do assassinato de Raj iv. É um sique cham ado Manm ohan Singh, velho aluno de Cam bridge, brilhante econom ista, arquiteto das reform as que conseguiram tirar o país da crise econôm ica dos anos 1990, conhecido por sua incensurável reputação de honradez. Seguiu os passos de Raj iv e está com prom etido com a m odernização da econom ia. Sua influência sobre ela é tão grande que os velhos socialistas e esquerdistas do Congress olham -na com receio. "Será que está nos afastando dos velhos princípios socialistas para nos fazer entrar no liberalism o?", perguntam -se alarm ados. No início, seu papel com o líder da oposição confunde tanto seus com panheiros de partido quanto seus adversários. Com o tem e enfrentar tem as espinhosos, ela os distribui entre diversos deputados, considerados especialistas, sej a em política externa, política econôm ica, assuntos legislativos... Mas os da coalizão governam ental atacam com sanha essa oposição fragm entada, sem tim ão, sem peso, sem contundência.

Nas filas do Congress, os deputados chegam a tem er as sessões parlam entares tanto ou m ais que a própria Sônia, que se defende m al de todo tipo de acusações, feitas sem fundam ento algum para prej udicar sua im agem . As piores são as de Maneka, que, na qualidade de m inistra da Cultura, encontra-se, de repente, acim a das instituições beneficentes e fam iliares que Sônia adm inistra, e que, para deixar bem claro seu poder, ordena um a série de auditorias alegando suspeitas de irregularidades financeiras. Finalm ente desfruta do sabor da vingança. Mas sua sanha é tal, sua raiva e im plicância pessoal contra Sônia são tão evidentes que os dem ais partidos da coalizão protestam por essa perseguição gratuita. De m odo que, em um a m anobra abrupta, é a fa sta da do cargo e colocada à frente do departam ento de estatística, onde sua atividade inquisitorial fica neutralizada.

As deficiências do trabalho de Sônia com o líder da oposição ("um a líder que se esconde", com o o pessoal do governo a acusa) são com pensadas por sua eficácia para dirigir o partido. Os velhos sátrapas que pensavam que a podiam m anipular logo percebem que ela não o perm ite. Esteve próxim a dem ais a Indira para não ter aprendido a lição. Mas, além disso, Sônia faz reform as espinhosas que sem pre foram adiadas pelas chefias anteriores. Por exem plo, consegue fazer com que o Congress sej a o prim eiro partido a reservar um a cota de 33% para as m ulheres em todos os níveis da hierarquia. Mais difícil é atacar a corrupção, m as Sônia não hesita. Sob o novo m antra de integridade e transparência, consegue que o partido só aceite doações em cheques para facilitar a contabilidade e exige que todos os m em bros com certo peso paguem

pontualm ente suas cotas, de m aneira proporcional segundo seu posto na hierarquia. Os altos cargos são obrigados a pagar um m ês de salário ao partido.

São m udanças profundas, que m uitos percebem com o triunfos pessoais. "O Congress está preparado para lim par o sistem a", diz em um tom am eaçador diante de deputados céticos e, em m uitos casos, corruptos, que j á conspiram para expulsá-la.

Aproveitam que seu papel com o líder da oposição deixa m uito a desej ar. Sônia não se com unica diretam ente com os outros líderes opositores por vergonha e por tim idez, o que provoca um a grande descoordenação. Fica claro que ela desconhece o j ogo político. Tem dificuldade de disfarçar sua falta de experiência e de confiança em si m esm a, o que a transform a em um alvo fácil para os ataques da coalizão no poder, que a desafia e hum ilha cada vez que a oportunidade surge. "Não sabem do que sou capaz!", diz um dia a seus filhos ao sair de um a sessão do Parlam ento na qual fora criticada. Causou grande constrangim ento porque ficou m uda quando o prim eiro-m inistro lhe perguntou qual é a posição do Congress em assuntos de dissuasão nuclear, um tem a que desconhecia De m odo que j ura a si m esm a que isso não tornará a acontecer e convoca os m elhores especialistas em segurança nuclear e defesa, inclusive os que não fazem parte do think tank do Congress, para entender os m atizes e os m eandros do assunto. Quando se sente segura de si, volta ao Parlam ento. Parece outra: "Na últim a sessão, o honrado prim eiro-m inistro riu de m im porque não respondi a sua pergunta... Mas é um tem a m uito im portante para ser respondido em m eio às gargalhadas de seus deputados. Agora eu lhe pergunto: Qual é sua posição a respeito? O senhor só m enciona três palavras: m ínim a dissuasão crível. Acha que essas três palavrinhas configuram um a política séria?".

EM MAIO DE 1999, o GOVERNO do BJP perde a m aioria no Parlam ento e os conselheiros e velhos líderes do Congress pensam que chegou a hora de Sônia. Julgam poder articular a form ação de um a coalizão para governar. Precisam do núm ero m ágico de 272 deputados e têm certeza de que o têm . Já sonham com a distribuição de cadeiras: se fulano vai brigar pelo Ministério do Interior, se beltrano irá para Assuntos Exteriores... O hum or nas filas do partido é exultante. Estão tão certos de conseguir o poder que pressionam Sônia para que anuncie que está em condições de form ar um governo alternativo rapidam ente. Para Sônia, isso representa a oportunidade de retirar os espinhos dos ataques constantes contra ela. Por fim , vai poder deter seus adversários. Quando sai do antigo palácio do vice-rei, onde o presidente da República c onvoc ou todos os partidos para convidá-los a form ar governo, é cercada por câm eras de televisão. "Tem os 272", afirm a. Na realidade, quis dizer que, com a m aioria de deputados contra o BJP, um governo alternativo é possível. Mas a im prensa anuncia à sua m aneira: "Sônia Gandhi vai encabeçar um novo governo". O país parece subitam ente inflam ado com a perspectiva de a italiana assum ir o poder, m as o suspense dura pouco tem po. Sônia não consegue o núm ero m ágico, porque m uitos pequenos grupos opostos ao Bj p, especificam ente os socialistas, negam -se a apoiá-la com o prim eira-niinistra devido à sua origem estrangeira e ao forte sentim ento contra o Congress que existe em m uitos partidos. O fiasco é tão grande quanto as expectativas suscitadas. Fic a m al com os sim patizantes, e faz papel ridículo diante da nação inteira. Sua precipitação m ostra à luz pública sua falta de experiência na roda política, bem com o a grande dependência que tem de seus conselheiros.

Mam ãe, abandone isso j á - diz Rahul.

Agora? Acha que posso? Não pretendo ir em bora sem m e defender.

POUCO A POUCO, SÔNIA VAI APRENDENDO. "Há um a lutadora nela, e isso é algo m uito bom para a organização", diz um de seus colegas de bancada. Ela é obrigada a lutar porque a im prensa e seus adversários políticos redobram os ataques. Riem do sotaque da "italiana", com o a cham am pej orativam ente. Dizem que é arrogante e fria, contam que desconhece o alfabeto híndi e que seus discursos estão transcritos para o alfabeto latino, o que é m entira. "Lê seus discursos com o se lesse um a lista de com pras", escreve um conhecido j ornalista. Mas se para algum a coisa servem os inim igos, é para aprender com eles, e Sônia aprende com tenacidade. P ouco a pouco, põe calor e paixão em seus discursos, m ultiplica as viagens, os encontros, os contatos pessoais. Diz que não é arrogante, e sim tím ida. Mas é um a luta que desgasta, porque é estéril. É baseada em preconceitos, em um a atitude m achista e em um nacionalism o exacerbado que m ascara a vontade de seus adversários de afastá-la do poder a todo custo. Nos am bientes m ais extrem istas, chegam a acusá-la de ser agente de Rom a, com o se fosse um a espiã do Vaticano infiltrada no labirinto da política hindu…

Seu pai teve um a visão profética quando disse que a j ogariam aos tigres. Bem , lá está sua filha, no centro da arena, esquivando-se das garras.

Nada a afeta tanto quanto o desafio que vem dos seus, de m em bros de seu próprio partido. Um dia, recebe um a carta assinada pelo chefe do grupo parlam entar de seu partido e m ais dois deputados, na qual põem em dúvida sua capacidade, em vista de suas pobres atuações com o líder da oposição, de estar um dia à altura do cargo de prim eira-m inistra. Na carta, sugerem que a Constituição sej a em endada para reservar os altos cargos do Estado, presidente da República e prim eiro-m inistro, som ente aos indianos de nascença.

Depois do fiasco da coalizão falida, esse é um golpe baixo que Sônia recebe com am argura. Não porque a queiram im pedir de ser um dia m áxim a m andatária, coisa a que de qualquer m aneira não aspira nem desej a. Mas lhe dói a falta de confiança, dói que a queiram com o cham ariz, nada m ais. Com o propaganda para as eleições, com o alguém que em presta seu sobrenom e - e sua vida inteira - a um partido que no fundo a despreza. Dói perceber que está sozinha quando se j ulgava em terreno am igo.

Quando volta para casa nessa tarde, só tem em m ente estar com Priy anka e Rahul. Sua filha logo percebe que sua m ãe está sentida. Rahul está irritado: Deixe a política j á de um a vez por todas, m am ãe! - diz ele. Acho que m eu irm ão tem razão - acrescenta Priy anka. - Não faz sentido continuar assim . Chegou o m om ento de j ogar a toalha - adm ite Sônia. - Por favor, aj udem -m e a redigir um a carta ao grupo parlam entar do Congress - pede.

Priy anka pega um papel e um a caneta e j untos escrevem um texto m uito claro e conciso: "Alguns colegas m anifestaram a idéia de que por eu ter nascido no exterior sou um problem a para o Congress. Dói em m im essa falta de confiança em m inha habilidade de agir no m elhor interesse do partido e do país. Nessas circunstâncias, m eu senso de lealdade ao partido e m eu dever para com a nação obrigam -m e a apresentar m inha renúncia ao cargo de presidente do Congress". Abaixo, acrescenta: "Vim servir ao partido não para adquirir um a posição ou para ter poder, e sim porque ele enfrentava um desafio que questionava sua própria existência e eu não podia m e m anter im passível diante do que estava acontecendo. Com o tam bém não posso m e m anter de braços cruzados agora". Sônia suspira longam ente: "Finalm ente, livre!" pensa.

O DESASTRE. SUA CARTA PROVOCA um verdadeiro cataclism o nas filas do partido. Seus colaboradores m ais próxim os estão consternados com a decisão. Foi tão difícil que assum isse as rédeas, e agora uns barões que vêem seu poder am eaçado dentro da organização j ogam tudo por água abaixo! Quando os m em bros do grupo parlam entar lhe rogam que reconsidere sua decisão, ela responde que está m uito ressentida com a xenofobia que cerca o assunto de sua origem . O fato de isso acontecer no BJP, um partido ultranacionalista, ou com os socialistas, j á é bastante triste - acrescenta Sônia - m as eu estava disposta a m e defender desde que sentisse que o partido m e respaldava. O que nunca pude im aginar é que m eus próprios com panheiros m e atacariam dessa m aneira. De m odo que vou em bora. Com eça o desfile dos chief m inisters dos estados governados pelo Congress que vão rogar em sua casa. Am eaçam renunciar em m assa: "Som os chefes de governo graças a você. Para que continuar se você não estiver?", dizem .

O abalo causado por sua renúncia é tão im enso que m ilhares de sim patizantes acam pam em frente ao portão do núm ero 10 da Janpath para pedir-lhe que volte. "Sônia, salve o Congress! Salve a índia!", entoam . Um a tarde em que Rahul volta para casa com um am igo, vários líderes do partido o interceptam : "Você tem que convencer sua m ãe a retirar sua renúncia." Entre a m ultidão que bloqueia a rua há m ulheres que choram pedindo que Sônia não as abandone. Um a m anhã, à saída de sua casa, enquanto seu Am bassador abre cam inho por entre a m ultidão, Sônia é interceptada por um velho m uçulm ano que se aproxim a: Já pensou na sorte das m inorias em um governo dirigido pelo BJP? Não quer lutar por nós? Sônia não responde e fecha o vidro do carro, enquanto as palavras do hom em retum bam em sua cabeça.

O desespero de seus seguidores é sim bolizado por um hom em j ovem , um dos que acam pam em frente a sua casa. Tenta im olar-se com fogo, o que provoca um a considerável com oção. Os policiais e os guardas de segurança j ogam -se sobre ele e conseguem abafar as cham as antes que acabem com sua vida. As câm eras dos repórteres gravam a cena para que o país inteiro a contem ple nos noticiários da noite. Para que todo o subcontinente saiba as paixões que desperta "a italiana" que todos j ulgam possuir. Porque Sônia lhes pertence, porque carrega o sobrenom e m ágico de Gandhi. E por isso não pode ir em bora. O trágico incidente precipita os acontecim entos. De novo Sonia recebe em sua casa, no escritório de Raj iv, a cúpula do partido, um grupo de hom ens de certa idade, vestindo kurtas e largas calças de algodão.

Não existe outro líder que possa nos m anter unidos com o você. Não há outro capaz de conseguir os votos que você consegue. Por isso lhe pedim os que fique com o presidente. O partido está com você. Ouça o clam or da rua.

Em surdina, ouvem -se slogans a favor de Sonia que os sim patizantes am ontoados em frente ao portão entoam de m aneira regular. Um dos chefes do partido prossegue: Não despreze as dem onstrações de afeto que o povo lhe faz... Aqueles que lhe m andaram essa carta não representam nem sequer um a m inoria dentro do partido e não representam m ais que a si m esm os, m ais que a sua própria am bição.

Não há lugar para eles na organização - acrescenta outro. - Nós os expulsam os. Você j á não tem nada a tem er.

De novo lhe oferecem o poder em bandej a de prata, de novo ouve os m esm os argum entos, a m esm a adulação, a ladainha de sem pre...

Tenho que conversar com m eus filhos.

Ela está disposta a m anter sua renúncia, j á se convenceu de com o seria agradável voltar a sua coleção de m iniaturas Tanj ore e recuperar sua paixão pela restauração de quadros e m óveis a ntigos. Mas Priy anka e Rahul estão com ovidos com a súbita explosão de em oção e

solidariedade. Não esperavam tam anha m obilização. Os três se sentem com ovidos por essa curiosa sensação de que o sobrenom e que carregam não lhes pertence, que pertence à índia, às m ultidões que reclam am sua liderança, e de que não são donos de seu destino. Sonia hesita. Mas agora sabe que, se voltar, será pela porta da frente. Seus am igos acabam convencendo-a a ficar. Nã o pode ir em bora por causa do ataque de três rivais que querem seu lugar. Sua renúncia, dizem , só reforçará aqueles que escreveram a carta e a todos os xenófobos da índia. De novo Sonia pensa em Raj iv, em seus filhos, na fam ília, na tragédia do poder, no m edo de perder a segurança, no senso de dever... e de novo cede. Contrariada, m as o resultado é que volta a assum ir o m áxim o cargo dentro do partido com m ais força e autoridade que antes. Anuncia sua volta em um estádio abarrotado. Tanto que um m em bro do partido com enta com um com panheiro:

Você im agina tanta gente j unta sem um a Sônia Gandhi? Sim plesm ente este com ício não existiria - responde o outro. - Sem Sônia, não há com ício; sem Sônia, não há partido.

"Em bora tenha nascido no exterior", diz Sônia assim que a sonora e longa ovação a deixa falar, "fiz da índia m eu país. Sou indiana e continuarei sendo até m eu últim o suspiro. Aqui m e casei, aqui tive m eus filhos, e aqui m e tornei viúva. Em m eus braços m orreu Indira. Se decidi voltar hoj e é porque o partido m e deu um a renovada confiança e esperança. Quero um partido que estej a preparado para m e seguir e pronto para m orrer pelos princípios que decidi adotar." Assim , pouco a pouco, à base de dissabores, Sônia Gandhi vai se acostum ando ao j ogo da política. Certos reflexos lhe chegam inconscientem ente, não por vocação, e sim por contágio, por ter vivido tantos anos nesse caldo de cultura. Lim pou o partido de suas ovelhas negras. Agora tem m ais influência na organização que a que seu m arido teve. Conseguiu isso sem ter a habilidade de distribuir poder, e só com um a rem ota esperança de consegui-la algum dia, o que dem onstra com o as fileiras do partido estavam desm oralizadas.

Com o tem po, consegue consolidar um a im agem pública de política reticente à política, que a im prensa divulga. Mas vive em um estado de terror perpétuo em relação aos m eios de com unicação. Cada palavra sua é m inuciosam ente analisada por seus adversários para descobrir a lgum sinal de que não é tão indiana quanto pretende. Vive trancada em sua carapaça, entrincheirada no núm ero 10 da Janpath, um a fortaleza m ais difícil de franquear que todas as residências onde m orou antes. Vive sem liberdade, atendendo desde o am anhecer a com itês, m em bros do partido, representantes de eleitores que vêm de todos os cantos do país lhe pedir conselhos, solicitar sua opinião com o guia m áxim a. Só as visitas de seus filhos lhe dão calor. Sua m ãe passa os invernos em Nova Délhi e as irm ãs e velhos am igos vão periodicam ente visitá-la. Mas são visitas que m antém em segredo, para que não a acusem de "estrangeira". A sim ples m enção de seu nom e é capaz de anim ar o m ais chato dos j antares ou ato social, com as opiniões se dividindo com veem ência entre os que a adm iram e os que a desprezam . Dois conhecidos deputados de seu partido lam entam em cada coquetel ter com o líder um a "dona de casa italiana sem estudos". Pouca coisa com parado com o veneno de alguns m em bros da coalizão no poder, com o o fundam entalista hindu Narendra Modi, que a tacha publicam ente de "raposa italiana". Sônia sabe que sua condição de estrangeira é seu tendão de Aquiles, e a coalizão no governo, ferozm ente nacionalista e hinduísta, não perde oportunidade de pôr o dedo na ferida. Sua radical negativa em conceder entrevistas deve-se ao fato de não querer se definir. Acha que assim pode deixar seus adversários sem argum entos para atacá-la. Não quer ter que dizer que é católica, m esm o que não pratique. Não quer ter que falar de sua Itália natal, nem de suas lem branças de infância, nem de seus am igos, nem de sua fam ília. Ao contrário, acha essencial ser vista de bem com as tradições de seu país de adoção. Esforça-se para visitar ascetas em grandes tem plos hindus, com o fazia Indira.

Continuar: parte 3 de 4