O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 5 de 6 · parte 4/4

Páginas do PDF

O Sári Vermelho

Ato Iv - a Mão Oculta do Destino

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Quando torna a entrar no carro, de repente se pergunta se o astrólogo desta m anhã na televisão não teria exagerado em sua previsão negativa. Mas é um pensam ento fugaz. Ela sabe m elhor que ninguém que se podem perder eleições m esm o que um m ilhão de pessoas passem a véspera aclam ando o candidato.

A essa prim eira eleição do século XXI com parecem 670 m ilhões de eleitores, um eleitorado duas vezes m aior que o de seu rival m ais próxim o, os votantes nas eleições para o Parlam ento europeu. Para conseguir tal proeza organizativa e garantir a segurança dos eleitores, essa eleição foi dividida em quatro j ornadas ao longo de três sem anas, a últim a sendo hoj e, 10 de m aio de 2004. Quatro m ilhões de funcionários públicos foram m obilizados em 700 m il m esas eleitorais para conseguir resultados que afetarão a sorte de um sexto da população m undial durante os próxim os cinco anos. A tecnologia foi a grande novidade nessas eleições. Nas de 1999, havia só três canais de televisão; hoj e, há m ais de um a dúzia que transm ite 24 horas por dia, e isso sem contar os canais por satélite. Cinco anos atrás, havia cerca de 1,5 m ilhão de celulares; hoj e, há 30 m ilhões. A televisão transm itiu os sorrisos, as roupas, as expressões de cansaço, de alegria, de estupor dos candidatos, seus olhares expectantes e tam bém um ou outro gesto que custou a um político sua popularidade. Mas ninguém sabe, no fundo, que partido se beneficiará m ais com a televisão.

A contagem com eçará no dia 13 de m aio e os prim eiros resultados serão divulgados no dia 14, no fim de sem ana, graças j ustam ente à rapidez que as novas urnas eletrônicas perm item . Mas, para os candidatos, será um a sem ana longa. Sônia j á gostaria de ir desfrutar uns dias do frescor das m ontanhas, m as não pode parecer que se desinteressa pela grande contenda. Seus próprios com panheiros do Congress não com preenderiam que não se m antivesse em seu posto, na capital, na prim eira fila, defendendo-se de algum ataque de últim a hora, m obilizando seus com panheiros, corrigindo algum de seus deputados rebeldes...

QUINTA-FEIRA, 13 DE MAIO DE 2004. Nesta m anhã são esperados os prim eiros resultados. Nas aldeias, os cam poneses aproveitam o calor para fazer um a pausa em suas tarefas e agrupar-se ao redor de um rádio ou um televisor. Em um país onde todos participam das com em orações dos outros, o grande espetáculo da dem ocracia é vivido com o m ais um a festividade, talvez porque com em orar o valor suprem o do indivíduo adquire ainda m ais valor em um lugar tão densam ente povoado. Nas diversas aldeias fora do alcance das ondas, terão que esperar a chegada de algum viaj ante com notícias; ali, os resultados podem levar até duas sem anas para chegar. Em Nova Délhi, vive-se um a grande expectativa nos quartéis-generais dos dois grandes partidos, am bos no centro, onde se decidiram as estratégias e determ inaram as diretrizes. São salas diáfanas banhadas pelo nirvana do ar-condicionado, cheias de m onitores de televisão, com putadores, câm eras de vídeo, im pressoras e toda a parafernália tecnológica. Jovens vestidos à m oda ocidental correm entre os gabinetes, os celulares colados na orelha e, com o concessão à tradição, um a xícara de chá com leite na m ão. No quartel-general do Congress há m ais j ornalistas que m em bros do partido; estes se escondem em suas casas, angustiados com as especulações derrotistas do rádio e da televisão. Alguns, os m ais otim istas, usando o fam oso gorro popularizado por Nehru, conversam e gesticulam com j ornalistas que estão à espreita das prim eiras reações.

Nã o m uito longe dali, na residência de Sônia, a atm osfera está pesada de tensão. Um silêncio denso envolve a casa, decorada com obj etos trazidos de toda a índia, m uitos deles tribais, de belíssim as telas e de algum as pinturas antigas sobre cristal de que Sônia gosta m uito. Nada evoca a ostentação ou o fato de ser o lar de um a fam ília especial, exceto o estúdio, que continua tal com o Raj iv o deixou. As fotos, em m olduras de prata sobre as m esas, m ostram m om entos com partilhados dos Nehru com os Kennedy, Gorbachov, De Gaulle e dem ais personagens ilustres do século XX. E lá estão os fam osos retratos de Nehru, Indira e Raj iv, em suas m olduras de m adeira nas paredes brancas, que hoj e tam bém parecem ter vida própria, com o se do além estivessem participando do suspense do m om ento. Sentados nos sofás e de cócoras, os colaboradores de Sônia aceitam de bom grado o chá com arom a de cardam om o que a anfitriã lhes oferece. Todos guardam um silêncio constrangedor, pois Sônia prefere a televisão desligada. Tem m edo dos resultados e quer se poupar da agonia de ir conhecendo núm eros parciais. Prefere saber tudo de um a vez, quando tiver que ser. Tão perto do final, tem m edo de decepcionar a "fam ília". Sabe que, se ganhar, será vitória de Sônia Gandhi, que se proj etou para o eleitorado com o o que é, um a m ulher vulnerável, sincera e audaz; se perder, será a derrota da "viúva de Raj iv" ou da "nora de Indira", a "italiana" que não esteve à altura das circunstâncias e que carecia tanto de am bição quanto de talento político. "Realm ente m erece ganhar?" parece se perguntar nesse m om ento em que a assalta todo tipo de pensam entos incongruentes e até contraditórios.

O CELULAR DE SUA AMIGA AMBIKA, secretária-geral do partido e a com panheira que m ais horas passou com ela ultim am ente, toca com o estribilho do Congress. A m ulher pousa sua xícara de chá sobre um a m esinha e cola o aparelho à orelha. A seguir, esboça um sorriso e desliga: "Sônia, nossos aliados em Tam il Nadu ganharam ". A boa-nova distende um pouco o am biente. "Lá não farem os papel ridículo", pensa Sônia. Tam il Nadu é um grande estado, certam ente im portante no resultado final, m as todos estão im pacientes para saber os núm eros de estados-chave com o Uttar Pradesh, Maharashtra ou Kam ataka. Sônia arde de desej os de saber e, ao m esm o tem po, não quer.

Uns segundos depois, toca outro celular. "Sônia, ganham os em Maharasthra!" anuncia outro m em bro de sua equipe. O som do fax j unta-se ao dos celulares: a m áquina cospe fotocópias de j ornais com m ensagens que vêm de várias delegações do partido... E todas com boas notícias. Em um instante, o estúdio está invadido por um a cacofonia de ruídos, sons e fragm entos de conversa. Sônia está desconcertada, até que recebe um a ligação no telefone privado de casa: Parabéns, Soniaj i! Não só estam os ganhando, com o estam os arrasando. Em m eu nom e e no de todos os m em bros do Congress, transm ito-lhe nossos m ais sinceros parabéns. Não vam os nos precipitar, tem os que ser prudentes... - diz ela. Sim , tem razão, m as j á conhecem os a tendência... Sônia passa o olhar pelos m em bros de sua equipe, com um sorriso que ressuscita suas fam osas covinhas, as que sem pre apareciam quando se sentia feliz. Vou ligar a televisão... - diz ao se levantar.

O que a tela m ostra é um lugar m uito fam iliar: a rua Akbar, onde ficam os gabinetes do partido, a m enos de cinco m inutos de sua casa. Sim patizantes entusiastas carregam cartazes de apoio e gritam slogans: "Viva Sônia Gandh!", "Viva o Congress!", enquanto outros soltam roj ões, dançam e bebem na rua. "Cham aram -na de estrangeira, m as o povo deu um a resposta contundente!", afirm a um a sim patizante portando um a bandeira com as cores nacionais, açafrão, verde e branco. "Isso é um presente do todo-poderoso!". declara um conhecido m em bro do partido com lágrim as nos olhos. Essa prim eira reação de j úbilo deixa todos atônitos, m as Sônia não está preparada para ouvir um grito que surge entre a m ultidão: "Viva a prim eira-m inistra Sônia Gandh!". Fica petrificada, com o se a realidade de sua nova situação a assaltasse da tela da televisão. Aturdida pela enorm idade do que se avizinha, senta-se na beira do sofá. Quer disfarçar sua angústia, m as está tão im pressionada que é im possível.

Você está bem ? - pergunta Am bika.

Sônia respira fundo e aponta para o peito, com o se sentisse um princípio de crise. Quer que vá buscar seu inalador?

Não precisa... j á vai passar.

No fundo, reza para não ter um ataque de asm a. O que sente é ansiedade, um a ansiedade que os gritos dos entusiasm ados sim patizantes da rua Akbar só fazem agravar: "Sônia Gandhi, prim eira-m inistra!".

O apresentador volta aos resultados. Ao separá-los por estado, é com o se a voz dos diversos povos da índia penetrasse o escritório, com o um eco que vem de m uito longe, das aldeias que povoam as encostas tibetanas do Him alaia, das choças de barro e das tribos que habitam os m angues do sul, dos pescadores em suas im ensas praias de Kerala, dos m uçulm anos de Guj arat que sobreviveram aos recentes m assacres dos fundam entalistas hindus, dos m ilhões de favelados de Bom baim e Calcutá... E a voz do povo se repete, assom brando Sônia, seus colaboradores, seus adversários, a índia e tam bém o m undo. Um a voz que desafia as previsões dos especialistas em política, dos m agnatas da televisão e dos institutos de pesquisa. Um a voz que se rebela contra o pretenso dom ínio dos m eios de com unicação sobre as m assas. Nem um único especialista foi c a pa z de prever a derrota espetacular do partido no poder. Os resultados arrasam sem contem plações, tam bém , a credibilidade de tantos astrólogos, quiro-m antes e supostos m agos que sem earam de enganos e m entiras a vida do país. O fam oso astrólogo Aj ay Baham bi cobriu-se de glória!...

A surpresa inicial logo se transform a em euforia, quando a televisão anuncia que o Congress está prestes a conseguir 145 cadeiras, o que lhe perm ite, ao lado de seus aliados, atingir em coalizão a m á gic a cifra de 272. Ou sej a, a capacidade de governar. Os 272 que Sônia anunciou prem aturam ente em 1999, agora sim foram conseguidos. Som a-se à ansiedade um a sensação de profunda satisfação. E com o fecham ento desse dia triunfal, chega a notícia de que Rahul foi eleito deputado pela circunscrição de Am ethi, digno herdeiro de seu pai. Dupla vitória que faz retornar ao poder a fam ília m ais adm irada e vilipendiada da índia. A seguir, os gritos da m ultidão que foi se aproxim ando da casa e aclam a Sônia na rua sufocam o som da televisão. Na sede de Akbar Road, o responsável pela segurança do partido liga para a polícia de Nova Délhi para que m ande reforços ao núm ero 10 da Janpath, prevendo grande concentração de pessoas.

O BJP PERDE EM 24 DOS 28 ESTADOS da índia. Perde até nos bastiões que j ulgava inexpugnáveis, com o a cidade santa de Varanasi ou a própria Ay odhy a. Dessa vez, sua certeza de que os distúrbios com unais se traduzem em votos se m ostrou um erro im enso. O povo reagiu - diz Priy anka quando vai cum prim entar sua m ãe. A cada m inuto que passa, o slogan dos hinduístas, "A índia brilha, parece m ais ridículo, com o se os votantes houvessem exposto a falsidade dessa propaganda triunfalista, que deixava fora do j ogo a m aioria do povo, essa que não se vê nas cidades, m as que agora tem sua revanche nas planícies ardentes e nas aldeias perdidas. A expressão no olhar de Sônia traduz o sentim ento de seus correligionários: triunfo, prazer, risos e, em um dado m om ento, algum as lágrim as. Ela que entrou na corrida eleitoral com a única esperança de não ser esm agada, atinge a m eta com o vencedora absoluta.

"Im pressionante com oção", diz a prim eira página da edição especial do Hindustan Tim es, o j ornal em inglês m ais lido de Nova Délhi, no dia seguinte, sexta-feira 14 de m aio. Na residência de Sônia, a grande quantidade de m ensagens de parabéns e de apoio congestionaram o fax. Cartas, telegram as, SMS... de todos os lugares e por todos os m eios chovem m ensagens de parabéns para a futura "prim eira-m inistra". Cario Marroni, prefeito de Orbassano, m anda-lhe um telegram a em nom e dos 25 m il habitantes de sua cidade: "Estam os orgulhosos de você e desej am os que siga pelo cam inho do desenvolvim ento e da solidariedade na m aior dem ocracia do m undo. Com partilham os com você, com sua índia, esses valores que unem a todos nós". Paola, m ãe de Sônia, soube da vitória da filha em sua casa da Via Bellini por um j ornalista local. A seguir, recebeu um a aluvião de ligações. "Sim , claro que estou satisfeita", repete disfarçando seu desassossego, "m as sinto-m e assediada e não tenho nada a dizer." Com o dizer que tem e que aconteça com sua filha o m esm o que com seu genro? Por isso, Paola prefere se calar e decide não atender m ais ao telefone.

Agora, a tarefa de Sônia é form ar um a coalizão capaz de governar. Não hesita um instante em apelar a seu velho am igo, o brilhante econom ista sique Manm ohan Singh, seu guru em assuntos de econom ia. Com ele, redige um acordo para conseguir a firm e adesão dos dem ais m em bros da coalizão, que conta com m ais de vinte partidos.

Quão longe ficam os tem pos de Indira, ou de Raj iv, quando o Congress governava com m aioria absoluta! A política é, agora, com o um a panela gigantesca, onde fervem os sonhos, as aspirações e os interesses cada vez m ais diversos, até contrários, de um sexto da hum anidade. E Sônia se vê, de repente, no papel de cozinheira-chefe. Precisa tem perar bem o cozido, contentando os com unistas da frente de esquerda e tam bém os liberais, os partidos regionais e os representantes de castas... Mas a tarefa não a pega desprevenida: há m eses tece alianças, falando com uns e outros, aplainando o cam inho. Seu trabalho, invisível, agora dá frutos. Com o j á diziam as freiras do inter-nato de Giaveno, onde estudou, tem talento pa ra o consenso: nisso, não é com o sua sogra, que era m ais propensa ao autoritarism o. Para Sônia, o que realm ente interessa são as grandes questões de Estado, com o reduzir a pobreza e garantir o crescim ento econôm ico; ou conseguir a paz com o Paquistão e resolver o problem a da Caxem ira. Não ocorre o m esm o com seus aliados. A m aioria é form ada por verdadeiros sátrapas, líderes de partidos regionais com egos m aiores que suas organizações. Cada um puxa a brasa para sua sardinha, exigindo pastas m inisteriais, políticas específicas de apoio aos m em bros de sua casta ou seus votantes. O conhecido líder de um dos estados m ais pobres exige, em troca de seu apoio, o Ministério das Estradas de Ferro, m uito im portante porque em prega m ais de 10 m ilhões de pessoas. E todos pensam que Sônia será a prim eira-m inistra. Alguns até exigem isso, porque não querem ficar sem essa valiosa liderança que vai lhes perm itir desfrutar de sua parcela de poder; acham que sem ela a coalizão terá vida m uito curta.

Depois do anúncio de que o partido vai nom eá-la líder de seu grupo parlam entar, o país inteiro dá por certo que a italiana assum irá o posto. Caso houvesse algum a dúvida, quando um a j ornalista lhe pergunta se é verdade que o líder do grupo parlam entar será o próxim o prim eiro-m inistro, Sônia responde: "Norm alm ente, é assim ".

Três palavras que são com o outras tantas bofetadas em seus adversários. Um a doce vingança, que logo recebe sua réplica quando um dirigente do partido derrotado declara na televisão que considera um a vergonha que um a estrangeira governe a índia. Outro líder do m esm o partido acrescenta que boicotará o ato de investidura da coalizão se Sônia Gandhi for prim eira-m inistra. Um terrem oto nacionalista sacode o país, e afeta até m em bros do próprio partido de Sônia. Um a chefe de governo do estado de Madhy a Pradesh, um a m ulher de m eia-idade cham ada Um a Bharti, extrem ista hindu afiliada ao BJP, anuncia sua dem issão alegando que "colocar" um a estrangeira no posto m ais alto é um insulto ao país e põe em risco a segurança nacional. Outra m ulhe r, um a respeitada líder do partido derrotado cham ada Sushm a Swaraj , solicita um a entrevista com o presidente da República, o cientista m uçulm ano Abdul Kalam , para expressar a "dor e angústia" que o tem a lhe causa. "Se Sônia for prim eira-m inistra, vou raspar a cabeça, vestir roupa branca, dorm ir no chão e fazer um a greve de fom e indefinida. Mobilizarei a nação contra ela", am eaça à saída de sua entrevista diante dos m eios de com unicação.

Mas, sem dúvida, o acontecim ento que causa m aior im pacto é o suicídio, em um povoado perto de Bangalore, de um ativista do partido derrotado, um pai de fam ília de trinta anos cham ado Mahesh Prabhu, que antes de ingerir um pote de raticida, escreveu um bilhete explicando que "não pode suportar a idéia de que, em um país de 1,1 bilhão, não tenha sido possível encontrar um único líder indiano para dirigir a nação". O hom em deixa viúva, um filho de dezoito m eses e um pa ís perplexo. Muito barulho, m uita divisão, m uita histeria... As conseqüências de sua vitória c om e ç a m a assustá- la. Tocou a fibra do nacionalism o, um sentim ento irracional que rapidam ente pode beirar a loucura. Apesar de o resultado das eleições m ostrar que pouco im portam suas origens para o povo, o tem a continua sendo explosivo. Está tão ressabiada e é tão cautelosa que responde a um entrevistador da televisão italiana em inglês, e não em sua língua m aterna, m ergulhando o j ornalista na perplexidade m ais absoluta. Com o fazer alguém que a entrevista por cinco m inutos entender que não pode falar em seu idiom a natal, m esm o que queira? Com o explicar o que significa ser estrangeira na índia e estar tão perto do poder que sente seu calor abrasador? Com o contar a violência que dizim ou sua fam ília e que a espreita com o um anim al de tocaia? Com o explicar tanto luto, tanta dor, tanta angústia e tanto m edo? Com o contar tudo isso, sem o que ninguém pode entender suas reações? Teria que com eçar do zero cada vez que falasse com um j ornalista, e nunca há tem po para isso.

Para aum entar ainda m ais a inquietude geral, o índice da bolsa de Bom baim , o Sensex, desaba na m aior queda da história financeira da índia, alim entado pelo m edo de um governo no qual o peso da esquerda acabe com as reform as até agora conseguidas. Sônia pede para seu hom em de confiança, Manm ohan Singh, a fazer declarações para acalm ar os m ercados, esperando que as águas voltem a seu curso o m ais rápido possível.

PRECISA PENSAR. NA MANHÃ SEGUINTE, acom panhada de seus filhos, sai discretam ente de casa, m as a polícia está nervosa e suas escoltas habituais ainda m ais. Era previsível que depois de sua vitória eleitoral as m edidas de segurança cerceassem ainda m ais sua quase inexistente liberdade de m ovim entos. Agora, precisa avisar com m ais antecedência suas saídas, para que, além de sua escolta pessoal, a polícia de Délhi estej a de sobreaviso. Um a leve neblina envolve as ruas vazias a essa hora, tão cedo. É o m elhor m om ento do dia para evitar o calor e circular rapidam ente. O carro de Sônia percorre as largas avenidas da parte nova até chegar aos j ardins onde estão os m ausoléus da fam ília. Ouve-se o canto dos pássaros acim a do m urm úrio rouco da nova pista que cruza Délhi de norte a sul. Os três se recolhem uns instantes e a seguir cada um faz sua oferenda floral, j ogando pétalas de rosa sobre o m ausoléu. Que diria Raj iv dessa inesperada vitória de sua m ulher, que torna a pôr toda a fam ília na berlinda? Ela, que fugia da atenção da m ídia com o o diabo da cruz, lem bra agora o m om ento em que, sendo seu m arido prim eiro-m inistro, o deixou plantado com um a equipe de televisão francesa que insistia em fazer im agens da fam ília reunida... "Nem m esm o eu posso fazê-la m udar de idéia", dissera Raj iv ao j ornalista. Agora seu m arido deve estar rindo no céu. Deve estar surpreso, com o todos na índia; e orgulhoso tam bém , com certeza; m as sobretudo assustado, por ela, por seus filhos e pelos netos que não conheceu. Cuidado com a vitória, pois pode se voltar contra você e destruir tudo o que estiver na frente. Cuidado com a face oculta da vitória. Não se sabe o que esconde. "E você, Raj iv, o que faria em m eu lugar?"

NAS SUCESSIVAS REUNIÕES QUE FAZ NESSE DIA com diversos m em bros de sua coalizão, evita m encionar o tem a da liderança. Diz a um j ornalista da HLC-"Não tenho nenhum posto em m ente". No dia seguinte, 15 de m aio, os m em bros m ais respeitados do partido, assustados diante da idéia de ficar órfãos de líder, rogam -lhe, sej a qual for sua decisão, que a retarde algum as horas. Querem ganhar tem po para que cheguem todas as m ensagens de apoio que os aliados enviam dos últim os recantos da índia. De hábito, o candidato a prim eiro-m inistro dirige-se ao presidente da República com esse aval para receber a autorização oficial de form ar governo. É um passo que ela terá que dar em breve, levando em sua bolsa essas m ensagens que a enaltecem e que m ostram que é a líder indispensável sem a qual a coalizão carece de sentido. Correligionários e aliados esperam que Sônia acabe cedendo: o partido precisa provar a suas bases que encontrou seu guia. A isso som a-se a pressão em ocional de seus am igos, com quem com partilhou tantos dissabores e m om entos difíceis. Tem a im pressão de que os estará abandonando se não aceitar o posto. Não é fácil lhes dizer agora: não j ogo m ais. Poderão entender? Para acalm á-la, garantem : "Aceitarem os sua decisão final". Sônia ainda tem três dias para pensar.

Na tarde do dia 15, depois de ter sido form alm ente eleita por unanim idade líder do grupo parlam entar do Congress, Sônia Gandhi dirige-se a seus deputados: "Aqui estou, no lugar ocupado por m eus grandes m estres, Nehru, Indira e Raj iv. Suas vidas guiaram m eu percurso. Sua coragem e inteira devoção à índia deram -m e força para seguir seu cam inho anos depois de seu m artírio. Quero lem brá-los hoj e, quero hom enageá-los hoj e. O povo reafirm ou que a alm a de nossa nação é integradora, laica e unida. Rej eitou as políticas de ataques pessoais e as cam panhas negativas. Rej eitou a ideologia dos partidos fundam entalistas. Logo terem os aqui, no governo c e ntr a l, um a coalizão liderada pelo Congress. Vencem os, contra todos os prognósticos. Prevalecem os a despeito dos vaticínios agourentos. Em nom e de todos vocês, quero expressar m eu agradecim ento de todo coração ao povo da índia. Obrigada".

A sala prorrom pe em um a longa ovação e a seguir os deputados vão cum prim entá-la pessoalm ente. Todos querem se aproxim ar da responsável por tanta alegria e tanta expectativa, a pessoa que tem a chave do poder. Nessa sala que foi testem unha de tantos dram as nacionais, de tantas am argas discussões, agora se respira um am biente festivo. Sônia está radiante. Há tanta confusão que os deputados têm que fazer fila para apertar sua m ão ou, m elhor ainda, fazer algum com entário que sej a suficientem ente oportuno para que ela o recorde... tudo pode servir no futuro. Entre os últim os a esperar sua vez encontra-se um rapaz, vestindo um a kurta branca e calças largas, seu filho Rahul, que se revelou nessas eleições um prom issor líder das j uventudes do partido. Sônia sorri afetuosam ente para ele enquanto lhe estende a m ão, com o aos outros. P orém , os veteranos e os m ais próxim os de Sônia estão preocupados, porque em todo seu discurso não disse um a única palavra sobre seu papel na nova coalizão. Quando lhe sugerem que vá , no dia seguinte, até o presidente da República para solicitar form alm ente perm issão para form ar governo, Sônia se esquiva dizendo que o bloco de esquerda não confirm ou ainda seu apoio, o que não deixa de ser um a desculpa esfarrapada. A verdade é que quer usar todo o tem po disponível para pensar.

DEP OIS DE PASSAR UM DIA INTEIRO em casa com os filhos avaliando a situação, na segunda- feira, 17 de m aio, reúne-se com seus aliados m ais próxim os. Tem algo im portante a dizer. Eles im aginam , e não se enganam : "Acho que não devo aceitar o cargo de prim eira-m inistra". Não fala de m aneira taxativa, com o se sua decisão fosse firm e, m as com o se quisesse m edir a reação. "Não quero ser a causadora da divisão do país", acrescenta, deixando todos constrangidos e perplexos. E passa a sugerir um a solução salom ônica, que causa certa irritação: sua idéia é que ela continue na presidência do partido... e Manm ohan Singh sej a prim eiro-m inistro. É um a idéia revolucionária porque significa um a direção bicéfala, um experim ento na arte de governar.

Um profundo silêncio acolhe suas palavras. Sônia prossegue: "Ele é honrado, tem um a excelente reputação com o econom ista, tem experiência na adm inistração... Tenho certeza de que será um grande prim eiro-m inistro". Mas a sugestão os deixa frios. É bem sabido que Manm ohan Singh não tem carism a. É um hom em sério, um tecnocrata, não um político. "É com o dizer que esta vitória não serviu de nada. A coalizão não se m anterá sem um a Gandhi, sem a única líder capaz de aglutinar grupos tão díspares", diz um dos seus. A idéia tam bém não entusiasm a os líderes m ais veteranos, alguns dos quais estão há cinqüenta anos na m ilitância do partido. Manm ohan Singh está há apenas catorze anos, é um novato. Além do m ais, é sique, representante de um a m inoria que m al som a 6% da população indiana. Seria a prim eira vez que um não hindu assum iria esse posto desde a independência. Com o a m aioria hindu verá isso? O povo votou por um a índia laica, secular, onde a religião não tem que influir na política - lem bra Sônia.

Mas é, acim a de tudo, o fato de não contar com um a Gandhi no posto-chave que preocupa - e m uito

sua gente. A essa altura, a m ística do sobrenom e conta m ais que todo o resto. "Será o governo m ais curto da história", vaticinam uns. Outros não se dão por vencidos e rogam que reconsidere. Até os dois m em bros do partido que se queixavam em particular de terem com o líder um a "dona de casa italiana sem estudos" suplicam -lhe agora que aceite ser prim eira-m inistra. Em um a sem ana, passou de um a vulgar "dona de casa" a "um a am iga, um a guia, a salvadora da nação".

À TARDE, MANMOHAN SINGH CHEGA ao núm ero 10 da Janpath usando o eterno turbante azul, a barba branca, os olhinhos pretos cheios de inteligência e o ar de ave frágil. A duras penas consegue abrir cam inho por entre a m ultidão de deputados e sim patizantes que atenderam ao cham ado daqueles que estão reunidos com Sônia, e que bloqueiam a entrada. Há tantos que j á não cabem na casa. Esperam no j ardim ou na rua, sob um sol inclem ente, 43 graus à som bra, que sua líder se pronuncie. Para Sônia, a situação parece fam iliar; ela tem a im pressão de j á tê-la vivido, quando a pressionavam para que aceitasse a presidência do partido. Mas se antes era difícil dizer "não", agora que o que está em j ogo é o poder, é praticam ente im possível. Por m ais que tente argum entar, não aceitam sua decisão. Não entendem que se possa recusar o cargo de m aior poder, que é o sonho de todos os políticos. É inaceitável para eles, a despeito de saberem que para Sônia o poder nunca foi um a m eta em si. Sabem que está na política por um com prom isso pessoal, porque o destino assim quis. "Seria um desastre para o partido, para a coalizão, para o país..." repetem sem cessar. "Sônia, não nos abandone."

Enfrentando um a verdadeira rebelião em suas filas, Sônia pede que lhe dêem todo o tem po necessário. Mas a situação chega a ser tão encarniçada, a oposição tão forte - um deles am eaça atear fogo em si m esm o se ela rej eitar o posto - que Sônia se assusta e volta atrás. Duas horas depois de ter sugerido que talvez não aceitasse o posto de m áxim a m andatária, Manm ohan Singh va i ao j ardim e anuncia com sua vozinha: "A senhora Gandhi aceitou reunir-se am anhã pela m anhã com o presidente da República".

Ufa! Um m urm úrio de aprovação surge da m ultidão. O anúncio consegue relaxar os ânim os. Os que com eçam a ir fazem -no certos de que a pressão funcionou, que seu critério prevaleceu. No fim , a Líder aceitou assum ir sua responsabilidade. O Congress estará de novo instalado no poder, nas m ãos de um a Gandhi. A história se repete. A m ultidão se dispersa em paz.

PARA SÔNIA, O PROBLEMA É COMO FAZER aqueles que a veneram engolir essa am arga pílula; aqueles que esperam tudo dela. Com o fazê-los entender? Com o ousam pensar que ela pode governar sozinha esse país? A oposição não lhe dará trégua, um dia sim e outro tam bém lhe j ogarão na cara suas origens. Algum louco a acabará m atando, tem certeza disso. Além do m ais, tam bém não tem experiência e logo se queim aria. Agora precisa é ficar sozinha. Em seu quarto, abre as j anelas antes de se deitar. Respira fundo o ar quente. Bate na m adeira para que não tenha um ataque de asm a. Toda sua infância dorm iu com as j anelas abertas, a despeito do frio. Hoj e, sente de novo essa antiga angústia. É um a sensação de sufocação que volta cada vez que deve tom ar um a decisão im portante. Cada vez que sente um a pressão insuportável. Desliga o ar-condicionado e deixa a j anela aberta. A brisa incha as cortinas, que se m ovem com o fantasm as de algodão. Mas é um a brisa quente, que não alivia. Um a neblina averm elhada ilum ina o céu poluído da cidade. Os cães latem . Na avenida, um veículo com o escapam ento furado solta pequenas explosões.

Por fim , faz-se o silêncio que tanto desej a. Nesses últim os dias, a casa parecia um galinheiro. Tanto barulho não perm ite ouvir. Precisa de silêncio para entrar em contato consigo, para se ouvir. Para saber o que fazer am anhã. Ou m elhor, com o fazer. Terça-feira, 18 de m aio, é um dia que os m em bros do Congress não esquecerão facilm ente. Cerca de duzentos deputados do partido esperam no hem iciclo do Parlam ento - a m esm a sala que foi testem unha da eleição de doze prim eiros-m inistros da Índia - que Sônia Gandhi anuncie sua decisão. Quando aparece, seguida de seus filhos Rahul e Priy anka, am bos com o sem blante sério e herm ético, alguns tem em que as notícias não sej am boas. Sônia chega sem a pasta que deveria conter as cartas e m ensagens de apoio que centenas de líderes do Congress lhe enviaram para incentivá-la a assum ir o cargo. É um a tradição que os prim eiros-m inistros anteriores cum priram sem pre. Talvez ela a estej a descum prindo por capricho, atrevem -se a pensar aqueles que resistem a perder o últim o resquício de esperança. São os otim istas, os que pensam que não será capaz de rej eitar o cargo depois de tanta pressão. Um silêncio sepulcral invade a sala enquanto Sônia, im pecável em um sári castanho, o cabelo cuidadosam ente penteado para trás caindo sobre os om bros, cum prim enta vários com panheiros j untando as m ãos à altura do rosto enquanto abre cam inho até o m icrofone. Coloca os óculos para ver suas anotações e diz: "Desde que, há seis anos, entrei com reticência na política, sem pre soube m uito bem - e declarei em várias ocasiões - que o posto de prim eira-m inistra não era m eu obj etivo. Sem pre tive certeza de que se m e encontrasse, um dia, na posição em quem e encontro hoj e, obedeceria a m inha voz interior". Faz um a pausa, e o silêncio se torna m ais tenso ainda. Sônia levanta a cabeça e olha para seus filhos, depois para os dem ais presentes: "Hoj e, essa voz m e diz que devo hum ildem ente recusar esse posto".

Um violento terrem oto não teria causado m ais alvoroço. Um clam or ensurdecedor invade a sala. Sônia eleva o tom enquanto, com a m ão, pede silêncio para se fazer ouvir: "Fui subm etida a m uitas pressões para reconsiderar m inha postura, m as decidi obedecer a m inha voz. O poder nunca representou um a tentação para m im ...". Um coro de lam entos e de enérgicos protestos interrom pe-a. "Não pode nos abandonar agora!" clam am uns. "Não pode trair o povo da índia..." exclam a Mani Shankar Aiy ar, velho am igo de Raj iv e político influente. "A voz interior do povo diz que a senhora tem que ser a próxim a prim eira-m inistra da índia!" Eu peço, por favor, que respeitem m inha decisão... - diz Sônia com firm eza, m as de novo a interrom pem .

Sem a senhora nesse posto, não terem os nossa inspiração. Um a dúzia de deputados se reveza para fazer seus discursos, invocando o exem plo de serviço público de seu m arido e de sua sogra. "Faça a m esm a coisa!" repetem . "Estej a à altura!" Durante m ais de duas horas continua o enfrentam ento ardoroso entre o irresistível desespero dos deputados e a determ inação inam oví-vel de Sônia. Os discursos oscilam entre as reprim endas que a tacham de egoísta e certa adm iração pelo gesto insólito de renunciar ao poder. Alguns a acusam de dar as costas ao m andato que m ilhões de indianos lhe atribuíram . Sônia ouve im passível essa horda de órfãos, o m axilar apertado. Por fim , os deputados apresentam um a resolução conj unta para que reconsidere sua decisão, m as ela, de m aneira elegante e com um ar sem pre enigm ático, diz que não acha que sej a possível. "Os senhores expressaram seus pontos de vista, sua dor, sua angústia pela decisão que tom ei. Mas, se tiverem confiança em m im , perm itam - m e que a m antenha." É questão de insistir, pensam uns. Muitos lem bram a crise de 1999, quando anunciou sua dem issão com o presidente do partido. Acabou cedendo depois de os líderes lhe rogarem que voltasse. O problem a, agora, é que o tem po está acabando. Por lei, deve-se form ar governo antes do fim da sem ana. Um deputado de Uttar Pradesh lem bra que a decisão de Sônia tem um precedente na história da índia: "A senhora deu um exem plo com o o do Mahatm a Gandhi", disse referindo-se a quando o pai da nação se negou a fazer parte do prim eiro governo depois da independência. "Mas, naquele tem po, o Mahatm a Gandhi tinha Jawaharlal Nehru. Quem é o Nehru de hoj e?"

Sônia não fala de Manm ohan Singh, seu ás na m anga, m as os m ais próxim os sabem que essa é sua j ogada. Quando abandona a sala, deixando seus deputados aflitos e desenganados, a im prensa cerca seus filhos: "Com o m em bro recém -eleito do Parlam ento", declara Rahul, "eu gostaria que m inha m ãe fosse prim eira-m inistra, m as, com o filho, respeito sua decisão". Priy anka é m enos diplom ática. Quando lhe perguntam se é verdade que ela e seu irm ão influenciaram a m ãe com o argum ento de que "perdem os um pai, não querem os perder um a m ãe, é um assunto de fam ília", ela replica dizendo um a grande verdade: "Nunca fom os donos de nossa fam ília. Sem pre a dividim os com a nação". Os m em bros do Congress não j ogam a toalha tão facilm ente. Ao voltar para casa, Sônia encontra um a m ultidão que lhe pede a m esm a coisa, que m ude de idéia. Exigem isso aos gritos, alguns com lágrim as nos olhos, outros j ogando-se a seus pés. Tanta adulação a irrita. É com o a outra face do ódio que seus detratores lhe m ostram .

Tão m alsão é um quanto o outro. Ao entrar em casa, encontra outro desafio: um a m ontanha de cartas dos m em bros do Com itê de Trabalho do Congress e outros afiliados que anunciam sua dem issão se ela não aceitar o m áxim o cargo. Lá fora, na rua, um sim patizante am eaça cortar as veias. No ato é rendido pela polícia. Parece que a loucura se apoderou de Nova Délhi.

Mas Sônia não cede. Por bom senso, por convicção íntim a, porque tem certeza de que sua decisão é a m ais sábia para o país, para a fam ília, para ela. Até o últim o m om ento tentam de tudo para fazê-la ceder: a súplica, os rogos, as am eaças veladas, m as Sônia se tornou m ais forte que todos e não sucum be. Ao contrário, assegura o apoio de outros m em bros da coalizão para que aceitem um prim eiro-m inistro que não sej a um Gandhi. Ela m arca o passo, e todos, até os m ais céticos, acabam seguindo-a.

Essa força é a recom pensa de seu triunfo.

A lé m disso, conta com o inesperado apoio da im prensa, que parece redescobri-la e se desm ancha em elogios: "Sônia apaga o poder, acende os corações", diz o Asian Tim es. "Renuncia ao poder, atinge a glória", reza o Tim es of índia. Ao dizer "não", a popularidade de Sônia dispara. Ao "abdicar", introduziu a noção de sacrifício no vocabulário da política indiana. E passa de líder do Congress a líder da nação. Um verdadeiro m ilagre.

RASHTRAPATI BHAWAN, O ANTIGO PALÁCIO DO VICE-REI, é palco de um a cerim ônia curta, m as cheia de significado, e que no final dessa turbulenta sem ana dá por encerrada a crise de poder. No sábado, 22 de m aio, depois de três dias de resistência leonina contra os chefes de seu próprio partido, Sônia Gandhi é testem unha do j uram ento de Manm ohan Singh com o prim eiro- m inistro, na presença do presidente da República. É um m om ento histórico porque pela prim eira vez um sique é nom eado chefe de governo.

O hom em não pregou o olho durante a noite porque um a m ultidão de correligionários esteve celebrando em frente a sua residência. Com o as coisas m udaram desde que os siques eram perseguidos com o anim ais nos dias que se seguiram ao assassinato de Indira!Depois da cerim ônia de posse, em um gesto que alude ao acordo que atingiram , Manm ohan Singh aproxim a-se de Sônia e inclina levem ente a cabeça. Com o se quisesse deixar claro que ele governa, m as ela reina.

É um m om ento histórico por outra razão, plena de um sim bolism o que dem onstra a diversidade da índia, sua capacidade para a convivência e sua crescente m obilidade social.

Sônia Gandhi, criada com o católica, cede o poder a um prim eiro-m inistro sique, nascido em 1932 em um a fam ília m uito hum ilde do Punj ab ocidental, hoj e pertencente ao Paquistão, e conhecido por sua incensurável honestidade. E faz isso na presença de um presidente da Re públic a m uçulm ano cham ado Abdul Kalam , nascido em um a fam ília paupérrim a e especialista em física nuclear. Há m enos de um século, ninguém teria im aginado que isso aconteceria no país onde até pouco tem po o nascim ento, e não o m érito, determ inava o curso da existência. E apenas um m ês antes, quem poderia predizer um a cerim ônia com o essa entre três representantes de religiões m inoritárias?

Em poucos dias, Sônia provocou um a revolução silenciosa, cuj o im pacto será sentido durante anos. Com sua renúncia, dem onstrou que a política nem sem pre é equivalente à cobiça. Tam bém dem onstrou que um a pessoa não se torna indiana só por um acidente de nascença. Ser indiano se consegue am ando o país, com prom etendo-se com ele e sendo forte para antepor os interesses da nação aos próprios. Por seu gesto histórico, Sônia Gandhi lem brou aos hindus que a verdadeira força de sua nação está em sua tolerância, em sua tradicional abertura para os outros, em sua c re nç a de que todas as religiões fazem parte de um a busca com um da hum anidade para encontrar um sentido para a vida. Por curiosidades da vida, um a cristã teve que devolver a dignidade e a confiança à m aioria dos hindus, esses que nunca se sentiram representados no governo anterior.

ESSA NOITE, SÔNIA VOLTA PARA CASA com a satisfação do dever cum prido. Preferiu m anter-se por trás do trono, m obilizando o povo, m as deixando o poder a seu grão-vizir de turbante e barba branca.Finalm ente vai poder descansar depois dessa sem ana enlouquecida. Mas, antes de ir para seu quarto, passa pelo escritório, para sentir a presença do hom em que continua am ando com o no prim eiro dia, ou talvez m ais, se o am or pudesse ser m edido. Com tanto calor, as flores da guir- landa em volta da foto de Raj iv estão um pouco m urchas.- Am anhã vou trocá-las - diz para si m esm a.Fica olhando a im agem de seu m arido. Fecha os olhos e concentra-se intensam ente, até que o ressuscita em sua m ente. Ele está tão perto que lhe parece estar ouvindo sua voz de veludo bem m odulada, com seu im pecável sotaque inglês, m urm urando em seu ouvido palavras de am or.

Até j ulga sentir o odor de sua pele, com esse cheiro de lim peza que se m istura com seu próprio pe rfum e de j asm im . E que a transporta ao passado, ao tem po perdido, a suas m elhores lem branças, essas que Sônia guarda no coração porque é um tesouro que fizeram j untos.

A fantasia, prazerosa e dolorosa ao m esm o tem po, dura pouco, m as é m uito intensa porque os m ortos vivem nos corações dos vivos. Quando reabre os olhos, passa seu olhar pelas outras fotos. Viu-as m ilhões de vezes, m as hoj e gosta de tornar a vê-las, diversas vezes, talvez porque a fazem lem brar o sentido de sua vida. Raj iv e seu sorriso continuam provocando-lhe um trem or no coração, sem pre será assim ; Indira tam bém , com sua capacidade de rir de si m esm a, de não esquecer um aniversário ou a doença de um a criança no m eio das preocupações dos assuntos de Estado.

Agora m ais que nunca, Sônia se dá conta de que herdou de Indira a "m ística da dinastia" e que está aplicando tudo o que aprendeu com ela: a paciência e a tenacidade, o atrevim ento, a coragem e o senso de oportunidade...

Seu olhar para em um a foto pequena em cim a da m esa na qual se vê o Mahatm a Gandhi com Nehru. Naqueles dias tristes depois da m orte de sua sogra, quando se refugiou na correspondência dela, com o se dessa m aneira pudesse se com unicar com ela, tam bém aprendeu, sem saber, algo sobre a essência da liderança política. Encontrou um a carta do Mahatm a Gandhi para Nehru, que estava entre os papéis de Indira:

"Não tenha m edo, ponha sua fé na verdade; ouça as necessidades das pessoas, m as ao m esm o tem po assegure-se de adquirir autoridade m oral suficiente para se fazer ouvir; sej a dem ocrático, m as valorize a única aristocracia que realm ente im porta: a nobreza de espírito".

Nã o foi fácil a viagem da plácida existência de um a dona de casa satisfeita com sua vida dom éstica ao centro frenético da atividade política. Com o ela m esm a o define, foi um a história de luz e de som bras, de m istério e da m ão oculta do destino. Um a história de luta interior e de torm ento, de com o a experiência da perda pode dar um sentido m ais profundo à existência. Mas, a despeito de todas as tristezas, hum ilhações, dificuldades e m aus m om entos, esta noite se sente realizada com o nunca antes. Com o se de repente entendesse algo que intuía no fundo, m as que lhe escapava, e que tem a ver com sua profunda razão de ser.

"A fam ília com a qual prim eiro m e com prom eti ao m e casar estava restrita ao lim ite de um lar", escreverá Sônia m ais tarde. "Hoj e, m inha lealdade abarca um a fam ília m ais am pla, a índia, m eu país, cuj a gente m e recebeu tão calorosam ente que m e transform ou em um deles." Sônia é honesta quando diz que não é m ais italiana.

Nã o é porque passou de parte da fam ília Nehru-Gandhi a herdeira da dinastia. E a dinastia Nehru-Gandhi é a índia.