O Sári Vermelho
Ato Iv - a Mão Oculta do Destino
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Quando o BJP recrudesce seus ataques no Parlam ento contra suas "origens estrangeiras", Sônia se refugia no tem plo da Missão Ram akrishna de Nova Délhi e passa tardes inteiras com o Swam i Gokulananda, um asceta m uito respeitado que am arra um cordão verm elho em seu pulso em sinal de irm andade. Sônia tem m uita fé nesse cordão, está ficando um pouco supersticiosa, com o sua sogra. Cada vez que há um a celebração fam iliar, convoca o sacerdote da fam ília, que m ora em Varanasi, para que oficie os ritos religiosos pertinentes. Quando nasceu seu prim eiro neto, filho de Priy anka, o pandit fez oferendas sofisticadas recitando suas orações. Da m esm a m aneira que Indira escolheu os nom es de seus filhos, agora Sônia é encarregada de escolher o de seu neto. "Raj iv?", propõe. Priy anka tem e que esse nom e condene seu filho a ser com parado por toda a vida a seu pai. Sônia sugere um nom e que com ece com R. Por fim , decidem por Rehan, um nom e parse, para se conectar com a tradição do avô Firoz Gandhi. Mas Sônia insiste em cham á-lo de Raj iv. No fim , fica Rehan Raj iv. Graças a Deus, o horóscopo que o asceta lhe prepara prediz fam a e fortuna para o rebento, m as não um papel político para a sexta geração dos Gandhi.
Mãe e filha suspiram de alívio.Mas, diante da constante provocação, o Swam i Gokulananda se vê obrigado a sair em defesa de Sônia: "Ela é tão indiana quanto qualquer um ", declara. "Leva um a vida disciplinada e não vej o nada de ruim em suas origens estrangeiras". Em Guj arat, estado do qual Narendra Modi, seu feroz adversário, é chefe de governo, um a onda de ataques acaba com a vida de vários m issionários cristãos, acusados pelos hinduístas de fom entar as conversões. "Não deixe que a provoquem ", dizem seus conselheiros a Sônia, "querem que você saia em defesa dos cristãos, não entre nessa, não faça isso." Ela os ouve e opta por se calar, m as então as críticas m udam de orientação. "Por que se afasta do catolicism o?", perguntam seus adversários com perfídia. "Por que tem vergonha de sua própria religião?" Sônia percebe que, faça o que fizer, sua religião e sua origem italiana são um estigm a do qual não pode se livrar. Obcecada em disfarçá-lo o m áxim o possível, cansada da cam panha dos hinduístas contra sua fé, em 22 de j aneiro de 2001 decide fazer um gesto sim bólico de grande significado religioso. Durante a Khum ba Mela, grande celebração religiosa hindu que reúne a cada doze anos dezenas de m ilhões de pessoas na confluência do Ganges - o Yam una e o m ítico Sarasvati - na periferia da cidade de Allaha-bad -cidade dos Nehru, onde foram espalhar as cinzas de Raj iv - Sônia decide tom ar um banho ritual. Entra na água vestida, em pé, e faz um a oferenda em pétalas de flor ao som dos m antras e do ulular das conchas do m ar que os pandits tocam na m argem . Junto com ela estão grandes ascetas hindus, e tam bém representantes de outras religiões, com o o Dalai Lam a. A esplanada de areia entre os rios está cheia de gente até onde a vista alcança. É um a m ultidão tão im pressionante quanto a ordem e a ausência total de distúrbios ou de episódios violentos. O serviço de segurança de Sônia é tão severo que a polícia não perm ite que ninguém se aproxim e m enos de 200 m da m argem onde se encontra.
Nos dias seguintes, sua foto fazendo a puj a aos deuses, publicada em j ornais e em panfletos, é vista por m ilhões de cam poneses em centenas de m ilhares de aldeias. Sônia espera, assim , neutralizar as críticas de seus adversários. De qualquer m aneira, tem certeza de que o povo não dá a m enor im portância ao fato de ela ter nascido na Itália. Além do m ais, pergunta- se... o que significa ser indiano? Entre um habitante do Him alaia e outro do sul, as diferenças são abism ais: não falam o m esm o idiom a nem com em a m esm a coisa, nem veneram os m esm os deuses. Nem sequer têm a m esm a cor de pele. Porém , am bos com partilham o orgulho de ser indianos. A tolerância é parte essencial da cultura do subcontinente, senão... com o essa am álgam a de povos, tradições, culturas, etnias, raças e castas que se cham a índia poderia ter sobrevivido tantos séculos? Em um lugar que sem pre soube assim ilar a diversidade, a noção de estrangeiro perde sentido. Seus conselheiros lhe dão argum entos para se defender. Lem bram -na que quando a índia alcançou a independência, seu prim eiro chefe de Estado foi um inglês: cham ava-se Lord Mountbatten, era o últim o vice-rei do Im pério. Os líderes do partido lem bram que, em 1983, Sônia redigiu um testam ento expressando seu desej o de que seu corpo sej a queim ado segundo o rito hindu. Naquela época, não era provável que Raj iv Gandhi acabasse com o prim eiro-m inistro, e ainda m enos que Sônia assum isse um papel político algum dia. Ela o fez porque acreditava nisso.
No fundo, e isso Sônia bem sabia, é indiano quem se sente indiano. E ela repete sem cessar: "Sou indiana. Ao entrar nesta fam ília, eu m e tornei filha da terra de m eu m arido, filha da índia...". Tem certeza de que o povo percebe seu am or pelo país. Quando lhe perguntam de onde tira os princípios m orais quando precisa tom ar um a decisão no âm bito da fam ília ou da política, não quer m entir e responde ingenuam ente: "Suponho que dos valores católicos que continuam ali, no fundo de m inha m ente", e acrescenta: "Sou um a ardorosa defensora de que a índia continue sendo um estado laico. Por estado laico, refiro-m e a um que abarque todas as religiões. O atual governo não luta por isso". A ferocidade da cam panha contra Sônia encontra em Orbassano um eco inesperado. Um im igrante indiano, engenheiro sique que trabalha na Fiat, foi eleito vereador m unicipal da pequena cidade piem ontesa. Se um sique pode participar da vida política de um a cidade italiana... com o é que um a italiana não pode participar da vida política indiana? - pergunta um deputado do Congress. A resposta do BJP é furiosa: "Deixariam que esse sique acabasse com o prim eiro-m inistro da Itália?" pergunta um deputado nacionalista. "Claro que não!" Em seu apoio, cita o prefeito de Orbassano, que declarou à im prensa: "Eu m e pergunto se nós, na Itália, aceitaríam os um estrangeiro, um a m ulher para ser m ais exato, com o líder de um pa rtido que sim boliza a luta pela independência da dom inação estrangeira, e que continua desfrutando de grande apoio popular, m esm o que m enos que antes. O fato de um a parte dos indianos confiar seu destino a Sônia diz m uito sobre a tolerância da índia". Nesse debate que transcende continentes, um j ornalista italiano chega a sua própria conclusão: "Não, suas origens não contam porque foi absorvida, indianizada, convertida. Nesse sentido, j á não é italiana". Talvez se tenha se tornado indiana de verdade quando, no m eio de um ataque de asm a, ficou olhando para os retratos da fam ília no escritório de Raj iv e, nesse m om ento, aceitou entrar para a política. Foi quando assum iu plenam ente o legado da fam ília.
O aluvião de críticas a sua falta de experiência e a cam panha de ódio por suas origens estão fazendo com que am adureça rapidam ente. Sua personalidade vai m udando aos poucos, à m edida que ganha confiança em si e consolida sua determ inação de solucionar os problem as do partido, ao qual se dedica de corpo e alm a. De 1998 a 2004, enquanto duas coalizões sucessivas lideradas pe lo BJP governam a índia, e surpreendentem ente de m aneira m uito m oderada graças à influência do prim eiro-m inistro Atai Bihari Vaj pay ee, Sônia cuida da regeneração do Congress, sim plificando o processo de tom ada de decisões e buscando o consenso. Faz isso de m aneira m uito diferente de sua sogra, que era m ais im periosa em seu estilo e fom entava um a cultura de corte palaciana. Sônia cerca-se de seus filhos e dos especialistas do Congress, sem se deixar influenciar pelo processo de dem onização que há contra ela. Está m uito ocupada escolhendo os candidatos adequados e assegurando-se de que estão ganhando o favor do povo, estado a estado, sem pressa, m as sem pausa. Muitas de suas decisões são baseadas no que aprendeu com a sogra e o m arido, m as com m uito cuidado para evitar os erros que tanto custaram a eles. Por exem plo, não troca os chefes de governo dos estados a seu bel-prazer, com o fazia Indira. Ao contrário, apoia-os incondicionalm ente, deixa-os agir, e eles lhe agradecem m ostrando um a lealdade sem brechas. Só tem um problem a com o chefe de governo de Orissa, que, depois do assassinato de um m issionário, alinha-se aos argum entos dos fundam entalistas hindus: "É preciso disciplinar os m issionários cristãos", declara. Sônia o destitui no ato, m ostrando que seu pulso não trem e na hora de tom ar um a decisão. Mas exceto alguns problem as pontuais, sob seu m andato o partido volta a ser um a força que se deve levar em conta. Em 2002, e graças ao paciente trabalho de Sônia, o Congress consegue o poder em catorze estados, que som am m ais da m etade da população. Em m arço desse m esm o ano, tem um a vitória esm agadora nas m unicipais de Nova Délhi, conseguindo três quartos das cadeiras. Em todos os lugares, cessam as deserções dos afiliados e a tendência se inverte:
o núm ero volta a crescer.
EM 11 DE MAIO DE 2000, A ÍNDIA celebra um a estranha proeza. O governo elege um a m enina cham ada Aastha Arora, nascida em Nova Délhi, com o o bilionésim o bebê. A notícia de que o país atingiu essa cifra m ágica causa um surto de fervor popular tingido de nacionalism o. Com o tudo na índia é com em orado, tam bém nessa ocasião o povo sai às ruas para soltar roj ões e festej ar. Hordas de j ornalistas e repórteres de televisão precipitam -se ao hospital e invadem o pavilhão onde se encontra a m enina, subindo nos leitos e nas m esas para conseguir um retrato da escolhida. Um a j ornalista do Indian Express está consternada: "O bilionésim o bebê foi recebido por tantos m ilhões de flashes que os m édicos tem em que sua pele tenha sido afetada." Mas a despeito da explosão dem ográfica, por fim , às portas do novo século, surge a esperança de sair da pobreza. Os resultados da econom ia, que continuou se liberalizando desde os tem pos de Raj iv, são prósperos. A índia vive com otim ism o um a onda de fervor nacionalista alentada pelo governo liderado pelo BJP. A im prensa repete que esse vai ser o "século da índia". Parece que o país está bem posicionado no cam inho de se tornar a grande potência que prom ete ser. Depois de tantos anos de controles e de lim itações, toda a energia e a vitalidade contidas transbordam . As universidades e as escolas técnicas fundadas na época de Nehru produzem um m ilhão de engenheiros
ao ano. São m uitos, com parados com os 100 m il das universidades européias e am ericanas. Um a nova geração de em presários floresce à som bra da revolução inform ática e das telecom unicações. Logo a índia se regozij a ao acom panhar de perto a China em outro recorde, o de ser a segunda econom ia com m aior taxa de crescim ento econôm ico do m undo. Parece que o velho elefante indiano se espreguiça. O BJP e os hinduístas atribuem a si todo o m érito. Na bancada da oposição, Sônia denuncia que o progresso econôm ico só beneficia um a puj ante classe m édia que adora um novo deus, o do consum o.
Na próspera Nova Délhi - lem bra, apoiando-se em núm eros de um estudo recente publicado nos j ornais - um a em cada quatro crianças é obesa, m as, no cam po, m etade das crianças de m enos de três anos sofre algum tipo de desnutrição crônica! Que progresso é esse? Repete que a nova riqueza não chega à enorm e m assa de população que vive nas aldeias. A índia rural continua sofrendo o desem prego, os excessos do sistem a de castas, a escassez, a falta de oportunidades, com o agravante de que a expansão da televisão lhes perm ite ver com seus próprios olhos com o vive a outra índia, a que se diverte, prospera e consom e nas grandes cidades. Sônia lem bra o governo que a índia, esse país tão orgulhoso de seus centros avançados de pesquisa e desenvolvim ento abriga 40% dos pobres do m undo. Não devem os nos deixar levar pela euforia desatada pela propaganda do governo sobre os benefícios das reform as. Algum a coisa não anda bem quando a econom ia cresce ao ritm o dos suicídios dos cam poneses pobres, que tiram a própria vida porque estão endividados com agiotas locais e não vêem saída para sua situação.
Mas parece que a m aioria dos deputados não quer acreditar em suas desagradáveis palavras, no fundo porque em baçam o sonho de prosperidade e nacionalism o em que vivem . Sônia prega no deserto, m as não se im porta que a cham em de desm ancha-prazeres. Nehru e Indira sentiam um forte com prom isso para com os pobres, e ela sabe que seu partido sobreviveu por ter se alinhado com os m ais desfavorecidos, esses cuj a voz ninguém quer ouvir. Ela, talvez por conservar a inocência essencial de um a estrangeira, ainda é sensível ao terrível espetáculo da pobreza que m uitos indianos que conseguem um nível de vida m elhor sim plesm ente não vêem . É c om o um reflexo inconsciente que os cega para a m iséria circundante. Olhos que não vêem , coração que não sente... Não ver é não sofrer. Mas Sônia m antém os olhos bem abertos. E sua voz se ouve cada vez m ais alta e clara no Parlam ento: rebate invariavelm ente as conquistas que o governo alardeia. Se a paz voltou aos territórios do nordeste não é pela ação do governo, e sim pelos esforços de Raj iv para selar um acordo de paz que perm itiu que os líderes separatistas, que outrora eram insurgentes nas selvas, hoj e tenham se tornado respeitáveis políticos eleitos pelo povo. Se a situação se acalm ou no Punj ab, tam bém não é graças a esse governo, e sim aos "acordos do Punj ab", que foram obra de Raj iv. Se os nacionalistas m oderados siques perceberam as vantagens de pertencer à índia e retom aram o cam inho da dem ocracia, é graças a seu m arido.
MAS O PONTO MÁXIMO DE SUAS INTERVENÇÕES ocorre em m arço de 2002. De repente, surge um a líder que fala sem m edo e sem com plexos, com a contundência que lhe dá a certeza profunda de suas opiniões. Sônia acusa diretam ente o governo de ter fom entado um novo surto de violência religiosa que tornou a pôr o país à beira do abism o. É m ais um ato na tragédia de Ay odhy a, iniciada por m em bros desse m esm o governo hoj e no poder. Depois da destruição da m esquita, os fundam entalistas hindus encontraram a recusa das autoridades j udiciais a qualquer tentativa de construir nesse local um tem plo ao deus Ram a, j ustam ente para não pôr m ais lenha na fogueira. Mas os m ilitantes não se deram por vencidos, e vários grupos pertencentes a organizações afins ao governo continuaram indo periodicam ente a Ay odhy a para insistir em sua reivindicação. "Não estava prevista no program a do governo do BJP?", perguntavam . Na volta de um a dessas viagens, aconteceu um confronto entre um desses grupos de m anifestantes hinduístas e vendedores am bulantes m uçulm anos na estação de Godhra, no estado de Guj arat. Os vendedores negaram -se a cantar canções à glória do deus Ram a, com o incitavam os m ilitantes hindus, de m odo que estes com eçaram a insultá-los e a puxar suas barbas. Logo a notícia se espalhou, e j ovens m uçulm anos que trabalhavam nos arredores da estação correram em defesa de seus correligionários agredidos. Os m ilitantes hindus em barcaram no trem , que partiu sob um a chuva de pedras. Uns quilôm etros m ais à frente, o com boio parou. Um a coluna de fum aça preta se erguia no céu. Um incêndio a bordo resultou em 58 pessoas carbonizadas, a m aioria m ilitantes hinduístas.
Em bora investigações posteriores determ inassem que o fogo foi provocado pela explosão acidental de um fogareiro, os extrem istas hindus não hesitaram em acusar os m uçulm anos de tê-lo provocado. A notícia de que hinduístas foram queim ados vivos desatou a vingança da população. O chefe de governo de Guj arat, o fundam entalista hindu Narendra Modi, aliado do governo e arqui-inim igo de Sônia, declarou em 28 de fevereiro um dia de luto para que os funerais dos passageiros pudessem ser celebrados pelas ruas da cidade. Era um claro convite à violê nc ia . Os bairros m uçulm anos transform aram -se em ratoeiras. Milhares de hindus enfurecidos atacaram com ércios e escritórios e incendiaram as m esquitas. Em vez de agir de form a enérgica para aplacar a violência, Narendra Modi declarou: "A cada ação corresponde um a reação".
Essas palavras, interpretadas pelos extrem istas hindus com o um aval de seu líder para j ustificar a vingança, m arcaram o início de um a orgia de violência com parável à dos acontecim entos trágicos da Partição. Mas, dessa vez, graças à televisão todo o país foi testem unha de im agens atrozes de m ulheres m altratadas e violentadas por m ilitantes enfurecidos, e depois forçadas a beber querosene diante de seus m aridos e filhos, obrigados a vê-las ser incendiadas antes de serem eles m esm os assassinados. Tudo aconteceu diante da im passibilidade das pessoas, que pareciam com em orar essa vingança sim bolizada pelo incêndio do trem de Godhra. Os j ornalistas que cobriram o m assacre têm certeza de que não foram ações espontâneas, com o dizia o governo local, e sim planej adas.
Viram extrem istas hindus, com registros eleitorais debaixo do braço, apontando para casas e choças habitadas por m uçulm anos nos bairros m istos. Viram -nos apontar com ércios de propriedade de m uçulm anos que tom aram a precaução de adotar um nom e hindu. A eficácia na perseguição e nos assassinatos faz pensar que houve certo grau de planej am ento. No total, m ais de 2 m il m uçulm anos foram assassinados e m ais de 200 m il ficaram sem lar.
Sônia é a voz que m ais ardorosam ente denuncia os fatos. No Parlam ento, chega a acusar o governo de fom entar o genocídio. "Senhora, não use palavras tão fortes", eplica o prim eiro-m inistro. Mas Sônia não se cala. Denuncia a obscura atuação da polícia. "Em certos casos, sabe-se que até aj udaram os m ilitantes a encontrar os endereços que buscavam ." Cita em seu apoio relatórios das investigações de grupos de defesa dos direitos hum anos, que dem onstram que a polícia havia recebido ordens de não interferir. "O que esse m assacre m ostra, senhor prim eiro-m inistro", diz Sônia, "é a face sectária e horrorosa de seu partido, o BJP, que o senhor teve tanto cuidado de disfarçar durante os anos em que esteve no poder, m as que agora salta à vista. Além do m ais, com o é possível que o senhor não tenha se dignado a visitar im ediatam ente os lugares devastados pela violência? Por que esperou um m ês para isso? Sabem os que o senhor Naren-dra Modi está por trás dessas m atanças, e receam os que o governo central tam bém estej a!" Pela prim eira vez, Sônia m ostra o porte de grande política, denunciando o governo com verdadeira e sentida paixão, sacudindo o prim eiro-m inistro com seus ataques, não deixando pedra sobre pedra. As atrocidades que viu na televisão deixaram -na escandalizada: "Isso não é a índia. Isso não representa m eu país", declara. Suas intervenções fazem com que os valores inerentes ao Congress se destaquem m ais que nunca. A pretensão do partido m ais antigo da índia de representar indianos de todas as castas e religiões não só é vista com o algo atraente, m as tam bém com o algo indispensável. A decência dos princípios do Congress se m istura, no im aginário popular, com a im agem e a voz dessa política acidental que fala com o coração na m ão.
MAS O PRIMEIRO-MINISTRO NÃO CONSEGUE que seu com panheiro de partido Narendra Modi renuncie, um a m edida pensada para pacificar o país. Os outros não perm item . Melhor esperar que o povo decida, dizem . A grande surpresa é que, nas eleições estatais de Guj arat, que acontecem dois m eses depois dos sangrentos distúrbios, o tem ível Narendra Modi volta a ter um a vitória arrasadora. A razão é que esse estado é m aj oritariam ente hindu. Sua cam panha, que se baseou em um só princípio, o ódio aos m uçulm anos, parece confirm ar a velha crença do BJP: os distúrbios baseados no ódio religioso, se bem orquestrados, transform am -se em votos. Modi se re ve lou um prestidigitador nessa arte. Aproveitou o fato de Guj arat fazer fronteira com o Paquistão, o que favorece a política do m edo ao inim igo islâm ico. Depois das esperanças suscitadas por Sônia, agora chega a hora de um a decepção m aciça. Na sede do Congress, cenho franzido e óculos, Sônia lê o relatório do secretário-geral de seu partido sobre as eleições em Guj arat. O am biente é som brio. "O Congress não ganhou um a única cadeira em um raio de 100 km ao redor de Godhra, onde um vagão de trem foi incendiado, m atando m eia centena de pessoas. O Congress perdeu todas as cadeiras nas regiões próxim as ao e sta do de Madhy a Pradesh e Raj asthan..." A conclusão é que agora, com o na época da destruição do tem plo em Ay o- dhy a, a política de enfrentam entos com unais está dando dividendos. Os hindus, a grande m aioria, cedem ao m edo e ao racism o. Com o evitar que esse m odelo avance em outras partes da índia? Ninguém tem a resposta.
Agora que tudo parecia sorrir para Sônia, o resultado das eleições em Guj arat é um balde de água fria que abre um questionam ento sobre seu futuro. Porém , o governo, alentado por sua vitória em Guj arat, decide antecipar as prim eiras eleições gerais do século XXI para m aio de 2004, para aproveitar o vento a favor e revalidar seu m andato por m ais cinco anos. Os críticos de Sônia dentro de seu partido alegam que se as forças coligadas ao BJP continuarem ganhando terreno a esse ritm o, ela não bastará para neutralizá-las. Não parece suficientem ente sólida. O fato de, sob sua direção, catorze estados terem m udado de orientação política com eça a ser visto com o algo insignificante. Sônia está, de novo, vulnerável. Censuram -na por não ter conseguido se proj etar com o um a política na linha de Indira ou de Raj iv. Até os m ais otim istas dentro do Congress abrigam dúvidas sobre sua capacidade de levar o partido à vitória. "Será que tom am os a decisão adequada ao convidá-la a liderar o partido?", perguntam -se agora os m esm os que a pressiona ra m a aceitar. Alguns de seus seguidores até agora leais com entam com seus com panheiros de partido que Sônia é boa, m as não o bastante. Todos reconhecem que m elhorou m uito, m as que não é o suficiente, e nunca será. E o Congress tem pressa de voltar ao poder. O partido que governou a índia por m ais tem po está há m ais de sete anos afastado. É o m aior período em toda sua história, e coincide com a presidência de Sônia Gandhi. Pouco a pouco, vai sendo preparada outra conspiração. A proxim idade das eleições gerais atiça as am bições pessoais. Se Sônia sai incólum e desse com plô é porque o líder m orre em um acidente de trânsito. Mas o descontentam ento reina em m uitos setores do partido.
Enquanto o debate sobre suas habilidades com o líder e sua falta de experiência continua, Sônia atreve-se a apresentar um a m oção de censura contra o governo, acusando-o de um a série de coisas que vão da anarquia à corrupção. Ataca de frente, m isturando a agressão com certa espirituosidade, falando com desenvoltura e graça. Por ser m inoria no Parlam ento, a m oção é rej eitada, m as Sônia consegue passar a im agem de um a líder que pode ser um a alternativa para o atual governo. Longe fica a deputada de prim eira viagem , que não encontrava as palavras, ficava m uda diante de um a pergunta ou corava quando a atacavam . As eleições estão aí, e não há outro líder capaz de m obilizar as bases. A sorte está lançada. Já não há volta, nem para Sônia, nem para o Congress.
Nova Délhi, 10 de m aio de 2004. Aos 57 anos, Sônia continua sendo um a m ulher m uito bonita, com o quando era j ovem . Mas é um a beleza que traz as m arcas das tragédias que a abalaram , e por isso seu rosto tem um a expressão que pode parecer dura. Ela, que quando j ovem tanto gargalhava, aparece sem pre grave, com um sorriso que não convence porque surge de um denso bosque de tristeza. Não só seu rosto m udou; sua linguagem corporal é diferente agora. Seu andar vigoroso, a m aneira com o m ove os om bros sob o tecido de seus sáris, tudo nela lem bra Indira. Sônia se tornou indiana até nos gestos.Quando está cansada, aflora um a expressão crispada. E hoj e, nessa m anhã de segunda-feira, enquanto Sônia Gandhi m aquia seus olhos com um a fina pincelada de khol em frente ao espelho em sua casa de Nova Délhi, sente-se esgotada. Há várias sem anas faz cam panha eleitoral intensa, tendo percorrido m ilhares de quilôm etros por todo o subcontinente indiano, quase a distância de um a volta ao m undo, suportando a canícula dessa época. A m aioria foi percorrida de carro, de helicóptero e a pé, m as tam bém teve que fazer 10 km de cam elo para chegar até um a Pequena com unidade do Raj astan. E fez isso para chegar a um a aldeia de apenas duzentos habitantes, onde a esperavam com os braços abertos porque nunca nenhum candidato havia se dignado a se deslocar até ali. Nesses dias, lem brou-se m uito de sua sogra, de seu afã de chegar ao coração do povo, de alcançar a aldeia m ais rem ota, com o aquela vez em que teve que atravessar um rio à noite m ontada em um elefante para chegar a Belchi, um a aldeia de intocáveis traum atizados por terem sido vítim as de um m assacre. Com o sua sogra, Sônia não poupou esforços para fazer sua m ensagem chegar aos lugares m ais rem otos. E m esm o que não ganhe essas eleições, nunca poderá se censurar por não ter dado tudo de si. Com o sem pre, foi m uito gratificante o encontro com os pobres da índia. Em m om entos de hesitação, as palavras do Mahatm a Gandhi, que um dia leu na parede de um am bulatório rural, voltam a sua m em ória: "Quando hesitar ou se questionar, faça o seguinte teste: lem bre o rosto do hom em m ais pobre e m ais fraco que j á viu e pergunte-se se o passo que está prestes a dar vai ser útil para ele. Ele ganhará algo com isso?
Isso lhe devolverá certo controle sobre sua vida e seu destino? Então, você verá que suas dúvidas se dissiparão".
É DURA UMA CAMPANHA ELEITORAL nacional para alguém que nunca disfarçou sua aversão pelo poder. Viver nessa contradição intensifica sua sensação de cansaço brutal, que a im pede até de trocar de sári esta m anhã para ir votar. Decide ficar com o que está usando. Afinal de contas, é branco, a cor das viúvas na índia, e hoj e, dia eleitoral, usar esse sári será um a m aneira de m anter viva a lem brança de Raj iv. Que é com o aj udar a si m esm a a m anter-se viva. Porque tudo o que faz continua sendo para guardar sua m em ória, na im possibilidade de acariciá-lo. E por seus filhos, Rahul e Priy anka, que tanto a apoiaram na cam panha, na vida. Nada une tanto com o a dor da perda dos entes queridos.
Ela, que detesta cham ar a atenção e ser protagonista; ela, que só deu duas entrevistas em toda sua vida, vê-se de repente com ovendo m ultidões de quase 100 m il pessoas um as seis vezes ao dia em lugares diferentes. Falou em híndi com desenvoltura e um leve sotaque e pronunciou discursos ao estilo de Indira, esforçando-se para convencer 600 m ilhões de eleitores a votarem no Partido do Congresso. Às vezes lhe custa acreditar que está à frente da m aior organização política dem ocrática do m undo. Se algum adivinho houvesse vaticinado isso em sua j uventude, quando ainda m orava na Itália, ela o teria cham ado de charlatão.
O que disse a esses m ilhões de votantes que a ouviram atentos? Falou de sua fam ília, um a fam ília que governou a índia durante m ais de quatro décadas, m as que está há sete anos fora do poder; falou dos valores que os Nehru-Gandhi sem pre representaram : liberdade, tolerância, laicism o e unidade. Insistiu no fato de essas não serem eleições ordinárias, e sim um enfrentam ento histórico entre valores diferentes, entre ideologias diam etralm ente opostas. Um a luta entre a luz e o obscurantism o; entre um a índia onde cabem todos e todas as religiões, e outra m edieval e excludente. O que está em j ogo, repetiu, é a convivência entre as incontáveis culturas, etnias, castas e religiões que com põem a índia. Enfim , a própria existência do país com o nação.
As CIDADES ESTÃO EMPAPELADAS de cartazes eleitorais. O BJP está m uito satisfeito com seu slogan: "A índia brilha", o que alude ao bom andam ento da econom ia. Com um país que cresce 9%, duas tem poradas de chuvas abundantes e relações finalm ente relaxadas com o velho inim igo Paquistão, os dirigentes do BJP estão tranqüilos e confiantes. Acham que seu rival, o Partido do Congresso, está acabado, incapaz de se refazer das cinzas, esm agado sob o peso de sua própria burocracia. Têm certeza de que Sônia não é um a líder hábil e experim entada o bastante para ressuscitá-lo, e m enos ainda para obter cadeiras suficientes nessas eleições legislativas. Prim eiro, porque é estrangeira, e, segundo, porque acham que não tem nem o carism a de sua sogra nem o encanto de seu m arido. Dizem que nunca expressou um a opinião original sobre acontecim entos internacionais ou sobre as orientações econôm icas da índia. Terceiro, porque j ulgam ter conseguido fazer com que ela sej a percebida pela opinião pública com o um a sim ples gungi gudiy a, um a boneca m uda, m anipulada sem escrúpulos pelos velhos dinossauros do Partido do Congresso. E não era o que diziam de Indira Gandhi em suas prim eiras eleições? Mas se seus adversários a houvessem acom panhado de perto durante essas sem anas de cam panha, talvez não se m ostrassem tão prepotentes. Teriam sido testem unhas da apoteótica recepção que hordas de m ulheres e hom ens dispensaram a Sônia e a seus filhos, cobrindo-os de rosas e cravos, gritando seus nom es em um a espécie de frenesi. "Isso não é político, é em ocional", com entou um dia um j ornalista europeu com Rahul, que aos 33 anos, se candidata pela prim eira vez pela circunscrição de Am ethi a de seu pai. Se Sônia perder, seu filho j á está na linha de largada. Ninguém escapa do destino do sobrenom e. "Para quem a índia brilha?", perguntava Sônia em seus discursos. "Para os cam poneses que se suicidam bebendo raticida porque não podem pagar suas dívidas?" A m ultidão recebia suas palavras com rugidos de aprovação.
Sônia opôs ao slogan "A índia brilha" - dirigido principalm ente a um a classe m édia urbana com posta por uns 300 m ilhões de eleitores, um m enos lustroso, m as destinado a esses 700 m ilhões que ainda não colheram os frutos da prosperidade econôm ica: "Escolham um governo que funcione", repete. É um slogan de Indira, que o utilizou em várias cam panhas. Sônia opôs à m aneira m oderna de fazer cam panha do partido no poder - que m andou um a m ensagem de voz do prim eiro- m inistro a 110 m ilhões de telefones fixos e m óveis em todo o país (chegando a 355 m ilhões de votantes m enores de 25 anos, um a verdadeira proeza tecnológica, o estilo tradicional de percorrer a índia apertando m ãos, dando abraços, conectando-se com as pessoas,
m ergulhando na adoração sentim ental das m assas. Muito freqüentem ente, o Tata Safari em que viaj avam precisou parar até dez vezes em um a hora por ficar totalm ente cercado de cam poneses, seus rostos secos e corpos m agros colados aos vidros. Sônia teve que fazer força para abrir a porta da frente e ficar em pé sem descer do carro, enquanto a m ultidão se am ontoava ainda m ais, soltando gritos de j úbilo, esticando os braços com a esperança louca de poder tocá-la.
NESSA CAMPANHA VIU-SE QUE SEUS FILHOS despertam as m esm as paixões, principalm ente Priy anka, que j á tem 32 anos. Foi um a revelação ver até que ponto cativa as m ultidões, que foram em m assa ouvi-la falar. E isso sem que ela fosse candidata a nada. Acaba de ter um a filha, Miray a, que, j unto com o m ais velho, Rehan, a m antêm m uito ocupada. Por isso só aj udou sua m ãe e seu irm ão esporadicam ente. Mas bastava que fizesse um cum prim ento para que im ediatam ente centenas de m ãos lho devolvessem em m eio a
aclam ações de j úbilo. Rahul tam bém despertava o ardor das m assas. Assim que abria a j anela, enchiam o carro de pétalas de rosa. Um dia, o m otor parou, e o m otorista não conseguia fazê-lo arrancar de novo. O hom em saiu e abriu o capô, enquanto Sônia repetia: "Que caos, que caos!" tentando ver pelo pára-brisas suj o de suor e de pétalas am assadas se o m otorista era capaz de localizar a avaria. "Mam ãe, fique no carro", repetia seu filho dando-lhe um a palm adinha no om bro, com m edo de que sua m ãe pudesse ter a idéia de sair nesse m om ento, ignorando os protocolos de segurança. Por fim , o m otorista voltou e conseguiu fazer o m otor rugir de novo.- O que houve? - perguntou Sônia.
-As flores, m adam e - respondeu o hom em . - As m argaridas haviam bloqueado a ventoinha! Essa não parece a im agem de um a dinastia política que vai de cabeça rum o ao fracasso, com o prognosticam seus adversários, e até certos com panheiros de partido. É m ais a im agem de um a m ulher e um a fam ília que conseguem sintonizar-se com o povo, m esm o que poucos queiram reconhecer. A verdade é que Sônia conquistou o respeito e o afeto de seu país de adoção por ter aceitado viver a m esm a vida que m atou seu cunhado, seu m arido e sua sogra. O povo, em balado há m ilhares de anos pelas grandes epopéias do Ram ay ana e do Mahabharata, em que as façanhas dos hom ens rivalizam com as dos deuses, parece reconhecer esse sacrifício, e dem onstra isso cada vez que surge a possibilidade. E ela não perde nenhum a oportunidade de devolver as dem onstrações de afeto. Durante a cam panha, depois de quatro longos e quentes dias, relaxou em um a única ocasião, quando, no m eio de um a planície em poeirada, m andou a com itiva eleitoral parar e foi cam inhando sozinha para o local em que havia visto um grupo de m ulheres nôm ades sob um a cobertura de paus e plásticos pretos. Essas m ulheres não tinham a m enor idéia de quem era ela. Sônia não entendia seu dialeto. Os fotógrafos haviam ficado para trás e ninguém ia registrar esse encontro. Mas ali, longe da m ultidão, da im prensa e das reuniões do partido, Sônia Gandhi aproveitou o m om ento abraçando os m ais pobres da índia.
ELA NÃO ACHA QUE VAI GANHAR; quase ninguém no partido acha, e m enos ainda fora do partido. As sondagens concordam : o Congress não está entre os favoritos. "She has no chance", diz a im prensa. Não tem possibilidades Mas não pode evitar que o povo lhe pergunte se chegará a ser a prim eira indiana de origem estrangeira a se tornar prim eira-m inistra. Em tese, sim pode, se o Partido do Congresso e seus aliados conseguirem a m aioria necessária e depois a designarem c om o m áxim a m andatária. Legalm ente tam bém , porque a Constituição não estipula que só os indivíduos nascidos na índia podem aspirar aos m ais altos postos de governo. Cientes de que o m undo da índia é m aior que a própria nação indiana, aqueles que redigiram a Carta Magna dois anos depois da Partição deixaram a possibilidade aberta a todos; e fizeram isso porque a tragédia da Partição havia provocado tanto fluxo de refugiados do Paquistão e Bangladesh que preferiram não im por lim itações, não som ar nada que pudesse incitar a m ais divisão.
Por ora, com essas eleições, Sônia só pretende deter os nacionalistas hindus e erguer o Congress, tirá-lo do m arasm o em que está m ergulhado. Isso lhe bastaria para se dar por satisfeita. Teria cum prido seu dever para com a fam ília e os ideais que seus m em bros sem pre defenderam , e que hoj e estão tão am eaçados. Tiraria das costas um pouco do peso dessa im ensa herança que c a rre ga . E talvez pudesse descansar um pouco. Tam bém , m esm o que não confesse, bons resultados teriam um agradável sabor de revanche contra todos os que a caluniam , os que a hum ilham sem trégua desde que em 1998 decidiu aceitar a presidência do Partido. À m edida que foi se aproxim ando a data da votação, os ataques recrudesceram . Seus detratores deram -lhe um golpe baixo:
trouxeram à baila que Sônia optou pela nacionalidade indiana em 1983, ou sej a, um ano antes de seu m arido se tornar prim eiro-m inistro. "Por que não o fez antes, se estava casada desde 1968 e diz se sentir tão indiana? Fez isso para aj udar seu m arido a ganhar as eleições", apontam com perfídia. "Sua pretensa indianidade é pura sede de poder", acrescentam . É um argum ento falaz que pretende suj ar sua im agem m ostrando-a com o um a am biciosa. Na realidade, ela fez isso para anular os ataques de Maneka, que foi a prim eira a agitar o espectro de sua "italianidade". Além do m ais, talvez em 1983 Sônia não se sentisse totalm ente indiana, talvez seu processo de indianização tenha sido lento e tenha crescido à som bra dos anos e das tragédias fam iliares... m as quem se im porta com a verdade? Suas origens transform aram -se em cavalo de batalha eleitoral. Os ataques são tão baixos que a Corte Suprem a, no início de abril, interveio com um proj eto de lei para proibir as "calúnias" em tem pos eleitorais. Mas j á era tarde; os ânim os estavam m uito alterados. A paz das urnas continuará sendo um sonho inalcançável. Há dois dias, Sônia tentou pe la últim a vez acabar com as críticas sobre suas origens. Em um grande com ício de fim de cam panha, dirigiu-se a seus m ilhares de seguidores em Sriperum budur, cidade onde Raj iv foi assassinado: "Aqui estou, pisando esta terra que está m isturada ao sangue de m eu m arido. Eu garanto que não m e cabe m aior honra que com partilhar de seu destino pelo bem da índia". O povo não parece duvidar da sinceridade de suas palavras, sabedor de que, em Sônia Gandhi, o político e o pessoal estão intim am ente ligados. No fim , o com edim ento de suas reações e a im ensa dignidade que dem onstrou diante dos ataques m ais suj os fazem -na parecer ainda m ais indiana, m ais digna de sua confiança.
HOJE ESTÁ AFÔNICA, POR ISSO RESPONDE com um gesto e um sorriso ao m ordom o quando ele lhe avisa que j á a estão esperando para levá-la a votar. Sônia, arrum ada e com sua bolsa no braço, perm anece em frente à televisão, cuj o noticiário m atutino exibe as notícias do m undo: hoj e faz dez anos que Mandela, o hom em que ela m ais adm ira e a quem conhece pessoalm ente, chegou ao poder na África do Sul, e em outra cam panha eleitoral, a norte-am ericana, o presidente Bush acum ula vantagem contra o candidato dem ocrata John Kerry , a despeito de o apoio popular à guerra do Iraque estar em seu m om ento m ais baixo... Não só na índia a política está cheia de contradições e de surpresas. Mas o que espera com ansiedade é o vaticínio eleitoral do conhecido astrólogo Aj ay Baham bi, que se tornou fam oso quando Hillary Clinton lhe pediu que lesse sua m ão. Finalm ente aparece na tela, e com o tom firm e e decidido de quem tem m uita certeza do que diz, o oráculo barbudo garante que o partido atualm ente no poder revalidará seu m andato com m ais de 320 cadeiras. Isso significa um a derrota hum ilhante para o Congress. A precisão do dado e o tom de suficiência do hom em deixam Sônia abatida. Não tem e a derrota, m as tem e ser arrasada e fazer papel ridículo. Aperta energicam ente o botão do controle rem oto para desligar a tevê e se levanta. Antes de sair, passa pela cozinha para dar instruções Hoj e virão seus filhos e netinhos para alm oçar. Teria preferido reunir-se com eles no La Piazza, o delicioso restaurante italiano do Hotel Hy att, com o costum am fazer aos dom ingos ou quando há algo para com em orar. Mas com o não quer atiçar a controvérsia sobre sua "italianidade", prefere ficar em casa. Não é o m om ento de sair em um a foto com endo m assa. Espera dar nove horas para sair. Por viver na índia, contagiou-se um pouco das crenças locais, e segundo um deputado do partido que ligou esta m anhã de Kerala, no sul, o Rahu Kalam cai hoj e e ntr e 7h30 e 9h. Esse é um m om ento do dia considerado pouco auspicioso para qualquer atividade. É calculado m eticulosam ente pelos astrólogos e publicado nos calendários hindus. Não que Sônia acredite de pés j untos nessas superstições, m as nunca se sabe, do j eito que estão as coisas, m elhor tom ar todo o cuidado...
Assim que abre a porta que dá para o j ardim , sente um a bofetada de ar quente. Falta apenas um m ês para caírem as chuvas das m onções, e até então a tem peratura continuará subindo inexoravelm ente. Coloca seus eternos e grandes óculos de sol e dá um a olhada a sua volta: o gram ado está am arelando, as j ardineiras de flores que coloriam fevereiro j á m urcharam . Mas a som bra das grandes árvores protege o resto da vegetação. Hoj e o term ôm etro m arca 43 graus, o que não im pede que, do outro lado do portão
de sua casa, um grupo de sim patizantes estej a há horas aguardando na calçada para ter seu darshan. Mas não a poderão ver. Com tantas m edidas de segurança, Sônia não pode fazer o que Indira fazia, ficar conversando um pouco na porta de sua residência com os que iam vê-la. Eram outros tem pos. Agora, o Serviço de Inteligência inform a que existe um a "am eaça perm anente" a e la e sua fam ília por parte de grupos m arginais e xenófobos hindus. Sônia está acostum ada a conviver com esse m edo no corpo e não teve outro rem édio senão aceitá-lo depois de tantos anos e tantos sustos. Mas o m ais difícil, ao que nunca poderá se acostum ar, é pensar que poderia acontecer algum a coisa com seus filhos, e agora tam bém com seus netos.
Os soldados de guarda na guarita de sua residência m al têm tem po de cum prim entá-la quando seu Am bassador crem e blindado sai a toda velocidade cantando pneus, seguido por seus seguranças em outro carro Com um a luz giratória no teto. Sônia abriu a j anela de vidro fum ê do carro e faz um gesto rápido com a m ão de dentro do veículo, m as vai tão depressa que não tem certeza de que seus adm iradores a viram . O traj eto de sua casa até Nirm an Bhawan, um com plexo de edifícios do governo onde fica o gabinete em que deve depositar o voto, é curto. N ã o leva m ais de dez m inutos, principalm ente hoj e, dia festivo por ser dia eleitoral. E é agradável porque as largas avenidas estão m argeadas por grandes árvores sem pre verdes, m uitas delas em flor. A cidade m udou m uito, passou de três m ilhões de habitantes quando Sônia chegou para m ais de quinze agora. Há postos de gasolina coloridos com loj a anexa, com o na Europa, grandes arm azéns, centros com erciais, cafés, restaurantes de todo tipo, um a abundância de hotéis de luxo, superm ercados onde se encontra de tudo, desde salm ão defum ado da Escócia até vinho de Rioj a. Mas o núcleo central continua igual, principalm ente quando não há trânsito. Tudo são lem branças para Sônia. Cada esquina, cada rua, cada com ércio: nessa confeitaria Raj iv com prava a sobrem esa favorita dela; nessa praça m orava sua am iga Sunita; naquela viela que dá para a avenida Akbar, levava as crianças à creche; nesse terreno caiu o avião de seu cunhado...
E por essas m esm as avenidas circulava em um Am bassador sim ilar àquele do dia que m udou sua vida. Parecia que aquele carro não chegava nunca. O sangue de Indira ensopava os bancos forrados de veludo, form ando um a enorm e m ancha preta. Por isso sente que seu coração pertence a essas ruas, a essa cidade, a esse país. Para defender-se de tanta calúnia, m andou colar uns cartazes na circunscrição de seu m arido que m ostram diversas fotos de sua vida na índia, com eçando por sua chegada, quando era noiva de Raj iv. "Que tradição indiana descum pri?" pergunta o texto. "Com o nora, esposa, viúva ou m em bro do Congress, que tradição deixei de observar?" Sônia continua traum atizada pela virulência dos ataques contra ela. Os acessos a Nirm an Bhawan estão fortem ente guardados por policiais e soldados esperando sua c he ga da . Os guardas na entrada saúdam -na j untando as m ãos e levando-as até o peito m urm urando o tradicional NAMASTÊ.
Todos sorriem .
O seu é o único veículo autorizado a entrar no recinto. Diante de seu gabinete eleitoral, o núm ero 84, está sendo esperada por rostos conhecidos e um a nuvem de j ornalistas, fotógrafos e sim patizantes. "Com o se sente um a italiana votando na Índia?", pergunta um velho j ornalista m alicioso que não disfarça suas tendências políticas "Sinto-m e indiana. Não m e sinto nem um pouco italiana", diz Sônia com a voz rouca.
O presidente de sua m esa eleitoral cum prim enta-a com um largo sorriso e coloca-lhe um a guirlanda de cravinas no pescoço:
Alguns com panheiros do Congress nos disseram que viria às 7h - diz. Lam ento ter m e atrasado. Desculpe.
Não por isso, por favor... - responde o hom em , ruborizado. - A senhora é a décim a-sexta votante desta m esa... É um bom núm ero, senhora, trará sorte - acrescenta enquanto m ostra a Sônia o funcionam ento da nova urna eletrônica, orgulho da tecnologia indiana. Mais de um m ilhão dessas caixas de plástico do tam anho de um a m aleta e que funcionam a pilhas foi distribuído pela prim eira vez por todo o território - nos lugares m ais distantes, em lom bo de elefante - com a esperança de acelerar a contagem e de lutar contra a fraude. Não haverá m ais m ortos nem feridos durante as brigas entre facções políticas rivais que se acusavam m utuam ente de m odificar o conteúdo das urnas. Agora, um sim ples bipe depois de apertar a tecla adj acente ao nom e e ao sím bolo do candidato eleito indica que o voto foi registrado em um a unidade de controle. Sônia em ite seu voto dessa m aneira inovadora, com o m ais um a entre os m ilhões de india nos que hoj e ouvirão o m esm o som durante a últim a j ornada das eleições gerais. A im prensa de repente se volta para um a idosa que vai votar, sentada em um a cadeira que parentes carregam . Tem 108 anos, é um a refugiada birm anesa que responde aos j ornalistas com voz trêm ula: "Sem pre votei no Congress porque nos aj udou a vir para a índia quando a China declarou guerra à Birm ânia". Aperta a tecla e... bipe! Na saída de Nirm an Bhawan, j á de volta a casa, há tanta gente gritando por ela que o carro m al consegue abrir cam inho. De m odo que pede ao m otorista que pare. Sônia desce do carro e im ediatam ente seus seguranças a cercam e pedem que volte a entrar no veículo, m as ela se nega e faz um gesto firm e para que se afastem . Não pretende ir em bora sem cum prim entar toda essa m ultidão exaltada que grita seu nom e e que repete sem trégua slogans que a glorificam . É o m ínim o que pode fazer por todos os que estão esperando sob esse sol inclem ente. Alheia ao nervosism o dos seguranças, dirige-se à m ultidão, saúda com a cabeça, j unta as m ãos no alto, agradece, sorri... todos querem tocá-la e ela gostaria de abraçá-los um a um , se pudesse. Reconhece a m esm a corrente de sim patia que sem pre existiu entre sucessivas gerações de indianos e os m em bros de sua fam ília, um a corrente quase elétrica entre ela e o povo que se traduz em um a troca de olhares, às vezes um aperto de m ãos, um a com unicação que surge acim a de todas as barreiras.