O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)
Lenço encarnado
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
[continuação]
18
Maria Valéria costumava ler os jornais todos os dias, com os óculos acavalados no longo nariz. Flora gostava de observá-la nessas ocasiões. A velha não podia ler sem mover os lábios. De vez em quando fazia um comentário em voz alta — hum! —, encolhia os ombros — mentira! — ou sacudia a cabeça — boa bisca! — e assim por diante...
Naquela tarde de maio a Dinda lia o Correio do Povo, sentada na sua cadeira de balanço, enquanto Flora bordava a seu lado. As crianças brincavam no vestíbulo, numa grande algazarra.
— Vão pro quintal! — gritou a velha. — Não posso ler com esse barulho.
Flora ergueu-se para fazer que os filhos cumprissem a ordem. Ao passar pela sala de visitas, surpreendeu Sílvia sentada na frente do retrato de Rodrigo, as mãos pousadas no regaço, uma névoa triste nos olhos. Quando deu pela presença da madrinha, ficou perturbada, como se a tivessem pilhado a roubar doces na despensa. Flora compreendeu tudo e comoveu-se.
— Minha querida! — exclamou. — Que é que estás fazendo aqui sozinha? Vai lá pra cima brincar com a Alicinha.
Quando voltou para a sala de jantar, minutos mais tarde, Maria Valéria lançou-lhe um olhar por cima dos óculos e perguntou:
— Que bicho será este?
— Que bicho?
A velha tornou a baixar o olhar para o jornal e leu:
— Habeas corpus. Todo o mundo está pedindo esse negócio.
— Ah! Deve ser coisa de advogado. O Rodrigo uma vez me explicou. Parece que é para tirar uma pessoa da cadeia.
— Hum...
Muitos assisistas tinham sido presos em Porto Alegre e outras localidades do estado: jornalistas, políticos e gente do povo. A coisa ficava cada vez mais preta.
A Dinda ergueu-se, brusca, amassou com raiva o jornal e atirou-o em cima duma cadeira, como se aquelas folhas de papel fossem as principais responsáveis pela situação em que se encontrava o Rio Grande e o resto do mundo. Aproximou-se da janela e olhou para fora.
— Chii! — exclamou. — Estamos bem arranjadas...
— Que foi que houve?
— A dona Vanja vem nos visitar. Está atravessando a rua...
Flora sorriu. Maria Valéria embirrava com a tia de Chiru. D. Evangelina Mena era uma velha limpinha e ágil, com algo de passarinho nos movimentos e no olhar. Grande ledora de novelas folhetinescas, falava difícil, empregava vocábulos e frases que a gente em geral só encontra em livros ou notícias de jornal. Era talvez a única pessoa em Santa Fé que usava palavras como alhures, algures e nenhures. Nunca pedia silêncio; sussurrava: caluda! Quando queria estimular alguém, exclamava: eia! Sus! — Caspité! era uma de suas interjeições prediletas. Para ela povo era sempre turbamulta; mãe, genitora; vaga-lume, pirilampo; cobra, ofídio. Tinha seus adjetivos, advérbios, substantivos e verbos arrumadinhos aos pares. Aspiração nunca se separava de lídima. Massa sempre andava junto com ignara. E podia haver uma coisa preparada que não fosse adrede?
Sorrindo, Flora foi abrir-lhe a porta. Tinha uma ternura particular por d. Vanja. Divertia-se e ao mesmo tempo comovia-se com essas peculiaridades da velhinha que tanto irritavam Maria Valéria.
E ali estava a criatura agora no portal do Sobrado, com seus olhos azuis de boneca, suas roupas imaculadas, um chapéu com flores e frutas de pano posto meio de lado na cabeça completamente branca. No rostinho enrugado e emurchecido, havia ainda uma certa graça e vivacidade de menina.
— Olaré!
Flora abraçou-a e beijou-a.
— Entre, dona Vanja. Mas suba devagarinho a escada.
Maria Valéria recebeu-a com um simples aperto de mão e imediatamente seus olhos de Terra focaram-se, críticos, na tia de Chiru. Reprovava a maneira como ela se vestia. Só faltava botar bananas, laranjas e abacaxis como enfeites no chapéu! E verde-claro era lá cor que uma mulher velha e viúva usasse?
D. Vanja sentou-se, pediu notícias de Licurgo e dos “meninos”. Apesar de ter verdadeira adoração pelo sobrinho, não parecia muito preocupada por sabê-lo na revolução. Para ela, aquele movimento armado era apenas uma espécie de parada. Romântica, só via o lado glorioso das guerras. Recitava com frequência “O estudante alsaciano”, sabia frases célebres de grandes generais da história. Sonhava com ver Chiru voltar da revolução feito herói, “feliz, coberto de glória, mostrando em cada ferida o hino duma vitória” — como dizia o poema. Não lhe passava pela cabeça a ideia de que seu querido sobrinho pudesse ser morto. Preocupava-se um pouco, isso sim, com a possibilidade de o “menino” apanhar algum resfriado, a senhora sabe, “as marchas forçadas nessas estepes do Rio Grande, nos dias hibernais que se aproximam, as geadas branquejando as campinas infinitas... enfim, todas essas contumélias da sorte, inclusive o perigo de comer alguma fruta verde e ter algum distúrbio intestinal, que Deus queira tal não aconteça”.
— E vacê como vai? — perguntou-lhe Maria Valéria, sem o menor interesse.
A visitante disse que ia bem “graças ao Supremo Arquiteto do Universo”. (Era viúva dum maçom.) Ao dizer essas palavras alisou uma prega da saia. Depois abriu a bolsa bordada de contas de vidro coloridas e tirou de dentro dela um lencinho rendado recendente a patchuli. Soltou um suspiro.
— Mas estou muito triste, hoje... — murmurou.
— Que foi que aconteceu?
— Não leram então o Correio do Povo?
Flora teve um sobressalto.
— Alguma notícia ruim?
— Muito ruim. Morreu a Jacqueline Fleuriot.
— Quem?
— Então não sabem? A personagem principal d’A ré misteriosa, que o Correio estava publicando em folhetim. Apareceu hoje o último episódio. O jovem causídico finalmente descobriu que a ré que ele defendia tão ardorosamente, por pura piedade, outra não era que sua própria genitora. Muito tarde, tarde demais! Com a saúde minada por tantas emoções, a pobre Jacqueline, depois de abraçar o filho, entregou a alma ao Criador.
Maria Valéria e Flora entreolharam-se. Uma revolução convulsionava todo o estado, irmãos se matavam uns aos outros nos campos e nas cidades, e ali estava d. Evangelina Mena com os olhos cheios de lágrimas por causa d’A ré misteriosa. Era demais! Maria Valéria sentiu a necessidade de fazê-la voltar à realidade.
— Fiz uns quindins hoje de manhã — disse. — Vacê quer?
O rosto de d. Vanja resplandeceu.
— Adoro quindins! São como pequenos sóis, não é mesmo? ou como medalhões de ouro de algum potentado asiático, não acha?
Já de pé, a outra replicou:
— Não acho. Pra mim, quindim é quindim. O principal é que esteja benfeito.
Pronunciou essas palavras e marchou na direção da despensa.
19
No dia seguinte, ao entardecer, o cel. Barbalho apareceu fardado na casa dos Cambarás para dizer às mulheres que, embora a posição do Exército fosse de rigorosa neutralidade naquela “luta fratricida”, ele considerava seu dever de militar e de brasileiro zelar pela segurança e tranquilidade de todas as famílias, sem distinção de credo político, e garantir a inviolabilidade de todos os lares, bem como os direitos civis de cada cidadão.
— Não permitirei abusos — disse, sentado muito teso na cadeira. — Quero saber se posso ser-lhes útil em alguma coisa.
Flora estava comovida com as palavras do comandante da guarnição. Não, não precisavam de nada especial, e ficavam muito gratas... Maria Valéria interrompeu-a:
— O senhor sabe o que fizeram pro Arão? — perguntou. — Pois dês do dia que os provisórios quiseram agarrar o rapaz, achamos melhor ele ficar aqui em casa. Mas, que diabo! O vivente não pode passar o resto da vida escondido atrás de nossas saias.
O coronel engoliu em seco:
— Já providenciei — disse. — Avistei-me com o coronel Madruga. Prometeu não só deixar o moço em paz como também cessar esse recrutamento forçado, a maneador.
Fez-se um silêncio. Flora não encontrava assunto. O militar também não falava. Maria Valéria, que odiava uniformes, esfriava o visitante com a geada de seu olhar.
Naquela noite deram a notícia a Arão Stein, que ficou contente por saber que poderia voltar para casa. Maria Valéria também sentiu um desafogo. Gostava do judeu à sua maneira seca e secreta. Durante os dias em que o tivera como hóspede, impacientava-se ante as visitas diárias de d. Sara, que, gorda, duma brancura de queijo caseiro, e arrastando as pernas de elefante, vinha “lamber a cria”. Ficava a um canto a choramingar, abraçada ao filho, lambuzando-lhe o rosto de beijos. Maria Valéria achava indecentes aquelas demonstrações exageradas de amor.
À noite, os Carbone também apareceram. Só dois assuntos despertavam realmente o interesse de Carlo: cirurgia e culinária. Falava de ambos com o mesmo gosto, a mesma gula. As mulheres do Sobrado achavam difícil manter uma conversação com ele. Santuzza subiu para o andar superior, logo ao chegar. Costumava fazer dormir as crianças com suas canções de berço. Bibi adormeceu logo. Jango recusou-se a deixá-la entrar no quarto. Edu recebeu-a de má catadura, fechou os olhos enquanto a italiana, sentada na beira de sua cama, cantava baixinho. Depois de uns instantes abriu um olho e disse: “Não grita que eu quero dormir”. Para Alicinha, que estava deitada com a boneca ao lado, Santuzza contou histórias de gnomos, gigantes, príncipes e fadas — aventuras que se passavam em países estranhos, onde havia florestas de pinheiros e grandes montanhas cobertas de neve.
Roque Bandeira apareceu pouco antes das nove e ficou a conversar com Arão Stein no escritório. Discutiram a revolução à luz das últimas notícias.
— Não vais negar — disse Tio Bicho — que mesmo sem levar em conta princípios e ideias, essa revolução tem seu lado bonito. Revela pelo menos a fibra da raça. Sabes que há um menino de quinze anos nas forças de Zeca Neto e um velho de oitenta e oito com Felipe Portinho? E sabes que ambos são igualmente bravos? Isso não te diz nada?
Stein sacudiu a cabeça negativamente:
— Diz, mas não o que estás pensando.
— Considera só a fama que está conquistando o general Honório Lemes. É um caboclo iletrado, simples, e no entanto se vai transformando num ídolo popular, num grande caudilho, num símbolo...
— Fugindo sempre...
— Nem sempre. Luta quando lhe convém, e isso é de bom general. Esquiva-se quando não lhe convém lutar. Depois, deves saber que ele tem pouca munição. Mas o interessante é que o homem deixa o inimigo louco, desnorteado, com seus movimentos. Quando a gente imagina que o general Honório está num lugar, ele surge noutro completamente inesperado...
Stein encarou o amigo.
— Não sejas romântico. Não sejas obtuso. Esqueces que quem está morrendo na revolução é o homem do povo, o que sempre viveu na miséria, passando fome, frio e necessidades. Morrem porque são fiéis aos seus patrões, aos seus chefes políticos, ao seu partido, à cor de seu lenço. O mundo capitalista sempre procurou exaltar, através de seus escritores assalariados, essa fidelidade estúpida a coisas inexistentes, esse entusiasmo por mitos absurdos. Sabes por quê? Porque isso convém aos seus interesses. Que é que o povo lucra com uma revolução como essa?
— E não achas que há uma certa beleza no fato de eles brigarem sem pensar em vantagens?
— Não acho. O erro está exatamente nisso. Deviam pensar em resultados materiais. Ser maragato ou republicano na verdade não significa nada. As revoluções se fazem para melhorar as condições sociais. Que é que esperas dessa revolução? O voto secreto? Mas de que serve isso se o povo não se educa, não aprende a usar o seu voto, a escolher o seu candidato? O que pode resultar dessa choldra toda é uma mudança de patrão. O povo continuará na mesma, mal alimentado, malvestido, infeliz...
Tio Bicho sorria.
— Não esqueças que estás na casa dum homem que acredita na revolução e que, mal ou bem, está na coxilha, brigando e arriscando a própria vida.
— Eu sei. Achas que sou um ingrato, que esqueci o que o doutor Rodrigo fez por mim. Não. A coisa é outra. Ele não precisa da minha gratidão, nem acho que a deseje. Gosto dele como pessoa, mas me sinto com mais obrigações para com o povo do que para com ele. O doutor Rodrigo é rico, culto, pode fazer pela própria vida. Mas os outros...
Bandeira bocejou, espichou as pernas, afundou o corpanzil na poltrona de couro.
— Não sei... Pode ser que tenhas razão, mas deves compreender que fui criado no meio dessa tradição... Não sou indiferente a certos valores gauchescos. Nem todas as minhas leituras racionalistas conseguiram me imunizar contra esse micróbio. Quando leio sobre um ato de bravura, sinto um calafrio. Uma coisa te digo. Tem havido heróis de ambos os lados. Mesmo esses pobres-diabos pegados a maneador, às vezes brigam como gente grande, morrem peleando, não se entregam. Podes dizer o que quiseres, há um aspecto positivo nessa revolução.
— Besteiras românticas de pequeno-burguês intelectual. Estás condicionado, meu filho. Vocês letrados glorificam a guerra, vivem com essa história de hinos, bandeiras, tambores, clarinadas, cargas de baioneta, et cetera. Pois os marxistas aí estão pra mudar tudo isso. Pode levar algum tempo, não espero viver suficientemente para ver a sociedade nova. Muitos de nós, talvez eu mesmo, seremos sacrificados, torturados, assassinados... Mas a revolução socialista vai para a frente. Isso vai!
— Sabes que tenho minhas simpatias pelo anarquismo...
— O que tu és eu sei. Um sujeito preguiçoso e conformista.
— Escuta aqui, Arão. Até onde acreditas no que estás dizendo? Refiro-me a acreditar de verdade, do fundo do coração. Não podes ser tão diferente de nós, os romanticões. Pertences à mesma geração. Leste os mesmos livros que nós. Ouviste as mesmas conversas. O fato de seres judeu não te torna tão diferente. Mas falas com tanta veemência, com tanta paixão, com tanta insistência, que às vezes acho que o que procuras não é só convencer os outros, mas também a ti mesmo...
Stein ergueu-se e começou a andar dum lado para outro, na frente do amigo.
— Escuta uma coisa — disse. — E que essas senhoras não me ouçam. Muitos assisistas escrevem e falam como se fossem verdadeiros libertadores do povo. Na verdade não passam de aristocratas rurais. Com todos os seus erros e apesar dessas besteiras de positivismo, Borges de Medeiros está mais perto do ideal socialista do que esses assisistas latifundiários que andam com um lenço vermelho no pescoço. Muitos deles até chegam a sonhar com a volta da monarquia.
— Fez alto na frente do amigo e olhou-o bem nos olhos. — Aposto como não sabes que Júlio de Castilhos queria incluir na Constituição de 14 de julho um artigo em que se falava na incorporação do proletariado.
— Fantasias.
— Sim, fantasias. Mas isso é sempre melhor do que acreditar no governo duma classe privilegiada de mentalidade feudalista. E te digo mais. O governo de Borges de Medeiros tem favorecido o desenvolvimento da pequena propriedade. Podes esperar que os grandes estancieiros gostem disso? Usa a cabeça. Tamanho não lhe falta.
— Está bem, mas devias falar mais baixo. Elas podem estar escutando...
— Eu sei que me consideras um ingrato, quase um traidor. Talvez um Judas.
— Ninguém te chamou de Judas.
— Mas eu sinto que essa é a maneira como vocês os cristãos em geral olham para um judeu.
— Não sejas idiota.
— O outro dia ouvi dona Maria Valéria perguntar a dona Flora, referindo-se a mim: “Aquele muçulmano já saiu do quarto de banho?”.
Roque Bandeira soltou uma risada.
— Ora, tu conheces a velha. Ela te estima e por isso brinca contigo. Uma vez te chamou também de turco...
— Estás vendo? Todos esses nomes: turco, muçulmano, árabe, e até russo têm conotação pejorativa. Eu sinto.
— Pois aí é que está o teu erro. Interpretas tudo à tua maneira. És uma sensitiva. Vives procurando profundidades em coisas que pela sua natureza são rasas. Lês nas entrelinhas frases que ninguém escreveu.
Roque Bandeira ergueu-se, pôs ambas as mãos no ombro do amigo e murmurou:
— Antes que me esqueça. Qualquer dia destes te prendem, te mandam para Porto Alegre e te dão uma sova de borracha, como já fizeram com outros comunistas.
— Não tenho ilusões. Estou preparado.
— Então o que queres mesmo é ser mártir da causa, não?
— Sabes que não é nada disso. Só o espírito mórbido dum cristão condicionado ao capitalismo pode pensar uma coisa dessas. A causa que estou servindo é política, e não religiosa. Não queremos lamber as feridas dos leprosos, como são Francisco de Assis, queremos mas é curar as chagas sociais sem o auxílio de milagres. Não vai ser fácil, mas estou preparado para o pior.
Tio Bicho tornou a bocejar.
— Acho que vou m’embora.
— Espera. Saio contigo.
Encaminharam-se para a sala onde estavam as duas mulheres. Stein agradeceu-lhes pela hospitalidade e disse que viria buscar suas coisas no dia seguinte.
Maria Valéria seguiu-o com o olhar até vê-lo desaparecer no vestíbulo. Depois que ouviu a batida da porta da rua, resmungou:
— Esse sírio deve ter algum parafuso frouxo na cabeça.
20
Estava a Coluna de Licurgo Cambará acampada à beira dum lajeado, a umas seis ou sete léguas de Santa Fé, quando o Romualdinho Caré, sobrinho de Ismália, apareceu um dia montado num rosilho magro e cansado. Reconhecido por Pedro Vacariano, foi levado à presença do comandante. Apeou do cavalo com um ar humilde e encolhido e aproximou-se... Era um caboclo ainda jovem, baixote e trigueiro, de olhos vivos.
— Que foi que houve? — perguntou Licurgo.
Romualdinho contou que o Angico fora ocupado por soldados do cel. Madruga. O patrão franziu o cenho.
— Quando foi isso?
— Faz uns quantos dias.
— Mas quantos?
— Uns quatro ou cinco.
Contou que tinha ficado prisioneiro durante algumas horas, mas conseguira escapar e saíra “à percura” da Coluna Revolucionária.
Licurgo, pensativo, mordia o cigarro apagado.
— Quantos provisórios tem no Angico?
Romualdinho hesitou por um momento.
— Uns trinta.
O comandante — informou ainda — era um tenente, moço direito que tinha tratado bem toda a gente, não permitindo malvadezas nem estragos.
— Só que levaram muito gado, muita cavalhada... — acrescentou, com os olhos no chão, como se tivesse sido ele o responsável pela requisição.
— Levaram pra onde? — perguntou Licurgo.
— Pra Santa Fé ou Cruz Alta. Ouvi um sargento dizer que a tropa do coronel Madruga foi mandada pra fora da cidade...
Neste ponto Toríbio e Rodrigo entreolharam-se. Puxando o irmão para um lado, o primeiro murmurou:
— Acho que chegou a nossa hora. Mas precisamos saber três coisas importantes. Primeiro, se essa história da saída das tropas é verdadeira; segundo, quanta gente ficou na cidade; terceiro, quais são os pontos mais bem defendidos...
— E como é que vamos descobrir?
— Mandamos um espião.
Rodrigo soltou uma risada.
— Isso só da cabeça dum ledor de Ponson du Terrail!
Toríbio, porém, convenceu-o da validade da ideia. Juquinha Macedo e Cacique Fagundes aprovaram o plano. O problema era encontrar o espião. Quem poderá ser?
Jacó Stumpf ofereceu-se para a missão. O primeiro ímpeto de Rodrigo foi o de recusá-lo sumariamente. Como era que aquele alemão com cara de bocó... Mas não! Talvez por isso mesmo fosse ele a pessoa indicada para a missão. Além do mais, era pouco conhecido na cidade.
Interrogou-o:
— Achas que vais dar conta do recado?
— Zim.
— E sabes o que pode acontecer se eles descobrirem a coisa e te prenderem?
— Zim.
E Jacó passou o indicador rapidamente pelo próprio pescoço, num simulacro de degolamento.
— Está bem. Quero deixar bem claro que ninguém te forçou a aceitar a incumbência.
O colono sacudiu vigorosamente a cabeça. Durante quase uma hora inteira Rodrigo e Toríbio ficaram a dar-lhe instruções. Devia entrar em Santa Fé a cavalo, desarmado, com um lenço branco no pescoço, procurando dar a impressão de que vinha de uma das colônias.
— Entra assim com o ar de quem não quer nada — disse-lhe Rodrigo. — Não puxes prosa com ninguém. Apeia na frente da Casa Sol, diz que queres comprar uns queijos, procura o Veiga, estás compreendendo? Leva o homem pro fundo da loja e conta quem és, donde vens, e pergunta quantos soldados o Madruga levou para fora da cidade, quantos ficaram e onde estão colocados... Logo que conseguires todas as informações, toca de volta pra cá. Mas cuidado, que podem te seguir, entendes?
Jacozinho sacudiu afirmativamente a cabeça. De tão claros, seus olhos pareciam vazios.
No dia seguinte pela manhã montou a cavalo e se foi. Rodrigo acompanhou-o com o olhar até vê-lo sumir-se do outro lado duma coxilha.
— Deus queira que volte.
O velho Liroca soltou um suspiro e disse:
— Volta. Deus ajuda os inocentes.
No dia seguinte ao anoitecer Jacozinho voltou e, ao avistar o acampamento, precipitou-se a galope, soltando gritos. Vendo aquele cavaleiro de lenço branco, e não sabendo de quem se tratava, uma sentinela abriu fogo. O “cavaleiro misterioso”, entretanto, continuou a galopar e a gritar. Mais tarde a sentinela contou:
— A sorte é que tenho bom olho. O alemão se riu, os dentes de ouro fuzilaram e eu disse cá comigo: “Só pode ser o Jacozinho”. Era. Cessei fogo.
Jacó Stumpf foi levado à presença de Licurgo e dos outros oficiais. Tudo tinha corrido bem — contou — e ninguém suspeitara de nada. O Veiga informara que realmente uns quinhentos e cinquenta dos oitocentos homens do corpo provisório do Madruga haviam sido mandados reforçar a brigada de Firmino de Paula em Cruz Alta e Santa Bárbara. Haviam ficado na cidade uns duzentos e cinquenta. Uns cem estavam acampados na entrada do norte. Uns oitenta montavam guarda à charqueada, na estrada de Flexilha, no sul. Uns cinquenta e poucos dormiam na Intendência, guarnecendo o centro da cidade.
— E o lado da olaria?
Jacó abriu a boca.
— Que olaria?
— O lado onde se põe o sol?
O colono quedou-se um instante, pensativo.
— Ah! Está desguarnecido.
Quanto ao setor oriental, onde ficavam os quartéis, era sabido que estava dentro da zona neutra.
— Chegou a nossa hora — disse Rodrigo, olhando em torno para os oficiais mais graduados da Coluna que se haviam reunido à frente da barraca de Licurgo. — A tomada de Santa Fé, além de nos proporcionar a oportunidade de requisitar munição de boca e de guerra, terá um efeito moral extraordinário.
— Mas o senhor já pensou — perguntou um dos Macedos — que em três horas os chimangos podem trazer forças de Cruz Alta pra nos contra-atacar?
Toríbio interveio:
— Cortaremos as linhas telefônicas e telegráficas. Interromperemos todas as comunicações. Até que mandem um próprio ao Madruga, mesmo de automóvel, vai levar algum tempo...
— E depois — aduziu Rodrigo, pondo na voz um entusiasmo persuasivo — vai ser um ataque fulminante, de resultados imediatos. Não tenho nenhuma ilusão quanto a mantermos a cidade em nosso poder por muito tempo... Mas que diabo! — exclamou, abrindo os braços. — Nada mais temos feito que fugir desde o dia que saímos do Angico! Se a situação continua assim, seremos esmagados pelo nosso próprio ridículo!
Fez-se um silêncio durante o qual Rodrigo se perguntou a si mesmo se o seu plano de atacar Santa Fé nascia mesmo duma necessidade estratégica e política ou apenas do seu desejo de rever a família, voltar à própria casa, descansar daquelas marchas infindáveis e duras, principalmente agora que o inverno se avizinhava.
— Que é que o senhor acha? — perguntou Toríbio, encarando o pai.
Licurgo baixou a cabeça, cuspiu no chão entre as botas embarradas, depois tornou a alçar a mirada.
— A questão não é o que acho. Quero saber a opinião dos outros companheiros. Temos que estudar direito o plano.
Passeou o olhar em torno:
— Há alguém contra a ideia?
Não viu nenhum gesto nem ouviu nenhuma palavra de protesto.
— Se todos estão a favor, a ideia está aprovada. Atacamos Santa Fé.
— Tem de ser amanhã — disse Rodrigo. — Não podemos perder tempo.
— Pois seja o que Deus quiser — murmurou o velho.
Rodrigo sentiu na orelha o bafo tépido e úmido de Toríbio, que ciciou:
— Tu sabes que a Ismália Caré está na cidade... O Velho anda louco de saudade da china...
21
Durante quase duas horas discutiram o plano do ataque, diante duma planta de Santa Fé estendida no chão. Ficou decidido que o cel. Licurgo com setenta homens e toda a cavalhada de remonta ficariam escondidos nos matos dum lugar conhecido como Potreiro do Padre, a légua e meia da cidade. Era para ali que o resto da Coluna convergiria se o ataque fosse repelido.
— Hipótese que não admito! — exclamou Rodrigo num parêntese.
Continuou a exposição:
— O senhor, coronel Macedo, com cento e quarenta homens marcha sobre a entrada do norte, que é onde os chimangos têm o destacamento mais numeroso. Ataque o inimigo pela frente, pelos flancos e, se possível, pela retaguarda. Deixe os provisórios tontos... O principal é que eles não possam deslocar gente de lá para reforçar a guarnição do centro...
Juquinha Macedo sacudiu a cabeça: entendia.
— Agora o senhor, coronel Cacique... Leve seus cento e vinte caboclos e faça as estrepolias que puder lá pelas bandas da charqueada.
— Vai no grito — resmungou o velho, e seus olhinhos indiáticos sorriram.
— Enquanto vocês atacam as duas entradas principais, eu e o Toríbio com os cento e cinquenta e poucos homens restantes assaltamos Santa Fé pelo lado da olaria.
Licurgo escutava-o, taciturno. Liroca, como de costume, tinha os olhos lacrimejantes e seus dedos, de pontas amareladas de nicotina, acariciavam os bigodões grisalhos, que mal escondiam a expressão triste da boca. Havia por ali também uns jovens tenentes de olhos cintilantes e gestos nervosos, que bebiam as palavras de Rodrigo.
— Essa é a parte mais dinâmica e arrojada do plano — continuou este último. — Será um golpe direto e rápido no coração da cidade. Reconheço que a coisa toda pode parecer absurda, mas acho que vai dar resultado.
Ouviu-se uma voz:
— Mas por que escolheu o lado da olaria pra esse assalto?
— Primeiro porque não é provável que o inimigo nos espere por esse flanco. Para falar a verdade, eles não esperam ataque de lado nenhum, pois o Jacó nos contou que corre em Santa Fé a notícia de que seguimos para o norte com as tropas do general Leonel Rocha... Outra vantagem desse flanco é que ele fica a dois passos da praça e da Intendência. Deixamos os cavalos e um pelotão na olaria do Chico Pedro e dali seguimos a pé, antes de raiar o dia. Mas o fator tempo é importantíssimo. Por isso temos de marcar tudo rigorosamente no relógio...
Olhou para Toríbio, sorriu e, segurando-lhe o braço, acrescentou:
— O major aqui vai me ajudar com sua famigerada cavalaria.
Ambos voltaram a atenção para o pai, que pitava em silêncio, com os olhos fitos na planta de sua cidade.
Um dos capitães de Juquinha Macedo perguntou:
— Mas não acha que duzentos e poucos homens entrincheirados valem por quinhentos?
Foi Toríbio quem respondeu:
— Duzentos e poucos homens sim, mas não provisórios agarrados a maneador.
O outro deu de ombros.
— Bom, major, o senhor deve saber melhor que eu. Perguntei por perguntar.
Posto ao corrente do plano, Cantídio dos Anjos disse:
— Qualquer prazer me diverte.
E foi afiar a ponta da lança.
Ainda naquela tarde fez-se com todo o cuidado a divisão das tropas. Rodrigo escolheu a dedo os homens que ia comandar. À beira do capão, Neco Rosa ponteava a guitarra que havia ganho de presente em Neu-Württemberg, enquanto o Chiru andava inquieto dum lado para outro, mal podendo conter o entusiasmo que lhe vinha de ter sido escolhido para comandar um dos grupos que assaltariam a Intendência.
— Com quem vou? — perguntou Liroca a Rodrigo.
— Tu ficas.
— Com quem?
— Com o velho Licurgo.
— Mas por quê?
— Porque sim.
— Não tens confiança em mim?
— Liroca velho de guerra, alguém tem de ficar. Não podemos deixar o comandante sozinho...
— Por que não me levas? Estou acostumado a marchar e pelear a teu lado.
Rodrigo compreendia cada vez menos o maj. José Lírio. Na hora do combate era tomado duma tremedeira medonha, ficava pálido como defunto; no entanto, insistia em enfrentar o perigo. Fosse como fosse, a atitude do velho enternecia-o.
— Só posso levar comigo gente de menos de quarenta anos — explicou. — Vai ser uma tarefa dura, temos de correr várias quadras, pular muros, cercas...
Havia uma tristeza canina nos olhos do veterano. Rodrigo abraçou-o, dizendo:
— Não faltará a ocasião, Liroca, tem paciência.
Durante aquele resto de dia, Rodrigo andou dum lado para outro, conferenciando com oficiais, repassando com eles o plano de ataque, corrigindo ou aperfeiçoando pormenores, respondendo a perguntas, esclarecendo dúvidas. Toríbio e o dr. Ruas encarregaram-se da distribuição das balas, tarefa difícil por causa da diversidade das armas.
— Para ser bem-sucedida — disse Rodrigo — a operação não pode durar mais de duas horas. Qual duas horas! Uma, no máximo.
Havia um ponto ainda obscuro. Que fariam depois que a Intendência fosse tomada? Quem levantou a questão foi um tenente do destacamento de Juquinha Macedo. Rodrigo ficou por um momento indeciso. Segurou na ponta do lenço vermelho do rapaz e disse:
— Olha, companheiro. Isto não é guerra regular e nós não somos militares profissionais. Temos de confiar nas qualidades de improvisação de nossa gente. Queres saber duma coisa? Vamos primeiro tomar a Intendência e depois veremos o que se faz...
O outro não pareceu muito convencido. Rodrigo apertou-lhe o nó do lenço.
— Escuta aqui. Tudo vai depender de como estiver a luta no norte e no sul... — Olhou o interlocutor bem nos olhos. — Agora me lembro. És o campeão de xadrez de Santa Fé, não? Pois esta revolução, meu filho, não tem nada a ver com jogo de xadrez.
O outro sorriu e afastou-se. Mas a pergunta do rapaz deixou ecos no espírito de Rodrigo. Sim, que faremos depois de tomar a Intendência? E por que não perguntar que faremos depois da derrubada do Chimango? Seja como for, mañana es otro dia, como dizem os castelhanos.
Antes de ir para a barraca, aquela noite, saiu a andar ao redor do acampamento, olhando para as estrelas e pensando que no dia seguinte poderia dormir em sua casa, em sua cama, com sua mulher. Sim, no dia seguinte poderia beijar os filhos... Imaginou-se também passando um eloquente e petulante telegrama ao presidente da República...
Deitou-se sobre os pelegos, cobriu-se com o poncho, fechou os olhos mas sentiu logo que estava demasiado excitado para dormir. Agora lhe vinham dúvidas...
Será que esse ataque é um erro? Quantos de meus companheiros poderão morrer? E não vamos sujeitar a grave risco a população da cidade, a minha própria família, mulheres, velhos, crianças? Ainda é tempo de desistir. Não. Desistir agora seria minar o moral da Coluna. A ideia é boa. Afinal de contas estamos numa revolução. Não podemos continuar burlequeando sem rumo pelo campo, como fugitivos da justiça. O plano é bom não só do ponto de vista político como também do militar. Está decidido!
Revolveu-se, encolheu as pernas, meteu no meio delas as mãos geladas. Mas... e se tudo falhar? Encostou a cara na coronha da Winchester que tinha a seu lado. Amanhã vais trabalhar, bichinha. Não. Não falha.
Procurava relembrar a fisionomia do terreno na entrada da cidade que dava para o lado do poente. Sim, a primeira tarefa era tomar a olaria, onde ficariam escondidos até a hora de atacar... Cada um de seus homens tinha uma média de sessenta tiros. Quatro deles estavam encarregados de cortar os fios telegráficos e telefônicos, mal chegassem à praça. A agência do telégrafo nacional vizinhava com a Intendência. A da Companhia Telefônica não ficava longe... Sim, o plano tinha de dar resultado.
Mas não seria uma coisa precipitada? Estava lidando com vidas humanas, não com peças de xadrez. Mas, filho, guerra não é jogo de xadrez. E que faremos depois de tomada a Intendência? Queres saber? Tomamos um banho. Tomamos um café. Tomamos... Bom, se não dormir esta noite, amanhã estarei escangalhado.
Queria fazer parar o pensamento. Inútil. Começou a bater queixo. Estaria tão frio assim? Quem sabe estou com febre? Ou com medo... Repeliu a ideia. Acendeu um fósforo, olhou o relógio. Dez e vinte. Tinha dado ordens para acordarem os homens pouco depois da meia-noite a fim de partirem em seguida. Tudo vai correr bem, se Deus quiser. Por baixo da barraca entrava um ventinho gelado. Pegou a garrafa de cachaça, desarrolhou-a e bebeu um largo sorvo. Fogo no estômago. Sentiu-se melhor. Se falhassem, podia ser o fim da Coluna. Mas não podiam falhar! Cairiam como demônios em cima dos chimangos. Tomariam a cidade em quarenta minutos. Ninguém deixará de reconhecer que era ele quem ia correr o maior risco. Tirou do bolso do casaco as luvas de pele de cachorro e vestiu-as. De repente desenhou-se-lhe na mente o cemitério de Santa Fé: cúpulas, frontões, cruzes, cabeças de estátuas por cima de muros tristes e sujos... Lá estava dentro do mausoléu da família Cambará uma nova placa de mármore com letras douradas: Dr. Rodrigo Terra Cambará, 1886-1923. Morto em combate pelo Rio Grande. Quis apagar a imagem. Não pôde. Ficou com ela impressa nas pálpebras... por quanto tempo?
Achava-se sozinho, era noite... Vagueava por entre sepulturas. Houve um momento em que não soube se estava já dormindo ou ainda continuava acordado. Sentia os pés frios, ouvia o vento tocando sua gaitinha nas folhas das coroas artificiais, apagando as chamas dos tocos de velas... Sentiu o cheiro de terra úmida, de sebo derretido... Estava entrincheirado por trás dum túmulo, o inimigo avançava, as balas sibilavam, ele queria pegar a Winchester que estava a seu lado, mas não conseguia mover o braço, e se dizia a si mesmo que aquilo era um pesadelo — eu sei! prova de que sei é que me lembro de meu nome, Rodrigo Cambará, estou na minha barraca, deitado, amanhã vamos assaltar Santa Fé, tomaremos a olaria... Que horas serão, santo Deus? Quis tirar o relógio do bolso mas não pôde. Estava paralisado. Sentiu que o inimigo se aproximava... Ouvia (ou apenas via) seus gritos, que se congelavam no ar, tomando a forma de flores de neve, e depois se esfarelavam, caíam como geada. Os chimangos iam saltar os muros do cemitério, atirar-se em cima dele... Não, não tenho medo, só não quero que me degolem. Tenho horror a arma branca. Me matem com um tiro. Na cabeça, para não haver agonia. Quis de novo segurar a Winchester: era melhor morrer brigando. Mas não pôde mover um dedo. Um homem estava agora ajoelhado a seu lado, decerto tirava o facão da bainha... Rodrigo! Rodrigo!
Sentiu-se sacudido. Soergueu-se.
— Quem é?
— Sou eu, o Neco.
— Que é que há?
— Meia-noite. O pessoal está se levantando. Vamos embora.
Ergueu-se. Um suor frio escorria-lhe pela testa.
— Tive um sonho horrível — murmurou.
— Pois eu nem cheguei a fechar o olho.
Saíram. Vultos moviam-se em silêncio na madrugada. Havia fogos acesos no acampamento.
Bento veio avisar que o churrasco estava pronto.
22
Pouco antes das quatro da manhã a Coluna chegou a um ponto do Potreiro do Padre, onde havia uns três ou quatro ranchos cujos moradores foram acordados, postos ao corrente da situação e proibidos de deixarem suas casas sob pena de fuzilamento. (Rodrigo descobrira que Toríbio era o homem indicado para fazer ameaças dessa natureza.) Os oficiais reuniram-se num dos ranchos e, à luz dum candeeiro de sebo, acertaram os relógios. O ataque devia começar às seis e meia em ponto.
Às quatro e vinte os destacamentos se separaram e marcharam rumo de Santa Fé. Juquinha Macedo dirigiu-se com seus companheiros para a entrada do norte. Cacique Fagundes encaminhou-se com seus caboclos para a do sul. Estava combinado que só principiariam o assalto quando ouvissem os primeiros tiros no centro da cidade.
Ao despedir-se do pai, dentro de um dos ranchos, Rodrigo notou, à luz amarelenta e escassa, que o Velho tinha os olhos brilhantes de lágrimas. Seu abraço, porém, foi seco como de costume, e secas também suas palavras.
— Vá com Deus.
Rodrigo e Toríbio saíram a cavalgar lado a lado. Havia uma grande paz nos campos. O céu começava a empalidecer.
— Pode ser uma loucura o que vamos fazer — disse Toríbio —, mas te digo que estou gostando da farra...
Rodrigo continuou silencioso. Estava preocupado. De acordo com o plano deviam apoderar-se, sem dar um tiro, da olaria do Chico Pedro, que ficava a dois passos da entrada ocidental de Santa Fé. Era indispensável também que fizessem aquela marcha sem serem vistos, pois metade do sucesso do assalto dependia do elemento surpresa. Era por isso que tinham evitado a estrada real, seguindo por dentro duma invernada que Toríbio conhecia tão bem quanto os campos do Angico.
Dentro de meia hora avistaram as luzes de Santa Fé piscando na distância. Eram cinco e quarenta quando ocuparam em silêncio a olaria. O oleiro, seus familiares e empregados foram tirados da cama. Não houve pânico, nem mesmo entre as mulheres, que ficaram pelos cantos, enroladas nos seus xales, caladas e submissas. Toríbio achou prudente encerrar todos os homens, menos o dono da casa, dentro dum quarto.
— Se vocês ficarem quietos — disse-lhes, antes de fechar a porta à chave —, ninguém se lastima. Mas, palavra de honra, capo com este facão o primeiro que se meter de pato a ganso, estão ouvindo?
Rodrigo tranquiliza Chico Pedro:
— Não se preocupe. O senhor, sua gente e seus bens serão respeitados.
O oleiro sorriu.
— Nem carece dizer, doutor. Conheço o senhor e toda a sua família.
Mandou preparar um chimarrão, que ofereceu a Rodrigo. Era um caboclo de meia-idade, magro mas rijo. Parecia que, à força de lidar com argila, sua pele tomara a cor do tijolo. Confirmou todas as informações que Jacó Stumpf trouxera na véspera sobre o corpo provisório de Santa Fé. Rodrigo revelou ao oleiro o plano de ataque. Chico Pedro fez uma careta pessimista:
— Não vai ser fácil... — murmurou.
Rodrigo chupou com força a bomba de prata e depois, meio irritado, perguntou:
— Por quê?
— Sempre acontece alguma coisa que a gente não espera.
— Sim, mas nem tudo que acontece tem de ser desfavorável.
— Isso é verdade...
— Quantos homens dormem na Intendência?
— Uns cinquenta ou sessenta. Passam a noite no quintal.
Chico Pedro tornou a encher a cuia.
— Dorme alguém dentro do edifício?
— Acho que só os oficiais. E decerto os ordenanças...
O oleiro tomava seu chimarrão com os olhos plácidos postos em Rodrigo.
— Outra coisa... — disse, com seu jeito descansado. — Todas as noites uma patrulha duns dez ou quinze homens anda rondando pela cidade, volta pra Intendência mais ou menos a essa hora e fica ali por baixo da figueira grande até o clarear do dia... É bom ter cuidado...
Toríbio entrou naquele momento. Tinha estado a esconder a cavalhada.
— Está chegando a hora... — disse, pegando a cuia que o dono da casa lhe oferecia.
Um minuto depois, saíram. Galos cantavam. Rodrigo sentiu algo de cadavérico na madrugada fria e cinzenta.
Seus homens estavam deitados ou agachados atrás da casa. Alguns deles pitavam.
— A ti te toca a parte mais braba — disse Toríbio ao Neco Rosa, que, sentado na soleira da porta, contemplava a estrela matutina, como tantas vezes fizera nas suas madrugadas de serenata.
— Vai ser duro pra todos.
Bio tocou-lhe o ombro.
— Só espero uma coisa. Que sejas melhor guerreiro que barbeiro.
Neco soltou uma risada. Outros homens que estavam por ali também riram.
— Está na hora do baile, minha gente! — disse Toríbio.
E os revolucionários começaram a reunir-se em grupos, de acordo com as instruções que haviam recebido.
Rodrigo entregou a um dos Macedos — que insistira em acompanhá-lo — o comando dos vinte homens que ia deixar entrincheirados na cerca de pedras da olaria.
— Esta é a nossa base de operações — explicou. — É pra cá que vamos todos correr se a coisa falhar... Vocês têm de cobrir nossa retirada. E se, enquanto estivermos dentro da cidade, algum destacamento dos chimangos nos atacar por este flanco, abram fogo em cima deles. Mas por nada deste mundo abandonem esta posição. E fiquem com o olho na cavalhada!
A força de Rodrigo estava dividida em três grupos: dois de trinta homens e um de quarenta. O que estava confiado ao comando de Chiru Mena devia entrar na cidade pela rua dos Farrapos e atacar a Intendência pelo flanco esquerdo, que nenhuma outra casa protegia. Neco Rosa comandaria o grupo mais numeroso num assalto à retaguarda do edifício, procurando cair de surpresa sobre os provisórios, que àquela hora estariam dormindo ou recém-acordados no quintal. Rodrigo levaria seus soldados pela rua do Poncho Verde, tomaria com eles posição na praça para atacar a Intendência frontalmente. Estava combinado que Neco e seus comandados teriam a honra de “dar a primeira palavra”. Os outros dois grupos só atacariam depois de ouvirem o início do tiroteio atrás do reduto legalista. O esquadrão de cavalaria de Toríbio foi dividido em dois piquetes de quinze homens. O primeiro, sob as ordens de Toríbio, devia penetrar na cidade pela rua das Missões e ficar preparado para entrar em ação quando fosse oportuno. O segundo, conduzido por Pedro Vacariano, ficaria escondido atrás da igreja, e sua intervenção dependeria do desenvolvimento do combate.
— Cuidado! — recomendou Rodrigo aos companheiros. — Não vamos nos matar uns aos outros. Quando enxergarem um lenço colorado, cautela e boa pontaria. Por amor de Deus, não desperdicem tiro!
Aproximou-se da cerca de pedras e olhou para a cidade que queriam conquistar. Casas e muros branquejavam no meio do maciço escuro do arvoredo dos quintais. As torres brancas da Matriz quase se diluíam na palidez do céu, contra o qual se desenhava, dura e sombria como um capacete de aço, a cúpula da Intendência.
Rodrigo sentia o coração pulsar-lhe agora com mais força e rapidez. Uma secura na garganta fazia-o pigarrear com frequência. À medida que o dia clareava, ele ia distinguindo melhor as figuras dos companheiros. Ajoelhado à sua direita, Bento segurava o fuzil. À sua esquerda, o dr. Ruas assobiava baixinho a “Valsa dos patinadores”.